EntreContos

Literatura que desafia.

O Fatídico dia 19 de novembro (Dayvson José)

Olhe para frente e, por via das dúvidas, use o cinto de segurança.”

PARTE I – Um fim de semana comum.

Sexta-Feira em Olinda.
EM ALGUM LUGAR DAQUELA CIDADE era um fim de tarde numa sexta-feira qualquer do mês de Setembro numa não tão fictícia Olinda. Dois amigos, grandes amigos, Henrique e Thiago, amargavam no tédio as rotineiras mesmices de sempre.
Fizeram uma rápida pesquisa de seus poucos recursos financeiros e ambos contaram cerca de vinte reais cada um, fruto do trabalho de Freelancers no dia anterior. Vendo que aquele dinheiro era suficiente para, ao menos, mudar o destino para qual se encaminhava aquela noite, decidiram sair para não amargarem no inútil ócio e desperdiçar aquela noite que já se via chegando após o modesto pôr do sol.
Foram para suas casas e se arrumaram. Às 8 horas estavam ambos no Terminal de Rio Doce, entrando no Princesa Isabel a caminho do Recife Antigo em busca d’um veneno anti-tédio; e em noites preguiçosas de sextas-feiras como era aquela, Olinda, que humilhantemente desempenha um papel de dormitório de Recife, descansa pela semana cansativa de trabalho de seus moradores e isso acarreta numa viajem rápida de Olinda à Recife naquele horário; sem engarrafamentos e com poucas pessoas dentro do ônibus. Entretanto isso, nada mudaria como os dois amigos agiriam nele. Falavam sobre temas diversos, mas sempre acabavam por falarem sobre música e nem perceberam como, em menos de uma hora, já estavam lá.
Em sua jornada contra o tédio, os dois amigos obtiveram êxito.
Encontraram uma boa banda num bom, mas nem tanto, bar; entretanto não entraram e foram para a parte de trás do bar onde se dava para ouvir perfeitamente o show e se vendia bebida por três vezes mais barata que lá dentro. Era uma prática como dentre muitas pessoas, visto que tinha três vezes mais pessoas fora que dentro – se o dono fosse um pouco mais esperto, colocaria alguém com um isopor lá e venderia pela metade do preço que vende dentro, ainda seria caro mas acho que, talvez, ele ganhasse um pouco mais.
E as horas foram se passando. Os dois conversaram e riram e encontraram rostos conhecidos que há muito não viam; mataram saudades e tudo mais. A noite estava salva e eles também, principalmente quase se materializa diante deles a figura de André que veio de algum lugar que os dois desconheciam e que trazia consigo suas pequenas parcelas em gramas de reservas “florestais” e jogaram algum conhecimento corriqueiro que André falava nas suas risadas extravagantes para dentro de seus pulmões.
Mas era chegada a hora de voltar. E apesar de não terem levado muito, eles não haviam gastado todo o dinheiro e o fim de semana só estava começando para eles.
—Espero não estar errado, mas esse fim de semana será bom. Algo acontecerá. O tédio não irá nos vencer. Pelo menos não nesse. -disse Henrique.
—Espero.
—E então, ainda tas tentando pegar aquela mina?
—Meu velho, ta difícil. Ela veio com umas conversas estranhas de namoro sério e eu tive que me sair. -respondeu Thiago.— Tá complicado ter uma trepada com uma menina decente.
—To ligado, por isso digo: As virgens que me perdoem mas prefiro as devassas.
—É, toda vez que tu diz isso sinto o cheiro de AIDS.
—Vá se fuder seu maldito, vá agourar sua mãe.
—Hahaha… Mas isso é fato.
—Foda-se.
—Vamos embora, logo mais passará o Bacurau.
Se despediram dos felás que estavam próximos. Saíram.
Aproximava-se das quatro da manhã da sexta para o sábado e Thiago estava mais bêbado que Henrique, que não estava no ponto certo, mesmo depois de várias cervejas e vinhos e vodka com refrigerante que alguém lhes haviam conseguido. Henrique mal colocou-se a andar e puxou do bolso da bermuda o último Hollywood, todo amassado. Praguejou o fim do cigarro e amassou a carteira vazia e atirou no meio-fio, depois sacou o isqueiro e com duas tentativas acendeu o derradeiro.
Saíram da Tomazina viraram à direita até a Moeda, pararam e olharam um pouco a banda do Sushi Digital. Tocavam versões acústicas de músicas pop de muito mal gosto, lucro apenas – de fato a sexta-feira, nessa época, não era um dia muito bom para ir para a Moeda esperando ouvir algo que lhe agrade, dependendo se seu gosto musical é bom ou ruim. Então Henrique lembrou de uma banda que, há pouco tempo, lhe enchia os olhos e lhe fazia vir sempre à Rua da Moeda: Boêmios de Preto; nunca se permitiu esquecer o nome porque este estava inerente a boas lembranças que tinha; lembranças de poder ouvir poemas de Bukowski, Ginsberg e Kerouac cifrados em caprichosos arranjos enquanto ele podia tentar a sorte de alguma menina que estivesse imersa na mesma “vibe” que ele – e isso não era difícil quando a Boêmios tocava.
Seguiram em caminhada. Henrique parou pra comprar uma carteira de cigarros e Thiago comprou uma garrafa de Carreteiro para a saideira.
Fizeram outra parada frente ao Obelisco e mijaram.
—“Homenagem do povo de Recife à Bíblia” eis minha homenagem a essa merda.
— Isso é no 13 de Maio, cara. Aqui é outra coisa. A Homenagem à Bíblia é no 13!- Corrigiu Thiago.
— Foda-se, é aqui que faço a minha homenagem.
—Tu vai pro inferno, desgraçado.
—Não se preocupe, guardarei um canto perto da lareira pra você.
—Obrigado. Quer que eu escreva teu nome maiúsculo ou minúsculo?
—Vai logo que a merda do Bacurau vai passar.
Mesmo assim, passaram a ponte sem muita pressa. Henrique puxou outro cigarro e desta vez Thiago o acompanhou. Há certo tempo que Henrique não tinha compaixão do seu pulmão, ele não se incomodava. Thiago se encarregou de pôr alguma música pra tocar. Tocou Bob Seger, Turn The Page.
Aproximavam-se do Cais, os ônibus estavam enfileirados esperando bater as quatro da matina pra seguir viagem levando os vagabundos que voltavam da farra. Henrique e Thiago esperavam o cigarro acabar na porta do ônibus, falavam sobre nada de pertinente, só falavam e como sempre sobre música e literatura, era a mesma conversa de sempre. Não sabiam falar de outra coisa. Comentavam do novo cd de uma banda, Henrique não gostara tanto quanto Thiago, o que era raro visto que sempre era o contrário.
Ligou então o motor do ônibus, avisando que faltava pouco pra sair. Um jogou a guimba e o outro puxou o último trago, subiram e rodaram a catraca. Se acomodaram enquanto tocou outra música, New Year’s Eve do Tom Waits.
Três minutos deu-se partida o busão levando os dois amigos e mais um punhado de pessoas embriagadas desfrutando de seus pensamentos ou de conversas entre grupos de duas ou três pessoas e se despedindo da lucidez sem pudor do Recife Antigo numa madrugada comum.
Agora falavam sobre poemas e escritos; Thiago lia um que havia feito semana passada e havia esquecido de mostrar a Henrique, que disse que “era bom” mas que Thiago estava sendo romancista demais, coisa que não agradava aos olhos de Henrique. “Mas se foi a intenção, aí está muito bom” concluiu a critica sobre o escrito de Thiago enquanto Passavam pela prefeitura do Recife quando Henrique começou a falar de sua nova ideia para um livro. Thiago ouvia indiferente e pulava para Old Man do Neil Young.
“É história de dois amigos que trabalhavam na época de Carnaval. Um como maleiro numa pousada e o outro como guia turístico nas ladeiras de Olinda. Até que uma turista sulista se hospedou onde um deles trabalhava, encantando o pobre maleiro que de tão tímido mal conseguia lhe dizer o nome. Mas, como em uma novela, ela também se engraçara por ele e flertava com o coitado com uma malícia experiente. Ela saía para brincar o Carnaval e também para conhecer a Cidade Histórica, e para isso precisava de um guia turístico, então entrava a figura do segundo amigo que o era. E mais uma vez como em novela, os dois começam a se gostar. Uma paixão de Carnaval, menos inocente do que a com o maleiro da pousada. Passou-se alguns dias e o Carnaval ainda não acabara, afinal, não tem fim o Carnaval em Olinda. E o triângulo amoroso estava ainda mais forte, eles sem saberem deles e ela sem saber que eles se conheciam. O maleiro por ela apaixonado, ela até gostando de tê-lo ocasionalmente nos quartos da pousada. E ela pelo guia sempre excitada, e o guia se gabando com o maleiro por ter uma gringa lhe tocando as partes baixas toda noite de Carnaval.
Até que numa das escapadas do Guia e a Turista, acontece uma briga de duas gangues rivais perto de onde eles se tocavam fervorosamente. Tiros são disparados e atinge fatalmente o guia, que morre no local. O maleiro recebe a notícia da morte de seu amigo e corre para verificar, e constata o ocorrido. Perto do corpo, está ela, sua turista chorando a morte do seu amigo e contando ao policial o que aconteceu e escuta toda história. Sabendo que sua turista tinha um caso com seu amigo ele vai até o Carmo, onde tira sua própria vida. Ela retorna a pousada e não volta a encontrar seu outro amante para lhe consolar. Dois dias depois retorna para casa.”
Henrique ainda terminava de contar a história, eufórico, e Thiago fingia que escuta acenando com a cabeça, feito lagartixa, colocando dessa vez Layla do Eric Clapton enquanto passavam pelo Carmo, lugar onde o pobre maleiro tirara sua vida.
—Uma adaptação de Pierrô, Arlequim e Colombina.
Terminou Henrique, com o olhar profundo visivelmente em uma reflexão.
—É incrível como tu ta cada dia mais viado.
Ironizou Thiago.
Fosse qualquer outra pessoa Henrique ficaria muito emputecido, mas, vindo daquele que o acompanhava há anos, sabia que aquilo era um elogio. E no fundo sabia que Thiago não havia prestado total atenção na história, mas ele sabia que era uma boa história e que Thiago tinha razão, estava cada dia mais sentimental. Decidiu que começaria a escrever assim que chegasse em casa, mas também sabia que não o faria.
Então pairou o silêncio e ambos ficaram apenas ouvindo música: Simple Man, do Lynyrd Skynyrd.
Quase cinco e meia da manhã e chegava Henrique em sua casa. Sua mãe estava acordada e ele não sabia se ela estava acordada até agora esperando ele chegar ou se já havia acordado e o esperava.
—Se soubesse tinha dado o dinheiro do pão.
Brincou ela.
— A senhora disse pra chegar cedo, não? Pois então.
Também brincou ele.
Ela se pôs de pé e foi ver o café no fogão. Ele serviu uma xícara também e comeu dois pães. Depois tomou banho, fumou outro cigarro e foi deitar cansado.
Dormiu.
NA MESMA SEXTA-FEIRA EM RECIFE: Antônio Rodrigo era um professor de história que morava na Zona Sul de Recife; mais precisamente no bairro de Boa Viagem. Um bairro nobre, com custo de vida relativamente alto para a maioria das pessoas da sociedade pernambucana. Mas especialmente onde Antônio morava, na muito conhecida Feirinha na Praça de Boa Viagem, o custo de vida passava de relativamente para altamente caro. Mas Antônio não era ruim de vida, não sofria de um dos males que a maioria das pessoas que constituíam a sociedade pernambucana, afinal ele não era como a grande parte da maioria das pessoas, seu pai fora um grande empresário e deixou Antônio com grande conforto.
Era um homem culto, inteligente, requisitado; constantemente solicitado para ministrar palestras com temas dos mais diversos.
Desde este acontecimento, por dois longos anos, Antônio havia se esquecido se seu rosto ainda sabia sorrir; até que num dia de trabalho comum, lhe esbarra pelos corredores da escola a mãe de uma menina de 13 anos que havia sido matriculada nos últimos trinta minutos; e também a nova professora contratada do Colégio Santos Dumont, que é ao lado do que Antônio lecionava, o Brigadeiro Eduardo Gomes. Era Rafaela, uma antiga amiga de colegial por quem Antônio cultivou uma grande paixão, que havia se mudado de volta para Pernambuco depois de morar muitos anos em São Paulo.
Era fim de ano, quase no fim de Dezembro, e se aproximava o Carnaval e todos estavam eufóricos, e como sempre, menos Antônio – mas aquele seria diferente, e isso Antônio descobriu quando Rafaela estava de frente chamado aos antigos e novos amigos à festa; e ela sempre fez questão de se fazer perceber, em enfase, sua vontade da presença de Antônio junto a estirpe. E foi feita a vontade dela; lá estava Antônio nos blocos de rua nas ladeiras de Olinda, em pleno Carnaval. Enquanto essa proeza acontecia os demais amigos percebiam que era questão de tempo, de semanas, para, daqueles dois, surgir um novo amor. E todos estavam com um leve riso de satisfação ao olharem para aquele pobre diabos que era rico só no que diz respeito ao poder aquisitivo.
Como foi dito, foi feito. E namoraram com tanto amor que quem via não conseguia acreditar que poderia existir tanto afeto em beijos e abraços.
Nos louros dos sete meses de um intenso amor entre Rafaela e Antônio, quando já se esquecia do fim de Agosto, a tristeza e a dor beijaram novamente aquele homem, como se nunca tivesse chorado na vida, numa sexta-feira tranquila e normal como outra qualquer. Tal infortúnio da vida deu-se quando Rafaela se dirigia ao Santos Dumont para lecionar Filosofia e, já na sala de aula, dois alunos que carregavam desavenças há semanas por causa de uma menina que, não sendo uma companheira das mais honrosas, flertou com outro adolescente. E sendo a segurança das escolas de Recife, assim como as de outros lugares, falha, um aluno havia entrado na escola com um revólver de calibre 38 com o intuito de resolver tal evento infiel de sua namorada com o outro adolescente. Este que ficou pálido ao cruzar seus olhos entre eles mesmos e se ver cara a cara com a arma e, por instinto, entrou em luta corporal e, afinal, conseguiu tirar dele a mira; que estava agora para a pobre Rafaela; que arregalou os lindos olhos castanhos que era a parte de seu corpo preferida de Antônio e que transbordavam de medo naquele momento. Sua mente só lembrava do rosto de seu querido amado, e seria, por consequência daquele ato cruel do adolescente, a última coisa que pensaria. E não viu sua vida passar frente aos seus amedrontados olhos castanhos porque ela só conseguia ver aquele adolescente que lhe tinha na mira e que atirou.
Rafaela suspirou pela última vez a caminho do Hospital.
Já de noite, chorava em seu apartamento, passou a odiar as sextas-feiras como já estava odiando o fim de semana que estava por vir, especialmente o domingo, pois seria o aniversário de morte de sua família. Seu pai, sua mãe e seu irmão haviam morrido num acidente de carro causado por um homem que dirigia bêbado e pegara de frente o carro de seu pai há cento e vinte quilômetros por hora.
O que Antônio poderia fazer para aquietar um pouco, pelo menos, a dor de seu peito? Não tinha amigos, o mais próximos disso era seus colegas de trabalho com quem as vezes tomava umas cervejas. Achou melhor só tomar mais uma dose do seu scott e ir dormir. Dormiu.

Nos telejornais afirmou-se que era SÁBADO.
NESSE SÁBADO EM OLINDA aquela tarde em Rio Doce estava ressacada especialmente para Henrique(e Antônio, só que nesse caso de forma extremamente oposta), mas também para todas as outras pessoas. Abriu os olhos e levantou, apenas ele e seu irmão estavam em casa e este ouvia Los Hermanos. “Uma ótima maneira de acordar em pleno meio dia” pensou Henrique. Levantou e foi à cozinha. Tomou quatro copos de água e beliscou o galeto assado em cima da pia. Deu um tapa de leve desejando bom dia a Mateus.
— Cadê mainha?
— Foi na Paraíba.
— Ah, beleza.
Havia pedaços de cascas de laranja no chão. Uma metade chupada no braço do sofá e Mateus chupava a outra metade.
— Dizem que um cachorro chupando manga é feio. Mas dizem isso porque nunca te viram chupando uma laranja.
Nesse mesmo momento em que brincou Henrique, no telejornal, que curiosamente Mateus assistia, noticiava a morte de Rafaela no telejornal e indiferente Henrique escuta a triste notícia.
Volta ao quarto, ascende um cigarro e olha no celular. “2 mensagens recebidas” lia-se no visor. Uma delas informava que ele havia ganhado 10.000 reais e um carro pela sua última recarga, “olha como estou com sorte” riu sozinho. A outra mensagem era quase uma convocação: “Esteja aqui em casa: Tu, Mateus e Thiago. Às 6 da noite. Tem álcool e fumo”. Era Humberto, outro da estirpe. Henrique liga para Thiago, que por surpresa estava acordado e ao ser comunicado sobre a mensagem logo concordou. E Henrique soube naquele momento que a noite não estava perdida. Seria outra de entorpecentes e poesia. Ergueu-se da cadeira e foi à sala, fazendo escala no banheiro na hora em que passava de Los Hermanos para Esteban Tavares.

Era cinco e quarenta da noite. Thiago, com seu violão, chegava debaixo do prédio de Henrique, que o esperava com Mateus. Juntaram-se e seguiram como se em campanha. Pararam no mercado, compraram cigarros e voltaram a caminhar. Às sete da noite chegaram os três numa pontualidade britânica. Gritaram e Humberto apareceu jogando as chaves. Subiram.
De prontidão estavam Wagner, Samuel, André, Humberto, Dois Bacardis, Duas Coca-Cola e 25 gramas.
— Meu pai amado, perdoe-me por me deixar se levar pro mau caminho por esses incrédulos. – disse Mateus.
— Haha… Não levamos ninguém pro mau caminho, só procuramos companhia pra seguir os nossos! – disse Humberto.
— Isso foi bem gay. – disse Henrique, não perdendo tempo e já se servindo.
— Foda-se. – Wagner finalizou as boas vindas.
Todos se sentaram. Uns na cama, outros em cadeiras e Henrique e Mateus no chão, mas todos acomodados. Havia cinzeiros estrategicamente espalhados pelo vão do quarto, livros amontoados, cartuchos de Nitendo 64, uns HD’s, mangás e posters. André não prestava muita atenção na conversa sobre coisas avulsas, pois trabalhava concentradamente num baseado. Henrique aterrissava o copo no chão e puxava dois cigarros, um pra ele e outro para Humberto que estendia a mão para Henrique mas não deixou de ler o seu novo poema. Thiago também pediu um e, diferente de Humberto, teve que parar a música que tocava com seu violão para acender o careta. Sorte de todos que Wagner havia guardado duas carteiras de Marlboro na mochila, mais uma extra que Henrique havia comprado já prevendo a demanda, presumia-se que haveria fumo pelo resto do “encontro cultural” e isso sem contar com a 25 gramas menos o baseado que André preparava. Mateus e Samuel comentavam sobre On The Road e Big Sur.
Em meia garrafa de um dos Bacardi, Thiago comentou sobre uma ideia que havia tido poucas horas antes: uma associação poética, já que todos naquele quarto eram, por assim dizer e por faltar melhores nomenclaturas, poetas. O intuito seria somar seus escritos mais os dos demais e assim iniciar uma jornada para conseguir maior alcance de leitores. Levar os escritos de cada um a leitores que não conheciam os seus trabalhos. Humberto fez mais uma proposta ao grupo: Uma editora independente. Fazer tiragens de livretos de todos ali presente.
Ambas as ideias foram muito bem-aceitas por todos, mas rapidamente mudou-se o foco, pois André havia terminado.
No momento exato que Wagner fechava a primeira garrafa de Bacardi, que chegava quase ao seu fim, uma igreja pelas ladeiras de Olinda batia o sino. Era sete horas. Thiago teve uma ideia, que só poderia vir dele, de sair para andar. Foi aceita e saíram os sete.
Caminhavam frente ao prédio de Henrique quando o comboio encontra mais dois: Neto e Fx. Ambos estavam a procura de algo pra fazer até chegar a hora em que iriam a um luau no Zé Pequeno. E agora em nove, continuaram caminhando sem saber ao certo onde ir e por não saber onde ir, acabaram decidindo fazer uma parada na Vila Olímpica para mais um arremesso de conhecimento para os pulmões e outra vez André punha, literalmente, a mão na massa. A essa altura, já havia sido aberta a segunda garrafa de Bacardi.
Ali permaneceram por algum tempo. Estava mais ou menos movimentado. Algumas pessoas, parte jovens, parte velhas, faziam exercícios, caminhavam e corriam. Faziam o que o grupo de Henrique não fazia, perder o tempo pra viver algumas loucuras.
A iluminação era pouca onde eles estavam, o que era muito bom para o que eles faziam. Em compensação o céu estava bonito. Havia estrelas e a lua estava vaidosa naquela noite. Outros grupos também partilhavam do lugar.
Thiago puxou mais uma vez seu violão. Todos que conheciam as músicas que ele tocava cantavam quando possível, por causa da obra-prima que André havia concebido. Henrique e Humberto se ocuparam em tentar fazer uns poemas mas não estava saindo muita coisa aproveitável. Desistiram e voltaram a cantar junto aos demais.
Tudo estava calmo, até que quietude daquela roda de maconha foi interrompida, mas não por policiais. Eram quatro rabos gigantescos que passaram rindo. Os nove não se contentaram em apenas olhar, sentiram-se na obrigação de gritar, assobiar, chamá-las. Elas não vieram, mas olharam pra trás. Foi quando Samuel pediu para elas esperarem. Se moveu dando a entender que iria até elas, Henrique percebeu e o incentivou, além de acompanhá-lo. Humberto os seguiu, mesmo sendo incrivelmente tímido.
—A gente queria saber se vocês gostariam de beber um pouco com a gente. – disse Samuel.
—Não podemos, estamos atrasadas.
Falou uma delas no momento que outra começou a andar mais rápido.
—Teu nome é Rodrigo?
A que permaneceu com a primeira perguntou a Henrique.
—Se isso lhe ajudar a ficar, eu serei.
Com certeza essa foi a pior cantada que ela havia escutado. Mas ela riu.
—Qual seu nome?. -perguntou Samuel à primeira.
— Wanessa!
—E o dela?. – perguntou novamente.
—Amanda!
—AMANDA PORRA, VEM CÁ.
Gritou Henrique.
Mais atrás, Humberto estava parado, com cara de puta e sem saber o que fazer.
Amanda retornou.
—Realmente, não podemos ficar.
Falou Wanessa
—Me passa teu número?
Insistiu Samuel.
—Passo sim.
Samuel pegou o número de Wanessa, Henrique o de Clara, a segunda. E Humberto não pegou o de Amanda.
Quando elas se viraram Samuel puxou Wanessa pelo braço e tacou-lhe um beijo. Durou cinco minutos depois despediram-se. Humberto e Henrique já estavam os com outros.
—Dale Samupinho.
— Ainda aquela do Carnaval?
— Claro.
—Que história do Carnaval? -perguntou Henrique
—Samuel bancou o pegador no Carnaval. Pegou várias. De brinde pegou sapinho também.
—Samupinho é Samuel mais Sapinho?
—Sim.
Riram todos e constataram que André caprichou no baseado.
O telefone de Neto tocou. Estavam chamando pro luau. Neto convidou a todos, e foi aceito. Mas decidiram esperar um pouco mais. Até parte do efeito passar.
A Vila continuava movimentada, mas agora mudava um pouco os frequentadores. Já tinha mais uma grande quantidade de pessoas que estavam ali para perder o tempo de se viver fazendo exercícios físicos. Em sua maioria agora era jovens que faziam coisas diversas, como por exemplo: conversar, trair seus companheiros ou companheiras, fumar maconha ou tocar violão.
Henrique sacou mais três cigarros, um pra ele, outro pra Humberto e mais um pra Thiago. Wagner puxou um de sua carteira e deu um pra Samuel e Neto pediu um também.
Começaram a se organizar para ir ao luau. Thiago guardou seu violão. Henrique serviu mais um copo. Humberto fechou sua mochila. André arrotou. Neto e Fx estavam de pé. Samuel se levantou e Wagner pôs sua mochila nas costas deu um passo pra trás e pisou com seus quase cento e cinquenta quilos na unha encravada de Mateus, e Mateus gritou. Todos riram da cena, menos Mateus. Aquela unha cravada era um inferno. O acompanhava há cerca de dois anos. Henrique então recordou do que seu tio, Walter, que era caminhoneiro, havia falado certo dia: “Unha cravada significa que você tem um problema que ainda não resolveu.” Henrique tinha achado aquilo um tanto poético quanto crendice de interior. Mas no geral, achou aquilo bonito.
E Mateus ainda reclamava de dor quando chegaram à parada de ônibus. E permaneceu reclamando durante os trinta minutos que se passou até o busão chegar.
E o ônibus chegou. Todos se organizaram e se puseram para dentro dele na mesma hora em que o motorista, com certeza, deve ter se arrependido de ter parado pois sabia que, por estarem bêbados, fariam muito barulho e sabendo também que, por estarem bêbados, não desceriam nem tão cedo. Pois, por estarem bêbados e animados daquele jeito, se fossem para perto, iriam andando. Bêbado adora caminhar em grupo e cantando. Dito e feito, mal rodaram a catraca foram ao fim do ônibus e lá começaram a cantar. Havia algumas poucas pessoas mas mais a frente entraram mais.
Eis que surge a insana ideia e Thiago (o que não é nenhuma novidade, como já foi dito) de pedir dinheiro dentro do veículo então saca o violão sem questionar se os demais concordariam, mas não precisava, ele sabia que eles o fariam.
Henrique que era o único de boné e não estava sentado logo se tira o boné de sua cabeça e começa a pedir dinheiro achando que a ideia de Thiago era brincadeira. E era, até o questionamento de Henrique. Depois dele passou a ser sério e Henrique bebeu da fonte de insanidade de Thiago e se moveu. Saiu do fim do veículo até a catraca com o boné na mão, mas ainda sem pedir.
O cobrador balançou a cabeça em negativo.
– Boa noite pessoal. – Henrique tentava imitar os vendedores de busão aleatórios que conhecia. – Meu nome é Henrique, sou membro de uma banda de Rock que pretende gravar seu primeiro cd e tenta arrecadar parte do dinheiro nos coletivos.
Era verdade, ele não mentia. Henrique satirizava sua própria situação.
Não houve reação, pelo menos positiva, das pessoas dentro do ônibus. Até que Thiago genuinamente começou a tocar O Conde & Só Brega. E as meninas, que estavam duas cadeiras a frente dos demais da estirpe, riram e começaram a olhar pra Henrique. Samupinho percebeu e levantou-se, foi fazer companhia a Henrique. Saíram de cadeira em cadeira pedindo alguns trocados e, chegando nas meninas, demoraram mais do que as outras. Thiago tocou algumas músicas ruins aleatórias, tipo MC Sheldon e afins. Elas gostaram e riram em coro. Um senhora cadeira atrás delas não percebeu que era brincadeira deles e sacou dois reais, Henrique percebeu, fez festa e foi buscar. Era definitivamente todo o dinheiro que eles haviam ganhado com música, mesmo tendo quase três anos de estrada musical.
Depois de pego os dois reais da senhora, Henrique voltou perto de Samupinho, que perguntava às meninas o que elas achavam melhor: o carnaval de Olina ou de Salvador (eles haviam inventado uma mentira: dizendo que eram de Salvador e que estavam em Olinda para fazer alguns shows) e ficou eufórico ao ouvir que uma delas disse que Olinda era melhor, claro. Era mais quente (ela havia falado com todo o duplo sentido possível nesse sentido.).
– Quente como?
Maliciosamente perguntou Samupinho.
– Quente de bom
Respondeu uma.
– A mulher pernambucana é mais “caliente”.
Falou outra.
Todos ali discordaram, sabiam que as mulheres Olindenses, fora do carnaval, viravam grandes poços de chatisses ambulantes. Daquelas que nenhum homem poderia olhar pra elas e elas se achavam gostosas demais para merecer que aquele “traste” (fosse qualquer um, de Caio Castro a Wagner) a olhasse com tamanha ousadia, que talvez nem houvesse tanta, que elas descreveriam como um a tentativa de estupro.
– Poderia nos mostrar como?
Honrando o posto de Rambo, perguntou Samupinho.
– Não.
Uma respondeu, mas mais dizendo sim que não.
Se aproximava a parada que eles desceriam. Enrolaram as meninas e se prepararam pra descer. Todos com os dois reais e os telefones das meninas que foram conseguidos.
Agora latejava pouco o “problema mal resolvido” de Mateus em que Wagner pisava com toda sua força sobre o chão puxada pela gravidade enquanto os nove desciam e seguiam à orla e instantaneamente avistam um grande grupo na areia, se aproximam e se enturmam. Não faltava animação mas o que sobrava mesmo era a esquisitice de todas aquelas pessoas – certamente era a mesma gente esquisita da festa que Eduardo e Mônica foram quando acreditaram no amigo do cursinho.
Todos estavam gritando, mexendo seus corpos e usando drogas das mais diversas. Neto e Fx rapidamente se dispersaram dos demais, e os demais ficaram por ali mesmo, meio deslocados. Até a chegada de outra quase meia dúzia de pessoas, não menos esquisitas, mas que aparentavam ser mais legais principalmente por terem interesses em comuns. Era Carlos, Cris, Rebeca, João e Felipe.
Felipe tinha um namoro bem estranho com Rebeca, que tinha um corpo que deixou todos da estirpe de Henrique de olhos, mãos e instintos bem famintos. Felipe era primo de Carlos que era ex namorado de Cris. João semeava uma paixão por Carlos.
Eles também se dedicavam à poesia, elas apenas em beber. E foi assim que saiu delas a ideia de se juntar a Henrique e sua estirpe.
O “amor” de Felipe e Rebeca não mostrou aos novos amigos nenhum motivo aceitável para aquele namoro acontecer, não pararam de discutir desde o momento em que se aproximaram e perguntaram se poderiam se juntar. Brigas por miudezas. Carlos não durou meia hora com os demais, logo se saiu para outro lugar qualquer deixando Cris e João a sua procura o tempo todo. Cris e Carlos haviam terminado fazia apenas alguns dias.
Reapareceu então as figuras de Neto e Fx, que traziam com imensos sorrisos alguns baseados já prontos. Todos se aproximaram mais e fumaram, menos Felipe que não achava que era uma boa ideia e pediu para que Rebeca também não o fizesse, o que não aconteceu. Outra briga. Nesta Felipe se levantou em salto jogando areia nos pés de alguns e saiu em passos largos até uns trinta metros de distância, Rebeca deu mais dois tragos e o seguiu. Via-se gestos raivosos da parte de Felipe e gestos de negação da parte dela.
A atenção de todos transferiu-se do casal e foi para Cris, que já estava muito doida e começou a falar de sua tristeza com o fim do namoro com Carlos.
– Não entendo o que houve de errado, eu nunca fiz nada. Pelo contrário, sempre me dediquei ao máximo.
Ela falou já com lágrimas nos olhos.
— Os homens são estranhos, aconselho a não ficar assim tão mal.
Falou Humberto para não falar nada.
— Falar é muito fácil
— Com toda certeza, é mais fácil sim.
— Foi seu primeiro namoro?
Perguntou Henrique.
— O segundo.
— Ah, não se preocupe tanto. Ainda terá outros.
— Vocês parecem psicólogos de merda falando essas frases clichês sobre amor e fim de namoro.
Ela falou.
— Não nos xingue assim.
Humberto brincou. Mas ela não aceitou a brincadeira.
E Henrique não se apiedou dela
– Um clichê tão bom quanto gasto “Vai passar.” Não, não vai passar. Vai permanecer, vai piorar. Não é uma fase. É uma constante. A dor e o sofrimento são os verdadeiros companheiros fiéis e o amor não é tão presente quanto esses. Do que você reclama? Um namoro acabou? Seu cachorro morreu? Minhas condolências, mas me permita e me desculpe a pergunta “E daí?” Quando vamos parar de achar que somos imortais? Que o “pra sempre” não tem fim? Ah, mas parem também com essa merda de discurso de “eu não acredito no amor” “Não existe pra sempre”. Esse clichê é tão pior quanto o primeiro. Tenho raiva desde já se acharem que eu estou sendo hipócrita – ele se antecipou. Ponha em sua cabeça: O amor existe, só não essa coisa perfeitinha que se acha por ai. O amor é egoísta, tanto é que quando perdemos uma pessoa dizemos “EU QUERO de volta”… percebeu o egoismo? EU QUERO. O amor nasce, e não morre. Não passa. Não amamos só uma pessoa. Mas não podemos confundir amor com paixão ou fogo. E por fim, lembre-se de nunca, eu disse NUNCA, esquecerem seu passado, ou estará condenada a repeti-lo; mas não confunda, isso nada tem a ver com revivê-lo. Deem vida a uma experiência a partir dos erros. Não gosta de lembrar? Problema seu…
A conversa logo ficou com uma atmosfera chata. Rapidamente mudaram de assunto e deixaram Cris sofrer só. Bem em tempo que Rebeca voltou sozinha da DR. Felipe tinha ido ficar com uns amigos em outro grupo mais distante deles. Henrique comia Rebeca apenas com o olhar e ela já havia percebido bem antes de sair para falar com Felipe. Bem como percebeu também que não era apenas ele, a diferença é que ele não se preocupava em ser discreto.
E seguiram falando sobre coisas avulsas e estavam, igualmente a Cris, muito doidos e aproveitando que falavam de coisas que tinham a ver com literatura e poesia, começaram a falar de seus escritos. Rebeca pouco escrevia, quase nada, mas adorava ler os escritos dos outros. Cris estava numa fase “muito pra lá de Maysa Matarazzo” e João abordava temas homoafetivos como Allen Ginsberg, exemplo que ele mesmo sempre usava, mas estava muito longe de ter alguma semelhança com seus escritos.
Nessa altura havia o feedback de Rebeca para com Henrique, que agora tentava seduzi-la com seus poemas, e, aparentemente, estava conseguindo, visto que, em todo cigarro que ela fumava ela se inclinava a Henrique para ele acender.
– Tem fogo?
Ela perguntou em alto e bom som olhando para ele e exclusivamente para ver o que ele faria e falaria.
– Tem fogo e tem isqueiro.
Ele respondeu sem tirar os olhos dos dela e sacando o isqueiro do bolso.
João e Cris já sabiam que Rebeca nunca fora fiel a Felipe. Bem como sabiam que Felipe era um chato. E além do mais, ambos adoraram a companhia daqueles desconhecidos e deram apoio à Rebeca para sua nova investida infiel.
Ela também elogiava mais os poemas de Henrique que os de qualquer outro
Rebeca e Henrique continuavam seduzindo um ao outro. Até que Henrique deu sua cartada final para conseguir aquela fêmea que se tornara a missão da noite. Pediu a palavra a Thiago que terminara de recitar e a Humberto que seria o próximo e recitou um de seus poemas. Ergueu-se. Tirou o cigarro da boca. Baforou e iniciou …
” Sobre Uma Mulher Ca(n)sada

Estás com teu homem.
Eu não sei teu nome
E tu não sabes o meu, eu acho.

Passo com meus fardos
E tu me olha distante
Com olhos azuis de diluvio, cansados.

O que esperas conseguir
Flertando assim, amistosamente?
Posso me sentir uma ameaça?

E se teu homem ver?
Tome cuidado, tenho uma queda por arruaça

Mulher, porque me olhas?
Há algo em mim?
O que não tens que queres que te dê
Afinal?
Não importa
Despiste-o
Mande-me um sinal”
Rebeca sentiu-se molhada e imensamente tentada pelo adultério. Tinha que dispensar Felipe para que sua vontade fosse feita. Pensou como, mas nem precisou muito. Felipe chegou próximo a ela logo após Henrique se sentar e a puxou pelo braço. Ela fez cena dizendo que tinha machucado. Ele negou, mas ela falou ainda mais alto. Brigaram feio, mais uma vez.
Felipe ficou enfurecido e disse que iria embora, foi o que fez. Subiu até a orla, pôs o capacete e arrancou na moto.
Rebeca e Henrique agradeceram.
Mas ela sabia que não poderia consumar sua vontade e se jogar nos braços de Henrique naquele local. Aproveitando-se que Neto e Fx não estavam mais em sua presença (pois eles também eram próximos de Felipe) ela comandou a retirada dali. Seguiram para quatro quarteirões depois, até o edifício Samsara, onde morava uma amiga sua que na noite passada havia lhe convidado para uma festa que aconteceria naquele momento, mas teve que dizer não pois já havia marcado de ir para o luau que estava há pouco tempo. Júlia, a anfitriã da festa, não se incomodou nem um pouco com Henrique e sua turma que chegara com Cris, João e Rebeca, pois esta última já havia lhe falado o motivo de ter deixado o luau.
Júlia tinha o mesmo pensamento que João e Cris a respeito da infidelidade de Rebeca, principalmente quando começou a conversar com os sete rapazes que chegaram com Cris, Rebeca e João.
Quando os relógios que seguem o horário de Brasília marcaram três e meia da manhã do sábado para o domingo, muitos dos convidados de Júlia já haviam indo embora, por fim se foram alguns mais; ficando apenas Júlia, Cris, João, Rebeca e mais quatros amigos de Júlia, fora Henrique e sua estirpe. Dos quatro conhecidos de Júlia que restaram, três eram mulheres. O que resultou numa soma quase perfeita para casais.
Henrique já estava com Rebeca num dos quartos, já estavam sem roupas e suspiravam nos ouvidos. Thiago e sua anfitriã trocaram olhares rápidos, só não mais rápidos que suas próprias mãos para se despir. Humberto se pôs a ajudar Cris a esquecer Carlos, quase sem nenhum amor que ela precisava para isso, mas isso nada tem a ver com falta de carinho dele para com ela. Samupinho se viu sendo fitado por Ana e Rafaela; este foi o que se deu melhor. E por fim, André, que bolava outro baseado para ele e Maria; pois ela havia lhe dito que amava transar muito doida.
Sem pares ficaram João, que era gay, Wagner que tinha sido muito lento por ser tímido, Mateus, que nada fez a não ser conversar com João e reclamar que sua unha cravada ainda lhe incomodava, o que foi um motivo para Wagner entrar na conversa dos dois, pois eles três estavam num lugar onde havia muitas outras pessoas, mas essas estavam um tanto quanto ocupadas. Também restava Rodolfo, mas este estava apagado num canto da sala.
Não demorou muito, quando mais ou menos às quase seis da manhã, todos tinham seguido o exemplo de Rodolfo e ninguém dali acordou antes do meio dia do domingo.
NO SÁBADO E NO DOMINGO MAIS TRISTE DE SUA VIDA, não muito diferente de Mateus, só que pior, reclamava da dor Antônio que continuava se afogando em seus Whiskys.
É fato que uma mulher sabe fuder a vida de um homem quando se vai, de uma forma ou de outra.
Num dos sábados mais tristes de sua vida seguiu com seus colegas, amigos e família de Rafaela e mais seis homens que carregavam um caixão e dentro, sua amada. Assim como a estirpe de Henrique, eram sete. O cortejo seguia para o cemitério, disso Antônio bem sabia, só não sabia o que enterraria, se sua amada ou se seu coração. As mesmas seis horas do encontro cultural de Henrique e sua estirpe, Antônio viu Rafaela ser coberta por flores, por lágrimas, que metade foram suas e, por fim, por terra. Estava odiando do fundo de sua alma e coração aquele 11 de Setembro. E não, não tinha nada a ver com o atentado terrorista.
” Foda-se o atentado” pensava Antônio. Voltou ao seu apartamento e bebeu como nunca em sua vida.
Voltando para casa sentindo todas suas dores lhe rasgando o peito e ao mesmo tempo decidiu que não suportaria ficar em casa, mas pra onde iria? Teve uma rápida lembrança de sua adolescência que passava todos os finais de semana bebendo no Marco Zero. Lembrou que não sentia dor naquele tempo.
Antônio ainda se afogava nas mágoas mais de três vezes destiladas.
Quando simultaneamente os relógios de Humberto e de Antônio, marcaram quatro da tarde. Humberto, Henrique e o resto de sua estirpe ainda estavam na casa de Júlia. Voltavam do segundo round para beber e conversar, melhor dizendo, para se conhecerem além de seus nomes.
Antônio, que só tinha sua dor e solidão como companheiras, havia dormido no seu sofá. Mesmo depois de ter dormido ainda estava muito bêbado.
Acordou, fazia tempo que não bebia daquele jeito e que acordava as quatro da tarde depois de uma bebedeira. A ressaca lhe matava, mas era o de menos naquele momento. Não comeu. Voltou a beber.
Antônio ainda pensava no Recife Antigo como um lugar que frequentou por muitos anos, anos que ele não sentia tanta dor como no presente momento. Sim, ele estava querendo ir para o Recife Antigo. Pensou em chamar os seus antigos companheiros de noitadas mas achou que não seria uma boa ideia, eles perguntariam sobre sua vida e sua vida era tudo que Antônio queria esquecer. Decidiu que iria só. Perguntou se, no estado em que estava não seria melhor ficar em casa, respondeu que não. Não queria ficar só em seu apartamento. Temia que suas dores se aliassem às suas paredes e juntas tentassem lhe sufocar, lhe esmagar. Decidiu que voltaria ao Recife Antigo depois de tantos anos e depois de tantos anos visitaria as lembranças de sua adolescência, e iria só.
Agora o relógio marcava cinco da tarde
Com dificuldade, ergueu-se. Alcançou sua carteira e ficou alguns segundos olhando a chave de seu carro. Estava decidindo se pegaria um táxi ou se optaria por uma atitude quase suicida de, no estado de embriagues que se encontrava, dirigir até lá. É fácil de deduzir que ele não se importaria se batesse de frente num poste ou num caminhão, e então acabasse assim como sua família. Na verdade, é bem fácil de deduzir que ele realmente esperava por isso. Que não queria manchar o Recife Antigo, templo de suas melhores memórias, com suas tristezas atuais. Preferiria morrer a caminho de lá e acabar com sua dor e no máximo, já morto, ir, em espírito, até lá para se despedir e então esperar para saber se iria para o céu ou inferno.
Decidiu-se por fim e pegou a chave do carro, que a sorte decidisse seu destino; sua vida ou sua morte. A mesma sorte (ou azar) que lhe havia colocado naquela situação. Saiu chorando.
Entrou no carro com dificuldade, ligou-o e saiu. O porteiro de seu prédio nem se importou.
Não pôs nenhum cd, ligou a rádio. Na Kiss FM. Led Zeppelin tocava pra acabar de lhe foder mais ainda. E foi sem saber se voltava. Ele sabia que uma tragédia aconteceria.

***

Algumas horas antes de Antônio sair, quando despertaram, todos os casais formados naquela noite intensa, pareceriam ser casais há muito tempo e pareciam também que viviam juntos, por não ter nenhuma vergonha de aparecer na frente de pessoas, que haviam conhecido há menos de vinte e quatro horas, de roupas íntimas.
Júlia era um doce de pessoa. Quando todos comiam alguma coisa, ela convidou todos para irem num show de uma banda de um amigo seu que aconteceria no Recife Antigo. Todos aceitaram imediatamente.
Depois de terminarem de comer, os casais voltaram a seus quartos para um segundo round, mas só depois de mais umas doses e tragos em baseados.
– No ritmo desse final de semana, alguma tragédia vai acontecer.
Falou Mateus com uma face serena como quem tem uma profecia.
– É claro que vai, Júlia vai me matar.
Ironizou Thiago
Às cinco e meia da tarde, Henrique e companhia estavam na parada de ônibus a caminho do Recife Antigo. Todos estavam lá, menos Rodolfo. E Rafaela que, antes tinha dado bola para Samuel agora estava de olho em Mateus, já que Ana parecia ter agradado mais a ele do que ela. Quando subiram no ônibus mais uma vez era visível a decepção na face do motorista e do cobrador de ônibus. Todos estavam limpos e cheirosos, ainda que com as mesmas roupas do outro dia, mas não menos bêbados. Só pararam de beber para dormir ou quando estavam ocupados com os corpos alheios.
As investidas de Rafaela com Mateus ficavam mais nítidas com o passar do tempo. Todos já davam a maior força para eles. E a pressão sob ele, principalmente, aumentava.
Com toda a festa que eles fizeram dentro do busão a viagem durou menos que o de costume, não se sabe porque eles estavam entretidos ou se porque o motorista, na verdade, pisara mais fundo no acelerador para chegar mais rápido.
– Cobrador, a que ponto chegamos.
Repetiam em coro e gargalhadas.
Faltavam dez minutos para bater as sete horas e eles chegaram. O motorista seguiu viagem mais tranquilo e eles foram para a rua da moeda que Henrique e Thiago estiveram dois dias atrás, eles lembraram disso e comentaram com os demais sobre as versões acústicas de músicas pop de muito mal gosto que tocavam no Sushi Digital.
***
Quase por milagre, Antônio chegou vivo no Recife Antigo, às seis e meia da noite, quase que igual a Henrique e companhia. Estacionou seu carro frente a Igreja da Madre de Deus, ao lado do Paço Alfandega. Apertou o controle em seu chaveiro e os faróis do carro piscaram, ligava o alarme e automaticamente os vidros subiam.
Perto de onde ele deixou seu carro, mais para a direita, havia um grupo de seis jovens sentados e conversando. Antônio caminhou um pouco mais para perto e identificou formas que denotavam instrumentos musicais e pelos movimentos que os jovens faziam com suas cabeças e como pediam silêncio aos demais Antônio percebeu que estavam afinando-os.
Antônio estava se sentindo perdido. Sem saber o que fazer. Tinha a sensação que estava velho demais para estar ali. Via e ouvia e sentia inveja das gargalhadas dos jovens. Depois de pensar muito a respeito e ainda muito hesitante, Antônio se dirigiu a eles para saber se haveria algo pra fazer naquela triste e sombria noite de domingo. Mas a última coisa que Antônio queria era estabelecer um dialogo demorado com alguém.
Antônio falava inglês fluentemente, e por não querer estabelecer nenhum dialogo demorado, decidiu usá-lo para obter alguma informação sobre qualquer evento ou algo semelhante que estivesse acontecendo naquela noite. Algo que pudesse, pelo menos tentar, se distrair. Fingiu ser turista com os jovens.
– Haverá algum show, festa ou alguma coisa do tipo hoje. Uma prévia de algum bloco.
Perguntou Antônio, ao grupo de jovens, falando em português forçando um sotaque britânico e dando algumas pausas como quem procuraria as palavras certas no novo idioma.
O grupo de jovens, fazia parte de uma banda que faria naquela noite sua primeira apresentação. E os jovens, de oportunistas que eram, se olharam e responderam rapidamente.
– Haverá sim. Falou um dos jovens
– Sim, sim. Falou outro
– Nosso primeiro show. Falou um terceiro.
Pararam todos, apenas para apenas um falar e não confundir e espantar o estrangeiro.
– Haverá sim, será nossa primeira apresentação. Gostaria de ir? Perguntou um dos jovens.
– Excuse me?
Perguntou Antônio fingindo não ter entendido par enfatizar sua falsa nacionalidade
– Our first performance is tonight . you want to go?. Perguntou um dos jovens arriscando o inglês.
Antonio aceitou o convite com um leve aceno de cabeça.
– Whats your name? Perguntaram – Anthony. Respondeu Antonio, temendo que alguém falasse inglês e iniciasse o tão temido dialogo demorado que ele não queria ter. – where are you from?
– London
– Oh, You also loves the beatles?
– Yes
O jovem continuaria o dialogo se não fosse seu telefone que tocara, para o alívio de Antônio. Era o outro integrante da banda que não estava com eles, apressando-os, pois faltava pouco para a hora da tão esperada hora de show. Seguiram os sete para o local do show, os jovens e Antônio. Idiot Savant era o nome da banda.
Antônio não sabia bem o que estava fazendo. Tudo estava muito incoerente. Estava numa situação em que nunca se imaginou.
Enquanto Henrique e os demais vagavam pelas ruas até que chegasse a hora do show da banda dos amigos de Júlia, que seria as nove da noite mas por não terem muito que fazerem até lá, decidiram ir mais cedo para o local do show. Era um bar pequeno, o nome era Sede; o antigo bar dos Abutres.
Quando chegaram, a Idiot Savant já estava passando o som para começar a tocar.
Num canto mais escondido do bar estava Antônio, ancorado no balcão com uma garrafa pequena de Carreteiro. Henrique e sua turma estavam sob o mesmo teto que Antônio. Dois estados de espíritos totalmente diferentes: Henrique, Thiago, Humberto, Mateus, Wagner, Samuel, André, Júlia, Rebeca, Cris, João, Maria, Ana e Rafaela felizes; e Antônio despedaçado sentimentalmente. Na verdade, Antônio era o único que não estava bem naquele lugar. Os membros da Idiot Savant e de outras bandas que já haviam tocado ou que tocariam, estavam felizes. As pessoas que foram para prestigiar as bandas, estavam felizes. Antônio percebeu este fato e isso nada lhe ajudou. Tomou um gole maior que todos os outros e lá se foi a primeira garrafa de Carreteiro e imediatamente gritou por outra.

NO DOMINGO NO RECIFE ANTIGO enfim o show começou.
Era típico de uma banda de garagem ter tanta energia e frases efeito. Antônio lembrou que teve uma banda quando frequentava o Recife Antigo na sua adolescência, Os Indomáveis era o nome. Faltava apenas duas músicas para o fim do concerto, e o vocalista pediu a atenção de todos, enquanto os outros acertavam alguns pontos no equipamento.
– Com essa música explicaremos o porque temos o melhor carnaval do mundo.
Falou o vocalista.
Antônio reagiu indiferente, enquanto bebia o Carreteiro.
“Portas fechadas
Na chegada do forasteiro
Confesse amigo
O crime que te trouxe aqui
Eu sei existem
Lugares bem piores
Mas nenhum outro
É tão triste assim
A cada metro quadrado
Há vários corações partidos
Passos em falso
Levam tantos a cair
Tanta gente
Fingindo alegrias
Por isso que o melhor
Carnaval é aqui
Esqueça os seus amores
Mas antes
Conte as suas dores
Vamos, puxe uma cadeira
Se sua tristeza for
Tão grande quanto essa ladeira
Seja bem-vindo
Ao clube da melancolia popular brasileira”
Antônio estava parado como uma estátua, engoliu seco o vazio que tomava conta de sua boca. Aquela letra que feriu como uma faca amolada que rasgava lentamente seu peito. Pediu um cigarro a um cara que nunca havia visto na vida, fazia tempo que não fumava. Ainda sabia tragar? Sabia.
Mal acabou a música e eles começaram outra.
“Esses jovens
Sempre tão perdidos
Que as vezes acho
Tão parecidos comigo
Os hormônios
Sempre gritando
Pregando alto
Que o show
Tem que continuar
Juntando as moedas
Pra comprar a coragem
Pra comprar o colete
A prova de bala
Que ajuda a suportar
Não há motivos
Para a noite acabar
Mas o dia insiste
Em nascer
O show tem que
Continuar
Deixa o Bacurau
Pra lá
Porque só quero
Estar com você
Estão cantando por nós
Os amplificadores
De uma banda de garagem
Em qualquer lugar
Os holofotes iluminam
Os nossos passos
Mostrando por onde
Caminhar
Enquanto você estiver por mim
O mundo não será assim,
Como dizem, tão ruim
Não há motivos
Para a noite acabar
Mas o dia insiste
Em nascer
O show tem que
Continuar
Deixa o Bacurau
Pra lá
Porque só quero
Estar com você
Fica comigo agora
Que não tenho mais ninguém
Logo vai amanhecer
E você estará só também
Fica comigo agora
Não temos tempo pra desperdiçar
Ainda é de noite
O show tem que continuar.”
Depois do fim dessa segunda música, que era a última, Antônio estava inerte mas conseguiu forças para tomar num gole a primeira metade da garrafa.
O baixista, de codinome Paco, se apresentou como compositor das duas músicas e falou…
– Todos nós sofremos por algo. Alguns mais, outros menos. Um dia, ouvi um cantor dizer: “Todos iguais e tão desiguais. Uns mais iguais que os outros”. Ninguém é igual nas peculiaridades, mas todos nós sofremos, logo somos iguais no geral. Não existe final feliz a não ser na morte que nos tira desse mundo cão, e ainda não sabemos pra onde vamos. Afinal, o fim é triste porque sim. Porque é mais poético. Alguém duvida? Então tente mudar o fim de Tristão e Isolda, de Romeu e Julieta e então me diga como ficou. Aliás, não precisa nem disso tudo. Apenas imaginem se Adão e Eva não sucumbissem à serpente, como seria o mundo? Seria chato, pelo menos pra mim. Seria um mundo onde Deus, seria ateu. Na verdade, não existiria nem Deus. O mundo perfeito seria uma tragédia.
Depois desse comentário, Antônio mal acabara o cigarro e já pedia outro. Tomou num único gole a segunda metade da garrafa. E a banda tocou mais uma vez o refrão e o show se encerrou por volta das oito e meia da noite.
A banda dos amigos de Júlia não pôde se apresentar por motivos que ela não conhecia. Ela se chateou, mas só por pouco tempo, Henrique a convenceu que a noite estava longe de estar perdida.
Assistiram com certa empolgação o show da Idiot Savant. André conhecia o baixista, Paco que era compositor das músicas, e ao fim do show foi falar com ele mas não antes de algumas meninas tietarem os integrantes. Antônio estava em pé, próximo ao balcão e de lá observava como os integrantes agiam. As músicas daquela banda haviam lhe tocado de forma ímpar, mesmo não falando, ao pé da letra, o que ele estava passando. Mas ele se sentia como se fosse o personagem das músicas.
André cumprimentou os integrantes, em especial o baixista, pois era quem ele realmente conhecia. O baixista o apresentou à banda e André apresentou a banda aos seus companheiros.
Depois disso saíram todos da estirpe para dar mais umas voltas. E a pressão sobre Mateus e Rafaela estava imensamente maior. Até que Mateus disse que não podia e ninguém entendeu o porque. Ele não tinha namorada.
O falatório era ensurdecedor para Mateus e ele tinha que dar um jeito naquilo.
– Eu sou gay!
Gritou ele, fazendo o falatório cessar e os olhos de todos quase pularem para fora.
– O que?
Mateus não conseguiu identificar quem havia perguntado
A pausa continuou.
– Bom, tudo bem. Afinal, o cú é seu. Não vejo nenhum problema nisso.
Henrique brincou e amenizou o clima pesado que pairava no ar.
Todos riram, menos Mateus. Este chorou. Mas logo informou que não era de tristeza e sim de alegria e alívio.
– É. Henrique lembra do que tio Walter falou?
– Sobre o que?
– “Unha cravada significa que você tem um problema que ainda não resolveu.”
– Sim
– Esse é o meu. Que agora eu resolvi, não aguentava mais guardar isso comigo. Obrigado.
Ambos se abraçaram, quando todos os outros tornaram coletivo. Agora todos tiravam um sarro da cara de Rafaela e voltaram a andar; deram uma rápida passada pela praça do Arsenal e decidiram que a Moeda estava melhor. Lá, todos estavam visivelmente a vontade cantando as músicas do Sushi e nessa hora João e Mateus se olhavam, Henrique e Rebeca pareciam namorados; assim como Thiago e Júlia. Como Maria e André e Samuel e Cris. Wagner estava tão bêbado e bem que parecia dançar com uma moça que existia em sua mente apenas e todos, por fim, abraçaram-se mais uma vez como um grande grupo de namorados.
Ficaram por lá até às três da madrugada quando se encerrou as atividades musicais do Sushi e colocaram-se em marcha ao Marco Zero.
Após todo o movimento depois do fim do show, os membros da Idiot Savant decidiram ir até o Marco Zero, onde passariam o resto da noite até o dia amanhecer que seria quando os ônibus voltariam a circular normalmente; chamaram Antônio para ir com eles que timidamente aceitou com o mesmo leve aceno de cabeça só que com uma face calmamente inquieta. E lá, os jovens conversavam eufóricos sobre o show e sobre temas diversos e Antônio falava pouco, pensava muito e bebia com aqueles garotos. E assim seguiu-se até que se junta a todos os grupos que estavam no Marco Zero, a estirpe de Henrique; e André como ótimo sociável que é, avista Paco, o baixista, que era admirado constantemente por Antônio. Com isso agora as duas estirpes formam uma só; Idiot Savant, Henrique e cia e Antônio.
E se passava lentamente as horas, para o agrado de Antônio, que estava anestesiado; estava longe de esquecer tudo que havia lhe ocorrido desde a morte de sua família, a traição de Letícia e o acidente de Rafaela, mas sabia que, como disse Paco, o fim é triste porquê sim. Procurou e encontrou o conforto que precisava nas risadas, nos xingamentos e nas loucuras daqueles jovens. Todos eles.
Eis que se mostra a se quebrar a barra do céu em furta-cor e o sol começa a se levantar; e André, que nessas horas se mostrava o maior filósofo de todos os tempos, anuncia:
– Quereis todos vocês presenciar a maior tragédia que se pode ocorrer às pessoas como nós?
Ele para e puxa o isqueiro, põe mais um baseado por dentro da camisa e o acende.
– Qual seria?
Pergunta Paco.
André acende, puxa, prende e passa a Henrique o baseado e continua:
– O sol nascer! O que mais seria? Assim como você diz, Paco:
“Não há motivos
Para a noite acabar
Mas o dia insiste
Em nascer
O show tem que
Continuar
Deixa o Bacurau
Pra lá
Porque só quero
Estar com você”
E isso André fala bem lento, acompanhando o erguer-se do Sol.
Nesse momento não há nenhuma nuvem no céu que denuncie que venha a chover.
Mas nesse mesmo exato momento correu uma leve garoa nos olhos de Antônio.
Para os jovens, aquilo foi bonito e apenas. Salvo para Paco, que além de achar bonito sentiu-se bem por ser citado naquele momento; e também para Antônio, que sabia que aquelas palavras mudariam toda sua vida daquele dia para frente.
E eis que chegou o momento que nenhum daqueles gostaria que chegassem a hora de ir.
Colocaram-se de pé e se foram juntos ao Cais de Santa Rita, menos Antônio que foi para o seu carro. E foi para o trabalho e para assombro dos colegas de trabalho, Antônio apareceu para trabalhar com um tímido sorriso no rosto.
– Ora, o que tu tá fazendo aqui? Tinha a certeza que não viria hoje, achei que estaria triste pelo que aconteceu com Rafaela.
– E estou. Mas aprendi que nas melhores histórias de amor não existe finais felizes. Afinal, o fim é triste porque sim e ponto. Se ainda tenho muito tempo de vida, devo me preparar pois haverão tristezas piores. Se não, morrei feliz por tudo que vivi.
Respondeu Antônio se lembrando do dia que conheceu Rafaela, e riu.

Horas antes dessa máxima de Antônio sobre o seu luto inusitado para com Rafaela; Henrique e os membros de sua estirpe, tanto os antigos como os novos, seguiram para suas casas para mais uma semana de espera para mais um fim de semana comum.

PARTE II – As cronicas de semanas comuns.
DE JOÃO.
Na caída da noite daquela segunda-feira depois daquele fim de semana comum, alguns envolvidos nos corriqueiros acontecimentos estavam acordando. Alguns faltaram suas faculdades, seus trabalhos até; salvo Antônio e Diego, que foram trabalhar. Antônio estava de face pálida e abatida, contudo pesaroso, mas mais confortado com seus inusitados aprendizados da madrugada anterior. Diego não. Diego estava na mesma infelicidade de sempre. E assim seguiram seus dias.

Os demais estavam bem e felizes, todos acordados quando se fez a noite de um bonito céu estrelado. Entretanto João era o único que tinha nuvens em seu céu. João não morava com seus pais; nunca conheceu sua mãe e seu pai havia morrido anos antes. Morava agora com sua tia, Maria, com Paulo, marido dela, e Pedro, seu primo. A primeira e o último eram, para João, de incomparável amor e consideração. O que não se repetia com Paulo.
João não trabalhava, apenas estudava História; curiosamente queria ser professor, assim como Antônio, e, se esse, tivesse falado que o era, João, certamente, passaria horas conversando e querendo saber como era. Mas talvez fosse melhor não ter o feito, sendo João sensível como era, ficasse amedrontado com o ocorrido à Rafaela, falecida esposa de Antônio.
Sua escolha jamais agradava a Paulo que era desagradável em sua essência; e constantemente este criticava João por sua escolha e afirmava sempre que “engenharia ou outras coisas seriam melhor. Você tem que trabalhar, moleque, para ajudar a pagar as contas, não dou conta sozinho. Você não pode ficar vagabundando enquanto eu me esfolo de trabalhar para te sustentar.”
Algumas vezes ele atenuava sua reprova e pouco afeto por João e fazia pouco deste. Mas João nunca deu muitos ouvidos ao que Paulo falava. Ele nunca foi muito otimista e, às vezes, tudo que deseja era que Paulo o colocasse para fora de casa e que fosse morar na rua; mas sabia que não tinha para onde ir e por isso ainda aguentava. Mas também havia uma parcela de culpa por parte de Maria e Pedro, que eram sua última parte de família ainda viva. E não entendia como esses dois conseguiam conviver e até ter sentimentos por Paulo. Não sabia como uma mulher como sua tia, tão doce e meiga, amorosa em sua essência fosse apaixonada por aquele homem; e como Pedro, seu primo, tão sensível, tivesse sido concebido por aquele troglodita.

Durante o sábado e o domingo, nas horas que havia passado com aqueles que já conhecia e os que conheceu naqueles dias, se perguntou João como, apesar de tudo, fosse ter amigos antigos e novos tão legais; justo ele que pensou que eram, as chances, poucas de se encontrar pessoas assim. João havia se interessado principalmente por Mateus. Desde o momento em que todos se conheceram naquele Luau, João havia batido os olhos em Mateus. E por ser reprimido por sua orientação sexual, inclusive por Paulo, o maior homofóbico que João já havia conhecido, ele escondia. Assim como estava escondendo Mateus de todos. A admiração de João por Mateus, desde que ele o conheceu, só aumentou quando o outro se abriu, para amigos e amigos novos, ainda estranhos no momento em que falou; toda aquela cena havia tocado João afundo; e o resultado disso, sem sombra de dúvida, foi o estabelecimento de contato entre João e Mateus. E voilá, no fim de semana que sucedeu o qual eles se conheceram, já estavam juntos. Todos aos pares amorosos, inclusive Wagner.

Mas em lugar algum as coisas boas duram para sempre; entretanto, em Olinda, mais rápido ainda essas coisas acabam. E como disse afirmou Paco, em seu show, não é a toa que é daqui o melhor carnaval.
João e Mateus estavam apaixonados e sempre se falavam sempre. E semanas depois, namoraram. E tomou João uma coragem insana que lhe cegou a visão de inocência em achar que Paulo aceitaria seu amor; e ele contou. Como confissão ele abriu o peito e Mateus estava lá, na casa de Paulo, de mãos dadas.
Fosse Woody Allen o roteirista de todas as histórias de amor, ali, talvez acontecesse uma briga leve e, no fim, tudo estaria bem. Acabaria o filme com um beijo de João e Mateus; mas aquela noite nunca acabou para João que foi expulso de casa, chutado por todos os dedos do pé homofóbico de Paulo para a rua. Se viu impotente Mateus ao não poder acolher o seu querido. E João, estudante de História da UPE, não sabia o que fazer.
Dormiu de favor alguns dias na casa de Rebeca e Cris, mas sabia que não poderia ficar muito tempo, tampouco poderia alternar tais dias. Não quis pedir ajuda de ninguém, mas sua tia Maria, que apanharia se divergisse de Paulo, o ajudou de certa forma com algum dinheiro e se virou João até achar uma casa de estudantes em Nazaré da Mata, que era onde estudava (não há aulas de licenciatura em História, pela UPE, num lugar mais próximo). Partiu João. Partiu-se o coração de Mateus.
DE PACO.
Passou-se quase uma semana da apresentação da Idiot Savant naquele fim de semana comum e tudo caminhava bem para a banda. Faltava um mês para a tão esperada gravação do CD; e Paco estava com sua autoestima nas alturas e isso só o deixava ainda mais inconsequente do que ele já era sempre.
Seu nome era Eduardo e numa das ruas de Olinda, que era onde morava, bem frente a sua casa, era a casa de seu amigo de infância que também se chamava Eduardo.
Os dois cresceram juntos e faziam tudo juntos até a sétima série, que foi até onde estudaram juntos. Paco havia mudado de escola, mas, ainda assim, ambos continuaram amigos, só não faziam as coisas juntos com tanta intensidade de antes.
Eduardo sempre foi mais quieto que seu xará que desde de que mudou de escola e conheceu mais o mundo e, com isso, entrou para o mundo da música e consequentemente tornou-se muito popular.
Bebedeiras e mulheres nunca faltaram para Paco enquanto Eduardo preferia ficar em casa, assistindo filmes e séries. Agora Eduardo trabalhava durante o dia e chegava em casa por volta das nove da noite e nessa hora Paco estava na faculdade ou no mundo fazendo coisas quaisquer, isso fazia com que eles pouco se vissem. Era improvável mas não impossível que eles, mesmo morando na mesma rua de casas defronte, se vissem mais no Recife Antigo – onde Paco passava todo o fim de semana e que Eduardo ia as vezes – coisa que aconteceu no dia do show da Idiot Savant, entretanto não se falaram muito, mas, houve tempo suficiente para se cumprimentarem, dizerem como estavam na vida; tempo suficiente para Eduardo apresentar a Paco sua namorada.
Paco lembrava o quanto tímido era Eduardo e reconheceu que ele teve sorte, brincou Paco, em encontrar aquela e fazer com que ela gostasse dele, que era muito careta. De fato, Carla, era a mulher mais linda que Paco já havia visto e, pensou naquele instante que a viu que, não fosse namorada de Eduardo, ele não hesitaria em tentar conquistá-la. Coincidentemente, ou não, Carla achou o mesmo de Paco e de certa forma Eduardo havia percebido algo. Eduardo ainda era imaturo no que diz respeito a relacionamentos, e muito ciumento. Paco não sabia mas aquele namoro nunca teve uma certa estabilidade, situação que se agravou quando Eduardo percebe que Carla passa a ter contato com Paco por meio do Facebook; ela afirma que ele está sendo bobo e ele meio que aceita.
Aproximava-se o aniversário de Carla; evento qual comemorariam numa casa de praia em Itamaracá. Paco e a Idiot Savant foram convidados e aceitaram o convite para, além de comemorarem também, tocarem suas músicas e outras com violões quando à noite vendo o luar. Seria o fim de semana inteiro.
A medida que se aproximava o tal fim de semana se intensificaram as conversas de Paco e Carla e, às vezes, ambos percebiam certos duplos sentidos em suas palavras. É fato que ambos ficariam no fim de semana se não fosse Eduardo; entretanto ambos conhecendo a si como eles conheciam, sabiam que o tal adultério seria inevitável mais cedo ou mais tarde.
Chegou o fim de semana e foram. André, da estirpe de Henrique, que conhecia Paco também conhecia Eduardo, mesmo sem falar com esse e muito menos ter consideração por ele – André nunca gostou de Eduardo, mas Eduardo nunca soube disso. E, na verdade, o convite a André serviu para Paco como álibi para pôr em prática o que planejava fazer. GanjahMan, era como André era conhecido por todos e Carla era maconheira, Paco era maconheiro e Eduardo não era mas estava começando a fumar. Com a ida de André, abastecido de maconha, Eduardo fumaria demasiadamente e apagaria, o que seria a deixa para Paco e Carla. Fora Paco e André, não mais haviam amigos, quiçá colegas, de Eduardo; tampouco alguém que por ele tivesse consideração para aconselhar Paco a não fazer o que pretendia.
E foi assim como foi.
Todos chegaram juntos num número pouco superior a vinte pessoas quando o Sol se preparava para dormir no Ocidente. Primeiro todos se ocuparam em ocupar os quartos e acomodarem suas coisas nos guarda-roupas e pôr os mantimentos na dispensa; acabaram quando quase eram oito da noite e foram para a frente da casa que era beira-mar.
Paco, Carla, Eduardo, André, Henrique e sua estirpe, menos João, mais alguns amigos fiéis de Carla que não iam com a cara de Eduardo. E todos beberam.
Não fazia parte do plano de Paco conseguir ficar com Carla já no primeiro dia, e sim convencê-la indiretamente a fazê-lo no segundo e terceiro; ele sabia que não seria difícil pois ambos não paravam de se olhar o tempo todo.
Dada parte enquanto a noite avançava, com Eduardo já deverás bêbado, ergue-se Paco e caminha em direção à casa preocupando-se de chamar a atenção de Carla – o que jamais foi difícil naquele dia – para que ela entrasse com ele; não percebe Eduardo e ela vai.
Também o que não foi difícil foi a ciência do porque do chamado de Paco; lá ele diz a ela que “esperava que estivesse se divertindo, porque só era o primeiro dia. E havia mais para os outros dois”. Quando ela pergunta o porque daquele comentário ele ri. Diz que “é obvio que entendeu.”

– Foi ideia minha a vinda de André, ele conhece o Eduardo há anos mas não gosta dele. Eduardo me disse que queria “dá uma bola” e sei que ele não fuma. E quando se fala de maconha, se fala de André.

Ela ri e se aproxima e ele se vira; ela o beija lentamente e pega no seu pau: “Então, só amanhã mesmo?”.
– Não, André está conosco e com ele está a solução.

Ele a puxa pelo cabelo e morde seu pescoço.
Ele a manda ir na frente para que Eduardo não desconfie e para que seu pau amoleça.
Ela vai e dez minutos depois Paco volta com uma segunda garrafa de vodka.

Os dois se comem com olhares toda a noite e não realizam o desejado coito porque Eduardo, inseguro, ainda não havia fumado, mas, já estava mostrando sinais de embriagues avançada. “Falta pouco” Paco e Carla pensavam.
Quatro da manhã e todos se encontram muito bêbados inclusive Eduardo, com a exceção de Paco e Carla. Todos se preparam para recolher e irem dormir. Todos vão, inclusive Paco e Carla. Todos se deitam e dormem, exceto Paco e Carla. Paco, que havia colocado seu colchão na sala junto com outros homens. Paco levanta e vai fumar no terraço, senti Carla o cheiro e olha pela janela e vê Paco de cueca e, de ponta de pé, vai ao seu encontro. Paco vê aquela deusa, com quase-nenhuma roupa de dormir, e lhe encontra antes que ela chegue junto de si – ele não poderia esperar. Ele joga o cigarro e a abraça, aperta sua bunda e a coloca nos seus braços; assim ele a leva para a praia, que estava deserta, e lá lhe tira a roupa e a sua. Entram na água lentamente e lá trazem a tona toda a luxuria de dez anos de tesão acumulado nos poucos dias que se conheceram e lá permanecem até as seis da manhã. Entram e tomam banharam-se juntos e não param de foder e saem e se chupam e mais outra vez e vão dormir. Ninguém sabia. Ninguém havia visto. Imaginavam que ainda não, estavam bêbados demais para perceber e Eduardo roncava inocente sem saber do que estava lhe ocorrendo.
Quatro da tarde e todos bebem novamente e tudo se repete com a diferença da coragem que toma Eduardo ao fumar maconha. Às onze e meia ele já está apagado na cama e lá fora todos veneram a Baco. É no domingo como é no sábado e nunca se imaginou sendo tão corno como estava sendo. Mas percebeu a indiferença que lhe era pregada por Carla que já não via Eduardo e muito falava com Paco, com todos, mas mais com Paco.
Chega ao fim do fim de semana e Carla nunca havia tão bem comemorado um aniversário nem se lembrava de ter ido a um que fosse equivalente à sua comemoração.
Na segunda-feira foram e na quarta-feira chegara ao fim o pseudonamoro de Carla e Eduardo e destroçado foi o coração do coitado que não sabia o motivo.
Chega a sequência de dias para a gravação do CD da Idiot Savant e Eduardo ainda sofre e muito e acaba por perceber nos perfis do Facebook daqueles que tanto tocam como acompanham a banda a fiel presença de Carla nas fotos referentes à gravação e se pergunta “porquê?”. Lhe era estranho, ela não conhecia ninguém há cerca de um mês atrás, os dias passaram e lhe consumiram tal duvida.
Finalizada todo o processo de gravação, edição e produção do CD e todos gostam do resultado; Eduardo também. Chega o show de lançamento e todos vão, Eduardo não. Ninguém o chamou. Não havia ido para o show mas sim para o Recife Antigo e só soube que havia show lá. Entendeu que não haviam chamado-o mas não se preocupou porque Paco sempre lhe chamava para sair anos atrás e ele nunca foi, era entendível que ele estivesse cansado e parado de chamar. Mas Carla estava lá. Nem Carla, nem Paco viram Eduardo. Outra pessoa também não. Era sexta. Madrugada de sexta para sábado. Eduardo viu os dois se beijando e não acreditou. Estava explicado, além do término do seu namoro, a presença dela nas fotos que viu.
Não se encontrou onde estava; sem chão vagou pelas ruas e foi embora.
Soube no outro dia pelas pessoas que haviam comemorado o aniversário de Carla, que eram amigas dela, que ela havia ido para Itamaracá, que não sabiam com quem nem quando voltava. Soube também que Paco, pelos amigos dele que haviam ido comemorar o aniversário de Carla em Itamaracá, que ele havia voltado para lá; também não sabiam com quem nem quando voltava.
Eduardo nunca teve tão grande raiva na vida e um sábado nunca demorou para passar. Esmurrava paredes. Gritava. Esmurrava paredes.
Num ponto que ele não conseguia mais aguentar tomou um táxi e foi até eles.
Chegou por volta das quase meia-noite. Como fez com suas paredes fez com a porta.
Carla chega está só de calcinha no sofá que é de frente para a porta e não se importa em mudar de lugar.
Paco abre sem esperar.
Segue o silêncio do inesperado quebrado sempre somente pela ofegante respiração raivosa de Eduardo.
Carla e Paco estão parados olhando e quando ele tenta um movimento é acertado no rosto por um murro de Eduardo. Paco não esperava, claro, nunca soube que Eduardo sabia como se dava um murro, mas é deveria saber já que sabia que são nessas ocasiões que se aprende essas coisas. Enquanto racionava tudo isso, ele apanha de Eduardo e Carla gritava bêbada e assustada.
Paco e Carla estavam ali desde cedo e haviam alugado a casa por dois dias e já haviam bebido algumas garrafas de vodka e transado na água. Estavam felizes e loucos. Fodas, beijos, cigarros e cigarros de maconha e garrafas de vodka foram quebradas nas pedras para extravasar a felicidade dos dois.
E Paco levou alguns socos até ficar em condições de revidar com murros bêbados e quando isso aconteceu já estavam os dois próximos à água. Mas Paco cai e Eduardo, em cima, descarregava toda sua raiva inacabável. Paco quase levante e agarra Eduardo e ambos caem novamente, agora, na água.
Tal briga não teria fim até que um morresse até que Carla entra e empurra Eduardo. E Paco, possesso de raiva igualmente a Eduardo encontra a garrafa quebrada por felicidade e na primeira oportunidade passa de raiva no pescoço de Eduardo.
Cai na água, de coração partido e pescoço cortado, Eduardo. Paco ainda o faz mais uma vez e outra. Carla em choque olha e não acredita; ciente do acontecido e de volta em sanidade Paco cai de sua altura sentado na areia. Carla o acompanha e senta também.
Passasse quase meia hora de silêncio e sangue e ela pergunta “e agora?”.
Ele não responde e entra. Ela não vai e ele volta com cigarro aceso.
A maré estava baixa e cerca de duzentos metros estavam os arrecifes e poderia caminhar até lá e a água só chegaria à cintura. Arrastando Eduardo que nesse momento já não estava mais vivo.

Nos arrecifes, Paco move com esforço as pedras para além de esconder, ter uma cova para Eduardo. Ele o coloca lá e põe novamente as pedras em cima. Ele volta. Carla o espera. Eles não dormem. Nem bebem. Assim que amanhece, eles voltam e Eduardo fica.
Ninguém soube que Eduardo saiu ao encontro deles. Ninguém jamais imaginava nada.
Carla disse a Paco que não contaria nada a ninguém, mas não queria vê-lo mais. Paco saiu da banda e viajou para o interior onde passou quase um ano e ela foi para São Paulo onde passa três.
Apesar de improvável, ninguém jamais encontrou o corpo de Eduardo e todos acharam que ele havia fugido, se matado ou qualquer outra coisa. Só não imaginavam ao que, de fato, havia acontecido.

DE PAULO E PEDRO.

Já se encaminhava ao quinto ano que João, seu primo, havia sido mandado embora por seu pai, Paulo, e ele, Pedro, desde então, nunca mais teve algo que se aproximasse daquilo que João foi para ele: um amigo.
Pedro tivera muitos sonhos mas já não os encontrava por causa da bagunça que estava a sua vida e na metade dos seus poucos mais já cansativos quatorze anos de existência mundana: queria morrer. Não encontrava sentido em nada que via e ainda por cima, para ver as coisas mais tortas do que elas já eram, anos atrás, havia sido descoberto o seu daltonismo e, com isso, perdera o último sonho que ainda cultivava: o de ser pintor.
Pedro não se identificava em nada para com seu pai, não concordava com o que ele falava. Não via, principalmente, o mundo como Paulo dizia ser. Para Pedro tudo era mais; era maior. Quando descoberto o seu daltonismo ele achou que ainda assim, poderia pintar mas seu pai disse que não. Paulo era um daqueles caras que provavelmente no início de sua conturbada carreira, cheia de obstáculos, vendeu a sua alma ao Diabo pra ter muito poder, pois era o que somente tinha, poder! Autoritário, ganancioso, chato pra cacete e odiado por todos seus funcionários. Há muito tinha quebrado, de propósito, o medidor de volume de sua voz e seu tom, não media as palavras para falar com ninguém. Cria apenas no dinheiro, o dinheiro era o seu Deus. Mas o seu grande defeito era ser assim, do jeito que era com os seus funcionários, com sua família; nada do que ele fazia era mais nocivo do que isso e não só para ele; para Maria e Pedro também, porque eles, apesar de tudo, ainda guardavam algum amor por aquele homem odiado. Mas mais ódio tinha Pedro por Paulo do que amor e a expulsão de João foi o estopim para nascer esse sentimento paterno demasiado nocivo.
Paulo nunca acompanhou o crescimento de Pedro e, por isso, não conhecia o seu filho. Desde sempre ele só foi, para Pedro, o cara que lhe dava algum trocado para comprar algo no mercado para comer enquanto Maria fazia a feira do mês. Só o cara que pagou a cara escola. Só o cara que não permitiu que passasse fome. Mas Pedro sempre achou melhor que fosse miserável mas que tivesse um pai de verdade; foi esse o motivo que fecundou o ódio de Pedro por Paulo no caso de João. João preencheu esse vazio paterno que Pedro sentia. O avanço cognitivo mais notável que Pedro teve, na sua pouca idade, foi saber que João não era a aberração que Paulo havia dito – por gostar de outros homens – porque Paulo disse que quem gosta de homem não pode ser pai e Deus não permite. De uma única vez Pedro desenvolveu o ódio pelo pai e por Deus, por não permitir o amor que Pedro tinha por Mateus, e desenvolveu também a compreensão que aquele preconceito do pai era horrível.
Odiava a missa que Paulo o obrigava a ir e odiava o Natal que se aproximava. Já quase não mais acreditava em Papai Noel.
Entretanto, Paulo, que nunca soube como agradar o seu filho, disse a ele para escrever uma carta para o “bom velhinho” e pedir o que quisesse. Pedro ouviu o ultimato do pai – foi o que foi, Paulo foi rude ao falar.
Aquilo foi, para Pedro, um desgosto e ele foi para o quarto e lá ele teve uma ideia.
Diria tudo que pensava naquela carta, talvez o pai lesse e mudasse e chamasse para morar com eles João novamente.

E ele escreve…

“ Querido papai noel, acho que não fui um bom menino este ano porque não houve um único dia em que o miserável do Paulo não gritasse comigo por algo que eu havia feito, segundo ele, de errado. Não o chamo de pai porque o nome do meu pai é João. Digo isso porque vi uma vez minha mãe dizer que “pai é quem cria” e ele nunca me criou, sequer, por um dia. E o meu pai de verdade, não o que me fez, foi injustamente mandado embora por esse Paulo somente pelo fato de amar a outro homem: o Mateus; que nunca mais eu vi e sofro por isso também. Assim como odeio Paulo, odeio Deus. Paulo me disse que Deus não permite esse tipo de coisa, então, o odeio quase mais que esse Paulo.
Da mesma forma, papai noel, como ando odiando tudo. Tudo que eu vejo é humano e sinto ódio por isso. Vejo, papai noel, humanos matando a todos os animais e tudo sem motivo algum. Uma vez perguntei o porque de tudo isso à minha mãe e ela me disse que humanos fazem isso, então conclui que tudo que eu quero de Natal, papai noel, é que sejamos menos humanos.
Ou que o João volte.
Se nenhum dos dois for possível, na noite de Natal, como presente, me mate.”

A carta foi deixada na pasta de trabalho de Paulo que só a viu quando chegou no seu escritório. E ao ler, sentiu despedaçado e com raiva ao mesmo tempo. Tinha tido uma vida difícil pra conseguir chegar na posição financeira confortável que estava. Prometeu pra si não se importar com ninguém além de sua família. Mas pouco via sua mulher e seu filho, e com as pessoas passaram que passava maior parte do seu tempo era um desgraçado filho da puta sem coração, um tirano. Nunca admitia um suspiro mais alto nem se quer uma expressão de felicidade. Mas aquela carta lhe quebrara ao meio, ela lhe provou que ele falhou na única promessa que havia feito a si mesmo.
Ele pensa muito e lê a carta de Pedro várias vezes. A raiva passa e só o remorso lhe consome agora.
Ele larga o trabalho, passa na escola de Pedro e o leva pra casa. Pedro, achando que tomaria a maior surra de sua vida nada falou.
Em casa, ele chama Maria à sala.
De pé os três e então Paulo caí de joelhos e chora.
Pede perdão por tudo que fez.
E diz a Pedro que ligará para João e pedirá perdão e que ele volte.
Depois de muito tempo, Pedro sorri.
E pela primeira vez abraça o pai.

DO PUBLICITÁRIO E RAFAEL.
Gomes era o nome de um rapaz idealista que escolheu ser professor de História ainda no colegial quando foi encantado pelo domínio que tinha o seu professor dessa mesma matéria. Conhecer o trajeto que o mundo percorreu durante todo o período que se tem conhecimento até os dias de hoje era, para Gomes, encantador por si só. E, terminado o terceiro ano do ensino médio, e no auge do seu romantismo pela história do mundo entra na faculdade, no curso que sonhava.
Encantou-se ainda mais com o curso no seu decorrer e assim foi durante os dois primeiros anos.
Mas encontrou alguns percalços pelo caminho que começaram a interferir nessa caminhada. Sua instituição, a única de Olinda a fornecer o curso, enfrentava sérios problemas de administração. Politicas partidárias a feriam gravemente e cada vez mais ficou mais difícil para ele conseguir permanecer. Principalmente quando fora retirado de circulação o ônibus que era gratuito que a faculdade oferecia para que os alunos que não pudessem pagar a locomoção até a lá.
E essas e outras mais situações começaram a interferir.
Ele lembrou que quando entrou na faculdade, logo no início, havia um cara de nome Gabriel que tentou lhe seduzir a entrar para a UJS – União Jovem Socialista. Quase pereceu mas em tempo Gomes se salvou quando viu o Gabriel comentar com outro de sua estirpe que assim, daquele jeito, sem dinheiro não dá pra ser socialista, e Gomes percebeu a ironia que ele usou e juntou alguns pontos até perceber a corrupção que acontecia, Gomes era um rapaz idealista que ainda não conhecia muitas das podridões do mundo.
E tudo piorou quando Gabriel venceu as eleições.
Gomes, muito triste, percebe que, pelo menos, naquele momento é melhor ele sair.
Foi o que fez.
Era fim de agosto e trancou sua matrícula.
Até quase o fim do ano ele permaneceu sem fazer nada; não fazia nenhuma faculdade tampouco trabalhava.
Em dezembro Gomes consegui um emprego meia-boca num call center de Olinda, onde jamais esteve satisfeito com nada. Concordava que era apenas seis horas de trabalho, mas aquilo lhe enlouquecia e fazia com que ele se sentisse como uma prostituta – talvez preferisse ser puta do que trabalhar ali.
Não sabia ele que seria ali que sua vida mudaria.
Certo dia, numa de suas pausas lhe entregam um panfleto de uma faculdade e lhe é avisado que, se ele assim quisesse, seria feita a isenção do pagamento do vestibular daquela faculdade.
Gomes além de idealista, era poeta. E ele tinha várias ideias e não queria morrer sem concretizar nenhuma delas. No panfleto Gomes lê “publicidade” e, pela ideia que fazia deste curso, essa seria uma oportunidade de fazer com que seus escritos e projetos se tornassem públicos.
E disse sim, Gomes, ao rapaz que representava a faculdade e apontou publicidade a sua escolha.
Um mês depois Gomes faz o vestibular e passa. O curso começa e meses depois Gomes sai do emprego.

O início do curso mostra-se a ele muito agradável, principalmente pelas disciplinas de Teoria da Comunicação e Redação, ao mesmo tempo que estudava História, também, na primeira na segunda aumentava seus conhecimentos de persuasão na escrita e assim ficaria mais fácil de publicizar seus trabalhos.
Entretanto, com o mesmo romantismo, só que de uma forma diferente, fez Gomes se sentir traidor de seus ideais e, de certa forma, se sentir parecido com Gabriel, ainda bem, ele se aliviava um pouco, com bem menos intensidade.
O que, com certeza, não fez Gomes acreditar-se traidor de tudo que pensava foi a companhia de Henrique, o mesmo da estirpe, que estudava na mesma sala de Gomes. E ele, Henrique, pregava que se sentia da mesma forma “mas é melhor conhecer o inimigo de dentro; traí-lo e sair para, de fora, vencê-lo.”
Isso ajuda, claro, mas nunca o suficiente e Gomes teve de pensar em artifícios para se entender tudo aquilo que Henrique falava e teve uma ideia: Criar uma página no facebook que se chamaria “Humanos de Olinda” e, além de colecionar, publicar comentários de pessoas avulsas nas ruas sobre suas histórias.
Gomes sabia que todo mundo, em meio ao seu silêncio ou burburinho, tinha algo a se falar e sempre daria uma boa história.
Foi o que fez e meses se passaram e o êxito mostrava que era eficaz.
Conheceu todo o tipo de gente e histórias emocionantes.
Mas nenhuma comparada à de Rafael, o órfão.

“ Gomes: Quem é você?

Meu nome é Rafael e tenho 14 anos, sou do interior de Pernambuco de uma cidade chamada Tracunhaém. Me mudei pra cá porque minha família morreu e tenho uma tia aqui, ela mora em Peixinhos. Ela não tem condições de me dar educação, de colocar numa escola boa, né?

Gomes: Você estuda?

Eu estudava, mas tive que sair pra trabalhar pra levar dinheiro pra casa.

Gomes: E o que você faz?

Eu vendo meus confeito, lavo vidro de carro. Peço dinheiro.

Gomes: Você tem sonhos?

Acho que sim, eu queria ser ator.

Gomes: O que você mais quer na vida?

Quero conseguir juntar um dinheirinho e comprar um perfume igual ao da menina que eu gostava quando morava lá no interior.”

Gomes não conseguiu fazer as duas últimas perguntas porque chorou. Nunca havia visto tanta sinceridade em poucas palavras. E ele decidiu ajudar Rafael a conseguir o que ele mais queria na vida.
Com a ajuda de Henrique, Gomes elabora uma estratégia para saber onde Rafael mais teria sucesso; ele e Henrique acompanhavam e registravam em vídeo, mas, não mostravam a ninguém para não parecer incentivo ao trabalho infantil.
A ajuda de ambos mostrou-se eficaz também nesse caso e em pouco tempo, depois de uma pesquisa árdua descobriu-se que, inusitadamente, o tão sonhado perfume que Rafael procurava era uma simples lavanda que se encontra em qualquer mercado. Sendo assim, Henrique e Gomes quiseram levar Rafael à Tracunhaém e reencontrar a menina.
Disseram eles a Rafael que havia uma surpresa para ele mas somente no dia de seu aniversário, que era no dia 19 de Novembro.

PARTE III – Pré 19 de Novembro.
O DIFERENTE AMOR ERRADO de Carlos e Andreia. Que era um casal muito conturbado e confuso, entretanto, todos que viam aqueles dois viam que era de verdade aquele amor; apesar dos pesares. Um amor sujo e de muitos palavrões de tentativas de fazer ciúmes de ambas as partes; de implicâncias e tudo que a isso se assemelha. Mas apesar de a certeza desse amor ser obvia, Andreia quis terminar a história dos dois na noite de lua quase cheia do dia 18 de Novembro.
* * *
O CRIME PELO AMOR, era essa a única solução que pensava Patricia e Petrus; um casal apaixonado mas que não poderia viver esse amor por causa do avô dela, Seu Antônio da Barraca; famoso por seu micronegócio, mas a fama que ele não tinha era a que merece: estuprador. Era o que fazia com a pobre Patricia que, hipocritamente, era impedida de amar Petrus, pelo seu avô, por seu amado era o bandido do bairro. E quando os dois já não mais aguentavam essa interferência do velho, foi decidido na noite do dia 18 de Novembro, que no dia seguinte o Seu Antônio da Barraca encontraria a morte pelas mãos de Petrus num inventado assalto à sua Barraca.
* * *
“ QUANDO TEUS OLHOS DESCONHECIDOS ME DISSERAM A MINHA DOR, João, eu achei que estava louco. Como poderia eu pensar tamanha loucura? Um homem?
Mas, por favor, antes de qualquer coisa deixe-me te dizer algumas coisas que me fizeram pensar no porque de ser loucura.
Acho que você sabe, mas meu nome é Antônio (risos) e eu morei por muitos anos, por sinal, os anos mais tristes de minha vida, em Boa Viagem. Foi ali que soube que minha família havia morrido naquele acidente e que anos depois vi minha mulher e meu primo juntos na cama.
Tive um ensaio de felicidade durante alguns meses quando reencontrei a Rafaela, mas tudo desmoronou sobre mim quando lhe aconteceu o que aconteceu.
Foi quando fui, João, ao Recife Antigo tentar reviver os tempos bons de minha vida, os tempos onde eu não tinha sofrimentos; e encontrei aqueles garotos da Idiot Savant e fui naquele show. Lembro que você também estava lá. Estava com Henrique e seus amigos aos beijos com Mateus. Eu lembro. Depois daquele dia pensei que nunca mais veria nenhum de vocês.
As palavras que Paco disse ao fim daquele show me fizeram bem e foi com elas que eu não cometi o suicídio e tive forças para reencontrar o meu caminho.
Nunca cri em Deus, mas achei que era ele quem havia colocado para mim aquela proposta de emprego para ser professor de História do Brasil Colônia da UPE, a priori eu não quis aceitar. Apesar de ter passado dois anos desde a morte de Rafaela, eu ainda sofria. Mas mesmo assim decidi ir.
E quando chego em minha primeira aula vejo um rosto familiar com olhos tão tristes que achei que eram os meus no rosto de uma outra pessoa.
Era você.
Conversamos muito tempo e eu comecei a me sentir estranho perto desses olhos, até o momento de nosso primeiro beijo (confesso que nesse dia eu saí correndo porque estava confuso e, em minha jurássica, ainda viva naquela época, minha homofobia, de certa forma).
Mas depois eu quis mais.
E então o “nós” aconteceu e somos assim, tão feliz.
Obrigado meu amor, por você ser o homem da minha vida; eu te amo.”

Era o que dizia a carta que Antônio escreva a João no dia em que o casal fez 3 anos de um estável relacionamento muito sério.
Depois que João leu e chorou com essa carta, se beijaram.
Agora, de casa nova.
João estava formado. Agora era o que quis ser: Professor de História.
Eles estavam sentados no sofá que haviam comprado que foi colocado de forma elegante na sala da casa nova próxima à Praça do Carmo, em Olinda.
João havia aceitado o pedido de desculpas de Paulo e disse que não aceitaria voltar a morar com eles porque ele já estava voltando, casado, para morar em Olinda com o seu marido.

Mas sua mudança, ainda era surpresa para Pedro ele saberia no dia seguinte: 19 de Novembro.
“O BOM FILHO À CASA TORNA” Foi o que disse Paco aos seus amigos, ao chegar de seu regresso de quase um ano no interior depois do ocorrido com Eduardo.
PARTE IV – O Fatídico dia
19 de Novembro. Um dia de muitas emoções para alguns moradores de Olinda.

Ainda era cedo quando Gomes e Henrique iam para a encruzilhada onde Rafael disse que venderia seus confeitos; os dois dariam ao menino o presente de aniversário que ele sempre quis: o perfume Lavanda que a menina que ele gostava quando ainda morava no interior usava e também o dinheiro equivalente à passagem, de ida e volta, para lá, para que ele pudesse vê-la mais uma vez. Era o último capítulo da série que Gomes e Henrique estavam produzindo sobre Rafael, e ambos estavam felizes: o final seria feliz.

Patricia e Petrus estavam ansiosos para que pudessem, o quanto antes, executar o plano estabelecido no dia anterior e poder, no dia seguinte, viver o amor dos dois.

João, se preparava para ir visitar seu querido primo Pedro. Havia marcado com Paulo numa praça que ficava próximo à casa deles. Ele iria só, mas Antônio chegaria em breve porque tinha ido resolver questões burocráticas sobre seu possível novo emprego numa faculdade próxima dali.

Paco, mudado, andava calmo pelas ruas de onde morava; pensava muito e só caminhava.

Maria, que havia combinado com Paulo de levar Pedro para reencontrar João e vir todos para casa enquanto ela iria à Barraca de Seu Antônio para comprar coisas para fazer o almoço com João e Antônio.

***

Gomes e Henrique se aproximavam cada vez mais de Rafael, faltava poucos minutos de ônibus até ele. Paulo chegou em casa e chamou Pedro para ir com ele, Maria já havia saído à barraca. Petrus caminhava lentamente com um frio na espinha imaginando o que aconteceria a seguir.
Carlos encontra Andreia e pede para que sentem e conversem mas ela sai andando sem querer dar ouvidos a ele. Enquanto Patricia espera sentada a chegada de Petrus à barraca para que seja executado seu avô e estuprador; ela está sentada no outro extremo da barraca olhando em diagonal para o velho que atende Maria e não para de olhar para seus peitos.
Se preparam para sair de casa, que fica a 5 minutos de carro da barraca de Seu Antônio, Pedro e Paulo.
Maria encontra João que lhe dá um abraço tão firme quanto a saudade que estão o sobrinho e tia.
No outro lado da rua, em pé, esperando o sinal fechar para atravessar estava Petrus de olho fixo em Seu Antônio e na calçada bebendo calmo uma cerveja estava Paco.
O sinal abre e atravessam: João e Maria para um lado e Petrus para o outro. Na rua paralela esperam para atravessar Carlos e Andria. Paco continua sentado.
Saíram de casa Pedro e Paulo e seguem pela rua e mais a frente é a esquina da barraca mas ele olha de relance para o lado e vê Maria, nesse momento o sinal fecha para Paulo que não reconhece João e Pedro, que, com certeza, reconheceria, olha para nesse momento para o lado oposto; justo qual, metros a frente, está Carlos e Andreia preparando para atravessar.
Paulo continua olhando mas eles, João e Maria, vão se afastando e Paulo continua olhando.
Pedro era daltônico mas foi Paulo que não viu o verde ficar vermelho.

– Eu daria minha vida por você!
Disse Carlos
– Eu duvido.
Desdenhou Andreia.
– Eu prometo que é verdadeiros

Nesse exato milésimo de segundo que sucedeu tal afirmação, Carlos vê o carro de Paulo que não parou.

Quem não viu também foi Walter o caminhoneiro que estava certo na rua paralela. Igual a Rafael que não viu. Nesse momento chega Gomes e Henrique à faixa de pedestre e vê Rafael começar a caminhar para o centro da faixa e começar a vender seus confeitos.

No exato momento em que Carlos cumpri sua promessa feita há um segundo atrás, ele empurra Andreia, mas, não conseguiu empurrar Rafael também, e o levou com ele.
Paulo bate nos dois e sem ter conseguido bate também no caminhão de Walter.
Ouve-se em toda rua, freadas e uma batida seguida de outra maior ainda que chama atenção de todos.
Petrus que já estava assustado desde antes não conseguiu completar o plano e correu.
Paco, ao ver o acidente, corre para ajudar.
João e Maria ainda sem saber de quem havia sido envolvido naquele acidente, foram também.
Seu Antônio, que havia escapado, naquele dia ao menos, de morrer foi correndo ver quem havia morrido naquele acidente e Patricia que já estava de malas feitas, ao ver Petrus, pega suas coisas e a mão dele e ambos saem correndo.
Maria e João desabam ao ver de quem dirigia o carro.
Curiosamente havia uma equipe de reportagem bem próximo dali e estes abutres ligam suas câmeras e transmitem a desgraça ao vivo.
E Antônio de onde estava viu aquela reportagem e reconheceu João no chão, este estava chorando, mas Antônio pensou que tivesse sido envolvido e saí correndo de onde estava para o local do acidente.
Gomes e Henrique estavam paralisados no outro lado da rua onde haviam visto Rafael com vida pela última vez e Gomes trazia em sua mão a Lavanda e a passagem dele para Tracunhaém.
Com Walter, o caminhoneiro, nada mais sofreu que arranhões na perna.
E a Pablo, um pintor que estava ali próximo, ocorreu de fazer uma pintura daquela triste situação.
João, no seu desespero, começou a se culpar; pensava que se nunca tivesse se assumido como gay nunca teria sido expulso logo não teria que voltar para reencontrar ninguém e, de fato, tudo aquilo não ocorreria a ninguém. Paco ouve os lamentos de João e o reconhece e entende a situação dele – sabia o que havia lhe ocorrido – e lembrou que foi ele, Paco, que havia dado conselho a João para que enfrentasse Paulo. Maria ao ouvir Paco dizer isso, diz que não, que se ela tivesse se colocado no lugar dela de mulher da família teria dito a Paulo que João não iria a lugar algum.
Agora Gomes diz que se sente culpado pela morte de Rafael, que foi ele que havia escolhido aquela encruzilhada para ele vender seus confeitos. Nesse momento Henrique, João e Paco – todos chorando – se reconhecem e todos culpam Henrique pelo acidente; que se Henrique não tivesse ido ao Luau com sua estirpe João não teria conhecido Mateus, tampouco Paco. Não teria um amor perdido e nem quem lhe desse conselhos sobre enfrentar Paulo. Quando Henrique culpa somente o defunto Paulo por ter furado o sinal é apoiado por Andreia que berra mas ignorado por todos quando Antônio, aos gritos chega e berros também.
E no meio de tudo aquilo, além dos choros, berros e gritos e os quatro corpos, dois de crianças, duas inocências mortas, um adolescente de palavra e um ex humano desprezível que se arrependeu: os pontos de ibope da TV aumentavam a cada segundo e todos viam aquela tragédia que nada teve de efeito colateral a não ser o de atrasar o trânsito nas ladeiras da cidade não tão fictícia assim, chamada Olinda.
Era só mais um fim de semana comum e n’outros lugares poetas recitavam suas poesias em parques como o 13 de Maio, no Recife, enquanto pessoas morriam e as que viviam culpavam umas as outras por seus erros coletivos concebidos em pequenos efeitos borboletas.

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Publicado às 19 de novembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .