EntreContos

Detox Literário.

A Carrocinha (Leda Spenassato)

O pneu furou. A febre não baixa e a criança não para de chorar. Vomitou um pouco de leite, aliás, o único alimento que ainda restava na velha geladeira.

O sol desponta atrás do moro, é hora de trabalhar. Mas eu ainda nem dormi. Não tenho dinheiro para consertar o pneu da carrocinha, o borracheiro não quer mais fazer fiado. Devo dois consertos para ele, quando penso em pagar, o bebê adoece e vão-se os trocadinhos arrecadados com a venda do papelão. Tão difícil de juntá-los, depois de que até os pedreiros, nas construções, resolveram vendê-los.

Rezar de nada adianta, já pedi tanto a São Judas e ele nem se deu ao trabalho de me responder. Se pelo menos minha mãe, aquela pinguça desgraçada, ficasse com a criança para que eu pudesse sair recolher papelão, o pouco que sobra, em frente a algumas lojas. Mas que nada, aposto que ela está roncando, igual a uma porca, a esta hora da manhã. Pôs-me no mundo, deveria ter cuidado de mim. Mas não! Usou-me como se eu fosse um mero objeto, vendeu-me para aqueles homens imundos que também se deitavam com ela. Sequer, orientou-me para não engravidar. Tinha eu apenas 12 anos, a barriga crescia, uma água cítrica teimava em queimar o meu esôfago, o sono me punha mais deitada do que de pé. O primeiro e o sexto pecado capital invadiram meu corpo e tomaram de assalto minha alma de menina, transformando meus sentimentos em sentimentos de mulher prematura, e, embuchada. Ainda, assim, era obrigada a me deitar com homens asquerosos que boliam meus seis pequenos e doloridos. Só bem mais tarde soube que os seios das mulheres grávidas ficam muito doloridos durante a gravidez. O bafo de cachaça misturado a fumaça de cigarro e dentes podres aumentava a água com gosto de ovo choco em minha boca. O nojo que antes sentia daqueles homens sujos, cheirando a gambá, agora, se triplicava, fazendo brotar em mim um sentimento de repulsa e asco. O estômago embrulhava e reembrulhava, algo estranho subia até minha garganta ardendo, queimando como brasa, querendo sufocar-me. E aumentava ainda mais com a proximidade daqueles homens, gorduchos pançudos, ou magrelos barrigudos, que exalavam um odor acre e repugnante, faziam-me sair correndo para fora do barraco para vomitar nas guanxumas.

Eu não queria ficar com uma barriga igual a deles. Minha mãe dizia que eu estava embuchada – eu não queria ficar embuchada.

Na escola, os colegas se afastaram de mim. Isolei-me em um canto da sala, não conseguia mais ouvir a professora, queria tanto perguntar a ela porque as meninas embucham como os homens, mas o medo do deboche, da classe, me calava, o enjoo aumentava, aumentava, subia até a minha garganta, eu empurrava-o para baixo e ele empurrava-me ao desespero. Abandonei as aulas. Foi pior. A desgraçada da minha mãe me obrigava ainda mais a cometer atos torpes.  Empurrava-me para a cama com homens bêbados, homens que não se banhavam, traziam consigo uma raposa debaixo de cada braço, para aumentar ainda mais a minha repulsa. Além de cheirar mal, alguns eram tão velhos, que bem poderiam ser meu pai, avô ou até bisavô, estavam destroçados pelo tempo e pelas bebedeiras, a única coisa dura que possuíam, além da cisma, era a bengala.

Argeu era um desses homens que poderia ser meu pai, tinha uns trinta e cinco anos, mas aparentava uns quarenta, vivia borracho, tomava todas, cheio de cisma pagava a minha mãe para me possuir, mas não dava mais no “couro”. Ficava em cima de mim por horas a fio sem conseguir ereção. Não sei para quem de nós dois o desencanto era maior. A impotência masculina obriga o homem a pensar com a cabeça, e, isso, é difícil quando ela está em desuso, quando a avareza e a luxuria são sinônimos fundamentais para confirmar a virilidade do macho.

A impotência masculina transformou Argeu em fera ferida. Não admitindo seu fracasso cavalgava minha barriga, transformando aquele ato no maior suplício, entre os muitos, que eu já havia vivido nos meus longos doze anos de existência. A minha barriga doía, a náusea aumentava, o bebê mexia, os deuses me abandonaram pensava, quando Argeu num instinto de selvageria me esbofeteou e o líquido quente e ácido saiu do meu estômago como um tsunami, arrastando tudo cruzou minha garganta, encheu minhas narinas e minha boca inundando o rosto dele, cutucando a fera com vara curta. Com o rosto todo lambuzado, cheirando a ovo choco, ele, novamente, desferiu sua mão pesada, agora muito mais pesada, em minhas faces pálidas, fazendo minha cabeça girar de um lado para outro até que as lágrimas que banhavam  meus olhos, pequenos e tristes, se transformassem em sangue.

Acordei em um quarto branco, com paredes pintadas de branco, sem frestas e sem barulho, em uma cama de verdade, com lençóis e cobertores limpos. Minha cabeça meio zonza não impediu meus olhos de observar o ferro erguido ao lado da cama, de onde descia para o meu braço uma mangueirinha, eu estava tomando soro. Só soube disso pouco depois, quando uma moça de branco entrou no quarto e foi logo perguntando.

– Como está, esta menina?

– Já acordou?

– Você está bem Mônica?

Ainda um pouco zonza e toda dolorida, perguntei onde estava.

– Você está no hospital menina, chegou aqui desacordada, cheia de hematomas no rosto e nas nádegas, mas já foi medicada e agora está bem, disse a enfermeira.

Pela primeira vez na vida me senti segura, estava deitada em uma cama, havia lençóis sob e sobre mim, com um cheirinho gostoso, além da mão macia que afagava meu cabelo e falava comigo com voz doce, como nunca na vida havia escutado. Fechei meus olhos num pedido de socorro. Queria permanecer ali para sempre, com aquela mão macia acarinhando meus cabelos, falando manso. Era um anjo, eu devia estar no céu, pois é no céu que moram os anjos, e só eles têm mãos macias e fala mansa. Dizem que os anjos protegem as crianças, e, eu ainda era uma menina, apenas uma menina. Por fim, um anjo para me proteger, nunca mais ficaria sozinha, jogada a cruel sorte. Agora tinha um anjo para conversar, poderia esclarecer todas as dúvidas, poderia pedir conselhos, poderia deitar e dormir sem medo de acordar com um desconhecido bulindo meu corpo, rasgando minhas carnes, estuprando minha alma.

– Você está grávida – disse a moça de branco, – vai ter um bebê.

De repente, aquela voz doce se misturou com a voz ríspida de minha mãe, trazendo-me de volta ao mundo, ao mundo rasgado e sujo onde fui criada.

A sentença estava dada. Mal sabia eu o que era ser gente, muito menos que dentro de mim havia mais gente. Saí do hospital com um só pensamento, eu era tão carente de mãe, não poderia, não queria ser mãe.

São Judas. Aquele Judas me traiu! –  Era tudo o que eu conseguia pensar.

Para não ser obrigada a me deitar outras vezes com aqueles gambás porcalhões que frequentavam o barraco de minha mãe, fugi com o primeiro homem que prometeu cuidar de mim e do filho que eu carregava.

E cuidou, aquele safado! Na cama espremida do Barraco de Kleiton me sentia protegida. Ele falava manso comigo, tinha sempre arroz e feijão, e, uma ou duas vezes por semana trazia um pedaço de carne. No início do mês, quando recebia o salário de ajudante de pedreiro, trazia também frutas e um pacote de caramelos. Tratou-me como filha, não buliu em mim até o dia que Candê nasceu. O choro do menino irritava-o, queria que eu fizesse a criança calar-se de qualquer maneira. Foram três meses de desespero. Eu e a criança dormíamos do lado de fora do barraco, debaixo de umas tábuas improvisadas. Aliás tudo na minha vida foi um improviso.

Eu não conseguia sentir afeição pelo neném, que era como um castigo, por isso, só parava de chorar quando estava grudado em minha teta. Pensei em deixá-lo morrer de fome, podia fingir amamentá-lo, mas a pestinha não parava de berrar, até tentei durante uns três dias, mas quando chegava à noite com Keiton em casa, eu me obrigava a dar-lhe um cala-a-boca. Tudo em Candê lembrava meus sonhos de menina interrompidos. Ele lembrava os sonhos que não tive, os sonhos que nunca quis ter. Tinha sonhado, em minha ingenuidade, com uma casa para morar, com um jardim de flores, não de guanxumas. Via as figuras das casas, nos livros da escola, e pensava – um dia, ainda, terei uma dessas para mim.  Nas aulas de arte, meu desenho predileto era desenhar a minha casa, que em nada se parecia com este barraco de chão batido, cheio de frestas nas paredes e no telhado de lona, de uma peça só, sem latrina, sem jardim e sem esperança. Nem a ilusão dos livros tinha mais.

Depois de três meses, Candê foi se acalmando, e para o meu desespero Kleiton começou a se insinuar, demonstrando interesse em praticar o Sétimo Pecado Capital que não demorou a acontecer, confirmando mais um sonho que não tive. Um ano depois, com Kleiton e eu praticando o pecado da luxúria, nascia Caison, Jaison, Geison e Sonho. Caison, Jaison e Geison adoram brincar com a bola, feita de meia, mas as guanxumas atrapalham. A pequena Sonho que nasceu seis meses antes de Kleiton morrer vive a incerteza do amanhã.  Ela nasceu muito doente, tem cólica e dor de ouvido continuadamente, o médico do SUS diz que não cuido direito dela, mas eu preciso trabalhar para comprar o leite para as crianças e os remédios de Sonho, aqueles que não têm no PS do meu bairro. Preciso percorrer a cidade com a carrocinha para catar o papelão.

 

 

Depois de três noites sem dormir, embalando Sonho que não parou de chorar, o cansaço e a desesperança se rasgaram ao meio. Vejo, pela primeira vez, o quanto é lindo meu bebê, seus cabelos pretos são bastante longos e espessos para uma criança com tão pouco tempo de vida, vão além de sua testa, ofuscando seus olhinhos negros e  realçando ainda mais a pele clara de seu rostinho arredondado. De repente, em uma fração de segundo, Sonho pareceu adivinhar meus pensamentos, aquietou-se, suas faces relaxaram e de seus lábios bem desenhados brotou um sorriso, o primeiro e o último.

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2 comentários em “A Carrocinha (Leda Spenassato)

  1. Leda Spenassatto
    10 de setembro de 2015

    Obrigada Fabio, muito obrigada mesmo, é sempre muito bom receber críticas ou sugestões, elas nós impulsionam a escrever melhor.

    Quanto a acolhida do pedreiro ser ou não verossímil he he hhe hhhe….
    Não duvide! Tem homens e homens nesse mundo louco.

    Grande Abraço.

  2. Fabio Baptista
    10 de setembro de 2015

    Olá, Leda!

    Gostei de algumas coisas no seu conto, de outras não. Infelizmente no final o saldo acabou neutro, mas as partes boas mostram um grande potencial.

    Vamos lá:
    Eu gostei do jeito cru que você narrou. Sem floreios, e tal. Casou perfeitamente com a história que estava sendo contada. Também gostei da história ter se mantido num ritmo único, mostrando uma vida fodida do começo ao fim, sem descambar para algo estilo conto de fadas, como cheguei a temer que fosse acontecer no final.

    Porém, durante a narrativa você acabou ficando repetitiva em alguns pontos. Falando a mesma coisa várias vezes. Às vezes isso é bom para reforçar uma ideia (que o pai é bêbado, que os caras que pagam a mãe são nojentos, etc.), mas aqui passou do ponto.

    Também achei pouco crível algumas passagens como a acolhida do pedreiro que ocorreu sem mais nem menos. Não é muito verossímil um homem pegar uma mulher (uma menina, na verdade) já grávida e trazer para casa pensando num plano de “longo prazo” para usá-la sexualmente depois do parto… bom, eu acho que não, pelo menos.

    Além disso, foi bem sutil, é verdade, mas senti (e isso foi totalmente subjetivo) uma certa panfletagem no conto. Posso estar errado, mas senti.

    Para encerrar, destaco uma frase que gostei bastante:

    “A sentença estava dada. Mal sabia eu o que era ser gente, muito menos que dentro de mim havia mais gente.”

    Abraço!

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Publicado às 9 de setembro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .