EntreContos

Literatura que desafia.

Orquídea, Sorvete & Chocolate (Ricardo Labuto Gondim)

Para a Srta. T.

O restaurante era uma ilha no topo de um prédio no Centro do Rio cercado de varandas e vidros por todos os lados. Cento e oitenta graus de toldos e cobertas filtravam o calor, mas não a luz. Tudo parecia conciliado com a sexta-feira. Estava com dois Guilhermes, Tolomei e Sucena, meus editores. O almoço era uma celebração. Uma fidalguia dos dois. Eu deixava a editora e dava um passo importante. Eles queriam deixar claro que se alegravam comigo e por mim – e me apoiavam.

Nesse brilho solar e fraterno reparei nela.

Havia uma mulher oriental – linda como poucas em qualquer parte do mundo – em uma mesa com três homens distintos de camisas de punho e colarinho engomado. Dois de costas para mim e outro ao lado dela, que estava em um ângulo perfeito para o meu olhar admirado.

Eu vestia uma camisa xadrez arregaçada no cotovelo, uma calça cheia de bolsos, pouca coisa para guardar neles e muito espaço para um número de telefone. “Como é bonita”, pensei, consciente de que a beleza vinha da Terra do Sol Nascente. Que olhos exóticos. Grandes para o Oriente em uma moldura de cabelos lisos, franja impetuosa e pele de leite. Parecia a figura de um mangá desenhada por um artista excepcionalmente talentoso.

Ao meu lado, Tolomei observou o quanto eu reparava nela.

— Bonita — disse. — Pena que está acompanhada.

— Ela não está acompanhada.

— Como?

— São colegas de trabalho, Watson. Você vê, mas não observa. Existem três evidências. Primeiro, estão todos à vontade entre si. Segundo, ela não olha pra ninguém em especial quando ri, gesto comum entre casais.

— E a terceira evidência?

— Sou religioso e acredito em milagres.

Sucena é um dos poucos homens que conheço que entende as mulheres. Note bem, não é “entender de mulher” como a gente diz no botequim. É alguém que se esforça para entendê-las de fato. Um homem para ser ouvido. Ele se interessou, girou na cadeira do modo mais despreocupado do mundo e fingiu procurar o garçom.

— Muito bonita — sentenciou.

— Eu reparei.

— Ela está olhando pra você?

— Discretamente. Mas não demonstra nenhuma intenção. Vou ter que mostrar a minha.

Tolomei suspirou. É muito bem casado, pai de uma menina linda e só deseja paz e tranquilidade. Como frequentemente acontece, mesmo em seu caráter excepcional é um homem tentado pelas coisas mais prosaicas.

— Ela está com três caras na mesa. Basta um levar a mal pra você criar um problema. Eu estou gordo. No máximo vou chamar a ambulância ou servir de testemunha.

— Homens educados não criam problemas — eu disse. — Nós sabemos pedir desculpas.

— Alguns médicos e agentes funerários contestariam a tese. E também a maioria dos delegados.

— Nenhum que me conheça.

A conversa passou à questão da sobremesa, debatida como um imperativo categórico. Havia certa relutância. Foi a minha vez de suspirar.

— Tarde demais, rapazes. Depois deste almoço temos vaga garantida no Terceiro Círculo.

Eu estava alerta. O almoço da beldade também terminara. Não como doces, mas os rapazes não resistiram aos apelos do sorvete de amendoim trazido em uma bandeja enorme, com barras de chocolate. A escultura efêmera de um Michelangelo incógnito. A bandeja se impôs ainda de longe e capitou as atenções da Tulipa do Oriente. Eu a fixei, esperando que seu olhar passasse por mim e me encontrasse. Quando aconteceu, sorri, acenei e perguntei movendo os lábios.

“Quer um pouquinho?”

Ela sorriu, negou, agradeceu e eu achei que ela merecia a bandeja inteira e todos os chocolates e sorvetes da Terra. Que sorriso, aquele. Poderia extinguir uma guerra ou provocar outra, e ela o usava assim, sem a supervisão ou o conhecimento das autoridades.

Na mesa, o homem de costas pra mim ergueu o dedo no gesto universal de quem pede a conta. Era hora de entrar em pânico. Me voltei para o Guilherme Sucena estendendo o prato que seria meu.

— Gui, metade deste sorvete. Aqui. Agora.

Ele me olhou como um cachorro na chuva.

— Você quer o meu sorvete?

Confesso, o olhar me comoveu. Mas existem coisas que a gente precisa fazer.

— Pelo amor de Deus, homem, eu te compro um quilo de Häagen-Dazs. Mas põe metade desse sorvete aqui, agora. E o chocolate.

Então ele se mostrou alarmado.

— O chocolate também?

Tolomei entendeu tudo.

— Não acredito que você vai fazer isso. Saí pra almoçar, estou cheio de trabalho e vou fazer a digestão na delegacia. Como é que eu vou explicar isso pra minha esposa?

Não havia tempo para filosofias.

— Guilherme Sucena, são vinte anos de amizade. Me dá esse sorvete e me dá agora, pelo amor de Deus.

Foi baixo, eu sei. Mas para que servem os amigos?

Enquanto Sucena repartia o sorvete, Tolomei balançou a cabeça.

— Quais as suas últimas palavras?

— “Em tudo deve o homem ser livre e corajoso.”

— Bonito. Fica lindo em uma lápide. Teu?

— Beethoven.

— Viveu mais do que você.

Sucena me alcançou o prato com sorvete (aqui entre nós, ele poderia ter sido mais generoso com o chocolate). Eu levantei e me acerquei da outra mesa. O tênis fez ruído no assoalho. Elevei ligeiramente a voz porque mesmo uma pequena ousadia não pode ser cumprida pela metade. A circunstância exigia um pouco de firmeza, de afirmação. Com isso, meus amigos ouviram a frase que tiveram a bondade de me repetir a tarde inteira.

— Boa tarde, senhores, com a permissão dos cavalheiros.

Estendi o sorvete para a Princesa de Jade. Os olhos de mangá se arregalaram, mas permaneceram fixos no prato. Só recebi um lampejo, um raio. Nenhum homem no mundo pode competir com sorvete ou chocolate, eu sei, mas isso não impediu o desapontamento. Ela sorriu, agradeceu e aceitou a cortesia. Um dos homens me olhou espantado. Os outros dois pareceram sorrir. Observei tudo pela visão periférica. Não tinha olhos para outros olhos.

— Viram? — Eu disse, tornando a sentar. — Nenhum hematoma.

Tolomei balançou a cabeça.

— “Boa tarde, senhores, com a permissão dos cavalheiros”. Muito bom.

Foi a primeira repetição. As outras quatrocentas e noventa e nove se deram em caráter homeopático ao longo da tarde. Sucena, que descaradamente se voltara para assistir à performance me encarou.

— Ela gosta de sorvete — disse com um sorriso franco. Parecia recompensado pela perda parcial da sobremesa. Um homem de virtude e coração.

Eu espreitava a Miss Japão. Ela rastreou a mesa, disse qualquer coisa e chamou o garçom. Não estava comendo. Entendi que faltava a algo. Ameacei levantar, Sucena me deteve.

— Agora você vai fazer o quê? Perguntar se ela quer salada de frutas?

— Faltou a colher.

— O garçom vai trazer.

— Ela mal olhou pra mim — disse. — Ela preferiu o sorvete.

Segui em linha reta para o balcão. Abordei o gerente.

— Senhor, preciso de uma colher.

— O garçom vai levar na sua mesa.

— Não, é para uma moça linda. Eu tenho que levar a colher.

Ele sorriu e apontou para o lado, onde em um armário antigo e lustroso os garçons recolhiam pratos e talheres.

— Querido, preciso de uma colher.

O jovem garçom me olhou envergonhado.

— Senhor, eu levo agora…

— Não, não, sou eu quem tem que levar. É para uma moça linda.

Ele me estendeu a colher suspensa pelo cabo.

— Mas qual é o protocolo? — Perguntei.

Ele me estudou como se eu fosse o ET de Varginha e me alcançou outra colher em um prato de sobremesa.

— Mão direita ­— disse. — O prato em linha reta. Se aproxima pelo lado.

Doutorado em garçonaria da colher, voltei à mesa da Orquídea do Fujiyama (não tem orquídea no Fujiyama, mas estou tentando ser poético) sob a atenta supervisão dos meus amigos. Não os encarei. Não sei o que pensavam ou como reagiam. Eu poderia rir ou me apavorar, o que seria mais provável. Abordei a mesa como ensinado e surgi ao lado da Flor de Íris. Foi a vez da segunda frase do dia, que ouvi até sangrar.

— De novo com a permissão dos cavalheiros.

Pousei o prato na mesa, que já estava vazia. Ela sorriu, agradeceu e desta vez me encarou.

— Você é maluco — disse Tolomei enquanto eu me sentava. — Mas parabéns.

— Parabéns — disse Sucena. — “De novo com a permissão dos cavalheiros” foi galante.

Tolomei negou com a cabeça.

— Nem se compara com “Boa tarde, senhores, com a permissão dos cavalheiros”. “Senhores” e “cavalheiros” no mesmo período é um modelo de construção. Pena que ele não escreve assim nos livros dele. A gente ia vender muito mais. Pedimos a conta?

— Só não vamos sair antes dela — disse. — Tenho tudo planejado — e me voltei para o Sucena. — Me empresta um cartão teu. Rápido, por favor, velho amigo de vinte anos.

— Você vai dar o meu cartão pra ela? Por mim, tudo bem.

— Não entendi — disse Tolomei, quase com alarme. — Você vai entregar o cartão de outra pessoa? Isso é falsidade ideológica.

— Confie em mim.

Tomei o cartão que Sucena me estendeu, me inclinei – de modo que o homem de costas para mim impedisse a minha visão pelo outro, que estava de frente — e fixei a Flor-de-ameixeira do Leste até que ela me percebesse. Apontei o cartão, apontei para ela, bati os dedos na mesa e apontei de volta pra mim. Movi os lábios.

“Deixa o seu cartão na mesa. Pra mim.”

Repeti a mise-en scene duas vezes.

— Duvido! — Sucena explodiu levando a mão à boca em seguida. Foi alto demais, mas acho que ele é Flamengo. — Du-vi-do. Você não tá com essa bola.

— Também duvido — disse Tolomei.

Sucena não quis saber e girou de novo na cadeira. Narrou os eventos como em uma partida de futebol.

— Ele mexeu na bolsa… Uh! Pegou o cartão de crédito… Nem sinal de outro cartão… A máquina apitou… Levantou o tíquete… E a partida se encerra… Sem prorrogação, sem disputa de pênalti… Nada… Um a zero a menina… E eu fiquei sem metade do meu sorvete.

Os homens se levantaram. Eram de fato cavalheiros, sorriram e nos despedimos. O Girassol da Ásia agradeceu e acenou com naturalidade. A Rádio Sucena voltou a transmitir.

— Não acredito… Você não vai acreditar… Tem um cartão na mesa…

Ele se ergueu, mas eu o puxei de volta.

— Homem, não! O corredor. O saguão dos elevadores. Eles podem nos ver daqui. Você vai embaraçar a moça.

O garçom se aproximou para limpar a mesa.

— Meu irmão, se você arrumar essa mesa agora vai ter que fugir de casa — disse entredentes. — Tem um cartão aí pra mim, não posso pegar agora!

Ele gargalhou e se afastou espreitando o saguão, o fofoqueiro. Esperamos. A porta do elevador ainda se fechava quando Sucena se atirou ao cartão.

— Senhorita T.

Os dois fidalgos do mundo editorial não me permitiram dividir a conta. Eu agradeci a cada pessoa que incomodei, incluindo o gerente, o fofoqueiro e o rapaz que me doutorou em prestação de serviços de colher. Ele disse que me observou e que fiz tudo direitinho. Me orgulho disso. Servir, ser garçom, é uma das profissões mais nobres do mundo.

Foi a nossa vez de tomar o elevador.

— “Boa tarde, senhores, com a permissão dos cavalheiros”. Muito bom.

— “De novo com a permissão dos cavalheiros”. Que inspirado.

 

* * *

 

Em nosso primeiro encontro a Senhorita T – a Orquídea do Fujiyama, a flor mais suave dos dois hemisférios – disse que, assim como eu, não dá a mínima para doces. Portanto, nem o sorvete ou o chocolate causaram qualquer efeito. Suponho que tenha sido a atenção irrestrita. A afirmação do meu interesse legítimo por uma delicada ousadia. E a repetição da ousadia.

O que decidiu tudo foi a colher.

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12 comentários em “Orquídea, Sorvete & Chocolate (Ricardo Labuto Gondim)

  1. monica sampaio
    10 de setembro de 2015

    Meu amigo Ricardo, assim não vale, queremos continuação.

  2. Rui Fernando Costa
    1 de setembro de 2015

    Como sempre, meu querido amigo, o que decide tudo é a colher.

  3. helena
    27 de agosto de 2015

    Ricardo, adorei seu texto, não desgrudei os olhos… Uma história envolvente, vai nos prendendo a cada frase, parabéns, empolgada por ver mais de seus escritos. Boa tarde, beijo.

  4. lary ramos coutinho (Larry Coutinho)
    27 de agosto de 2015

    Faz tempo que não leio uma boa história, e bem contada. Tá
    bom !.

  5. Céumar Turano
    23 de agosto de 2015

    Oi, Ricardo. Gostei muito do texto. Não consegui parar de ler. O texto flui muito bem. Tem leveza, suspense, humor, enfim, ingredientes que fazem um conto ser tão bom como um sorvete de chocolate. Muito bom mesmo! Parabéns!

  6. Ricardo Labuto Gondim
    17 de agosto de 2015

    Agradeço a todos os comentários e todas as críticas. Muito obrigado a todos. 🙂

  7. Claudia Roberta Angst
    17 de agosto de 2015

    Olá, Ricardo. Li o seu conto assim que foi postado, mas confesso que fiquei com preguiça de comentar de imediato. Nem me dei conta do tamanho do texto, pois logo vi que havia diálogos e isso facilita tudo. Provavelmente, não serei a única a imaginar se a narrativa é baseada em fatos reais. Curiosidade feminina, atiçada por sorvete, flores e chocolate. O tom bem humorado do conto convence qualquer leitor de que é preciso correr riscos, hoje mesmo, o mais rápido possível. Parabéns!

  8. Fabio Baptista
    16 de agosto de 2015

    Gostei muito!

    Sua escrita fluiu tão bem que no começo parecia que eu estava lendo um texto meu! Daqueles que a gente escreve, esquece que escreveu e depois de um tempo encontra por acaso na gaveta (ou no irremediável caos da pasta C:/Contos/…) e lê e dá risada com ares de novidade.

    Mas não foram necessários muitos parágrafos para concluir que a técnica empregada aqui está um belo degrau acima da minha.

    Parabéns!

  9. Fabio D'Oliveira
    16 de agosto de 2015

    ☬ Orquídea, Sorvete & Chocolate
    ☫ Ricardo Labuto Gondim

    ஒ Físico: Um texto com forma definida, representando que o autor já determinou seu estilo. Suas características e peculiaridades, porém, foi impossível definir. Talvez todo escritor seja assim, um eterno mistério em constante mutação. Não existe nada para adicionar na estrutura do texto, ele está praticamente perfeito.

    ண Intelecto: Vemos uma história simples, onde o objetivo maior é a conquista do coração de uma verdadeira orquídea. A complexidade está nisso, no ritmo da dança, como a sedução acontece. Os personagens são bem desenvolvidos, mas os diálogos são pouco críveis. Pomposos demais, diria. Mas isso não tira a beleza total do enredo e seus detalhes.

    ஜ Alma: Todo escritor transporta um pouco da sua alma para a sua obra. Isso é inegável. Assim, conseguimos identificar que o autor possui a alma tão bela quanto esse texto. É difícil afirmar qual é o talento das pessoas, sendo possível identificá-lo apenas através da demonstração dela. Nesse texto, vejo um pouco disso. Excelência pura!

    ௰ Egocentrismo: Gostei do texto, em linhas gerais. A cotidiano não me atrai. A sedução meramente carnal e intelectual também não. Gosto do que é mágico. Assim, explico o que mais me desagradou nesse conto. Mas ele é belo!

    Ω Final: Acredito que eu não consiga adicionar muita coisa. Eu teria que agradecer o autor por nos presentear com esse belo trabalho. E eu agradeço!

    ௫ Nota: 8.

  10. Bia Machado
    16 de agosto de 2015

    Muito bom, Ricardo! Gostei mesmo! Quando vi o texto, o tamanho da coisa me intimidou, deixei pra hoje. Mas foi mais rápido do que queria, na verdade. Enquanto não cheguei ao final e não fiquei sabendo o que aconteceu não sosseguei. Espero que seja não-ficção. Uma história assim não deveria ser apenas ficção… O penúltimo parágrafo bem que poderia ter mais detalhes, né? Isso não se faz com uma leitora, rs. Ou talvez, isso tenha ajudado a compor toda a delícia desse texto. No meio da história achei um “capitou”, é isso mesmo? Obrigada!

    • Ricardo Gondim
      17 de agosto de 2015

      Bia Querida, o texto tem outros erros também. Escorreguei na revisão na pressa de publicar. Mas é um texto despretensioso e não vou esquentar a cabeça com isso. Tá valendo.

      • Bia Machado
        17 de agosto de 2015

        Tá, sim! E o texto me envolveu tanto que só esse que notei. Os outros foram insignificantes diante do enlevo. 😉

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Publicado às 14 de agosto de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .