EntreContos

Detox Literário.

A Primeira Manhã (Gustavo Carlos)

Aquela foi a primeira vez em que eu tomei consciência de que algo acontecia muito além do alcance de minhas mãos.

Sentado à mesa, eu comia alguns biscoitos e bebia o achocolatado gelado, enquanto minhas pernas balançavam-se muito distantes do chão, ao que me parecia. A cozinha era minimamente iluminada pela luz que tentava invadi-la pela porta que dava no quintal, mas de forma alguma isso chegou a me incomodar. Eu só pensava em como era curioso sentir o vento que entrava pela porta e esfriava toda a casa.

Você me apressava, dizendo que era hora de ir para a escola, que naquele tempo em nada me interessava. Aprender o alfabeto era o seu único atrativo, enquanto todo o resto era interminavelmente maçante, entediante. Mas aquela manhã parecia me convidar de uma forma completamente nova.

Eu reparava, enquanto nós saíamos e você trancava a porta, na sombra que o telhado projetava sobre o quintal tão intensamente iluminado pelo sol. Eu havia visto aquilo já inúmeras vezes, mas que algo ali era muito diferente do comum.

A imensa claridade ofuscava meus olhos, desacostumados, enquanto caminhávamos até o portão. Eu tentava compreender como uma luz tão forte podia me aquecer tão pouco como naquela manhã, e a sensação me foi tão surpreendente que nem mesmo uma pergunta boba eu pude formular.

Saímos à rua e, enquanto você trancava o portão, observei algumas flores de ipê amarelo esmagadas pelos carros que passavam. As cores me eram particularmente novas naquele dia, e tudo parecia se realçar de novas formas. Vi que a calçada estava úmida, e me diverti ao desenvolver, em pleno silêncio, uma lógica que me permitiu compreender que provavelmente havia chovido consideravelmente enquanto eu dormia.

Engraçado pensar em como as distâncias me pareciam imensas, naquele tempo. Enquanto caminhávamos, eu tentava calcular quão longe a próxima esquina estava de nós, concluindo erroneamente que ainda levaríamos incontáveis minutos até ela.

Apesar de imaginar caminhos inacabáveis, eu não me preocupava com o cansaço ou qualquer outro problema desta ordem. A única coisa que eu tinha em mente era que, ao chegarmos à escola, nos despediríamos, e então eu assistiria, parado junto ao batente da porta da sala de aula, você percorrer o caminho de volta, enquanto eu ficava pra trás, tentando imaginar quanto tempo ainda restaria até você ir me buscar.

O desânimo de enfrentar aquelas próximas horas começava a tomar conta de mim, até que chegamos à imensa avenida das torres de transmissão de energia, que naquele dia parecia ainda mais quilométrica e íngreme do que eu me recordava. Minha atenção voltou-se à torre mais próxima, titânica, que parecia prestes a tocar um céu sufocantemente imenso, de um tom azulado indefinível. Vi também as nuvens quase transparentes que corriam velozmente em direção a algum lugar no infinito, enquanto o vento açoitava meu rosto com um pouco mais de força. Minha respiração suspendeu-se por um instante, e reparei novamente em folhas de ipê amarelo, assim como na grama coberta de orvalho, que brilhava reconfortantemente.

Eu reparava em tudo, ao mesmo tempo em que me entregava à hipnose daquela imensidão acima de nós. O calor da tua mão, segurando a minha, me parecia mais intenso do que nunca, e eu imaginava que nós estávamos muito distantes de qualquer outra pessoa no mundo.

E de súbito percebi que, pela primeira vez, eu estava sentindo o que era uma linda manhã. Não me importei com o fato de que ela logo iria acabar, quando eu atravessasse os portões da escola, pois sabia que logo outras manhãs como aquela viriam, assim como logo você voltaria para me buscar.

É curioso como essa cena toda consegue se instalar por horas, e até mesmo dias, entre os meus pensamentos. Eu costumava tê-la como uma pequena satisfação, como um pequeno tesouro de um tempo que já me parece tão distante. Mas, por mais estranho e temerário que isso me pareça, é de uma forma cada vez mais lúgubre que ela me ocorre.

A cada vez que eu me lembro do céu azul, das nuvens e torres, das flores de ipê amarelo e do calor da tua mão, a melancolia parece se personificar de forma mais viva e sólida dentro daquela cena. Eu a sinto como uma pessoa que, parando ao meu lado em frente às torres, põe a mão sobre o meu ombro, do lado oposto ao que você me segurava pela mão.

Ela me sorri, tristemente, me dizendo muito sem proferir palavra alguma. E assim entendo que toda aquela alegria irá, um dia, se tornar uma ferida em meu coração, quando eu não mais sentir o calor de tua mão agarrada à minha.

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Informação

Publicado às 20 de junho de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .