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Detox Literário.

Magos espaciais movidos a vapor (Alan Cosme Machado)

Magos Espaciais Movidos a Vapor.odt

Nenhum dos planetas daquele sistema solar era o nosso, apesar disso, todos eles tinham características que remetiam a algum elemento geográfico, cultural ou histórico da nossa Terra. O sol, como em nosso sistema solar, ficava no centro. Porém, ele era circulado por setenta e seis planetas. Os mais próximos da estrela brilhante tinham climas que variavam do desértico ao tropical, enquanto os mais afastados possuíam climas gelados. Todos aqueles mundos tinham atmosfera, gravidade e meio ambiente propícios para a sustentação da vida humana. O movimento de rotação e translação daqueles planetas era extremamente complexo e não alinhado, fazendo com que desde o mais próximo ao mais afastado tivessem dias de mesma duração e uma similar passagem dos anos.

Lusitânia, trigésimo primeiro planeta depois do sol.

Afastado de sua casa, mas ainda na propriedade de sua família, Marcos Mignola assistia às caravelas espaciais partirem. O garoto de treze anos se impressionava com aquelas embarcações movidas a vela e a vapor que conseguiam suportar os rigores do espaço e as altas temperaturas das entradas nas atmosferas. Os barcos eram simples, feitos de madeira e prego, o que os tornavam ainda mais impressionantes.

A contemplação de Marcos só teve fim quando mãos femininas, mas não delicadas, cobriram seus olhos. – Jurema? O que faz aqui?

Marcos era um garoto branco de cabelos negros e lisos. Seu nariz era um pouco grande e curvado para baixo, mas nada que prejudicasse a beleza do seu rosto. Sua família era nobre, seu pai era um coronel em sua cidade. Já Jurema era filha da empregada da casa da família Mignola. A garota tinha cabelos castanhos e encaracolados, uma pele cor de canela e olhos agateados. Seu planeta de origem era considerado subdesenvolvido, o décimo depois do sol, o florestal Anhanguera.

O pai de Jurema, um homem branco desconhecido, engravidou sua mãe, Potira, à força. Por esse motivo ela foi expulsa da sua tribo. Não a culpavam por ela ter transado fora do casamento, o que em sua cultura não era considerado uma ofensa. O cacique não gostou foi de ter uma criança mestiça entre eles. Foi dada a Potira a opção de permanecer entre eles se abandonasse Jurema na mata, onde o bebê certamente morreria pela mão do tempo ou de alguma fera. A índia não aceitou a ordem de seu líder e preferiu tentar a sorte em outro planeta.

– Mãe liberou. Tô sem serviço na lida. Qué brincá?

Apesar de já estar quase na idade de casar, Marcos mantinha alguns hábitos de criança como brincar de pega-pega e esconde-esconde. Porém, a medida que foi envelhecendo o teor dessas brincadeiras foi ficando cada vez mais sexualizado, indo de um roçar de corpos menos inocente à beijos sem língua na boca.

A casa dos Mignola tinha televisão de madeira a válvula, sua imagem preto e branco era nítida, um aparelho de última geração. O garoto pouco a usava, mas certa vez assistiu à um filme escondido dos pais que lhe chamou atenção. Era a história de um garoto bruxo que aprendeu magia em uma escola para feiticeiros.

Marcos pegou um galho do chão, limpou suas folhas e começou a balançar o braço portador da varinha improvisada como um maestro de orquestra. Em um latim inventado ele lançava feitiços de mentirinha.

– Que tá fazeno, patrãozin? – Perguntou a índia com um olhar atravessado, achando a atitude do garoto ridícula.

– Magia. Vi num filme.

– Isso né magia não, bobo.

– O que você sabe sobre magia?

Jurema virou de costas para Marcos e abaixou o seu vestido revelando boa parte de suas costas. Não foi sua intenção, mas a demonstração sensual de sua pele impressionou o garoto, que nunca viu uma mulher nua ou seminua antes na vida. A índia trazia uma marca nas costas, um desenho do rosto de um monstro ou divindade pagã.

– Magia tem preço. Paga na carne e inté na arma. – Em tantos anos de convivência, Marcos nunca podia imaginar que Jurema fosse tatuada. Deixando ainda mais claro que ele sabia muito pouco de sua amiga, a índia apontou para uma pedra e fez com que ela levitasse por poucos segundos.

-Patrãozin?! – O primeiro contato com magia fez com que Marcos se assustasse e fugisse. Ele se refugiou no casarão onde morava com seus pais. No quartinho dos fundos, onde havia um altar com imagens sagradas, o menino que nunca foi muito religioso começou a orar de joelhos pela tarde inteira. Um fato que chamou a atenção do seu pai.

– Eu vi magia. – Disse o menino, quando inquerido o porquê de sua fé repentina.

Preocupado, aja vista que era um homem tradicionalista, o senhor Frederico Mignola pegou nos ombros do filho e perguntou com firmeza. – Onde? Quem é o feiticeiro maldito que circunda nossa casa? Escute, filho. Magia e feitiçaria não são coisas de Deus!

Quase que por reflexo Marcos citava o nome de Jurema, mas a amizade que sentia por ela era maior do que o medo de qualquer punição, seja do seu pai ou divina. – Foi um desses mendigos de estrada. Ele levantou uma pedra sem tocá-la. Provavelmente nunca mais vai voltar.

– Graças a Deus! Magia corrompe a alma. Ela é ardilosa, consegue fascinar e seduzir como o pior dos vícios! Nunca a utilize! Promete não me dar esse desgosto, promete?

Marcos acenou positivamente com a cabeça de forma exagerada e completou com um sonoro sim. Estava sendo sincero, ao menos naquele instante.

Britânia, quinquagésimo segundo planeta depois do sol. Dez anos depois.

 

Apesar de viver lá há uma década, Marcos ainda não se habituou ao estilo de vida movimentado da capital de Britânia, a cidade de York. Ele sentia saudade de sua cidade de origem, em Lusitânia, a pacata Ouro Verde. Porém, as escolhas que fez o forçaram a deixar seu lar praticamente fugido.

As ruas da cidade eram cheias de casas coloridas e de uma arquitetura primorosa, que as permitiam serem um pouco tortas ou terem a base pequena e o teto largo mantendo-se firmes. O calçamento das ruas era feito de pedras, onde veículos motorizados começavam a substituir as carroças puxadas por cavalos. Os carros, por sua vez, eram pouco diversificados. Mais pareciam charretes com grandes faróis redondos na frente. Extremamente rápidos, aqueles veículos conseguiam atingir a impressionante velocidade de quarenta quilômetros por hora.

As damas de boa família usavam vestidos compridos e andavam com guarda-sol. Os homens da elite davam preferência as roupas em tons escuros e cartolas com canos de diferentes tamanhos. Os pobres, geralmente alienígenas, vestiam roupas de algodão com cores neutras como branco, cinza e marrom claro. Para proteger todos esses cidadãos (principalmente os da primeira classe) a polícia de York tinha a disposição robóticos da linha Sentinela. Colossos cromados mecânicos de três andares que faziam os criminosos tremerem só com sua presença. Eram equipados com várias armas e de suas costas uma fumaça escura e espessa saia do que parecia uma chaminé. Seus membros se movimentavam através de mecanismos baseados em engrenagens de rodas dentadas.

Marcos entrou no prostíbulo Anjo da Luxúria, que era o mais elitizado de York. Porém, ele não veio para desfrutar de seus encantos. As prostitutas, belezas que viam de toda parte do sistema solar, viram aquele homem com curiosidade e algumas até com desejo. – O que um homem com poderes mágicos consegue fazer na cama? – Se perguntavam muitas.

Não só pelos seus poderes, a figura despertava o libido pelo seu porte elegante. A roupa e o chapéu pretos acompanhados por uma gravata vermelha e um lenço da mesma tonalidade guardada no bolso do paletó. As damas da noite que prestaram atenção em suas mãos viram tatuagens que cobriam até os dedos e as falanges. Dessas últimas, todas elas apostavam que tirando a camisa muitos outros desenhos em sua pele seriam revelados.

A cafetina, uma mulher bela que beirava os cinquenta anos de idade, levou Marcos até onde ele era necessário. Ao chegar na porta do quarto a mulher foi enfática.

– Descrição é essencial nesse trabalho, feiticeiro. O senhor Benedict Radcliff é um politico importante. A comunidade tradicionalista de Britânia, boa parte de sua base eleitoral, não pode saber que ele frequenta minha casa de prazeres.

– Todo moralista tem seus podres, senhora Elisabeth. Só uma coisinha, feiticeiro é um nome pejorativo. Preferimos ser chamados de magos ou conjuradores.

– Foda-se. Se você resolver esse meu problema eu te chamo até de Jesus Cristo. Mudando de assunto, seu sotaque, você é alienígena, certo? De Hispano?

– Lusitânia.

O casal estava deitado na cama, a mulher em baixo e o homem em cima, um cobertor grosso cobria os corpos de ambos. Marcos começou a removê-lo, mas a mulher protestou em lágrimas devido à vergonha. – Calma, garota. Pense em mim como um curandeiro.

Quando o casal foi revelado em sua condição, Marcos se impressionou. Algum mago havia os amaldiçoado. Quando transaram seus órgãos sexuais se fundiram. Os amantes se transformaram em uma versão bizarra de irmãos siameses.

– Calma, apesar de assustadora, essa é uma maldição simples e fácil de quebrar. – Marcos pôs a palma da mão direita por sobre o casal, fechou os olhos e invocou sua magia. Os enamorados sentiram um choque suportável e em seguida veio a felicidade. Estavam separados.

Marcos Mignola foi pago pela cafetina por seu serviço com uma sacola de couro cheia de moedas de ouro, uma forma de pagamento bem primitiva, coisa de planeta considerado selvagem. Ele se desagradou e deixou isso evidente em sua expressão facial. Mas dinheiro era dinheiro.

– Quando quiser passar a noite com uma das minhas meninas te darei um desconto.

– Agradeço a gentileza, senhora, mas sou casado.

Elisabeth riu enquanto mordiscava uma unha. – A maioria da minha clientela também é.

Sem nem se preocupar em se cobrir, ainda nu, Benedict foi apertar a mão de seu salvador. – Talvez eu precise de um homem talentoso como você na minha equipe. Você daria um excelente segurança. Mas, claro, não um qualquer, um especial, com privilégios especiais.

O dia começou bem, com o pagamento farto combinado a um trabalho fácil, algo raro. Porém, no meio do caminho até sua casa, assim que saiu do bonde, Marcos foi recepcionado por um ovo podre lançado por arruaceiros em um carro em disparada. – Escória! – Eram carecas vestidos de branco e com uma cruz bordada no peito do uniforme, os alto intitulados Inquisidores. Um grupo urbano averso a alienígenas, magos, seres sapientes não humanos, deficientes físicos, idosos, invertidos sexuais, humanistas, feministas e tantos outros grupos sociais que chegava a ser difícil enumerá-los.

Chegando em casa, sua esposa o esperava. Jurema nem perguntou a Marcos qual era o motivo do fedor de azedo em sua roupa, podia imaginar, e começou a despi-lo. Iria colocá-la para lavar. Sem sua camisa, Marcos revelou desenhos que cobriam ambos os braços, sem deixar nenhum centímetro de pele em branco. Suas tatuagens faziam referências não só ao povo anhanguera, mas também a entidades de vários outras culturas, algumas até esquecidas.

– Você tentou apagar para que eu não visse, mas deu para notar que picharam a fachada da nossa casa de novo. O que foi que escreveram dessa vez?

Jurema demorou a responder por receio da reação negativa que seu marido pudesse ter. – “Os feiticeiros não herdarão o reino dos céus”. – Após uma breve pausa ela continuou, elevando o tom de voz. – Amor, eu já te disse. Vamos deixar esses planetas de concreto e vapor. Vamos para Anhanguera, lá a magia é forte e corre livre com a natureza das matas. Não há preconceitos, dinheiro, classes sociais e se quisermos teremos até a liberdade de viver sem roupa. Os anhanguera construíram um Paraíso real, não um imaginário comandado por um deus branco maniqueísta.

– Não me vejo vivendo pelado em um planeta de selvagens.

– Somos “selvagens” por que andamos nus?! Pois lembre-se que ninguém nasce vestido e que é com uma “selvagem” que você aquece sua cama há dez anos. Ter tecnologia avançada não os tornam civilizados. Nós sabemos respeitar o corpo alheio não importando como ele se apresente. Já vocês são um bando de estupradores que procuram um pretexto para agir e culpar a vítima.

A índia saiu da casa pela janela se transformando em uma ave prateada duas vezes maior do que uma águia. Infelizmente para Marcos, ele não voava e nem tinha a habilidade de se transformar em animais, voadores ou não. A única coisa que lhe restou fazer foi recolher as roupas da esposa que acabaram jogadas no chão.

XXX

Parlamento Ministerial de York, local onde os políticos mais influentes de Britânia discutiam sobre o destino de trilhões de habitantes, desse planeta e das colônias. A construção lembrava um templo greco-romano, com suas pilastras redondas e referências subliminares a entidades pagãs. Naquele momento uma votação estava em andamento, ela versava sobre os direitos das minorias. Na frente da construção, dois Sentinelas ficaram a postos além de um grupo considerável da força policial. Uma faixa amarela frágil demarcava até onde o público era permitido se aproximar.

Os manifestantes, alienígenas em sua maioria, portavam cartazes ou se expressavam aos berros. Um deles estava munido com um cartaz com fotos ampliadas em sépia de crianças pobres vindas dos planetas Acaçá e Pérsia. – Os planetas ricos exploram os pobres! Sua sociedade foi construída com o sangue e suor alienígena! – Um outro manifestante furou o bloqueio e tirou de suas vestes uma pistola de madeira, similar as nossas do século XIX, só que com potencial de disparar lasers letais. Assim que um policial o avistou, outros dois foram avisados e o imobilizaram pelas costas. Por fim, o terrorista foi atirado sem o menor zelo em um camburão.

Do lado de dentro do ministério, os políticos se sentiam seguros e confortáveis. Bebiam champanhe e tinham a disposição uma mesa retangular e comprida com um suntuoso banquete. Haviam vários seguranças fazendo a guarnição na área interna, não eram policiais, eram considerados mais capacitados. Entre eles estava Marcos Mignola, que fora contratado por Benedict. A pedido do seu contratante, Marcos usava luvas para esconder suas tatuagens. Devido a sua posição politica tradicionalista, se fosse visto confabulando com magos sua candidatura poderia ser prejudicada.

Marcos tentava esquecer a briga com Jurema, que ainda não havia voltado para casa, e se concentrar no trabalho. Mas era difícil. As vezes ter uma esposa de espírito tão livre dava dor de cabeça, achava.

Do lado de fora, com sua pistola laser, sem motivo aparente, um policial começou a atirar nos seus colegas que, sem opção, revidaram os disparos.

– Os magos devem ser registrados, pois o cidadão comum tem o direito de saber até onde vão suas habilidades. Os que se recusarem serão detidos como terroristas e… – Benedict palestrava no salão em frente a câmeras movidas a manivela, quando Marcos interrompeu seu discurso para avisá-lo da crise com a boca praticamente colada ao seu ouvido. Os demais seguranças fizeram um círculo em torno do político, as gravações foram interrompidas e começaram a deixar o Parlamento.

Pelos corredores, os seguranças escoltavam Benedict até uma saída secreta, mas alguma coisa deu errado. Um dos homens contratados para proteger o politico sacou sua pistola e tentou alvejá-lo, mas foi detido por Marcos que nem precisou usar magia para tanto. – O que está acontecendo? – Perguntou o politico.

– O terrorista parece ser um mago telepata. – Os demais seguranças, quatro ao todo, se voltaram contra o homem que deveriam proteger. Com socos, chutes e entortar de braços foram nocauteados. Marcos pensou que o perigo havia passado, mas antes que se desse conta, Benedict pegou a pistola laser de um segurança desacordado e pôs seu cano na boca. O mago foi rápido e com uma magia fez com que a arma se desmantelasse.

– Traidor, ajudando o inimigo! Tem tanta vergonha de sua gente que esconde suas marcas de mago? – Um vento cortante com precisão cirúrgica rasgou as mangas da camisa de Marcos e suas luvas, revelando os desenhos arcanos escondidos.

O terrorista se mostrou em toda sua glória, um homem que fazia questão de usar uma roupa sem mangas e com a gola aberta até quase a cintura. Deixando em evidência várias tatuagens. Pele pálida, seu corpo era extremamente musculoso para alguém que beirava os sessenta e sua barba espessa e negra era grande e bifurcada. Além dele ser careca e de ter desenhos no topo da cabeça.

As partículas elétricas do ambiente foram atraídas pelos dedos de Mignola. O mago juntou as mãos ao lado do ventre formando uma concha. Ele formou uma bola elétrica com sua força de vontade e a disparou como um foguete contra o seu adversário. Por sua vez, este parou o feitiço com apenas uma das mãos.

– Medíocre! – O mago terrorista usou seus poderes mentais para invadir a cabeça de Marcos. Sob seu ataque, Mignola sentiu uma dor de cabeça similar a quando bebemos algo bem gelado muito depressa, só que infinitamente maior. Suas memórias fluíam de seu subconsciente para o do inimigo.

O que o vilão não contava era que ao invadir a mente do mago que desprezava a sua também seria exposta. – Skald, do planeta Valhala, veja se isso é medíocre. – Com um joelho no chão devido ao último golpe sofrido, Marcos apontou a palma da sua mão direita para a janela e improvisou. Respondendo ao seu feitiço, um Sentinela golpeou o terrorista com um colossal punho de ferro. O braço atravessou paredes e destruiu boa parte da área leste do Parlamento.

Marcos não sentia mais a presença do Skald, mas como também não sentiu sua morte, ele duvidava que o mago assassino não voltaria um outro dia para terminar o serviço. – Será que se teleportou? – Se perguntou Mignola, seu rival parecia poderoso o suficiente para realizar esse tipo de feitiço.

Benedict estava agora seguro. Sabendo que poderia ser taxado de cúmplice só por ter poderes mágicos, Marcos resolveu deixar o local. Ao chegar em casa, encontrou uma esposa preocupada com sua ausência. Ela ficou ainda mais alarmada ao vê-lo naquele estado. – Oi, amor. – Disse Marcos com um sorriso sem graça antes de cair no chão.

XXX

O cabaré Anjo da Luxúria não era utilizado apenas para aplacar os desejos da carne, mas também para acobertar conversas clandestinas de clientes que eram importantes e ricos o suficiente para bancá-las. Benedict não podia correr o risco de ser visto com um mago, já que a identidade de Marcos se tornou publica após a luta com Skald. Benedict ficou em uma situação delicada diante de seus eleitores depois que Marcos, que era sabidamente seu segurança, foi avistado com suas tatuagens místicas expostas ao sair do Parlamento.

A conversa acontecia na adega, onde vários barris de vinho eram guardados. O luxo do prostíbulo era esquecido ali. Ao prestar atenção nos barulhinhos sutis do comodo dava para ouvir o chiar de ratos. Os dois estavam sentados em bancos de madeira diante de uma mesa com topo circular.

– Você me criou problemas, meus apoiadores tradicionalistas ficaram revoltados ao saber que empreguei um mago. Tive que me esmerar para convencê-los de que fui enganado. Sinto muito, mas creio que você não poderá mais me assessorar. Está aqui seu pagamento. – O politico passou para a mão de Marcos papéis de títulos públicos, algo mais valioso do que moedas de ouro. O mago pegou seu pagamento e o guardou no bolso interno do paletó.

– Sem a minha ajuda você morrerá.

– É uma ameaça?

– Desculpe, formulei mal as palavras. Skald, o conjurador que quer a sua cabeça, ainda está vivo. Entrei em sua mente, ele foi o responsável por sua maldição sexual e quer matá-lo por causa de seu plano de governo em relação aos magos e alienígenas. Seus seguranças mundanos não dão nem pro cheiro, ele os controlou como bonecos. Pelos deuses, acho até que eu não sou páreo para ele. Só consegui afugentá-lo. De qualquer forma sou sua melhor opção.

Marcos falou de modo automático, não ligando para a expressão. Mas a menção de sua crença em múltiplas divindades deixou Benedict incomodado. – Mas você não pode ser visto ao meu lado, sinto muito.

Marcos passou a mão direita no próprio rosto e como resultado ele mudou, se tornando bem diferente do que era antes. Ao presenciar tal cena, Benedict deu um pulo para trás, derrubando a cadeira e quase caindo.

– Meu rosto não mudou, você que está vendo-o diferente. Desde que eu evite superfícies reflexivas e não seja filmado estaremos bem. E, senhor Benedict, não se preocupe, fui contratado para protegê-lo e é isso que vou fazer. Mas por que desse ódio por alienígenas e magos em seus discursos?

Benedict respirou fundo e em seguida foi sincero de um jeito que não poderia ao ser filmado em rede planetária. – Meus projetos de governo não refletem minha visão de mundo. Só faço isso por que tenho que seguir a cartilha do partido. É duro dizer isso, mas politica se joga desse jeito.

XXX

– O Diabo veio ao nosso planeta em caravelas espaciais. Foram os alienígenas que trouxeram seus magos, suas religiões pagãs e seus invertidos sexuais para o nosso até então mundo puro.

Afastado do centro de York, em um grande galpão pertencente a uma famosa empresa cujo dono secretamente apoiava o movimento, um exército de duzentos Inquisidores se reunia. Seu líder discursava em cima de um palanque de madeira improvisado. Estava pronto para morrer por sua causa, trajado de branco e com o rosto pintado para a guerra. Usava uma maquiagem com base branca e raiada de preto. Essa tradição de se pintar para a batalha, que ele repetia sem raciocinar, foi trazida para Britânia pelos povos ditos selvagens que ele tanto odiava. Mas vá tentar explicar isso a ele.

– Nossos amigos ricos nos armaram com potentes armas. – O líder Inquisidor trajava uma mochila que parecia um cilindro cromado e portava um mosquete diferente, com vários canos de disparo. Em uma demonstração de poderio, o homem acionou sua mochila e fez com que uma força mecânica ativasse o vapor que o propeliu para o ar. Todos aplaudiram ao vê-lo voar.

– Deus salve o grande inquisidor Albert Gold! – Gritaram os duzentos seguidores carecas em uníssono.

– Semana passada dois magos atentaram contra a vida de um amigo tradicionalista. Não vamos deixar isso acontecer novamente! Não temos seus poderes satânicos, mas estamos em maior número e somos apoiados pela Providência Divina. Vamos proteger a pureza do verdadeiro povo britânico!

– Yeeeaaahh!

XXX

Nada como uma noite de amor para resolver as pendencias de um casal. Após dividirem prazeres, Marcos deixou sua esposa deitada em sua cama enquanto pensava em sua vida sentado na beirada. Ambos ainda estavam nus. Ele pensava que Jurema dormia. Estava enganado.

– O que te preocupa, paixão? – Perguntou Jurema, deitada de bruços e balançando o corpo. Aquela visão era quase que um convite. Porém, nem se Marcos estivesse despreocupado conseguiria atender ao pedido de sua esposa. Para esse tipo de coisa um homem precisa de mais descanso do que uma mulher. Sem gastar os minutos seguintes com sexo, ele desabafou com Jurema sobre o seu último trabalho.

– Está protegendo um tradicionalista preconceituoso?! Feito o seu pai que te expulsou de casa e esse povo que vive pichando nossa casa?!

– Eu preciso do dinheiro que ele me paga. Com esse último serviço a gente pode… Bem, eu queria guardar isso como surpresa. Mas com o que tenho ganhado acho que dá para bancar duas passagens de caravela espacial para outro planeta.

Jurema ficou ajoelhada na cama de supetão. Seus olhos brilharam de expectativa. – E vamos para onde?

Com um semblante pensativo caricato, Marcos respondeu. – Não sei, talvez para um planeta bem selvagem. Anhanguera, conhece?

A índia pulou no pescoço de seu marido, derrubando-o no chão e cobriu-o de beijos.

XXX

As votações que foram interrompidas continuaram duas semanas depois, mas não no Parlamento. Em um lugar não publicado em ofício, no salão de um hotel. Os discursos e os resultados não seriam televisionados, outra medida de segurança para evitar a revelação do local da votação. O único meio que registrava o evento era o rádio.

Não havia Sentinelas parados na frente do hotel, o que levantaria suspeitas, mas três deles ficaram circulando o bairro. A força policial estava reforçada, porém, não concentrada, tentando assim manter o ar de normalidade. Os cidadãos mais alheios, a maioria, não sentiram a diferença. Mas sempre havia aqueles mais atentos.

Diante de radiojornalistas, Benedict expressava novamente o seu discurso de registro obrigatório dos magos e maior controle na imigração espacial. Marcos estava ao seu lado, fazendo sua segurança com um rosto falso.

Enquanto isso, os Inquisidores se aproximavam. Graças ao aliado influente que possuíam, eles sabiam onde era o local da votação e seguiram até lá. Voando em suas mochilas a vapor e com seus mosquetes lasers em punho, eles por onde passaram eliminaram qualquer pessoa que julgaram como sendo inferiores (praticamente todo mundo).

Normalmente a polícia não daria muita importância à morte de pessoas de classes inferiores, mas desta vez a situação se tornou tão alarmante que foram obrigados a intervir. Um Sentinela com suas grandes mãos derrubou alguns deles. Mas até mesmo o gigante considerado invencível veio a baixo devido à concentração de disparos em sua cabeça.

Marcos estava sentindo um suor frio bem mundano quando de repente notou que todos, com sua exceção, ficaram imóveis. As máquinas ainda estavam operando, o que revelava que o salão não foi atingido por uma magia temporal. As pessoas foram que tiveram seus centros nervosos manipulados. Marcos ficou aliviado, se seu inimigo fosse capaz de parar o tempo isso significaria que ele seria detentor de uma magia quase divina.

Skald adentrou o salão sem alarde, abrindo as grandes portas duplas de carvalho calmamente. – Eu gostaria de treiná-lo. Em nosso último encontro você demonstrou ter valor. Pena que o desperdice sendo o cãozinho desse orc.

– O que pretende fazer? Vai matar todos aqueles contrários à magia em York? Por que não continuar o serviço em toda a Britânia ou no sistema solar?

– Não preciso matar todos eles, só os cabeças.

Os dois magos já começavam a arquitetar investidas para o confronto que viria quando foram interrompidos por uma explosão que não fora provocada por nenhum dos dois. Nem um pouco sutis, os Inquisidores entraram no hotel destruindo paredes e causando mortes, inclusive entre pessoas que apoiariam sua causa.

Gold, o líder dos carecas, apontou para o mago valhaliano e ordenou que o alvejassem. O vilão não reconheceu Marcos como feiticeiro devido ao seu disfarce. Cumprindo com seu dever, Mignola foi até Benedict e o derrubou no chão. Sua intenção era protegê-lo com seu corpo. Uma tarefa difícil, pois em meio ao tiroteio o homem se mantinha rijo como pedra.

– O filho do demônio fez isso com ele? – Automaticamente Marcos protegeu seu rosto com o braço. Só então entendeu que o Inquisidor estava preocupado com Benedict, um politico a qual apoiava. O homem não atacaria Marcos enquanto ele estivesse disfarçado. Para o homem de branco ele era só um segurança ou até mesmo um colega ideológico.

– Por favor, tire esse bom homem daqui. – Pediu Marcos, além de continuar dando enfase na farsa, repetindo um dos dizeres de seu pai. – Que a espada da retidão moral recaia sobre os impios!

O Inquisidor pôs a mão direita fechada sobre seu peito e em seguida abraçou Benedict. O politico foi carregado pela abertura criada pela explosão e levado para um lugar que Marcos esperava que fosse seguro. Enquanto isso, Skald lutava contra a multidão de religiosos fanáticos sozinho. Com suas mãos poderosas, ele conseguia esmagar crânios como se fossem frutas podres. Os tiros não penetravam sua pele grossa, mas o machucavam e se perdurasse o ataque ele não resistiria. Marcos ficou tentado a abandonar o valhaliano a própria sorte, mas era honesto demais para isso. Removeu a magia que disfarçava sua identidade e a usou para criar uma bola elétrica realmente poderosa. Três Inquisidores encontraram seu fim.

– Milagre! O traidor quer ajudar a sua gente.

– Não há “nossa gente”. A vida é mais complexa do que esse seu mundinho de herói e bandido. Os deuses ensinam que…

– Menos conversa, garoto. Quero ver do que sua magia é feita.

Enquanto Marcos eletrocutava ou explodia os cilindros a vapor dos inimigos, Skald era mais brutal, matava-os com os punhos ou invadindo suas mentes e forçando-os ao suicídio. Dezenas morreram, mas eles pareciam um enxame e eram fervorosos o suficiente para avançar mesmo sabendo que morreriam. Gold, como qualquer líder de grupo radical, só atacava na vanguarda de início, logo ia para a retaguarda. Devido a quantidade de mortos ele já se preocupava que seus homens não iriam dar conta.

Chegou um momento em que a dupla começou a cansar, Gold então teve um vislumbre de vitória, mas ela durou pouco. Uma ave prateada atacou os Inquisidores com seu bico, matando-os como se fosse uma navalha extremamente cortante. O animal mágico fez questão de deixar apenas um com vida, pois o identificou como líder. Ela aterrissou no salão e assumiu sua forma natural, era Jurema. O mais rápido que pôde, Marcos tirou seu paletó e cobriu o corpo nu da sua esposa.

– Como sabia que eu estava aqui? – Perguntou Marcos.

– Eu segui os Inquisidores, supus que iriam até você. Ah, e esse aqui voava na frente, comandando a matança de vários inocentes. A morte para ele é pouco.

– Monstros! Crias do Diabo. Podem me matar, mas muitos outros irmãos se erguerão! – Gold teve sua mochila arrancada, assim como sua arma. Para piorar sua perna direita estava quebrada em dois lugares. Mais indefeso impossível. Skald invadiu sua mente e ficou a par dos seus desejos e de vários detalhes de sua operação, como, por exemplo, quem era o homem rico que bancava todo aquele armamento. Esse o valhaliano se vingaria depois.

– A senhora acha que a morte para ele é um castigo leve? Concordo. Li sua mente, ele deseja pureza. Posso deixá-lo realmente puro. Só preciso de uma ajudinha. – Jurema e Marcos cederam sua magia para Skald. Sob o seu comando, o casal ajudou o valhaliano a preparar uma maldição.

Cor de pele ou de cabelo não fazem de uma criatura, humana ou não, geneticamente pura. Qualquer etnia em qualquer mundo ou universo foi formada pela combinação de muitas outras pregressas. Skald removeu toda a informação no DNA de Gold que surgiu de mutação ou de combinação étnica. Marcos chegou a sentir pena do pobre diabo, ele fora reduzido a uma ameba unicelular de mais ou menos um metro.

– Se tivéssemos sidos criados para sermos geneticamente puros não seriamos sexuados. – Disse Skald para Gold em desforra, mesmo o líder Inquisidor não podendo mais entendê-lo. – Seriamos como você. Que a partir de agora irá se reproduzir por bipartição.

Gold já começava a se reproduzir assexuadamente, se dividindo em dois, um processo que se mostrou particularmente asqueroso. A cena deixou Marcos enjoado e ele teve que se virar de costas para não vomitar.
Setor Nordeste do Sistema Solar

A embarcação singrava o espaço. Na popa da caravela espacial, Marcos Mignola apoiava seus cotovelos na lateral. Essa era a segunda viagem extraplanetária que fazia e o fascínio perdurava. As estrelas pareciam tão próximas que davam a impressão de que podiam ser agarradas com a mão. O mago tentou fazer isso com uma delas, mas, claro, não conseguiu.

Missão cumprida. Marcos recebeu seu pagamento com bônus após colocar Skald diante de Benedict e fazer com que negociassem pacificamente. O valhaliano deixou de ser um assassino politico e Benedict ganhou culhões para mudar de partido e encarar uma candidatura não tradicionalista, mas que infelizmente receberia menos apoio.

Mãos femininas, mas não delicadas, cobriram seus olhos. – Jurema! – Ao se virar para sua esposa, Marcos a encontrou com um traje que ele achava no mínimo inadequado. Ele exibia quase toda a pele, só escondendo parcamente as zonas erógenas. – Sua louca! O que está fazendo pelada fora do nosso quarto?

– “Pelada”?! Caso não tenha percebido, estou vestindo um biquíni, última moda no refinado planeta Gália.

– Esse tal de biquíni pode te deixar sensual agora, mas espere só até amanhã. Não é boa ideia usar algo de couro tão apertado junto à pele, ainda mais aí embaixo. Você vai acabar tendo assadura e me dando trabalho.

Jurema olhou para o seu marido entortando a boca. – Puxa, amor, mas você sabe como arruinar uma tentativa de apimentar um casamento.

A embarcação apesar de ter saído de Britânia tinha muita gente de planetas distintos, logo a seminudez da índia não foi vista com estranheza e muito menos reprovação. Apesar de um ou outro tripulante ter disfarçado um olhar de desejo, sendo que nem todos eram homens.

Com o tempo a discussão foi esquecida e o casal começou a se abraçar, trocando beijos e caricias felizes da vida. Até que algo no oceano espacial chamou a atenção de toda tripulação. Os olhares convergiram para além da parte de trás da caravela. Uma quantidade incontável de embarcações espaciais portando a cruz em suas velas se aproximava.

– O que é isso, Marcos? – Perguntou Jurema assustada.

– Se lembra das últimas palavras do Inquisidor? “Muitos outros irmãos se erguerão”. Acho que o nojento não estava iludido.

– O sistema solar está em guerra! – Disse um velho com dentes amarelados e falhados ao se intrometer na conversa do casal. – Vários impérios querem tomar posse das setenta e seis nações planetárias.

Com uma expressão chorosa Jurema perguntou. – Meus deuses! E Anhanguera?

– Não há planeta neutro, todos de alguma forma estão envolvidos.

Vendo seu sonho de vida pacata ruir, Jurema tapou seus olhos em lágrimas e se ajoelhou no chão de madeira da caravela. Para acalentá-la, seu marido a abraçou por trás e a beijou no topo de sua cabeça. – Calma, querida. Vamos encontrar um bom cantinho para viver. Temos um sistema solar inteiro para nos escondermos daqueles que só sabem odiar.

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Um comentário em “Magos espaciais movidos a vapor (Alan Cosme Machado)

  1. Brian Oliveira Lancaster
    9 de julho de 2015

    Texto criativo e bizarro. Você fez uma bela mistura aqui. Algumas partes precisam de apenas mais uma pequena revisão, pois o texto flui muito bem. Achei a mistura de índios com naves interessante – ótima ideia para o desafio de FC.

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Informação

Publicado às 19 de junho de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .