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Detox Literário.

Vidas Sem Rumo – Resenha (Gustavo Araujo)

outsiders

Esqueça John Green, Stephanie Meyer e clones afins. O livro que todo jovem deveria ler é de uma autora chamada Susan E. Hinton. Foi escrito em 1967 e se chama “Vidas Sem Rumo” (The Outsiders).

É a história de Ponyboy Curtis, um garoto da cidade de Tuba, Estado de Oklahoma, nos EUA. Ponyboy fez catorze anos. Tem dois irmãos: Sodapop e Darry. Eles fazem parte um grupo de greasers, jovens delinquentes da periferia da cidade. Seus inimigos são os socials, ou simplesmente os socs. Os greasers são arruaceiros, ladrões, sujos, usam cabelos compridos e gel. Os socs vêm da parte mais abastada da sociedade. Frequentam a universidade, andam em mustangs e vestem camisas xadrez.

Ponyboy é quem narra a história. Por ele conhecemos Dallas Winston, um garoto mais velho, por volta dos dezoito anos, com passagem pela polícia e que não tem medo de fazer o que dá vontade, seja brigar, seja roubar. Há também o Metido e Steve. E também Johnny Cake, o garoto franzino de dezesseis anos que acabou de levar uma surra enorme de um grupo de socs que o deixou traumatizado.

Certa noite, Ponyboy e Johnny vão ao drive-in e conhecem duas garotas socs. Incrivelmente, conseguem conversar numa boa. Isso desperta a ira dos socs, que depois os procuram para acertar as contas. As consequências desse encontro são terríveis e conduzem o leitor a um labirinto extremamente rico traduzido pela maneira de pensar de Ponyboy.

Seria muito fácil dizer que “Vidas Sem Rumo” é um retrato da juventude americana do fim dos anos 60. Mas a história de Susan E. Hinton é muito mais do que isso. Revolucionária, trouxe à discussão aspectos antes varridos para debaixo do tapete da sociedade puritana do meio leste americano. Sim, Ponyboy é um delinquente, prestes a cair vítima de um sistema de divisão de classes que poucas chances dá a quem nasceu pobre. Mas é impossível não gostar dele, não se identificar com ele, torcer para que ele supere as dificuldades.

Mesmo num ambiente caótico, sem qualquer orientação dos pais, ou com pais bêbados ou ausentes demais para se importar com os filhos, Ponyboy surge como um alento. É um garoto que apesar de tudo, gosta de ler e escrever. É até mesmo capaz de citar Robert Frost de cabeça. Darry e Sodapop sabem que o irmão é especial. Por isso o protegem e se sacrificam por ele, em nome de um futuro decente. Ponyboy porém se vê prisioneiro do dia a dia. Até que Johnny lhe oferece, mesmo sem querer, a chave para uma fuga dramática.

Os personagens criados por Susan E. Hinton são de uma profundidade marcante. É como se víssemos neles nossos próprios conhecidos. As questões surgidas durante a história, as discussões entre Ponyboy e os irmãos, a pena que ele tem de Johnny, a devoção involuntária que ele alimenta por Dallas, tudo isso confere a ele uma personalidade bastante complexa e por isso mesmo verdadeira até a medula.

Vidas Sem Rumo - filmeO livro foi traduzido para diversos idiomas e, em 1983, transformado em um filme igualmente provocante – caso raro – pelas mãos experientes de Francis Ford Coppola. Na ocasião, o diretor resolveu escalar um bando de garotos novatos para os papeis principais: Tom Cruise, Rob Lowe, Ralph Macchio, Patrick Swayze, C. Thomas Howell, Emilio Estevez e Matt Dillon, entre outros.

O ponto negativo fica por conta da tradução brasileira. Ponyboy e seus amigos usam muitas gírias e o que se vê na edição do selo Benvirá é um desfile de termos típicos de São Paulo: trampar, rangar, mina, farol… Nada contra, mas ficou meio estranho imaginar a periferia de Tuba, Oklahoma, com o sotaque clássico dos amigos paulistanos 🙂

De qualquer maneira, “Vidas Sem Rumo” é um livro indicado para quem gosta de pensar e não simplesmente passar a esmo pelas páginas e depois sair alardeando no YouTube que leu um livro “superlindo”.

Stay Gold, Ponyboy”, diz Johnny a certa altura, lembrando o poema de Robert Frost que, de modo um tanto melancólico, diz que nada fica dourado para sempre (Nothing Gold Can Stay). É um lembrete para que se mantenha acesa a chama da própria vida. Para que não se acostume com uma existência rotineira.

Susan E. Hinton tinha dezesseis anos quando escreveu “Vidas Sem Rumo” e dezoito quando a viu publicada. Sabia do que estava falando. Seguramente teria muito a dizer aos leitores de hoje. Uma pena que poucos estejam preparados para ouvi-la.

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5 comentários em “Vidas Sem Rumo – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Remisson Aniceto (@RemissonA)
    1 de fevereiro de 2017

    O filme é muito interessante, mas sem dúvida que uma resenha bem escrita por quem realmente leu e gostou de um livro nos traz detalhes que nas telas não percebemos.
    O prazer da leitura não se compara a uma versão da história no cinema ou na tv, por melhor que seja esta transposição. As interpretações são diferentes e serei sempre fiel aos livros. Coppola gostava mesmo de ler a Susan, uma vez que também filmou O Selvagem da Motocicleta, outro dos seus bons livros.
    Parabéns pela resenha, Gustavo. Um abraço.

  2. Rodrigues
    12 de maio de 2015

    Caramba, li este livro em 2008 e foi muito bom ver a crítica sobre ele por aqui. Minha edição era daquela Cantadas Literárias , da Brasiliense, mas não me lembro muito bem a respeito das gírias. É um livro muito bom, uma parte marcante é quando eles escondem-se e ficam lendo E o Vento Levou. Deixo a dica de outro livro dela, também adaptado pelo Coppola para os cinemas, O Selvagem da Motocicleta. Valeu!

    • Gustavo Castro Araujo
      12 de maio de 2015

      Obrigado pelo comentário, Rodrigues! Sinceramente, eu nunca tinha lido nada da Susan. Tinha visto o filme do Coppola há alguns anos — aliás, a cena em que o Ponyboy recita o poema do Robert Frost me deixa desconcertado até hoje, rs — mas só li o livro dela recentemente.

      O curioso foi que descobri que ela, a autora, fez ponta no filme tbm: ela é uma das enfermeiras que atende o Dallas quando ele está no hospital.

      Sim, valeu a dica tbm sobre “O Selvagem da Motocicleta”. Vi o filme nos anos 90 e, depois de ver a qualidade da Susan no “Vidas Sem Rumo” certamente deverei ler esse segundo romance.

    • pamela238
      18 de outubro de 2016

      nossa eu tambem amei esse livro amei e eu tambem estou estudando sobre esse livro e ele e muito empolgante fa li ele enteiro e quero ler denovo

    • pamela238
      18 de outubro de 2016

      esse livro e muito bom mesmo

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Publicado às 12 de maio de 2015 por em Resenhas e marcado , , .