EntreContos

Detox Literário.

Tortura (Cilas Medi)

Está amarrado e amordaçado. Suando em bicas. Por duas vezes aqueles dois mastodontes entraram e, não precisariam, mas, o fizeram obrigar a tomar água pelo canudinho, cujo furo, mínimo em sua mordaça de plástico resistente, era coberta em seguida com outro pedaço. E saíram, simplesmente, sem falar nada. Tudo negro em volta, somente uma pequena réstia de luz por debaixo da porta. E movimento nela, com certeza absoluta, porque várias sombras andavam, chegava perto, parado e novamente a sensação que algo não iria dar certo. É receber informações erradas e estar nessa situação. Amordaçado e amarrado com as mãos nas costas, nu como veio ao mundo e ainda por cima, melhor, nada por cima, suando em bicas. Um calor infernal. E foi assim que teve a certeza do ambiente, quando os dois, um ficando no parapeito da porta, entrou e mostrou para ele. Trinta e seis graus a temperatura ambiente. Não é por falta de calor que vai desidratar, ou melhor, não vai, já que o outro esperou a volta do primeiro e seguiu até ele, com a água, levemente gelada. Ele sorveu com todas as forças, terminando com os seiscentos mililitros dele. E queria mais. Foi fechada mesmo ele tentando resmungar. Já não sabe quanto tempo está ali, daquele jeito. A porta foi fechada, ouvindo risos do outro lado. De outra porta, do lado de fora também escuro, surgiu uma mulher nua. Como sabe? Porque a luz que vinha de seu pescoço, para baixo, através de uma gargantilha. Atrás dela, no negro da roupa, justa, contornando todo o esplendor do que deve ser uma linda mulher, sem saber com certeza, já que o rosto estava também coberto pelo mesmo tecido. Ele olhou para a coitada, nua e sendo ajustada na cadeira que a outra puxava. E de frente para ele. Transpirava, poder-se-ia, com exatidão, ver os poros abertos e as gotas descendo pelo seu seio, intumescido, pelas suas coxas, adiantando que no principal motivo do seu olhar, estava ali, uma linda concepção de venha me ver, quero entregar para você. Ele sorriu, debaixo de todo o sofrimento, ainda mais com a posição que ela foi obrigada a ficar. As pernas abertas, as coxas duras, por exercício, devendo ser uma mulher ativa. E ela, depois que a amarrou atrás, puxando a gargantilha e a fazendo ficar firme e estufando o peito. E os seios, para ele, nessa situação, a melhor visão do que poderia ser a felicidade. Ela resmungou, mas não adiantou nada. Os pés foram presos nas laterais da cadeira, mostrando o sexo completamente. Ele sorriu. E não tirava o olhar do que consideram o monte de prazer, de Vênus. Outra denominação esquisita. Mas agora, nessa situação, são dois esquisitos. E a porta foi fechada, devagar. Novos risos. E os dois, de frente, de repente a luz, da gargantilha desligou. Ele se aborreceu. Ela tentou se livrar, resmungando algo. E ficou nisso por um tempo que ele tentava, por todos os meios, abrindo o máximo possível para tentar enxergar na escuridão. Quando o tempo necessário para isso passava, a luz da gargantilha dela acendia e, por instantes ficava assim. A dele também. Os dois se viam e ele tentava, nesse momento, controlar a sua libido. Mas o menino que atende aos comandos do cérebro que atende somente aos comandos da libido é implacável para os homens. E ali estava o menino, o mastro. E ele sentia que o olhar dela estava nele, porque, novamente, os seios dela intumesceram e teve a nítida impressão que gemia de prazer. Ele estava tentando segurar, mas é impossível. A luz desligou e ele ouviu, fazendo o mesmo, reclamando. Passou mais um tempo, como saber. E a porta abriu. Agora a mulher e um homem, vestidos de negros e encapuzados, entraram, a água para os dois que vertiam pelos poros, abertos. E a luz acendeu. Ele de mastro e ela com os seios dizendo e mostrando o grau de vontades. A mulher apertou o seio direito dela que fez o outro arrefecer. E o homem, nessa tortura inimaginável, com uma faca de trinta centímetros, passou nele, na parte sem corte, devagar. Ele fez o mesmo, escondendo-se. Pela primeira vez na vida, soube o que é o terror de ser capado, resmungando, tentando fugir, como o próprio que se recolheu. Novas risadas e os dois saíram. Tudo breu, novamente. E o pior, agora, juntou os dois, pelos joelhos. E não só parecia como era uma tortura completa, cada saber o que o outro estaria pensando. E a luz das duas gargantilhas, com específicas, não todas, mostrando o sexo de cada um. E o dele, nessa aparição, voltou a se mostrar. Ela fazia movimentos na barriga, de ida e vinda e resmungando algo. Ela está gozando, cacete. E o dele, mais e mais enrijecido, parecia querer saltar, esfregando os joelhos nela e ela, com certeza, fazendo o mesmo. E ouviu a mulher parar de resmungar e soltar um a, uma letra a extensa e inebriante. Ele tentou segurar, mas é mesmo impossível conseguir. E jorrou, com força, para cima dela que não parecia reclamar. Uma tortura medieval, deixar perto e não poder tocar. Esperaram um tempo, a porta, abriu e novamente os copos com água. Beberam sofregamente. A mulher foi retirada do local, por outra. E escutava sorrir, talvez as duas. Ele ficou, novamente, no breu total. Que porra é essa, vou matar o Ernesto, aquele crápula. Vai lá, ouviu dizer. Lembrou.

– Vai lá, Fernando, você vai adorar. Só pode ir com apresentação. Pega o cartão. Ele pegou. Um enorme CT no meio dele, abaixo um número de celular. E ligou. Disseram o que pretendia, quem havia convidado e ele deu o número, duzentos e vinte e nove, do amigo. O cara mandou aguardar. E voltou, dizendo e confirmando o endereço. Ele anotou. E foi. Bem recebido por duas recepcionistas, no ambiente totalmente negro e elas mascaradas. Mais ninguém no ambiente, com duas luzes de abajur vermelho. Ele riu. Sim, o lugar é para masoquistas, com certeza, dito assim por ele. Vai lá, Fernando, é o máximo. E não me pergunte mais nada. Você vai adorar. Você é meu amigo, é ou não é?

– Sou. Mas vou pensar, guardando o cartão. Branco, total, letras em negro, o número do telefone. Ficou girando na carteira, escondido da mulher, o cartão e ele, tentando e querendo saber em detalhes do amigo do que se tratava. Quando foi, após passar a porta da gentileza das meninas, foi, sim, atacado pelos dois jamantas. Um o segurou pelo pescoço, amarrotando o paletó, a gravata e a camisa. E o outro, sem nenhuma consideração, foi tirando o sapato, apesar dele não deixar. E foi apertado, mais gentilmente no pescoço e desistiu, porque iria perder o fôlego. E pelado, assim sem mais nem menos, foi manietado atrás, fechada a boca com a mordaça e colocado no quarto escuro. E ali ficou por um bom tempo. Suando, bebendo água e começando a ficar apavorado. E quando pensava xingar mais o amigo, em pensamento, surgiu à dupla, apertando o pescoço, os braços, as pernas. Ele não fica excitado com essas situações. E foi uma das premissas do amigo que seria bem tratado. Massagem, apertos pontuais para o sangue fluir corretamente. Uma sauna. Pode acreditar, Fernando, você é meu amigo.

– Pode acreditar, uma massagem bem diferente. E ele estava ali, em um tempo que não poderia contar, quando desistiu ao chegar aos duzentos. E, finalmente, a entrada da mulher. E esporrar em cima dela. Que situação constrangedora, cacete. E agora, o que faço, olhando o flácido. Mais um tempo e entrou mais uma mulher, nua e pegou em seu pescoço, alisando para os lados, deixando, finalmente, relaxado. E sentou em seu colo, devagar, massageando as suas coxas. Que tortura maravilhosa, pensou, apesar das mãos não poderem fazer nada, os pés também. Mas a massagem, sim, ótima. Excelente. Maravilhosa. E o menino, novamente, pensando que poderia agir. Caramba, não sou bom assim com a Fátima e agora parece que tenho toda a energia do mundo, sexual. Sim, sou um ser sexuado, no máximo, agora. A mulher parou e levantou, ele viu bem as coxas dela, a bunda maravilhosa, já que estava na mesma situação de luzinha, justamente, em cima dos órgãos. Os seios duros e intumescidos. Intumescidos, essa palavra há muito tempo que não penso nela, já que com a Fátima parece um concurso de rapidez. Talvez seja isso, as conversas entre comadres, o Ernesto ficou sabendo, pela esposa, da reclamação. E indicou essa sauna infernal. Viu a mulher sair, fechar a porta e o breu total. O menino voltou ao lugar devido. E ele esperou mais um tempo, a porta, a outra, não a das mulheres, infelizmente. E, porra, agora a situação vai ficar horrível. Um homem nu, totalmente depilado. Branco. Mostrando um senhor mastro, ereto e para perto dele. E volteou, volteou, chegou perto, assoprou em seu ouvido, os dois, e ele firme. Ou melhor, mole como deve ficar quando se faz xixi e tem que balançar. O homem viu bem, chegou perto, assoprou e nada. Absolutamente nada. O homem bateu em seu rosto, direito e esquerdo e saiu, balançando por um tempo a bunda que ele acompanhou, mas para ter a certeza que estava se livrando daquela tortura. A luz apagou, da coleira, mesmo antes da porta abrir. E o homem saiu. Ele respirou aliviado. A porta, a seguida, de onde saia às mulheres, mais uma. Arrumada como a recepcionista. E ela fez o mesmo bailado. Ele, na imaginação da primeira, fez o menino o ato de voltar à atividade. Ele sorriu. Entendeu-se alguma coisa, foi comprovada, matematicamente, que é hetero. Que bom, pensou e sorrindo por dentro. A porta masculina abriu e o homem entrou com a água. Não é que quando estamos trabalhando com a mente e o corpo, esquecemos o tempo e as necessidades básicas. Os dois, com ela tirando a mordaça pequena e introduzindo, gentilmente, o canudo e sorrindo. Ele está vendo, porque ela abaixou o suficiente para que ele visse os seus dentes perfeitos, brancos e bem tratados. Os lábios carnudos. Sugou, como se ela fosse à água. Estava mascarada como as duas primeiras, na recepção. E lembrou-se dos dois jamantas o agarrando e a sensação não foi das melhores. Achou que seria estuprado. E poderiam sim se quisessem. Os dois saíram. Ele suando. A temperatura foi amenizando. Ele suando e a temperatura amenizando. Finalmente, a luz, de cima, pequena, acendeu. E ele se viu em uma sala, pequena, com nenhum móvel, as paredes pintadas de negro, sem janela. Se houvesse, estaria tampada com madeira, pintada da mesma cor. O que sabe é que o prédio, de vinte andares, ele está no décimo segundo. Apartamento vinte e seis. Seis por andar. Soube tudo, antes, para tentar não se perder ou ter informações detalhadas do local. Nunca se sabe onde se vai entrar. Finalmente, ele, o mais forte que o abraçou por trás, teve certeza absoluta, entrou e o desamarrou, da cadeira. O feito levantar, com a força dos seus punhos. E ele, de volta ao corredor inicial, uma porta aberta, um banheiro. Foi empurrado para dentro. E as mãos, manietadas atrás, pode retirar com uma faca, disponibilizada e amarrada na pia. Ele passou várias vezes e a tira de plástico, finalmente, solta. Ele viu o chuveiro, os cremes que poderia gostar, os sabonetes à escolha, pequenos, de várias ervas. Escolheu um, ao acaso. Entrou debaixo da ducha, lembrando de tudo, os pormenores dessa tortura maravilhosa que obteve, através da indicação do amigo Ernesto. Já não quer matar o Ernesto. Ao contrário. Ninguém o incomodou ou o fez sair antes do que estivesse preparado. Ao tentar abrir a porta por onde entrou, outra, de uma parede disfarçada e totalmente escondida, abriu, com um leve estalo. Ele puxou e ali estava um pequeno compartimento, com a roupa pendurada, os sapatos engraxados. Ele sorriu. Cinco estrelas, valeu realmente os trezentos reais que paguei. Agora está justificado. Trezentos reais?

– Trezentos reais? Por massagem? Você ficou louco, Ernesto.

– Vai lá, Fernando, estou avisando. Vale à pena.

– Então vou ter que trair a Fátima?!. Não vou à puteiro nenhum, não enche o saco.

– Vai lá, Fernando, não enche o saco. Trezentos reais é mixaria para quem ganha vinte e cinco mil reais por mês.

– Quem disse isso? Quem contou para você?

– O último mês, com o salário e comissão?! Tenho amigos em todos os lugares e é melhor gastar com você do que com o cartão de crédito. Foi a final do questionamento. Realmente ele tinha razão. Trezentos reais. Pegou o relógio. Esteve no local por exatas três horas e dez minutos. Ninguém o aborreceu. Ninguém o mandou sair, antes que estivesse pronto. E, pronto, no espelho, cabelos penteados. E acima, ouviu vozes femininas.

– Eu adorei. Gozei três vezes, pode acreditar?

– Três vezes. E o tamanho?

– Imenso. O cara é mais do que bem dotado. Ele ficou mais perto, tentando atingir o pequeno espaço, para ter certeza que as duas que conversavam eram da empresa ou foi ela, a que ficou com ele, ou a outra que sentou e fez massagem. Ou as duas. Serão da empresa?

– E qual é esse tamanho de imenso. Elas duas gargalharam e ele, infelizmente, não pode ver o tamanho que ela deve ter mostrado, para a outra, somente mencionando com as mãos. E pensou que não poderia ser com ele. A luz do outro compartimento foi desligada e ele, depois de muitos sorrisos pelo fato de ter ouvido, mais um atendimento no cabelo e estava pronto. Voltou ao banheiro. A porta abriu, com um estalo. Ele olhou para todos os lados. Só podem estar vendo. E acabou rindo. Grande coisa. Estive pelado o tempo todo, com homem e mulher. E estou satisfeito do atendimento. No corredor, vazio, ele viu o alerta, mais adiante, no fundo, piscando e vendo a palavra saída. E para lá se dirigiu. Abriu a porta. O ambiente totalmente negro, uma luz, pequena, no balcão, uma mulher, tinha toda a certeza, esperando por ele. Viu a máquina de cartão de crédito, a opção de pagamento em dinheiro e em cheque. Cartão?! Entregar o ouro ou a possibilidade da Fátima saber? Nunca. Tirou as três notas de cem da carteira e entregou. De volta, recebeu um cartão CT em negro, outro número de telefone nela e o seu número. Mil, duzentos e noventa e dois. Ele riu.

– O seu cartão anterior, por favor.

– Sim, aqui está.

– Foi tudo como havia imaginado? A voz maviosa, sim, gentil, aconchegante, apesar de sair do escuro. A gargantilha dela, com duas luzes somente, indicando a total e irrestrita não identidade. Você nunca saberá quem sou. Ele respondeu, ainda emocionado.

– Estou ótimo, pronto para outra. Esse cartão vai fazer isso?

– Sim. Vamos aguardar. Esse é o seu número, falou ela, sem poder identificar a mão, apesar de pontuar no cartão. Estava de luvas. Se for branca, negra, ruiva, amarela, qualquer raça, não sabe e, pensando bem, não vai querer saber mesmo. Quem o atendeu eram brancas.

– Posso fazer uma pergunta?

– Todas que ousar. Estou aqui para atender. Obrigada. Quer um recibo? Ele riu e ela entendeu. Muito bem, o que precisa?

– A mulher que esteve comigo.

– Não podemos dar a identidade de ninguém, como pode saber.

– Não é com essa intenção. Eu só gostaria de saber se é cliente também.

– Sim.

– Obrigado. Ele pegou de volta o cartão ainda no balcão e guardou na carteira. Mas a curiosidade é sempre imensa, ainda mais com uma experiência longe do normal, mais do que surreal. Ela aproveitou?

– Acredito que sim. Não estamos em dois lugares ao mesmo tempo, falou gentil, apesar da frase forte. Não podemos dizer nada para os clientes, e de um para outro.

– Tudo bem. Entendi. Onde me arrumei. Parou. Desculpa, mas somente mais uma pergunta. Eu ouvi duas mulheres comentando a respeito da atividade dentro do quarto.

– Sim?

– Elas falavam sobre mim?

– Sobre o tamanho do seu pênis?

– Isso, eu acredito que sim.

– Talvez, pode ser sim. E isso fez bem para o seu ego?

– Muito. Muito mesmo, falou gentil de volta. Entendi. Uma ótima tortura essa. Agora vou ficar pensando e tentando saber quem são. Entendi. A curiosidade vai deixar, por um bom tempo, boas lembranças. Obrigado mais uma vez. Por onde eu saio? Ela indicou, a porta, negra por dentro, fez o barulho convencional. Ele puxou e saiu. A porta foi fechada. Ele olhou no corredor, normal. O apartamento do lado, número vinte e sete. Espera um pouco, eu entrei no vinte e seis. E esse é vinte e sete. E foi vendo todos eles, até o número vinte e nove. E voltou, mais adiante, chegando ao vinte e um. O andar. Espera um pouco, algo está errado. Desceu um lance de escada. O andar? Quer saber, apertou o botão do elevador. Não interessa, fique com as boas lembranças. A porta abriu e dentro dele, dois homens e uma mulher. Parecia ela? Quem pode saber? Saiu no salão, ela na frente e ao deixar o prédio, um homem, com automóvel mais do que luxuoso, parou e ela abriu a porta e entrou. Ele chamou um táxi. Deixou o automóvel com a Fátima. Chegou a casa, feliz demais. E apertou nos braços, fortemente e um beijo apaixonado.

– O que foi? Viu algum passarinho azul ou verde? Ela e essas insinuações. Queria dizer, pegou alguma amante? Mas não respondeu. Ao contrário, a fez corresponder ao beijo apaixonado. Ainda está quente. Ela percebeu.

– Onde você tomou banho? Está perfumado com perfume de rosa!? Está vendo, você esteve com alguém? E as crianças entraram, ainda bem. Ele abraçou a mais velha, dezesseis anos, sentindo o clima. Ela falou o mesmo. Mãe e filha. Ciumentas. Ele fugiu, com o garotão debaixo do seu braço, falando algo sobre futebol, sobre a escola.

– O seu pai aprontou de novo.

– Deixa mãe, ele é homem.

– É? Vai tratar assim o seu marido?

– Quando souber de onde ele vem, talvez vá se arrepender. Não foi beijo de namorado o que eu vi.

– Quer parar de ser sem educação com a sua mãe.

– Ainda bem que foi por uma falta de educação. E riu. A mãe entendeu.

– Sua peste. Vamos jantar, fale para o seu irmão e o seu pai. Em cinco minutos. E depois vou querer saber desse assunto de onde o seu pai pode estar vindo. Só pode ser amante e se isso se confirmar vou deixar. Vou deixar sim. A filha a beijou na testa e saiu.

– Sei. Cinco minutos. Fui. Ciumenta. E saiu da cozinha. Ela aspirou fundo o ar. Rosa? Homem com cheiro de rosa? E depois dizem que não é uma tortura ter marido bonito, rico, charmoso e gentil. Ele tem amante, só pode. Esse negócio de chegar beijando, acarinhando. Aprontou e quer facilitar as coisas.

– Dona Fátima, olá, posso servir o jantar?

– Sim, pode.

– Ih, hoje a vida vai ser melhor, falou ela, para provocar.

– O que você disse, Luiza.

– Nada não, patroa, nada não. Só estou vendo uma patroa com cara de que quer começar confusão. Eu, no seu lugar, com marido assim, não me preocuparia com outra coisa a não ser ficar gostosa para ele. Não perca o seu tempo. Ele, se tiver amante, será por sua culpa. Ela olhou para a mulher, ainda vistosa, um pouco fora do peso e na família há seis anos, podendo se der a esse luxo de falar o que lhe vem na veneta, como é de praxe.

– Engraçadinha. Sirva o jantar. Vou tomar um banho.

– Agora sim, entendi perfeitamente. Coloque aquele perfume, aquele que ele trouxe para a senhora da França. De Paris. Uma gota só deixou o meu marido maluco.

– Você usou o meu perfume!?

– Qual o problema? A senhora deu por falta dele?

– Não. Foi só uma gota?

– Uma, eu juro. Então, vai colocar?

– Vou pensar.

– Não pense, aja. Homem tem que sentir que o queremos todo o tempo. Não dá para pensar na outra, mesmo que não exista. Sabe como é, não é não dona Fátima.

– Vou tomar um banho. Cinco minutos. Sem educação.

– Pensa que ligo. Uma tortura.

– Que tortura é essa.

– Uma tortura aguentar patroa chata. O que se pode fazer, não é não dona Fátima. Ah, o doutor Ernesto ligou e queria falar com o seu Fernando, ainda agora. Eu disse que vocês dois estavam conversando e ele perguntou como o doutor Fernando chegou. Eu disse que estava bem feliz. Acertei?

– Acho que sim. O Ernesto. Aí tem coisa.

– Mulheres, com certeza. E riu, abusando do direito. Mulheres. Elas que os deixam felizes.

– Outras?

– Ou as próprias. Vá tomar banho, dona Fátima. Ele está feliz, aproveite esses momentos. Que tortura!

– Já entendi. E não sou sua tortura coisa nenhuma, sua chata. E viu a serviçal fazer o sinal, com as duas mãos, indicando e balançando para sair da cozinha. E sorriu. Quando entrou no quarto, ele, atrás da porta, nu como veio ao mundo, a despiu em segundos. E foi amada com tal intensidade, brutalidade e sofreguidão que pensou que tudo iria acabar naquele momento. Mal teve tempo de juntar palavras, já que a boca foi amordaçada com a dele, empurrando língua, trazendo e retornando prazer. E estendida, em menos de cinco minutos, ele a pegou nos braços e levou até a banheira. E a colocou, gentilmente, nela. A água, tépida. O sabonete preferido. Ele também. E os dois rindo, se ensaboando. Dez minutos. Não escutaram ou não quiseram saber que o jantar estava esperando por eles. A filha, adolescente, conhece, pelo visto, o pai, nos detalhes que a intimidade permite. E ela adora esse pai. E sabe que a felicidade da mãe depende do bom humor dele. E hoje estava excepcional. E foi no telefone que teve a certeza que algo que o amigo e tio, com apelido, tentou sair fora das perguntas dela. Sim, eles dois aprontaram. E se for amante, vai ficar triste com o fato. Mas desistiu, ao ver os dois saírem, apertados e se olhando com carinho, do quarto. E acompanhou, simplesmente, já que havia jantado com o irmão. E proibiu o próprio de querer a companhia dele. E viu os dois se olharem como nos bons tempos. Ainda bem. Pai de mau humor não me deixa sair, a mesada é menor e qualquer menino se apresentando é namorado e proibido. Uma tortura completa.

Um comentário em “Tortura (Cilas Medi)

  1. Fabio Baptista
    5 de maio de 2015

    Olá, Cilas!

    No começo estava achando tudo muito sem sentido – violência e sexo gratuitos, que estavam ali só para chocar de alguma forma.

    Do meio para o fim, ao entrar no núcleo familiar, melhorou bastante. Mas ainda assim, achei que faltou alguma coisa. Até pensei que aconteceria algo do tipo a esposa (ou a filha) do cara ser a mulher da massagem. Não sei se seria a melhor saída, mas seria algo. Da forma apresentada as coisas ficaram um pouco desconexas.

    O texto, apesar de algumas construções bem inspiradas, ficou confuso em algumas partes, principalmente na emenda dos diálogos com a narrativa. O autor não usou a formatação a seu favor.

    De todo modo, gostei do conto, sobretudo pela parte final.

    Abraço!

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Publicado às 4 de maio de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .
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