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Detox Literário.

Ele iria (Karla Kelvia)

Um dia, ela sabia, ele iria.

Ele tinha que ir, não era dali. Tinha um brilho nos olhos e asas nos pés. Era talentoso, carismático, bonito, doentiamente bonito.

Claro que ele iria, e dela não guardaria lembranças.

“Bobagem”, ele sorriu de lado, confiante, como se soubesse de toda a verdade da vida no auge dos seus dezessete anos. “Eu sempre vou lembrar de você. Vou até voltar aqui e te levar”.

“Mentira”, ela balançou a cabeça e pôs uma mecha de cabelo teimosa atrás da orelha. Ela sabia disso, dentre as poucas coisas das quais já tinha certeza na vida. Ele iria e ela ficaria. Seus pés não eram ágeis como os dele: eram fincados naquele chão, naquela vida, acostumados a fitar aquele horizonte entrecortado por montes que pareciam vigiar a pequena cidade.

De repente, Guilherme segurou as mãos de Liana. Ficou massageando, sendo leve e carinhoso.

“Sua namorada pode ver”, ela murmurou, entre impaciente e prestes a explodir em faíscas de fogos de artifício. “Ela não vai gostar”.

“Não estamos mais namorando”, ele deu de ombros, “e, mesmo que estivéssemos… nós somos amigos, não somos?”

Liana engoliu fundo e seco: “claro. Sempre”.

Ele soltou sua mão para passar um braço sobre seus ombros e beijar a sua testa; o contato quente dos lábios dele em sua pele fez Liana se detestar. Por que compactuar com aquilo? Por que recolher, mais uma vez, migalhas de carinho que ele jogava displicentemente ao vento?

Ela se afastou, convicta, altiva, corajosa. Não queria sucumbir nunca mais.

“O que foi?”, ele estranhou, levantando-se.

“Não vamos mais brincar disso”. A voz de Liana soou mais alta do que ela gostaria. Talvez alguém escutasse, fosse contar para Virgínia, ela iria tirar satisfações, e, sinceramente, não queria saber de ex nenhuma de Guilherme atrás dela, para lembrá-la de que ele nunca tinha ficado com ela.

“Eu vou embora, e durante muito tempo, a gente não vai se ver mais, sabia?”, ele falou meio magoado.

O silêncio entre eles era cortante e agudo. Anos de vida passando diante deles, as implicâncias, a cumplicidade, a fidelidade da amizade, a alegria dela pelas conquistas dele. Mas ela sempre o amara e ele nunca tinha percebido; se percebera, deve ter confundido apenas como dedicação excessiva de uma amiga de infância, com quem chegou a tomar banho junto. Só isso.

Não era amor quando ele caiu da mangueira e ela chorou sobre seu braço quebrado, apavorada. Não era amor quando ela sumiu da festa da escola quando ele ficou com Virgínia pela primeira vez. Não era amor quando ela não conseguira de jeito nenhum beijar o João Pedro no jogo da garrafa, quando ele estava na roda também, certo? Não podia ser…

Guilherme balançou os ombros, deslocado, desacostumado a ser afastado por uma garota, desconfortável por, de repente, sentir que Liana não era mais a mesma, que, talvez, ela não fosse há muito tempo quem ele pensava.

“Vou amanhã cedo. Passa lá em casa depois pra pegar meus CDs”.

“Pode levá-los com você”, ela sorriu um pouco. Não, ele não iria encarar uma nova cidade, um alojamento em um clube de futebol, horas de treinos e pressão para ser uma jovem estrela dos gramados sem estar devidamente acompanhado de The Joshua Tree, Nevermind ou do Appetite For Destrution, por exemplo.

“Não vou ter onde ouvi-los e, depois, não é você mesmo que fica me zoando, dizendo que jogadores de futebol só ouvem pagode?”, ele redarguiu.

“Você é diferente, sempre foi”, Liana baixou os olhos. Isso era a graça e a dureza de Guilherme.

“Escute as músicas e se lembre de mim”, ele a abraçou pela última vez, dessa vez rápido, pois não queria sentir também certa eletricidade ao estar tão perto de Liana.

“Sempre”, ela suspirou.

Guilherme sempre a teria, mesmo que não quisesse ter noção disso.

3 comentários em “Ele iria (Karla Kelvia)

  1. Fabio Baptista
    2 de maio de 2015

    Li esse conto antes de iniciar o último desafio e acabei esquecendo de comentar.

    Muito bom. Soube dosar a emoção na medida certa.

  2. Gustavo Araujo
    24 de março de 2015

    Muito bonito o texto. Gostei do clima de despedida inevitável, desses que flertam como desespero. A realidade é mesmo cruel e embora jovem, Liana sabe que, enfim, acabou. Uma prosa permeada de lirismo, escrita de maneira bastante competente e isenta de erros. Leitura fluida, um texto que, embora curto, se mostra bastante reflexivo. Muito bacana também a alusão às bandas — aos CDs, melhor dizendo — dos anos 90. Nevermind, Appetite for Destruction… Legal mesmo 🙂 Queria ler mais textos seus, Karla. Quem sabe você não se anima a entrar no próximo desafio, para que outros leitores tenham contato com o seu estilo leve e ao mesmo tempo comovente. De todo modo, parabéns e obrigado.

  3. Eduardo Barão
    23 de março de 2015

    Lindo.

    Um dos contos mais comoventes que já li neste site.

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Informação

Publicado às 7 de março de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .