EntreContos

Detox Literário.

Lendas de uma nova era (Fabio Baptista)

lendas_de_uma_nova_era (1)

HOUVERA PELEJA NO CÉU. Após a humanidade conspurcar a Terra por milênios, com assassínios, roubos, estupros, funk ostentação e iniquidades afins, finalmente a batalha do apocalipse se realizara. Lúcifer, Estrela da Manhã, conduzira suas legiões até os portões celestiais e ali iniciara o levante. Ali iniciara a batalha derradeira. Ali iniciara o prelúdio do ocaso. Em seu braço esquerdo o anjo caído trouxera o escudo do dragão, indestrutível, que fora construído com os ossos dos doze querubins que travavam combate com os demônios e inadvertidamente foram arrastados para o inferno, junto com a terça parte do Céu, no dia da queda, éons e éons atrás (“éon” é uma palavra cool, muito usada pelo Neil Gaiman, que quer dizer “período de tempo muito grande”). Escudo do dragão. Indestrutível. De verdade. Mais indestrutível que do Shiryu. Na mão direita, Satanás, que no Paraíso (Paraíso é tipo o lugar onde ficam os anjos, não a estação de metrô) é conhecido por Samael, que significa “Veneno de Deus”, empunhava a dilaceradora profana, a terrível espada forjada no próprio lago de fogo e enxofre, usando como matéria-prima o aço que na terra pertencera a machados que mataram irmãos, punhais que ceifaram a vida de crianças, placas de obturação de psicopatas, escapamentos de mobiletes e outras coisas igualmente pecaminosas e cruéis.

Com a dilaceradora profana, Lúcifer colocara abaixo o portão de safira e assim abrira caminho para que suas 343 legiões adentrassem o Reino de Deus. Do outro lado, Miguel aguardara o inimigo, postado à frente das hostes celestiais. O poderoso arcanjo trajava sua armadura de diamante, que resplandecia como os vampiros de Crepúsculo quando banhados pelo sol da manhã. A seu lado, Gabriel e Rafael, seus leais companheiros (não confundir com tartarugas ninja), também aguardavam.

— Preparai-vos para a batalha! Preparai-vos para defender o trono do Altíssimo! FORMAR PAREDE DE ESCUDOS, AGORA!!! – Ordenara Miguel.

— AÚ! AÚ!!! AÚÚÚÚ!!! – Responderam os anjos (imagine esse “AÚ” como alguém chamando pausada e repetidamente o “Raul”, só que sem o R, não como um latido de cachorro), alinhando seus escudos sagrados de forma a proteger o próprio flanco esquerdo e o flanco direito do companheiro ao lado.

Quando as linhas de frente de demônios e anjos se encontraram, ribombou um estrondo tão grande, que toda criação, do menor grão de areia à mais distante das galáxias, fora abalada. Escudos se partiram, armaduras romperam-se, penas voaram, maças esmagaram crânios, machados incrustaram-se em costelas, espadas perfuraram carne e derramaram sangue profano e sangue divino. Tanto sangue que a grama do paraíso, que até então resplandecia em um verde tão bonito quanto ouvir Beatles pela primeira vez, agora transformara-se num lodaçal vermelho ocre, cheio de metal retorcido, asas cortadas, vísceras espalhadas, cabeças decapitadas e sonhos despedaçados.

Uma batalha digna de ao menos duas trilogias e uma série na HBO. Ao final, porém, contrariando todas as expectativas e apostas, fora a espada de Lúcifer, Estrela da Manhã, que prevalecera e rasgara o ar do Paraíso em um semicírculo decrescente, de cima para baixo em câmera lenta, com direção certeira ao peito de Miguel. O impacto, que seria suficiente para fazer uma gigante azul explodir em supernova, arremessara o arcanjo em grande velocidade, até estatelar-se na câmara onde dormia YAHWEH (Yahweh é o nome secreto de Deus). Miguel colidiu com um dos quatro pilares do enorme templo (tão enorme que faria o Templo de Salomão do Edir Macedo parecer um castelinho montado com meia dúzia de peças Lego), trincando três dos sete colossais blocos que o formavam. Não fosse a armadura de diamantes, o golpe de Samael certamente teria lançado Miguel ao estado letal. Extasiado pelo triunfo, o anjo caído caminhara triunfante até o inimigo derrotado e começara seu discurso triunfal:

— Miguelito… acho que por essa você não esperava, hein? HAHUAHUAHUA – (imagine uma risada maligna e sarcástica ao mesmo tempo). – Pois bem, meu irmãozinho… poderia cortar sua cabeça agora mesmo, deixá-la espetada numa lança bem aqui na frente do meu novo castelo, para que eu pudesse ver sua cara de perdedor todos os dias antes do café-da-manhã. Mas isso seria muito simples, não seria? E eu não acredito em coisas simples, você bem sabe… não, eu acredito em torturas envolvendo extintores de incêndio, alicates e canais retais, acredito em mortes lentas e agonizantes, acredito em almas acorrentadas numa sala com auto-falantes onde o João Kléber lê e interpreta histórias de fadas adolescentes, com direito a “PARA, PARA, PARA”, repetidamente, de novo e de novo, por toda a eternidade…

Miguel arrastara instintivamente os pés no chão, tentando inutilmente se afastar do algoz. Lúcifer sorrira com desdém e continuara seu discurso:

— Calma, Miguelito… o diabo não é tão feio quanto se pinta. Eu não sou tão mau assim. Vou só te exilar, junto com aqueles seus dois amiguinhos puxa-saco. Quero que você veja, Miguel… quero que você veja a luz se transformando em trevas, os homens ajoelhados em adoração a mim, cometendo todos os atos vis que desejarem, fazendo da terra um espelho do inferno! Quero que você sinta a morte lenta e dolorosa que reservei ao Deus que tanto te amou. Quero que você passe todos os dias de hoje em diante com a frase “eu falhei” nas suas costas, te empurrando ao chão com todo peso do universo, até que você não consiga nada além de rastejar como o verme que é. Até que você venha aqui de novo e implore para morrer… HAUHAHUAHAUHAU!!!

E assim fez Lúcifer, cortando as asas e expulsando Miguel, Gabriel e Rafael do Paraíso, exilando-os em grande desonra na Terra.

Em seguida, o anjo caído tomou para si o trono celestial e deliciou-se com as mil maneiras que pensara em torturar Yahweh, que ainda dormia enquanto a luz do universo se apagava para todo o sempre.

* * *

Rio de Janeiro, costa leste da América do Sul, 6 meses depois…

PASSARA SEIS MESES DESDE A DERRADEIRA BATALHA. Miguel, o arcanjo e Gabriel e Rafael, os dois grandes querubins, outrora revestidos de todo esplendor divino, agora vagavam sem asas, sem armaduras e sem esperanças, pelas ruas atulhadas de calor e caos do Rio de Janeiro. À sombra da estátua do Cristo Redentor, Miguel contemplara a cidade maravilhosa, que se consumia cada dia mais nas drogas e na prostituição. Cada dia mais. Mais. Cada dia. O anjo olhara para o céu, tão azul e bonito quanto os olhos da 13 do Dr. House,  e perdera-se em pensamentos e lamentações. Tudo estaria consumado? Ou haveria uma maneira de lutar, de tentar uma vez mais? Barcos de dúvida que velejavam sem encontrar porto, na imensidão do oceano solitário e sem respostas que transbordava no coração do velho arcanjo. Miguel, absorto em suas angústias, não notara a aproximação de seus amigos.

— Porra, Miguel… tu tem que superar essa parada aí, mêrrrmão. Bola pra frente, meu camarada… – aconselhou Gabriel, pouco depois do último gole na latinha de cerveja barata que trouxera consigo.

— Não te envergonhas de aconselhar-me a abandonar a causa de meu Senhor? – Miguel retrucou, reprovando veladamente a latinha de cerveja, os óculos escuros, a roupa larga e florida e, sobretudo, a maldita facilidade que Gabriel tinha para pegar sotaque.

— Tu sabe que Ele é meu Senhor também e que… e que eu fiquei triste pra caralho por nóis tê perrdido aquela treta lá pros alemão. Porra… tu acha que eu não preferia tá lá agora, no bem bom, tocando harpa no ar condicionado invés de tá aqui derretendo nesse calor desgraçado? Preferia, pô! Lógico que preferia! Mas game over, neguinho. Cabou. Fim. Bora parrrtir pra outra…

— Desanima-me deveras com tua falta de fé, Gabriel. Ou meus olhos muito me enganam, ou também te corrompeste com as coisas do mundo! – Reprovou Miguel. – E tu, Rafael, o que tens a me reportar? Como tem se portado a humanidade? Já sofrendo os efeitos nocivos do acachapante revés que as forças das trevas nos impuseram?

— Os pobres humanos estão perdidos, meu capitão. Afundam-se em bebidas, drogas dos mais variados tipos, jogos de azar, fazem culto ao dinheiro e matam por alguns trocados, destroem famílias por alguns ml de silicone, afundam-se nos vícios, prostituem-se, roubam, passam a perna uns nos outros, pisam em quem está embaixo, são egoístas e pensam apenas no bem-estar próprio. Caminhando entre eles vi essas e muitas outras cousas, meu capitão.

— Ora, meu bom Rafael… então não me parece que muita coisa tenha mudado… – concluíra Miguel após refletir um pouco enquanto coçava a barba por fazer.

— É, meu capitão… na verdade não mudou muito não – concordara Rafael.

— Isso de certa forma é um alívio, mas, não obstante, parece-me tão somente uma questão de tempo para que tudo desmorone de vez, para que o pouco que resta de inocência e bondade nesse mundo seja consumido pelas chamas e passe a jazer no maligno. Nossa demanda é assaz urgente, meus bons companheiros! Precisamos retornar ao Paraíso o quanto antes!!! Mas…

“Como?”… a introspecção retornara ao semblante de Miguel. Uma vez mais observara a cidade e, em seguida, encarara o rosto da estátua de braços abertos à sua frente. Notara diversos grupos de turistas tirando fotos com ajuda do “pau de selfie” e, em seu íntimo, teve certeza que toda a criação caminhava a passos largos rumo ao mais profundo dos infernos. Naquela hora, o mais tranquilo e ponderado de todos os anjos, desesperara-se. “Pai… perdoa minha falha, Pai. Não sou merecedor de vossa graça, mas se ainda estiveres me ouvindo, concedei-me uma segunda chance, Pai! Não hei de decepcionar-te novamente!”, implorara para o nada, enquanto o sol começava a avermelhar o horizonte.

— Aí, gente boooa, tô chegaaaando… tudo na paz? Pô, sem querer me intrometer, mas já me intrometendo… ouvi alguém aqui falando em ir pro Paraíso? He-he-he-he.

Os três anjos viraram-se, surpresos com a figura inusitada que chegara repentinamente. Tratava-se de um sujeito magro, com cabelos rastafári estilo Bob Marley, trajando uma camisa desbotada do Zico, calções largos, chinelos havaiana e um par de luvas, que não precisava ser Coco Chanel, tampouco Valeska Popozuda, pra saber que não combinava nada com o modelito. Em seu rosto macilento, acentuava-se um nariz adunco (ninguém sabe exatamente o que é um rosto macilento, muito menos um nariz adunco, mas são descrições utilizadas em um monte de livros legais, então não podia faltar nesse aqui também). Cativara Miguel, com seus olhos repletos de amor e compaixão. Porém Gabriel não compartilhou da mesma impressão:

— Ninguém tá a fim de comprar pulseirinha, missanga, artesanato, cigarrinho do capeta, nem porra nenhuma não. Vai hippie, mete o pé. Tâmo conversando assunto sério aqui, mêrrmão… rala peito, rapá.

— Gabriel, quanta aspereza! Deixemos o homem falar! – Interviu Miguel. – Então, meu caro… ?

— Pô, não curto essa parada de nome não, tá ligado? Isso aí rotula as pessoas, maior baixo-astral… mas se faz questão, pode me chamar de “Jóta Cê”… – respondeu o hippie.

— Meu caro JC… discorríamos sim, sobre o Paraíso. Acaso sabes alguma coisa acerca desse assunto?

— Pô, demorou, seeeeei sim, camaradagem. Tô até organizando uma excursão pra lá, não tá sentindo a vibe? Tô saindo agora mesmo. Com “agora” estou me referindo tipo ao presente momento desse fluxo temporal, sacou? Mó viaaaagem, né não? E olha só… coincidência… sobrou vaga pra três. E aí, tão a fim?

Miguel ficara atordoado. Percebera que seis meses convivendo com os humanos já foram suficiente para abalar sua fé. Começara a pensar em todas as possibilidades daquilo estar acontecendo, mas, antes que sua mente racional conduzisse-o por meandros que culminariam na não aceitação da proposta, agiu por instinto, concluindo, em um ímpeto iluminado, que tal situação não poderia ser outra coisa além da providência divina em seu estado mais bruto.

— De bom grado aceitamos vosso convite, prezado JC. Rafael, Gabriel… vamos!

— Pô, Miguel… tem que ser agora mêrrrmo? – Perguntou Gabriel, um pouco decepcionado.

— Alguma objeção, soldado?

— Não, objeção nenhuma não. É que… eu tinha combinado com o Rafa de ir num lugar aí hoje à tarde, comecinho da noite, tipo daqui a pouco e tal… né, Rafa?

— É mesmo, “Rafa”? E posso saber onde era este lugar que teria a honra de receber a presença de seres angelicais tão ilustres? – Miguel questionou.

— Era… era… era um lugar chamado 4 por 4, meu capitão… dizem ser um… um antro de perdição dos humanos, senhor… e a gente ia lá pra… pra… fazer uma pesquisa de campo, tipo de quanto a influência maligna está aumentando e tal… né, Gabriel?

— É… mais ou menos isso aí mêrrrmo… é, pesquisa de campo, issaí…

— Então a chegada do estimado JC foi uma bênção dobrada, não é mesmo? Andando, seus desavergonhados! Vamos! – Repreendera Miguel, pegando os dois amigos pelo colarinho e começando a caminhada.

* * *

Corcovado, Rio de Janeiro, pouco mais de meia hora depois…

CHEGANDO AOS PÉS DO CORCOVADO, após pouco mais de 30 minutos de descida, depararam-se com uma Perua Kombi (é um veículo da Volks, muito popular no Brasil em décadas passadas… hoje pode ser encontrada apenas nas feiras livres, na barraca de caldo de cana), fabricada em meados do período Jurássico, perfeitamente estacionada, com talão de zona azul e tudo mais.  JC disse: “adaptei essa belezinha aí pra combustível biodegradáaaavel… não é maneiro?!”. Os anjos entreolharam-se de soslaio. Duvidavam que aquela carcaça de desmanche pudesse chegar sequer em Niterói, quanto mais no Paraíso. Mas, “inspirados” por Miguel, essa turminha do barulho embarcou na Kombosa, viveram aventuras de tirar o fôlego (tipo uma versão angelical de “Pequena Miss Sunshine”… sem o tio gay, é claro) seguindo em direção ao Paraíso para encarar vilões da pesada em uma batalha que ia dar o que falar.

— Vai um gorózinho pra relaxar aí, galera? – JC perguntou, oferecendo uma garrafa de água mineral que repousava ao lado do banco, cheia de um líquido vermelho.

— O que é isso? – Questionara Miguel, com as sobrancelhas mais arqueadas que as do Michael Keaton no Batman do Tim Burton.

— Vinho orgânico da melhor qualidade… fabricação própria! He-he-he-he…

Miguel recusara educadamente. Rafael chegara a esticar a mão em direção à garrafa, mas desistira após notar o olhar de reprovação de seu capitão. Gabriel bebera pelos três.

— Maluco, que vinho sinisxstro! Muito bom mêrrrmo! – Gabriel elogiou após secar quase meio litro numa só talagada. – Tu não vai beber não, JC?

— Pô, não bebo enquanto tô dirigiiiindo… tenho que cumprir a lei. Mas já tamô chegando. Lá eu dou um golinho… se sobrar.

— Vem cá, JC… – Rafael finalmente se manifestara por iniciativa própria, apoiando os antebraços no banco do motorista. – O tal “Paraíso” que você está nos levando… é em Minas?

— Quando for você vai saber! He-he-he-he. Não posso falar antes pra não estragar a surpreeeesa… mas confia aqui no JC, tenho certeza que vocês vão se amarrar.

Assim prosseguiram pela BR-354. Os anjos adormeceram pouco antes da meia-noite e só despertaram ao escutar JC exclamando, com a empolgação habitual: “CHEGAAAAAMOS!”. Após esfregar os olhos, Miguel vira que entravam em uma pequena cidade, com a placa “BEM VINDO A SÃO THOMÉ DAS LETRAS” podendo ser lida com bastante dificuldade acima da porteira. Pouco depois de adentrar o local, JC estacionara a Perua e dissera a seus companheiros de viagem: “daqui a gente vai a péééé. Vamos caminhar no meio da natureza… maneeeeiro!”. Aos anjos, não restaram opções a não ser segui-lo. Prosseguiram em silêncio por uma trilha estreita, com apenas o brilho das estrelas e dos vagalumes cintilando na escuridão. “Que saudade das minhas asas…”, Rafael estava prestes a dizer, quando irromperam no topo de uma montanha. Ali, daquela pedra, o firmamento podia ser visto em todo sua magnificência.

— Não é bonito? – JC abrira um sorriso tão largo que poderia cobrir o mundo inteiro.

— Trata-se de uma paisagem indubitavelmente aprazível, meu caro JC, mas não era exatamente esse Paraíso que nós tínhamos em mente…

Antes que JC pudesse responder a Miguel, outro personagem entrara em cena. Um rapazote que não devia ter mais que seus 16 anos, de semblante gentil, olhos amendoados (a explicação de “nariz adunco” serve aqui) levemente avermelhados e sorriso fácil. Vestia uma camisa do Atlético, surrada que dava dó. Olhara com admiração para os anjos e a eles perguntara:

— Êita lasquêra! Ocêis são artista di cinema? Que diacho de gente bunita, sô! Tudo de cabelo loirinho encaracolado, espia!

— Não, não somos… artistas – adiantou-se Miguel. – E tu, quem és?

— Eu sô o Pedrinho. Só vim aqui oiá as istrela, pensá um cadim na vida, dá uns peguinha… êita trem bão! Tão servido?

— Não, muito obrigado. – Respondera Miguel, segurando Gabriel que já se precipitava em direção ao Pedrinho.

— Uai… se ocêis num viéro aqui pra fumá, viéro fazê u quê intão? Vê disco-avoador? Eles só aparece adispois que nóis fuma! Ah, já sei! Ocêis deve tê vindo recoiê aquelas coisa insquisita que caíro do cér já tem uns seis mêis!

— Pedro, que coisas são essas a que tu te referes? – Miguel deu um salto à frente.

Pedrinho dissera “eu mostro prôceis!” e então conduzira-os por uma encosta escarpada que desembocou numa clareira. Quando viram o que ali estava, os anjos ficaram com os olhos mais arregalados que os da Dany Targaryen ao ver o “tamanho” do Khal Drogo. Alegraram-se, como adolescentes que descobrem que vai passar “Curtindo a vida adoidado” na Sessão da Tarde. Ali estavam. Elas. Resplandecentes. Ali estavam…

As armaduras.

Twist and shout!!!

Porém, em pouco mais que um instante, toda esperança fora desfeita.

— Tá quebradassa essa porra. Nem adianta vestir, só vai fazer peso no corrrpo. Caralho, o filha da puta do Samael sacaneou legal… – concluíra Gabriel.

— Acho que eu posso dar um jeito nisso… – interviu JC, que acompanhara a reação dos anjos com divertida curiosidade.

— O que disse? – Surpreendeu-se Rafael.

— Pô, já dei jeito até pra morte, não vou dar conta de umas armadurinhas? He-he-he-he. A gente só precisa de um pouco de sangue, pra dar vida a elas…

Miguel prendera o ar para tomar a coragem de cortar os pulsos, mas JC dissuadiu-o, fazendo um gesto de “espere”. Em seguida, o hippie com a camisa do Flamengo tirara aquelas estranhas luvas e todos perceberam que ele as utilizara para ocultar grandes furos que vazavam suas mãos. Com uma agulha de atar missangas, JC perfurou o dedo indicador, como se fosse fazer um teste de diabete. Depositou uma gota de seu sangue em cada uma das três armaduras. Uma gota. Em cada armadura. Então… elas… voltaram…

Voltaram a BRILHAR.

— Era só isso? – Admirara-se Miguel, mais que a Dona Chica com o berro do gato.

— Meu sangue tem podeeeer… tá ligado? He-he-he-he. Bom, agora cada um pega sua cruz… opa… sua armadura, e me segue. Maneeeiro!

Assim fizeram os anjos. Vestiram as armaduras e seguiram JC de volta ao topo da montanha. Pedrinho fora com eles. Quando lá chegaram, JC abrira os braços, como Leonardo DiCaprio no Titanic e gritara, também como o menino que não ganhava Oscar na mesma cena: “EU SOU O REI DO MUNDO!!!”. Sorriu e continuou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida! Ninguém vem ao pai, senão por mim!”. Então um grande arco-íris se formara, indo dos pés de JC até o céu.

— Eita trem bão, sô! Nunca tinha visto um cuíris assim tão di pertim! – Pedrinho exclamou, apontando empolgado para o que todos estavam vendo.

A próxima ação a ser tomada estava clara, mas Miguel hesitara diante daquilo que poderia ser considerado um símbolo pagão ou, um milhão de vezes pior, uma apologia ao movimento LGBT. Refletiu se desagradaria ao Senhor seu Deus, se acaso subisse ali.

— Ôceis vão fica só oiando pru cuíris a noite intêra, sô? Já tão cazarmadura, uai… tão cum medo di quê?

— Vamos, meu capitão… – Rafael puxara o braço de Miguel, dando o primeiro passo na ponte. – Nossa causa é urgente e… e é melhor a gente ir, antes que o Gabriel pegue esse sotaque do Chico Bento…

— Tens razão, meu leal soldado. Vamos! JC, agradeço-te imensamente pela ajuda, seja lá quem tu fores! Quando cumprirmos nossa missão, recompensar-te-ei com uma das pedras preciosas que cintilam sob as águas do grande lago que transborda alegria ao centro do Jardim Eterno.

— Não precisa nada disso não! Não sou apegado em bens materiaaaais, tá ligado? Tudo que eu faço é de GRAÇA. Ah… já ia esquecendo… tem mais um presente pra vocês, segura aí!

— Agradeço! Mas… o que é isso? – Miguel perguntara, segurando a esfera metade vermelha, metade branca, que JC atirara para ele.

— Quando for você vai saber! He-he-he-he! Na hora que tudo parecer perdido… use-a! E você vai ver que é maneeeeeiro!

Os anjos despediram-se com um aceno de cabeça e correram em direção ao Paraíso, onde Lúcifer os aguardava com ansiedade. O bicho ainda não pegara.

Mas estava prestes a pegar.

* * *

Céu (também conhecido como Paraíso)…

O CÉU TRANSFORMARA-SE NUMA EXTENSÃO DO INFERNO. Miguel, Rafael e até mesmo Gabriel, que havia se entregado aos deleites mundanos nos últimos meses, choraram ao contemplar o estado lastimável que se encontrava o Paraíso. A grama verdejante dera lugar a um chão de terra seca e rachada; uma fogueira ardia donde uma vez existira o Jardim Eterno, de quem a primavera era amiga inseparável e desabrochavam as mais belas de todas as flores; o grande lago secara e convertera-se numa terrível prisão com grades de fogo, onde os anjos que não se curvaram perante Satanás agonizavam encarcerados; finalmente, os imponentes cedros, que cresciam além das planícies infinitas desde o terceiro dia da criação, foram queimados e agora compunham uma paisagem desoladora onde um sem número de almas andava a esmo, gemendo e implorando por um socorro que não viria.

Porém, não era hora nem lugar para lamentações. Atrás dos portões de safira, um incontável contingente de demônios e de querubins vira-casaca aguardava, ávido para devorar o espírito e dilacerar os corpos dos poderosos anjos que ali chegaram.

— Acha que temos chances, meu capitão? – Perguntara Rafael, forçando os olhos para ver até onde se estendiam as fileiras inimigas.

— Prometo que será difícil. Mas vou tentar. Lembrem-se: nossa arma mais forte não é a espada, tampouco é a armadura o que mais nos oferece proteção. A única coisa que pode nos trazer êxito nessa batalha é a fé. A fé que temos uns nos outros e, sobretudo, a fé que temos no nosso Senhor. Quem é como Deus? Eu vos pergunto…

— Ninguém…

— QUEM É COMO DEUS? – A ira divina começara a tomar conta do peito do arcanjo.

— NINGUÉM!!! – Rafael e Gabriel responderam em uníssono.

— Vós lutareis mais este combate a meu lado, meus bons soldados? Morrerão por mim se preciso for, meus bons amigos? Eu morreria por vós, quantas vezes fossem necessárias.

— Não poderia desejar estar em outro lugar que não fosse a teu lado, meu capitão.

— Tamô junto, Miguel. Até o fim.

— Enquanto for honrado pela lealdade de vocês, nada temerei. Agora vamos! Temos alguns demônios para mandar de volta ao inferno… – dissera Miguel, fechando a viseira do elmo.

Imbuídos da tranquilidade que transcende todo entendimento, os anjos cruzaram o portão de safira. À frente das linhas inimigas apresentara-se Belial, o cruel, o general mais graduado no exército de Lúcifer. Munido da confiança de quem tem os números a seu favor, o demônio aproximara-se, montado em um leão negro de seis patas e juba de fogo (tipo um Aslan do mal). Disse ele aos anjos (para obter mais impacto, imagine com aquela voz distorcida tipo de depoimento anônimo de usuário de drogas nas reportagens do Fantástico):

— Ora, então os bons filhos voltaram para casa, não é? Mas, vejam só… aqui não é mais a casa de vocês, meus queridos… MUHUAAUHAU. Então, se não for pedir muito, saciem minha curiosidade: o que querem vocês aqui? Por acaso anseiam tanto pela morte que fizeram questão de correr de encontro a ela?

— Viemos resgatar nosso Senhor, destronar Lúcifer e mandar a ti a aos teus demônios de volta ao poço do vazio infinito, onde o verme não morre e o fogo não se apaga.

— MUHUAAUHAU!!! Belas palavras, Miguel, príncipe dos anjos! Mas como você pretende fazer isso? O caminho até o santuário está bloqueado por meus soldados, em um contingente tão grande quanto o número de estrelas no céu. Diga-me, arcanjo… por acaso acha que pode vencer a todos nós em combate?

Miguel apenas sorrira.

E a confiança desse sorriso fizera Belial tremer.

— Eu não acho, espírito imundo… o Deus dos Exércitos é comigo e eu não poderia ter mais certeza! – Enquanto falava, a espada flamejante de nome Sagrada Vingadora materializara-se na mão de Miguel.

Em um átimo, a cabeça de Belial rodopiara no ar, enquanto seu corpo escorregara inerte no dorso do leão negro de seis patas e juba de fogo. Ato contínuo, Miguel saltara sobre os demônios postados à frente que observaram, atônitos, ao seu general ser derrotado em um piscar de olhos. Na Terra, no Céu ou no Inferno, não havia armadura, lâmina ou escudo que pudesse resistir à Sagrada Vingadora, pois nela estava contida a justiça divina. E a cada golpe de Miguel, seis inimigos eram destruídos, explodindo no ar em uma nuvem tão negra quanto a matéria-prima dos pesadelos. A cada golpe. Seis inimigos.

Sagrada vingadora.

Justiça divina.

Gabriel saltara sobre o leão de seis patas e dissera-lhe: “aí, gato-guerreiro… se liga só na parada: agora tu vai obedecer o papai aqui, tá me entendendo?!”. E, cavalgando a bestial criatura, abrira um veio de terror e destruição entre as tropas abissais, brandindo sua lança de nome Raio da Purificação. Com o arco chamado Setas da Justiça, Rafael dera cobertura aos amigos, numa performance que faria Legolas parecer apenas um pequeno garoto de orelhas pontudas brincando de caçar passarinhos com estilingue.

O inimigo era demoníaco. E a luta foi mortal.

Para os demônios.

Protegidos pela fé (e também pelas armaduras de diamante) e tendo derrotado mais inimigos que o Link na última fase de Hyrule Warriors, os três anjos chegaram ao pátio do santuário. Dali olharam a grande escada que precisariam galgar até chegar ao trono de Deus, que agora estava ocupado por Samael, o usurpador. E foi ele próprio, Lúcifer, Estrela da Manhã, quem gritara lá de cima:

— Parabéns anjinhas da guarda! Conseguiram passar pelos soldados, muito bom! Mas o verdadeiro desafio vai começar agora, Miguelito… veja, separei meus maiores campeões e os coloquei protegendo as quatro casas (era pra ser 12, mas a história já está ficando muito grande e resolvi diminuir) que marcam os checkpoints da escadaria. Vocês terão que passar por todos eles se quiserem chegar aqui. E… adivinhem? Surpreeeesa… vocês têm apenas quatro horas para fazer isso, se quiserem ver Yahweh vivo AHUAHUAHUAHUA. É o tempo que a flecha envenenada que atirei nele vai demorar pra fazer efeito! Então… apressem-se, meninas! Ou o papai vai ficar zangado… ou melhor… MORTO!!! HUAUHAUHAUHAHU.

Ao terminar de ouvir tais terríveis palavras, os power angels puseram-se a correr.

A batalha final estava prestes a começar.

* * *

Primeira casa: SEPTIMO…

CHEGARAM À PRIMEIRA CASA, após subir 497 lances de escada. Ao lado de fora da imensa construção erigida seguindo os padrões da arquitetura gótica-vampiresca-transilvânica-lusitana, havia uma placa, donde podia-se ler as seguintes palavras: PRIMEIRA CASA: SEPTIMO. Os anjos entreolharam-se, pensando o quê diabos poderia significar aquilo. Não havia, porém, tempo a perder, afinal, a subida pela escada já consumira boa parte da hora que poderiam gastar ali. Entraram. Lá dentro, a escuridão e o silêncio eram aterradores. Mesmo a luz emanada pela espada flamejante de nome Sagrada Vingadora, empunhada por Miguel, parecia fraca, hesitante. O ar estava impregnado com um cheiro profano de cimento e tinta fresca. Seguiram com passos cuidadosos, afundando os pés no chão arenoso. Ouviram então um ranger metálico, como se fosse a porta de um caixão se abrindo. E era isso mesmo. De algum ponto em meio às brumas negras e frias que envolviam o ambiente, uma voz diabólica tonitruou:

— QUEM ESTÁ A INVADIR OS DOMÍNIOS DE SEPTIMO? VÓS FEDEIS A VACALHAU, ORA POIS!!!

— Então tu és um dos campeões de Samael? Prepare-se para morrer! – Respondeu Miguel, lançando-se em investida contra a criatura oculta pelas sombras.

— És corajoso, ó gajo. Todavia, devo dizeire que vossa coragem serventia alguma tem aqui… – Septimo falou, enquanto a espada de Miguel rasgava o ar em sua direção.

No instante derradeiro, Septimo explodira e transformara-se numa nuvem disforme de morcegos atrozes, antes que a Sagrada Vingadora pudesse tocá-lo. Os morcegos voaram em todas as direções, emitindo gritos estridentes, que deixaram os anjos atordoados e confusos. Tão rápido quanto desapareceu, Septimo recuperou sua forma original, bem atrás de Rafael que havia tentado, em vão, acertar as criaturas aladas com suas flechas abençoadas.

— Terás a honra de sere o primeiro a caire em comvate… – Septimo sussurrou na lobulosa orelha do anjo, antes de agarrar-lhe o torneado braço com suas afiadas garras.

O vampiro (Septimo era um vampiro), girara o anjo no ar rapidamente, formando um pequeno ciclone. Em seguida, largara Rafael, que saíra voando em impressionante velocidade até encontrar a resistente parede do templo maldito. Um grande buraco com o formato de Rafael abrira-se na rocha fria e em seguida o belo anjo caiu que nem… uma prancha… dando de cara no chão lamacento.

— O primeiro não deu nem para o começo… qual dos gajos será o próximo a conhecer a fúria do Septimo? Qual dos dois terá o sangue mais savoroso? Ora pois, acho que será ti que estás aí todo calado com essa lança… – o vampiro ameaçara, transformara-se num lobo gigante com brilhantes olhos vazios e investira contra Gabriel.

— Nem vem que não tem, mêrrmão… nem a pau que tu vai me… – Gabriel começara a falar confiante, mas então o lobo de proporções descomunais deu um salto e um bote certeiro na frágil garganta do bravo querubim. – AAAIII, AAAAIII… ME AJUDA AQUI… – foi tudo que conseguira dizer enquanto tentava se livrar da fera.

Miguel correra em auxílio do amigo, mas, percebendo a movimentação, Septimo retornou à forma original e com sua força sansônica, jogara Gabriel para cima do arcanjo. O impacto das inexpugnáveis armaduras de diamante fora extremamente violento e os dois poderosos seres celestiais voaram, um para cada lado, e também estatelaram-se às paredes, fazendo com que uma nuvem de poeira descesse do teto, como cristais de neve descem do céu nas noites de natal no hemisfério norte.

—Não estão a ver que é inútil lutar? Levantem-se, vamos… para que eu possa atirá-los ao chão novamente, como um saco de vatatas. Hua-hua-hua-hua!!!

— Miserável… você vai pagar caro por isso! – Disse Rafael, que recobrara a consciência e tentara ficar em pé.

— Palavras vonitas, mas, não ovstante, inúteis. O facto é que aqui, neste estavelecimento, aqui, na minha casa, eu sou invencível, ora pois!

— Ãhn? O que foi que você disse!? Aqui dentro você é invencível!? – Rafael agora estava em pé. Um tanto cambaleante, mas em pé.

— É isso mesmo que estou a dizeire! Agora vasta de conversa! Preparem-se para morreire!

Septimo iniciara uma corrida que certamente geraria um ataque que provavelmente levaria a óbito quem porventura encontrasse pelo caminho. Miguel pegara a esfera que JC lhe dera e pensara em utilizá-la. Ainda era cedo, mas tudo já parecia perdido. Rafael, porém, bolara um plano. Um plano idiota. Mas um plano.

— Espera… espera… – pedira o anjo, com as mãos fazendo sinal de trégua. – Se essa casa é sua, por que ela não tem seu nome lá na porta?

— Ora pois… tem meu nome lá na porta, sim… – o vampiro afirmou, sem muita convicção.

— Não… acho que li “Joaquim”. Primeira casa: Joaquim. Não era isso, Miguel?

— Bem… agora não me recordo ao certo a grafia de todas as letras… mas talvez fosse melhor conferir, não? – Respondeu o arcanjo, fazendo o máximo esforço para dizer uma meia verdade.

Septimo ficara enfurecido. Caminhara em direção à entrada, bufando e pisando fundo, resmungando que pedira mil vezes para tomarem cuidado com o nome ao fazer a placa. Já não “vastava” os pedreiros, que enrolaram com a obra e atrasaram em quase três meses a entrega, agora mais essa. O vampiro saíra da casa e conferira que estava tudo correto: PRIMEIRA CASA: SEPTIMO. Então notou o sol arder de leve em sua pele e sentiu-se tão enganado quanto alguém que compara o lanche que chegou na bandeja com a foto que estava estampada no cardápio do Mc Donalds.

— Seus miseráveis! Por acaso estão a pensaire que sou vurro? O plano foi deveras engenhoso, admito, mas aposto que não contavam com este pequeno detalhe: fiz um pacto com o diavo e sou imune à luz do sol! Hua-hua-hua-hua! Agora cansei-me deste circo mamvemve… vou entraire de volta e acavar com todos vós, anjos fracot… anjos… ANJOS???

Enquanto Septimo fora conferir a placa, Miguel, Gabriel e Rafael aproveitaram para dar no pé e iniciaram a jornada até a segunda casa, em uma subida árdua, que renderia uns três episódios de animê só na escada.

* * *

Segunda casa: CARROÇA DAS FEMINISTAS…

CHEGARAM AO SEGUNDO TEMPLO, onde dizia a placa: SEGUNDA CASA: CARROÇA DAS FEMINISTAS. Não faziam a menor ideia do que poderia ser aquilo, mas o tempo era escasso e não havia outro caminho. Adentraram o recinto. Estátuas de deusas gregas e quadros modernistas (daqueles que parecem rabiscos de criança), manifestos e pôsteres da Lola Aronovich adornavam o local. Uma visão do inferno, não restava dúvida. Continuaram caminhando, sem notar a presença de ameaças ou qualquer outra coisa incomum. Um pouco à frente, no entanto, encontraram uma carroça, e nela um grupo de mulheres. E viram os anjos que as filhas dos homens eram formosas…

— Opa, prazerrrr… sou o Gabriel. Tá tudo bem aí com vocêixs? Tão precisando de uma forrrça pra descerr daí? Tamô aqui pra ajudar…

— Por acaaaaaso você está insinuando que não conseguiríamos descer daqui por nós mesmas? Que dependemos de um “paladino da justiça” pra vir aqui e dar uma “mãozinha” para nós, pobres donzelas indefesas? É isso mesmo que eu entendi? – Uma das mulheres perguntou com as mãos à cintura e batendo o pezinho.

— Não… pô… não é nada disso aí não. Só quis, sei lá… ser gentil, puxar uma converrrsa e tal…

— E só porque viu a gente aqui, já se achou no direito de chegar invadindo nosso espaço com suas cantadinhas baratas e opressoras? – Perguntou outra das moças, enquanto abria o vestido e deixava os seios à mostra. Neles (nos seios, muito bonitos por sinal) estava escrito com tinta guache: NÃO PRECISO DA SUA AJUDA!!!

— Aí… vamuixs fazer o seguinte: não tá mais aqui que falou, combinado? – Propôs Gabriel, olhos fixos à mensagem estampada no corpo da ativista. – A gente vai passar aqui bem na moral, pra não atrapalhar a reunião de vocês, né não, rapaziada?

— Sim, decerto… não é nosso intuito atrapalhar – concordou Miguel, desviando-se da carroça para seguir caminho até a terceira casa.

Tudo parecia resolvido. Mas, seja na Terra, no Céu, ou no Inferno, nunca que uma feminista deixaria alguém ter a última palavra em uma discussão.

— Então na cabeça de vocês é só entrar aqui sem pedir licença, mexer com a gente, depois ir embora como se nada tivesse acontecido? Atitude bem típica mesmo, né? Bem #machistaPatriarcalOpressoraDisseminadoraDaCulturaDoEstupro! Só que deixa eu explicar uma coisa, meus queridos: nossa casa, nossas regras! E a nossa regra é: nenhum homem vai passar! Vão ficar aqui e ouvir umas poucas e boas.

— Bom, na verdade não somos homens… somos anjos. – Disse Rafael tentando, bobamente, argumentar.

— E é exatamente por isso que não vamos deixá-los continuar para salvar o Yahwehzinho de vocês. Porque Ele é o primeiro e principal culpado por toda essa conduta conservadora-reacionária-coxinha-patriarcal-culpabilizadoradevitimadocaralho que rebaixa as  mulheres à seres humanos de uma categoria inferior desde o primórdio dos tempos, relegando-nos sempre o papel de incansáveis serviçais, meras peças de enfeite na decoração, simples objetos que possuem apenas duas serventias: dar prazer aos homens quando estes bem entenderem e “deixar a casa em ordem”, o que implica em ser uma deusa do sexo selvagem mesmo após dispender toda energia para lavar louça, cuidar dos filhos, limpar o chão, esfregar as freadas de bicicleta que ficam nas suas cuecas nojentas, etc. etc. etc. Se os anjos não têm sexo, então porque sempre são retratados com corpo masculino, nomes masculinos? Cadê a representatividade da mulher nesse céu, minha gente? Porque Deus tem que sempre afigurar-se como um velho de barba? Por que não uma mulher? Para reforçar o estereótipo de que os homens possuem o poder, é claro! Pois nós dizemos: chega! Nós vamos nos emancipar e blá blá blá… machista… blá blá blá… empoderamento… blá blá blá… patriarcal… blá blá blá… direitos iguais… blá blá blá… scum manifesto… blá blá blá…

O discurso continuou e os anjos começaram a sentir vertigem. O mundo girava ao redor da boca daquela matraca que não parava de falar e a energia vital dos seres celestes era drenada pouco a pouco. Estavam já entorpecidos e exauridos, quando veio o golpe final, quando veio a palavra que nunca pode faltar num discurso feminista:

— … e, em nome de Valerie Solanas, eu digo que (imagine no ritmo de Kame-hame-ha): VOCÊÊÊÊS SÃÃÃO… MISÓÓÓGIIIIINOOOOOSSSSSS!!!!!!

Então eles tombaram. E as mulheres riram, pois lhes dava prazer a subjugação masculina (ou de arquétipos que os valessem). Antes que pudesse surgir a dúvida se isso não era praticar exatamente os mesmos atos que condenavam, outro par de peitos eclodiu do sutiã, com os dizeres “não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor” (sim, eram dois peitos grandes e cabia tudo isso escrito neles). Quando os anjos conseguiram juntar um pouco de energia, tentaram correr, mas o discurso recomeçou e novamente foram ao chão. Parecia que ali ficariam para sempre, enquanto Yahweh morria, mas então Miguel perguntara:

— Todas vós… sois oprimidas da mesma forma?

— SIM!!! Por babacas misóginos como v… – começara a responder uma das que ainda estavam vestidas.

— Peraí, queridinha… não é bem assim não – interrompeu uma outra. – Você é magra… eu sou gordinha e logo sou mais oprimida, porque recaí sobre mim todo esse estigma de não me enquadrar nos padrões de beleza inatingíveis das capas de revista photoshopadas que pululam nas bancas dessa sociedade opressora-capitalista-oligárquica-patriarcal.

— Até aí, meu amor… eu sou negra. Sofro preconceito em dobro, minha filha!

— Fofa… o que está em pauta aqui é a questão de gênero, não podemos entrar no mérito da discussão racial, que também é importante, claro, mas…

— Querida… discordo totalmente! Levando em conta o fato comprovado por um post da Lola que todo machista é também racista, etnocentrista, homofóbico, elitista e, obviamente, misógino, então toda luta por direitos das minorias é igualmente importante…

— Também acho! Porque eu sou mulher, negra e lésbica. Ah… e um pouquinho acima do peso também, mas agora vou começar a dieta do paleolítico e dar um jeito nisso. Mas enfim… é lógico que sou a mais oprimida aqui…

— Também não é assim, né minha flor… tem que levar em conta que blá blá blá… machismo… blá blá blá… culpabilização da vítima… blá blá blá… misógino… blá blá blá…

Enquanto as feministas digladiavam entre si, lutando fervorosamente pelo posto de quem era a maior vítima da sociedade ali em cima daquela carroça, os anjos aproveitaram a oportunidade e saíram à francesa, rumo à terceira casa.

* * *

Terceira casa: MC…

MAIS ESCADAS, como de praxe. E, ao final da extenuante subida, mais um templo, com a placa: TERCEIRA CASA: MC. Entraram lá sem demora. Era um lugar amplo, com vários pilares vitorianos, perfeitamente enfileirados, tão altos que quase não se via o topo. Aos olhos dos anjos a casa parecera vazia, mas então, entre as pilastras, comtemplaram uma figura medonha. Um rapaz de corpo esquelético, cheio de relógios, colares, correntes e pulseiras reluzentes, como se metade das jazidas de ouro da terra ali estivessem, penduradas naquele pescoço de galinha desnutrida. A pele de seu corpo e de seu rosto era toda coberta por tatuagens profanas. Seu cabelo fora descolorido com blondor e, em suas mãos, um microfone era empunhado. Antes que os representantes celestes pudessem esboçar qualquer reação, aquela criatura tétrica começara a cantar:

Nóis chama as novinha

Elas vem na ostentação

Nóis vamu na picadilha,

Nóis é tudo patrão

Tututu tudopatrão tudopá tudopatrão

Rafael tentara atirar uma flecha, mas não lhe sobrara força para retesar o fio do arco. Aquela música demoníaca derrubou os três quase que de imediato. Mesmo Gabriel, que na Terra convivera em ambientes onde aquele tipo de “canção” era comum, agora, provavelmente por encontrar-se no âmbito celeste, não resistira aos efeitos nocivos das rimas. Sem dar chance ao inimigo, o rapaz continuou “fazendo seu som”:

Lá no baile ou lá em casa

Elas desce até o chão

Rebolando na picadilha,

Rebolando pus patrão

Pupupu puspatrão puspá puspá puspatrão

Miguel desmaiara. Gabriel encostara em um pilar e ali começara a colocar para fora tudo que juntara no estômago em todo período que estivera na terra. Rafael concentrara-se e juntara a força necessária para uma última ação desesperada. Posicionou os dedos indicadores, um de cada lado da cabeça e, ato continuo, enfiou-os aos ouvidos, perfurando os próprios tímpanos e ficando imune aos efeitos demoníacos daquelas palavras proferidas ao microfone. Levantou-se e posicionou sua flecha no arco. Mas, antes de disparar, decidiu conceder uma chance ao garoto:

— Só vou dizer uma vez: pare de cantar agora, para que eu e meus amigos possamos atravessar essa casa! – Gritara, sem noção do volume da própria voz.

O rapaz respondeu “tá bom, tio… era só pidi que nóis parava, na humildade…”, mas Rafael estava surdo e só viu a boquinha mexendo próxima ao microfone. Pensara que o rapaz tinha continuado com a cantoria e mandou uma flecha certeira bem no meio do coração do féla da puta, que tombou de cara no chão, quebrando os óculos da Oakley que ostentava.

— VAMOS!!! – Chamara Rafael, ajudando os amigos a levantar.

Apenas uma casa restava no caminho até Samael.

* * *

Quarta casa: AUDICTORIUM…

ÚLTIMA CASA. Finalmente. Correram para dentro, quase sem dar atenção à placa que estampava: QUARTA CASA: AUDICTORIUM. Esse templo era totalmente diferente dos anteriores. Havia ali incontáveis pedestais e, sobre cada um deles, dançava uma mulher, com pouca roupa e muito silicone. Palmas e risadas podiam ser ouvidas (menos por Rafael, que estava surdo), apesar de não se ver nenhuma plateia. Havia também confetes, buzinas, balões, globos de luz, marchinhas de carnaval. Nas paredes projetavam-se cenas de gincanas, mães reencontrando filhos após 48 anos separados, sujeitos que precisavam fazer 10 strikes seguidos para ganhar uma reforma na casa, concursos de dança, concursos de comédia stand up, concurso de quem conseguia fazer a coisa mais legal (ou mais idiota) em 30 segundos, pegadinhas (provavelmente combinadas, mas engraçadas mesmo assim) e muitas outras cousas que pareciam (e provavelmente eram) completas tolices, mas os anjos ficaram ali parados por quase uma hora, assistindo aos quadros (Gabriel concentrara-se mais nas “coreografias” que eram protagonizadas ao vivo pelas modelos/atrizes/dançarinas).

Ao se dar conta do embuste, Miguel puxara seus amigos e os arrastara em direção à saída. No caminho, porém, havia um indivíduo de terno e gravata. Seu cabelo era loiro e de penteado clássico (a vaca lambeu). Em seu rosto havia mais pó do que no porta-luvas do Maradona. Estava ladeado por homens que possuíam o abdômen definido desde o jardim da infância e por mulheres maravilhosamente esculpidas em silicone e hidrogel. Ao centro do palco onde esse grupo dançava e sorria, havia uma banheira.

— Olha aí, chegou o time dos homeeeeeeens!!! – Anunciara o apresentador, com a empolgação de quem ganha na mega sena da virada.

— Não queremos lutar convosco, mas faremos isso se preciso for. Aconselho-vos a abrir a porta da saída e deixar-nos passar. – Miguel aconselhara.

A música animada cedera lugar a toques melancólicos e espaçados em teclas de piano e o apresentador, após uma longa pausa e um ainda mais longo suspiro (tão profundo que se poderia supor que alguém lhe dera a notícia do falecimento de um parente próximo pelo ponto eletrônico) dissera, com os olhos completamente marejados:

— Nós abriríamos a porta se pudéssemos… a situação de vocês é muito triste, gente. Muito triste. Esses anjos perderam tudo que tinham e agora voltaram, num exemplo de determinação e perseverança… para tentar consertar as coisas. Uma verdadeira lição de vida. E quem haveria de querer atrapalhar essa missão? Não eu, minha gente. Não eu! Na verdade, nós estamos aqui pra ajudar. Mas o problema é que a porta de saída… está trancada. E o único jeito de abri-la é… TIRANDO OS 10 SABONETES DA BANHEIRAAAAAAAAAAAAA!!! – A música animada, a dança e os sorrisos voltaram com força total. – Mas só tem um minuto e a Luísa vai entrar junto pra atrapalhaaaaar!!! – Veio a Luísa e… meu Deus do Céu… Luísa… – Então, qual dos três vai entrar?

— Tô nessa, rapaziada! Xá’comigo. Eu me sacrifico pela equipe! – Gabriel adiantara-se, já tirando a armadura e deixando a lança de lado.

O anjo entrara na banheira e ficara com os braços para cima, conforme instruções do apresentador. Luísa viera em seguida e o agarrara por trás, roçando aquelas duas personificações da palavra “perfeição” em suas costas. O apresentador então zerou o cronômetro e deu a largada:

— Preparados? 1, 2, 3… VALENDOOOOOOOOOO!!!

“(Oê Oê Oê Oê Oê Oê)…

Uba, Uba, Uba, Ê!

(Uba, Uba, Uba, Ê!)

Uba, Uba, Uba, Ê!

(Uba, Uba, Uba, Ê!)”

Uma música onomatopeica-profana que na verdade era um culto de adoração a um antigo diabrete africano começara a tocar e, exceção feita a Rafael que não podia ouvir, todos chacoalharam o esqueleto (sim, até Miguel meneara um pouco os ombros, sem perceber). Gabriel afundara as mãos na água em busca dos sabonetes, mas Luísa agarrara-lhe os braços e, prova viva que anabolizantes dão resultado sim, a mulher era mais forte do que se poderia supor. Com extrema dificuldade, o anjo fora tirando da banheira as escorregadias peças retangulares de glicerina. E o cronômetro correndo. E a música tocando:

“Eô Eô Eô

(Eô Eô Eôoo)

Eô Eô Eô

(Eô Eô Eôoo)”

— Pegou 8 até agora!!! Pegou 8!!! Mas ainda faltam dois e o tempo está acabandoooo!!! Quem vai ganhar, os homens ou as mulhereeeeees??? – Berrara o apresentador com grande comoção e imparcialidade.

Mais arranhado do que se tivesse topado com uma jaguatirica no cio em noite de lua cheia, Gabriel removera o nono sabonete, mas, quando se preparara para novo mergulho, uma buzina tocara, anunciando que o tempo havia se esgotado.

Os anjos falharam, tudo estava perdido.

— Ah, que pena! Eles não conseguiram… – a música melancólica voltara e, junto com elas, as lágrimas do apresentador. – Tá triste, Gabriel? Quer dizer… a cara está tristinha, mas ali embaixo parece que a coisa tá animadaaaaa!!! – Concluíra o apresentador, após dar uma bela conferida no volume que se revelava na sunga do rapaz que acabara de se levantar da água. Parecia que a “harpa” do querubim estava mais dura que peruca de velha com laquê.

— Não, calma aí, mêrrmão… né nada disso que vocêixis tão pensando não… – Gabriel se justificara, enfiando a mão no short de banho e dali tirando…

— O último saboneteeeeeeee!!! Ponto para os homeeeeenss!!! – “Uba, Uba, Uba, Ê! (Uba, Uba, Uba, Ê!)” – Mas espera, gente… será que tinha 11 sabonetes na banheiraaaaa??? – O apresentador perguntara, com um sorriso tão largo quanto sincero estampado no rosto.

— Não… tinha deixiz só… só deixiz… – respondera Gabriel, um pouco constrangido, apressando-se para colocar novamente a armadura.

Assim abrira-se a porta de saída do último templo.

A batalha final estava prestes a começar (agora é sério).

* * *

COMEÇARA A CHOVER E TROVEJAR quando os anjos chegaram até Samael. Os trovões ribombavam e os raios caiam com a profusão de likes em foto de criança com cachorro no Facebook. Era como se o próprio clima houvesse se preparado para a batalha que estava em vias de se desenrolar. Era como se o destino de toda a criação estivesse caminhando entre o gume da Sagrada Vingadora e da Dilaceradora Profana, as espadas de Miguel e Lúcifer, respectivamente. Era como se nada mais importasse e todo o universo estivesse parado, era como se todas as estrelas, planetas e buracos negros houvessem voltado sua atenção para o templo do Altíssimo.

Era como…

— Rafael, vá tirar a flecha envenenada do peito de Yahweh, rápido! – Ordenara Miguel.

Rafael continuara andando como se ignorasse as ordens de seu capitão. Então Miguel lembrara dos tímpanos perfurados e o cutucara, passando a mensagem através de mímicas e gestos dignas dos campeões do jogo “Imagem & Ação”. O bom anjo fora correndo até Deus. Os outros dois encararam Lúcifer. Todo mundo sabia que aquilo acabaria em briga de qualquer jeito, então nem perderam tempo conversando.

Gabriel fora o primeiro a atacar. Com Raio da Purificação, a lança mágica +5 com habilidade demon slayer, que destruíra 593 demônios de uma só vez durante a batalha da queda, éons atrás, lançara-se sobre Lúcifer, tendo como alvo o coração do demônio. Entretanto, Estrela da Manhã conseguira desviar-se (em slow motion, igual Matrix) e, num rápido contragolpe, acertara um chute na barriga de Gabriel, que se projetava deitando no ar bem à sua frente. O impacto fizera o querubim envergar mais que aquelas palmeiras chutadas pelo Van Damme e lançaram-no (o querubim, não o Van Damme) a grande altura. Lúcifer bateu suas asas negras e voou, perseguindo o inimigo. Ao aproximar-se, Satanás unira os dois punhos e batera, como uma marreta destruidora de estrelas, nas costas de Gabriel, fazendo-o voltar com a velocidade dobrada em direção ao solo. Ao encontrar o chão, uma colossalmente profunda cratera fora formada. Lá do alto, Lúcifer criou uma grande bola de energia negra entre as mãos e em seguida disparou-a contra o querubim.

Seria o fim do anjo metido a Zé Carioca se Miguel não estivesse por perto e o protegesse, batendo com o antebraço na esfera de energia e devolvendo-a na direção do capeta, que apenas sorrira com desdém e preparara-se para rebater novamente, impondo ainda mais força e poder. Certamente Miguel, exausto pela batalha das quatro casas, não conseguiria defender novamente e os dois anjos seriam destruídos de uma vez. Assim pensara Lúcifer, esquecendo-se que a soberba sempre fora seu calcanhar de Aquiles. Pouco antes de encontrar o hadouken que estava indo pra lá e pra cá, uma flecha trespassara-lhe as asas, roubando-lhe o equilíbrio. Era a flecha de Rafael, que salvara Yahweh e viera em auxílio dos amigos. O vagalhão de energia rebatido por Miguel pegara Satanás de raspão, destruindo toda a parte superior de sua armadura negra. Samael caiu de grande altura e todos pensaram que aquele era seu fim, pois agora, sem a armadura, não seria páreo para as forças do bem reunidas. Mas ele levantou-se, gargalhando. Aquela gargalhada que a gente já sabe que o vilão dá quando vai aprontar alguma presepada.

— Rafa… Miguelito… Gá… vocês não pensaram que seria tão fácil assim, pensaram? Hun-hun-hun-hun!!! Vocês chegaram longe, mas agora é o fim da linha! Vou usar a minha arma secreta: LEVIATÃ, EU ORDENO QUE APAREÇA!!!

Uma serpente de proporções africanas irrompera do chão. Todo seu corpo era feito de puro caos e ela projetara-se aos céus e em seguida descera, acertando Miguel com a cauda. O arcanjo voara com o impacto, e só parara quando colidira com um dos sete pilares do tempo de Yahweh. O dragão-chinês que comera papinha de Godzilla quando bebê fizera nova investida, agarrara Gabriel com uma mordida e jogara-o para o alto, como se fosse um boneco do Toy Story nas mãos daquele vizinho malvado. Rafael disparara contra a criatura, mas suas fechas não conseguiram perfurar a couraça. Com sua fúria maldita, o Leviatã atacara o anjo arqueiro, arremessando-o longe, deixando um rastro de destruição no chão por onde se arrastara.

Agora sim, tudo estava perdido.

Então, na desesperança, Miguel soube exatamente o que fazer. Pegou a esfera que lhe fora dada por JC e atirou-a longe, gritando:

— HOLY SPIRIT, SAIA DAÍ AGORA!

Uma enorme pomba branca, feita da mais pura vontade sagrada, do mais puro amor, saíra da esfera e encarara a grande serpente.

— RASANTE DIVINA!!! – Comandara Miguel.

E a pomba obedecera-o, tomando impulso e atacando o Leviatã com o bico após voar mais rápido que o Superman voara quando, “por acaso”, ouvira Lois Lane dizer ao telefone: “ai, amiga… juro que se o Clark Kent aparecesse aqui na minha porta agora, eu dava pra ele!”. O dragão soltou um urro de dor, enquanto contorcia-se como uma minhoca querendo voltar pra terra, tentando recuperar o equilíbrio.

— BAFORADA DIABÓLICA!!! – Contra-atacara Lúcifer.

Leviatã então inspirara. Inspirara novamente e uma vez mais, sem soltar o ar. Por toda a extensão escamosa de seu ventre reptiliano, um fluxo orgânico, vermelho como olho de fã do Planet Hemp, começara a brilhar. Então a besta cuspira uma rajada de energia que poderia destruir todo o universo. Havia pouco tempo, mas Miguel conseguira reagir com a celeridade pedida pelo momento:

— FLUXO DA PAZ REVERSO… AGORA!!!

A pomba deixara a coluna ereta e batera as asas para frente, voando parada no mesmo lugar. Um forte vento soprara e esse vento começara a se carregar de eletricidade e de fagulhas do poder divino, até que se transformara em um grande tufão, que fora de encontro à baforada lançada por Leviatã. O choque dos dois poderes foi colossal. As duas criaturas disputaram por um tempo, com os fluxos de energia sendo contidos um pelo outro quase exatamente no mesmo lugar em que se encontraram. Mas então… a baforada do dragão começou a ganhar espaço e a aproximar-se do Holy Spirit.

— O Espirito Santo está ficando sem energia! – Apontara Rafael.

— Porra, será que não tem um jeito da gente ajudarr? Se continuarr assim é game overrr… – palpitara Gabriel.

— Eu… eu não sei… – balbuciara Miguel, desconsolado.

— Mas Eu sei…

Foi grande o júbilo dos anjos ao perceberem que Yahweh estava de volta. Caminhando a passos trôpegos, devido ao ferimento causado pela flecha envenenada, mas de volta. E Ele, que tudo sabia, certamente faria algo para reverter o rumo da batalha.

— Dizei-nos, meu Senhor… como podemos obter mais energia para que o Santo Espírito vença tão acalorada contenda? – Perguntara Miguel.

— O único jeito é apelar à fé dos humanos… – respondera Deus.

— Putz, então a gente tá fudido… – Gabriel falara a primeira coisa que lhe viera à cabeça, para logo em seguida se arrepender. – PERRRDÃO!!! Perrrdão, meu Senhor!

— Entendo tua descrença, Gabriel. Não te envergonhes, pois há motivos de sobra para tal desconfiança. Porém, Eu ainda acredito na minha criação. E agora saberemos se eles ainda acreditam em Mim…

Então Yahweh concentrara-se e projetara seu rosto no firmamento da Terra. Fosse dia ou fosse noite, estivesse tempo aberto e ensolarado ou frio e chuvoso, azul ou coberto por nuvens escuras – todos viram Seu rosto e ouviram Sua voz.

E assim falara Deus à humanidade:

— Meus filhos queridos… talvez vocês pensem que fui um pai ausente, que os abandonei à própria sorte e os negligenciei. Não era esse meu intuito, vos asseguro. Às vezes, porém, é dever dos pais permitir que os filhos caminhem sozinhos, por isso minha aparente distância. Mas Eu estava convosco a todo momento. Amo cada um de vocês, do momento em que chegam ao mundo ao instante em que o sopro da vida lhes abandona o peito. Agora estou de volta e quero ver se tudo valeu a pena…

Com a voz um pouco embargada, Yahweh continuou, enquanto o poder do Leviatã chegava cada vez mais perto da pombona branca:

— Alguns de vocês questionam se Eu poderia criar uma pedra tão pesada que nem mesmo Eu, com minha onipotência, poderia levantar posteriormente. É um teste lógico bastante engenhoso, de solução aparentemente impossível, mas permita-Me dizer: Eu já criei essa pedra. E dei a vocês, humanos. Eu os criei, mas agora não posso erguê-los, não posso controlar vossas ações. Eu lhes dei a pedra chamada “livre arbítrio”, a pedra que não posso levantar. E agora eu peço a vocês, meus filhos, peço a quem estiver de alguma forma agradecido pela vida que lhe foi dada, peço a todos que estão do lado do bem e querem seguir a luz e não as trevas… que levantem as mãos e simplesmente digam de todo coração: “OBRIGADO, PAI”. Vocês não fazem ideia do quanto esse pequeno gesto pode fazer diferença para o universo…

Demorou um pouco, mas o apelo de Yahweh começara a fazer efeito. Na terra, os humanos interromperam por alguns instantes seus afazeres cotidianos e ergueram as mãos para o céu, em agradecimento pela dádiva da vida. A energia do louvor chegou ao Paraíso e alimentou o fluxo de energia da grande pomba branca. Os raios agora voltaram a ficar num ponto de equilíbrio. Mas ainda faltava muito e Yahweh resolvera reforçar Sua mensagem:

— Filhos amados… Eu conheço cada um de vocês, desde o momento em que foram concebidos, até o último suspiro que derem sob esse Sol. Então Eu sei quem levantou a mão na frente da TV para ajudar o Goku com a Genki-Dama e não está levantando agora para Me ajudar… por favor não encarem isso como uma ameaça, é o livre-arbítrio de cada um, mas… #ficaadica.

A energia então passara a vir com muito mais intensidade. O tufão emanado pelo Holy Spirit estava quase alcançando o Leviatã. Quase. Faltava apenas um pouco. Quase. Mas aí ninguém mais ergueu a mão.

— Já foram todos? – Perguntara Miguel.

— Muitos ateus não levantaram… – Lamentara-se Deus. – Postaram lá no fórum deles que a minha mensagem era só um delírio audiovisual coletivo e foram dormir.

— Mas são uns filhas da puta meiishmo! – Sentenciara Gabriel.

— É…

Faltava pouco. Tão pouco. Tão… pouco.

— Foi uma grande honra ter lutado a seu lado, soldado. Uma grande honra… – dissera Miguel, depois que abraçara Gabriel em tom de despedida.

— O quê? O que tu vai fazer?

Miguel apenas sorrira em resposta. Em seguida abraçara Rafael:

— Cuide do Gabriel por mim, meu bom amigo. Tu serás o novo capitão daqui em diante. Poderia passar toda a eternidade ao lado de vós e ainda assim seria pouco, meu bom Rafael. Muito pouco…

— Eu não ouvi nada, meu capitão! Mas confio no senhor… faça o que tiver que fazer e tenho certeza que estará bem feito! – Respondera Rafael, olhos marejados sem explicação.

Miguel então ajoelhou-se em frente a Yahweh e assim Lhe falou:

— Senhor, ninguém é como ti, ó Pai. Eu agradeço pela minha existência e digo de todo coração que foi uma dádiva incomensurável ter contemplado Tua face, ter servido a ti com tanta proximidade. Eu faria tudo de novo, Pai… com grande alegria. A única tristeza que me aflige nesse momento é saber que para onde vou, não terei mais como louvar a Teu santo nome. Obrigado, pai. Obrigado…

Então Miguel saltara até o tufão, onde nem o mais poderoso dentre todos os anjos poderia resistir. Seu corpo espiritual e sua alma foram completamente desintegrados, levando consigo todas as memórias e apagando completamente a existência do bravo Miguel, o puro de coração. Como lágrimas na chuva. Assim o anjo incorporara sua essência divina ao raio emitido pelo Santo Espírito e o Leviatã não resistira mais. A grande serpente fora dizimada e o raio continuou, derrubando Lúcifer e seus asseclas junto com a terça parte do Céu, jogando-os uma vez mais no lago de fogo e enxofre onde ficariam aprisionados por mil anos.

O grito de Satanás fora tão estridente que pôde ser ouvido em todo o universo. Na Terra as pessoas encolheram-se, assustadas. Mas logo foram tomadas por uma paz, trazida pela certeza de que se estavam com Deus, quem poderia estar contra eles? (Os que não levantaram a mão continuaram assustados). Dessa forma, Samael fora derrotado pela segunda vez e a humanidade ganhara mais alguns anos antes da batalha do Armagedom e do Julgamento Final. Nesse período, poderiam seguir o caminho de Deus e assim não permitir que o diabo conseguisse se reerguer. Ou esqueceriam tudo e voltariam a pecar e se desvirtuar na manhã seguinte, como era mais provável.

Dias de um futuro esquecido, lendas de uma nova era.

Histórias que ainda haveriam de ser contadas…

No pretérito mais-que-perfeito, é claro.

23 comentários em “Lendas de uma nova era (Fabio Baptista)

  1. Neusa Maria Fontolan
    2 de março de 2015

    Chorei de tanto rir! Placas de obturação de psicopatas, escapamentos de mobiletes! Mais dura que peruca de velha com laquê! kkkkkkkkkkk de onde tira essas ideias? Sua cabeça deve trabalhar a mil.
    Colocar Jesus Cristo como um hippie foi de uma ousadia tremenda, gostei, lembrei-me de A Cabana.
    Septimo? André Vianco?
    Beijos Fabio.
    Tem até pokemon!

  2. rsollberg
    28 de janeiro de 2015

    Kkkkkkkkk
    Muito bom, Fábio!
    Ainda mais conhecendo a motivação e as regras desse concurso zoeira.
    Tem muita coisa engraçada e várias referências (só para constar Olivia Wilde é sensacional).
    Achei apenas um “treta” que a gente realmente não fala aqui no Rio.
    O seu conto me inspirou a organizar uma caravana para um lugar, digamos assim, no estilo 4 por 4, talvez a V.M para manter essa realidade alternativa (não confundir com aquela história de delta S sobre delta T) vou convidar o J.C… Lemos e o Miguel… menos arcanjo, mais Bernadi. Se você tiver por aqui,

    Também pode chegar se estiver por aqui. Mas, só para manter a coerência, vou te chamar de João. Não se preocupe, não vou deixar você perder a cabeça (e ninguém mais usa bandeja de prata)

    Abraços
    Rafael

    Obs: O teu J.C tá bem no estilo do “Cordeiro”, do Christopher Moore, curti!

    • Fabio Baptista
      28 de janeiro de 2015

      Grande Rafael!

      Demorou, velho! Estou dentro dessa excursão que tem como objetivo restaurar o equilíbrio do universo e trazer a vitória às forças do bem! kkkkkkk

      Inclusive, da última vez que estive no Rio… bom, deixa pra lá. 😀

      Enfim… que palavra vocês usam no lugar de “treta”? Não imaginava que fosse uma gíria exclusivamente paulista 😦

      Não li Christopher Moore (eu acho). E quando você falou em Olivia Wilde, não liguei o nome à pessoa. Daí pesquisei no Google imagens e… minha noite ficou mais feliz kkkkkkkkkkk

      Grande abraço!

    • rubemcabral
      29 de janeiro de 2015

      Eu ia comentar sobre o “treta” também. Nunca escutei um carioca usar…

  3. Claudia Roberta Angst
    26 de janeiro de 2015

    Então, meu caro autor, voltei para as minhas considerações a respeito do seu conto. Já sabe que achei longo, muito longo, longuíssimo, para não falar que é longo pra c@$#r@lh.. Enfim, esse foi só um detalhe técnico.
    As referências são múltiplas e diria que muito bem empregadas. Claro que é fácil notar as críticas sociais camufladas sobre o manto da ironia e do deboche.
    A leitura flui fácil e bem divertida. Até mesmo o uso do pretérito mais que perfeito não me incomodou. Só reparei mesmo quando foi citado o fato no final.
    Gostei dos sotaques carregados. Enfim, foi divertido, menos o final do Miguel que foi um tanto triste, mas bonito. Valeu a leitura! Parabéns!

    • Fabio Baptista
      27 de janeiro de 2015

      Tive que revisar umas 10 vezes para deixar todos os verbos no mais-que-perfeito.

      Um ou dois devem ter escapado… 😀

  4. Marcellus
    25 de janeiro de 2015

    Fabiane vai ADORAR a parte das feministas… huahuauhauhuhauha

    Ficou muito bom, Fábio, parabéns! Mesmo não sendo a comédia meu estilo predileto, soltei boas gargalhadas com seu texto. Muito bom (tirando a zoação com meu sotaque mineiro).

    • Fabio Baptista
      26 de janeiro de 2015

      Valeu, Marcellus!

      Espero que a Fabiane goste… afinal, não quero ser malhado lá no NLFBR! kkkkkkk

      Cara, se sobrasse um tempinho eu teria zoado mais sotaques (inclusive aqui dos paulista, meu!), não foi nada pessoal 😀

      Abração!

  5. Miguel Bernardi
    23 de janeiro de 2015

    Caraca, Fábio. A demora para ler este conto valeu.

    Que conto bom, cara. Começou muito bem, e daí só foi melhorando. Suas piadas e metáforas me fizeram rir (muito!) mesmo. Você possui claramente o Dom (do Holy Spirit) de fazer rir. E o final, cara, que coisa foi aquela? Eu que estava levando o conto como uma épica história engraçada, fiquei aflito e quase chorei com a decisão do meu xará, o Miguel. Caraca, caraca, caraca!

    O modo como usou o tão duro como peruca de velha com laquê foi genial! E a risada do tinhoso também. HAUHAUHAUAHUAHAUHAHAUH

    Você, meu amigo, é um escritor.

  6. mariasantino1
    23 de janeiro de 2015

    Não comentei antes, porque sou travada nalgumas coisinhas, mas entendi a proposta e ri pra valer (acredite). As melhores passagens foram as gírias malandras — vocêixis foi demais! Gostei da referencia aos Cavaleiros do Zodíaco (um dos melhores animes de todos os tempos — Não aceito discussão quanto a isso 😀 ), do lance das feministas, da bainheira do GUGU com aquela música infernal, as letras de Funk e consequentemente o que aconteceu com o Funkeiro (essa parte eu ri demais). Então,brou, se a proposta é fazer ri, é satirizar, receba meus cumprimentos,porque tá dahora!
    Um abraço!

    • Fabio Baptista
      26 de janeiro de 2015

      Maria!

      Pra mim, Cavaleiros do Zodíaco só perde para Dragon Ball Z (que aliás, tem um bocado de referências aqui também)!

      A proposta era rir, satirizar, cutucar ninhos de marimbondo fingindo que era tudo uma grande brincadeira… essas coisas de sempre 😀

      Afinal, como disse não lembro quem – “A ficção é a melhor forma de se dizer a verdade” (ou algo assim).

      Abraço!

  7. Leonardo Jardim
    21 de janeiro de 2015

    Hahaha, muito bom mêrrrrmo (sou carioca).

    Li o conto inteiro com um sorriso no rosto e, mesmo grande, foi bastante fácil de ler. Os vícios linguísticos e as referências foram muito bem encaixadas, não achei nada forçado. Gargalhei em várias partes 😀

    Meus parabéns, Fábio!

    Parabéns. Meus. Parabéns. Fábio.

    • Fabio Baptista
      21 de janeiro de 2015

      Valeu, Léo!

      Fico contente que tenha gostado.
      Contente. Muito contente. Mesmo!

      Abração! E bora escrever sobre pecados capitais!!! 😀

  8. Lucas Rezende
    20 de janeiro de 2015

    Muitíssimo bom!!!
    Ficou muito engraçado.
    JC, o Pedrinho, as Feminazis, o MC, o Gugu, tudo demais.
    A pokebola misturada com a Genki dama no final foi a cereja do bolo!
    Parabéns, FB. FODA!!!

    • Fabio Baptista
      21 de janeiro de 2015

      Valeu, Lucas!

      A parte do Gugu foi a que mais me diverti escrevendo… eu ficava imitando ele pra tentar simular as entonações nas palavras kkkkkk

      Lembrar da Luísa também foi um tanto… nostálgico 😀

      Abraço!

  9. rsollberg
    19 de janeiro de 2015

    Quando estiver no PC juro que vou ler esse!
    Gostei desse concurso da zoeira!

  10. rubemcabral
    19 de janeiro de 2015

    Hahaha, bem divertido. A parte das feminisinistras, por exemplo, tá ótima (#machistaPatriarcalOpressoraDisseminadoraDaCulturaDoEstupro -> hahahahahahaha). Talvez enxugasse um pouco no final, o vampiro portuga não foi lá tão engraçado quanto o restante, por exemplo… Já quanto ao estilo, eu não sei o que opinar, pois nunca li nada da série A Batalha do Apocalipse.

    • Fabio Baptista
      21 de janeiro de 2015

      Valeu, Rubão!

      Cara, na verdade, eu também não li “A Batalha do Apocalipse”. Nem “Dragões de Éter”, nem os livros do Vianco, Renata Ventura, Carolina Munhoz e afins.

      Só fui vendo uma ou outra página que eles postam lá nessa comunidade e tentando criar uma “caricatura” geral do estilo de escrita.

      O que mais me “chamou atenção” Spohr foram os verbos no mais-que-perfeito, que aparecem numa profusão admirável. kkkkkkkk

      No Draccon o que se destaca são essas analogias “modernas” e a mania de ficar explicando as coisas toda hora. Do Vianco é o que vi menos, mas notei um excesso de adjetivação e usei essa característica na parte do Septimo (que é uma paródia do personagem do livro dele)… também não curti muito o resultado desse trecho. Ah…tem a questão do sotaque estereotipado também, que criticaram no livro da Renata Ventura. Mas esse eu costumo usar naturalmente nas minhas histórias também kkkkkkk

      Abraço, man!

  11. rubemcabral
    18 de janeiro de 2015

    Amanhã eu começo a ler todos os contos off, mesmo os grandões, rs.

  12. Fabio Baptista
    18 de janeiro de 2015

    Bom, acho que, dada a extensão do conto, vou acabar meio:

    kkkkkkkk

    Mas, enfim… esse conto é para o desafio do grupo NLFBR:
    https://www.facebook.com/NovaLiteraturaFantasticaBrasileira

    E conta com umas regras, digamos… peculiares. A inscrição vai até o dia 30/01, então dá tempo de participar ainda!

    Abraço!

    • Claudia Roberta Angst
      25 de janeiro de 2015

      Só para constar: já li quase todo o conto,mas ainda estou alinhavando as ideias. Afinal, diz a lenda que o autor soca paredes quando contrariado. Nada competitivo (sqn). Sim, estou xingando bastante pela extensão do conto, mas rindo também. Acho que perdoo isso junto com aqueles dois 5. Volto mais tarde para tecer minhas reais e quase imparciais considerações a respeito deste conto.

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Informação

Publicado às 17 de janeiro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .