EntreContos

Detox Literário.

A morte e a “re-morte” de Natasha Moskovskaya (Rubem Cabral)

rubem

Moscou.

Morrer deveria ser simples, sempre fantasiei que fosse assim. Você sabe, aquela velha, velha história… O coração pararia de bater, os pulmões inspirariam e expirariam pela derradeira vez, os olhos encerrariam seu expediente mais cedo – out to lunch, feito nos desenhos animados americanos – e então, todas minhas preocupações se dissolveriam; fumaça azul dum cigarro, galgando o ar, ondulando e desaparecendo elegantemente.

Não entendi exatamente o porquê, ou o que raios eu fiz de errado, pois certamente eu não soube morrer direito.

Lembrava-me nebulosamente que havia tomado um porre homérico numa festinha a dois em meu apartamento, junto com o Agente Bóris Kurchatov, na noite anterior ao ocorrido. Hã, homérico não seria uma boa palavra, visto que embora Bóris fosse enorme e fofo como um urso polar, bebia feito um garotinho de cinco anos em convalescência de hepatite. Eu, por outro lado, como sempre, conseguira encharcar-me muito mais daqueles eflúvios diabólicos armazenados nas famosas garrafinhas de rótulo verde de vodca Moskovskaya do que meu colega de trabalho. Corrijo-me então: tomei um porre absurdamente mulhérico. Quatro ou cinco ampolinhas de meio litro, no mínimo, ou o dobro, se minha vista fosse confiável àquela altura.

No entanto, ao invés de costumeiramente acordar, deitada sobre o tapete peludo da sala, com a boca seca e a cabeça girando e latejando, nua e sob cento e vinte quilos boriskurchatóvicos, despertei num caixão. Lá estava eu: toda penteada, maquiada, com um vestido que eu odiava por me deixar gorda, coroada de flores brancas. O querido Agente Bóris chorava como um bebê, molhando meus ombros com lágrimas e muco, sendo consolado por minha mãe, alguns vizinhos e desconhecidos.

— Deve ter sido vodca falsificada! Daquelas feitas em banheiras e cheias de metanol… Eu devia ter desconfiado do preço tão barato! – Lamentava o pobre.

Momento de devaneio escapista: lembrei-me, num rápido flashback, que em minha emocionante carreira como agente nível VII na KGB, eu já enfrentara e saíra de inúmeras situações surrealmente difíceis. No Brasil, em Salvador, escapara certa vez quase ilesa dum porre de algumas quadradas garrafas de vodca local combinado a um prato típico muito apimentado – tenho pesadelos ainda hoje com aquele ensopado de sangue e miúdos de porco – isso tudo, conjugado a uma emboscada de cinquenta exímios lutadores de capoeira e vinte arretados pais de santo, todos, envolvidos numa conspiração que eu havia desbaratado; liderada pelo FBI, Vaticano e a Associação das Rendeiras de Bilros do Ceará. Em outra ocasião, escapara em Washington D.C., quando minha identidade de agente infiltrada foi revelada em pleno Salão Oval. Usei o presidente como escudo e tinha somente duas balas no pente da pistola. Meus colegas costumavam chamar-me de Houdini de Saias ou Kamikaze do Kremlin. Tinha certeza que novamente enganaria o destino.

Pois bem, de volta… Tive o ímpeto de me levantar e falar: “Ei, pessoal, não morri! Putin que pariu! Vamos parar com essa palhaçada! Alguém tem um comprimido pra dor de cabeça e uns três litros de água gelada?”.

Porém, em vão tentei me mexer e não consegui, tentei soprar o tanto de algodão enfiado em minhas narinas, também sem sucesso.

Uma gorducha mosca verde-metálica driblou a barreira do véu de gaze sobre minha cabeça, posou no meu rosto e caminhou faceira até meu olho direito, que estava entreaberto. Aflita, não logrei sequer piscar, enquanto o inseto sapateava à vontade sobre meu globo; um Fred Astaire de asas.

Logo um sacerdote barbudo da Igreja Ortodoxa Russa surgiu muito circunspecto e disse algumas palavras bonitas. Bóris desmaiou depois de gritar “Martina! Martina! Não se vá…” quando a tampa do esquife foi aparafusada e meus amigos e parentes saíram em cortejo solene sob a neve que caía, até o cemitério do outro lado da rua.

Meu desespero crescia. Iam me enterrar viva! Que horror, que brega, que clichê! Que nem naqueles contos empoeirados do ianque Edgar Allan Poe… Como era o nome mesmo daquela doença? Catalepsia? Quem foi o médico incompetente que me examinou?! A KGB não vai deixar isso barato!

Amparado por cintas coloridas de lona, meu caixão balançou no ar, tombou meio de lado e desceu, até o fundo da cova. Através da estreita janela de vidro sobre meu rosto, vi flores, sal, cal e terra sendo atirados de cima, nesta ordem exata. “Do pó ao pó”, percebi a voz grave do sacerdote já meio abafada pela terra que não parava de cair.

Logo a escuridão opressiva não me permitia ver nada. Eu queria gritar, avisar àqueles tolos sobre a enorme asneira que estavam cometendo, entretanto, isso não foi possível.

Foi preciso que se passasse um dia inteiro, até que eu notasse que eu não sufocava porque, afinal, já não respirava desde que acordei no caixão. Que, na verdade, não houve mesmo engano algum…

Então morrer é isso?

***

(O trecho abaixo eu imaginei, pois, como vocês bem sabem, estava enterrada em problemas, exatamente sete palmos abaixo da superfície gélida do Cemitério Novodevichi.)

— Uriel! Uriel! Lordes Sidarta, Krishina, Helios, Jesus e Thor enfim enviaram notícias! Por enquanto, nem sombra do mestre Azrael! Maomé, Moisés, Iansã e Tupã continuam em suas buscas, mas talvez só apresentem seus relatórios em dois dias… O Velho continua incomunicável; pelo que soube, ainda está naquele pancongresso para divindades sêniores, a quinze universos daqui.

— Pelo amor do Velho! Você então quer dizer…

— Sim. Só temos agora pouco mais de vinte e quatro horas… Até que…

— Até que nada, Falafel! Até que nada! – Disse Uriel irritado, endireitando a auréola dourada e esticando suas formidáveis asas branco-acinzentadas, bastante depenadas pela estafa daqueles últimos dias. — Situações desesperadas pedem medidas desesperadas! Revirem tudo! Envie todos os anjos do nível três para cima: só quero o pessoal essencial aqui. Comunique também ao esquentadinho do Miguel pra segurar as pontas por enquanto, pois não precisamos de mais anjos caídos por desobediência ao Pai… Tenho um plano em mente, se é que isso poderia ser chamado de plano… Precisamos de ajuda profissional. E que o Velho me perdoe!

***

Sob Moscou.

 

Apesar de ter sido treinada para suportar todo tipo de tortura, eu chorava, ao menos por dentro, já que não produzia lágrimas ou movia um músculo sequer do rosto. Foi neste estado de desespero que senti algo subindo por minha barriga e reparei numa luz intensa que, por alguns instantes, me cegou.

— Não! Morrer não é isso, mortal! Por favor, desculpa-nos! Estamos com sérios problemas há seis dias. Tu não foste muito fortunada em desencarnar justo agora.

A voz ribombou dentro do meu caixão, como se um daqueles sistemas de som sofisticados de salas de cinema 3D houvesse sido instalado ali dentro, justo com as caixas de som coladas aos meus ouvidos.

Uma barata, que parecia feita de luz, escalara meu pescoço e me falava com aquela voz de trovão!

— Pela múmia de Lênin! Era o que me faltava! – Pensei. — Não me bastava morrer e ficar esquecida para apodrecer consciente no caixão. Tinha também que ficar louca!

— MORTAL! Tu não estás louca!

— Pelo amor de Deus, dá pra falar mais baixo?!

— Que coisa feia! Não usar o santo nome em vão é um dos mandamentos mais conhecidos… – Ela ralhou. —Bem, estamos a perder tempo precioso! Vim, em verdade, pedir tua ajuda de experta em missões inexequíveis. É mister que participes duma senda que…

— Dá pra usar língua de gente? Você fala feito um personagem de filme bíblico, dona barata de luz… Ai, ai, daqui a pouco devem vir os elefantes cor de rosa…

A barata pareceu perder toda a compostura, se é que baratas podem parecer cheias de empáfia, afinal.

— Muito bem! – Ela disse, sentando em meu queixo e cruzando as patinhas. — O negócio é o seguinte: meu nome é Uriel e já fui erroneamente conhecido como um dos anjos da morte. Há seis dias, nosso mestre, o todo-poderoso e verdadeiro serafim da morte, Azrael, desapareceu sem deixar pistas.

— Ha, ha, ha! – Eu gargalhei. — Pela alminha abençoada da minha babushka! Aquela vodca batizada era da boa mesmo!

— Não tenho tempo pra seu humor, Agente Martina Popovich! Se você concordar em me acompanhar, poderei recompensá-la, talvez com a salvação eterna de sua alma muito pecaminosa. Se, no entanto, se você não quiser, poderá esperar aqui pelo que vai acontecer. Só aviso uma coisa: aquela mosca que posou em seu olho não apenas sapateou em sua esclerótica, como plantou algo também. Em no máximo dois dias acho que você terá companhia não muito agradável por aqui. E então? Topa? Já é ou já era?!

***

Triagem.

— Martina, seja benvinda ao Setor de Triagem – Sub-região Terrestre – falou-me Uriel, quando chegamos a um lugar todo branco e brilhante feito um palácio de alabastro ou mármore muito polido. — Aqui recebemos todos os que o mestre Azrael traz e os conduzimos para seus destinos, conforme suas fés ou a ausência delas – ele comentou, apontando para inúmeras esteiras rolantes que cruzavam todo o espaço acima de nossas cabeças.

Maravilhada, olhei então o anjo, dos pés a cabeça. Ele era bonito como um modelo de catálogo de cuecas de luxo, parecia não ter mais de vinte anos. Vestia um manto marrom sobre uma espécie de toga branca e tinha cabelos longos, de um tom de louro escuro. Faria muito sucesso em qualquer boate em Moscou, claro, usando roupas bem menos cafonas.

— Budistas, Hindus e Kardecistas seguem para o Departamento de Reencarnação. Embora os primeiros possam reencarnar às vezes como bichos e os Kardecistas não, mas é lá dentro que a gente organiza tudo. Muito raramente encaminhamos alguém ao Nirvana, onde só há uma dúzia de gatos pingados. Hum, Católicos e Protestantes vão pro Céu ou Inferno e têm que passar por uma entrevista tensa com Miguel, que costuma atirar os pecadores pessoalmente para dentro do Abismo. Neopentecostais às vezes chegam aqui pensando que já compraram uma mansão com vista para o Monte Sinai e ficam muito decepcionados pelos dízimos desperdiçados na Terra. Ah, ali ficava o Purgatório – ele apontou para uma sala com as portas pregadas com tábuas – foi fechado recentemente por um decreto papal que declarou sua não existência. Você não imagina o trabalho que deu encaminhar aquela gente toda, a choradeira de quem foi pro Inferno. Enfim… Mártires Islâmicos têm direito a setenta e duas virgens e seguem para a terra de leite e mel, que fica depois daquele bonito portal mourisco. Estamos sempre com problemas para obter tantas virgens – ele falou baixinho. — Por fim, os ateus são encaminhados para o Nada, um compartimento com uma porta bacana lá no fim do salão principal, que dá, bem, num grande vazio. Esses geralmente se sentem bem estúpidos ao chegar aqui, mas ainda assim, são teimosos como mulas e preferem ir para o Nada do que abrirem mão de sua não-fé.

— Hã, Uri, OK, OK, já entendi como funciona a coisa toda. Sem mais delongas: então o seu chefe, o tal Azrael deu talvez uma escapulida marota há seis dias ou tá pensando em pedir demissão, e ninguém que morra na Terra é encaminhado pro Setor de Triagem, é isso mesmo?

— Sim, exato. Pelo Velho! Que falta de respeito: não me chame de Uri, mortal! E essa coisa do mestre Azrael ter pedido demissão é tão Neil Gaiman. Isso é totalmente…

— Gato, não me interrompa. Mas, então, digo, vocês não têm uma droga de protocolo a seguir num caso desses? Que bagunça é essa? Parece até algum órgão do estado Russo.

— Martina – ele falou, vermelho que nem tomate com urticária – é claro que temos um protocolo. O problema é justamente esse! O documento foi criado ainda no início dos tempos, antes de certos eventos muito graves que ocorreram então. Depois de sete dias, o anjo que herdará o Setor de Triagem será Samael, alguém que vocês humanos conhecem melhor pela alcunha de Lúcifer.

Putin que…

— Não pragueje aqui! E isso não é tudo. Miguel, o líder da Falange Celestial, o mega-arcanjo mais barra pesada de todas as esferas, o bíceps e o tríceps do Senhor, prometeu não permitir que seu maior inimigo possa passar a decidir quem vai para o Céu ou Inferno ou muito menos colher as almas dos mortais. No entanto, ir contra uma lei do Velho, ainda que injusta, obsoleta ou incorreta, é desobedecê-lo, simplesmente! O cabeça-dura corre o risco de causar uma nova guerra e cair junto com seus seguidores!

— Tá bom! Já deu pra eu notar que a treta é braba… Mas onde é que eu entro na coisa toda?

— Não é óbvio?! Se Lúcifer se beneficiaria do sumiço do mestre Azrael, ele seguramente está atrás disso tudo. Azrael pode estar então preso no Inferno e nós, os anjos que não caíram, não temos permissão de ir até lá investigar, sob o risco de sermos banidos para sempre. Compreendeu então o que queremos que você faça, Martina?

— Que eu desça até lá pra procurar seu big boss? Você não pode estar falando sério, Uri! Vão me virar ao avesso e devolver embrulhada para presente em cinquenta pacotinhos de tamanhos diversos!

— Tenha fé, humana. Não sou estúpido e também li os gibis do senhor Gaiman. A propósito, eu tenho quase certeza que ele tem espiões por aqui, um dia ele vai se ver conosco, ora se vai! Então, você ganhará uma marca como a que o Velho deu a Caim. Ninguém terá permissão de lhe fazer mal. Você também precisará de um cognome de alma, pois o conhecimento do nome real de humanos dá aos anjos o total controle de vossa vontade, sejam estes anjos caídos ou não.

Por alguns instantes pensei em algum nome que soasse bem. Na minha cabeça só surgiram ideias bizarras e bem pouco inspiradas. Até que me recordei da missão ao Brasil e senti um arrepio. Senti outro calafrio ao me lembrar do que causara minha morte: meu vício maldito em vodca.

— Natasha Wyborowa Moskovskaya. Este será meu nome na missão, já decidi.

— Muito bem, Natasha! Siga-me e você receberá treinamento e instruções especiais de nossos agentes angélicos Jeliel, Sitael, Haziel, Iezalel, Hariel, Falafel e Sarapatel. Ah, seja paciente com estes dois últimos, pois estão fazendo intercâmbio por aqui.

Ao escutar o nome do último anjo, senti-me repentinamente enjoada. Inspirei, concentrei-me e preparei-me então para descer ao abismo…

***

Inferno.

O som do bate-estaca não parava, nunca. Uma multidão imensa de gente nua e suada, ocupando todo o vale abaixo, até onde a vista alcançava, até as montanhas flamejantes, se requebrava loucamente ao som de sucessos mixados de Wando, Queen e Whitney Houston. “Oh, mama mia let me always love you, meu iaiá, meu ioiô…”. Definitivamente, Lúcifer era muito bom nesta coisa de torturar os condenados!

Mal coloquei os pés naquelas terras malditas, alguns demônios e djins me notaram e vieram celeremente em minha direção, com seus tridentes incandescentes em punho.

— Ora, ora, como essa intrusa apareceu ali? Sem passar pelos portões? Vamos lá, irmãos! Ferro na boneca!

O primeiro que tentou espetar-me, um demônio atarracado e balofo, caiu fulminado e começou a queimar e derreter numa espessa poça de gordura, envolto em angelicais chamas azuis. Em poucos segundos, nem cinzas da criatura sobraram sobre aquele solo estéril. Seus três colegas entreolharam-se mais que assustados.

— Por Azazel, Belzebu, Asmodeus e Freddie Mercury! A fêmea humana tem a marca! Afastem-se dela; ela tem proteção daquele-cujo-nome-não-mais-falamos. Devemos escoltá-la sem demora até a presença de Estrela da Manhã.

Dito e feito, segui os demônios a quem de vez em quando eu fingia que iria tocar, e gargalhava da expressão de medo daqueles monstros.

Quase uma hora depois, cruzamos uma ponte em arco sobre um abismo de magma em cujas encostas pessoas assavam sem conseguirem jamais morrer. No outro extremo da ponte, um elegante palácio branco e prateado se destacava do restante das construções calcinadas e retorcidas ao redor.

— Segue agora sozinha, humana. O Portador da Luz já sabe de tua presença. Tu és infinitamente tola por estar aqui por livre vontade!

Música clássica tocava suave lá dentro. Lúcifer não abdicou de seus gostos do tempo em que foi anjo, pensei. Caminhei apavorada pelo que me pareceram horas, sempre seguindo a música, até encontrar uma sala onde um homem magro, pálido e muito alto tocava harpa. Seus cabelos longos eram da cor de cinzas assim como os olhos. As asas, enormes, eram de um tom tão escuro que quase era negro.

— Esta é “Ein feste Burg ist unser Gott”, de Bach. Uma de nossas preferidas. Sabia que é tocada em muitas igrejas da Terra? O título significa “Nosso Senhor é uma fortaleza poderosa”.

Ao terminar de traduzir, ele começou a rir, quase gargalhou, debochado, secando os olhos a seguir.

— Diga-nos o que veio fazer aqui, Natasha! – Ele ordenou, com uma voz diferente, que soava como mil agulhas de gelo ou o arranhar de unhas sobre um quadro-negro.

— Não direi nada que eu não queira – respondi, cruzando os braços.

Primeiro a expressão de Lúcifer foi de surpresa e ódio, seu rosto de anjo queimou e se retorceu monstruosamente. Depois, admirou-se, exibiu rápida compreensão e divertimento ao mesmo tempo.

— Muito ardiloso! – Ele bateu palmas. — Ora, trocaram seu nome! Não somente em papéis, mas o nome real, aquele escrito na carne e na alma. Sem saber o nome verdadeiro não podemos comandá-la. Ah, que divertido, que delicioso, que imprevisível!

— Vim em busca de Azrael, o anjo da morte. Soube que você o prende aqui, seu palhaço risonho!

— Mais respeito, mortal. Sim, tens a proteção da marca e ainda não sabemos teu nome, porém temos todo o tempo a nosso dispor. Podemos esperar e planejar e nos deliciar em antecipação até o dia em que, enfim, te teremos em nossas mãos para, então, executarmos tudo, tudo o que desenhamos tão carinhosa e meticulosamente, até que, eventualmente, nos cansemos de ti. O último que nos ofendeu jaz afogado no fundo dum poço de fezes escaldantes há pelo menos trezentos anos do teu tempo. Quase todo ano nós passamos por lá, oferecemos perdão, presentes e regalias. Chegamos a tirá-lo de seu castigo, o limpamos, alimentamos e o encaminhamos até o portal dos que cumpriram suas penas e foram perdoados e, depois, naturalmente, o jogamos de volta ao mesmo lugar.

O rosto do anjo caído escancarava um sorriso de dentes muito brancos e perfeitos. Ele estava completamente seguro de si.

“Nunca deixe que ele a amedontre. Explore sua vaidade, faça ele se sentir importante” – lembrou-se do treinamento.

— Sua Excelência, me perdoe! Eu fui uma idiota em tratá-lo dessa maneira. Foram os anjos, foram os malditos anjos! Falaram-me que o futuro caído estaria por aqui. Mas, pelo visto, o demônio mentiroso deve estar escondido feito um rato assustado em algum outro lugar.

No entanto, a bajulação e a ofensa a Azrael não surtiram o efeito esperado.

— Azrael não é um rato assustado, dobra tua língua ou, ignorando tua marca, a arrancaremos com nossas mãos. O Velho sabia muito bem o que fazia quando o criou e escolheu, quando lhe deu o fardo do manto da morte.

— Como assim? – Perguntei, muito trêmula pela ameaça.

— Ele sofre, criança sem juízo. Ele sofre por cada vida que ceifa e ainda assim o faz, por infinito amor ao Velho, pelo orgulho de cumprir bem seu papel no Grande Plano. Ele contesta às vezes, conquanto sempre obedeça. Conversamos com Azrael certa vez, e ele chorava copiosamente após ter feito chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra, depois de ter assegurado que todos, homems, velhos, mulheres e crianças, que todos conhecessem a dura justiça infalível de seu senhor. Ele os amava apesar de seus defeitos e ainda assim cumpriu seu papel; não podia desobedecer, não era essa a sua natureza. Nós nunca conhecemos outro anjo assim. Tão abnegado, tão humilde, tão entregue à função. Ele não almeja nada, ele nem mesmo nos condenou ou se recusou a falar conosco – como fizeram todos os outros – quando pedimos seu conselho depois da queda.

— Então, ele não está aqui? Você não quer tomar o lugar dele?

— Claro que não! Só se esta fosse a sua vontade. Nós jamais o forçaríamos, jamais o feriríamos ou permitiríamos que alguém o fizesse. Ele está além da guerra entre o Céu e o Inferno, está santificado, martirizado desde a aurora dos tempos, no mais estrito sentido da palavra. Ele é nosso amigo, ou o mais próximo do que podemos ter como amigo.

— Minha missão então foi em vão – eu lamentei, rimando. — Merda, não tenho como evitar o que está por acontecer, as peças já foram movidas. Estamos todos tão… Fodidos! Onde, afinal, este danado se meteu?

Pode ter sido impressão minha, porém vi um sorriso simpático no canto da boca do Inimigo, do velho Pai da Mentira, o Canhoto, o Sete-Peles. Sua expressão parecia cansada também, estaria ele exausto de interpretar seu papel?

— Pensamos que sabemos onde o danado está e podemos transportá-la até lá. Deixa-nos dizer-te ao ouvido, Natasha que não é Natasha, se acreditas sequer num pouco no que te contamos.

Minha longa experiência de agente, minhas instruções e treinamento com os anjos, todos bramiam: “É fria! É uma armadilha!”. No entanto, minha capacidade de “ler” pessoas me fez arriscar.

— Tá bom. Conta aí, ô Coisa-Ruim!

***

Terras Ermas.

 

Deus, o Velho, feito os anjos gostam de dizer, quando criou o universo e o povoou, reservou um microcosmo para si, feito uma chácara para passar os fins-de-semana. Um lugar do “lado de fora”, para poder pensar e refletir em silêncio. Mais tarde, compartilhou o segredo com alguns anjos de alto escalão: Samael, Miguel e Azrael.

Nas Terras Ermas, no meio de um deserto infindo há um jardim e um pomar, eternamente florido, sempre carregado de frutos doces, numa espécie de primavera sem fim. Há em seu centro uma praça, com um bonito e sólido banco de pedra e um chafariz, que borrifa alegre água pura e fresca. Pássaros chapinham nas poças e cantam, sem medo algum de predadores.

Sentado no banco, com as mãos cobrindo o rosto, encontrei Azrael. Eu não estava preparada para o que vi, pois ele era pouco mais que um menino: franzino, de olhos grandes, avermelhados pelo choro, descalço e vestido em roupas modestas. Era quase tão velho quanto à criação, porém mais se assemelhava a um molecote que precisava de colo.

— Estão todos procurando pelo senhor – eu falei, usando o tratamento respeitoso sem querer. — Por que, por que o senhor veio se isolar aqui? O prazo está quase esgotado. Em menos de uma hora Lúcifer terá direito à sua posição como Anjo da Morte.

— Existe a chance de que ele não queira e, assim, o fardo não passará a mais ninguém – ele respondeu, com voz de adolescente.

— Eu morri, já depois do seu afastamento. Foi muito pior, acredite. Há neste momento milhares de humanos presos sob a terra ou espalhados sob forma de cinza, apavorados, pensando que foram esquecidos. Venha, me dê sua mão. Vamos voltar, precisamos muito do senhor.

— Tu não entendes, mortal? O Velho, Ele planeja algo grande, uma imensa limpeza outra vez. Ela se aproxima, eu sinto nos ossos, vejo as nuvens escuras de tempestade apontando no horizonte. Eu não quero fazer isso outra vez, eu não posso!

— Que outra opção o senhor tem? Prefere a guerra, prefere desobedecer como Samael? Falhar em sua função? Ele escreve em linhas tortas, ou não? Neste exato momento Miguel deve estar reunindo toda a Falange Celestial para invadir o Abismo. Ainda que vença, será expulso, pelo que me contaram. Venha, Azrael, eu só posso oferecer minha compreensão, minha simpatia. Toda vez que o senhor precisar conversar com alguém, se não se importar com sua reputação, apareça e podemos beber uns tragos e eu contarei histórias, do tipo que lhe farão rir e até arrepiar seus cabelos da nuca.

— Eu…

— Vamos nessa? Ou você vai fazer uma dama voltar todo este caminho de volta, sozinha? – Indaguei, piscando um dos olhos.

***

Triagem.

 

— Excelente, Martina! Digo, Natasha Moskovskaya! O que você quer como recompensa pelo bom serviço? – Perguntou Uriel, radiante de felicidade.

— Dá pra eu reencarnar e voltar ao meu corpo? Bonitinho é claro, sem aquele lance de larva de mosca no olho…

— Mas por acaso você é Budista ou Kardecista? Não é da Ortodoxa Russa?

— Hã, sou Budista desde pequeninha, se for pra reencarnar e voltar a ver a cara rechonchuda do Bóris outra vez. Vamos lá? Em que esteira destas eu tenho que subir?

***

Moscou, quase um ano depois.

A Catedral de São Basílio estava toda enfeitada com copos-de-leite e fitas de seda branca. No altar, Bóris Kurchatov, metido num fraque com os botões quase saltando, se derretia em lágrimas e suor naquele Agosto calorento. Entrando pela porta, arrastando um véu exagerado, bordado por mais de vinte senhoras em seis meses seguidos, eu parecia a mais feliz das mulheres.

Quando dei o primeiro passo a caminho da nave, escorreguei no piso muito encerado, tropecei na borda do vestido e morri, ao bater a cabeça com força na quina de um dos bancos.

***

Triagem (de novo).

— Natasha? Precisamos de você outra vez! – Falou Uriel, com uma expressão de infinita sem-gracice no rosto bonito.

Putin que… Uri! Não dava para esperar uma meia hora pelo menos? Sabe há quanto tempo estou de dieta pra caber nesse vestido? Já imaginou o coitado do Bóris, largado sozinho no altar? – Eu exclamei, estapeando o halo do anjo sem dó.

— Natasha! O Velho, Ele não voltou do pancongresso! Há um protocolo que define que após um ano de ausência o controle da Criação passará a…

— Lúcifer?

— Não, pelo Velho, nada disso! Miguel será o herdeiro. Já posso imaginar as catástrofes que ele vai criar, para punir os pecadores e purificar a humanidade. E, além disso, Natasha – o anjo deu uma piscadela marota – eu precisava justificar o título da história.

Sem entender patavinas, segui Uriel até o Purgatório, agora reformado como Sala de Missões Especiais.

— Beleza então! – Falei, arregaçando as mangas compridas do vestido e esfregando as mãos. — Pra começar: onde tem vodca neste pulgueiro?

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8 comentários em “A morte e a “re-morte” de Natasha Moskovskaya (Rubem Cabral)

  1. Ana Maria Monteiro
    14 de maio de 2019

    Oi, Rubem. Pois, vi o seu post no escambanautas e vim ler, hoje, mais de quatro anos depois de você o ter escrito.
    Adorei!
    Mas…
    Bolas! tinha de haver mas? tem sempre, até os consagrados, há sempre mas.
    Mas para o meu gosto, teve dois pontos que sobraram: excesso de referências e a última tirada em que diz que precisava justificar o título. Creio que estas duas situações, cada uma a seu modo, como que arrancam o leitor para fora da história, seja por remeterem a tudo quanto referem, seja por vir, no final, lembrar o leitor que está a ler uma história de ficção. E logo no momento em que “a coisa” já tinha vida dentro do leitor, vem o autor lembrar-lhe que vai acordar e regressar ao terreno do real?
    No mais, uma delícia de leitura e com tiradas absolutamente hilariantes.
    Você, sempre surpreendendo pela positiva, parabéns! Um abraço.

  2. Sonia Rodrigues
    21 de janeiro de 2015

    O começo está ótimo e o tema é bem interessante.
    Mas não curti muito o desenvolvimento, ficou um pouco cansativo.
    aquele final com o preciso justificar o título também soou legal. Gostei.

  3. Lucas Rezende
    20 de janeiro de 2015

    Demais!
    O conto é grande e nem vi o tempo passar. Muito divertido e envolvente.
    Parabéns, Rubem. Ficou muito foda.
    “Putin que pariu!” 🙂

  4. Leonardo Jardim
    17 de janeiro de 2015

    Sensacional! Nem tenho muito o que dizer além disso. Um dos melhores e mais divertidos contos que já li. Aliás, até agora curti todos os contos do Rubem que já li. Tem algum lugar que reúne todos?

    Abraços.

    • Fabio Baptista
      17 de janeiro de 2015

      O livro “A Linha Tênue “.

      Já li um ou outro do Rubem que não gostei tanto. Mas tipo… se todo conto que não gostei muito fosse daquele jeito, tava ótimo! kkkkk

      • Leonardo Jardim
        17 de janeiro de 2015

        Devo ter lido só uns 5. Dei sorte de pegar os melhores, então. Nove Caldas, do último desafio, foi oq eu menos gostei (e mesmo assim gostei bastante). O mais legal aqui do Entre Contos é que temos excelentes autores não tão conhecidos por aí.

  5. Fabio Baptista
    17 de janeiro de 2015

    Cara… nem sei o que eu falo.

    Putin que pariu, que conto!

    Parabéns, Rubem. Mais uma vez você detonou.

    PS: Mandei um para os contos off, que tem os mesmos “personagens” HUAUHAHUAHUA. Acho que daqui a pouco ele aparece por aí.

  6. rsollberg
    17 de janeiro de 2015

    Putz, esse conto é sensacional!

    Li na antologia de contos fantásticos da Caligo. Na minha opinião, o melhor texto da seleção (e olha que tem muita coisa boa lá).

    É hilário, divertido e absolutamente original!

    Quero mais da Natasha!!!

    Abraços

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Publicado às 16 de janeiro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .