EntreContos

Detox Literário.

Décimo segundo andar (Sidney Muniz)

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Olhei para a ela, mas o que eu podia fazer?

Na distancia que estava do ponto de partida de toda aquela tragédia contemplei a intensidade dos raios de sol que se desvencilhavam de nuvens aglomeradas. Meus olhos quase sofreram pela ofuscante luz que os provocava, quase.

Ainda sonolento levantei-me da cama dura e num vislumbre de minha atual situação me apavorei. Abaixo de mim o liquido denunciador de minha covardia exalava um odor demasiadamente fétido.

Tamanha a repulsa àquele cheiro senti o gosto adocicado do veneno da existência inundar minha boca. Podia ser mesmo comparado a uma criança que ainda urinava na cama, mas sabia que não era assim.

O tumulto da cidade e o cheiro dos diversos poluentes tomavam o ar em forma de fumaça e impregnavam-se nas roupas dos que ali passavam, molestando todo aquele caótico ambiente.

Mirando a cena um guarda noticiava pelo radio, vez ou outra olhava para mim melancolicamente. Vi a criança ainda no décimo segundo andar, dependurada, pés livres e oscilantes, enquanto uma mão segurava a viga da grade que cercava a sacada.

O céu nublado acima de nossas cabeças dava um tom austero aquele momento.  Perdi uma lágrima de vista e senti o coração pulsar rápido, como se isso fosse possível.

Olhei-a novamente. Continuava dependurada, os pés ainda vacilantes no ar e os cabelos dançando ao ritmo acelerado do vento, que aquela altura era intenso. Pobre menina! Afinal por que um homem faria aquilo? Meu Deus! Quantos erros!

Não poderia salvá-la, e tampouco a mim. Senti que esse Deus que eu clamava de alguma forma estava me punindo por tamanha fraqueza. Ainda movido por uma resistente fagulha de esperança olhei para os lados e procurei alguém que pudesse me ouvir. Em meio ao denso silencio, surgiu um espasmo e os últimos trinta minutos de minha vida passaram diante de meus olhos.

– Pai? – Chamou, enquanto eu engolia em seco toda minha tragédia pessoal. Minha mulher havia morrido. E eu? Bom, eu estava na casa do ordinário que a havia matado. Entrei naquele maldito prédio com uma caixa de pizza. Havia vigiado aquele irresponsável por longos dezenove dias. Dias sombrios, certamente os mais amargos que já havia vivido.

Num deles consegui descobrir que o assassino adorava comer pizza, e toda maldita sexta-feira ele comprava uma pizza gigante, acompanhada de vários saches de maionese, e a recebia na porta de casa. De tão pontual e rotineiro parecia um ritual. Ostentação e mais ostentação, e isso só me fazia odiá-lo mais.

Segui o entregador certo dia. Era um garoto de não mais que dezenove anos. Naquela tarde parou num bar após o expediente, puxei assunto, disse que ele já havia entregado uma pizza para mim, fato que nunca havia acontecido obviamente, visto que sempre detestei pizzas. O chamei para jogar três fichas de sinuca. Paguei algumas cervejas e isso bastou para que conversássemos sobre seus clientes, sobre sua rotina, e o pobre coitado contou-me das pessoas e de seus hábitos incomuns. Logo chegamos ao ponto que tanto queria.

Hoje há cerca de quarenta minutos atrás lá estava eu, entrei com a entrega do garoto, que estava amarrado e amordaçado dentro de uma caçamba de lixo há três quarteirões dali. Girei o tambor daquele revólver velho que comprei por míseros oitenta reais por um sujeitinho de olhos vermelhos sangrentos. Um viciado qualquer que decerto queimaria tudo por um enrolado de maconha.

Entrei no elevador e os poucos minutos daquela longa viagem aceleraram todo meu organismo. Senti o pulsar do ódio aliado a ansiedade de executar aquele trabalho que até então parecia ser o único motivo de minha existência.

Toquei a campainha e lá estava ele, sorrindo. Usava terno, gravata, um brilhoso sapato social e ainda queria comer pizza.

– Maldito egoísta filho da puta! – Pensei como se fosse o dono do mundo, e completamente ensandecido disparei três vezes tendo a certeza que em ao menos um deles acertara o cerne do peito do desgraçado. Três covardes disparos à queima roupa, enquanto a pizza se espativa ao chão, agora fora da caixa que jazia amassada ao lado do corpo. Sobre ela as gotas do sangue que esguicharam da carcaça do homem se ajuntavam como ketchup – Essa foi sua última Pizza, cretino – Esbravejei.

Enquanto tudo isso acontecia, naqueles breves segundos derradeiros, a imagem de minha mulher percorria minha mente, e se cicatrizava em meus olhos.

Ela ainda estava na mesa de cirurgia, agonizando de dor por uma imprudência médica, por uma escolha errada, por um diagnóstico que posteriormente fora descoberto como um simples equivoco. Simples? Maldito seja o cadáver que estava a minha frente.

Um mero erro de um doutorzinho de quinta que atendia trinta pacientes em cerca de uma hora em seu consultório, apenas para pagar um quarto luxuoso e comprar sua costumeira pizza toda sexta feira à tarde, apenas para dizer:

– Que se dane eu tenho dinheiro para pagar essa porra!

Chutei o desgraçado pelo chão, vi o corpo do ser que agonizava responder aos meus golpes, enquanto sua roupa era tingida daquele carmesim sádico que estupidamente me enchia de uma paz enlouquecedora.

E foi quando o acertei com um chute no rosto que ela saiu detrás da porta da sala. Naquele mero instante senti que a embriagues enfim havia me dominado.

– Pai? – Ela chamou, enquanto eu engolia em seco toda minha tragédia pessoal.

Os olhos inocentes da bela viam a fera que transparecia em mim, num alto-relevo assustador.  Os olhos da jovenzinha mergulhados num mar exterior que eclodia dos mais íntimos e perturbados sentimentos.

Conheci um choque interno, o peito parou e o coração já não respondia ao pulso, ou vice e versa. Meu único impulso foi o total e vão arrependimento, deixei a arma cair e mergulhei dentro de minha própria culpa.

Olhei para aquela criança assustada e perdida. Uma garotinha de não mais que oito anos de idade, trajando um vestido rosa com dezenas de corações meticulosamente proporcionais, e em sua cabeça prendendo os longos cachos dourados havia um arco com uma flor de pano presa a ele.

Sentia muito, mas não tanto quanto ela. A pequena olhou o pai no chão, e correu temerosa de mim. Segui-a por um tolo reflexo, e quando vi já havia cercando-a na varanda.

Ela me olhou e então subiu até a grade de proteção, ficou de pé sobre a viga de não mais que oito centímetros de largura, equilibrando-se, desequilibrada física e emocionalmente. Fitou-me, fixou os olhos minguados em mim segundos antes de deixar o corpo cair para trás, abdicando do direito de viver.

Culpado, vi-me um maldito covarde. Um homem que havia cometido um grave erro com a intenção chula de concertar outro. Lancei-me ao encontro daquele suave e pequeno corpo, e num ato de misericórdia divina vi que Deus era piedoso.

Minha mão vacilou no ar e meu corpo bateu contra a grade que não tão forte assim rompeu-se ficando dependurada no beiral, por dois parafusos, entortada, mas firme, enquanto eu descia desenfreados doze andares avistando cada vez mais longe o corpo de uma pequena criança, um anjo que havia me mostrado que a vida fazia sentido e que eu estava errado.

O espasmo terminou e então vi os bombeiros apavorados gritando que não daria tempo, que ela estaria morta. A grade cedeu e implorei a Deus por um milagre. Experimentei o sangue tocar minha língua de forma devassa e uma melodia cheia de suspense regada a batidas e suspiros audíveis chegou a mim numa sinfonia frenético.

Não estava mais em meu corpo, pois este estava molhado, abandonado e deformado sobre um colchão negro e duro. Eu parecia viver em outro alguém. Estava mergulhado em meu próprio sangue. Era tão somente uma alma covarde aguardando o momento de queimar no inferno, porém Deus me concedeu um último pedido.

Eu vi a mão dele, como se tivesse um binóculo, era como se eu o visse de perto, e realmente estivesse lá. E sim, estava.

Os dedos dela deslizaram pela grade, enquanto a menina olhava para aquele céu tenebroso e a luz do sol brilhou bem quando o medo fez com que os olhos dela se fechassem.

Pude sentir o baque do corpo dele quase sendo puxado por ela, eu não poderia acreditar, mas ele estava vivo. Havia um caminho de sangue por onde ele havia se arrastado heroicamente.

A menina estava viva, junto a seu pai. Ele a puxou para cima, no momento em que os bombeiros acabavam de arrombar a porta e entrar no quarto. Um médico chegou logo atrás deles, enquanto ele, novamente caído ao chão, aparentemente podia me ver. O médico o olhou e então o disse:

– Você foi muito forte, homem. Sua filha está viva!

– Não fui eu. Foi ele! Ele a salvou – as lágrimas fugiam de seus olhos, desesperadamente.  Ele me perdoou e Deus me deu outra chance – Disse, como se pudesse me ver. Mas como? Eu era apenas uma alma e não havia feito nada?

– Você está delirando. Ele está queimando em febre – O médico dizia.

E então me olhou fixamente e pude ter certeza de que ele falava comigo.

– Eu sinto muito por sua esposa, sei o que é perder alguém – Falou, enquanto olhava para uma foto encima da escrivaninha. Nela pude ver a mulher dele, e o estranho é que havia várias fotos e em uma delas ela não tinha cabelo algum e os três comiam uma fatia de pizza.

As bocas quase se encontravam. Os rostos colados, unidos e para que eu entendesse bem aquele momento havia uma frase no rodapé da imagem que dizia;

“Eu amo vocês, mas não mais que pizza “risos”. Sempre serei uma fatia dessa pizza!”

Sorri para ele. Olhei para meu corpo, estava tão longe, e eu bem no décimo segundo andar. Ali vi que por uma fração de segundos fui ele. Nossos olhos se encontraram e me vi no parapeito. Olhei para o mar de pessoas lá embaixo. Tudo é tão mais confuso à distância, e de perto tão mais perceptível. Ninguém me via a não ser minha amada. Fazer o quê uma hora dessas?

Bem, eu simplesmente pulei do décimo segundo andar.

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5 comentários em “Décimo segundo andar (Sidney Muniz)

  1. Sonia Rodrigues
    21 de janeiro de 2015

    Mirando a cena um guarda noticiava pelo radio, vez ou outra olhava para mim melancolicamente.?????

    guardas são socorristas – ele teria ido verificar a pulsação e fazer RCP.

    uma poção de frases cheias de adjetivos e desnecessariamente empoladas – poderia escrever de modo mais clarom ficaria mais facil de entender.
    ex:
    contemplei a intensidade dos raios de sol que se desvencilhavam de nuvens aglomeradas.
    os cabelos dançando ao ritmo acelerado do vento, que aquela altura era intenso.
    o pulsar do ódio aliado a ansiedade de executar aquele trabalho que até então parecia ser o único motivo de minha existência.

    este texto está redundatne: imprudência médica, por uma escolha errada, por um diagnóstico que posteriormente fora descoberto como um simples equivoco.

    e aqui n”ao deu para entender: Minha mão vacilou no ar e meu corpo bateu contra a grade que não tão forte assim rompeu-se ficando dependurada no beiral, por dois parafusos, entortada, mas firme, enquanto eu descia desenfreados doze andares
    o cara estava morrendo, subiu, pegou na grade, desceu – ele ou o espirito dele – e daí? visto que a menina continuou lá dependurada, o que quis dizer com minha mão bateu na grade? ele pensou isso? o bater na grade retardou a queda?

    a menina estava em pé na grade e quando cai consegue agarrar a grade? parece que uma lei da física não funcionou aqui.

    tudo muito melodramático,
    acho que descrever menos as ações e falar mais dos sentimentos seria mais apropriado.
    Boa sorte no próximo.

    • Sidney Muniz
      22 de janeiro de 2015

      Opa!

      Vou aplicar isso sim. risos…

      Realmente há observações interessantes nesse comentário,e é justamente isso que busco.

      Esse é um texto bem antigo e estou justamente buscando aqui no EC a opinião sincera sobre ele, pois trata-se de uma fase de minha escrita.

      Quanto ao guarda, quando ele olhava para o personagem, o mesmo já estava morto.

      O olhava melancolicamente se dá justamente por ele já saber que o mesmo estava morto. Como? Deixo para o leitor imaginar…

      Mas digo aqui que gostei por demais de sua análise, e a usarei certamente para uma reformulação nesse texto, assim com a do FB.

      Muito obrigado, mesmo!

  2. Fabio Baptista
    19 de janeiro de 2015

    Fala, Sidney! Beleza?

    Cara, não curti muito esse conto aqui não. A ideia desse milagre (essa troca de consciência, pelo que entendi) é bacana, mas a execução ficou um tanto confusa (pelo menos para uma segunda-feira de manhã :D).

    Depois vou ler de novo, para tentar captar mais coisas que provavlemente tenham passado batido, mas sempre gosto de deixar registrada a minha primeira impressão. Fiquei meio em dúvida sobre quem era quem aí. Acabei entendendo o seguinte:

    – O médico “matou” a mulher do sujeito.
    – Ele foi se vingar.
    – Atirou no médico, depois apareceu a filha
    – Era filha do médico (teria colocado um “olhando aterrorizada para o pai sangrando no chão”, para deixar mais claro… na hora me pareceu à primeira vista que era filha do protagonista)
    – Foi com a menina para a sacada.
    – Aqui que as coisas ficam confusas…
    – A menina cai, mas ele consegue trocar de consciência com o médico (pai da garota) que estava baleado, e ele de alguma forma consegue salvá-la…
    – Daí ele mostra ao cara (protagonista) que está dividindo a consciência com ele que sua esposa (do médico) havia morrido de câncer

    É mais ou menos isso? Talvez até tenha captado a ideia geral, mas fiquei com o sentimento de confusão.

    Enfim… além dessas coisas, peguei alguns problemas de revisão:

    – radio / silencio / equivoco
    >>> acentuação

    – estava a minha frente
    >>> crases

    – uma mão
    >>> cacofonia

    – oitenta reais por um sujeitinho
    >>> acho que era “pra” no lugar de “por”

    – Um viciado qualquer
    >>> algumas sentenças ficaram meio redundantes, tipo… aqui o leitor já havia concluído que trava-se de um viciado.

    – concertar / encima
    >>> Consertar / em cima

    – O médico o olhou e então o disse
    >>> Usaria “disse a ele”

    Bom, não poderia deixar de dizer que a frase final é muito boa e encerra a leitura com uma boa impressão.

    Abração, velho!

    • Sidney Muniz
      19 de janeiro de 2015

      hahaha…

      O texto a ser enviado não era esse não, ou melhor, a revisão não era essa… mas isso já era, e foi bom que pelo visto você pegou outras coisas que haviam me passado batido…

      Não é bem uma troca de consciência, na verdade o sujeito na primeira tentativa de salvar a menina “filha do médico” cai da sacada e morre na rua, enquanto ela por algum milagre fica dependurada.

      De lá do chão é onde acompanhamos a visão do sujeito e toda sua reflexão até o ponto em que acontece o suposto “milagre” e a alma dele repentinamente está no corpo do pai da garotinha e consegue caminhar até a grade e salvá-la.

      Talvez com uma releitura você entenda isso melhor. Quanto a revisão, putz, tenho que apagar as revisões antigas no desk para não dar outro fora desse…kkkkk

      Valeu pela análise sempre honesta, Fábio!

      Vou aplicar as dicas com certeza!

  3. Sidney Muniz
    18 de janeiro de 2015

    Imitando você JC! Enviei o texto errado, aff!… distancia = distância

    Tem um a sobrando logo no começo!

    Risos… rindo de mim mesmo aqui!

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado às 17 de janeiro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .