EntreContos

Detox Literário.

Uma cabeça no congelador (Carlos Henrique Gomes)

Para vó Luíza, cujas cinzas de seus frágeis ossos
repousam no Palácio da Paz Eterna

 

– Vó! Ô vó! Porra, será que ela jogou fora? Ô vó! Será que ela tá achando que é carne estragada! Vó! Ah, a senhora tá aí! Vó, a senhora pegou uma sacola que tava no congelador?

– Uma sacola branca?

– É, cadê?

– Joguei no lixo.

– Quando?

– De manhã. Tava com uma cara de carne podre, credo!

Além de num escutar também num enxerga mais. Melhor assim; aí posso ouvir meu heavy metal bem alto e trabalhar sossegado. Tá aqui, ainda bem que o lixeiro só passa de noite. Puta merda, tá com cara de podre mesmo, mas vai continuar no congelador mais um pouco. Falta acabar o suporte pra guitarra que tá ficando show!

A Taís tem os ossos bons pra trabalhar; a carne das novinhas solta mais fácil. A do vô José Fernandes deu um puta trabalho, mas ficou um belo cabideiro! Batia na vó Luíza e agora segura minhas roupas sujas: cueca na cabeça, meia podre entre os dedos das mãos, a jaqueta de couro nos ombros, toalha molhada. A pior parte pensei que fosse o estômago cheio de cachaça, puta fedor que quase vomitei, mas quando chegou no intestino cheio de merda, num deu pra segurar! Limpar aquela merda toda vomitada depois foi fóda!

Quando conheci a Taís na Galeria do Rock, vi nela duas coisas: um abajur na minha mesa de cabeceira, com a luz vermelha saindo pelos olhos, e um suporte pra minha guitarra. Magra, ossos apontando nos ombros, os nós dos dedos, os zigomas do rosto, tinha ossos aparecendo até nas sobrancelhas, o que a deixava mais sexy ainda, com cara de caveira, sem falar dos dentões… Perfeita, os ossos dos meus sonhos!

Tenho que confessar uma coisa: matar meu avô foi sem graça! Machado no pescoço, cabeça rolando, ele nem teve tempo de bater mais uma vez na vó Luíza. Mas a Taís foi gostoso! Nunca vou me esquecer! Nunca, nem se ficar demente! Apertei aquele pescoço comprido e ossudo até fazer cléc! Comecei devagar e ela gostou, apertei mais e ela gemeu, fiz mais força e ela arregalou os olhos negros, apertei mais ainda e ela se debateu, mantive a pressão constante e ela se debateu com mais vigor, a boca escancarada com os dentões à mostra, já estava quase roxa, os olhos negros, grandes como jabuticabas, parados na minha, os ossos pontudos dos ombros, os nós dos dedos desesperados, eu já via meu abajur com a luz vermelha saindo pelos olhos, minha guitarra entre suas mãos… cléc!  Mas continuei, continuei sentindo aqueles ossos nas pontas dos meus dedos: as costelas debaixo dos seios quase inexistentes, os nós grossos dos dedos compridos, os ombros pontudos, os cotovelos pontudos, os joelhos pontudos, ela toda mole, cheia de veias inúteis a for da pele, cara roxa, olhos negros parados. Continuei e continuei e continuei… Continuei até gozar!

Sair com ela daquele motelzinho pulguento foi mamãozinho com açúcar. Forrei tudo direitinho com plástico, espalhei pó de serragem em torno dela pra absorver o sangue, esperei ela esfriar, protegi minha roupa pra não sujar, serrei com cuidado entre a última vértebra e a bacia e na nuca também, embalei com filme plástico que a gente usa na cozinha, coloquei cada metade numa bag de guitarra vazia, a cabeça e a sujeira bem embaladas na mochila e saí pela portaria. Peguei o metrô, cheguei em casa, guardei a Taís no freezer do porão, jantei e fui dormir. Pelo menos tentei. Aquele pescoço ossudo ainda palpitava nas minhas mãos, os olhos de jabuticaba brilhantes me olhando sem me ver…

Trabalhar nos ossos dela foi maravilhoso; material de primeira! Guardei a cabeça no congelador da geladeira da cozinha, mais confiável que aquele freezer centenário do porão, descongelei o resto e limpei os ossos. As fibras, os músculos, as cartilagens se soltaram com facilidade. Enquanto o vô José Fernandes tinha cheiro de cachaça e merda por dentro, a Taís tinha um cheiro gostoso de sangue, de ferro, de heavy metal! Carne macia; pouca, mas macia, tripas leves de cor bonita, vários tons de vermelho saudável e coração pequeno. Só tive nojo do fígado!

Ensaquei com um tijolo dentro e de madrugada, quando todo gato é pardo e as pessoas dormem, pulei o muro e joguei na fossa do quintal da vizinha. Com o vô fiz o mesmo: pulei o muro, subornei o Neguinho, o vira-latas da vizinha, com uns bons pedaços dos miúdos do velho, rolei a pedra que cobre a tampa quebrada da fossa, joguei o saco de carne com um tijolo dentro e pronto. Melzinho na chupeta! Difícil foi acompanhar a vó Luíza na delegacia, nos hospitais e no IML…

Voltando a falar de coisas boas… Com a Taís, perdi a noção do tempo. Se não fosse a vó Luíza ir lá no porão me chamar pra almoçar, pra jantar e até pra dormir, eu ficaria todo esse tempo trabalhando naqueles ossos perfeitos!

– Carlinhos, menino! Vem almoçar!

– Já vô!

– O que quê é isso que você tá fazendo?

– Um suporte pra minha guitarra. Tá ficando bonito?

– Bonito! Meu netinho tem jeito pra essas coisas. Mas agora vem almoçar, senão esfria. Vai lavar a mão, vai!

Depois do susto de quase perder a cabeça da Taís, voltei ao trabalho. Já havia montado a coluna: passei uma barra fina de alumínio entre as vértebras, por onde ficava o tutano, encaixei vértebra por vértebra, fazendo a parte de baixo curvada pra trás, para dar sustentação, e a parte de cima bifurcada, pra encaixar o braço da guitarra. Também já havia montado os pés com parafusos, pinos e fios de náilon, deixando os dedões arrebitados pra cima, para a guitarra não escorregar, aí parafusei eles na parte de baixo da coluna.

Depois parafusei no meio da coluna as dobradiças e as mãos, que fechariam sobre o braço da guitarra: a direita acima e a esquerda mais abaixo, colei borrachinhas em alguns lugares, para não machucar o instrumento, dei uma mão de verniz e pronto! Pensei também em fazer um suporte para partitura com os ossos que sobraram; ficaria show as partituras apoiadas nas costelas da Taís! Mas depois, depois do abajur, se der tempo!

Dormi bem a noite toda. Dormi o sono dos justos e acordei cedo. Nem tomei café da manhã; corri para o porão e trouxe pra cima meu suporte de guitarra, ajeitei ela, fechei as mãos da Taís e ficou show! Chamei a vó Luíza pra mostrar em primeira mão minha obra prima.

– Que lindo, Carlinhos! Meu netinho é um gênio!

– Olha só o detalhe das mãos, vó! Ficou legal, né!

– Bonito! Toca pra mim aquela música que eu gosto.

Abri as mãos da Taís, pluguei a guitarra e toquei Still loving you, do Scorpions; ela é apaixonada pela música desde o primeiro Rock in Rio, época em que fechei com o heavy metal! Sentada na cama, coluna torta, com os dedos batucando nos joelhos, ela ouvia a música. A vó Luíza sorria, meiga e frágil, fácil de bater, e o vô José Fernandes, cheio de roupas sujas na cara, ao seu lado.

– Pronto. Gostou?

– Meu netinho toca bem! Dá um beijo. Te amo, viu!

– Tá bom…

– Credo! Esse seu cabideiro dá uma má impressão na gente!

– Por que?

– Sei lá! Posso pegar essa roupa pra lavar?

E agora vamos trabalhar no abajur. Será que a cabeça da Taís ainda tá no congelador?

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3 comentários em “Uma cabeça no congelador (Carlos Henrique Gomes)

  1. Sidney Muniz
    17 de janeiro de 2015

    Ver o vencedor do DTRL por aqui me da orgulho!

    Contaço! Não era o meu predileto do certame, más foi um de meus favoritos.

    Não há muto o que dizer, visto que já comentei por lá e que poucas alterações foram feitas.

    Parabenizo a você mais uma vez pelo excelente trabalho!

    Um forte abraço!

  2. Fabio Baptista
    17 de janeiro de 2015

    Fala, Carlos!

    Olha, vou falar sem rodeios… não gostei do seu conto, acho que ele, enquanto peça artística contemporânea acaba por reforçar o estereótipo que todo metaleiro é um delinquente-psicopata-vagabundo-filhodaputa, reforça o estereótipo de que gente criada pela vó tem sérias tendências, segundo o imaginário popular, a se tornar maníaco (ou gay… possibilidade não explorada diretamente no conto, mas que fica nas entrelinhas, dado o relacionamento deturpado do protagonista com a Taís, bem como o gosto do protagonista por abajures com luzes vermelhas). E principalmente por estar impregnado de machismo e misoginia, afinal, o vô batia na vó, o metaleiro sufocou a namorada e a tratou como um simples objeto (literalmente!!! Vejam que absurdo!). E também a…

    PUTZ!!! Passou uma onda politicamente correta por aqui, mas já foi embora, graças a Deus!!! 😀

    Carlão, que conto do caralho!!! Lembrou bastante o estilo e impacto da Edivana (veja o conto “Bonecas Estupradas” no desafio tema livre) – e isso é um grande elogio.

    Abraço!

    • Carlos Henrique Fernandes Gomes
      17 de janeiro de 2015

      Valeu Fabio! É uma homenagem a minha vó (a parte dela é história verídica), o resto é ficção mesmo (ainda bem!). Sobre a comparação com a Edivana, sinto-me mais lisonjeado do que pensa; conheço seu trabalho do Recanto das Letras.

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Informação

Publicado às 16 de janeiro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .