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Detox Literário.

Noite de Pesadelo (Alan Cosme Machado)

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A luz estroboscópica na cara já estava começando a incomodar, juntando isso a algo estranho que lhe deram para tomar, Jailsom Oliveira passou a não se sentir tão bem quanto deveria. O homem se encostou em um canto da boate e tentou esperar o efeito de seja lá o que for que ele tenha consumido passar.

– Filha da puta sortudo. – O “amigo” não podia ter aparecido em pior momento, para piorar ainda deu um tapa forte nas costas de Jailsom. – Como é ver bunda o dia todo e ainda ser pago para isso?

Jailsom tentava decidir se dava uma resposta esportiva ou uma desaforada. No fim optou pela primeira opção para evitar brigas. Já estava mal o suficiente para ainda ter que aguentar um soco na cara. Depois de alguns minutos Jailsom conseguiu se desviar do “amigo” indesejado e saiu da boate.

Jailsom chegou em seu Sandero e ao abrir a porta não aguentou e pôs tudo o que consumiu na festa para fora. – Merda. – A sujeira acabou por melar a porta do motorista. – Amanhã eu limpo essa porra.

Meio minuto depois e Jailsom já estava dirigindo em alta velocidade em uma pista muito movimentada. Na visão de Jailsom havia dois Eco Sports na sua frente, mas no mundo real só havia um.

Jailsom tentou ultrapassar pelo “meio”, mas acabou por encostar demais no Eco Sport que era real. O Sandero bateu na parte lateral anterior do outro carro fazendo-o praticamente voar. Jailsom também não ficou incólume, capotou três vezes e perdeu os sentidos.

Dez anos depois.

No seu computador Jailsom checava o seu trabalho antes de entregar a editora. A empregada, muito simples, não entendia o que ele fazia e ficava com a impressão de que ele estava fazendo algo de errado.

– O senhor só tira foto assim, é?

– Judite, eu trabalho como fotografo para uma revista masculina. O que você esperava?

– Essa garota tem mais de dezoito? Parece que tem quinze.

– Impressão sua. – Na verdade a menina tinha dezesseis. Mas a empresa deu um jeitinho com umas papeladas e por mágica a certidão de nascimento apareceu diferente.

Após terminar o trabalho, Jailsom foi até a sala. A casa em que morava era grande, o trabalho pagava bem. Jailsom tinha trinta e cinco anos e era um homem divorciado. Ele casou com uma modelo irresistível que fotografou e com ela teve um filho. O casamento não durou três anos. Com o divórcio Jailsom ficou com a guarda da criança. A modelo não fazia o tipo de mulher maternal, sedendo a guarda sem pestanejar.

O filho de Jailsom, Pedro Oliveira, tinha oito anos e no momento estava na sala sentado no chão perto da parede batendo a cabeça nela. Sentado em uma poltrona, Jailsom assistiu a cena com um pouco de desgosto e resolveu ignorar. “Se fazer ele parar ele recomeça”.

O telefone tocou e Jailsom foi atender rápido acreditando ser da editora. – Alô, olha o bilhete rosa que você pediu já tá pronto…Oi… Ah….Maria….O que foi? Algum problema com pai?

O pai de Jailsom, o senhor Tiago Oliveira, era um velhinho peculiar. Com quase noventa anos possuía uma vivacidade de dar inveja. Soldado treinado que lutou em guerras, Tiago pareceu ainda não ter percebido que seu corpo já não tinha mais o viço de antes. Para piorar Tiago mantinha uma coleção de armas em um armário no porão. Pistolas, revólveres, escopetas.

Por medo que ocorresse uma tragédia Jailsom trancou aquele armário. Agora isso se transformou em um problema. Segundo o que lhe contavam por telefone o velho surtou porque estava longe de sua preciosa AK-47, Magnum…

Jailsom desligou o telefone com vontade de socar o mundo. – Um filho retardado e um pai maluco. Tô fodido.

Tiago morava na casa de veraneio da família. Jailsom acreditava que o ambiente litorâneo, a brisa do mar, faria bem a sua cabeça. Estava enganado. Após cinquenta minutos de viagem Jailsom chegou. Maria, a empregada da casa, atendeu a porta e o conduziu até o seu pai, que não saia do porão.

O velho chutava e socava o armário ao ponto de seus punhos ficarem vermelhos prestes a sangrar.

– Pelo amor de Deus, pai. – Disse Jailsom. – Você não precisa dessas armas a guerra acabou!

– Não. A guerra nunca acaba. Descobri anteontem quando eu vi um deles. Um dos monstros.

Tiago só se acalmou quando Jailsom lhe contou uma mentira, que a noite ia devolver a chave do armário. Em um comodo da casa a qual o idoso não os ouvia Jailsom conversou com Maria.

– Que novidade é essa de monstros que ele anda dizendo? – Perguntou Jailsom a Maria.

– Monstros de olhos preto diz ele.

Jailsom ponderou antes de falar, talvez essa fosse a decisão mais difícil de sua vida. – Acho que serei obrigado a internar pai. Depois disso vou me livrar de todas essas armas.

– Só tenha cuidado. – Disse Maria. – Eu acho que a maioria delas são ilegais se a polícia te vê vendendo…

Jailsom tremeu ao ouvir o nome da polícia, já teve problema com ela há muitos anos atrás, em um acidente de carro.

– Vou passar a noite aqui e decidir o que fazer.

– E seu menino?

– Judite está com ele. Maria, muito obrigado. Mas você já pode ir.

As horas iam passando, o senhor Tiago, muito mais calmo, assistia um programa de auditório na televisão da sala. Jailsom ficava em seu laptop conversando com alguém da empresa via internet. De vez em quando ele falava com seu pai. Para ver se estava tudo bem e se as ideias malucas tinham amenizado. Sem que percebessem a noite chegou e com ela a afobação de Tiago.

– A noite os monstros saem de suas tocas. – Disse Tiago. O coração de Jailsom ficou apertado ao ouvi-lo. – Anda, filho, me dê a chave.

– Pai, pra que você precisa delas?

Tiago perdeu a calma e começou a falar gritando e a gesticular muito. Jailsom ficou com medo do pai pela primeira vez desde que tinha doze anos.  – Monstros, Jailsom! Você não entende?! Eu não fui para guerra matar seres humanos. Eu fui caçar monstros! Eu não sou um soldado, sou um caçador! Matei muitos deles e agora eles querem vingança. Voltaram para me pegar e me levar para o inferno!

Assim que o surto do seu pai passou, Jailsom não pôde deixar de sentir um pouco de pena do idoso por ele estar perdendo o juízo. – Pai, eu sei que a guerra foi algo terrível. Mas ela já passou. Não sei o que você presenciou lá, mas os monstros a qual você tanto se refere são seres humanos de carne e osso.

Horas mais tarde, na madrugada, Tiago não aguentou o cansaço e foi dormir. Enquanto isso Jailsom pesquisava em seu laptop por uma casa de repouso que lhe parecesse acolhedora e que não fosse muito dispendiosa.

Não demorou muito para o cansaço bater em Jailsom e ele se espreguiçar fechando os olhos. Ao abri-los, viu algo na janela da casa que o fez soltar da cadeira. O homem era careca, suas orelhas pontudas e, no meio de sua boca, haviam dentes pontiagudos como agulhas que se projetavam. A imagem da figura pitoresca não durou mais do que dois segundos, logo ela sumiu.

– Porra, pai! – Jailsom coçou os olhos e atribuiu aquela visão a sua imaginação, que foi alimentada pelas conversas com seu pai. Mesmo assim, tirando uma coragem de dentro que não tinha, Jailsom resolveu checar a parte de fora da casa.

Estava tudo na penumbra já que poucas luzes na casa estavam acesas. Jailsom se aproximava da janela com cautela, seu racional lhe dizendo que nada de mais iria acontecer e seu instinto lhe dizendo que estava em perigo mortal.

Com o coração na boca Jailsom pôs a cabeça do lado de fora da janela, olhou para um lado e para o outro, nada. Suspirou aliviado. Ao sair da janela Jailsom notou algo que não tinha visto antes. Entalhes. Figuras que lhe pareciam arte abstrata ou formas geométricas interconectadas.

– Runas. São esses símbolos que mantêm o mal do lado de fora da casa.

Jailsom precisou por as mãos na boca para não gritar, quando se virou viu que era apenas seu pai sendo inconveniente.

– Porra, pai. Quer me matar do coração.

– Você viu o monstro?

Jailsom fez cara de desdém, mas alguma coisa em sua expressão denunciou a Tiago o que seu filho lhe escondia.

– Ele é um mare. Sabe quando você acorda e sente um peso no ventre que o impede de se mover? São esses danados. Eles se alimentam de pesadelos.

– Mas eu não estava dormindo por que ele apareceu?

Tiago sorriu discretamente ao ouvir que seu filho pôs credito em sua história. – Ele veio por mim. Já matei muitos deles, acho que ele quer me matar ou me levar para a terra do pesadelo, o que seria muito pior.

– Ele ainda está lá fora?

– Deve estar rondando a casa há dias. Mas sua raça só age a noite.

Sem querer saber de mais nada, Jailsom foi até o porão e do bolso tirou o que Tiago tanto procurava. Uma chave enferrujada que era muito importante naquele momento. O armário foi aberto e com isso liberado o arsenal.

Antes que Tiago visse suas armas Jailsom as checou primeiro e notou algo interessante. Algumas balas eram de prata e outras tinham sal grosso no seu interior. Muitas delas se disparadas contra um ser humano não seriam letais, mas causariam uma baita dor.

– Contra um mare. – Disse Tiago. – Vamos precisar de ferro.

– Qual o plano?

Em uma das janelas da casa, com facas de ferro na mão, Tiago e Jailsom riscaram as runas de proteção, esperando que o monstro fosse atraído por essa brecha na segurança e entrasse na casa. Após as runas serem estragadas só foi preciso esperar quinze minutos e o mare apareceu. Se esgueirando de fininho.

O mare ignorou Jailsom, o seu alvo era Tiago. O monstro era ágil, mas o idoso conseguia ser muito mais. Com uma faca do tamanho de um antebraço Tiago foi ao combate. Ao ver seu pai lutando Jailsom foi acometido por um medo. Seu pai não podia ser normal. Quase noventa anos lutando desse jeito?! Por um instante Jailsom teve a impressão de que seu pai era uma aberração igual ao monstro que enfrentava.

A demorada luta foi decidida. Apesar de sua força quase sobre-humana Tiago perdeu. Jailsom não conseguiu fazer nada, apenas assistiu a derrota do pai. O mare carregou o idoso no ombro e começou a levá-lo embora. Só quando deu as costas a Jailsom foi que ele tomou alguma atitude e enfiou a faca de aço nas costas do monstro. A criatura berrou enquanto derrubava Tiago no chão.

O monstro encarou Jailsom. Ainda com a faca encravada nas costas o mare falou. – Você estragou a vida de tanta gente, Jailsom. O adolescente que você matou em um acidente de carro, as mulheres que obrigou a se desonrarem, o filho que negligenciou. Seu pai eu levaria a terra dos pesadelos, já você eu não tocaria. Tenho certeza que outros o levariam para um lugar bem pior.

Se arrastando, já que estava muito ferido, Tiago enfiou sua faca na junta da perna do monstro. Ele urrou e se ajoelhou. Tomado por uma coragem vinda não se sabe de onde, Jailsom retomou a faca das costas e decapitou o mare. Como era sua fraqueza, o ferro passava por sua carne e ossos como se fosse manteiga.

Uma hora depois.

– Foi culpa minha, cochilei por uns quinze minutos e não vi quando ele caiu das escadas. – Disse Jailsom aos paramédicos que vieram buscar Tiago e levá-lo na ambulância. O idoso estava muito mal e a história batia, logo ninguém questionou.

Ao invés de acompanhar seu pai, Jailsom decidiu ir para sua casa checar seu filho, o que sobrou de sua família. Pedro se distraia com um jogo Lego. Ele não montava as peças, só batia uma nas outras em uma sequência que só ele entendia, mas que possuía um sentido. A criança só estava acordada porque ninguém conseguia pô-la para dormir quando ela não queria.

Jailsom deixou seu menino quieto e foi checar todos os cômodos da casa. Tirando o quarto da empregada onde Judite dormia não havia mais ninguém. Por alguns minutos o fotografo respirou aliviado.

Sabendo que sua casa estava protegida, Jailsom subiu até o seu quarto, vestiu seu pijama e deitou-se em sua cama. O rosto do monstro não saia de sua mente, nem a forma como o seu pai lutava. O seu mundo normal ruiu, Jailsom estava apavorado. Uma miríade de coisas passavam em sua mente. De repente ele se lembrou sobre conversas que tinha na escola dominical sobre o inferno e o juízo final.

A escuridão do seu quarto começou a se tornar opressora. Imagens se formavam pelos cantos, Jailsom tinha a impressão de ver vultos.

Seu sono nunca mais foi o mesmo.

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Um comentário em “Noite de Pesadelo (Alan Cosme Machado)

  1. Fabio Baptista
    17 de janeiro de 2015

    Fala, Alan! Tudo certo?

    Cara, apesar de você cometer pouquíssimos deslizes gramaticais (como o sedendo, por exemplo), achei a escrita um pouco “crua”, com sentenças muito simples.

    Num ponto as sentenças simples são boas por tornarem o texto 100% compreensível – a narrativa flui sem problema algum. Mas, em contrapartida, dificilmente “encherá os olhos” de um leitor mais exigente (ou “chato”, se preferir :D).

    Daí nesse caso, o leitor chato (eu no caso) poderia se encantar com a história. Mas isso infelizmente também não ocorreu.

    Achei totalmente desnecessário narrar o acidente no começo. A única relevância que isso tem para a trama é uma citação que o demônio faz lá no final. Não justifica. Também há alguns outros pontos inverossímeis, por exemplo: o pai de Joilson era um mega-blaster-caçador-motherfucker, certo? Tudo bem que ele já estava velho, mas mesmo assim conseguiu lutar com o bicho por um bom tempo (enquanto o filho ficou parado sem fazer nada, diga-se de passagem), correto? Então alguma força ele ainda tinha… seguindo esse raciocínio, pergunto – por que diabos ele não arrombou a portinha do porão e pegou as armas de uma vez??? 😀

    Bom… a cena da ação foi bacana, acho que se você se concentrar mais na pancadaria em um próximo conto o resultado será melhor.

    Abraço!

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Informação

Publicado às 16 de janeiro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .