EntreContos

Detox Literário.

Lágrimas de Areia (André Luiz)

fantasia da velhice

O sol brilhava alto no céu. As árvores de troncos retorcidos, peladas e marrons cor-de-barro, continuavam estáticas pela falta do vento; que, aliás, abandonara a planície junto com os rios flutuantes. O único barulho que se ouvia, ao longe, era o das varejeiras consumindo a carcaça de um boi, já bastante magro pela falta de alimento. Consumiam-no ainda vivo.

A terra, craquelada e esculpida de rachaduras grossas e secas, prensada pelo gado que outrora trotara por ali; extinguida pela cana que outrora plantaram ali; remexida e exaurida pela família que outrora morara ali e sedenta pelo rio que outrora passara por ali; contorcia-se em dores, como uma mãe que luta para alimentar o filho nascido morto – não chorando porque suas lágrimas já se transformaram em areia, levadas pelo vento.

Estavam eles ali, zonzos de calor; a mulher idosa arrastando os pés descalços pelo chão e levantando poeira, arregaçando a ponta dos dedos na terra batida e entupida de pó até na alma, seca e carcomida. Sua cor negra, brilhando ao sol, era um ponto avulso no horizonte monocromático em tom pastel tal qual argila no brejo vazio e os lábios rachados da senhora. O marido, de barba por fazer, antes branca pela idade, agora marrom pelos grãos que se acumularam, transmutara-se em um mero errante, um ser que perambulava pela paisagem sofrida, com a sola da chinela desgastada e chegando-lhe à carne. A fome secara sua barriga; a tristeza, as lágrimas.

Os olhos negros, fixos na planície árida, cansavam-se do nada imenso que lhes abarcava a visão: Um vazio ao observar o horizonte e não encontrar vida sadia, nada além de duas ou três vacas e um cachorro, tentando se equilibrar em uma das patas que não fora consumida pela seca. O céu azul amarelado, pincelado de cobre e ameaçando cegar os olhos dos retirantes, refletia em si o penar que afligia aquela gente sofrida.

O velho arregaçou as mangas, sentindo o corpo quente e queimado de sol se mostrando mais magro do que deveria. Suas cartilagens, músculos e ossos se haviam retesado, carentes de alimento, e certas de que tão pouco não o receberiam. Levantou a aba do chapéu sombreiro de palha, revelando à senhora sua esposa um olhar profundo e preocupado de um rosto empapuçado de rugas, que lhe desciam pelos olhos e marcavam sua feição exausta de anos de labuta na agricultura familiar; um serviço que até tempos atrás lhes era digno, dava-lhes alimento – sobrevivência.

***

Contudo, a seca viera rápido demais: Em cerca de um ano, o verde desaparecera da paleta do povo que vivia por ali, o milho secou, as pragas comeram o feijão, e a soja morreu enterrada ainda dentro da semente, engolida pela aridez e tragada pelas rachaduras no solo. Os animais sofreram até o último momento, agarrados a um fio de esperança – em uma ponta, a confiança que tinham nos donos, nutrida mesmo que inconscientemente, na outra, o instinto selvagem que por ora sibilava nas mentes irracionais, corram, corram, dizia. Mas correr como? Até a vaca mais vistosa da região murchou lentamente até morrer devorada pelas moscas e larvas. Esbaforido, o gado sentara-se debaixo da sombra das últimas folhas que sobraram nas árvores, mirradas e escassas, comendo apenas casca de banana quando aguentavam ao menos abrir a boca – fora isto, não poderia se esperar outra ação, visto que estavam todos mais do que desesperados.

Porém, até mesmo as bananeiras padeceram, e a comida para os animais acabou. Sobraram apenas duas vaquinhas deitadas à sombra de uma pedra enorme que brotara na planície há milhares de anos e ainda não foi levada em grãos de areia pelo vento. As outras, coitadas, assistiram a sua própria morte, esperando os carniceiros saracotearem no céu, girando e girando de forma descendente, abrindo suas negras asas sobre as cabeças das vacas; uma aura sepulcral pairando no ar. É a lei da vida, e até mesmo a morte faz parte dela. A seleção natural de Darwin fez-se presente novamente em menos de dois dias.

Enquanto isso, o casal de caprinos aguardava por seu fim espichado no chão, observando assustado à carnificina se passando ao seu lado; porém sem esboçar reação alguma, fracos demais para se moverem dali. A cabra, prenha, bufava baixinho, chorando a morte do bebê dentro de seu útero. De tão desnutrida que estava, viam-se rasgando a carne as perninhas do filhotinho no cerne da mãe. A esta apenas restava esbugalhar os olhos redondos e alcançar o céu azul com seu olhar cansado; era chegada sua hora.

Cigarro, o cão de estimação da família, deitara-se de barriga para cima no piso de terra batida; seu peito magro inflando-se e murchando-se com dificuldade e as costelas despontando no resto de carne que lhe restava. A língua borrachenta e acinzentada pendia para fora da boca aberta, uma cena deplorável face à lamúria interior que o cãozinho sentia. Estava só, e para ele isto não era bom.

-Está morto? – A velha cutucou o cachorro com um toco de madeira, quase perfurando a derme fina de Cigarro.

-Tá não, fia. – O marido era carinhoso às vezes, mesmo que de forma inconsciente. Ele costumava brincar com o cachorro; agora, ambos estavam demasiadamente fracos para fazerem qualquer coisa. – Oia os olhinhos dele se mexendo. Tá sonhando…

Cigarro bufou, fazendo a velha pular.

-Aí cê me mata, bichinho! – Riu com os dentes amarelados brilhando à luz do sol quente que entrava, intrometido, na varanda da casa.

O cão abriu lentamente os olhos negros, deparando-se com dois rostos magros fitando-o. Pareceu se assustar. Eram quatro jabuticabas que lhe despontavam próximas demais, e ele estava com fome, ninguém imaginava. Não perderia aquela chance…

Abocanhou o ar e acabou incompreendido pelos donos:

-Eita que o Cigarrim virou bicho brabo! – Exclamou o velho, descendo com força uma paulada na perna do animal, que saiu mancando e chorando para o canto, grunhindo com o rabo enfiado entre as pernas.

-Né brabeza não, fio – a velha também não era de todo seca – é fome. Tava sonhando e acordou nesse mundinho pobre que nós tamu. – Abaixou a cabeça, introspectiva. Naquele momento, percebeu que também era uma vítima da seca, algo que parecia longe demais de sua realidade para ser aceitável. – Até eu tô triste. Oia pra Rita, tadinha. – Apontou para a cabra, praticamente morta. – Tá deitada na pedra faz três dias, buchuda e cum cabritinho morto lá dentro. Tá que dá dó.

O velho concordou com a cabeça e virou o olhar para fora, analisando o horizonte e o céu azul.

-Chega, fia. Aqui não dá mais. – Bateu a poeira grudada no corpo. – Vamu simbora o quanto antes. A seca é mais forte que nós.

-Mas, fio… É isso o que temu. – Afagou Cigarro, que voltava e se aninhava aos pés da velha. – Oia pra essa terrinha, essa casinha, essa vidinha. Fomo nós que construímo.

-Aí veio a seca e – arquejou as mãos, fechando-as e abrindo-as rapidamente, simulando uma explosão minúscula e visível apenas em sua mente – puf! Levô até os cabrito.

-Mas nós continuamo aqui. Isso a seca não levô.

-Qué apostá?

-Cruz e credo! – Religiosa, a mulher logo tratou de fazer o sinal da cruz.

Cigarro deitou-se novamente no mesmo lugar onde estivera antes. Lá fora, as duas vacas secas mugiam baixinho, famintas. Rita, a cabra, também chorava por dentro. Zezinho, o bode, parecia não se importar muito com a companheira.

-Tadinha… – A mulher sussurrou. Somente não chorou porque as lágrimas transformaram-se em reflexão. Ver todo aquele sofrimento não era uma coisa agradável; algo que tocou no coração dela e fê-la repensar a ideia de mudar-se dali. -E pra onde cê pensa em ir?

O velho sorriu, aliviado.

-Num sei. – Voltou-se à visão da janela. – Acho que a gente podia pegar a estrada e ver no que dá.

-Cê acha que dá em alguma coisa?

-Vamos tentá.

Naquele dia, a velha não dormiria, preocupada com seu futuro. Abandonaria mesmo toda sua história de vida, construída naquela cidadezinha do interior, agora engolida pela miséria da seca. Largaria a igreja que costumava ir aos domingos, rezar para nosso Senhor e pedir bênçãos para o povo humilde que vivia ali. Largaria a costura que tecia às tardes na companhia de dona Marta e de Terezinha, rendeiras de primeira da cidade, entrelaçando conversas e fofocas junto aos tecidos maravilhosos que produziam. Até mesmo a velha sorria quando Marta contava aquela piada de fazer rachar os bicos.

Na verdade, a velha e o velho eram os últimos dali, a zona rural, a roça a qual havia se acostumado. Os outros foram levados pelo vento da vida, que soprou para longe as memórias dos queridos moradores e vizinhos distantes.

O velho também sonharia com uma vida melhor se não tivesse desaprendido a sonhar. Não estava em seus planos o sentimento, e sua humanidade tinha escorrido pelos dedos como água. Perdera a razão de viver; sobrevivia.

Sendo assim, permaneceram ambos de olhos abertos pela noite inteira, cada um virado para seu lado da cama rústica, deixando aos poucos o silêncio se instalar à medida que a noite abraçava o céu. Dizem que “o silêncio grita o que as palavras não conseguem” *. Desta vez, era um grito de socorro.

Sem pouco para levar, os dois abriram um pano longo, em forma de quadrado, no chão e puseram o que puderam e o que acharam bom levar. Dinheiro – que mesmo escasso é uma necessidade na sociedade capitalista -; dois pães de sal, uma tigela com arroz cozido do dia anterior, um pequeno pote com água – o suficiente apenas para os dois em algumas horas de caminhada. Nada mais. De roupas, apenas aquelas coladas ao corpo pelo suor que já saia dos poros.

O sol nem ao menos dava sinais do amanhecer quando a casa simples da zona rural foi se afastando ao pouco.

-Durma com Deus, Rita. – Passara as mãos ásperas no pelo sujo da cabra, sentindo o osso duro por debaixo da carne mole. – Fique firme, Zezinho. Tamu orando procês. – Uma pontada de dor invadira o coração da velha ao se despedir da criação.

Virara-se para as vacas.

O velho não chegara perto, temendo que pudesse fazer o pior e irritar a esposa, porém teve de apressar as coisas. Voltara na cozinha da casa e procurara nas gavetas. Enfim, acabara achando o que procurava.

-Esses bichinhu num merece sofrê mais não. – Enfiara a faca pelos bulbos das duas cabras, atrás da nuca dos animais. Dirigira-se às vacas com o sangue caprino ainda escorrendo do metal frio. Contudo, a elas não fora preciso fazer nada. Estavam realmente mortas. – Agora vamu.

Pegara a esposa pelos ombros magros e praticamente a arrastara para longe da casa, de tão apegada que era.

Agora, os dois velhos de cerca de sessenta anos lutavam contra a sorte para sobreviver. Caminhavam em meio do que um dia fora uma represa, agora craquelada como tudo por ali. O que outrora fora lama secou e virou blocos de terra dura, enrijecendo as emoções das pessoas dali e tornando as conversas – assim como as lágrimas – cada vez mais escassas.

Agora o céu se transmutara em um azul profundo e sufocante, escaldando ao calor do sol ardente. O velho levantou a aba do chapéu de palha e esticou a visão apertando os olhos – puro efeito da miopia.

-Fia, é isso que tô vendo?

-O que, fio?

-Oia quem tá mancanu lá atrazinha, se arrastanu.

-Oia que num é o Cigarrim! – A velha virou-se repentinamente e, apesar da força da idade, ainda encontrou ânimo para acolher ao velho amigo dentro dos braços.

Cigarro não correu, prosseguiu com o passo descontínuo e arrastado, a estrutura do fêmur subindo e descendo ao ritmo da passada. Seu rabo saiu de dentro das pernas magricelas, e um momento o cão pareceu feliz. A língua ainda pendia ao lado direito da boca.

-Vem cá, bichin! – O velho estralou os dedos, chamando o cachorro gentilmente.

Esqueceu-se, no entanto, que os cães costumam guardar memórias recentes na mente, além de reconhecerem os donos e fazerem um juramento silencioso, sincero e vitalício de lealdade a eles. Assim, Cigarro deu a volta nas mãos surradas do velho e foi de encontro à velha, abanando o rabo pífio.

-Ele qué é carinhu. Só isso. – Agarrou-o, abraçando-o, e ergueu-o no ar à altura do peito. – Vamu. Não podemu parar.

Fazer o quê, pensou o velho, deixando de falar a oração depois de rapidamente pensar na reação da mulher.

E assim o dia transcorreu: A velha carregando Cigarro, ambos com os corpos empoeirados tais quais as árvores ao seu redor, raquíticos e pelados na alma. O velho ia silenciosamente por debaixo daquele chapéu de palha, maquinando em sua mente a próxima ação. Não poderiam caminhar para sempre. Além do mais, teriam de beber água e comer alguma coisa alguma hora. O pão acabou e o arroz também.

O que ainda lhe restava, por sinal mais importante do que tudo, era a esperança. Esta com certeza seria a última a morrer.

-Sai daqui! – A velha exclamava para o pássaro insistente que revoava por cima dela.
As penas negras prenunciavam o fim.

-Vamu simbora, fia! – O velho gritou, abanando os braços e sacudindo o pedaço de madeira que levara consigo. – Bicho dos inferno! – O pássaro grasnava alto, craac, cruuc, e assustava os dois retirantes.

A este ponto, Cigarro havia dormido nos braços da velha e estava alheio a tudo. Sonhava com comida, nem que fosse um rato ou um prato de feijão. Queria comer, alimentar a barriguinha mole e vazia, queria amar uma cadela graciosa de nome Juju que conhecia da cidade. Porém, a cadela Juju sumira de sua vista há muito tempo. Ela deve ter ido embora junto com seus donos… Agora, não era apenas seu corpo que estava vazio, mas também sua alma.

O pássaro de penas negras prosseguia rasgando os céus de vez em quando, mas agora parecia mais cansado, dando pausas entre os ataques. A velha e o velho, de tão exaustos de andar pelo sol quente, apenas tinham forças para gritar. Ele, o velho, ainda levantava debilmente o pedaço de pau que arrastava pelo chão, fazendo um rastro na poeira. Às vezes, algumas coisas que passaram despercebidas por eles – sempre olhando para frente – eram notadas pela madeira, que esbarrava e obrigava o velho a olhar:

-Fia! – A velha se virou ao chamado do marido. – Oia! É um douradin. Um peixin morto!

A mulher não acreditou no que via. Estendeu a visão e enxergou as carcaças de milhares de peixes no que antes fora um leito de rio.

-Deus meu de Jesus! Quanta miséria!

-E oia que tamu bem longe de casa! Devemo ter andado umas cinco hora secura adentru. – Agarrou o peixinho morto pelo rabo ossudo. – Aqui era um rio grande. Era bunito pá dimais, mas agora oia o que restou. Um monte de peixe morto.

A seca abraçou a região com violência, não deixando nem mesmo os rios escaparem.

-Oia, fio! –  A velha apontou para o longe, largando Cigarro no chão. O cão não se moveu de primeira, apenas resmungou ao ser acordado, voltando aquele mundo ruim em que vivia.

Os dois andaram mais um pouco, seguidos lentamente pelo cão cambaleante. Alguns minutos depois, alcançaram o local para onde a velha havia sinalizado. Havia um curso d’água pífio, de cerca de cinquenta centímetros de largura e quinze de profundidade, por onde tentavam respirar alguns peixinhos de água doce. Os osteíctes se balançavam e abriam os opérculos com velocidade reduzida, cansados de se debater.

-Que dó… – o velho pensou naquele momento na seca que tentava fugir dela. Porém, quando mais tentava, ela vinha com mais força e impacto, não salvando nada em seu caminho – Nós precisamo de cumida.

A velha pegou os peixes com a mão, não dando mais da metade da palma dela cada um dos peixinhos. O velho abaixou a cabeça e enterrou as mãos na água barrenta. Trataram de acender a chama para cozinhar os bichinhos; para isso usando algumas folhas secas de bananeira que acharam na beirada do rio seco e um fósforo que tirou de dentro da caixinha que trouxe na bagagem improvisada.

Feito isso, esperaram os peixes cozinharem, mas trataram de comê-los antes mesmo de estarem bem macios e quentes; a fome falava mais alto. Cigarro também foi servido, não antes de passar alguns bons minutos bebendo lentamente a água do fio quase seco.

-Cigarrim, qué um pêxe? – A velha estendeu as mãos para o cão, que abocanhou o alimento de uma só vez. – Tava com fome, né? – Passou a mão por sua cabeça magra. Cigarro latiu pela primeira vez desde muito tempo. – E eu com saudade desse seu latido feio.

O velho riu rapidamente, tentado a comer mais peixe. Ao final das contas, não se passaram de cinco lambaris crescidos de não mais de cinquenta gramas cada um, mas diante da fome, aquela refeição parecia digna da Santa Ceia.

-Agora vamu voltá pra caminhada. Fio, quanto tempo falta pra gente chegá na cidade?

-Sei lá. A gente vamu andanu, andanu e andanu e uma hora chegamu lá. – Avistou o céu azul sobre sua cabeça, limpo de nuvens. – Só Deus sabe quandu…

Andaram por mais algumas horas sobre a terra rachada, avistando às vezes alguma casinha abandonada no meio da vegetação seca. Lembravam-se da cidadezinha onde moravam e tentavam chorar, mas as lágrimas haviam secado.

***

O velho estava conversando com outro senhor à beirada da estrada coberta de terra. Voltou com um olhar cansado, intimando a esposa à questionar:

-Demora ainda?

-Um bocadin. Ele falô que tamu perto, mas caminhanu é demoradu. Diz ele que falta umas três hora.

-Ah! Nem é muito, fio. Já andamu o dia intêro, agora só falta assentá o passo e chega lá.

-O pobrema é que ele falô que nós tamu muito cansado. – Apontou para o senhor encostado no tanque de combustível, provavelmente vazio. – Convidô a gente prá durmi aqui essa noite.

A velha olhou para o céu já pintado de cobre, com o sol se escondendo no horizonte.

-Vamu dumi aqui intão. – naquele momento, lembrou-se de Cigarro – Ondé qui tá o Cigarrim?

O velho sorriu.

-Tá felizin agora brincano com a cachorrinha do véio do posto. Acho qui tá apaxonado.

A velha sentiu-se aliviada.

-Vamu, fia?

-Vamu, fio.

E ambos entraram na humilde casinha do senhor do posto. Lá dentro, uma cama macia os esperava, além de um pouco de solidariedade. O pouco que o senhor possuía resolveu dividir com o casal de idosos. Ele não era tão surrado e enrugado como os agricultores, mas tinha quase a mesma idade. Ali podia-se claramente enxergar os efeitos do sol quente batendo na pele em um dia inteiro de labuta.

O velho perguntou ao companheiro do posto seu nome:

-José Camargo, mas pode mi chama di Joca.

-Muito brigado, seu Joca. – A velha apertou a mão lixenta do senhor.

-Larga disso, cês dois! – Arregaçou as mangas e serviu um prato de arroz com feijão aos visitantes. – Podi mi chama de Joca só. Carece de seu não.

Os três riram. Cigarro entrou pela pequena abertura na porta entrefechada.

-Oia que seu cachorrin arranjô uma namoradinha. Qual o nome dele?

-É Cigarro. – O velho disse.

-Eita que tô com vontade de fumá um , marru’dinheiro num compra mais issu. Um pratu di comida é marr’importante. – Seu Joca falava meio arrastado em virtude da falta de dentes.

-Si eu tivesse um, ti dava. Mar num fumo. – O velho pensou no pai que morreu novo de câncer de pulmão. – Seu Chico, meu pai, morreu de doença no peito. Fumô muito tempo.

-Tadin. –Joca sentiu-se amargurado. Botou uma colherada de arroz com feijão na boca e, mesmo cheia, conseguiu balbuciar algumas palavras. – Marr’uarroz cum fêjão tá bom?

-Bom dimais. – Engoliu uma colherada de seu prato que já estava quase vazio. – Fome i arroz com fêjão, a melhor cumida.

Os dois homens gargalharam como se fossem amigos de infância. A velha comia silenciosa no canto da mesa, subjugada ao marido. Cigarro se enroscava com a cadela ao chão, brincando de morder tal qual filhotes, contentes e despreocupados.

Acabada a refeição, a velha saiu para olhar as estrelas da noite, esparsas no céu igual uma colcha de crochê bem modelada. Brilhavam para ela, convidando-a a permanecer vidrada na beleza de um céu estrelado. A lua também brilhava alto e forte, toda furada como um queijo da roça.

O velho ficou lá dentro trocando conversa e jogando burro com o mais novo amigo.

-Burro! – Gritou seu Joca.

-Cê joga bem.

-Já fui o meió da cidade. Agora tô sozinho aqui.

O velho matutou em sua cabeça um novo plano. Precisava consolidá-lo rapidamente, antes que o dia amanhecesse.

-Num qué vim cu nós não?

Joca foi pego de surpresa.

-Marr’assim tão na cara? – Mostrou os dentes cheios de amálgama, os únicos que lhe restaram.

-É.

Após alguns minutos calados, o velho arrumando a mesa do jantar e seu Joca colocando a louça na pia suja – a velha ainda lá fora, sentada a olhar estrelas; o dono do posto virou-se e colocou as mãos no ombro pelado do amigo, dizendo:

-Achu qui vô cum’cês. Nem mais gazulina tenhu aqui prá vendê…

-Intão vem cu’nóis pra cidade. Nós tamo procuranu uma vidinha meió lá. Tudo secô in Nossa Senhora da Piedade, nossa cidadezinha qui tanto amamu. Agora tamu perdido nessi’mundo de seca.

-Tô cum saudade dum banho di rio… – Joca devaneou.

-Tô cuma saudade dum banho.

-Vam’intão.

João Camargo, cidadão brasileiro, apenas levou consigo a identidade e o dinheiro que tinha guardado – não mais do que cinquenta reais. Juntou uma trouxa com uma panela de arroz e outra de feijão. Também arrumou um ossinho para a cadela companheira de todas as horas. Ao ver que Joca não levaria consigo a amiga canina, o velho se comoveu:

-Num vai levá ela cum’cê não?

-Num tem cumida pra ela.

-Marr’olha o Cigarrim, tá tão felizin cum ela. Dá pra leva todo mundo.

-Tá bão intão.

Acrescentaram a cadela a viajem.

***

Pela tarde já estavam às portas da capital, erguendo seus prédios monumentais sobre o asfalto duro e cinza. Antes dela, contudo, uma extensa rede de estradas rodeada por favelas de todos os lados. As casinhas de madeira ou papelão se espremiam umas nas outras de tal forma que as paredes se encavalavam no barraco vizinho. Lá dentro, como um formigueiro humano, quase quinhentas mil pessoas, morando apertadas umas às outras, no meio de ratos, baratas e esgoto a céu aberto. A maioria delas estava lotada, mas uma ou outra se encontrava desocupada. Joca inicialmente assustou-se com a cena, mas diante da simplicidade do povo que vivia ali, sentiu-se em casa.

Rosário, a dona de uma associação de moradores improvisada, veio ao seu encontro assim que chegaram.

-Boa tarde! – O sotaque já abandonara a população logo que alcançaram a cidade.

-Boas tarde, dona. – Joca estendeu a mão para a mulher.

-De onde vêm, meus caros?

-Nos viemo de Nossa Senhora da Piedade, do interiô. – o velho falou, apontando para a esposa – Ele já num sei a cidade, mas é gente boa da roça. – Joca sorriu ao fundo.

-E vieram fazer o quê aqui na cidade grande? – Rosário levou-os para caminhar por entre as ruelas e becos da favela. Algumas crianças jogavam bola em uma laje suja. Donas de casa estendiam roupas no varal. Desempregados jogavam baralho em mesas de bar e traficantes vendiam suas drogas ao ar livre, beco sim, beco não.

-A seca lá do interiô castigô nóis. – O velho tinha certa dificuldade para caminhar entre os caminhos estreitos da comunidade. – Viemo prá cá tentá uma vidinha mió um cadin. Num precisamu de muito não.

Joca completou:

-Eu também tava sozinho nu’mundo, até que ele chegô. – Apontou para o velho a sua frente. – E minha casinha ficô prá trás. Agora sô homi da cidade! – Gargalhou.

-Mas a vida na cidade não é fácil não. – Chegaram à porta de uma casinha pintada de amarelo, com janelas simples de alumínio e uma portinha de madeira onde estava pendurada uma placa enferrujada: Associação de moradores da Penha. – Tem que ser esperto senão o governo te engole. – Na mesinha de centro, um vaso de flores murchas. – Aceitam um café?

-Tem água, dona? – A velha falou depois de muito tempo calada.

-Tem sim, minha senhora. Ah, e não precisa me chamar de dona. – Cumprimentou-a gentilmente. – Meu nome é Rosário. Pode me chamar de Rosa, se quiser. – Entregou um copo de água aos três.

-Rosa. Tenho fome… – A velha abaixou a cabeça, envergonhada.

Rosário deixou escapar uma lágrima, comovida.

-Acho que tenho um pouco de arroz com feijão por aqui. Sobraram também dois tomates do almoço de hoje.

No microondas da associação, a mulher gentilmente esquentou três pratos de arroz e feijão para os retirantes. Depois, partiu os dois tomates em rodelas e colocou três rodelas para cada um.

-É pouco, mas é preciso.

-Brigado, dona Rosa. – A velha devorou o prato, acompanhada pelo marido e seu Joca.

-Dona não… – Sorriu com compaixão.

-Rosa.

As mulheres se deram bem.

Acabaram de comer rapidamente. A velha fez questão de separar um pouco de sua comida para o amigo inseparável que ficara lá fora.

-Não sabia que tinham um cachorro. – Perguntou Rosário à velha. – Qual o nome dele?

-É Cigarro.

-Que nome excêntrico para um cão! – Riu de canto de boca.

-Rosa, quê quié excêntrico?

Rosário sentiu dó da velha.

-Diferente.

-Ah tá.

***

Os dias foram se passando e os retirantes foram ficando por ali, já acostumados à vida na favela. Bastara algum tempo para conhecerem seu Jonas da vendinha; dona Carmen e dona Marieta da padaria; seu Manuel do açougue; seu Mário, Luquinha, Chico e Totonho do bar. Até mesmo a filha e o marido de Rosário apareceram, Ana Maria e Carlos Manuel. As noites eram tranquilas na cama da associação.

Rosa tratou de arrumar logo um barraco para que pudessem ficar, além de arranjar um serviço para o velho. Ele trabalharia algumas horas por dia na padaria vendendo os deliciosos pãezinhos de dona Carmen. A velha ficou a cargo das rendeiras da comunidade, trocando ensinamentos com as colegas de renda.

-Sabem que a água tá acabando? – Cazinha, uma das mulheres da roda de renda, comentou às outras.

-Sério? – Zuza questionou.

A velha ouvia tudo calada e concentrada na costura, mas não pôde resistir:

-Oia que lá de onde eu vim num tem nem mais uma gotinha.

As amigas ouviam assustadas. Cazinha até largou a agulha.

-Não pode ser…

-É sim. Viemu prá cá pur’causa dissu.

-Mas é muita desgraça, Deuzinho do céu. – Zuza juntou as mãos em oração simbólica.

-Aqui na Penha temos água dia sim dia não. Acho que é racionamento. – Cazinha levantou-se da cadeira e foi a pia mostrar que a água não caía da torneira. – E olha que aqui em casa é ligado direto no cano da prefeitura. Isso quer dizer que nem lá nos bairro chique tem água.

A velha olhava, ainda rendando. A conversa prosseguiu até às seis horas, quando o sol estava de partida, mas ainda estava claro em vista do horário de verão.

Pela noite, apenas a televisão emprestada fazia barulho no barraco dos dois velhos e de Joca. Cigarro e a cadelinha brincavam lá fora. A rede Globo de televisão anunciava na programação o Jornal Nacional. William Bonner, com seu topete grisalho milimetricamente arrumado, apontou na tela anunciando as manchetes:

Boa noite. Está começando o Jornal Nacional. Cenário econômico brasileiro piora e o país entra em recessão. Campanha novembro azul começa em todo o Brasil. Aumenta o número de doações de sangue no sudeste e nordeste. Diminui o número de acidentes fatais no segundo semestre de 2015. – Fez-se uma pausa repentina, que durou apenas um segundo. – E mais; crise na água no sudeste: Estado de São Paulo em calamidade pública depois da seca prolongada. Sistema Cantareira agora está na casa dos 3%”

-Vixe que até na capital tem problema igual nós tinha lá no interiô. – A velha resmungou com ironia.

-Fugimo da seca, marr’ela veio inté nóis, fia.

-Agora é só Deus pra nus’salvá.

Do outro lado do pequeno barraco, Joca virou-se na cama, dormindo como uma criança. Lá fora, Cigarro e a cachorrinha planejavam filhotinhos. A velha e o velho se abraçaram. Era a vida que prosseguia, com ou sem água. Restava-lhes esperança. Esta não morria nunca.

-Ti amo, fia.

-Ti amo tamém, fio.

O casal de velhos chorou na noite escura na favela da Penha, em São Paulo. Bonner sumiu com a televisão apagada, mas suas palavras reverberaram na mente dos dois velhinhos assistindo à TV. Ambos dormiram preocupados com a falta d’água.

As lágrimas de areia se juntaram novamente em um oceano de tristeza que levava nas ondas a vida do velho e da velha; e o sono engoliu os dois, abraçados um ao outro no mais puro amor que comungavam.

E Então? O que achou?

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Publicado às 23 de novembro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .
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