EntreContos

Detox Literário.

Impregnado (Fabio Baptista)

constantine

AVISO: Esse conto é uma FANFIC de John Constantine, personagem da DC Comics, criado por Alan Moore, Steve Bissette, Totleben John.

AVISO [2]: Contém linguagem chula, violência, insinuações de sexo dos mais variados tipos (acreditem… é sério), drogas lícitas e ilícitas, desvio de valores morais, transgressão de dogmas religiosos e outras coisas que tornam as histórias do Constantine legais pra caralho.

* * *

– E aí John, há quanto tempo não vejo sua fuça aqui por essas bandas?! O que manda?

– Fala, Carl… me dá um maço.

– Ué, pensei que você tinha parado…

– É, parei. Pensei ter parado. Mas essa é uma daquelas coisas que parecem estar impregnadas na alma, que de vez em quando a gente acha que largou de vez, mas quando se dá conta já tá fazendo de novo, sem perceber.

– É, eu sei como é. Eu sou meio assim com a bebida. Em toda ressaca falo que vou parar, que foi a última vez. Mas à noite vem o frio, e com ele a saudade da Ana. Daí quando vejo, já estou enchendo o caco de novo. Tá aí o maço… são três pratas.

– Depois eu te pago.

– Porra, John… você sabe que eu não posso ficar vendendo fiado…

– Carl… você sabe onde a Ana estaria agora se não fosse por mim, não é?

Merda, não devia ter falado isso. Realmente não gosto de ficar jogando favores na cara das pessoas. Tá, às vezes eu gosto, mas não é o caso. Aliás, não se pode nem dizer que foi um favor – o Carl é gente boa, a Ana também era. Só fiz a minha obrigação. Ele abaixa a cabeça, formando um enorme papo salpicado de barba mal feita debaixo do queixo e me entrega o maço, com ar de decepção. Respiro fundo e tento consertar a cagada:

– Olha, Carl… foi mal. Não deveria ter falado isso. Eu sei que é difícil pra você tocar a banca sozinho, ficar fazendo fiado pra quem provavelmente não vai pagar nunca e tal, mas é que eu tô com uma terrível necessidade de fumar. E pra variar, não tenho um puto no bolso.

– Tranquilo, John. O que é uma porra de um maço de cigarros perto do que você fez pela Ana? Eu que fui um babaca…

– É, foi mesmo. Mas tá desculpado. Agora me empresta o isqueiro.

O primeiro acaba em três tragadas. O segundo dura um pouco mais. Meus pulmões recebem a fumaça como uma mãe interiorana cheia de tecido adiposo e saudade recebe o filho que voltou são e salvo da guerra. Fiquei tempo demais longe de vocês, meus amigos. Sinto até aquela tontura que a gente sente quando está começando a fumar, aquela que vem pra te viciar e depois desaparece sem dar explicação. Tinha até me esquecido como era. Meu olhar está fixo na saída do prédio no outro lado da rua. Carl está incomodado com o silêncio e não consegue se conter.

– Olha, John, eu sei que não tenho nada a ver com a sua vida, mas cara… você já não é mais nenhum moleque, precisa arrumar um emprego decente. Ficar mexendo com… bom, você sabe, essas coisas que você mexe, não paga suas contas.

– Eu parei, Carl. Com isso eu parei pra valer.

– Parou? Com o quê?

– De mexer com “essas coisas que eu mexo”. Mexia, não mexo mais. Os anjos e os demônios que se fodam sozinhos, não quero mais saber dessa merda. E, se quer saber, nesse exato momento estou no meu primeiro dia de “emprego decente”.

– Tá tirando onda da minha cara, John? Você só está aí parado, olhando sei-lá-o-quê ali do outro lado da rua. Que porra de serviço é esse?

– O único que eu sei fazer, Carl: investigação. Um caso simples. Só vou pegar casos assim de agora em diante, estou fora de qualquer coisa que envolva outras dimensões, futuro da humanidade, espíritos vingativos e tal.

– Hum… e o que exatamente você está investigando, John?

– O que sobra para os detetives comuns investigarem: adultério. Uma coroa desconfiada acha que o marido pica mole tá metendo um belo par de chifres na cabeça dela. E aqui estou eu, plantado em frente ao trabalho do cara, esperando o puto ir “almoçar” pra tirar umas fotos dele com a boca na botija, ou sabe lá Deus onde, mostrar pra velha e pegar minha grana. Por falar, olha ali… é aquele careca saindo apressado. Vou indo lá. Depois volto pra acertar o maço.

Carl dá risada e faz algum comentário debochado sobre a minha nova condição. Nem ouço. Esse tipo de caso pode parecer uma merda… e na verdade é uma merda mesmo, mas pelo menos não tem surpresas. Um flagra, uma pessoa revoltada por ter ficado tanto tempo com um cafajeste (ou com uma vagabunda) sem ter dado vazão às próprias vontades, lágrimas, divórcio e dinheiro no meu bolso. Não é nada bonito nem emocionante, mas não tendo nenhuma entidade maligna querendo me arrastar mais cedo pro inferno e torturar minha alma pelo resto da eternidade no final, pra mim está de bom tamanho.

O velho anda rápido e a todo momento olha em volta, conferindo se ninguém conhecido está por perto – obviamente denunciando que está fazendo alguma coisa às escondidas. O corpo fala. Ele começa a se deslocar pelos becos que dão acesso ao centro antigo, e aposto que não está indo comprar um buquê de flores pra esposa. Vou seguindo a uma distância confortável, o maço já está quase na metade. Acendo mais um e então eu o vejo parar em frente a um prédio de quatro andares. Por fora o lugar está caindo aos pedaços. Dá três batidas na porta e mais uma olhada nervosa de 360 graus. Uma fresta se abre. Ele diz duas ou três palavras, passa algumas notas e está dentro. Tiro fotos e mais fotos do carequinha – esses belos momentos merecem um clique, precisam ser registrados para a posteridade. Só isso já seria o suficiente para garantir uma pensão gorda à minha cliente, porque, na melhor das hipóteses, ele entrou ali para se drogar, mas duvido que não tenha alguma putaria envolvida. Como gosto de fazer meu serviço bem feito, depois que o velho sair, vou tirar fotos do ambiente interno, para não dar margem a nenhuma dúvida sobre o que ele foi fazer ali dentro. Espero por 38 minutos, bem menos do que imaginei. É… a idade chega e a gente não consegue mais segurar o ritmo, não é, meu amigo? Ele saí do mesmo jeito que entrou, olhando desconfiado todo o ambiente em volta e secando o suor da careca. Vem andando com passos curtos e rápidos. Vou de encontro a ele, forçando um esbarrão no meio do caminho.

– Ei… olha por onde anda, seu cuzão! – Eu ameaço, encarando-o depois da trombada.

Ele me olha assustado. Gagueja um “desculpe” e desaparece no beco. Patético. Suas mãos estavam tremendo, olhos vidrados, pupilas dilatadas, respiração ofegante. Semblante meio aterrorizado, meio de quem acabou de fazer algo muito fora do comum e ainda não se decidiu se foi bom ou ruim. Por um instante me passa pela cabeça que talvez esse lugar realmente seja só um clube de drogados, porque, ou ele se drogou com algo muito pesado, ou descobriu na última hora que aquela morenona de 1 e 85 por quem se encantou tinha um adereço a mais do que o esperado e não conseguiu escapar. Logo vou saber. Bato três vezes na porta enferrujada e a fresta se abre, na altura do peito. Ninguém fala nada, então tomo a iniciativa.

– E aí, quanto tá o passaporte? Com carteirinha de estudante paga meia?

A fresta se fecha instantaneamente. Eu insisto, batendo três vezes novamente – sou um cara educado. A janelinha abre de novo e uma voz grave emana lá de dentro, tentando me intimidar como se eu fosse só um vagabundo de rua querendo encher o saco. Que droga, lavei meu sobretudo semana passada pra ser confundido com mendigo?

– Essa é uma propriedade particular e se você ficar insistindo para entrar, vou ter que encher seu rabo de bala. Agora vaza daqui… ‘tendeu, seu cu de burro?

– Calma aí, vamos conversar. O que eu preciso para entrar aí nessa “propriedade particular”? – Pergunto, impedindo que a janela se feche novamente e colocando uma nota da minha recém-adquirida carteira pela fresta.

– Uma senha… você precisa de uma senha – a voz agora denota uma maior disposição a cooperar. Sempre fico impressionado com o poder mágico desses pequenos pedaços de papel. Deve ser a cara da rainha.

– Bom, minha senha é “eu tenho dinheiro pra caralho e estou louco pra me divertir um pouco, mesmo que para isso precise jogar umas notas de 50 na mão do porteiro”.

Para minha surpresa a porta destravou de imediato. Acho que acertei a senha. Estava em dúvida entre essa e “abre-te, sésamo”, dei sorte em escolher a certa. Passo 150 pilas pro porteiro/segurança, um armário de no mínimo três metros de altura por dois de largura. Tá, estou exagerando, é claro. O cara é alto pra cacete, mas não deve passar de dois e oitenta. Ele abre uma segunda porta, concedendo-me acesso ao que se pode chamar de inferninho. Putas, travecos, figurões e executivos – bebendo, trepando e se drogando por todos os lados, iluminados por uma pálida luz vermelha. Em meio aos gritos e gemidos, uma mulher, que parece ter saído da porra do Walking Dead, me puxa com o braço quase necrosado de tanta picada.

– Vem cá loirinho, vou te chupar todinho, vem…

– Não, hoje não. Tá a fim de um pico?

– Tô, meu amor, lógico que eu tô…

– Então me fala o seguinte: agora há pouco veio um velho careca aqui, todo engravatado. Entrou e saiu rapidinho. Você sabe quem “atendeu” ele?

– Ele é seu amigo, é? Safadinho ele… – a puta responde com uma risada misteriosa.

– Então você sabe? Quem foi? – Insisto na pergunta, sacando vintão da carteira. Acho que o velho vai ficar puto quando descobrir que tá financiando o detetive particular que vai foder ele. Lógico que vou fazer questão que fique sabendo que bati a carteira dele durante nosso rápido “encontro” no beco.

– Olha, juro que não sei com quem exatamente… mas ele foi direto pro andar de cima. E lá tem umas coisas mais “pesadas” – minha informante responde, pegando a nota e enfiando no meio dos peitos murchos.

Logo essa grana vai virar pó, literalmente. Foda-se, cada um sabe dos seus vícios. Por falar nisso, o maço já está mais pra lá do que pra cá. Acendo mais um e começo a subir as escadas. Deus do céu, o segundo andar realmente tem coisas mais “pesadas”. Vou andando por um corredor largo, que dá acesso a vários quartos, dos dois lados. Na penumbra vejo figuras bizarras, que parecem ter saído daquele “circo dos horrores” de antigamente. Anãs aleijadas; mulheres imensas, com mais dobras na barriga que uma porra de focinho de Buldogue, que muito provavelmente sequer conseguem levantar dessas camas onde se prostituem; alguém que não consigo identificar o sexo, com elefantíase nas duas pernas; um garoto albino gigante com cara de retardado, amarrado com correntes em um quarto cheio de “apetrechos” sadomasoquistas, sendo chicoteado por um sujeito de cabelinho engomado. O moleque chora e grita, com as costas em carne viva. O boçal ri com gosto. Já vi coisas bem piores na vida, mas mesmo assim meu estômago revira um pouco mais a cada passo. Uma mulher absurdamente alta e ainda mais absurdamente magra está parada sobre o umbral de uma das portas. Paro para falar com ela e percebo que sua “bizarrice” não se limita aos ossos que se movem como se tivessem vida própria sob a pele negra. “Ela” na verdade é… são… “elas”. Duas cabeças compartilhando uma piteira. Puxo mais um do maço e peço fogo.

– E aí, tá a fim de uma coisa diferente hoje? Minha irmã e eu estamos…

– Na verdade, moças… eu queria fazer exatamente o que um amigo meu fez. Um velho careca, de terno bom, gravata bonita. Vocês viram com quem ele foi?

– Um que acabou de sair? Ele foi para o terceiro andar… se quer fazer o mesmo que ele fez, vaza daqui, seu pervertido do caralho!

– É, VAZA DAQUI, SEU FILHA DA PUTA!!!

Porra, a voz da “irmã” é estridente demais, nem perco tempo argumentando. Subo as escadas, com um pouco de receio do que vou encontrar. Na metade do caminho já ouço sons que fazem o ranger de dentes do inferno soar como Beethoven. Mais um corredor com vários quartos. Os fetiches, deformidades e maldades são ainda mais tétricos. Um cara barbudo está montado numa puta, metendo e socando a cara dela sem parar. O nariz está quebrado, sangue e dentes escorrem pelo canto da boca, os olhos abertos e paralisados, sem reação. Ela já está morta, e o filho da puta não para de bater. Homens e mulheres com partes do corpo mutiladas e substituídas por pedaços de manequins. Animais (caralho, como eles conseguem manter um cavalo aqui dentro?). E… crianças. Puta que pariu… crianças. Minha vontade é sair correndo, alcançar aquele velho careca e esmurrar a cara dele até virar purê, mas alguma coisa me diz para continuar a investigação. Quase vomito e coloco tudo a perder arranjando uma puta treta aqui dentro ao ver um moleque de dez anos, no máximo, sendo apalpado por um coroa enquanto cheira uma carreira de coca. Na hora em que eu ia partir pra cima do filho da puta, uma menina loira apareceu do nada, bem na minha frente. Tomei um susto da porra.

– E aí, tio? Vem aqui comigo, vem… – ela diz, me puxando pela barra do sobretudo em direção ao quarto. Cacete, essa menina deve ter oito anos.

– Não guria, hoje não tô a fim. Só quero saber uma coisa… foi com você que um velho careca e bem vestido esteve há uns 20 minutos?

– Ele é seu amigo, tio? – Ela me pergunta e seu olhar se enche de uma malícia que faria inveja até às putas velhas da estação central.

– É, ele é meu amigo…

– Seu amigo é corajoso, tio… mas ele não foi comigo não. Ele foi ali… – diz apontando a escada que conduz ao quarto andar, com os cabelos loiros e desgrenhados cobrindo o rosto.

– … – engulo seco. Acho que fiquei parado por tempo demais, estou enferrujado.

– E você, tio? Você é corajoso? Você vai querer ver o que tem lá em cima? HUAUHAHUAHUAUHA… – ela se afasta andando de costas em direção a seu covil. Alguma coisa naquela risada me congelou o sangue.

Esqueço tudo a meu redor, as perversões, as torturas, os gemidos, os gritos, o cheiro de coisas malditas, o ar carregado de sexo e depravação. Só consigo enxergar a escada. Hesito antes de subir o primeiro degrau. Minha perna inexplicavelmente começa a formigar, adormecida. No segundo degrau, todo meu corpo fica desse jeito. Sinto e ouço cada batida do meu coração, minha respiração vai ficando mais e mais pesada, a cada degrau. Mais e mais. A cada passo. Quando chego ao topo, me deparo com um corredor comprido e extremamente estreito, que acaba em uma porta fechada. Há uma luz bruxuleante lá dentro, iluminando todas as frestas e dando um ar ainda mais maligno ao lugar. Antes de caminhar, não sei por que invento de olhar pra trás. A menina loira está na base da escada, me observando com um riso diabólico no rosto semioculto. Sinto um calafrio na espinha, encaro novamente o corredor e começo a andar. Porra, eu sou magro, mas essa merda é tão estreita que não consigo me deslocar sem que um dos meus ombros raspe na parede, onde alguma coisa viscosa parece escorrer sem parar. Não quero nem pensar o que pode ser. Sei que estou andando devagar, mas a porta parece não chegar nunca. Me dou conta que todos os sons cessaram, exceto meus passos rangendo no piso velho. Sinto meu coração bater ainda mais forte, tenho ciência de cada inspiração e expiração que faço, não de uma forma boa, como numa porra de uma aula de yoga. Quando chego a uns cinco metros, a porta começa a abrir sozinha, lentamente. Acendo o antepenúltimo cigarro e sigo em frente, sentindo uma aura familiar emanando daquele quarto.

Quando entro, minhas suspeitas se concretizam. Todas as cortinas fechadas, velas vermelhas formando um círculo ao redor da cama, onde uma mulher nua está acorrentada. Há feridas por todo seu corpo, seu rosto parece ter sido arranhado por um animal selvagem. Não há parte branca em seus olhos, apenas uma íris negra e perversa, que agora me encara enquanto dobra e entorta a cabeça até a nuca encostar no seio. Movendo a pélvis em direção ao teto e forçando as correntes, ela fala com voz infantilizada:

– Oi, tio… veio bincá cumigu? Ti gotoso… vem cá, tio, mósta pá mim o qui oxê tem aí dentu dessa calça, mósta… HAUahuHAUaHuAhUAhuHAuhAuhUAHUH

Chego perto, enquanto me questiono por que essas coisas acontecem comigo. Será que por mais que eu tente, nunca vou conseguir me livrar disso? E… porra, que tipo de perversão é essa – transar com uma mulher possuída? Quem pode se excitar com uma coisa desse tipo? Bom, de certa forma acho que é menos doentio do que as taras com crianças. Mas agora não é hora de refletir sobre a vida. É hora de fazer meu trabalho.

Meu antigo trabalho.

Meu único trabalho.

– Qual é seu nome?

– Ti nome o tio qué que eu tenha? Michella? Joyce? Laura? Carol? Ou o tio peféri um minininho? Josh? Billie? Tom? HAuahUHAuahUAHuHUAhAuhA

– Não, pode parar de palhaçada. Quero seu verdadeiro nome…

– Ah, então vosmecê tem preferência por um nome à moda antiga? Por obséquio, escolha um que lhe soe assaz aprazível, senhor: George? Antony? William? – Ela diz, agora com voz masculina e sotaque de cavaleiro da távola redonda.

Deixo o casaco ao lado da cama, monto sobre sua barriga e começo a arregaçar as mangas. Ela continua falando, agora tentando parecer sedutora:

– Hum… tatuado, hein?! Eu gosto… vamos cavalgar, safatinho? Que tal uma chupadinha antes, hein? Vem cá, deixa eu usar minha língua – diz isso e em seguida coloca a língua fora da boca. Tem uns trinta centímetros, fendida na ponta, como a de uma serpente. Uma possessão que já se arrasta há muito tempo pelo jeito.

– Você não me reconheceu? – Pergunto, um pouco decepcionado.

– Não tio… num reconheci não… mas tô loquinha pá conheci o tio, bem aqui dentu… HAUHAUAHahuAHUahUAhuAhuAHA

– Puta que pariu, você deve ser uma demônia de quinta categoria, mas mesmo assim fiquei ofendido. Eu paro de trabalhar por cinco anos e vocês já não lembram da minha cara?

– Hum… magoadinho, bravinho… ai que delícia. HUAhuahuahuAHA. Mas não fica assim não… vem cá que a tia vai cuidar de você. Vou te chamar de “loirinho”…

– “Loirinho”? Loirinho é o caralho! MEU NOME É JOHN CONSTANTINE, PORRA!

Podia não conhecer o rosto, mas meu nome precede minha fama. Modéstia à parte. Ela se debate, grita, cospe na minha cara, faz a cama levitar, o chão tremer, as velas apagarem. Não adianta porra nenhuma. Estou enferrujado, mas ainda sou o melhor no que faço. Pergunto o nome de novo, ela se nega a falar, me xingando, mas dessa vez com o estilo e a erudição que se espera de um anjo caído.

– μαμά σου αρέσει να πιπιλίζουν μια πολύ παχιά κόκορας!!!!

– Ah, agora falando as preferências da minha mãe em grego você me conquistou… mas não costumo foder ninguém que eu não saiba o nome, então anda logo. Abre o bico.

– Quer saber meu nome? Meu nome é… SATANÁS… HAUhauhUAHUAhUAHauhAUH

– Não, esse eu sei que não é. Esse é o seu chefe. Aliás, quando eu te chutar de volta faz um favor, dá um recado que eu mandei ele tomar no cu – falo enquanto pressiono um crucifixo de prata na testa. Em seguida realizo uma evocação em latim e então ela para de resistir ao meu charme:

– JEZEBEEEELLLLL…

– Muito obrigado pela colaboração. Agora vamos acabar com essa putaria… – Revertere ad locum tuum spiritus malus. Nunquam redeant JEZEBEL. Nunquam redeant! Amen

Jezebel voltou pro inferno e eu tenho que voltar pra a rua. Pego o sobretudo do chão e me preparo pra puxar o carro, mas daí ouço algo que não queria ter ouvido.

– M-Me tira daqui… me a-ajuda, p-por f-favor… – o que sobrou da moça possuída implora por auxílio.

Cacete, não posso virar as costas agora. Na verdade eu posso, e pensando friamente, deveria largá-la aqui, porque minha chance de escapar com ela no colo é quase nula. Mas antes que me dê conta, estou fazendo a porra da “coisa certa” e desacorrentando a coitada. Visto-a com meu casaco e a jogo por cima do ombro, agora vai ser ainda mais foda atravessar aquele corredor estreito. Penso em pular pela janela, mas seria suicídio. Porra, Chaz… que falta você faz. Vou pelo corredor mesmo, não tem outro jeito. Tudo escuro e silencioso. No segundo passo, percebo que tem alguém me esperando no final. A menina loira. Está com a cabeça abaixada e os cabelos cobrindo a face, mas mesmo assim eu sei que um sorriso diabólico está ali por trás. A merda é que não estou sentindo demônio nenhum, ela não está possuída. Que porra é essa então? Ela começa a andar na minha direção, toda torta, com cada articulação curvada ao contrário do que deveria. Sua cabeça pende de modo macabro, de um lado para o outro, seus ombros alternam-se para cima e para baixo enquanto se aproxima. Estava distante, mas de repente colocou as mãos no chão para andar como um animal e em um movimento sobrenatural chegou muito perto, quase instantaneamente. Parou bem na minha frente agora e não vou negar que estou com o cu na mão. Ela respira como um porco e ergue o braço esquerdo, apontando na minha direção. Sua mão é velha, todos os dedos enrugados, unhas compridas. Começa a erguer a cabeça também e pouco a pouco seu rosto vai sendo revelado…

– Búúúú!!!! Te assustei, John? – A menina diz tirando os cabelos, agora perfeitamente cacheados, da frente do rosto angelical.

– Gabriel?! Filho da puta, isso é hora de fazer palhaçada?

– Você nem me reconheceu lá embaixo, John… fiquei chateado.

– É, estou enferrujado, fiquei focado nos demônios e esqueci os putos dos anjos.

– Ah, John, não fala assim. Eu te ajudei… não deixei ninguém ouvir o seu ritual.

– Gabriel, se você quisesse mesmo ajudar, teria subido aqui há muito tempo e expulsado a porra da Jezebel sozinho do corpo dessa mulher. Aliás, você não teria deixado que demônio nenhum entrasse no corpo de ninguém. Você não teria deixado que um velho abusasse de uma criança drogada bem na sua frente. Se quisessem ajudar de verdade, você e seus amigos não permitiriam que um lugar como esse aqui existisse. Então, Gabriel… não me fale que você ajudou.

– John, John… sempre a mesma retórica. Pensa bem, John… se a gente fizesse tudo isso, não sobraria espaço para que os homens provassem seu valor e ganhassem pontos com o Criador realizando atos heroicos como esse que você fez hoje! Você é um instrumento do Senhor, John Constantine. Uma arma do bem. Não tem como fugir desse destino.

– Gabriel… vai se foder.

Sigo o resto do corredor e desço as escadas o mais rápido que consigo. Passo pelo circo dos horrores e chego ao térreo, onde não desperto nada além de olhares curiosos. Tive sorte até aqui, mas ainda preciso passar pelo gorila da portaria. Bato na porta, ele abre e arregala o olho:

– Puta que pariu, cara. Que porra é essa? – Diz pegando o rádio para dar o alarme e se preparando para agarrar meu pescoço com a outra mão.

– Bicho, é o seguinte, deixa eu te explicar… – faço uma cara de coitado e pego ele de surpresa com um gancho direto no queixo – … tá aí a explicação. ‘Tendeu, seu cu de burro?

Eu não sou forte e não sei brigar, então tenho que ser traiçoeiro. Minha única chance é acertar o primeiro soco. Enquanto o grandalhão se recupera, saio vazado desse lugar maldito e desapareço pelos becos. Continuo a correr até chegar à avenida e pegar um táxi. Putz grila, estou ofegante demais. Preciso parar de fumar… ah, preciso parar é o caralho.

– Para onde, senhor?

– Hospital. A mocinha aqui bebeu demais. Tem um cigarro aí?

Largo a moça no pronto-socorro, o nome dela é Raquel. Foi a única coisa que consegui entender em meio aos murmúrios. O que ela vai fazer depois? Voltar a se drogar e se prostituir? O que eu vou fazer agora? Voltar a caçar demônios? Temos escolhas mesmo, ou o destino já está impregnado em nossa alma, como a nicotina está impregnada no meu pulmão, como a maldade está impregnada naquele prédio do centro? Volto pra pegar outro maço com o Carl. Estou com grana agora, mas vou pegar fiado de novo. Eu tirei a Ana do inferno, cacete. Discuto com ele um plano para denunciar e fechar aquele pedaço do inferno na Terra. Se a polícia não der bola (e aposto que não vai dar, porque alguém de alta patente deve estar recebendo uma grana violenta pra deixar aquela porra funcionar), vou dar um jeito de acabar com essa história sozinho. Depois vou até a velha que me contratou. Ela vai ficar horrorizada com as fotos e com as revelações sobre as taras do marido. Foda-se, é pra ficar mesmo.

Começa a escurecer. Tenho que admitir que é bom estar de volta à ativa. É bom saber que no inferno devem estar comentando, com uma mistura mortal de medo e ódio, que o velho John Constantine voltou. É, seus putos, vocês não perdem por esperar.

Acendo um cigarro.

O maço está no fim.

16 comentários em “Impregnado (Fabio Baptista)

  1. Leonardo Jardim
    27 de novembro de 2014

    Muito legal, Fabio. Confesso que roí todas a minhas unhas enquanto lia. Conheço pouco de Constantine, mas não atrapalhou muito na leitura. O clima do “inferninho” (quase literal) foi realmente bizarro. O suspense funcionou muito bem e o final foi inesperado (embora eu estive esperando um demônio, não esperava da forma como foi). Parabéns!

  2. Jefferson Reis
    24 de novembro de 2014

    A narrativa me lembrou algumas cenas da temporada atual de American Horror Story, subtitulada Freak Show.

  3. Maria Santino
    23 de novembro de 2014

    Oi, Fábio Baptista. Tá bem?
    Não sei se é a minha cabecinha fraca, mas senti um pouco o clima do game Max Payne aqui (tou mal de referências. 😦 ) Eu só vi o filme, aquele com o Keanu Reeves, mas filmes no geral são tão brandos quando baseados em algum(a) HQ,Livros e afins. Adorei a tua ideia de usar a mulher possuída como o “fran finale” de bizarrices do prédio. De fato é uma tensão gradativa que culmina em algo que eu, particularmente, não esperava e, como disse antes, ADOREI.

    • Fabio Baptista
      27 de novembro de 2014

      Valeu, Maria!

      Nunca joguei Max Payne… é aquele que usou pela primeira vez o “bullet time”, né?

      • Maria Santino
        27 de novembro de 2014

        É esse aí mesmo. Costumo jogar alguns RPGs, mas faz tempo que não o faço (para o bem ou para o mal a gente cresce e o tempo encurta). Parabéns pelo conto.

  4. Gustavo Araujo
    23 de novembro de 2014

    Gostei muito do clima de suspense e das descrições do interior do edifício. Ficaram muito boas. O linguajar, as cenas bizarras e os costumes pouco ortodoxos foram bem explorados também — nada tão horrendo, na verdade, ainda que a menção à criança tenha me dado calafrios, rs.

    Só achei que foi muito fácil a entrada do protagonista no edifício. Para um lugar tão pesado, creio que um suborno de cinquentão não seria aceito assim, tão facilmente. Talvez fosse o caso de dizer que ele já estava investigando o edifício e que depois de várias tentativas conseguiu que alguém lá de dentro autorizasse sua entrada, de repente alguém que já sabia quem ele era e que desejava vingança, sei lá (tô viajando aqui…).

    Bom, o texto é uma fanfic de John Constantine e certamente agradará muito quem é fã do personagem, já que há elementos diabólicos em profusão.

    Pessoalmente falando, nunca li as histórias dele, mas não posso dizer que o conto não funcionou comigo. Como disse, gostei da trama como um todo. Porém, meu lado “clássico” desejou, por um instante, que a fanfic fosse de Marlowe, no estilo noir de O Falcão Maltês e de À Beira do Abismo. Questão de gosto pessoal mesmo. Creio que se fosse assim, e que se tivesse sido inscrito no desafio noir, o texto seria um forte concorrente.

    De todo modo, parabéns, Fabio, pela criação.

    • Fabio Baptista
      27 de novembro de 2014

      Cara… se você gosta de HQs, pegue umas “Hellblazer”s e leia. É coisa de primeira.

      Monstro do Pântano, em que o Constantine aparece pela primeira vez, também é bem legal (nunca imaginei que um personagem chamado “Monstro do Pântano” pudesse ser legal… mas é :D).

  5. José Leonardo
    22 de novembro de 2014

    Olá, Fábio Baptista. Não estou aqui para fazer análises enfadonhas e questionáveis (contos off, ok?), mas simplesmente para dizer isto: quando um autor nos permite minutos de intensa excitação (tensão até) e prende nossa atenção naquilo que odiamos, naquilo que a priori nem desejamos ler, significa que tal escritor é mesmo FODA. Muito obrigado pela deleitosa insanirrealidade. Abraços, meu caro.

    • Fabio Baptista
      27 de novembro de 2014

      Cara, fiquei feliz de um modo quase sádico com esse comentário! 😀

      Muito obrigado!

  6. Jowilton Amaral da Costa
    22 de novembro de 2014

    Muito bom, suspense da porra até chegar no quarto andar. Muita fluidez na narrativa. Li num fôlego só. Só achei meio estranho os diálogos da menina possuída, um misto de criança com pai de santo. Texto foda. Abraços.

    • Fabio Baptista
      27 de novembro de 2014

      Fala, Jowilton!

      Cara… pior que a ideia foi mais ou menos essa mesmo – criança com pai de santo! HUAUHAHUAUHA

      Valeu!

  7. daniel vianna
    22 de novembro de 2014

    Cara, sensacional! Simplesmente sensacional! Só faltou a subida de andar em andar ser uma descida, cada vez mais profunda, he, he, he. Show de bola. O clima pesado me fez recordar da época em que ouvia Black Sabath, na adolescência.

    • Fabio Baptista
      27 de novembro de 2014

      Valeu, Daniel!

      Sua ideia da descida ao invés da subida é muito boa. Acho que realmente aumentaria a tensão, por ficar aquela coisa de “parece que está chegando no inferno”!

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Publicado às 22 de novembro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .
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