EntreContos

Detox Literário.

Ora, os clássicos… (Gustavo Araujo)

Dom_Casmurro

É comum a ideia de que todo escritor deve, antes de tudo, ser um insaciável leitor. Este é o estágio necessário, imprescindível, para que se atinja um mínimo de maturidade na escrita. Nos desafios literários do Entre Contos é possível vislumbrar as influências de best sellers recentes, especialmente da chamada literatura para jovens adultos, conhecida pela sigla YA, na maneira com que os participantes se expressam.

Inspirados por autores modernos, especialmente estrangeiros, os escritores mais novos torcem o nariz para textos considerados tradicionais, mais lentos e introspectivos, preferindo narrativas dinâmicas, sem muitas descrições, e que vão direto ao ponto.

Naturalmente, há um choque.

Autores mais afetos à escola tradicional criticam a cultura enlatada, consumida com avidez instantânea, que, alegam, caracteriza os romances mais vendidos atualmente. A fim de embasar seus argumentos, apontam com certo desdém que falta às novas gerações contato com as obras clássicas. Citam, como exemplos, por vezes com uma intimidade fingida, obras de Machado de Assis, Guimarães Rosa, José de Alencar, Manuel Bandeira e toda a trupe presente nas aulas de Literatura da época do “científico” ou do “segundo grau”. Para os defensores dessa corrente, escritor algum poderia ostentar tal epíteto se não fosse capaz de citar, de coração, trechos de “Macunaíma” ou de “Memórias no Cárcere”.

Os autores modernos se defendem, afirmando com orgulho que jamais leram os clássicos e que não têm a mínima intenção de fazê-lo. Apontam que os clássicos são aborrecidos e que, não fosse a obrigação de conhecê-los na escola, ninguém se importaria com eles.

Como Aristóteles (ou seria Confúcio?), penso que a virtude está no meio.

Não acho que ler os clássicos seja condição indispensável para que alguém seja um bom escritor. Claro, é bom, é aconselhável, mas não se trata de pressuposto inarredável.

Muitas vezes, a meu ver, a argumentação da escola tradicionalista soa como despeito. Os autores que atualmente mais vendem não mereceriam tal sorte porque têm trapaceado, relegando os clássicos às prateleiras poeirentas de museus que ninguém visita.

Não concordo. Os autores que mais vendem têm seus méritos – entre os quais o de entender a linguagem falada atualmente, em todos os sentidos da expressão, quer para o bem, quer para o mal.

Não se pode considerar alguém “menos preparado” porque não leu medalhões. Chego a duvidar, em alguns casos, que os defensores dessa tese realmente leram os livros que indicam, preferindo brandir um meme com uma citação de Clarice Lispector.

Também acho, do fundo do meu coração, que certos “livros indispensáveis” são extremamente tediosos. Diante da linguagem que temos hoje, da velocidade com que gira o mundo, com que muda a cultura, com que se expressa a linguagem, os parágrafos intermináveis de “Sagarana” ou “Grande Sertão: Veredas” são tudo menos empolgantes.

Mas não podemos generalizar. Há livros clássicos muito bons, como “Dom Casmurro” e “O Tempo e o Vento”, que certamente influenciariam de maneira muito positiva os novos autores. Aí, há que se apontar a preguiça da nova geração em travar contato como que se escreveu há mais de um século, o que, no fim, revela-se um pecado imperdoável.

Para mim, o bom escritor terá mais chances de sucesso se souber reconhecer as obras – quer clássicas, quer modernas – que lhe permitam construir seu próprio estilo. E, muito importante, deve reconhecer que a fórmula encontrada diz respeito apenas a si mesmo, evitando conselhos fáceis e, por vezes, arrogantes.

Se a virtude está no meio, então, é possível dosar a narrativa com descrições suficientes, nunca exageradas, com certa dose de introspecção, além de emprestar profundidade psicológica mínima para que os personagens não soem esquemáticos. Com tal construção é possível, aí sim, atirar-se à aceleração e ao dinamismo. Um sem o outro, pelo menos atualmente, torna qualquer história aleijada.

Enfim, penso que o autor de hoje deve procurar conjugar os estilos, evitando a armadilha fácil de se aferrar a um deles e desmoralizar o outro, como tantos fazem.

Se posso fazer uma sugestão, peço que digam não aos reacionários da literatura. Abandonem a escola única e deixem-se contaminar pelo que ambas têm de melhor. No fim, misture a si mesmo nessa ideia. Talvez dê certo.

8 comentários em “Ora, os clássicos… (Gustavo Araujo)

  1. Fil Felix
    25 de novembro de 2017

    Também sinto que, muitas vezes, quem proclama os clássicos nem sempre os leu, de verdade. O vestibular (e as provas em cima dele) exigem uma quantia infinita de livros “clássicos” (e alguns contemporâneos, também) pra galera ler, acabando pelos professores enfiarem certos textos goela abaixo dos alunos, que não aguentam e desistem (por não estarem acostumados à escrita, estilo, etc), vendo um resumo e cumprindo tabela pra prova. Gerando um ranço de autores como o Machado de Assis (que admito ter).

    Ao meu ver, ler também é uma construção, bastante afetada pela idade, contexto, maturidade em que estamos. Eu ler Machado de Assis aos 15 anos e ler hoje, mais de 10 anos depois, com outros livros na bagagem, é uma outra experiência. Apesar que eu com 15 anos não queria saber de nada haha Acho que falta uma flexibilidade nas escolas com os ditos livros de vestibular, pra não continuar gerando esse estigma.

    Por outro lado, vejo muito preconceito, também, em relação a esse clássicos x contemporâneos da massa. Um desdém. A vergonha ou o medo de alguém dizer que não gosta de determinado livro e ser taxado de ignorante, ou admitir ter gostado de outro pop e virar piada. Quase um pecado algum escritor, do “meio” cultural e acadêmico, falar que gostou de algo do Paulo Coelho. Lembro que fui obrigado a ler Memórias de um Sargento de Milícias pra uma apresentação e achei um porre, enquanto Veronica Decide Morrer ficou marcado e gosto até hoje (apesar de não ter relido) do que ficou na memória. Ler sem culpa, ficar nessa virtude do meio.

  2. Fabio D'Oliveira
    29 de agosto de 2015

    Sou um simpatizante do Taoísmo. E realmente a virtude se encontra no meio. O equilíbrio e a harmonia são extremamente importantes.

    No final das contas, o fator mais importante é não cair nas armadilhas do preconceito.

  3. Carlos Henrique Fernandes Gomes
    6 de agosto de 2015

    Tô lendo um interminável Marcel Proust, A Prisioneira, o 5º livro de Em busca do tempo perdido. Fiquei um tempão sem escrever nada, aí deu vontade de voltar e não foi por causa de nehum clássico. Trabalho com estagiários do nível médio (Ensino Médio) e foi uma estagiária que me indicou o filme “A pele que habito”, aí fui atrás do livro do qual o filme é adaptado, “Tarântula”, do Thierry Jounquet, que nem é tão antigo assim, depois ela me emprestou o livro “Dias perfeitos” do jovem Rafael Montes. Não foram os clássicos que me trouxeram de volta. Sou influenciado diretamente por Machado de Assis e Érico Veríssimo no sentido de tentar tornar o personagem humano e crível e tento, também, contar causos “datados de hoje”. Aí preciso saber como se fala hoje, quais termo funcionavam ontem e não funcionam hoje, como contruir uma frase que não seja “piegas” hoje e que nos clássicos elas soam como expressões clássicas. Essas coisas assim. As novas gerações tem a tendência de basearem-se nos clássicos de hoje. Um bom exemplo disso são os fãs do Iron Maiden: os que acham que Iron Maiden de verdade só existiu nos anos 80 e os que acham que Iron Maiden de verdade é aquele do disco Fear of the Dark (1992) em diante. E ainda tem a geração que conhece o Iron Miden após o disco Brave New World (2000). Mas achar o disco The number of the Beast (1982) fraquinho é demais. É bem do jeito que o Gustavo falou da preguiça da nova geração em buscar os clássicos. Depois que tomei contato com a pluralidade dos desafios, isso ficou bem nítido e minha necessidade de mudança apareceu. Acredito que o Gustavo ofereceu um bom caminho do meio no seu artigo. Muito obrigado por lançar luz à penumbra desse meu dilema.

  4. Fabio Baptista
    6 de agosto de 2015

    Não aos reacionários! É o que sempre digo! 😀

    Entrarei numa maratona de clássicos. Não sei como ficarei depois disso.
    Não virando um chato de galochas, já está bom.

    • rubemcabral
      6 de agosto de 2015

      Poderá então usar citações dos clássicos em festas:

      “Como diria Proust, para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras.”

      Aí, é só praticar uma risada que equilibre erudição, despeito pela humanidade ignorante e um tanto de excentrismo. Daí é só jogar a rede e seguir para la garçoniere…

      • Fabio Baptista
        6 de agosto de 2015

        Tudo isso pra pegar a garçonete? kkkkkkkkkk

      • Carlos Henrique Fernandes Gomes
        6 de agosto de 2015

        Acho que com um papo desse você consegue pegar a garçonete e mais alguém também. Mas acho que o Rubem tá falando de outra coisa; parece que ele tá falande de um lugar. Mas dica que ele deu é como dançar conforme a música, mas precisa saber dançar.

      • Fabio Baptista
        6 de agosto de 2015

        Não presto pra dançar… 😦

        E confesso que tenho uma quedinha por garçonetes. 😀

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Informação

Publicado às 12 de novembro de 2014 por em Artigos e marcado .