EntreContos

Detox Literário.

Filme de rola (Rodrigues)

Passo desajeitada pelas ruas e sei que aos poucos elas vão esvaziar. Dou uma, duas, três voltas pelo quarteirão.  Os gatos pingados e pombos espreitam a entrada. As sombras caminham, o povo vai de cama, um lenço sujo de catarro voa. Amuleto dourado da sorte, a benzina pinga, respinga, brilha na barba do mendigo velho deitado no chão. O neon pisca, viro na fila, passo pelos vagabundos. Tem o magro, tem o forte, tem o gordo e tem até aquele que parece o Mick Jagger. Estão falando sobre as esposas e os carros e os pintos. É, eles estão discutindo sobre os pintos dos travecos que comeram. “O pinto grande dá medo, mas o pinto menor se vinga por ser pequeno e você passa dia sentindo as cicatrizes. Os pequenos são os piores”.

As notas que dei são gastas, escorrem pelo guichê e a garota lá de dentro me diz, “você de novo?”. E dá uma risadinha. O cartaz mostra uma ex-chacrete. O nome do filme é “A Boceta de Duas Cabeças”. Assim que desço as escadas, sinto o eco dos meus passos. Alguém me persegue. Cheiro de perfume barato.

A gemeção contínua, o ofegar constante, a pele exposta, molhada no escuro, os tragos de cigarro, barulhos de isqueiro – são nossa trilha sonora. No grito da atriz, na explosão do gozo falso na tela, me perco entre as imagens do projetor. Abaixo, acendo um fósforo na poltrona, sento na do lado. Entro na manta de prazer a anonimato do cinemão.

*****

Estou há horas nessa cadeira frouxa e minha bunda já está doendo. Para cada um que passa, digo, “você de novo?”. E sorrio. Conto dinheiro, dou troco, troco algumas palavras, ouço bobagem. Nenhuma dessas criaturas consegue falar cinco frases sem algum tipo de perversão ou impropério e, quando conseguem, acabam cuspindo e estragam tudo.

O michêzinho fino vem rebolando e está com terno risca de giz. Fica ali, bunda colada no pilar, mexe na franja e solta sua fumaça esperando por algo.

Os pombos entram, espanto. Dizem que as pessoas que param para fumar sozinhas estão sempre esperando por algo. Eu vejo muitas pessoas esperando por algo nas janelas dos apartamentos, eu vejo as pessoas esperando por algo ao lado das bancas de jornal e ao lado do metrô e, às vezes, até mesmo sentadas no chão, despedaçadas na rua, ansiosas nos quintais, lavando seus carros ou vagando abaixo das marquises do centro. Passo troco, entrego o bilhete. Abro meu livreto de cruzadinhas. Esperança vã? Divagação? Tem oito letras. D. Hummmm. D-E-V-A-N-E-I-O.

*****

Inclino o banco pra trás e, sem querer, meto o pé em quem está na frente. Não consigo me desculpar, um líquido voa no meu braço direito e a sombra gritante vai embora. Cheiro, parece vinho. A caça continua. Meu perscrutador está sentado a algumas poltronas na fileira de trás. Percebe que hesito e chega manso, como quem não quer nada, pro meu lado. Um feixe roxo no ar revela uma cabeça ruiva e a jaqueta de couro. Os pêlos parcos da barba envolvem o batom e raspam minha orelha enquanto o hálito doce me esquenta a cara. A pergunta vem com a naturalidade de quem pede uma Bic: “quer uma chupada?”.

Abro as calças, ele pula a fileira e chega as unhas pertos do meu rosto. Está bêbado, fala grogue, a boca balbucia. É que ele pintou de preto as unhas na semana passada e essa semana de amarelo-fuzuê. “Vê só esse nome, amor, amarelo-fuzuê!”. E pergunta se eu gosto enquanto me aperta de olhos cansados.

Puxo o pino do bolso, abro no dente, cheiro até o final. O cérebro chia, o olho baila no asfalto lustrado pela água. A peruca vermelha some entre as cadeiras. Seu som, agora, mistura-se ao barulho da tela e ao da dupla ao lado, e ao da dupla ao outro lado e, se mal vejo, ao do trio da primeira fila e dos retos que se tocam no banheiro e nos corredores. Estou alucinando.

*****

O rosto das crianças está azul, condensado e sorridente e alguns deles me lembram até mesmo os olhos vivos daqueles garotos de rua drogados do centro depois que cheiram cola ou pipam o crack na lata. O cinema, a mentira, de alguma forma, os embriaga.

No fundo negro que se posta por trás dos rostos conjuntos, que muito lembram o quadro de Tarsila do Amaral, “Operários”, há uma profundidade necessária, uma linha divisória que salienta e amplifica a imersão infantil. As palminhas que por vezes batem involuntariamente no espaço mostram o quanto estão mexidos e o quanto gostam de estar ali. E não só da doçura vive a cena. Ao canto, alguns garotos que aparentam um pouco mais de idade estão alheios à peça, discutem a melhor forma de realizar uma picardia. No limite entre meus devaneios e a dura realidade de estar sozinha aqui, identifico-me com eles, mas não estou contrária à situação. Crianças lutam melhor pelas coisas do que nós. E no contraponto entre viver e apreciar o show de fantoches, fica clara a opção do cineasta pelos que escolhem coisas mais intensas do que uma sala escura. Ele mesmo, um enfant terrible.

Perdida em minha depressão, viajo comigo, ainda com a cara murcha, cabisbaixa – as crianças abandonando-me o pensamento – que esse lugar é uma amálgama de tudo isso. A torta mistura entre arte – remédio para solidão (e disso, aqui, todos entendem bem) – e o prazer da vida.

*****

Deixo a bilheteria. Abro caminho, reverencio a tela, passo pelas laterais que levam ao banheiro. Um corredor polonês de mãos e dedos toca e mede os pedaços do meu corpo. Empurro a porta e sinto o cheiro de cândida. Um velho sai de uma das cabines fechando a braguilha. Ele passa a mão no jeans, a sombra da barriga esconde as manchas do tecido. Ele olha pra mim e diz, “você pode me dar aqueles filmes velhos de rolo?”. Eis mais um nerd pornô. “Aqui não tem filme de rolo, amigo, só tem filme de rola!”.

Viro, volto à bilheteria. Assim que acabar a chacina lá dentro, quando todos já tiverem molhado todos com suas pistolas de plástico, o rolo vai estalar, a mão suada vai abrir a porta e o cheiro vai exalar cidade afora.

Em um universo de perversões maiores, a minha não é quase nada e eu adoro estourar as luzes amarelas na cara dos meus amados – e necessários – pervertidos. Me assanho toda deslizando a alavanca da sala de força pra cima. Bum. Eles demoram a assimilar o fim e, como as baratas do assoalho, caminham tontos.

Ligo o rádio. O meu filme é repetitivo e começa sempre atrás do vidro da sala de projeção. O último perdido já voltou à poltrona e, assim como todo o resto, olha fixamente pra tela em branco. Retiro o rolo, um dos poucos ainda em condições, e guardo. Há vários deles mofando no chão.

O locutor policial pigarreia e vai ticando as notícias do dia. Assassinatos, estupros, assaltos. Aos poucos, a sala vai perdendo a cor e o brilho dos vestidos floridos – alguns até combinam com as estampas antigas das paredes!

As bichas velhas e novas e os travestis e michês e crossdressers buscam não se encarar – com carinho – pois sabem que a rudez das imperfeições dos corpos irá se apagar na próxima sessão. Uma coisa é certa, aqui não tem mulher nem rei, mas também não tem bonito nem feio.

Carimbo as caras novamente para que amanhã eu possa dizer, “você de novo?”. Depois de tudo, quando abaixo as portas, vejo um travesti alto – dois metros, por aí – cabelo liso caindo na cintura. Ele tem uma perna só e pula entre as poças d’água na direção da janela de um carro. E eu que achava que já tinha visto de tudo.

 

*** Baseado no filme “La Chatte à 2 Têtes” (Porn Theater), de Jacques Nolot, e no folclore sobre os cinemões do centro de São Paulo.

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35 comentários em “Filme de rola (Rodrigues)

  1. Wender Lemes
    17 de novembro de 2014

    Excelente. Escrita impecável. O cenário condiz com a proposta do tema e as descrições são ácidas e precisas. Abusou da estética (o que é um elogio ao conto, de maneira geral, e uma crítica a alguns pontos que achei “forçados”, mas aceitáveis). Parabéns e boa sorte.

  2. rubemcabral
    17 de novembro de 2014

    Muito bem escrito, em especial quanto à ambientação: opressiva, deprê, suja. O leitor se sente num cinema pornô vagabundo e malfrequentado, hehe.

    Fiquei na dúvida quanto ao narrador: ele é um travesti? Fala de si mesmo no feminino, mas não imagino uma mulher se metendo numa roubada destas, e há a cena da felação e tal…

    • kelly
      17 de novembro de 2014

      Oi, Rubem. É uma travequinha, sim. Valeu o comment, abraço por trás. ; ***

  3. Sonia Regina
    16 de novembro de 2014

    Um texto descritivo. A técnica descritiva está perfeita. Não considero conto, no entanto. O resumo do texto: o submundo é assim.
    cadê o enredo? Cadê o problema, a sequência de acontecimentos, a trama?
    Acho que é uma excelente introdução para uma história, falta escrever a história.
    E, afinal, não está claro quem é o narrador – ou é uma maneira de introduzir o leitor no texto? E ele que imagine quem quer ser?

  4. Gustavo de Andrade
    16 de novembro de 2014

    Este conto é dionisíaco!
    Estou incomodado. Me sinto incomodado e sujo com este conto, e isso se deve somente à excelência de quem o escreveu. Uau, uau!
    No lado negativo, sei lá… a proposta do texto é ser do jeito que é. Não o dou nota máxima porque não acabou me oferecendo algo exatamente novo, ao meu ver, e porque percebi um impacto na primeira metade que não se manteve. Mas, parabéns!!!

  5. Andre Luiz
    16 de novembro de 2014

    Primeiramente, meus critérios complexos de votação e avaliação:
    A) Ambientação e personagens;
    B) Enredo: Introdução, desenvolvimento e conclusão;
    C)Proposta: Tema, gênero, adequação e referências;
    D)Inovação e criatividade
    E)Promoção de reflexão, apego com a história, mobilização popular, título do conto, conteúdo e beleza e plasticidade.
    Sendo assim, buscarei ressaltar algumas das características dentre as listadas acima em meus comentários.
    Vamos à avaliação.

    A)Kelly é uma exímia narradora, com imperfeições na fala de tal forma que dá a impressão de ser o mais realista e natural possível. Para ela, aquele ambiente era normal, tradicional. Sendo assim, os travestis e senhores que passavam por ali eram mais “uns” e não “aqueles”. Trazer o impossível ao real assim é uma dádiva.

    B)Quanto ao enredo, parece mais uma crônica, contudo, é uma nova perspectiva de conto. Sendo assim, prefiro não comentar.

    Considerações finais: Produziu uma reflexão e chocou dentro do possível. Gostei desta passagem:”As bichas velhas e novas e os travestis e michês e crossdressers buscam não se encarar – com carinho – pois sabem que a rudez das imperfeições dos corpos irá se apagar na próxima sessão. Uma coisa é certa, aqui não tem mulher nem rei, mas também não tem bonito nem feio.” Isto tudo completa uma revolução que é necessária no cenário brasileiro. A semana de 22 já rompeu, amadureceu e reconstruiu. Porém, a mudança do século foi terrível para a literatura brasileira e retornamo-nos à decadência. Logo, um texto como o seu me motiva a acreditar; precisamos de você. Agora não é hora de repudiar o estrangeiro e nem galgar nosso discurso no regionalismo, mas sim reinventar a forma como vemos tudo isto. Belo conto. Parabéns e sucesso o concurso!

  6. Gustavo Araujo
    16 de novembro de 2014

    Ao ler um texto como este fico com a mesma admiração hiperbólica causada pelo “Correndo de Novo sobre a Lâmina”. Inveja do autor. Eu jamais serei capaz de escrever assim, jamais conseguirei captar a essência poética do mundano, das pessoas anônimas com seus pequenos segredos e pecados. Lembro que no centro de Curitiba havia um cinema que um dia fora famoso por passar filmes de primeira linha. Anos depois a decadência o atingiu e inevitavelmente, para não fechar as portas, os donos se viram obrigados a aderir à programação pornô. Os personagens que passaram a frequentar o estabelecimento eram dignos deste conto. Gente comum, operários, office boys, travestis, que procuravam naqueles momentos, na hora do almoço por vezes, um momento de prazer efêmero num ambiente repleto de sombras que lhes garantia a invisibilidade. Este conto é bom por causa disso: fala de algo que acontece ainda hoje, a derrocada dos grandes cinemas em detrimento dos complexos que se instalaram em shoppings e a sua luta para sobreviver apelando, ou melhor, buscando na pornografia sua tábua de salvação. E o mais interessante, essa abordagem é feita de maneira inteligente, sem jamais se entregar aos estereótipos ou à argumentação barata. Uma habilidade de dar inveja mesmo, como eu disse no início. Não é um conto, a meu ver, mas um retrato fiel, ao mesmo tempo triste e engraçado da realidade dos cinemas de nossos centros decadentes, por conta dos diversos pontos de vista envolvidos. Parabéns ao autor.

  7. Thiago Mendonça
    14 de novembro de 2014

    Olha, gostei bastante do que li. Um conto que preza menos pela trama e mais pelas sensações e ambientação. Vi alguns comentários aqui que diziam que o conto pecou pela falta de trama, mas comigo funcionou bem. Técnica muito boa e abordagem do tema bem irreverente e competente. Parabéns!

  8. JC Lemos
    14 de novembro de 2014

    Olá, tudo bem?

    Conto bom, hein!
    Gostei de como você deu textura, cheiro e sons para as palavras. O tema cru e sujo também contribui, além da qualidade narrativa inegável do autor.
    Certamente ficará junto dos contos acima da média.

    Valeu a pena pela leitura do conto, e do relato do FB. hahahaha

    Parabéns pelo excelente trabalho!
    Boa sorte!

  9. pisciez
    13 de novembro de 2014

    Temos aqui um escritor já bem versado e experiente. O texto está impecável. Não vi o filme mas nem por isso deixei de apreciar o conto. A realidade nua e crua é tal que as vezes quase sinto os odores descritos no texto.

    É um conto e tanto. Parabéns!

  10. Anorkinda Neide
    13 de novembro de 2014

    Um texto muito eficiente, embora tb nao ser de meu gosto uma linguagem tão crua, mas tem seu público.
    Só nao entendi a passagem das crianças de rostos azuis.
    O conto é, como disse, eficiente em mostrar esse lado monocromático, desesperançoso da vida, uma narrativa pesada que demonstra uma reflexão sobre o derrotismo sem precisar de parágrafos chatos de dissertação.
    Parabens

  11. Brian Oliveira Lancaster
    12 de novembro de 2014

    Meu sistema: essência. Pareceu uma homenagem àqueles velhos filmes brasileiros, quando o cinema daqui era conhecido somente por isso e seus “poréns”. Não gosto deste estilo, mas não fui influenciado por isso. Escrita limpa e concisa, um humor sarcástico acima da média. Apesar de ser quase uma crônica de um cotidiano incomum, senti falta de um final mais impactante. Foi divertido, mas acabou de repente.

  12. Fil Felix
    11 de novembro de 2014

    Acho que sua narrativa acabou me deixando dentro de um cinemão ali da República/ Anhangabaú hahaha Em relação às descrições, estão perfeitas. Nos meus 20 anos já cheguei a ir num desses cinemas, mas quando são utilizados pela Virada Cultural. E a sensação de estranhamento, de imaginar o que rola no ambiente é demais kkk Mas nunca cheguei à ir ver um pornô.

    Adoro o centro de São Paulo e suas ruas escuras, com neons e grupinhos reunidos. Deve ser por isso que tive uma ligação maior com seu conto. Pelo recurso utilizado (narrar o ponto de vista de duas personagens), tenho uma suspeita de quem seja a autora, porque acho que já falei isso num conto anterior.

    Gostei do realismo utilizado, de ter falado das tribos que frequentam o lugar, mas sem parecer preconceituosa, vulgar, denigrir ou julgar a imagens desse pessoal. Só acho que ficou muito um “recorte” de um momento, sem muito o que se falar. Mas gostei.

  13. Willians Marc
    10 de novembro de 2014

    Conto muito bem escrito e com cenário bem construído. Porém, apesar de ter uma técnica quase impecável, acredito que faltou um clímax para fechar o conto com chave de ouro, essa é a unica coisa que eu poderia sugerir como melhoria. De qualquer forma, a ausência de clímax pode ter sido escolha do autor, se for uma opção, então não está mais aqui quem falou.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  14. Eduardo Selga
    9 de novembro de 2014

    A ambientação está bem construída. Dentro do cinema, a movimentação das sombras, os corpos apenas entrevistos, a “agarração”, o gesto instintivo de os homossexuais evitar se encararem sem a proteção da sombra; fora dele, a noite, os mendigos, neons, drogados, prostituição.

    A narrativa deu conta dessa atmosfera. Mas os eventos não se amarram entre si de modo firme, a trama é frouxa. Além disso, a mudança de narrador (recurso difícil de ser usado com felicidade) nem sempre é imediatamente perceptível, pois os narradores têm a mesma “dicção”. Isso significa que, na prática, o que temos é apenas um narrador, subdividido por um artifício. Isso causou certa confusão.

  15. Claudia Roberta Angst
    8 de novembro de 2014

    Conto muito bem escrito conduzindo o leitor com um “lanterninha”´pelos corredores imundos da sala de cinema. Promíscua sensação, a narrativa revela detalhes sórdidos, bem realistas. Bom trabalho, embora não tenha me cativado. Boa sorte.

    • kelly
      17 de novembro de 2014

      ainda vou te cativar… ; ***

  16. Fabio Baptista
    7 de novembro de 2014

    ======= TÉCNICA

    Excelente. Encontrei somente um “pêlo” (literalmente) em ovo dessa vez (e não sei se esse foi o melhor trocadilho para se usar depois da leitura desse conto :D).

    Conseguiu transmitir muito bem a atmosfera suja e pecaminosa do centro de São Paulo.

    Mas, gata… achei que o estilo mudou durante a narrativa, o que não encaixou muito bem (ui!). A troca de narradores não ficou muito bem definida (apesar do “********”) e a parte em que a personagem entra em devaneios a linguagem ficou um tanto rebuscada, não combinando muito com o restante e quebrando um pouco o clima.

    ======= TRAMA

    Meu, na adolescência confesso que tinha muita curiosidade e pouca coragem de conhecer esses “lendários” cinemas. Fui uma ou duas vezes até lá depois da escola e ficava rodeando um ali perto da galeria do rock onde você podia assistir 3 clássicos da sétima arte, como “Ninfetas em fúria – parte 69”, “Com o diabo no rabo 5” e “Putaria nas estrelas – as vadias contra-atacam” (Star Wars, sempre uma referência!).

    Mas me lembrava dos escárnios dos colegas quando comentava sobre o assunto – “quer ir lá fazer o quê? Só tem ‘viado’ naquela porra, jacaré!” (Meu apelido era Jacaré, por causa de uma vez que… bom, deixa pra lá – mas só adiantando, não tem nada a ver com “rabo”). Eu pensava – “caramba, o que os ‘viados’ vão querer fazer no cinema que não passa filme gay?”, e pensava também como meus amigos sabiam qual tipo de público frequentava o estabelecimento… kkkkkk. Enfim, o fato é que eu acabava no cinema do lado, assistindo a sessão Kung Fu (três filmes do Van Dame pelo preço de um). E à noite sonhava com as ninfetas furiosas, que jamais me permiti conhecer na tela grande.

    Pensei que esse tipo de lugar nem existia mais, mas esses dias fui até a Santa Ifigênia e acabei passando em frente a um “teatro” ali na Ipiranga. Uma das “atrizes” (que parecia Felícia, mas que não seria muita surpresa se na “hora H” se revelasse Feliciano) estava à porta, “divulgando” o local. Não senti a menor curiosidade de entrar e concluí, não sem uma certa dose de tristeza – “puta que pariu, estou ficando velho mesmo”. Cruzei a Rio Branco e logo estava voltando pra casa, com dois controles do Wii U na sacola.

    Bom… desculpe pelo devaneio saudosista, gata!

    Sobre a trama, infelizmente acho que não teve quase nada de história sendo contada aqui. Foi apenas um recorte na vida da(s) narradora(s)/protagonista(s), um dia qualquer, sem nada especial dentro de sua rotina (que para o cidadão “comum” pode parecer muito diferente, mas para ela(s) era só – rotina!).

    Faltou um fio condutor, algo para prender a atenção além da voluptuosa narrativa.

    ======= SUGESTÕES

    – Deixar a narrativa uniforme, sem perder aquela pegada inicial (não pode deixar o relacionamento esfriar, amor!)

    – Definir melhor quando um narrador entra e outro sai (ui!!! kkkkkkkk). Talvez um italicuzinho resolvesse, tipo “Na bilheteria…”, “Na rua…”, “No cinema…”.

    – Tentar elaborar ao menos o esboço de um enredo com começo / meio / fim.

    ======= AVALIAÇÃO

    Técnica: ****
    Trama: **
    Impacto: ****

    • kelly
      7 de novembro de 2014

      opa, fabio, legal o relato. da próxima vez não fique acanhado. te esperamos de braços abertos. kkkkkk

      • Fabio Baptista
        7 de novembro de 2014

        kkkkkkkkk

        Agradeço o convite, mas já passei da idade…

        Fica pra próxima encarnação kkkkkkk

  17. simoni dário
    7 de novembro de 2014

    Gostei, e também senti o asco relatado nos comentários. O autor tem talento, envolve, caracteriza bem personagens e ambiente. Li todo o texto percebendo um cenário meio cinza, úmido, tanto que essa parte me chamou atenção: “Aos poucos a sala vai perdendo a cor e o brilho dos vestidos floridos – alguns até combinam com as estampas antigas das paredes!” Me agarrei nela, queria cor viva e cheiros bons, mas sabia que não viriam: “Alguém me persegue. Cheiro de perfume barato.”
    Muito bom.
    Parabéns e boa sorte!

  18. Leonardo Jardim
    7 de novembro de 2014

    Gostei bastante, é um conto sensorial. Ativa todos os sentidos, incomoda e passa bem o clima “inferninho” que deve ser esse tipo de cinema.

    O único defeito que encontrei (e parece que incomodou por enquanto só a mim) é que eu me senti desconfortável com as mudanças nos narradores. Deu para ver que eram pessoas diferentes, mas confesso que não sei quantas foram no total. Tirando a mulher da bilheteria, não sei se outros narradores voltaram em algum momento. Já que estou no confessionário, não consegui entender o ato com as crianças de rosto azul. Reli mais uma vez e pode ser total ignorância minha, mas não peguei 😦

    Apesar desses pontos, que podem ter sido mais problema meu que do conto, gostei muito. Parabéns!

    • kelly
      7 de novembro de 2014

      eai, amigo. essa parte das crianças é mera alucinação da louca e foi inspirada numa cena dum filme do Truffaut. coisa de gente metida. as natradoras dão duas, a bilheteira – dona do antro – e a cliente. valeu!

      • Leonardo Jardim
        7 de novembro de 2014

        Olá. Agora que me explicou, li o conto novamente e entendi tudo. Bom, ainda bem que o Fábio tb estranhou, pq eu já tava me sentindo tapado rs

  19. Virginia Ossovsky
    7 de novembro de 2014

    Adorei o clima do conto, concordo que desperta vários sentimentos, apesar de nem sempre gostar deles. O tom da narradora chega a ser divertido em várias partes, principalmente no final. Gostei muito, boa sorte.

  20. Wallisson Antoni Batista
    7 de novembro de 2014

    Sujo, embaralhado, sem pudor. Que belo conto. Embora tenha alguns erros, a narrativa foi extremamente bem elaborada. Parabéns Escrito(a).

  21. daniel vianna
    7 de novembro de 2014

    Sujo, triste, cínico, porém bem narrado. Não entendi a expressão ‘o povo vai de cama’, no início. Sucesso.

    • kelly
      7 de novembro de 2014

      desculpa o erro, gato. era o povo cai de cama.

      • daniel vianna
        7 de novembro de 2014

        Tudo bem. E valeu pelo gato. A propósito, sujo e triste aqui são elogios, viu? (porque usei o porém depois), ‘tipo assim’ Apetite para destruição, entende? Sucesso.

  22. Jefferson Reis
    7 de novembro de 2014

    Um dos meus favoritos até o momento.
    Concordo com o comentário de Maria Santino: o conto realmente desperta sentimentos de solidão, sujeira, tristeza, agonia, desesperança. Mas também despertou em mim um sentimento de entrega e até mesmo certo orgulho. Parece-me que a protagonista sente orgulho por ter coragem de viver sua “perversão”.

    Não assisti ao filme, mas isso não me atrapalhou sentir a atmosfera densa e pesada que a narrativa oferece.

    Parabéns, autor(a).

  23. Maria Santino
    7 de novembro de 2014

    Olá!
    Caramba, que coisa! Eu também senti um cheiro de cândida daqui com sua (Ótima) narrativa. Senti agonia, frio, sujeira, solidão, desesperança, tristeza, cinismo em tudo o que você me ofereceu. Um lance meio noir que me agradou demais. “Entro na manta de prazer a anonimato do cinemão.” Essa construção é muito boa, (só precisa retirar esse “a” que está sobrando, aí e colocar o artigo masculino, pois mantra é masculino, não?). Gostei das imagens, cores e sensações. Esse cine aí é daqueles que se tem de andar com sapatos com travas de alpinista (se é que me entende)
    Boa sorte e parabéns!

    • kelly
      7 de novembro de 2014

      desculpa, gatinha. erros de revisao. beijo gostoso pra VC. ui

      • kelly
        7 de novembro de 2014

        maria. é manta mesmo, a manta de dormir
        . bjinhos cheirosa

      • kelly
        7 de novembro de 2014

        ,”entro na manta de prazer e anonimato do cinemao” .

      • Maria Santino
        7 de novembro de 2014

        E aí? Beleza? Então, meu olhos me pregaram uma peça. Acho que eu quis que fosse Mantra de prazer 😦 mas, o que foi oferecido deu ares realísticos e ao mesmo tempo insólitos (eu gosto disso).
        Abraço!

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Publicado às 6 de novembro de 2014 por em Filmes e Cinema e marcado .