EntreContos

Detox Literário.

Reflexo da Escuridão (Amanda Leonardi)

A escuridão pode ser algo complexo, de fato; porém é ao mesmo tempo bem simples. É desta matéria que todos somos feitos, de sombras. Entretanto, quando respiramos, adquirimos a estranha ilusão de ver imagens que distinguimos através do que chamamos cores, mas que não passam de simples reflexos causados pelos nossos olhos no que é na verdade um universo feito de sombras. Mesmo onde imaginamos haver luz, ainda pode haver sombras, causadas seja por uma árvore, um ser humano ou até mesmo um minúsculo inseto. As sombras rondam a luz, mas onde há só escuridão, não há luz alguma. A escuridão engole tudo que para de respirar, seja vivo ou morto – sim, mesmo vivo, pois a escuridão engole as almas de muitos vivos que já não respiram por vontade própria, mas por um simples mecanismo que para eles torna-se irritante e é como se tivessem parado de respirar a vida para simplesmente agüentar o fardo de existências perdidas. Portanto, alguns de nós (quero acreditar que não são todos!), mesmo que ainda tecnicamente vivos, já fomos tomados pelas sombras antes mesmo do fim do funcionamento de nossos pulmões. E é assim que a essência da vida torna-se morta dentro de corpos vivos. Assim que nos tornamos sombras frias, presas em olhos opacos e sem forças. E foi isso que acredito ter visto no espelho. A sombra que virei. Deixe-me contar com calma.

Tinha um espelho em um quarto de um hotel que certa vez visitei. Lembro-me de ter ido passar alguns dias neste hotel no campo para tentar me afastar de mim mesmo, depois de uma longa internação em um hospital psiquiátrico e pulsos já cicatrizados. Minha família achou que eu precisava respirar algum ar puro, eu saí do hospital sem me lembrar de quase nada que me ocorrera, não claramente. Era como tentar rebobinar uma fita de um filme antigo, cheio de cenas em câmera lenta em que as palavras ditas por todos ao meu redor mal eram ouvidas e então era tudo como uma janela embaçada de um trem correndo por uma noite escura e chuvosa. Só tontura, escuridão e fraqueza. E sono, muito sono. Meses de sono intenso e medicações. Eu já era uma sombra então e tudo parecia cada vez menos real. Será que algum dia algo já foi real? Não sei, mas sei que eu não era mais real. Uma sombra apenas, em meio a um universo sombrio. Cheguei no hotel sozinho, pela manhã. Era uma manhã fria e ensolarada. Eu realmente precisava tentar respirar algum ar puro, apesar de odiar respirar. O ar parecia me trazer de volta à vida, se é que tal feito era ainda possível, mas o reflexo espelho contradizia tal hipótese.

Parecia tudo tão real. Mas entrando no quarto do hotel, um pensamento agudo e gelado me atravessou a mente: livros e filmes também parecem reais, tudo pode parecer real, mas o que é real ou não é algo que nunca compreendi. Tudo isso, esse mundo todo pode ser uma obra de ficção gigante, assim como as que lemos e escrevemos. Como provar que não é? Mas parecia real, eu me sentia vivo novamente ao sair do hospital sem muitas memórias das crises passadas além daquelas registradas nos pulsos. Queria esquecer quem fui e quase conseguia, até aquele maldito espelho me lembrar. Ao ligar a luz do quarto do hotel vi a moldura de um espelho grande, de tamanho de corpo inteiro – caberia uma pessoa dentro daquele espelho – sua moldura era antiga, de um dourado enferrujado e com detalhes esculpidos à mão. Ao ligar a luz, o quarto todo se coloriu com uma luz amarela. Todo o quarto menos o espelho.

A moldura emoldurava escuridão. Não algo que pudesse parecer um quadro preto ou uma pintura, não: era escuridão pura e densa, como uma nuvem negra e gelada, que permanecia no que devia ser um espelho. Era como olhar para o nada, para um buraco negro, sentia que minha visão poderia desabar dentro daquela escuridão como se estivesse em frente a um abismo infinito do qual a queda seria a mais agonizante possível. Não sei por quanto tempo fiquei observando o reflexo das sombras, mas sei que após algum tempo, alguém acendeu a luz lá dentro do espelho. Era eu mesmo. Vi os meus olhos brilhando dentro da minha imagem no espelho, olhando fixamente nos meus olhos reais. O meu reflexo era pálido, mas os olhos eram mais vivos do que os meus. A imagem movia-se diferentemente de mim e tinha uma expressão diferente também, um sorriso indecifrável que poderia ser tanto maligno quanto de alegria pura. A visão de meu próprio reflexo movendo-se me fez entrar em estado de choque. Desmaiei. Ao acordar, ainda via meu reflexo, mas este estava caído no chão, com pulsos vermelhos e líquidos e olhos abertos onde nada além de sombras abismais olhavam de volta para mim. Já me removeram desse quarto há muito tempo, mas aqui permaneço ainda – no reflexo de mim mesmo.

9 comentários em “Reflexo da Escuridão (Amanda Leonardi)

  1. Joice22
    26 de setembro de 2014

    O autor do texto expõe que “adora escrever de modo introspectivo”.
    Estabelecendo nexo entre o fragmento “A escuridão pode ser algo complexo” e o restante do texto, é possível afirmar que o meio e o fim deste retomam e afirmam aquele.
    Quanto ao trecho “Ao ligar a luz, o quarto todo se coloriu com uma luz amarela […]”, essa cor, segundo alguns, significa desespero.

  2. Claudia Roberta Angst
    31 de agosto de 2014

    Viajei no seu conto, nesse contraste de luz e sombra, real e fantasia. Os parágrafos estão um tantinho longos, mas as frases possuem um bom tamanho.
    O primeiro parágrafo pareceu-me didático demais, mas depois compreendi que se trata de uma introdução `a trama.
    Gostei da imagem criada com: ” A moldura emoldurava escuridão” mesmo com a repetição do radical. Também apreciei “com pulsos vermelhos e líquidos”. E o final foi particularmente rico em imagens de forte impacto. 🙂

    • amandaleonardi23
      31 de agosto de 2014

      Muito obrigada, Claudia! Que bom que você gostou, eu adoro criar imagens de impacto mesmo.
      Sobre o primeiro parágrafo, cheguei a achar também que tinha me perdido um pouco, mas depois notei que muitos contistas fazem isso na introdução, de explicar o tema do conto antes de contar a história, então achei interessante deixar assim. 🙂

  3. José Leonardo
    30 de agosto de 2014

    Muito bom, e principalmente pela bem elaborada introdução ao tema ocupando o primeiro parágrafo. O estado psicológico do personagem (e sua percepção do que está em volta) chamaram minha atenção. Uma prosa admirável, voltada sempre e mais para dentro. Parabéns.

    • amandaleonardi23
      31 de agosto de 2014

      Muito obrigada, José Leonardo! Fico muito feliz que gostastes! =D

  4. Brian Oliveira Lancaster
    29 de agosto de 2014

    Gostei do tom intimista e com um pé no terror, sendo, por fim, suspense. Não quero ser chato, mas creio que alguns parágrafos podiam ser divididos, para melhor entendimento. Alguns me faltaram “fôlego” para compreender todo o contexto. No mais, muito bem escrito e divagador. Não é meu gênero preferido, mas se envolve elementos psicológicos, me chama a atenção. E você o fez aqui. Curti!

    • amandaleonardi23
      31 de agosto de 2014

      Muito obrigada, Brian! Que bom que gostou, adoro escrever contos mais psicológicos assim, mas tenho mania de usar parágrafos mais longos, preciso melhorar isso mesmo. ^^

  5. Anorkinda Neide
    28 de agosto de 2014

    Olá Amanda
    é um mergulho na mente perturbada do rapaz.. a gente vai junto… rsrsrs
    Até estava achando o primeiro parágrafo reflexivo demais, mas ao perceber que tratava-se do pensamento do protagonista, encaixou perfeitamente.
    Este relato se daria em algum momento de semi-lucidez? Assim me parece…

    Em termos de escrita mesmo, eu acho que uma frase assim, com duas metáforas, fica imprópria, eu sugiro separar as comparações, uma em cada frase:
    “Era como tentar rebobinar uma fita de um filme antigo, cheio de cenas em câmera lenta em que as palavras ditas por todos ao meu redor mal eram ouvidas e então era tudo como uma janela embaçada de um trem correndo por uma noite escura e chuvosa.”

    Sem mais, abraço.. 🙂

    • amandaleonardi23
      28 de agosto de 2014

      Muito obrigada, Anorkinda! Que bom que gostou, o conto é bem reflexivo realmente, adoro escrever nesse estilo mais introspectivo. E sim, acho que pelo estado psicológico do narrador, pode-se dizer que é realmente um estado de semi-lucidez, faz sentido com o contexto da narrativa.
      E sobre as metáforas, vou editar a frase, realmente é mais interessante separar as metáforas, obrigada pela dica! ^^

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Informação

Publicado às 27 de agosto de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .