EntreContos

Detox Literário.

Amar É… (Rodrigues)

amaré

Carlão foi pra sala desconcertado. A mulher resmungava do quarto. Outro dia, manhã, lia as notícias do esporte. A esposa passou pra cozinha. Rápida, calada. A camisola, vulto fantasmal. Respeitosa carranca feminina. Ah, mas ele sabia que tinha dado uma gafe daquelas. E tinha que aguentar…

Segunda. Preparou um abundoso café da manhã pra esposa. Deixou um bilhetinho em cima da mesa, enrolado no papel crepom. Ao chegar no trabalho, notou que um novo funcionário tinha entrado no setor. O rapazote, loirinho e cheio de frases de efeito, estava sendo paparicado por estagiárias e faxineiras.

Retornou mais cedo pra casa, alegando uma insuportável dor de barriga. Passou na doçaria. Ao chegar, o café da manhã que preparou estava… Intocado! Chocho sobre a mesa. As migalhas do bilhete no lixo, o papel rasgado absorvendo o rosa do iogurte.

Terça. Carlão acordou mais disposto. O time do coração tinha goleado na noite anterior. Tudo bem, a esposa ainda não lhe dirigia a palavra, mas já ia perdendo um pouco da tromba. Ela deixou, até mesmo, suas torradas com requeijão quentinho em cima da mesa. Com esperança, escreveu outro bilhete (Agora vai, amor?) e deixou em cima de uma caixa de bombons.

Chegou do trabalho meio arrasado e tudo piorou quando viu a caixa de bombons no mesmo lugar, ainda lacrada. O bilhete em pedaços novamente no lixo, lambia agora um bagaço de laranja. Pegou o jornal de ontem, leu novamente as notícias do esporte, passando levemente os olhos pelos empregos e oportunidades. A mulher chegou, resmungou, passou da cozinha pro quarto. Ele tentou fazer uma velha brincadeira. Nada… Deitou-se ao lado dela. Mal dormiu.

Quarta. Arrastou-se à floricultura. Acabado logo cedo, câmera lenta, deixou um buquê de rosas amarelas. Outro bilhete (E agora, vai, amor?). Foi pro serviço. Ao abrir a caixa de e-mails: URGENTE – Reunião: quinta-feira ao fim do expediente. Tratar com Pereira. “Hummm… Reunião com a chefia?”.

Voltou pra casa cheio de caraminholas. Viu as rosas boiando num vaso. No lixo, nada dos pedaços do bilhete. Sentou, mas só ficou olhando as imagens do jornal. Leu o horóscopo. A mulher passou da cozinha pro quarto num monólogo ao celular.

Quinta. Acordou mais cedo, arrumou-se bem. “Se for pra tomar um pé na bunda, que seja com classe”. Deixou o anel em forma de coruja que a mulher tanto comentara um tempo atrás. E agora, vai, amor?– o bilhetinho persistia. Compareceu à sala do chefe. O novato sentado ao lado direito do Pereira, sorrindo. “Carlos Araujo, reconhecemos sua dedicação ao longo desses anos, mas…”.

É, ele seria “remanejado” pra outra unidade, longe, longe… Voltou pra casa mordendo-se de raiva. Cachorro louco, encarava o asfalto, grunhia aos passantes. Entrou, mal se lembrava do anel. Tacou o jornal pela janela. Uma mulher gritou. “Que se foda”, pensou. Atirou-se no sofá e dormiu ali mesmo.

Sexta. Acordou atrasado, saiu correndo. Sem tempo pra deixar nenhum agrado. Chegou suando no trabalho. Sua mesa já tinha sido trocada pra perto da porta… da rua. Maldição da mentira, estômago em sinfonia. Passou o expediente assim: da mesa pro banheiro e do banheiro pra mesa. Voltou quase morto. Zumbi suando frio pelas ruas. Quando abriu a porta de casa, levou um grande susto.

A mulher na sala, tremendo perplexa. Enrolada na toalha de banho, espuma caindo do cabelo desgrenhado às sobrancelhas. Fumaça caminhando entre os cômodos. Carlão foi ao banheiro. Um emaranhado de fios queimados. Olhou-se no espelho e sorriu loucamente. V de vingança. Como mágico, retirou sua cartola de ferramentas e trocou a resistência. Dessa vez, foi ele que passou do quarto pra cozinha calado. Da boca da esposa, um inaudível “obrigada”.

Religou a chave geral. Tudo funcionando direitinho. A mulher voltou pro banho. Enquanto a água gostosa lhe caía o corpo, Carlão entrou no banheiro e apagou a luz. Invadiu o box com roupa e tudo. Parou com o terno ensopado à frente da esposa. “Carlinhos!”. Segurou-a pela cintura fina. Voz grossa e firme: E agora, vai ou não vai, amor? Ela deu uma risadinha, torceu o rabo de cavalo. Deu as costas pro marido. E o cuzinho se abriu de tanto amor…

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9 comentários em “Amar É… (Rodrigues)

  1. Claudia Roberta Angst
    28 de agosto de 2014

    Eu, toda inocente, achando que o marido tinha aprontado algo grave como concordar com a mulher que ela está gorda e vem aí um final …rs. Tem sentido, embora seja tudo uma grande encenação. Mulheres só fazem o que querem, mesmo algumas fingindo ser uma grande concessão.E agora, vai ou não vai, amor? O mesmo que ” e aí, tem jeito?” Ficou engraçado, até meigo no diminutivo.

  2. Clair Glaucia castilhos
    27 de agosto de 2014

    Bem sem sal e nada que prenda ou desperte curiosidade do leitor

  3. Anorkinda Neide
    27 de agosto de 2014

    Já sabendo q és um ótimo escritor, pulemos esta parte..:P

    Historinha machista hein, parabéns! iuahuiha
    As mulheres trocam resistência de chuveiro hj em dia, e as preguiçosas como eu chamam um eletricista e o pagamento é em dinheiro!
    Achei que toda a situação problemática no trabalho do personagem, gratuita.. ou seria intenção de instigar no leitor uma certa pena do personagem?
    Ah.. eu já havia sacado a intenção do marido através do conteúdo dos bilhetes, conheço casais que passam por este tipo de campanha…
    Abraço

    • Rodrigues
      27 de agosto de 2014

      Oi, Anorkinda. Eu não tive a intenção de ser machista com esse conto. Se algo te ofendeu, peço desculpas.

  4. mariasantino1
    27 de agosto de 2014

    Caraca! rsrsr.

    Gostei bastante da tua narrativa, das palavras que você usa para centrar a trama. Me atraem caracterizações que não se baseiam só na descrição física. Gosto, sobretudo, do psicológico, e muito mesmo quando repassa o estado alterado do personagem, os sentimentos… Parabéns pelo conto! Só o fim que não foi legal pra mim, por gostar das coisas mais implícitas (besteiras que me tolhem, mas que nada tem a ver com seu texto). Um abraço!

    • Rodrigues
      27 de agosto de 2014

      Valeu, Maria! Abraço!

  5. Rodrigues
    27 de agosto de 2014

    Fala, Rubem! Valeu a leitura e comentário!

  6. rubemcabral
    27 de agosto de 2014

    Hahaha! Só você mesmo, Rodrigues! “cuzinho”!?

    Gostei bastante. Achei que a razão da briga do casal fosse outra, naturalmente. A marcação dos dias da semana, a degradação das relações sociais do Carlão, as descrições da rotina: achei que o conjunto funcionou muito bem.

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Publicado às 27 de agosto de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .