EntreContos

Detox Literário.

O que é o fim do mundo? (Weslley Reis)

As duas primeiras aulas da segunda eram minhas. Era todo o tempo que eu tinha na semana para ensinar geografia àquelas pestes. Uma hora e quarenta por semana. Claro que era uma estratégia falha, todos sabiam disso. Inclusive quem pensava o ensino. As ciências humanas ensinavam a pensar, segundo a lenda, e ninguém queria isso.

Acordei as 6:40 agradecendo aos deuses por morar na mesma rua do colégio. Mero costume, meu ceticismo não deixava brechas para fé. Escovei os dentes, joguei água no rosto e vesti uma camiseta qualquer. Mantive o moletom de dormir e a barba desgrenhada. Disparei outro “Graças a Deus” sem validade pelo estereótipo criado sobre professores de humanas. O que me fez lembrar dos tempos de faculdade e o quanto eu idealizava mudar o mundo com essa profissão. Pensava ser capaz de instruir meus alunos a desenvolverem o aclamado senso crítico e se transformarem em agentes sociais ativos. Tudo isso em uma hora e quarenta por semana.

Ri da memória. Acendi um cigarro e cruzei o portão de casa.

–  Bom dia – saudou-me a diretora com um olhar de reprovação.

–  Bom dia, Glória – respondi com um sorriso amarelo não metafórico cruzando a sala dos professores.

–  Espera – ela pegou meu braço com firmeza – sabe que não gosto de você dando aula fedendo a cigarro. Olha o exemplo!

–  Como se esses demônios fossem aprender algo se eu cheirasse a rosas do campo – alarguei o sorriso com sarcasmo -, ou eu fumo pra relaxar ou mato um deles. Agora, se me der licença.

Ela me olhou com uma expressão severa e simplesmente a ignorei. Eu era concursado, ela não podia fazer nada.

Desvencilhei-me dela e sai do distinto recinto. Já estava atrasado. Ao entrar no corredor em direção a sala de aula, dei de cara com Bruna. Porra. Costumava pegá-la as vezes no banheiro durante o horário de aula, ou quando minha namorada dava uma trégua. Era uma puta duma gostosa, mas era insuportável. Alguma vez durante o sexo, a pedido dela, disse que largaria minha oficial e ficaria com ela. A gente faz isso às vezes, coisa de homem.

–  Oi, né…

–  Ah, oi Bruna. Tô atrasado pra aula. A gente se fala depois – disse desviando dela e seguindo meu caminho.

–  Nossa… – ela se bufou e saiu batendo os pés.

Entrei na sala e era a zona de sempre. Eu nem me importava mais. Juro. Simplesmente enchia a lousa de matéria quando me dava na telha. Ou às vezes nem isso. Geografia não reprovava ninguém, o máximo que eu conseguia era botar pânico nos mais novos. Era o único prazer que eu ainda conseguia em sala de aula.

Seguia a apostila dada pela escola e enchi a lousa de lição. Dava menos trabalho. Rotação e translação da terra era a matéria em pauta. Só percebi quando vi as figuras, fazia tudo no automático. Quando estava na terceira parte da lousa, um dos infelizes me chamou.

–  Professor, o que é o fim do mundo?

Quebrei o giz de raiva. Odiava essa curiosidade sem propósito.

–  O que isso tem a ver com a matéria?

–  Passou no jornal que tem um planeta vindo na direção da terra – falou outro aluno.

Logo a sala irrompeu em uma infinidade de murmúrios que aumentaram para gritos rapidamente. Aquela baboseira de calendário maia estava em todo lugar e agora ia sobrar pra eu explicar a mentira.

–  Shiu! – Soquei a mesa para ter a atenção deles.

Pedro, que fez a pergunta inicial, ergueu a mão solicitando a palavra. Educação rara nessa escola. Pelo ato atípico, resolvi dar atenção à ele.

–  Ontem no centro, tinha uma cara gritando que o mundo ia acabar e com uma placa dizendo: O que é o fim do mundo pra você?

–  Tá, e daí?

–  Ele tá certo? – Respondeu tímido.

–  Claro que não, Pedro. Essa baboseira é coisa de Hollywood pra vender filmes. Eu poderia explicar a vocês todo o estudo sobre o suposto fim do calendário Maia, mas não vale a pena. Dificilmente entenderiam. Agora vamos voltar à aula.

A frustração tomou conta de todos eles. Era possível ver isso em suas expressões. Pensei em reconsiderar, mas logo mudei de ideia. Tanto faz. Nunca vale a pena.

Encerrei a aula com aquela turma e outras duas. Tinha o resto do dia livre. Minha namorada ligou. Não quis atender. Fui pra casa, me joguei no sofá com um livro e acendi um cigarro.

Diferente do costumeiro, a leitura não fluía, de forma nenhuma. Joguei o livro no chão e recostei a cabeça no sofá. A pergunta daquele garoto surgiu na minha cabeça. O que seria o fim do mundo pra mim? Nada me vinha em mente. Outro cigarro. Pensei em namorada, amigos, trabalho, casa, família. Nada. Não importa o que eu considerasse, nada pareceria derrubar meu mundo.

Fiquei inquieto. Fui até a prateleira e fucei meus jogos. Já tinha terminado todos. Vire-me e dei de cara com uma mesa repleta de provas e trabalhos a corrigir, sem contar as aulas a preparar. Que se foda, pensei. Resolvi ir até o centro buscar o jogo de lançamento de novembro.

Morava relativamente longe do local, em um bairro qualquer da periferia da zona sul de São Paulo. Poderia comprar os jogos por aqui, mas os vendedores ambulantes não eram tão eficientes quanto os do centro e meu salário não me dava o luxo de jogos originais. Passei uns quarenta minutos no transito, era um dia tranquilo e não era horário de pico. Durante o caminho a mesma pergunta martelando minha cabeça: O que seria o fim do mundo pra você?

Desci do ônibus e passei por umas três barracas diferentes até conseguir o que queria. Na volta, fiz um caminho diferente. Cantarolava baixo as músicas no fone de ouvido e andava distraído até topar de frente com alguém. Caí sentado.

–  O mundo vai acabar, meu jovem. Por que a pressa?

Levantei os olhos e vi um mendigo em potencial. Tinhas os cabelos enormes, desgrenhados, ligeiramente grisalhos. A barba idem. Por sobre a roupa suja e rasgada ostentava uma placa com os dizeres: O que é o fim do mundo pra você?

Deduzi que fosse o mesmo homem que meu aluno vira. Ou algum insano semelhante.

–  Você é louco – respondi limpando as roupas – sai da minha frente.

Ele me observou em silêncio. Curioso.

–  Eu sou louco. Tem certeza? Espere e verás! – A última frase foi gritada.

Ignorei-o. Ele e sua frase feita. Logo em seguida virou-se para o outro lado e voltou a gritar a mesma frase.

Acendi um cigarro e voltei para o ponto final do ônibus. A fila estava imensa. Voltaria de pé e provavelmente passaria algumas horas dentro daquela lata de sardinhas. Não tinha escolha. Novamente dei play no celular e fiquei cantarolando.

Uma hora e quarenta em pé e finalmente cheguei em casa. Já não me irritava. Vivia a vida num torpor contínuo.

O telefone tocou.

–  Alô.

–  E aí, vai hoje?

Era Junior, meu amigo músico. Tocava num bar nas noites de segunda.

–  Ah, é. Acho que vou. Que horas mesmo?

–  Às oito. Vê se chega cedo pra gente tomar uma cerveja.

–  Tudo bem.

Desliguei.

Liguei o videogame e passei o restante das horas ociosas do meu dia dedicado a tal tarefa.

Sai as seis. Sete e quinze estava lá. Encontrei Junior na porta com algumas garotas. Era um canastrão. Cumprimentou-me a distância, já me chamando com um sorriso malicioso.

–  Meninas, esse é o meu amigo mais culto. Leciona geografia e está às vésperas de dar entrada no seu mestrado – completou com o mesmo sorriso anterior.

Era pura balela. Eu sempre fui um puta acomodado, principalmente depois que sai da universidade. Dei uns dois ou três sorrisos, cumprimentei-as e entrei no bar. Não estava pra papo. Ele me seguiu.

–  Qual é, cara? Relaxa um pouco – disse isso e pegou duas cervejas enquanto sentávamos na mesa.

–  Junior, o que seria o fim do mundo pra você?

–  Que? Como assim?

–  Sei lá – disse enquanto servia os dois copos com cerveja -, um aluno meu me fez essa pergunta e eu tô com essa merda na cabeça desde então.

Ele ficou em silêncio durante algum tempo, enquanto coçava a barba analisando uma possível resposta. Só o observei. Era uma das poucas pessoa a qual eu ainda nutria algum respeito.

–  Certa vez – começou ele – um professor de música disse em uma aula que o fim do mundo para um músico era o silêncio. Isso, foi exatamente essa expressão que ele usou. Curioso você me questionar isso agora. Acho que pra mim o silêncio é realmente insuportável.

–  Interessante – foi tudo que eu consegui responder.

Assisti ao show dele. Por volta das dez da noite entrei no ônibus de volta pra casa. O telefone tocou de novo. Atendi sem olhar.

–  Oi, amor – era Lívia, minha namorada.

–  Oi, o que foi?

–   Nada. Não posso te ligar? Que voz é essa, tá bêbado?

–  Bebi umas cervejas com o Junior, nada demais. Quer ir lá pra casa?

–  Posso?

–  Pode.

–  Então tá, quando chegar me dá um toque que eu vou.

Eu ficava louco por sexo quando bebia.

Cheguei em casa, liguei para ela e fui pro banho. Atendi a porta de toalha. Assim que a vi, puxei-a pela cintura, beijando-lhe o pescoço.

–  Para com isso! Parece que só quer me ver pra transar!

Eu não podia culpa-la, ela não estava totalmente errada.

–  Não é assim, Lívia. É só saudade.

–  Sei. Você está fedendo a cerveja.

–  O que tem?

–  Nada.

Ela sentou no sofá com a cara fechada.

–  Qual o problema de eu tomar uma cerveja?

–  Nenhum.

–  Então…?

–  Eu te liguei e você não atendeu.

–  Desculpa, não vi tocar.

–  O Junior você viu, né?

Eu sempre questionava o motivo delas sempre fazerem isso, mas eu realmente precisava transar. Coloquei-a deitada no meu colo e comecei a afagar seus cabelos. Logo ela sucumbiu. A brincadeira começou lá mesmo e acabou no quarto.

Lívia estava deitada sobre meu peito, eu acabara de transar, ainda estava meio alto e nem assim minha mente me deixava em paz.

–  O que faria o mundo acabar pra você, mulher?

–  Que tipo de perguntar pós-sexo é essa? Tá louco? – E caiu em gargalhadas.

Fiquei em silêncio. E levantei pra fumar. Adorava isso, acabar o sexo e parar nu, frente a janela degustando meu maior prazer.

Ela sentou-se na cama.

–  Vai ficar bravo por isso?

Dei outra tragada e só a observei sem dizer nada.

–  Você, ok? Meu mundo acabaria se eu ficasse sem você.

–  Ah, qual é? Eu tô falando sério.

–  Eu também.

Não consegui ter uma reação. Primeiro porque não esperava esse tipo de resposta, depois, porque acho que não acreditava nela.

Em seguida, ela virou pro lado e fingiu dormir. Tive a impressão de ouvi-la chorar. Preferi não ter certeza.

No dia seguinte, acordei com ela levantando para trabalhar. Só tinha aulas a tarde e decidi ficar na cama. Não consegui pegar no sono. Liguei a TV. Troquei canais aleatoriamente, até que vi isso:

“Grupos na internet alegaram notar um objeto vermelho no céu, na noite anterior. Alguns membros desses grupos são alunos do curso de Astronomia, da USP, e associaram o fato à profecia maia sobre o final do mundo no dia 21 de dezembro desse mesmo ano. Defendem tratar-se de um planeta de nome Nibiru que está em rota de colisão com a Terra.

Especialistas desmentem o fato. A Nasa ainda não se pronunciou.”

Ri comigo mesmo. É cada merda que a gente encontra na internet hoje em dia. Não conseguia acreditar que alguém realmente tinha levado aquilo a sério.

Era o que o meu lado racional dizia.

Ora, se um planeta se aproximasse tanto assim da Terra, é obvio que o veríamos muito antes do impacto.

Por outro lado, fui tomado por certa curiosidade.

Fui para o computador. Fiz várias pesquisas sobre a profecia maia e a possibilidade daquilo ser real. Pessoas renomadas afirmavam veementemente a impossibilidade do fato e eu sentia minha pesquisa cada vez mais idiota.

Transitei de página em página até chegar em loucas teorias da conspiração. Uma delas alegava o reconhecimento de tal planeta até pelos sumérios, milhares de anos antes de Cristo. Diziam que não podíamos ver Nibiru durante o dia, pois seus gases atmosféricos não refletiam a luz, por outro lado, durante a noite uma série de reações químicas – as quais eu não entendi, sempre fui muito ruim em química – tornava parte dele visível. Quando estivesse realmente próximo da Terra, todos veríamos, mas já seria tarde.

Se fosse ficcional, era bem criativo. Como já era novembro, não precisaria esperar muito e decidi pagar pra ver.

Olhei para o relógio e há muito tempo minha aula já deveria ter acabado. Acabei me distraindo de verdade com aquilo. Deixei pra lá, tinha direito a faltas abonadas. Algumas poucas vantagens em ser professor.

No dia seguinte tinha aula com uma turma do ensino médio. Era mais fácil conduzi-los, desde que batesse na tecla do vestibular e estimulasse uma ‘decoreba’ mascarada.

Não naquele dia.

Assim que adentrei a sala, alguém citou a matéria do jornal matinal. Outros as teorias conspiratórias. É bizarro como essas coisas se espalham rápido nas redes sociais.

Dessa vez não seria fácil desvencilhar-me deles. Muitos conheciam a grade universitária de Geografia e sabiam que eu havia estudado um pouco de Astronomia.

Fiquei em silêncio por alguns instantes enquanto a sala explodia em questionamentos. Passei grande parte das aulas dessa matéria no bar, e mesmo que estivesse presente, não teria embasamento teórico para discursar sobre.

Decidi, como os próprios dizem “trola-los”. Mas antes disparei o discurso padrão para ter certa credibilidade.

–  Tudo isso é bobagem e vocês, como futuros universitários deveriam saber disso. A Nasa mapearia qualquer coisa que cruzasse aquele cinturão de asteroides e estivesse em rota com a Terra. Não veem o controle que temos dos cometas e meteoros que passam por aqui?

–  Mas professor, eu li que a atmosfera do planeta não reflete a luz, por isso não o vemos se aproximando! – Explodiu um aluno em êxtase.

Até que aquelas horas vagando pela internet serviram-me de algo. Estava pronto para esse tipo de pergunta.

–  Você realmente acredita em teorias conspiratórias dos Estados Unidos?  – Na verdade, eu acreditava em muitas delas, pelo menos na universidade –  Já que estão tão interessados nesse assunto, vou passar uma atividade sobre isso para vocês.

Houve um lamento conjunto. Falei aquilo sem pensar. Adorava ferrar com os alunos.

Virei-me à lousa e posicionei o giz para escrever. Nada em mente. Alguns segundos se passaram enquanto eu sentia cada olhar direcionado a ponta do objeto. Então, um estalo. Escrevi:

“Disserte em trinta linhas sobre: O que seria o fim do mundo para você?”

Outro lamento.

–  Redação professor? Mas essa é uma aula de geografia! – Indignou-se uma garota.

–  Sim. Nada melhor do que uma redação, já que farão várias no vestibular. E uma ressalva: não quero conceitos científicos, quero opiniões particulares. Encarem isso como uma humanização do aprendizado de vocês.

–  Mas… – ela insistiu.

–  Mas nada. Quero que entreguem hoje e vale nota!

Com certeza eles voltariam com perguntas na semana seguinte. Porém, nesse meio tempo eu planejei uma prova surpresa com questões de vestibulares concorridos. Tiraria rapidamente o foco do assunto.

Em casa, atirei as coisas sobre a mesa de centro e acendi um cigarro. Acabei num estado de transe, pensando em muitas coisas. É um efeito psicológico frequente no hábito de fumar.

Olhei para as redações sobre a mesa. O mundo realmente iria acabar?

Decidi lê-las.

Família, família, família. Não entrar na universidade. Namorado. Família. Ficar sem videogame – essa foi criativa. Namorada. Família.

Nada de novo. Além do videogame, é claro. Seria interessante se não fosse uma piada.

Quis poder tirar tudo aquilo deles. Uma vontade enorme. Não por crueldade, só por caráter “científico”.

Deixei pra lá.

Liguei pra Bruna.

–  Passa aqui hoje.

–  Lembrou de mim, é? Cadê sua namorada sem sal?

–  Vai vir ou não?

–  Vou.

–  Beleza.

Desliguei.

Já tinha o que fazer naquela noite.

Dezembro chegou e as teorias conspiratórias aumentaram consideravelmente. Cada vez mais pessoas alegavam ver o ponto vermelho no céu durante a noite, e sempre maior.

Todas às vezes que surgia a questão em sala de aula, eu aplicava a mesma atividade anterior. Não por curiosidade, já tinha notado as respostas padrão. Só por hábito mesmo. Até que, percebendo as minhas intenções, todas as classes desistiram.

Uma semana antes do tão falado dia 21 de dezembro, haveria outro show do Junior no bar. Não estava com saco nem para Bruna, menos ainda para a Lívia. Decidir ir. Cheguei cedo, e como de costume, sentamos à mesa para uma rodada de cerveja.

–  Já tirou aquela loucura de fim do mundo da cabeça? – Questionou Junior, com ar debochado.

–  Nunca acreditei nisso.

–  Como não? E aquela pergunta? – Dessa vez riu abertamente.

–  Aquilo era outra coisa – respondi sério.

–  Sempre me questiono como você consegue ser tão rabugento, não era assim na faculdade – arqueou a sobrancelha imprimindo uma surpresa sarcástica.

–  Não fode, Junior – e virei o copo de cerveja garganta a dentro.

Junior explodiu em risadas. Até chorou.

–  Não, sério – disse recobrando o ar – você acha que essa merda pode acontecer?

–  Sei lá, creio que não. Não tem nenhuma prova.

–  Nem tudo precisa de prova, cara. Tô meio cagado, admito.

–  Esquece isso. É besteira.

Bebemos mais da cerveja em silêncio.

–  E você, já conseguiu pensar no que seria o seu fim do mundo?

–  Pensei algumas vezes, mas nunca cheguei em nenhuma conclusão.

–  Qual é, cara. Alguma coisa você deve ter medo de perder.

–  Meus cigarros. Ficar sem cigarros ia ser foda.

Dessa vez rimos juntos.

No dia seguinte haveria um eclipse solar. Mais um grande motivo para os conspiratórios alegarem qualquer coisa. Nem quis saber. Acordei, fumei, comi e fui dar aula.

Coincidentemente sai justamente na hora do eclipse solar. Parei para admirá-lo. Independente de qualquer outra coisa, era um espetáculo incrível.

Não sei quanto tempo passei olhando-o. Sei que não muito.

Quando decidi que era o suficiente e baixei o olhar, tive um vislumbre de uma imensa esfera vermelha tomando grande parte do céu.

Esfreguei os olhos e olhei de novo. Nada. Foi um visão de um milésimo de segundos, um vulto.

De repente todas as teorias conspiratórias tomaram-me a mente. Havia algo de verdade naquilo? Faltavam seis dias pro fim do mundo?

Segui para aula desnorteado. Repensando tudo que eu tinha lido e em que acreditava.

Dei uma aula de merda, pior que o de costume. Dessa vez esperei algum questionamento, alguma citação sobre o ocorrido, mas parecia que só eu havia visto. Ansiava a hora de chegar em casa e conferir a internet, para ter certeza.

Quando o sinal tocou, saí mais rápido da sala que os meus alunos. Corri até em casa e liguei o computador.

Passei horas pesquisando em todos os lugares e nada.

Milhões de pessoas falando no assunto durante todo o ano e dessa vez, não havia nada.

Nada.

Fumei um maço de cigarro. A boca seca. A cabeça doía pelo excesso de nicotina. Só a tensão que não cessava.

Passei aquela noite em claro.

Tinha que trabalhar.

Fui até o computador olhar meu horário de aulas. Estava zonzo, não conseguia me lembrar. Deparei-me com ele ainda ligado e um página de fórum sobre as teorias ainda aberta.

Haviam diversas publicações alegando que o ponto havia simplesmente sumido. A maioria de pessoas que estavam dedicando-se exclusivamente a observações.

Mesmo com seus equipamentos rudimentares, conseguiam avistá-lo diariamente e discorriam relatórios sobre tamanho, posição e características. Agora, simplesmente desapareceu. Nem pequeno, nem grande. Nada.

Grande ironia divina a revelação ter sido feita para um completo cético. Era um conspiração universal para me enlouquecer?

Eu não valia tanto.

Estavam todos loucos. Eu havia visto. Mais próximo do que nunca. Decidi que precisava me abastecer. Corri até o mercado. Só queria um único produto e desembolsei tudo que tinha no banco para o tal. Não era muito, mas sai com diversas sacolas, sob olhares que denunciavam claramente: esse cara só pode ser maluco.

Malucos eram eles. Estavam vivendo normalmente, às vésperas do fim eminente. Eu era o único em plena consciência dos fatos.

Voltei para casa e fumei mais inúmeros cigarros. Dessa vez, surtiram algum efeito. A medida que o dia passava, fui me acalmando.

Comecei a pensar com mais clareza e achei explicações lógicas para tudo que vi. Provavelmente um ilusão de ótica causada por exposição excessiva dos olhos a luz intensa.

Claro.

Mas não era justo que só eu passasse por aquele desespero. Não mesmo. Decidi acreditar em Lívia. Era o único experimento que eu tinha ao meu alcance.

Liguei pra Bruna.

–  Bruna, vem aqui pra casa hoje noite?

–  Nossa, duas semanas seguidas? Tá se apaixonando é? – Riu de forma debochada.

–  Vem, por favor. Tenho uma surpresa pra você.

–  Tudo bem, amor.

Desliguei. Liguei pra Lívia.

–  Amor, vem aqui pra casa hoje à noite?

–  O que aconteceu? – Ela estranhou de cara o carinho no tratamento.

–  Nada. Só vem. Preciso de você.

–  Ok. Respondeu desconfiada.

Sentei no sofá e esperei o dia passar.

A primeira a chegar foi Bruna, cumprimentou-me com um beijo. Seu estado radiante era perceptível. Quis transar logo de cara, era o nosso costume, mas eu a rechacei dizendo que esperasse a surpresa.

A campainha tocou. Era Lívia.

Ambas se olharam sem entender. Bruna mais apavorada. Ela sabia de Lívia. O contrário não existia.

–  Lívia, essa é a Bruna, minha amante. Bruna, essa é a Lívia. Você sabe quem.

Silêncio. Havia lágrimas nos olhos de Lívia.

–  Ninguém vai dizer nada? – Arrisquei.

Lívia disparou em minha direção e senti o impacto de um tapa no rosto.

–  Seu nojento! – Gritou e saiu pela porta.

Já Bruna me olhou incrédula, esperando que eu dissesse algo.

–  Não. Não terminei com ela para ficar com você. É só uma experiência – até para mim a frase pareceu débil.

–  Você é um doente! – Pegou sua bolsa e também passou pela porta.

Simplesmente fui dormir. Esperando resultados.

Ao despertar, notei um brilho avermelhado pela veneziana. Ignorei. Peguei o celular e liguei para Lívia.

–  O que você quer, imbecil? – foi como fui atendido.

–  O que você tá fazendo?

–  Trabalhando, ao contrário de você.

–  Seu mundo não iria acabar se me perdesse?

–  Pois é, não acabou.

Desliguei.

Fui para o computador e as notícias explodiam aos milhares. Muitos haviam visto a esfera vermelha no céu, porém, as notícias foram censuradas por algum órgão x.

Sorri.

Li algo sobre a mesma esfera no céu hoje, dia 17, juntamente com diversas catástrofes naturais.

Sorri de novo.

Caminhei calmamente até o sofá e acendi um cigarro. Olhei para o estoque que eu havia formado no canto da sala. Quarenta e duas caixas, com vinte maços de cigarro cada uma.

Eu havia descoberto o meu final do mundo.

E havia o impedido.

27 comentários em “O que é o fim do mundo? (Weslley Reis)

  1. Eduardo B.
    5 de abril de 2014

    Trama batida, mas protagonista muito bem construído. Parabéns.

  2. Pétrya Bischoff
    5 de abril de 2014

    Velho, eu curti todo o conto; curti o professor, a maneira “foda-se” que ele lida com os alunos -também sou professora e sei o que é lidar com pestes-, curti ele partir do ceticismo a um estado quase neurótico. Achei massa sua “experiência”; no entanto, não gostei da última frase. Boa sorte.

  3. Wilson Coelho
    5 de abril de 2014

    Taí: um fim de mundo metafórico, mas que funcionou para mim, talvez pela boa construção do personagem do professor. Muito bom!

  4. Marcellus
    5 de abril de 2014

    Não é ruim, apesar da Física ser nula. Mas, até aí, praticamente todo filme estadunidense de ficção científica também é…
    A revisão ficou devendo e, particularmente, prefiro a “pasteurização” do texto sem palavrões.
    De qualquer forma, parabéns boa sorte ao autor!

  5. Bia Machado
    5 de abril de 2014

    Gostei da caracterização da personagem. Cheguei a ter dó dele por causa desse mundo tão cinza, rs. A história no começo me prendeu. Depois, da metade em diante, não teve o mesmo fôlego pra mim. Ainda assim, valeu a leitura.

  6. Alexandre Santangelo
    5 de abril de 2014

    Esse protagonista é fantástico. Contos tem que ter isso. Personagens carismáticos senão não rola. Excelente!

  7. Vívian Ferreira
    4 de abril de 2014

    Um texto agradável e com um protagonista muito bem construído, de uma amargura por vezes irritante, mas condizente. O final caiu muito bem para esta personalidade vazia e infeliz. Parabéns e boa sorte!

  8. Hugo Cântara
    4 de abril de 2014

    A narrativa é boa e o conto é bem construído, com uma excelente caracterização da personagem. O planeta invisível está muito rebuscado, foi um pontapé na Física. Houve também alguns erros que fugiram à revisão.
    Mas o texto fluiu bem e a leitura foi agradável não há dúvida.
    Parabéns e boa sorte!
    Hugo Cântara

  9. fernandoabreude88
    4 de abril de 2014

    Acho que já tinha comentado esse conto, mas passei aqui e não achei meu comentário. Está ocorrendo algum problema? Não entendi. Bom, sou suspeito para falar desse conto, já li duas vezes e esse personagem principal me ganhou completamente, ele nos faz sentir como garotinhas de 18 anos idolatrando uma gran-canalha, hehehe – e nada podemos fazer além de observá-lo com vontade de socá-lo. A história realmente é mal estruturada, parece um conjunto de acontecimentos no dia de um cara para acabar no fim do mundo, essas visões que ele tem também são ruins. Mas vale pelo protagonista, parabéns!

  10. Tom Lima
    3 de abril de 2014

    Que conto gostoso de ler.
    Parabéns ao autor.

  11. Alexandre Santangelo
    2 de abril de 2014

    Gosto muito deste estilo. O realismo me cativou assim como o personagem principal. Parabéns.

  12. Thata Pereira
    2 de abril de 2014

    Que pessoinha mais insatisfeita essa, hein! Mas infelizmente eu conheço ótimos professores que tornaram-se assim pela falta de incentivo (principalmente por parte dos alunos). Triste… :/

    Gostei muito do conto e fiquei me perguntando o que o(a) autor(a) faria com o final. Pensei que o professor encontraria a “solução” para o fim de uma forma científica, baseado em muitos estudos (eu e meus finais felizes). Mas gostei do final. Quando a Lívia disse que o mundo acabaria se o perdesse achei muito “piegas”, mas depois foi justificado.

    Boa Sorte!!

  13. Socram Bradley
    1 de abril de 2014

    “…Vire-me e dei de cara com uma mesa repleta de provas e trabalhos a corrigir, sem contar as aulas a preparar. (…)” – Como professor quando me detenho com tal cena eu também fico esperando o fim do mundo. Só que ao invés de um maço de cigarros eu procuraria um bom sanduiche…rsssss Parabens Boa sorte!

  14. rubemcabral
    28 de março de 2014

    Gostei do conto e do protagonista mau caráter. A história de fundo é meio batida, mas até que funcionou. Só achei que faltou um pouco de revisão, um tanto de capricho.

  15. Felipe Rodriguez
    26 de março de 2014

    Gostei do personagem criado, professor insano comedor de alunas e sem pudor. A história não me chamou muito a atenção, achei um conto mediano.

  16. Gustavo Araujo
    26 de março de 2014

    Achei o conto muito bem narrado, com uma história bacana e repleta de diálogos interessantes. Notei um capricho maior no início – do meio para o fim os errinhos de digitação surgem com maior frequência. Não comprei a ideia do planeta invisível e muito menos o fato de ninguém saber, na história, que a detecção de planetas é feita por intermédio de variações do campo gravitacional. Mas, tirando isso, não posso deixar de dizer que o texto me agradou – esse anti-heroísmo do protagonista é o que há de melhor. Com certeza muitos dos nossos leitores que labutam no magistério haverão de se enxergar em algum momento. Parabéns ao autor e boa sorte.

  17. Claudia Roberta Angst
    26 de março de 2014

    Para qualquer um que lide com professores e alunos, o protagonista deste conto parecerá familiar. Não é uma caracterização de um profissional ideal, mas “é o que temos pra hoje”.
    O fim de mundo particular é bastante verossímil. Cada um sabe onde lhe aperta o sapato e a vida. Gostei dos diálogos, sempre criam agilidade na leitura.
    Detalhes escaparam da revisão, mas nada tão grave.
    Boa sorte!

  18. Felipe Moreira
    26 de março de 2014

    Eu gostei. Achei o protagonista até divertido ao lidar com a vida, despretensioso e até vazio, notando isso apenas quando se fez a pergunta sobre o fim do mundo. No geral, eu me senti entretido com o texto. Encontrei alguns erros, mas dentro das circunstâncias é perfeitamente compreensível.
    Bos sorte.

  19. Rodrigo Arcadia
    25 de março de 2014

    Tudo errado nesse conto. na minha opinião, o personagem é mais um moço alienado do que uma postura de professor. Pra dizer a verdade, um aluno. As moças, namorada e amante nada a ver. tudo errado.
    Abraço!

  20. Fabio Baptista
    25 de março de 2014

    Olha, não gostei muito do personagem principal, mas reconheço que ele tem carisma.
    A narrativa não chega a empolgar, mas é bacana, clara, limpa. A história flui com naturalidade, sem necessidade de grandes exageros ou reviravoltas. Ponto positivo.
    Um bom conto, parabéns.
    Abraço.

    • José Geraldo Gouvêa
      4 de abril de 2014

      O personagem ter carisma já basta. Muitos criticaram o personagem por ser inverossímil. Outros apontaram o realismo do texto. Calma gente… Isso é só ficção. O personagem é bom, as namoradas nem tanto (me pareceram um tanto rasas, mas isso é só um conto, ahaha). O único defeito real que eu enxergo no texto é que faltou compactar a ação. Um conto não pode ser “frouxo”, cada palavra tem que se casar com todas as outras, cada cena tem que ser essencial. As várias cenas que se referem às aulas poderiam ter sido compactadas em uma ou duas. Mas o fato de que eu teria organizado a ação de forma distinta é uma discordância, não um defeito.

      Ainda não sei se voto nesse, mas gostei.

  21. giulialisto
    25 de março de 2014

    Gostei bastante da ideia e do fato de que o texto foi muito bem escrito. O protagonista não me agradou muito, não consegui ter qualquer empatia por ele, mas talvez essa tenha sido a ideia do autor. Fora isso, achei interessante a história, gostei muito da forma como ele viu a esfera após o eclipse, senti um arrepiozinho imaginando. Parabéns!

  22. Eduardo Selga
    23 de março de 2014

    Um texto que se destaca, a meu ver, pela sólida construção do personagem: amargurado, vazio e infeliz, e isso é facilmente perceptível em suas falas, sempre muito ásperas. Além disso, bastante crível, o que para um conto que pretende seguir os protocolos realistas como este é fundamental. O universo do magistério, ao qual pertenço, está muito bem demonstrado. O descompromisso com os alunos e com o ato de ensinar, o sadismo de certos professores frustrados na vida.

  23. Anorkinda Neide
    23 de março de 2014

    Parabens, gostei muito.
    Conheces muito bem o universo do magistério..rsrsrs
    O conto muito bom e fluente. Contemporâneo e com um final bem coerente com a personalidade do protagonista.
    Valeu! Boa sorte!

  24. Helena Frenzel
    23 de março de 2014

    Criativo realmente, leitura fluída, escrita cativante embora precise de pequena revisão, o bom ritmo da leitura ameaçou quebrar-se em alguns diálogos, mas resistiu. Vivas! Gostei bastante, parabéns!

  25. Jefferson Lemos
    23 de março de 2014

    Gostei do tom despretensioso da narrativa, bem simples e direto. Descreveu um pessoa normal, vivendo uma vida normal, e com medo do que pode vir dessas loucas teorias. Algumas pequenas coisinhas passaram a revisão, e a crença dele, para mim, mudou de forma brusca demais. Acho que esses foram os únicos pormenores.

    Um texto agradável, e acima da média.
    Parabéns e boa sorte!

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Publicado às 22 de março de 2014 por em Fim do Mundo e marcado .
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