EntreContos

Detox Literário.

Durante o Eclipse (Hugo Cântara)

eclipse

“Estaremos sozinhos no Universo?”

Questionei-me novamente, com o olhar fixo no céu. Já não tinha tempo para descobrir a resposta. A Lua aproximava-se do Sol.

Coincidência ou destino. Ao longo da minha vida, nunca fui adepto da segunda hipótese. Naquele dia, não tinha tanta certeza. A nossa destruição ocorreria durante um eclipse total. Esse eclipse seria  visível do meu jardim. Por momentos, perdi-me na tentativa intrínseca ao ser humano de encontrar um significado intangível aos acontecimentos que lhe afectam.

Interrompi-me, pois um arrepio percorreu-me a espinha. A temperatura tinha diminuído à medida que a Lua avançava firmemente sobre o disco solar. O silêncio era apenas interrompido pelo grasnar das aves que pairavam no ar, inquietas.

Dedicara-me de corpo e alma à descoberta de vida inteligente no Universo. A vida erudita que levei exigiu a minha solidão. No esforço de solucionar uma das maiores dúvidas do ser humano, esqueci-me como era ser um ser humano. Habituara-me a estar sozinho; estava preparado para morrer sozinho.

A luminosidade decadente anunciou-me que a escuridão total estava próxima. Lá em cima, a Lua ocultava mais de metade da nossa estrela.

Ainda teria tempo de fugir? Não, já não podia fugir. Eu não queria fugir. Era uma sensação indescritível ser o único terrestre na Terra.

Quando tomou conhecimento da ameaça de extinção, a humanidade fugira para outro planeta, o mais adequado que conseguira encontrar. Um planeta inóspito, árido, em que o ser humano lutaria a cada segundo pela sobrevivência.

Eu decidi ficar. A vida, sem as condições para continuar a realizar as minhas pesquisas, deixaria de ter sentido. Restava-me observar o espectáculo antes da minha morte.

A Lua e o Sol finalmente fundiram-se. No crepúsculo que me envolvia, distingui no céu as estrelas mais brilhantes. O impacto ocorreria em dois minutos.

O meu coração acelerou e súbitas rajadas de vento quase me fizeram cair. Já conseguia vê-lo.

À medida que ia galgando a atmosfera tornou-se perceptível como era extenso. Com mil e quinhentos metros de diâmetro, ocultou o eclipse e o crepúsculo deu lugar à noite. Estava terrivelmente próximo da superfície. Eram os meus últimos segundos de vida.

Nesses derradeiros segundos, o meu cérebro não transmitiu imagens dos meus amigos ou familiares. Não os tinha. A minha mente de cientista, a mesma que me condenou à solidão, imaginou a cratera de impacto com mais de vinte quilómetros de extensão. Aquantidade de poeira que seria lançada para a atmosfera após a colisão iria bloquear a luz solar, e aniquilar a maior parte das coisas vivas do nosso planeta.

De pé, com os braços estendidos, fechei os olhos e não ousei respirar. Era o fim.

Inesperadamente, o vento acalmou e um raio de luz inundou-me o rosto. A Lua abandonava o Sol, o eclipse total terminara. Olhei à minha volta.

Atrás de mim, o enorme objecto planava pouco acima da minha cabeça, sem emitir qualquer som ou ruído. Não era o asteróide que todos receávamos; era algo transcendente à minha banal existência. Sentia-o. Via-o. Era o acontecimento que dava significado à minha vida.

Quando aterrou e abriu os enormes portais,fui o primeiro humano a saber a resposta: Não estamos sozinhos no Universo.

35 comentários em “Durante o Eclipse (Hugo Cântara)

  1. Thales
    5 de abril de 2014

    A ideia foi legalzinha… o final foi bom.
    Porém, achei que faltou alguma coisa. Normalmente esses textos curtinhos não me empolgam muito.
    Mas está bastante bem escrito, e é uma leitura rapida.

  2. Alexandre Santangelo
    5 de abril de 2014

    O conto é por demais melancólico. E o personagem não me cativou. Não achei ele carismático o suficiente. Acho até que o autor afastou ele do leitor propositadamente. Ficou presunçoso e limitado. Pena porque tem uma boa ideia escondida aí.

  3. Weslley Reis
    3 de abril de 2014

    Engraçado como mesmo com um conto pequeno a gente consegue ter margem pra uma história maior. Isso mostra que é um conto muito bem escrito e que o autor sabe o que está fazendo.

    Gostei do fato do conformismo desse personagem ser diferente do da maioria dos contos aqui, que seria mais voltado para o “to nem aí”.

    O conto me agradou. Talvez seja ofuscado por outras leituras que tive, mas é um ótimo texto.

  4. Hugo Cântara
    2 de abril de 2014

    O conto surpreende no final. Não houve frases ou palavras memoráveis, mas foi directo, pragmático e deu ao leitor o estritamente necessário para ser surpreendido no final.
    Parabéns e Boa sorte!

    Hugo Cântara

  5. fernandoabreude88
    2 de abril de 2014

    Hehe, o próprio progresso da ciência tornando a solidão do protagonista cada vez maior foi algo bem interessante para o conto. Linguagem simples, sem maiores estrelismos, final colocado de uma forma muito impactante, gostei, talvez esteja no meu Top 10.

  6. Socram Bradley
    2 de abril de 2014

    O que será que planava sobre sua cabeça???? Será que vem uma parte dois? Boa sorte!

  7. fmoline
    2 de abril de 2014

    Gostei pelo texto ser curto, apenas. Realmente essa ideia de invasão alienígena/zumbi/doença já me cansou um pouco…. Nada de inédito.

    Nao ligue para as merdas que diz este leitor(eu). Boa sorte!

  8. Pétrya Bischoff
    1 de abril de 2014

    Caralh******! A última frase me estremeceu, arrepiou e marejou meus olhos. Todo o conto valeu a pena por esse fim.

  9. Thata Pereira
    31 de março de 2014

    Difícil de comentar este conto. Isso porque ele é pequeno, mas um conto não precisa ser grande ou médio para ser bom. O que vemos muito nesses casos é a falta de desenvolvimento.
    O ponto forte do conto é realmente o final. Principalmente para mim que fiquei me perguntando “Mas se o mundo vai acabar, como esse personagem está narrando no passado? Será que ele foi o único sobrevivente?”. Aí chega o final com todas as respostas.
    Acho que desenvolvimento não seria a palavra para este conto. O que faltou, na minha opinião, foi um pouco de audácia do(a) autor(a) para explorar melhor as suas possibilidades aqui até a chegada do final. Pois a pergunta que fica é o ponto forte do conto: o que será que aconteceu depois?
    Boa sorte!!

  10. Marcellus
    31 de março de 2014

    Mais um conto que merecia ser maior… que o autor ouça o clamor popular e nos brinde com mais três mil palavras!

    Boa sorte!

  11. Vívian Ferreira
    28 de março de 2014

    Simples e bom. Gostei do final inesperado, mas também acredito que merecia maior desenvolvimento. Só o fato de cientistas confundirem um eclipse com um objeto que pousou na Terra me pareceu estranho. Boa sorte no desafio!

    • Pollux
      29 de março de 2014

      Obrigado a todos pela leitura e comentários. Respondendo à Vívian, à Helena e a outros leitores que possam ter ficado na dúvida, o cientista não confundiu o eclipse com um asteroide. No conto, a humanidade fugiu pois julgava que um asteroide iria colidir com a Terra durante um eclipse (mera coincidência). Mas o que todos julgavam ser um asteróide era, afinal, uma nave extra-terrestre.

    • Pollux
      29 de março de 2014

      Obrigado pela leitura e comentários. Respondendo à Vívian, à Helena e a outros leitores que possam ter ficado na dúvida, o cientista não confundiu o eclipse com um asteróide. No conto, a humanidade fugiu pois julgava que um asteróide iria colidir com a Terra durante o eclipse total (mera coincidência). Mas o asteróide que todos esperavam era, afinal, uma nave extra-terrestre.

  12. Eduardo B.
    27 de março de 2014

    Interessante, mas insosso. A narrativa correta peca pelo excesso de linearidade e o autor não ousa.

    Não achei memorável.

    Continue escrevendo. 😉

  13. rubemcabral
    26 de março de 2014

    Um conto simples e bonito, com um final no mínimo curioso. Faço eco ao pessoal que pediu mais desenvolvimento da trama, no entanto…

  14. Rodrigo Arcadia
    24 de março de 2014

    o cara teve sua parcela de sorte. mas não convence essa ideia do conto, não pra mim,
    Abraço

  15. Helena Frenzel
    24 de março de 2014

    A forma como o conto termina até salva a idéia e mostra que se ele tivesse sido melhor desenvolvido poderia convencer até mesmo os leitores mais experientes. Pelo protagonista ser um cientista, espera-se que tivesse um domínio maior ao explorar possíveis cenários ‘reais’ de eclipse e fenômenos naturais semelhantes que pudesse levar ao fim do mundo, e o mais importante: como as pessoas reagiriam em tal situação. Como disse num comentário para o texto lido antes deste, creio que o próximo na seqüência de postagens do blog, para que um conto funcione, a meu ver, é necessário fazer um bom trabalho de pesquisa ou colocar as coisas de modo a não subestimar a inteligência dos leitores no tocante à aceitação dos acontecimentos que formam o enredo no universo da ficção, ainda mais se estiver envolvendo elementos fantásticos. Um autor contemporâneo que consegue esse convencimento do leitor quanto à realidade do fantástico, e de forma excelente e muito natural, é Mia Couto, particularmente no livro O último voo do Flamingo, o qual deixo aqui como dica de leitura.

  16. Bia Machado
    23 de março de 2014

    Gostei muito da ideia do conto e se ele fosse maior, seria melhor ainda, para termos um envolvimento maior com esse personagem, que me pareceu muito interessante. O final foi o melhor, por ter quebrado a minha expectativa. Gosto disso. E gostaria de uma versão maior desse texto.=) Parabéns!

  17. Gustavo Araujo
    21 de março de 2014

    Um texto bonito, simples até, e que talvez pela maneira cândida como retrata o tema, se destaque dos demais. Gostei da melancolia que persegue o narrador, esse conformismo que permeia suas ações – tudo, enfim, recompensado com a resposta esperada durante toda a vida. Bacana. Parabéns ao autor e boa sorte.

  18. giulialisto
    21 de março de 2014

    Gostei! Fugiu do lugar comum e é bem interessante ver uma situação dessas analisada por alguém que entende do assunto e que sabe como as coisas acontecem, se preparando para o resultado final.
    O final é bom, mas ficou meio dúbio. Mas gostei bastante, parabéns!

  19. Abelardo
    21 de março de 2014

    Vou na mesma cantinela dos demais colegas que já comentaram. O texto é bom, mas faltou desenvolver melhor. A idéia é sem dúvida criativa, mas o autor não se aproveitou do limite de palavras para desenvolver bem sua idéia. Tirando isso é uma leitura agradável….

  20. Alexandre Horta
    21 de março de 2014

    Gostei. Principalmente pelo fato de um misantropo acabar recebendo um presentão desses. Mas achei que poderia ter havido alguma menção sobre o asteróide um pouco antes no texto. Tive que ler duas vezes o conto e minha impressão foi que nada indicava o que seria a causa do fim do mundo. Enfim, ainda assim, muito bom seu texto, parabéns.

  21. Matheus Costa
    21 de março de 2014

    Realmente, o conto ganha o leitor no fim.
    É uma ideia boa a de um personagem que prefere renegar à própria vida em nome de sua paixão, que é a ciência. Em “Perfume, a história de um assassino” o personagem principal age de maneira semelhante.
    Mas acho que faltou explorar melhor essa característica do personagem, por exemplo, dizer que ele tinha mulher e filha e elas fugiram para outro planeta enquanto ele ficou na Terra movido pela sua curiosidade. Isso daria mais dramaticidade e mais profundidade para o personagem.

    Resumindo, a ideia é boa, mas faltou aproveitar melhor.

  22. Felipe Rodriguez
    21 de março de 2014

    Achei interessante a ideia do pesquisador que fica em seu planeta, mesmo quando todos partem. O narrador consegue passar a sua solidão, culpando a própria ciência por isso. O desfecho também caiu bem. Bom texto.

  23. Fabio Baptista
    21 de março de 2014

    Algum colega comentou em algum outro conto que algum autor (é, minha memória é terrível pela manhã!) falou o seguinte: o conto só tem duas chances de ganhar o leitor – o primeiro parágrafo e a última frase.

    Esse aqui me conquistou na última frase.

    Não que o restante esteja ruim. Pelo contrário.
    Mas o ritmo reflexivo e às vezes monótono não estava me cativando. Então veio a surpresa final e o “PUTZ!!!”. E o “putz” do leitor ao ver o último ponto do texto é o melhor indicativo para saber que um conto é bom. 😀

    Aliás, acho que esse aqui é o único representante da categoria conto na concepção “ortodoxa” do termo – com poucos personagens (apenas um!!!), espaço de tempo reduzido (apesar de lembrar do passado, tudo decorre em alguns minutos) e cenário reduzido (jardim). Desculpe se tiver esquecido algum texto aqui do desafio que tenha seguido a mesma linha, ou se esqueci alguma coisa na definição de conto.

    Minha memória é terrível pela manhã.

    Abraço.

  24. Eduardo Selga
    21 de março de 2014

    Fico feliz em ver aqui um autor que, conforme a ortografia me faz deduzir, é português ou natural de algum país pertencente à comunidade lusófona.Sê bem vindo, caso eu esteja certo.

    É um conto filosófico, na medida em que traz à baila a “desumanização” do homem de ciência e do intelectual. É uma concepção que grassa no senso comum, junto à ideia de que essas pessoas vivem “no mundo da lua”. Tal “desumanização”, no presente texto, é assumida pelo próprio personagem-narrador, não sem alguma melancolia, bastante realçada pela opção autoral privilegiar a primeira pessoa.

    Sem sair da trajetória filosófica, outra questão posta é a eterna pergunta: o ser humano estará sozinho no universo? No conto a resposta é dada: como toda a humanidade mudara de planeta, apenas o personagem-narrador descobre que não somos os únicos. O que não deixa de ser uma ironia, pois essa resposta seria do interesse de toda a espécie humana. E atrás dessa resposta o personagem passara toda a sua existência.

    Curioso é que não há, propriamente dito, um “fim do mundo”. A Terra permanece intacta, com apenas um habitante e sua descoberta. Mesmo sem população, esse dado novo é uma possibilidade de recomeço, sob novas bases? Isso nos faz voltar à questão filosófica: ao fim e ao cabo estamos, sim, sozinhos no universo. Em nosso universo particular.

    Entretanto, o conto se mostra demasiadamente curto. Não pelo fato de a quantidade de palavras ser muito aquém do limite máximo (tamanho formal não é relevante), e sim porque o enredo pedia mais. Parece-me que a melancolia do personagem sentiu necessidade de mais largas asas na narrativa.

  25. Felipe Moreira
    21 de março de 2014

    Um conto agradável. Encaminhava-se para mais um texto limitado a reflexões e a surpresa surgiu no final. Porém, achei tão breve que a primeira e última linhas do conto quase se tocaram sem o que você queria dizer entre elas.

    Eu gostei desse final, mas ele cairia melhor se pudéssemos entender mais sobre o mundo que você criou.

    Parabéns e boa sorte.

  26. Wilson Coelho
    21 de março de 2014

    Achei o texto bem escrito, mas o enredo foi muito simples. Não houve um desenvolvimento adequado do personagem, em minha opinião.

  27. Anorkinda Neide
    21 de março de 2014

    Olá!
    Apesar de não assimilar a ideia de q o protagnista esteja sozinho no planeta… Mas gostei da chegada do ETs! Amei isso! hehhehe

    Abração

  28. Claudia Roberta Angst
    20 de março de 2014

    O conto é curto e segue uma linha de reflexão poética. Estamos sós? Nunca. Nem reparei nas palavras unidas, claramente um problema de transposição do texto. Não me incomodou mesmo.
    Gostei das imagens, de um fim do mundo menos agonizante transformado em uma revelação científica. Leve e interessante. Boa sorte.

  29. Pollux
    20 de março de 2014

    Obrigado pelos vossos comentários Thiago e Jefferson 🙂 No conto algumas palavras estão juntas, sem o espaço, mas não foi culpa minha, já que no conto que enviei todas as palavras tinham o espaçamento correcto. Já pedi à equipa do EntreContos para corrigir essa situação.
    cumprimentos

  30. thiagoalbuquerqque
    20 de março de 2014

    Gostei do texto, mas as falhas na escrita, tiraram parte de seu brilho e devo confessar que por vezes truncaram a minha leitura.
    Um bom conto.
    Abraço.

  31. Jefferson Lemos
    20 de março de 2014

    Eu até gostei da ideia, a história é bem agradável, e o final foi muito bom também. Mas o texto necessita de revisão. Mesmo sendo pequeno, quando se tem muitas pequenas coisas(errinhos), o texto pode ficar cansativo.

    Enfim, é um bom conto, e o autor merece os parabéns.

    Boa sorte!

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Informação

Publicado às 20 de março de 2014 por em Fim do Mundo e marcado .