EntreContos

Literatura que desafia.

A Crítica e a Rachadura (Gustavo Araujo)

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Um dos maiores prazeres para qualquer escritor é ver o reflexo de suas ideias, a impressão que sua escrita causa em outras pessoas. Esse retorno é essencial para que possamos entender a maneira como nossos textos chegam aos leitores, para saber se nossa escrita agrada ou não.

De fato, uma espécie de satisfação pessoal – alguns dizem, inigualável – nos atinge quando alguém pronuncia algo próximo de “olha, gostei muito do que você escreveu.” Realmente, isso funciona como um bálsamo, um atestado de que aquilo que escrevemos toca o coração dos outros, levando-nos a uma sensação de onipotência. No alto do Olimpo, sentimo-nos deuses, capazes de qualquer façanha.

Mas, e quando o que escrevemos gera comentários negativos? Ah, quando isso acontece, é como se alguém gritasse “Parem as prensas!” Uma crítica a um texto é como falar mal de um de nossos filhos. Até podemos aceitar que não são perfeitos, mas aceitar que outros apontem suas falhas é demais.

A grande maioria dos autores – pelo que percebo nos comentários postados nos textos do EntreContos – parte em defesa de seus escritos como um general convocado às pressas para uma grande e decisiva batalha. Como um exército improvisado, normalmente essa defesa carece de elementos técnicos. O autor, ofendido, trata de expor justificativas que, na maior parte das vezes, tendem a levar o debate para o campo das suposições abstratas. Isso quando não carregam um tom evidentemente depreciativo direcionado àquele que manifestou a opinião desfavorável.

Escritores são extremamente competitivos. Ao termos revelados nossos defeitos, sentimo-nos diminuídos, jogados um passo atrás na corrida evolucionista, perdedores nesse darwinismo literário.

Talvez por uma questão de natureza, de genética até, não estamos preparados para ouvir opiniões negativas a respeito do que escrevemos. É claro que existem aqueles que, contrariando os instintos mais básicos, presentes no DNA desde o tempo das cavernas, conseguem passar uma imagem de frieza e distância, do tipo que não dá a mínima para as críticas. Não nos enganemos, mesmo esses, quando se deparam com uma crítica (qualquer uma, mesmo as ditas construtivas) querem, na verdade, esganar aquele que esfregou em suas caras o quanto ainda devem melhorar.

Mas não nos desesperemos. Mesmo autores consagrados padecem desse inconformismo. O melhor é aceitar que isso faz parte do ofício. Tanto as críticas como a vontade de rebatê-las com um taco de beisebol na cara de quem as formula. O caminho, por mais óbvio que pareça, passa pela percepção de que não, não estamos no Olimpo. E que não, não somos deuses. Elogios são como máscaras de nossos defeitos onipresentes e críticas representam degraus rumo à evolução literária. Devemos sempre repetir esse mantra, ainda que seja difícil colocá-lo em prática.

Por isso, em que pese o tom leve deste texto, não creio que críticas devam ser rebatidas. Um texto deve se sustentar sozinho, sem que o autor venha em seu auxílio. Justificar impressões negativas acaba sendo o mesmo que reparar a rachadura de um prédio usando chiclete. Não funciona. Só parece engraçado para quem vê de longe.

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3 comentários em “A Crítica e a Rachadura (Gustavo Araujo)

  1. Fabio D'Oliveira
    29 de agosto de 2015

    Um texto que fala muito em pouquíssimas palavras.

    A sociedade atual é competitiva. Sendo assim, crescemos aprendendo a competir com os demais.

    “Eu sou o melhor!”

    Essas palavras ecoam pela mente da maioria da população. O engraçado é que não está nem perto da verdade, pois todos coexistimos. Sem um leitor não há um escritor. Sem um escritor não há um leitor. No fundo da questão, a guerra pertence aos egos. E somos todos iguais em graus diferentes. É uma bela contradição que poucos entendem. E qual bela ela é!

    O nível de aceitação das críticas reflete na maturidade do escritor. Quanto mais maduro ele for, mais chances ele terá de alcançar o ápice de sua potência.

    Estamos todos crescendo. E começar a enxergar que todas as críticas vêm para o bem é um grande avanço!

  2. Eduardo Selga
    26 de agosto de 2015

    A despeito de eu concordar com o exposto no texto, gostaria de tentar ampliar um pouco a reflexão do último parágrafo.

    Sim, o conto precisa bastar-se por si próprio. No entanto, é preciso observar o seguinte: o autor quando produz seu texto tem em mente um leitor ideal, ou seja, quem é aquele que lerá sua trama, e isso inclui classe social, nível cultural etc. Pois bem. É para esse leitor ideal que o conto precisa ser autoexplicativo, fundamentalmente. Se outro público entender o texto de modo diverso do leitor ideal, o autor não deve se preocupar, mesmo porque se tentar fazer cafuné em gregos e troianos o reflexo se mostra no texto na forma de clichês, esterótipos e outras tábulas rasas.

    O apreciador das sutilezas de Machado de Assis provavelmente não se compraz lendo narrativas em que tudo está dado de mãos beijadas. Do mesmo modo, o fã incondicional de algum autor que não trabalha a palavra por considerar que o importante mesmo é a ação não terá “saco” para o Machadão, esse velho ultrapassado. Afinal, por que esse cara não diz tudo ás claras?

  3. Fabio Baptista
    6 de agosto de 2015

    Algumas críticas me deixam puto.
    E o dia que não ficar mais puto com nada, paro de escrever.

    Sobre rebater… realmente não adianta. Por mais de boa que se fale, sempre vai parecer que você não assimilou o golpe e quer se defender desesperadamente.

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Publicado às 19 de março de 2014 por em Artigos e marcado .