EntreContos

Detox Literário.

Infiltração (Rubem Cabral)

infiltracao

As adolescências muito castas fazem as velhices dissolutas. (André Gide)

Dr. Gabriel Rizzi, parapsicólogo.

Faz sete dias que tenho o mesmo sonho. Ipsis litteris.

Ao fundo, um céu revolto, coalhado de nuvens castanhas e prenhes de relâmpagos. Há uma sensação de estranheza, de ameaça iminente, um cheiro elétrico que faz eriçar os pelos do pescoço e que justificaria a expressão inglesa “goose bumps”.

Diante de um andarilho magro, vestido como um bufão, um cânion, a mãe de todos os abismos se aproxima. Distraídos, seus pés pisam o solo duro e pedregoso aos tropeções, pois ele só tem olhos para a irreal borboleta azul que voa acima de sua cabeça.

Um cachorro pequeno e branco rosna e o puxa pela barra da calça esfarrapada, mas ele não dá atenção; está mesmerizado pelo inseto. O cão é seu amigo; sua última conexão com o mundo real. O cão é seu inimigo; o derradeiro elo da corrente que tenta impedi-lo de voar. Um pontapé vigoroso faz o animalzinho desistir de tamanha fidelidade e se afastar, ganindo, com o rabo entre as pernas.

O calejado ombro direito do estranho já não se ressente do peso de seus pertences, envoltos numa trouxa que ele leva pendurada num galho talvez desde sempre. Sua mente está finalmente liberta, não mais atada às amarras da lucidez, aos grilhões da responsabilidade.

Há somente a beleza fascinante da criatura diáfana, e isso lhe alegra, isso lhe basta.

Agora isso é tudo o que importa.

Quando ele finalmente despenca da beira do penhasco, em direção ao fundo de pedras pontiagudas, com os guizos do chapéu e dos sapatos tocando a sinfonia que ele jamais ouvirá por completo, o jovem ainda tem os olhos voltados para cima, para a borboleta que vai ficando diminuta; um ponto azul, um borrão, um nada. E ele gargalha, ao fantasiar mil vidas: ela, sua amante e confidente, ela, sua montaria mágica em batalhas. Sua nêmese, sua alma-gêmea, sua vítima.

Enfim então a morte beija seus lábios inertes com sua boca descarnada. Por alguns segundos a esquelética senhora o encara com órbitas vazias, parecendo cheia de admiração, sorri (ou me passa essa impressão – há certamente um ar de sorriso) e diz:

— Et Pluribus Unum.

“Dentre muitos, um”, traduzo. Mesmo no sonho eu sei latim.

E então eu sempre acordo assustado, sem saber quem é o rapaz magro ou o que o sonho significou.

***

O Espectro.

Nahhhh, humm…

O Além é um oceano infindo, um fluxo de ectoplasma, que corre furioso, paralelo ao Mundo Real. Descobri isso da única forma possível; ao morrer e ao escorrer fluido, livre de quaisquer amarras, misturado a outras consciências e a pedaços destas, num torvelinho promíscuo, ganhando partes de outros, perdendo partes que julgara minhas um dia. Percebendo ecos, lamentos, discursos em línguas mortas, pensamentos suicidas, ideias geniais, loucura. A lembrança do gosto da carne de mamute, o cheiro do sangue dos guilhotinados, o arrepio na alma, ao comungar com os deuses, mergulhando a cabeça nas águas imundas do Ganges, as picadas lancinantes das tocandiras enfiadas numa luva de folhas.

Tudo isso, tudo ao mesmo tempo, sempre.

Por quanto tempo? Ora, essa pergunta não faz muito sentido, pois nós, os desencarnados, não percebemos o tempo da mesma forma que os que ainda vestem corpos. Por tempo suficiente, eu diria.

E esse mar de muco coloidal, sei que ele tangencia a realidade lá fora, geralmente bem separado por espessas paredes que, contudo, tendem a ficar mais finas em certos sítios: nos cemitérios, em lugares ditos assombrados, em locais de invocação. Nossos sussurros podem então ser ouvidos, podemos ser percebidos e interagir com os vivos.

Shhhh, eu sopro em seu ouvido…

Excepcionalmente, uma rachadura mínima num destes pontos de paredes finas, uma falha no projeto do Arquiteto Primordial ou algo implantado por seu oponente, pode permitir uma infiltração, uma válvula de escape do Além.

Ahhhhh, o sonho da carne, possuir carne quente e pulsante, subjugada, mais uma vez… Hummm.

***

Lúcia Siqueira.

— A casa é velha e precisa de alguns reparos, mas o preço tá incrível, não? Realiza só, meu amor – ele faz um quadrado com os dedos, feito faria um diretor de cinema – este pé-direito altésimo, uma parede de tijolos sólidos expostos, ali, junto à lareira da sala, móveis de madeira de demolição, uma ilha de mármore travertino na cozinha, fogão de indução, coifa de aço escovado. Luxo e décadence neoburguesa!

Eu roço os dedos na pontinha da trança caída sobre meu ombro direito, cacoete antigo desde tempos de menininha; estou matutando. Marquito, o jovem arquiteto-decorador, é uma dessas loucas por misturas radicais: se eu permitisse o tresloucado transformaria aquela velha mansão num tipo de museu arte-déco-rústico-rococó com cortinas de lamê e almofadas de renda de bilros garimpadas numa feira de artesanato. Entretanto, sobre uma coisa aquela maluca de cabelo moicano cor-de-cereja tem razão: a casa tem um preço ótimo, preço antebolha.

Subimos os dois mais a corretora pelas escadas densamente acarpetadas, ladeadas por um corrimão alto, do tipo que deixaria uma Scarlett O’Hara confortável ao descer portando seu vestido de cortina verde. Checamos os seis quartos e quatro banheiros do andar superior. Baixamos uma escadinha retrátil de madeira e nos aventuramos no sótão, imenso, cheio de lustres antigos, móveis, sofás arruinados. De repente, um pingo de algo viscoso cai do forro meio podre sob as telhas e molha minha nuca.

— Ai, droga! Que nojo! – Faço uma expressão de asco, ao esticar algo translúcido dentre os dedos, feito baba ou sêmen frio. — Parece até que alguém derramou clara de ovo ou geleca no meu pescoço, pra não dizer outra coisa! Vamos, me empresta o seu lenço, Marquito.

— Pode ser caca de passarinho, mona. Dá sorte! É um sinal – ele pisca um olho e ri – reparo que há um brilhante engastado num dos seus incisivos.

A corretora bovinamente anui e exibe um sorriso digno do gato de Alice.

Percebo então um formigar descer pela coluna, um calor menopáusico uns dez anos adiantado, que quase me faz suar e eriça meus mamilos. Um flash, um pensamento repentino, de algo obscuro e imensamente indecente, me causa certo estremecimento e me faz morder os lábios, sem querer.

— Sim – gemo, discretamente apertando as coxas contra o sexo e já pressentindo alguma umidade – é um bom sinal. — Vou comprar. Ah, meu Deus, alguém abra uma janela, ai, que calor é esse?!

***

Dr. Gabriel Rizzi, parapsicólogo.

Aliso o velho pendão de ágata do Tibete que sempre levo ao pescoço. Presente raro, dado somente aos monges graduados que mais se destacaram nas matérias espirituais. Recito o antigo mantra que aprendi com os mestres. Sinto-me protegido.

O telefone toca. Não reconheço o número no painel.

— Alô, o Dr. Gabriel, por favor?

— É ele quem fala.

— Bom dia, é da Corretora Novos Rumos. Meu nome é Salete, o senhor se lembra de mim? Estou tratando da venda da mansão…

— Ah, sim, claro, claro. Alguma novidade?

— Pois bem, uma empresária viu sua casa pela manhã e adorou. Tanto que quer fechar negócio hoje mesmo! Por sorte renovamos as certidões recentemente e é só assinar um contrato de promessa de compra e venda e marcar depois o dia da escritura.

— Hã, mas assim, tão de repente? Eu tenho um compromisso logo mais e…

— Doutor, a casa tá pra ser vendida faz mais de três anos. Já havíamos baixado o preço umas quatro vezes e ninguém se interessou. Tô falando de compra à vista, dinheiro na sua conta logo após a compensação do cheque administrativo! Desculpe o toque, mas faça um esforço, por favor.

— Bem, eu…

— A compradora, Dona Lúcia Siqueira, é dona de uma empresa de advocacia e exige comprar hoje. Podemos marcar? Três da tarde, na sala de jantar da sua mansão. Leve CPF original e identidade.

— Na mansão?! Por que não no escritório da corretora?

— Um capricho de Dona Lúcia, coisa de mulher poderosa e ocupada… Não vamos contrariar a cliente, não? Logo ela vai ser dona da propriedade, de qualquer jeito.

— Sei. Levo talão de cheque?

— Não precisa. A compradora desconta nossa comissão do valor do seu cheque e faz outro pra gente na hora. Combinado?

Que coisa estranha, tão repentina!

Minha mente divaga, recordo-me dos sonhos, a imagem do jovem tolo caminhando para o abismo…

Os arquétipos do tarô. Como eu não havia pensado nisso antes? O Louco, a carta número zero, o arcano superior que define mudanças por vir: o fim da estagnação, sinônimo de leveza e irresponsabilidade, o coringa. E agora esse telefonema inesperado… A casa de mamãe, finalmente com uma proposta concreta de compra! É isso! Uma clara mensagem sobre a mudança que estava por vir.

No entanto, há alguma coisa aí que não se encaixa: um sinal tão forte dos espíritos sendo desperdiçado com algo tão… mundano? Ad astra per aspera, eu sei. Porém tem algo que certamente me escapa…

Ora, Domine dirige nos. Quem sou eu para reclamar da sorte?

***

O Espectro.

Nahhh, hummm… Não é fácil invadir, controlar, fundir-se. Cada compartimento do cérebro parece emperrado e bem lacrado. Memórias mofadas, uma droga de infância sem graça e asséptica, colégio de freiras, educação católica tradicional, repressão, vergonha… Bosta, bosta! Ainda por cima a maldita solteirona é vegetariana! Morro de aflição ao pensar em dentes chatos amarelados, ruminando raízes fibrosas e folhas.

Porém, pinçando aqui e acolá, desejos contidos, fantasias, uma bacanal somente sonhada numa noite de lençóis molhados, admiração pelo pai quase beirando o incesto, o ímpeto nunca satisfeito de estrangular a irmã mais velha certa vez, a culpa de ter afogado um gatinho num tanque aos sete, uma experiência meio lésbica durante a faculdade. Há material aqui, não muito, mas pode ser trabalhado.

Basta só um empurrão. Ou um belo pontapé.

***

Lúcia Siqueira.

Sinto-me poderosa. Comprar uma casa que certamente vai valorizar e me deixar ainda mais rica, assim, num estalo. Em outros tempos eu demoraria um mês ou mais. Indecisa, visitaria o imóvel umas quatro ou cinco vezes e negociaria o preço até o proprietário ficar com raivinha de mim, mas não.

Eu posso, eu quero, eu tenho!

Ai, Deus, e esse calor? Essas ideias embaralhadas? Deve ser a tireoide, preciso ir ao endo outra vez. Agora, uma ducha pra esfriar a cabeça, pensando bem, talvez uma ducha íntima também, bem vigorosa. Até que esse hotel não é mau.

Ah, meu coração disparado, minha respiração entrecortada, feito quando menina eu brincava de pique, sempre voltando imunda, descabelada e suada do recreio, para o horror das irmãs e das amiguinhas engomadinhas.

Batem à porta do quarto.

— Lu, são duas e vinte, só passei pra combinar, meu amor; quinze pras três na recepção do hotel, valeu? Não vá dormir ou se esquecer… Quero depois te enlouquecer com as ideias que eu tenho para a casa: vai ficar um arraso!

Nahhh, hummm, Marquito, apesar de não gostar de ostras, é até bem apanhado, hi, hi, hi, tem um corpinho malhado e um rosto bonito, um desperdício, certamente daria um caldo. Deve ter passado por algum trauma na infância, o coitadinho, mas com a mulher certa…

Deus, claro que não! Onde já se viu?

— Vou só tomar um banho e já desço. Beijinho! – Despeço-me.

Nahhh, carne…

***

Dr. Gabriel Rizzi, parapsicólogo.

Sinto o pescoço arrepiar enquanto dirijo e instintivamente seguro o pendão de ágata. O céu está com cara de poucos amigos, carregado, e com um tom esverdeado esquisito. Venta muito e os redemoinhos parecem desenhar formas com as folhas, como cardumes de peixes ou bandos de pássaros, fugindo de algum predador.

Minha mente viaja e recordo-me dos tempos em que mamãe recebia seus amigos para suas famosas sessões espíritas. Sobre como era fácil contatar o além daquele lugar privilegiado. Lembro-me também de meu tormento; desde pequeno escutando sussurros e todo tipo de ruídos estranhos, aquele frio sepulcral de dedos invisíveis tocando meus pés à noite. Nunca suportei o lugar. Nos anos 80, com dezoito recém-completos viajei com meus amigos hippies para o Oriente e me perdi no mundo, assim que eu pude.

Estaciono na rua, o portão da casa está aberto e entro. Estranho! Há flores como anêmonas marinhas, espalhadas por todo o gramado. Aperto o passo quando tenho a ilusão que as flores estão movendo seus tentáculos.

A porta está entreaberta, bato de leve com os nós dos dedos e entro.

“O Primeiro” – escuto alguém sussurrar, tenho certeza que ouvi. Maldita casa! Ficarei feliz quando me livrar dela.

Não há ninguém na sala de jantar. Checo o relógio, são três e nove, pensei que chegaria atrasado, mas onde estão todos?

“Bam, bam, bam” – ouço um forte ruído de martelar em madeira, vindo do andar de cima.

— Oi. Salete? Dona Lúcia? Alô! Sou eu, Gabriel, o proprietário. Onde estão vocês?

Alguém parece chorar e rir ao mesmo tempo, as batidas continuam. Dirijo meu olhar à porta de entrada, que se fecha sozinha com um estrondo. Reparo que não havia vento; pelas janelas noto que a tempestade que se formava não ergue mais folhas lá fora, está tudo calmo, como num olho de furacão. Tento abrir a porta, mas ela emperrou. Tenho um pressentimento ruim e aliso o pêndulo de pedra, sinto frio.

Ascendo às escadas, com o coração golpeando o peito. Cogumelos fluorescentes brotaram do corrimão ao carpete. Isso não faz sentido! Vasculho os quartos e descubro que as batidas vêm do sótão. Alguém geme numa voz que muda de tom o tempo todo:

— Plutôt que de répéter sans cesse à l’enfant que le feu brûle, consentons à le laisser un peu se brûler: l’expérience instruit plus sûrement que le conseil. I will drive deeper the thorns into your rancid carcass, you profaner of vices. Dame el cuchillo y te haré una cara nueva y mejor, cabrón. Impia tortorum longos hîc turba furores, sanguinis innocui non satiata, aluit. Abápe endé?

Obsoletamente me recordo que esqueci o celular no carro e que, óbvio, os telefones da casa foram todos desligados há anos.

Trêmulo, subo os degraus da escada retrátil e caio de joelhos diante do que vejo.

Uma mulher mulata, pequena e nua (Salete?) jaz sobre um sofá, sem a pele, do umbigo para cima, a cabeça livre do couro cabeludo. Infelizmente, a pobre parece ainda viva e chora lágrimas que descem queimando sal pelo rosto esfolado.

Cheio de adrenalina, ponho-me prontamente de pé. O piso afunda mole e morno sob meus sapatos e ronrona.

Um repugnante fluxo de muco desce desde o teto até outra mulher, corpulenta, alta e nua, com o rosto besuntado de sangue, reclinada sobre um divã que ela levanta e faz cair no chão, pesadamente. Ela tem a cabeça de um jovem, também nu, enfiada na vagina impossivelmente dilatada, enquanto faz movimentos para frente e para trás. O rapaz se debate e tosse; com certeza está sufocando. Há espuma abundante nos cantos da boca da mulher e seus olhos se reviram, exibindo cores impossíveis.

***

O Espectro/Lúcia Siqueira.

Não, não, tenho que… Nahhh… Carne dentro de carne lubrificada de sangue, viola-me, te arrombo… Eu não quero, pare!

Humm, quem é o outro homem? Mais carne! Arghhhh, ele possui algo que machuca, que dói olhar, coisa muito velha, com fedor de incenso.

— Ahhhhh! Socorro, me ajuda, me arrebenta o ra…

***

Dr. Gabriel Rizzi, parapsicólogo.

O que é esta manifestação?! Seguro o pêndulo com força, concentro-me e recito um encantamento no meu parco tibetano. Algumas frases de rituais de exorcismo católico também. Abundans cautela non nocet.

— Pequeno mago, tu esperas ferir-me ou expulsar-me com magia branca de principiantes? Eu sou o primeiro, eu sou o molde original, caminhei sem rumo pela Terra ainda na aurora dos tempos. Sou aquele que incorporou parte de todo delirante desencarnado desde então. Eu não sou um reles espírito louco, sou a essência concentrada da própria Loucura. Nahhh, hummm… Logo que eu estiver novamente inteiro virarei esta realidade ao avesso, abrirei este universo como a barriga de um peixe! Carne! Eu quero mais! Agora, dispa-se, vem junto a mim, pois tenho muito a te ensinar. Moço, me ajuda!

Eu não tenho controle sobre meu próprio corpo. Minhas mãos sacam minhas roupas com rapidez e, envergonhado, vejo-me arrastado até a mulher, que, com um gesto brusco, empurra o jovem já desfalecido para longe de si. Sua genitália está como um túnel rubro, porém seus pervertidos pensamentos, inseridos à força nos meus, conseguem de alguma forma me excitar.

— Beija-me, pequeno mago. Com ardor, com língua, com dentes! Nahhh… Abyssus abyssum invocat.

Sua boca é um poço gorgolejante e escuro, os dentes estão partidos e a língua rasgada em dois trapos irregulares. Recito um mantra mentalmente, o encantamento de proteção mais poderoso que conheço, e noto que comando outra vez minha vontade. Num átimo, sem pensar nas consequências, arrebento o cordão em meu pescoço e enfio o pendente de ágata do Tibete na garganta da mulher, que, pega de surpresa, o engole.

— Isso machuca, muito, nahhh, não posso suportar… Tu pagarás, eu prometo, te violarei mil vezes, te afogarei em vômito, te enforcarei com teus intes…

A realidade parece sair de fase, o sótão se dissolve em cores berrantes, vermes afloram das paredes e uma chorosa algaravia de idiomas mortos se faz ouvir. Depois… Silêncio. Lúcia começa então a gritar e chorar, o chão voltou ao normal, o divã não mais se eleva e cai.

Verifico o pulso do rapaz e de Salete. Ambos estão mortos. Não sei como explicarei o ocorrido à polícia. Retiro um lençol que cobre um dos móveis e dou para a senhora se enrolar, enquanto visto minhas roupas outra vez. Preciso ir até o carro e ligar para o serviço de emergência.

***

Dr. Gabriel Rizzi, parapsicólogo.

Faz dois dias que tenho o mesmo sonho. Ipsis litteris.

Um garoto louro está pendurado pela perna esquerda sob uma forca que é uma árvore viva, com folhas verdes. Ele está de cabeça para baixo ou é o mundo que está? Considerando a expressão em seu rosto, o rapaz parece feliz com seu sacrifício ou revela entendimento profundo de sua condição. Representaria o martírio pelo perdão dos pecados de outros – algo profundamente cristão – ou castigo divino por vir, como punição por nossos erros?

Quando o simbolismo referente ao arcano superior já me parece óbvio, eis que uma mulher ruiva e um bufão, montados num leão gigante, surgem. Sem esforço, ela quebra a árvore com um golpe e resgata o rapaz. A ruiva diz “Hostis nunquam contemnendus”, antes dos três, então montados juntos no lombo da fera, desaparecerem de vista.

E então sempre acordo, sem compreender toda a mensagem. Contudo, não tenho porque aguardar novos recados do Além. Algo grande está a caminho. Uma vez mais.

Parto hoje mesmo para o exterior, atrás do conselho de gente muito mais sábia. Lhasa, Vaticano, Meca, Jerusalém, em alguma dessas cidades antiquíssimas alguém com certeza poderá ajudar.

A fala da mulher, numa tradução livre, significa: “O inimigo nunca será desconsiderado”. Sim, mesmo nos sonhos eu sei latim.

49 comentários em “Infiltração (Rubem Cabral)

  1. Lucas Guimarães
    24 de fevereiro de 2014

    Olá, Le Fol. Gostei muito do seu conto! Além da narrativa ter conseguido me prender até o fim, suas descrições e cenas conseguiram me transportar para a história. Realmente, muito bem escrito! Parabéns!

  2. Pedro Luna
    23 de fevereiro de 2014

    Gostei mais do final que do início. Bizarrão do jeito que curto. Violento, desperta a curiosidade. Eu curti muito.

  3. Tom Lima
    22 de fevereiro de 2014

    Jhon Constantine? 🙂

    Gostei bastante do conto. A variação dos pontos de vista de um ritmo bem interessante. As imagens saltavam vivas, tornando a leitura até um pouco angustiante em certas partes. O autor consegue manipular palavras e emoções muito bem.

    Parabéns, é um dos meus preferidos.

  4. Leandro B.
    19 de fevereiro de 2014

    Em primeiro lugar, me entretive bastante com o conto e, no fim das contas, creio que esse seja um dos aspectos mais importantes de uma história. Parabéns pela construção da atmosfera do sonho. Acho que está irretocável.

    Admito, contudo, que estranhei um pouco a proporção que a criatura tomou. Da primeira vez que li o texto não compreendi o fato dela se denominar como algo primordial e ancestral. O espectro me parecia, apenas, um amalgama de espíritos insanos, recentes ou não. Li o texto novamente e essa autodescrição ainda me parece um pouco confusa, talvez porque na primeira passagem do espectro ele não parece se colocar nesse papel.

    Quanto ao final, creio que ficou devendo, não tanto pela violência da cena, mas pelo fato do texto ter sido escrito em primeira pessoa. Dificilmente algo tão bizarro poderia ser escrito apenas da ótica de um personagem sem parecer um pouco… forçado. Entende? Em terceira pessoa é possível utilizar um certo distanciamento, ainda que se mescle com a perspectiva de um personagem. Claro que isso sacrificaria a estrutura que foi escolhida pelo autor. De todo modo, reforço que gostei da história.

    Tinha um palpite de quem havia escrito o conto quando comecei a ler, mas depois da metade mudei de ideia e ampliei minha lista para três autores. Estou curioso para saber se algum palpite está certo.

    Bom conto, parabéns.

  5. Weslley Reis
    19 de fevereiro de 2014

    No início, achei que não fosse gostar do conto. A alternância dos personagens e uma inicial falta de ligação dos fatos não me fisgou. Mas no desenrolar acabei sendo fisgado e segui preso até o final.

    Só achei o clímax/desfecho rápido demais. Mas atribuo isso ao número de caracteres limitado.

    Parabéns ao autor

  6. Blanche
    17 de fevereiro de 2014

    O começo não me agradou. A experiência do autor com palavras é evidente e inquestionável, mas eu tive vontade de ler o conto de cima para baixo após a confusão mental que a primeira aparição do Espectro me causou. Contudo, a leitura engrenou depois disto e tornou-se deliciosa. Incrível essa capacidade de fazer o leitor mergulhar no contexto surreal do conto e se interessar pelos personagens (que, mesmo em um espaço tão curto, foram bem construídos).

    Porém (e redijo esse adendo com muita infelicidade no peito), o final ficou… Vejamos… Ridículo. Não pelo conteúdo em si, e sim pelo fato do autor ter sido prejudicado pelo limite de caracteres e – consequentemente – encerrado o texto de forma tão abrupta.
    De qualquer forma, penso que constitui roteiro para um bom livro/filme. Parabéns!

    • Blanche
      17 de fevereiro de 2014

      Ops.

      Corrigindo: de baixo para cima*

  7. Gustavo Araujo
    17 de fevereiro de 2014

    Muito bacana a ideia de abordar diferentes arcanos por intermédio de três vertentes. Achei o conto bem escrito, envolvente e ao mesmo tempo denso, mas por vezes repugnante – mérito do autor. Gostei em especial da primeira metade. A atmosfera criada, repleta de suspense, torna a leitura bastante prazerosa, urgente até – um page Turner, se estivéssemos falando de um livro. Mas, assim como outros por aqui, creio que o final não esteve no mesmo nível. E quando digo “no mesmo nível” não quero dizer que está pior. É que o conto sofre uma subversão tão grande que fica difícil acompanhar. É como se estivéssemos olhando um por do sol bucólico e de repente chegasse, sem qualquer aviso, um daqueles furacões típicos de “The Band Concert”, o clássico da Disney (meu desenho favorito em todos os tempos). O que quero dizer é que houve uma quebra muito grande no ritmo do conto. Talvez tenha sido essa a intenção do autor – chocar, jogar o leitor no turbilhão – mas para mim ficou um pouco exagerado. Bem, o que eu poderia esperar? O conto, ou melhor, o arcano que se sobressai no conto é o Louco, certo? Então o final talvez esteja adequado e eu é que não soube apreciá-lo. Pode haver, afinal de contas, beleza na tempestade, não? Parabéns pela criatividade e pelo uso original dos arcanos. Parabéns pela construção dos personagens. Enfim, parabéns pelo trabalho excelente.

  8. Alan Machado de Almeida
    15 de fevereiro de 2014

    Fica difícil competir com um conto bem escrito desses, ao meu ver parece até de escritor profissional. Muito bom mesmo, parabéns.

  9. Frank
    14 de fevereiro de 2014

    A escrita é maravilhosa e mostra um autor em pleno domínio “da matéria”. As descrições “das paredes mais finas” permitindo contato foram simplesmente sublimes!
    Por questão de gosto pessoal não curto essa forma “quebrada” de contar a história (minha mente de pesquisador meio que gosta de ir ligando os pontinhos em ordem crescente…rs).
    Também achei que a descrição das cartas (como no caso do louco) muito descritivas; aquilo que se encontra bem comumente por aí (claro que, no estilo do conto, elas ganharam cores).
    Achei que a primeira parte (até a chegada do parapsicólogo) e segunda ficaram meio “desconexas”…
    Independentemente, o conto é bom demais e vou, a partir de agora, acender todo dia uma velinha para um dia conseguir escrever desse jeito. Meus sinceros e invejosos…hahahaha…parabéns!

  10. Ricardo Gnecco Falco
    6 de fevereiro de 2014

    Um conto bem diferente. Pelo menos bem diferente do que eu esperava. Gostei demais do poder deste autor de criar imagens na cabeça do leitor. E imagens fortes. Confesso que até a metade estava achando o conto perfeito e já pensando em colocá-lo no lugar mais alto do pódio mas, depois que os cogumelos apareceram (quase que de verdade), o conto entoou um canto de ficção alto demais para mim, causando-me certo desconforto.
    Até enveredar para o final insano como o arcano retratado, deliciei-me bastante com algumas imagens. Inclusive imagens que nunca parei para pensar antes. Tipo a descrição do líquido viscoso que cai do teto do sótão sobre a pele de Lúcia e, em uníssono, tanto o narrador quanto a personagem soltam imagens indagativas muito interessantes. Destaque especial para a utilização de sensações térmicas para gerar diferenciamento de cores na mente dos leitores. Ou seja, uma mistura de sensações magistralmente utilizada para resultar em uma nitidez absurda de imagem mental. Isto, para mim, é um poder que poucos deuses conseguem bem utilizar, mesmo os onipotentes e oniscientes deuses criadores de histórias.
    E, esta “união empírica” aqui presente entre o narrador e as personagens talvez seja o mais rico elemento desta obra, facilitando ao leitor (pelo menos até perto do final) deleitar-se confortavelmente com toda a loucura criativa existente na história.
    Gostei demais da escrita/estilo, até antes do Gabriel partir para a casa que seria vendida. O tom da transformação interna (a externa eu realmente não gostei, achei que ficou exagerada e a autora perdeu a mão) de Lúcia, seus pensamentos e trejeitos, ficaram perfeitos.
    Parabéns pela obra e, mesmo não gostando tanto da parte final, certamente este conto estará em meu pódio, pois me trouxe/acrescentou muito durante a leitura.
    Foi quase uma ruptura de paradigmas literários para mim!
    Forte abraço,
    E boa sorte!
    🙂

    Paz e Bem!

    • Le Fol
      7 de fevereiro de 2014

      Nahhh. Hummm.

      Obrigado pelos elogios e críticas. O que mais poderia querer um pobre autor além de lograr inserir imagens e sensações (agradáveis ou não) nas mentes dos leitores? Felicíssimo, portanto, com vosso comentário tão generoso.

      Penso realmente em rever o final, porém talvez introduzindo mais loucura, uma espécie de apocalipse com a chegada do Louco causando a total ruptura de nossa realidade.

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  11. Pétrya Bischoff
    5 de fevereiro de 2014

    Escrita maravilhosa! O conto também é interessante. Amei principalmente a maneira com que apresentas O Enforcado. Na verdade, todos os arcanos são apresentados com muita maestria.

    Apesar de não gostar das expressões/frases em outras línguas, tens o mérito de haver enriquecido muito o conto.

    A narrativa em partes não me incomodou ^^

    Enfim, parabéns e muito boa sorte 😉

    • Le Fol
      7 de fevereiro de 2014

      Nahhh. Hummm.

      Obrigado pelos elogios e críticas. Feito comentei numa resposta anterior, o uso de citações em outras línguas foi algo como um artifício para denotar que a criatura era sábia e antiga.

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  12. Thata Pereira
    5 de fevereiro de 2014

    Hum, vou ser sincera, não gostei do conto se for considerar ele todo. Comecei a gostar no início, mas eu não gosto dessa narração separada por personagens. Uma vez tive a ideia para um romance, mas acabei largando mão de escrevê-lo pois precisava dessa narração interrompida. Interrompida, porque para mim quebra todo o ritmo da história.

    A escolhida é linda e cheguei a sentir afeição em alguns trechos, mas como um todo não me agradou.

    Boa Sorte! 🙂

    • Thata Pereira
      5 de fevereiro de 2014

      ps: a imagem escolhida*

      • Le Fol
        7 de fevereiro de 2014

        Nahhh. Hummm.

        Obrigado pelos elogios e críticas. O conto foi uma experiência qto ao uso de vários narradores. Encarei mais como desafio de dar vozes diferentes a eles (os narradores). Entendo a questão de gosto pessoal, contudo até que não considero que haja alguma grande quebra no fluxo narrativo por conta da troca de narrador, noto até algum enriquecimento, pois permite-nos outras visões e pontos de vista.

        Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

        Nahhh.

  13. vitorts
    5 de fevereiro de 2014

    Gostei demais do primeiro terço do conto, nem tanto do restante. Senti um pouco de quebra do ritmo, e também não acompanhei o parágrafo em francês. Tentei usar o tradutor do google, mas ele trouxe um resultado não muito claro.

    Mas reforço, quanto a vocabulário e narrativa, está muito bem.

    • Le Fol
      7 de fevereiro de 2014

      Nahhh. Hummm.

      Obrigado pelos elogios e críticas. O final do conto foi controverso mesmo. Penso em revê-lo…

      Quanto às frases ditas em idiomas estrangeiros pelo Espectro, eis a tradução (traduções livres):

      (Francês) “De pouco adianta repetir a uma criança que o fogo queima. Há de se permitir que ela se queime um pouco. A experiência instrui muito mais que o conselho”. (A frase é de André Gide).

      (Inglês) “Eu apertarei os espinhos mais profundamente em sua carcaça podre, seu profanador de vícios”. (A frase é dita pelo personagem Damien em A Profecia III, na cena em que Damien blasfema e aperta a coroa de espinhos na estátua de Cristo crucificado de costas).

      (Espanhol) “Me dê a faca e eu te farei uma cara nova e melhor, babaca”. (Inventei a frase)

      (Latim) “Aqui onde um impiedoso grupo de torturadores, insaciável, alimentou sua loucura sem fim por sangue inocente” (É uma citação de “O Poço e o Pêndulo” do Poe, que por sua vez é uma citação sobre uma placa colocada no portão do mercado erguido sobre as ruínas do Clube dos Jacobinos em Paris).

      (Tupi) “Quem és tu?” (sem fonte, colocada aleatoriamente).

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  14. Viúva Negra
    4 de fevereiro de 2014

    Maravilhoso conto, saudo-te por ele, Le Fool!

    • Le Fol
      7 de fevereiro de 2014

      Nahhh. Hummm.

      Obrigado pelo elogio. Que bom que você gostou!.

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  15. Paula Melo
    4 de fevereiro de 2014

    Amei o conto,a narrativa e a historia me levou a uma pequena viajem. rs
    Os detalhes estão ótimos ,não traz aquele cansaço que um conto com muitos detalhes costuma trazer.

    Parabéns e Boa Sorte!

    • Le Fol
      7 de fevereiro de 2014

      Nahhh. Hummm.

      Obrigado pelo elogio. Feliz em poder proporcionar tal viagem.

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  16. Eduardo Selga
    3 de fevereiro de 2014

    Há alguns aspectos bem interessantes que gostaria de comentar sobre este conto, a começar pelo uso de planos narrativos diferentes, demonstrando a proximidade do mundo espiritual com o mundo físico. Reforçou essa ideia de contiguidade o fato de tanto a narrativa “do lado de lá” quanto “do lado de cá” estarem no presente. O uso do narrador em primeira pessoa em três pontos de vista diferentes foi uma ousadia que deu certo. Parabéns ao(à) autor(a).

    O trato linguístico é muito bom, de modo que é possível, pelas “falas” dos personagens, percebermos a “personalidade” deles. Inclusive, considero as “falas” do personagem Marquito muito bem feita por transmitir sua condição de homossexual sem cair no exagero, o que produziria um estereótipo. Contribuiu para isso o fato do(a) autor(a) ter optado pela não descrição física do personagem e o uso de um vocabulário característico desse grupo social e também de certas mulheres (“realiza”, “meu amor”, por exemplo) composto pelo aumentativo fora dos padrões gramaticais (“altésimo”) e palavras em língua estrangeira, pretensamente chiques(“dècadence”).

    Ainda sobre o vocabulário, percebe-se que não há gratuidade no uso de estrangeirismo, eles não estão no texto por exibicionismo do(a) autor(a): o latim porque está associado a contatos espirituais, a rituais de exorcismo. E há uma “fala” que se supõe de origem fantasmal onde se mesclam o latim, o francês, o inglês e o espanhol, transmitindo ao leitor uma sensação assustadora. É um clichê, em contos do tipo, o fato de fantasmas falarem “em línguas”. No entanto, funcionou muito bem.

    Gostei da crueza da cena envolvendo os corpos na casa. A ligação do sexo (não na modalidade romântica, evidentemente) com as manifestações do chamado baixo astral e possessões. Outro clichê bem usado.

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahh…

      Muito obrigado pela leitura tão detalhada. De fato, esforcei-me para diferenciar os três narradores. Fico muito contente que tenha conseguido realizar tal objetivo.

      O latim (além do uso em rituais de exorcismo) foi usado como uma espécie de “marcador” do personagem Gabriel Rizzi.

      Feito comentei numa resposta anterior, o uso de várias línguas na fala do Espectro foi um artifício para demonstrar que a criatura era antiga e sábia (e louca). Fui meio inspirado naquela personagem de “O Nome da Rosa”, que misturava idiomas em suas falas.

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  17. Bia Machado
    1 de fevereiro de 2014

    Gostei do conto em partes. Estava gostando muito até a hora em que o parapsicólogo chegou à mansão. Até ali, as personagens me cativaram e eu estava me divertindo com as partes do espectro, rs. Mas a cena na mansão eu sinceramente não gostei. Imaginei tudo aqui acontecendo como um filme, e não gostei de visualizar tudo aquilo. Mas é gosto meu, particular, não curto muito esse tipo de ser. Não tira o mérito da sua escrita, de forma alguma. Talvez o final não tenha ficado à altura do restante da narrativa, não sei dizer. Tenho sempre um pé atrás com finais de contos, ainda mais em um como esse seu, que me parece pedir por mais texto, não terminar ali. Mas parabéns, ainda mais por não seguir a ideia da personificação dos arcanos.

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahh…

      Obrigado pelos elogios e críticas. A inspiração de algo sexual e violento veio de uma HQ que li quando criança e também do estilo sanguinolento do escritor britânico Clive Barker.

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

      • Bia Machado
        4 de fevereiro de 2014

        Pois inspirou-se bem. Geralmente eu não me incomodo com isso em livros, já em filmes sim. Não conseguiria ver uma cena dessas em um filme, por exemplo. Só que imaginei tudo isso e… argh! Então funcionou, rs. Parabéns, novamente.

  18. rubemcabral
    1 de fevereiro de 2014

    Um conto muito bom, com um crescente que provoca curiosidade em quem lê. Bem bacana a ideia de narra-lo através de três personagens distintos. Achei as partes finais meio sanguinolentas, mas curti.

    Não apreciei muito, no entanto, algumas longas enumerações, que me pareceram meio excessivas. Acho que seria interessante cortar um pouco.

    No cômputo geral, gostei bastante.

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahh…

      Obrigado pelos elogios e críticas. Enumerar coisas é uma mania difícil de se largar. Talvez deva mesmo encurtar algumas enumerações.

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  19. Anorkinda Neide
    1 de fevereiro de 2014

    Gostei bastante!!! Ao contrario dos demais, eu não estava gostando do começo e teria até largado a leitura, não fosse um conto do desafio, assim eu o faria!
    Sei lá, achei monótono, difícil e nem a narrativa do primeiro sonho me ‘pegou’.

    Mas depois, com a infiltração propriamente dita, o conto ganhou cores e para mim, coerência…
    e o final deu um gostinho de ‘quero mais’ pra gente ficar maginando o que mais acontecerá ou então numa continuação do conto mais tarde ^^

    parabens

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahh…

      Obrigado pelos elogios e críticas. Eu gosto do inicio do conto, mas reconheço que ele é um tanto difícil, por condensar muita informação antes de qualquer ação.

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  20. Harry
    1 de fevereiro de 2014

    Caramba esse eu gostei demais! Muito bom mesmo não tenho nada de ruim para falar dele. Parabéns e boa sorte!

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahh…

      Obrigado pelos elogios, Mr Potter.

      Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  21. Ryan Mso
    1 de fevereiro de 2014

    O tema do meu será justamente o Louco! Hahaha

    Bom, em linhas gerais, gostei bastante do seu estilo de escrita, como mencionado por alguém, nota-se o domínio da palavra, porém, senti também uma perda de gás em certo momento do conto. Pecou nisso. Na verdade, eu mesmo pequei nisso no conto do desafio anterior.

    De qualquer maneira, parabenizo ao autor!

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahh…

      Obrigado pelos elogios e críticas. Providenciarei mais gás da próxima vez. 😀

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  22. Claudia Roberta Angst
    1 de fevereiro de 2014

    Conto bem trabalhado e conduzido por um autor que sabe lidar muito bem com as palavras. Revela pesquisa, cuidado e paciência na construção da narrativa. Gostei mais do começo talvez por uma questão de curiosidade com o que viria depois. No entanto, o restante do texto foi bem desenvolvido. Talvez haja informação demais para o leitor absorver em pouco tempo.
    A parte do espectro mostrou-se muito interessante e densa.
    Apesar do meu francês estar bastante enferrujado, consegui compreender as expressões. Ao contrário do narrador, nem em sonhos sei latim (esqueci tudo ainda na faculdade).
    Boa sorte!

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahh…

      Obrigado pelos elogios e críticas. Meu francês é certamente pior, pois só estudei o idioma de Voltaire e Marat por meros seis meses e a frase de Gide foi controlcecontrolvezificada.

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  23. Rodrigo Arcadia
    1 de fevereiro de 2014

    O que achei bom no conto foram as visões e descrições que foram feitas dos arcanos. muito boa a descrição do louco, transmite surrealismo, que pra mim tem tudo a ver com o arcano. infelizmente para uma história que estava indo bem, a conclusão ficou estranha, como se tivesse uma vontade de encerrar o texto. ficou um lance abrupto.
    E outra coisa, tive que pular a parte do francês, culpa minha, que pra mim não entenderia nada e perderia tempo de ler.
    Abraço!

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahh…

      Obrigado pelos elogios e críticas. Na resposta do Marcellus (logo abaixo) deixei a tradução dos trechos ditos pelo fantasma.

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  24. Marcellus
    1 de fevereiro de 2014

    Gostei do conto, o autor está de parabéns.

    Ao contrário dos colegas, não achei que houve um desgaste no conteúdo. Pelo menos, não um desgaste “gratuito”. Com mais de três mil e cem palavras, seria muito difícil continuar o ritmo e terminar o conto com o limite do desafio. Considerando este ponto, o texto está muito, muito bom.

    Ah! E eu também partilho da opinião do espectro: o lance é conquistar o mundo (ou o universo, dependendo do tamanho da sua megalomania). 😉

    • Marcellus
      1 de fevereiro de 2014

      Esqueci de um detalhe importante: o parágrafo que vai do francês ao tupi. André Gide? David Seltzer? Não serviu para outra coisa que não esfregar na cara do leitor sua ignorância.

      Ao contrário de algumas citações em latim, que são brevemente traduzidas, neste caso o parágrafo todo fica lá, estático. Um monólito negro encarando o leitor. A grande maioria verá ali apenas uma desculpa para poupar alguns segundos de leitura.

      Se o parapsicólogo conseguiu ouvir (e, pelo visto, entender, já que as frases estão todas lá, escritinhas, preto no branco) foi um tanto mesquinho não partilhar com o leitor, amigo fiel que o acompanha a cada passo. Isso pode custar alguma antipatia ao autor.

      • Le Fol
        4 de fevereiro de 2014

        Nahh.

        Obrigado pelos elogios e críticas.

        Não houve intenção de expor a ignorância do leitor ou o domínio de línguas do autor (que é modesto e não sabe tantos idiomas assim). As frases foram colocadas apenas para causar estranheza, para mostrar que a criatura era antiga e sábia. São aleatórias, como a loucura do fantasma pedia. Sic et simpliciter.

        As traduções e fontes foram (traduções livres):

        (Francês) “De pouco adianta repetir a uma criança que o fogo queima. Há de se permitir que ela se queime um pouco. A experiência instrui muito mais que o conselho”. (A frase é de André Gide).

        (Inglês) “Eu apertarei os espinhos mais profundamente em sua carcaça podre, seu profanador de vícios”. (A frase é dita pelo personagem Damien em A Profecia III, na cena em que Damien blasfema e aperta a coroa de espinhos na estátua de Cristo crucificado de costas).

        (Espanhol) “Me dê a faca e eu te farei uma cara nova e melhor, babaca”. (Inventei a frase)

        (Latim) “Aqui onde um impiedoso grupo de torturadores, insaciável, alimentou sua loucura sem fim por sangue inocente” (É uma citação de “O Poço e o Pêndulo” do Poe, que por sua vez é uma citação sobre uma placa colocada no portão do mercado erguido sobre as ruínas do Clube dos Jacobinos em Paris).

        (Tupi) “Quem és tu?” (sem fonte, colocada aleatoriamente).

        Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

        Nahhh.

  25. Jefferson Lemos
    1 de fevereiro de 2014

    É um conto com um começo perfeito, e continua assim até a metade, quando perde essa força inicial,e diminuiu o nível consideravelmente. A ideia é muito boa mesmo, mas acho que não cabe bo limite do desafio. Esse texto precisa de muito mais, e tenho certeza que o autor tem a capacidade para isso. Até o momento, para mim foi o melhor.
    Parabéns e boa sorte.

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahhh…

      Obrigado pelos elogios e críticas. Arriscar-se com o complexo e o diferente quase sempre faz parte do que tento escrever. Quo quisque est altior, eo est periculo proximior (quanto mais alto, maior a queda).

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  26. Leonardo Stockler
    1 de fevereiro de 2014

    Olha, não queria soar repetitivo, mas a impressão que eu tive foi a mesma do Pedro Viana. O conto começou simplesmente perfeito. As palavras certas nos lugares certos. Aliás, devo dizer que a maneira com que o autor escolheu as palavras foi sublime, o que garantiu as cores do conto: surreal, colorido, bizarro – um senso de humor que me agrada muito! Eu me atraio muito por esse tipo de ideia, e as passagens em que o Espectro narra são muito engraçadas, algo gostoso de se ler mesmo. Mas tem esse lance: infelizmente a segunda metade decepcionou um pouco, e grande parte do potencial, da força que o conto demonstrou na primeira metade, foi frustrada pela segunda, e ainda mais pelo final meio Ghostbusters. Não sei o que vai vir daqui pra frente, mas acho que já está entre os meus favoritos. É muita criatividade, e está muito bem escrito. Parabéns!

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahhh…

      Obrigado pelos elogios e críticas. Arrependi-me um pouco da conclusão do conto, porém “praeterita mutare non possumus” (não se pode mudar o passado).

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

  27. Pedro Viana
    31 de janeiro de 2014

    Gostei bastante do conto. Não foi perfeito, mas gostei. A primeira coisa que tenho a destacar é a narrativa. As três primeiras partes que serviram de introdução foram soberbas. O clima surrealista empregado no sonho foi maravilhoso e as partes referentes a “infiltração” muito tensas (foi um prazer acompanhar o ponto de vista “do outro lado” de uma possessão, muito obrigado pela oportunidade). No entanto, a segunda metade do conto perdeu o fio da meada durante alguns momentos. Peço perdão pela sinceridade, mas achei o clímax abrupto e a conclusão do mesmo patética. Quando me vi no fim, percebi que os personagens não foram tão bem explorados quanto deveriam. Mas reafirmo que gostei do conto. Como disse: não foi perfeito, mas gostei. Boa sorte no desafio.

    • Le Fol
      4 de fevereiro de 2014

      Nahhh… Hummm.

      Obrigado pelos elogios e pela crítica também. Pessoalmente, eu não acho o final tão ruim, pois, como já foi comentado por outros, o limite de palavras já estava à vista e este me pareceu consistente com a natureza da criatura que eu havia criado.

      Um dos finais alternativos que eu havia imaginado envolvia uma espécie de apocalipse trazido pelo Louco à nossa realidade. Talvez fosse uma linha interessante a desenvolver.

      Gostaria de comentar também que foi minha primeira experiência com vários POVs. A barba stolide discunt tondere novelli (Na barba do tolo aprende o barbeiro novo).

      Obrigado outra vez. Vejo-te nos sonhos. Alea jacta est.

      Nahhh.

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Informação

Publicado às 31 de janeiro de 2014 por em Tarô e marcado .