EntreContos

Detox Literário.

A Forca (Rodrigo Sena)

forcaTudo é lixo. Todos são lixo. Hoje decidi que não vale a pena viver. Já que a única certeza é que há de se morrer um dia, então, por que ficar sofrendo neste mundo fétido?

Se existe um dia típico para acabar com a própria vida, hoje é este dia. Chove. Uma chuva fina, fria e melancólica. O vento entra pelas frestas da janela e sussurra. Tento entender a mensagem. O que o vento quer dizer em seus sussurros? Estaria ele, o vento, rindo de mim? Ou o vento queria me dizer como é melhor o outro mundo. Tenho certeza que é melhor que este mundo mazelento.

A fumaça de cigarro serpenteia rumo ao teto encardido do apartamento. Está vazio há muito tempo. Alfred, meu papagaio, morreu. O maldito do gato da vizinha gostosa do vestido vermelho o comeu. Mas não seria eu quem deveria ter comido a vizinha? Piadinha sem graça, mas não poderia perder o trocadilho. Alfred era meio ranzinza, mas alegrava meus dias após o trabalho na delegacia deste fim de mundo. Não existe coisa mais fodida que ser policial em delegacia de cidade pequena. Roubo de galinha, dívida de  “dez real”, assalto na pousadinha com nome estrangeiro escrito errado. A única coisa que salva são as gostosinhas. E foi justamente por uma dessas ninfetas que me ferrei. Alfred me recebia bem. Claro que eu tinha que mantê-lo abastecido com sementes de girassol, ração de qualidade, água mineral e uns cafunés e ele retribuía assobiando o refrão de Have you ever seen the rain. Alfred, velho louco. Mas o gato da gostosa o comeu. Tenho a pena verdinha guardada numa das páginas de Por quem os sinos dobram, de Hemingway. Interessante: Alfred foi assassinado e Hemingway se suicidou. Hoje sou eu. Tenho quase certeza que no meu guarda-roupa tem uma corda. Sempre tive o fetiche de morrer enforcado. Não tenho veneno, nem comprimidos. Minha saúde é de ferro e nunca pensei em meter um balaço na cabeça. Sei lá, é sujo pra caralho. Sangue, massa encefálica, cabelo… Não. Dona Creuza não merece limpar a sujeira. A Babalu, filha dela, já me deu muito prazer, e foi a coitada que limpou. Ra ra ra!

A corda está na primeira gaveta do armário. Sabia que tinha uma. Comprei numa maldita vez que resolvi acampar. Fui na ideia do pessoal da delega, estava interessado numa estagiária do departamento de trânsito, aí trânsito rima com transa… nada a ver. A vaquinha me convenceu. Pior coisa que fiz na vida! Andei igual um andarilho, com uma puta mochila pesada nas costas, fazia frio, passei sede, fome, o pessoal só sabia fumar maconha e cantar músicas do Raul Seixas ao redor de uma fogueirinha de gravetos. Os mosquitos e pernilongos deviam ser alienígenas! E quase sugaram todo meu sangue, voltei anêmico de lá. E a menina, ah… deixa pra lá.

Só há uma forma de aprender a dar um nó de forca quando não se é escoteiro, nem suicida profissional: Google, o oráculo do século XXI!

“O nó de forca já foi utilizado muitas vezes na história da humanidade para enforcamentos. Diferente do que muitas pessoas imaginam, o enforcamento com o uso deste nó tem como objetivo principal o destroncamento da coluna cervical e a ruptura de seu sistema nervoso. O estrangulamento é consequência posterior em virtude do peso do enforcado.

A parte rígida do nó de forca é composta normalmente por sete voltas apertadas em torno da própria corda e serve como alavanca, promovendo uma morte sem dor e evitando que esta ocorra pelo sufocamento imediato do condenado. No momento da execução, esta haste deve ser posicionada no pescoço da vítima, próximo a glote de forma que sua outra extremidade seja apontada em direção ao solo. Desta forma, no momento da queda, o nó tende a girar para cima, em direção a nuca do condenado, promovendo a torção necessária para que a execução ocorra com sucesso.”

Como fazer um nó de forca:

Faça uma laçada com a corda;

Leve a ponta da corda à outra extremidade, na direção da laçada;

Passe sete voltas ao redor da corda, sendo que a primeira deve possuir um nó simples;

Deixe a ponta da corda entre a voltinha final;

Aperte o nó firme e pronto!

Atenção: deve-se tomar extremo cuidado com esse nó e evitar brincadeiras.

Depois de cinco tentativas fiz a forca. Ficou linda naquela corda de náilon vermelha. Tenho a forca, a disposição, mas não tinha um lugar para amarrar a corda. Quase tudo no apartamento é embutido ou então de plástico. Lembrei-me da área de fora, onde funciona minha mini-lavanderia e onde vou dar uns tapas no baseado. Um bom cano de ferro que resta da antiga encanação, antes de o dono reformar. O lugar preferido de Alfred, quando foi comido pelo gato da vizinha.

É aqui. O dia, como disse é propício. Cinza, a cerração está baixa, me lembra aquele fog londrino dos livros de Sir Arthur Conan Doyle. Ou a Califórnia dos sonhos frustrados de Chandler e Marlowe. Cara, ficou muito legal essa parte. Poética como todo suicida sonha.

Enrolei a ponta da corda no cano. Dei umas dez voltas para ficar bem justa e firme. Tudo deve correr com perfeição. Peguei o tamborete comprado de um velho hippie na feira-livre. Sempre achei aquele banquinho esquisito. Sabia que serviria para algo sombrio. Inconscientemente sabia que aquele banquinho hippie seria meu palco.

Tudo preparado: a forca, o banquinho e a determinação em acabar com minha vida.

Não queria uma morte rápida, e sempre sonhei morrer enforcado, por isso encurtei a corda, para que não houvesse o tranco. Pelos meus cálculos, meus pés ficarão uns 30, 40 cm do chão. Não gosto de nada rápido. Nem de fast-food. Nem de “rapidinhas”, nem mesmo do nosso trânsito rapidíssimo. Gosto de sorver cada gosto, cada sensação, cada segundo. Quero sentir a vida se esvair, segundo por segundo, quadro a quadro. Ver o rosto dela na minha frente. Sentir sua pele macia e quente deslizando pelos meus dedos amarelados pela nicotina do vício. Sentir a corda apertar a garganta, impedindo a passagem de oxigênio e ficar desesperado, implorar por mais uma respiração, por mais um milímetro cúbico de ar. Espernear, em vão, tentando alcançar o tamborete, segurar a corda e me soltar do laço do passarinheiro. E já no resquício de vida, com a visão turva, engolida por um mar cinza de gafanhotos, sentir meu coração que tanto pulsou, desacelerar, devagar, batida por batida, agonizante, como um peixe num rio poluído, como uma vida sem amor. Sem ter mais como voltar, deixar a força da gravidade agir. E quando não haver mais oxigênio, nem respiração, nem palpitar, estarei morto.

Amanhã, quando chegar, Dona Creuza encontrará meu corpo mole pendurado pelo pescoço como uma marionete gigante. Estou pronto: tomei banho, penteei o cabelo, passei meu perfume favorito, vesti meu terno favorito, um preto com risca de giz.

Vou subir no tamborete agora…

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22 comentários em “A Forca (Rodrigo Sena)

  1. dibenedetto
    5 de dezembro de 2013

    Outro que já tinha lido. Comentando agora. Não achei ruim, nem achei que foi “too much” no humor negro. Só acho que fugiu do tema mesmo.

  2. Frank
    3 de dezembro de 2013

    Precisei fechar os olhos ao final para lembrar que suicidar-se não é algo bom; o texto faz parecer que é…rs. Muito bem escrito e até fiquei com o dó do papagaio e vontade de suicidar o gato…rs.
    Só acho que tem uma falha lógica que o suicida não percebeu: não obstante todos seus cuidados para manter a altura e tal, se há rompimento da medula espinal…baubau…para tudo…ele ia perder aquele gostinho final que tanto diz apreciar.

  3. Andrey Coutinho
    3 de dezembro de 2013

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE
    O fluxo de ideias do protagonista, e as referências oportunas a outros trabalhos que, por coincidência ou não, muito estimo.

    SUGESTÕES

    “E quando não haver mais oxigênio, nem respiração, nem palpitar, estarei morto.” aqui o correto seria “quando não houver mais oxigênio”, acredito eu. Fora isso, não tenho muito a sugerir. Achei um relato muito afastado de um acontecimento muito importante… talvez colocar um pouco mais de emoção, ou dar ao menos alguma dica sobre a motivação por trás do suicídio.

    TRECHO FAVORITO

    “E a menina, ah… deixa pra lá.”

  4. Alana das Fadas
    3 de dezembro de 2013

    Adorei a leitura, mas não se encaixa NADINHA com o tema proposto!

  5. Pedro Luna Coelho Façanha
    2 de dezembro de 2013

    Deu pra ler de boa. Não enxerguei ligação com o tema e o humor contido achei besta. Mas deu pra sacar a malícia do escritor. Talvez em outro texto seu. Mas devo dizer que o texto me causou aflição, pois eu já vi pessoalmente uma pessoa enforcada e na hora que você fala sobre o NÓ DE FORCA, senti um arrepio na espinha com a lembrança. Abraços.

  6. Leandro B.
    28 de novembro de 2013

    Então… quem escreveu parece ter prática. Mas o conto não me parece da temática Noir. Nem um pouco, acho. Sobre o texto: é bem escrito. O humor é claramente o ponto forte da história. Mas, de todo modo, achei extremamente contraditória a carga emocional que carregam os dois primeiros parágrafos em comparação com o restante do texto. Aliás, todo o comportamento e bom humor do personagem me pareceram extremamente inconsistentes com seu objetivo ou com a aura que deveria se apoderar dele nessa circunstância (o que parece ocorrer nos dois primeiros parágrafos)

    Acho que teria gostado mais com o início e o final escritos de outra forma, inclusive, sem o suicídio, com o personagem dando para trás no último minuto, comprando outro papagaio ou sei lá. hehe

    É isso, bom conto!

  7. Felipe Falconeri
    28 de novembro de 2013

    “Mas não seria eu quem deveria ter comido a vizinha? Piadinha sem graça, mas não poderia perder o trocadilho.”

    Podia. Na verdade, devia.

    E isso resume bem o que é o texto.

    Abs.

  8. fernandoabreude88
    25 de novembro de 2013

    Não gostei do conto. Acho que toda essa história simplesmente para matar o protagonista não foi uma ideia boa. Além disso, não gostei da execução. Já que era para escrever um texto sombrio, que a verve da narração seguisse a mesma linha. Ao final, percebo o que li: um comediante esforçado (desses tipo Rafinha Bastos) descrevendo seu suicídio.

  9. rubemcabral
    20 de novembro de 2013

    Eu gostei do texto, embora tenha achado o suicida divertido demais (paradoxal?), considerando o que ele almejava fazer.

    Como muitos dos que leram, acho o tema pesado. Há um tanto de noir no conto, pero no mucho, no?

  10. Claudio Peixoto dos Santos
    20 de novembro de 2013

    Pesado. Não pagaria para ler. Fiquei meio pra baixo…

  11. marcellus
    19 de novembro de 2013

    Pula! Pula! Pula! Pu… Err… Não me chamou atenção, pelo tema batido e… Sei lá… Sem finalidade. Um bom exercício, talvez, Mass que nem se encaixa no tema.

    Talvez eu só não goste de suicídios.

  12. charlesdias
    18 de novembro de 2013

    Não gostei do estilo utilizado, da história … muito parecida como outras tantas que já li, nada de novidade … sem contar que não tem nada a ver com o tema do desafio.

  13. Thata Pereira
    17 de novembro de 2013

    Não gostei :/

    Como já disseram, o humor no texto também não me agradou. Mas vou revelar que não gostei pois suicídios me afetam muito e isso de pesquisar no Google como se faz nó na corda deu um nó no meu coração… é um assunto muito delicado.

  14. Bia Machado
    16 de novembro de 2013

    Gostei do humor negro, curti a ideia,embora aquela descrição de como se faz uma corda eu tenha achado desnecessária, mas isso é coisa minha, nada que tenha a ver com a qualidade do texto. Acho que dá para acrescentar mais coisa aí, de repente narrando lembranças do personagem, sobre fatos que o fizeram desgostar dessa vida, com muito mais detalhes, com um desenvolvimento maior…E aí, espero que o narrador tenha um destino diferente, rs…

  15. Jefferson Lemos
    14 de novembro de 2013

    Gostei!
    O devaneio e o fetiche por enforcamentos deu um toque sombrio e ao mesmo tempo, as piadas deram um toque cômico. Achei bem escrito e devo dizer que o autor está de parabéns!

  16. Evelyn Postali
    13 de novembro de 2013

    Se não tivesse humor, talvez me conquistasse mais. Gosto de humor, mas esse tema não é um tema que case com comédia, na minha opinião. Talvez se tivesse uma pitada de ironia, um discreto sarcasmo, não sei…

  17. Gustavo Araujo
    12 de novembro de 2013

    Apesar de mórbido, o conto é bacana por causa do humor negro. Uma leitura legal, descompromissada, graças à singular habilidade do autor.

  18. Agenor Batista Jr.
    12 de novembro de 2013

    Pode ter sido intenção do autor tornar o tema mais leve e menos obscuro. Ficou interessante mas fugiu muito da proposta. Serve como uma boa crônica de humor negro ou exercício de autocomiseração. Mas o escritor tem facilidade em lidar com as palavras.

  19. selma
    12 de novembro de 2013

    me pareceu gozação. se era a intenção, deu certo. rs…valeu.

  20. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    12 de novembro de 2013

    Achei interessante a ideia da forca e a narrativa cheia de ironia. Apesar de suicida, o personagem mantém o bom humor, soltando uma piadinha aqui e ali. Também não sei se o conto se encaixa nos requisitos do tema noir, mas gostei muito da leitura. Rápido, fácil e indolor como o suicídio planejado pelo policial.

  21. Ricardo Gnecco Falco
    12 de novembro de 2013

    Calma, autor… O conto ficou bom. Não faz isso não! Não sei se está dentro dos padrões do tema, mas ficou legal. Faz isso não, ok! No próximo Desafio talvez o tema nos ajude a todos! Ainda há esperança! Desce daí, vai…
    Abraço!
    😀

  22. Masaki
    12 de novembro de 2013

    Gostei da utilização de um único personagem e sua apresentação com a história em torno do próprio. Entretanto, a trama ficou pobre. Há excessos de pensamentos e ideias repetidos, e com isto, o roteiro torna-se um pouco monótono. O lance de trabalhar com a confusão mental é interessante, mas a visão escrachada em demasia tornou-o cômico, não sei se esta era real intenção do autor. O final ficou não fechou. Enfim… Parabéns! Fico no aguardo por um próximo conto seu.

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Informação

Publicado às 11 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .