EntreContos

Detox Literário.

Pelo Amor de Katy Perry (Isabella Beatriz)

Não há muito que fazer hoje em dia. Os estudos são transferidos para os cérebros – não que os usem para alguma coisa – livros inteiros memorizados, para que não tenham que perder um segundo sequer da preciosa vida humana.

Fotos dos amigos vêm direto para as interfaces pessoais. Dicas de beleza, a rotina do intestino do seu cachorro e a situação econômica dos habitantes do Centro da Terra. Tudo é diretamente transferido para os milhares de caracabytes (o que se descobriu ser a evolução do terabyte) que existem no cérebro humano. Há, hoje mais do que sempre, um enorme espaço na mente humana para besteiras.

Era de se esperar que com tudo isso, tivessem inventado uma forma de armazenar nossas músicas nas interfaces pessoais invés de nos fazer usar aqueles aparelhos antigos de – imagine só! – míseros 32 Gb. Como os puristas que são, os artistas se recusam a passar suas melodias diretamente para os cérebros dos seus fãs.

Mas não tem problema, mesmo. Esta menina também é uma purista. Não há nada como o som daquele trambolho, o Ipod. Ela não imaginar o tempo em que as pessoas carregavam a torto e a direito, aparelhos com MILÍMETROS inteiros de espessura.

E lá está ela, tentando compatibilizar sua estação de trabalho juvenil com o bluetooth pré-histórico do meu 42o Ipod (ela tem muito orgulho da sua coleção, apesar do seu tamanho diminuto).
Mas a menina tem tempo de colocar uma música (Hot N’ Cold, de Katy Perry, uma música que, aparentemente, nunca fica velha) antes que seja chamada pela unidade maternal para absorver sua quantidade diária de troçoteína (Se não for troçoteína, não é comida).

-Cadê a unidade fraternal?

Pergunta, cutucando o copo comestível cheio de troçoteína. Ela e a unidade maternal se encaram.

-AH NÃO! O DISPOSITIVO!

Dizem ao mesmo tempo.

A menina corre de volta para a estação de trabalho bem a tempo de ver a unidade fraternal com seus 3 anos de idade dançando ao pegar a relíquia que é o Ipod e arremessando-o bem na direção da…

Ah não! A máquina do tempo da unidade paterna!

Ao mesmo tempo – ou melhor quase – 3000 anos no passado, algo interrompe a performance de Donderion Dedos-De-Prata na corte de John, o Justo, despencando do absoluto nada e caindo no meio da sala de bailes.

Uma batida infernal começa a tocar, sufocando o piano e cuspindo o que parece ser o inglês mais detestável já ouvido por tímpanos humanos.

‘Cause you’re hot than you’re cold

You’re yes than you’re no

A multidão grita e se espalha, fugindo.

O padre prega o fim da heresia cometida pela 3 vezes maldita Katy Perry e seu nome profano que pisca na telinha maligna, que deve ser queimada no fogo do Inferno. Mulheres com vozes semelhantes à da diaba e homens que decidiram seguir sua doutrina infiel de trocar de esposas a seu bel prazer já esperam em fila para serem queimados logo depois do elemento da discórdia.

Quando está prestes a jogá-lo na enorme fogueira, surge uma das condenadas que o empurra do palanque na direção da fogueira e o rouba nas suas mãos, levantando alto o estranhíssimo aparelho, que clama, como um grito de guerra:

I should know… You are not good for me!

               

-Ouvi dizer que um tal de Steve Jobs conseguiu reconstruir o Divino.

-Pois eu ouvi a mesma coisa. Disse que só acabou a “bateria” 3000 anos atrás. Até parece.

-Acha que sabe de tudo, mas reproduzir a voz da Deusa, nada, não é?

-Como se fosse possível! Um ser humano reproduzir à Katy Perry.

O marido de uma delas deixa derramar uma gota do seu chá para fora da xícara e ela lhe dá um tapa na orelha. Que não se esqueça dos mandamentos da Grande Cantora Vinda dos Céus: Se ele não lhe servisse, ela o trocaria. E sairia bem dessa, porque afinal, o mesmo sexo da Grande era o forte.

O filho entra na casa, soltando um ar cansado.

-Mãe! Não serei mais uma desgraça na família! Fui pedido em casamento!

-Oh, meu filho! Graças à Katy Perry.

Uma menininha entra na sala cantarolando e sorri para a mãe.

-Mãe, eu escrevi uma música, se chama Roar e ela é muito legal! – A menina senta na mesa na frente da mãe e da amiga desta, enrolando o cabelo preto nos dedos. – Você acha que um dia eu vou cantar tão bem quanto a Katy Perry?

Pergunta piscando os olhos verdes e a mãe lhe dá um tapa.

-Que pecado! Agora cante Hot N Cold umas 3 vezes para ver se aprende!

E como diziam as profecias antigas, o destino do mundo foi definido por Katy Perry.

Maias? Não, não acho que foram eles.

Não, não. Não procure no Google.

Só… Confie em mim nessa.

Ok?

25 comentários em “Pelo Amor de Katy Perry (Isabella Beatriz)

  1. Bia Machado
    29 de outubro de 2013

    Interessante, divertido. Acho que o tom divertido acabou encobrindo um pouco a questão do tema. Mas eu curti! 😉

  2. José Geraldo Gouvêa
    28 de outubro de 2013

    Realmente insano e divertido. Acho que foi o conto que eu mais gostei de ler. Novo primeiro lugar.

  3. José Geraldo Gouvêa
    28 de outubro de 2013

    “milhares de caracabytes”

    Ah, o maravilhoso poder expressivo dos palavrões. Fodam-se os frescos que ficam enchendo nosso saco com dúvidas se palavrões cabem! Com cuspe e jeito vai um jipe no sujeito…

  4. Marco Nazar
    28 de outubro de 2013

    Hilário e despretensioso, e por isso tão bom. Me diverti do título ao desfecho. Li e depois escutei Katy Perry para temperar (uma vez e já deu rsrs) . Gostei e muito. Parabéns!

  5. Juliano Gadêlha
    28 de outubro de 2013

    Caramba, adoro contos divertidos como esse. Mesmo o título dando uma pista, leitor nenhum se prepara para uma história assim. Achei excelente, adorei mesmo. Dava até para dar uma esticada e mostrar um pouco mais desse mundo onde Katy Perry é adorada como uma deusa. O autor está de parabéns por, além de escrever bem, demonstrar leveza e descontração construindo um texto capaz de divertir e entreter o leitor de maneira ímpar. Que imaginação! Muito bom!

  6. Régis Messaco.
    27 de outubro de 2013

    Maluco, bem escrito e divertido ao extremo. Adorei! Abraços.

  7. Andrey Coutinho
    26 de outubro de 2013

    HUAHUAHHUAHAUAHUAHAUHAUA morri de rir desse conto. Tanto a história quanto o narrador são muito descontraídos. Muito legal pra quebrar o clima sério da maioria das leituras do Desafio. Só pode ter saído da cabeça de uma pessoa muito bem humorada… fiquei curioso pra saber quem é o(a) autor(a).

  8. Sérgio Ferrari
    25 de outubro de 2013

    Alguém pode até torcer o nariz por vc carregar tudo na Katy Perry, mas olha…seu conto é muito legal. hahahaha Divertido e refrescante. O modo do narrador tbm. Me lembrou os contos da xuxosa meneghell do saudoso orkut.

  9. Thata Pereira
    25 de outubro de 2013

    Pelo amor de Katy Perry, como ri desse conto! Muito divertido. O título me chamou atenção e fiquei com muito ( muito mesmo!) medo de ler, mas adorei!

  10. Frank
    25 de outubro de 2013

    Hahahaha…insano! Os copos comestíveis me lembraram a Idade Média (onde alguns alimentos eram feitos em formas comestíveis); caraca bytes foi muito bom e a Katty virando uma deusa me lembrou aquele filme a viagem. Enfim, uma leitura divertida e muito prazerosa. Parabéns!

  11. Gina Eugênia Girão
    25 de outubro de 2013

    Inusitado. Como não entendo nada de Katy Perry, nada comentarei. Ou melhor, comentarei, sim: fiquei morrendo de vontade de entender sobre mais coisas – inclusive KP – e criticar o conto apropriadamente. Mas acho que gostei do sentimento de irônica confusão que o texto me causou. Então, gostei do conto. De lógica, entendo um pouco, sim.

  12. Felipe Holloway
    25 de outubro de 2013

    Este conto me lembrou muito Douglas Adams. Aquela técnica quase inimitável dele de interromper uma narrativa maior com uma trama paralela porém correlata, algo do tipo “naquele momento, a voz de Ford Prefect foi captada pelo satélite de uma civilização microscópica em cujo idioma natal seu fragmento de frase, que no original era ‘apague esta droga de cigarro!’, significava ‘todos vocês irão morrer em vinte minutos’, provocando pânico, saques, suicídios em massa e, estranhamente, a súbita estabilização da economia” (isto não está na obra dele, claro, eu inventei). Essa exploração das consequências lógicas de uma premissa absurda (ou nem tanto, se se considerar a possibilidade física da reversibilidade temporal) tem algo de Saramago, também, embora aqui, lógico, o que importe seja a comicidade. E com esse objetivo, acho, a ausência de exploração de outras consequências da alteração não chega a configurar um problema muito grande, apesar de o texto só ter a ganhar, se a fizesse — e bem.

    Contudo, mesmo sob toda a (aparente) despretensão, é algo que me fez pensar: se os homens se dispõem a atos extremistas em nome de obras que lhes chegaram por via humana (ou seja, provindas das mãos de outros homens), como os textos sagrados, do que não seriam capazes para defender a “doutrina” contida em algo que lhes veio diretamente do “céu”, como um Ipod com a música da Katy Perry tocando em loop infinito? Ou talvez seja por isso que os relatos sagrados estejam coalhados de histórias fantásticas: para quebrar o ceticismo pela ideia de que haja alguma coisa além desta realidade, é necessário pontuar os registros históricos com evidências existenciais de um mundo à parte dela. Trocando o célebre título daquele livro que sempre vejo na biblioteca mas nunca me animo a pegar, “Eram os deuses popstars?”

    Outro autor com quem eu provavelmente adoraria trocar umas ideias. A história me fez rir muito, e eu seria um cretino se apontasse os defeitinhos técnicos, a despeito disso. Que Katy Perry me livre.

  13. fernandoabreude88
    25 de outubro de 2013

    As viagens no tempo desse conto extrapolaram absolutamente todos os limites, rs. Muito bom, mas muito pequeno. O desenvolvimento entre os familiares, a menina, se o conto fosse mais extenso, daria uma crônica ultra-moderna sensacional, mas é um protótipo interessante.

  14. Marcelo Porto
    24 de outubro de 2013

    Despretensioso e por isso mesmo delicioso.

    Li numa só batida, impressionado como a mente humana é capaz de dar forma a qualquer bobeira, basta ter talento para transformar uma ideia esdruxula num conto redondinho.

    Um bom exemplo para quem tem uma boa ideia e não sabe desenvolve-la, aqui se vê o inverso; um excelente desenvolvimento para um fiapo de história.

    Muito bom!

  15. charlesdias
    23 de outubro de 2013

    Simplesmente adorei o tom irreverente e humorístico do conto. Divertido, leve, entretenimento “leiturístico” puro. Ótimo.

  16. Marcellus
    20 de outubro de 2013

    É um conto irreverente, sem dúvida. A falta de lógica não é um desabono em si, mas nesse caso foi usada sem finalidade. A mesma ideia, com algum retrabalho, poderia render um texto esplêndido!

  17. Gustavo Araujo
    20 de outubro de 2013

    Irreverente, divertido e descompromissado. Gostoso de ler um texto assim. Mas receio que tenha sido escrito “só para ver no que vai dar”. Tenho plena certeza de que a pessoa que o escreveu tem gás para muito, muito mais. Quero realmente ver outros textos de sua autoria nos desafios que se seguirão.

  18. Elton Menezes
    20 de outubro de 2013

    Sobre a história… Ironia pura, né mesmo? Brinca com o tema de uma forma superficial, fala pouco sobre a transposição temporal, ainda assim cria um ambiente de pura algazarra histórica. A idéia é muito boa, e o narrador sarcástico amarra tudo. O final ficou ruim: aquilo de google, confiar, tudo poderia ser cortado.
    Sobre a técnica… Apurada, texto bem escrito, uso de algumas expressões que se equivalem ao objetivo do narrador.
    Sobre o título… Legal demais, soa como uma brincadeira, e ao final faz todo (?) sentido.

  19. Alan Machado de Almeida
    20 de outubro de 2013

    Para mim o conto tá bom do jeito que tá, sem cortas as palavras finais. Gostei da citação de download direto na mente, um tema que é bem explorado pela literatura Sci-fi

  20. selma
    18 de outubro de 2013

    achei divertido, embora nem imagine quem seja a dita cuja…sinal dos tempos (meu tempo)…tecnologia, tempo, futuro, ficou bom. parabens.

  21. rubemcabral
    18 de outubro de 2013

    Achei divertido, mas as consequências da alteração temporal foram pouco exploradas, em minha opinião.

  22. Ricardo
    18 de outubro de 2013

    Despretensioso, embora bem estruturado. Tipo um “conto-recado”, onde o autor simplesmente passa a sua mensagem sem a menor cerimônia; ou mesmo preocupação, inclusive, se o receptor está ou não ouvindo algum chiado…

  23. Claudia Roberta Angst (C.R.Angst)
    17 de outubro de 2013

    Concordo com Rodrigues – o final seria mais impactante se parasse em “Mais? Não, não acho que foram eles”. Os astros populares transformados em lendas de sabedoria deram um toque divertido tirando o foco de seriedade do tempo.

  24. Rodrigues
    17 de outubro de 2013

    Que conto insano. Hahaha. Gostei. Essa transformação de elementos atuais (cantoras pop, mp3, bluetooh, atuais?) em mitos históricos foi muito boa. Eu apenas cortaria as três últimas frases. Acabando com “Maias? Não, não acho que foram eles.”, ficaria redondo. Sinceros parabéns ao autor.

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Informação

Publicado às 17 de outubro de 2013 por em Viagem no Tempo e marcado .
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