EntreContos

Detox Literário.

A Revelação (Felipe França)

A tranquilidade da casa situada em um modesto bairro da cidade estava prestes a ser interrompida pela sinfonia dos 70 badalos em seus mais variados tons e ritmos, todos estes vindos dos 70 relógios que preenchiam toda as quatro paredes do escritório.

São sete da noite. A sinfonia dos já acostumados moradores da rua, uns mais intolerantes, começou. Entre os barulhos de cucos e alarmes fazendo o seu serviço de mostrar às horas estava um senhor, já de meia idade, com traços firmes em seu rosto, óculos pendurados na ponta do nariz, a única coisa que impedia estes de cair eram suas largas asas da narina.

– Bom… Acho que é hora de eu fazer uma parada. A fome já me veio…

A sinfonia teve seus últimos acordes, e logo a paz, para alegria dos vizinhos e dos próprios moradores daquela casa, voltou a reinar como fazia todos os dias após um minuto de ausência.

– Vejamos o que podemos comer.

Abre a geladeira e começa a preparar um lanche e suco de frutas, algo leve, não tinha o costume de comer muito, e segundo o próprio, se o fizesse à noite teria terríveis incômodos intestinais na cama.

– Você não sai daquele escritório. Come rapidamente e volta para lá. Só consigo te ver novamente bem de noite. Logo de manhã já sinto sua ausência novamente!

Exclamava a mulher deste senhor, também com sua meia idade, mas conservadas suas linhas e formas femininas, encostada no batente da porta de acesso para a cozinha e de braços cruzados encarava o marido com seus olhos de um azul calmante.

– Sim! Tens razão. Mas prometo minha querida, que logo acabarei com esta rotina, e vamos marcar uma viagem para ficarmos mais tempo juntos. Só nós dois! Sem filho algum.

Piscava e terminava o lanche deixando o prato e copo sujos dentro da pia.

– Tudo bem?

Aproximava e segurava a mão de sua esposa e a beijava na testa.

– Tudo bem. Mas espero que não demore muito!

– Não! Logo cumprirei minha promessa.

Beijava a mão da mulher que logo se retirava para o quarto e lá ficava esperando o marido.

De volta ao escritório ele voltava aos seus cálculos. A mesa estava repleta de livros de física quântica, estudos físicos e vários instrumentos de medição. No canto da peça tinha uma estante com livros. Mal organizada, mas podia ver com clareza os seus vários autores que iam desde: Julio Verne, Herbert George Wells, Issac Asimov, Aldous Huxley, George Orwell entre outros clássicos.

– Bem… Parece-me que está pronto! Os cálculos agora batem!

Ele indagava sobre a experiência mal sucedida feita na semana anterior. Mas depois de horas de estudos, cálculos refeitos, agora parece que não havia erro. Dirigiu-se até uma poltrona, poltrona comum, nada de estranho, ela era cercada por uma proteção transparente, como se fosse um acrílico, porém de material mais resistente.

– Vamos! Preciso terminar este projeto! Anos e anos de estudo e dedicação não podem fracassar.

Pegou a maçã que estava no bolso, abriu a proteção apertando um botão próximo à fenda de abertura e lá no estofado daquela poltrona colocou a maça e novamente apertou o botão abaixo do primeiro e fechou a porta transparente.

– São sete horas e trinta e dois minutos aqui… Você deve viajar cinco minutos no futuro.

Abaixou a alavanca de emergência próxima à base daquela esfera e acionou seu funcionamento. Um clarão iluminou toda sala que estava apenas com uma luz fria e taciturna e logo a máquina desapareceu.

Ele cruzou os braços e esperou com ansiedade sua volta e logo antes que se desse por conta a máquina voltou ao seu lugar original.

– Espero que tenha dado certo… Pelos deuses humanos!

Verificou e viu a fruta aparentemente intacta. Abriu a proteção e verificou com as próprias mãos. Sim! A experiência tinha dado certo. O relógio interno marcava sete horas e trinta e sete minutos. A primeira experiência temporal que se tinha conhecimento foi feita. O homem finalmente venceu o segredo sagrado do divino. Ele conseguiu quebrar a barreira do tempo e espaço.

– Viva! A Comunidade Internacional da Ciência precisa saber disto! Conseguimos! A vitória é nossa! A euforia de nosso cientista seguiu noite adentro.

No dia seguinte a divulgação foi feita com todas as provas desta viagem temporal. Os cientistas, reunidos em torno dos resultados obtidos, deram como plausível e todos comemoram algo que há muito tempo muitos deles tentaram achar.

O feito de nosso amigo, de um bairro pacato, começou a ser noticiado em jornais e programas de TV do mundo todo. Pelos quatro quantos do mundo as pessoas recebiam a notícia com um misto de desconfiança e outros tantos de alegria.

Convidado pela Comunidade Internacional da Ciência a mostrar para todos à sua experiência levou seu projeto para um deserto no interior dos Estados Unidos, pois segundo o próprio ele precisa de um lugar vago e vasto em que sua máquina e viagem não fossem interrompidas por um corpo que ocuparia aquele espaço no futuro. Princípio da Lei de Newton: “Dois corpos não ocupam o mesmo espaço”.

Televisões, repórteres, corpos científicos, entre outros grupos de interesse estavam todos concentrados ao redor do local. E o show da viagem no tempo estava sendo transmitido para a sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, com todos os líderes mundiais.

A viagem iria começar. Agora o nosso amigo iria ocupar o assento que antes uma pequena maça ocupou. Expectativa e apreensão cercavam todos em volta. Consigo o nosso explorador levaria uma filmadora para mostrar o que viu durante o seu passeio temporal. Mesmo que isto pudesse causar algum problema e gerar tormentas em nosso atual tempo.

– Meu Deus! Quanta gente… Não sabia que iria chegar nisto…

Olhava a multidão que o acercava. Acenos e sinais de positivo eram vistos por ele. Finalmente chegou o horário da nossa viagem. Ele olhou em seu relógio e viu que o ponteiro menor cravou no número sete.

– Pelo o bem da humanidade!

Ouviu aplausos e a alavanca interna foi acionada, a porta fechou automaticamente e a viagem prosseguiu. Um clarão iluminou e esquentou aquele deserto de esperanças e torcida.

Uma hora se passou e a tensão pairava no ar. Muitos ali cogitavam de nosso amigo do tempo ter se perdido em algum lugar do universo. Logo o pensamento foi abandonado, pois a maquina retornará ao lugar de origem.

Aplausos, gritos e choros foram ouvidos pelos cinco continentes. Na sede das Nações Unidas todos os chefes de estados estavam de pé, uns abraçando aos outros não importando religião ou poder econômico.

Cientistas e técnicos foram ao encontro e auxílio de nosso viajante que na semana passada não sabia mais o que era a frase “Um dia…”.

– Quero descansar… Estou com o corpo dolorido.

Saindo da máquina acenou para todos mostrando que foi um sucesso e caminhou direto para o hospital.

Semanas se passaram e ele estava no púlpito central diante do mundo inteiro. Como prometido, ficou encarregado de mostrar o vídeo que fez. No telão começou a passar as imagens de lugares belos e pessoas felizes. A humanidade tinha chegado à paz e plenitude completa como descrita no livro A máquina do Tempo de H.G. Wells.

Aplausos e comemorações. Nosso intrépido amigo recebeu condecorações de todos os governos. Sua máquina foi para um laboratório para estudos mais complexos.

De volta à sua casa, na paz de seu ambiente, ele olhou aquele lugar tão conhecido por anos e foi diretamente para a estante puxando o livro a Máquina do Tempo. Leu o trecho em que o viajante do tempo, muito longe de seu século, viu toda a humanidade florescer para a paz eterna. Fechou colocou-o sobre a mesa e sentou em seu sofá do lado oposto à estante e se pôs a chorar.

– Querido tudo bem contigo? Por que choras?

A melhor amiga de sua vida, sua esposa, veio ao encontro

e se sentou ao lado do marido e consolou toda lágrima que foi derrubada.

– Querida… É tudo mentira! A humanidade caminha para a ruína no futuro!

Levantou-se e colocou a verdadeira fita com as filmagens do futuro no cassete que se encontrava perto do sofá, e pôde mostrar à sua companheira todos os horrores do futuro.

Homens matando-se, países em guerra civil, grandes catástrofes e até a ambição e o egoísmo humano destruindo a lua.

– Até a lua eles conseguiram destruir… Até a lua!

A mulher assistiu horrorizada e perguntou preocupada com o que viu.

– Por que você não mostrou a fita verdadeira? A humanidade precisa saber os fatos reais.

– Não!

Negando apertou as próprias mãos e voltou a olhar a esposa.

Você viu o rosto de cada um dos homens e mulheres que viram àquelas imagens? Todos estavam felizes! Naquele instante não houve uma morte por agressão se quer em nenhum país. Naquele momento a humanidade se sentiu orgulhosa de seu futuro promissor. Eles ficaram com esta imagem e vão batalhar para conseguir o resultado mais rápido.

Puxou o livro de Oscar Wilde que estava debaixo de seus cadernos de estudo.

– Este homem foi preso… Ele foi da glória para o limbo, mas mesmo assim não perdeu a esperança de reviver novamente. No final ele diz para aquele que o colocou na prisão. “Conte-me o que pensa sobre isto… Uma confissão é menos desastrosa que uma revelação”.

– Pensou se eu revelasse o verdadeiro futuro para a humanidade?!

Voltou a senta ao lado da mulher e a abraçou com carinho.

– Deus criou mecanismos para controlar à nossa vontade de matá-lo e tomar o seu lugar.

Os 70 relógios começaram sua sinfonia marcando sete da noite. E acrescentaram mais horas no destino da humanidade.

20 comentários em “A Revelação (Felipe França)

  1. Felipe
    30 de outubro de 2013

    Gostaria de agradecer todas críticas aqui postadas. Agradeço também todos que se dispuseram a ler este meu conto. Farei o máximo para aperfeiçoar cada vez mais o meu texto, que considero e concordo com muitos, ficou aquém do apresentável.

    Excelente experiência!
    Obrigado.

  2. José Geraldo Gouvêa
    29 de outubro de 2013

    nem todas as citações das viagens do tempo clássicas me fizeram gostar deste texto, justamente por ele ser limitado a elas e terminar com um moralismo meio mambembe, uma espécie de auto-ajuda sei lá (Paulo Coelho, você está participando deste cocurso? revele-se!).

  3. Bia Machado
    29 de outubro de 2013

    A ideia é até interessante, mas não gostei do desenvolvimento. Muitos erros, os diálogos não estão naturais, e aquela história da Lua… Hã? Carece de muita revisão, a meu ver. Espero que não desanime, o negócio é escrever/treinar! 😉

  4. Alexandre Leão.
    28 de outubro de 2013

    Fiquei assim… Tipo, pá daqui e pá dali. Gostei do conto, porém, fui lendo, ansioso até e ao chegar ao final, encontrei um algo sem doce, me parecendo meio incompleto. Acho que faltou aquele tcham. Reparei falta de pontuação, o que se corrige fácil. Mas entretanto, teria que se achar um algo para dar razão ao conto. Quem sabe inserir mais história? Abraços

  5. Juliano Gadêlha
    27 de outubro de 2013

    Uma história muito padrão de viagem no tempo. Falta um diferencial, algo que a singularize. Percebi uma certa pressa na narrativa, que carece de polimento e revisão. O tom do narrador não me agradou muito, acho que algo mais impessoal teria um efeito melhor. O autor demonstrou conhecimento de autores e obras clássicas relacionadas ao tema, conforme citações no texto (algumas de maneira um pouco forçada), portanto sugiro que continue lendo bastante e praticando. Boa sorte!

  6. Sérgio Ferrari
    25 de outubro de 2013

    Asas da Narina “versus” Comunidade Internacional da Ciência

    huahuahauhauhauahuahauha ri litros. 😀

    Asas da Narina, embora a terminologia seja correta, tem coisa que não devemos colocar. uhahauaha mas ficou engraçado. Valew. rsrsrs

  7. bellatrizfernandes
    25 de outubro de 2013

    Gostei da história. A narração é simples e levemente divertida. Dá para ver que o autor já se aventurou muito nas leituras (Aldous Huxley, o rei da ficção científica de distopia). Há alguns erros (se de digitação ou de gramática não sei dizer), mas fora isso é um conceito bom. Um pouco previsível, porém.

  8. Andrey Coutinho
    25 de outubro de 2013

    Uma história ok, com execução regular, e que ainda clama por um pouco mais de desenvolvimento e polimento. Acho que ficou faltando também um diferencial… ficou quase a “história de viagem no tempo padrão”. Isso não é ruim, mas também não é bom. Na minha opinião, quem tem capacidade de escrever um texto assim, tem também a capacidade de transformá-lo em algo mais. Por isso, eu recomendaria ao autor se debruçar uma segunda vez sobre o seu texto e incrementá-lo um pouco mais. De qualquer modo, parabenizo pelo que foi feito até agora. Bom trabalho!

  9. Thata Pereira
    25 de outubro de 2013

    Gostei da ideia de destruir a Lua (rs’)

    Então, concordo com o pessoal. Leitura simples não me incomoda, mas falta algo :/
    Trabalhe melhor a história, explore mais as possibilidades! 😉

  10. Marcelo Porto
    25 de outubro de 2013

    Uma premissa legal, mas uma narrativa simplista demais. Não achei os personagens bem trabalhados e isso impactou negativamente, o que foi aquele “pelos deuses humanos!”?

    Senti um pouco de pressa em descarregar toda a história que o autor tinha na cabeça e a sucessão de eventos ficou atropelada.

    Dá uma boa trama.

  11. Frank
    25 de outubro de 2013

    Gostei da mensagem de esperança (sentimento) dada por um personagem que deveria personificar a razão. Contudo, acho que o texto precisa de uma revisão para remover alguns lugares comuns e, em alguns pontos, os excessos (repetições) para enfatizar uma msg. Por exemplo, fala-se muitas vezes que os vizinhos não gostavam do som dos 70 relógios. Muito desse excesso poderia ter sido diluído de modo a ficar implícito.

  12. fernandoabreude88
    25 de outubro de 2013

    Não gostei da narração deste conto, acho que poderia ter se aprofundado mais no tema. Não gostei muito do final, mas os personagens são bacanas.

  13. Gustavo Araujo
    21 de outubro de 2013

    Lamento, mas não gostei. A ideia é simplista demais e não engrena. Temos um personagem interessante (evidentemente uma versão inspirada em Doc Brown, de De Volta para o Futuro) e que tinha tudo para nos levar numa viagem pra lá de cativante. Mas não. A trama se desenrola de forma rasa: o homem vai parar no futuro e vê que a humanidade se degradou. Sim, e então? O conto morre aí e nós, leitores ávidos, ficamos com o pincel na mão, nos perguntando por que o autor ficou com preguiça de escrever o resto, de mergulhar mais fundo nessa premissa. Isso sem falar nos erros gramaticais… Claro, dá para dizer que a história – o autor, na verdade – tem potencial para ir muito além disso. Empenho é a receita. Ler, ler e ler, escrever, escrever e escrever, até aprender.

  14. rubemcabral
    21 de outubro de 2013

    A história lembra um conto famoso do Ray Bradbury. No entanto, a narração deixou a desejar (variação temporal) e o tratamento ao tema foi talvez demasiadamente simples.

    Seria mais bacana se o viajante usasse a farsa para justamente alterar o destino da humanidade: que todos se esforçassem para alcançar aquele futuro maravilhoso que ele descrevera.

  15. Marcellus
    20 de outubro de 2013

    A ideia poderia render um ótimo conto, mas além da superficialidade, os constantes erros de concordância e gramática irritam o leitor.

    Mas tem potencial, se o autor trabalhar mais um pouco.

  16. Elton Menezes
    20 de outubro de 2013

    Sobre a história… Eu gostei da idéia que ela traz, e acho que por isso merece ser melhor trabalhada. Temos um personagem que se glorifica na humanidade por ser o primeiro a criar uma máquina do tempo, mas percebe o desastre que o futuro traz e, assim, tenta mudar as pessoas. Uma noção bela, mas clichê. Talvez, a história ganhasse mais força e realidade se a humanidade, no lugar de feliz, se tornasse ainda mais caótica: afinal, qual país não adoraria pegar a máquina do tempo e voltar atrás para vencer uma guerra? Uma máquina dessa, hoje, seria motivo de embates políticos, sociais e internacionais, muito mais do que uma confraternização universal.
    Sobre a técnica… Duas coisas merecem ser corrigidas. Primeiro, o texto varia entre o tempo presente e o tempo passado. Segundo, quando no passado, o autor abusou de pretérito imperfeito, o que não funcionou muito bem no texto. Um exemplo: quando você diz “Aproximava e segurava a mão de sua esposa e a beijava na testa”, dá uma noção de continuidade, que seria corrigida por apenas colocar no pretérito perfeito “aproximou-se e segurou as mãos da esposa, e lhe beijou a testa”. Isso destrói o paralelismo temporal do texto. Também evite diálogos do narrador com o leitor quando for onisciente, como em “Nosso intrépido amigo”.
    Sobre o título… Cumpre seu papel sem maiores problemas.

    • Felipe
      20 de outubro de 2013

      Excelente observação, Elton…
      Estou anotando todos os detalhes para cada vez mais melhorar a redação de meus textos.

  17. Ricardo
    18 de outubro de 2013

    Ninguém pode destruir a Lua, musa e companheira-mor dos escritores desde todo o sempre, e sair impune… 😦
    Bad, bad, bad, bad trip! 😐

  18. Claudia Roberta Angst (C.R.Angst)
    17 de outubro de 2013

    Falta ajustar alguns detalhes, mas a ideia é bem interessante apesar do recorrente elemento máquina do tempo.

  19. selma
    17 de outubro de 2013

    a forma como foi escrito ainda é sofrivel, mas a historia é boa. gostei, parabens!

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Informação

Publicado às 17 de outubro de 2013 por em Viagem no Tempo e marcado .