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Detox Literário.

Projétil de Sangue – Conto (Diogo Bernadelli)

projetilFoi assim o dia que murri. E como minha vida era simplesmente uma bagunça, que nem o resultado dum monte de sucata que depois de uma ventania se transforma numa coisa parecida c’uma geladeira, não caguei em surpresa alguma contanto o final da história.

Vim cambaleando até esse ponto desd’o começo da escadaria do morro e só parei mesmo por causa da moleza.Quando levei a mão atrás da coxa, ela voltou escura de sangue. Meu sangue, falei com ninguém mais que eu mesmo. Tinha explodido alguma veia, alguma artéria, alguma porra importante que põe a máquina pra girar… Do contrário não ‘taria sangrando igual um boi no gancho.

Caí com a bunda contra o degrau, o caldo escorrendo pela batata-da-perna, tipo o que o doce de leite costuma fazer num churro. Maior nojeira, sério, uma porcaria só. E era aquilo mais quente do que imaginava. Também, eu nunca tinha levado tiro antes. Consegui enfiar minha pistola no elástico da bermuda e senti aquela familiar sensação de gelo no rego. Inferno na perna, gelo no rego. Notei que só o pé esquerdo ainda calçava uma Havaianas. A outra eu tinha perdido na correria, lá atrás…

Nesse momento escutei o chicotear de mais chinelos nos degraus e um converseiro regado principalmente por xingamentos ansiosos. Um corre-corre do caralho. Depois do que ia acontecer, antes eu ‘tivesse ouvido o tiro que me acertaria pela última vez.

Marrom e Alberto “Caolho” passaram zumbindo do meu lado, vuuuf! Os veados: seguranças da mesma Boca que eu. Traziam suas pistolas balançando na ponta dos punhos duros. O medo afundava o rosto daqueles dois cagões, igual a sola dum sapato na lama, me entende? Mas ao girarem a cabeça pra mim, o tal medo que eu vi durou pouco, ele foi atravessado brevemente por outro negócio. E que, sem zoação, me deixou puto de raiva. Dó. Dó de mim, pensei. Talvez olhando pra minha perna esquerda — toda fodida, toda melecada de vermelho-escuro que no momento já melecava também o chinelo — escapando pelo recorte da bermuda, dividissem a energia entre querer me ajudar (com o risco de levar chumbo, também) e continuar fugindo.

Então Marrom bateu com o cotovelo em Caolho, a cara deformada num “Deixa ele pra lá”. Eles escolheram fugir. Na moral?, melhor pra todo mundo: eu ‘tava mais do que fodido, fodido não era bem a palavra certa pr’aquela situação e não precisava do dó de ninguém. Tentar me socorrer seria como se jogar da ponte Rio–Niterói com um cortador de grama amarrado nas costa’.

Não vi quando foram engolidos pela goela fina de um corredor entre dois barracos. Nem o plaque!-plaque! dos chinelos eu ouvia mais. Graças a Deus. Já disse, melhor assim. Pra eles e pra mim, o branquela aqui poderia morrer tranquilo — se existe no mundo algo parecido a morrer tranquilo com uma bala alojada em algum ponto entre o cu e a dobra do joelho. Já sentia os cabos de aço sendo trocados um a um por sisal.

É… logo-logo Zezinho, o Polaco, partiria dessa pr’uma melhor, e o pensamento nessa altura não era nada ruim, não.

Encostei o ombro na parede fria, de reboco esverdeado pela umidade, esperando pelo trem que me levaria ou pra baixo, ou pra cima, porque apesar de tudo jamais abandonei a fé no nosso senhor e salvador Jesus Cristo. Fiz como o pastor dizia e comecei rogar perdão…

Outra vez ouvi bofetadas de sandálias no cimento rachado. Abri o olho. Talvez fosse o filho-da-puta que tinha me aleijado vindo terminar o serviço. Bom, ele talvez fosse ter uma surpresa quando se descobrisse na vantagem, porque eu tinha corrido que nem o diabo pra tombá 20 metros depois. Só que a marcha atrás de mim não diminuiu e o que aconteceu, então, como um soluço no cérebro, pareceu afastar por um instante o medo.

Era eu, muleque, descendo o morro, aquilo que eu, crescido, ‘tava vendo no canto do olho. C’a mochila nas costas, sandálias Havaianas e bermuda azul com riscas brancas na perna. Saltando dois degraus por vez, os bracinhos longe do corpo. O menino que me acompanhava naquela brincadeira também trazia sua mochila e um uniforme igual.

Com os olhos pesando que nem capôs, fui capaz de calcular meu verdadeiro estado — talvez a perna ‘tivesse mais ferrada que imaginei, enquanto o ferimento combinado ao calor virou loucura, o tipo de frescura que a vida inteira pensei ser exclusividade de gente rica com febre (pelo menos na televisão era assim).

Forcei o cálculo pra outra direção: então ele me respondeu que naquele quando a gente tinha não mais que oito ano’.

A antiga escola ficava logo ali em cima, Marcinho e eu morávamos logo ali embaixo.

A gente era dois muleques que se adoravam. Aprendi c’a minha mãe uma expressão bacana pra isso: “Cu e ceroula”, ah-ah-ah!… O Nishimura da minimercearia, por causa do diminutivo dos nomes, chegou a apelidar a gente de “os Doisinho”. “Lá vão os Doisinho subinu o morro com uma sacola de laranja cada um!”; “Os Doisinho passaro por aqui agora pouco, foram soltar pipa em alguma laje.” Eu era colado ao Marcinho, muito mais do que nunca fui a qualquer um dos meus cinco irmãos.

Zezinho e Marcinho de uma época que já não existia passaram correndo do meu lado sem me notar. Também, maluco… eles não eram reais! Eu ‘tava apenas recordando uma infância sem malícia na Favela Sorriso; ou melhor, minha cabeça avariada, como que pra me um consolo, parecia fazer todo o trabalho por conta. Como num sonho. É, como num sonho improvável, um sonho que queria me dizer merda nenhuma e era no mesmo tempo poderosamente nostálgico.

O meu eu-garoto meteu a mão no traseiro e tirô do elástico da bermuda uma pistola. Marcinho fez igual, colocando à vista da comunidade uma poderosa 9 mm de plástico reluzente e brilhante como uma foca (que eu também só tinha visto na televisão, a foca). O barulho dos tiros, a gente dava conta de fazer com a boca, os dedinhos trabalhando no gatilho. Pam!, pam!, pam! Na visão soavam igual areia batendo numa janela, sei lá. Em certa altura, pam!, eu matei ele. Marcinho caiu sentado; me dei conta (com quatro pares de olho’, cada par distribuindo uma reação diferente pra cabeça) de que Marcinho era o primeiro morto que sorria. “Vamos escrever nossos nomes na parede!”, Marcinho deu um grito com aquela disposição do menino que propõe a outro menino aquilo que considera a brincadeira mais legal do mundo. “Os Dois Pistoleiros do Sorriso!” Rodou a mochila na barriga e pescou o estojo. “É, vamos!”, respondi. “Assim nossa fama na Favela Sorriso será eterna!” Marcinho deslizou em cima das suas perninhas magrelas e escreveu na parede usando um giz de cera preto, tão preto que parecia esfregar o próprio dedo no reboco. E o engraçado de tudo isso é que eu, crescido, via o giz escrever por cima de linhas que já ‘tavam ali. Era como se o menino quisesse só reforçar os contornos de um antigo rabisco, me entende? Deixa de burrice, falei pra mim mesmo; aquilo era o resultado maluco do encontro do passado com o presente, porque no tempo em que aqueles dois muleque’ vivia a parede ‘tava limpa mesmo. M. E Z. — OS DOIS PISTOLEIROS DO SORRISO. Ele finalizou o O com o mesmo capricho que tinha começado o M. Foi um trabalho apaixonado, ah, isso foi. Olhamo’ um pra cara do outro, balançando a cabeça, os olhos apertados num sorriso. A excitação de vandalizar uma parede, a excitação pelo arranjo que nos faria eternos. Segurei meu boné pela aba e enterrei ele na cabeça de Marcinho, deixando minha cabeleira loura brilhando no sol. Então a gente trotou escadaria abaixo, um disparando contra o outro tiros de peido da sua pistola.

Minha visão terminava aí.

Alguém ‘tava descendo a escada novamente, e o impacto do mundo real confundiu minhas lembranças que nem um soco bem dado naquela coisa sensível que balanga entre as coxas de um homem. Eram dois e ‘tavam falando alto. Logo reconheci a voz de arara de um deles. Os seguranças da Boca rival tinham fechado o cerco em cima de um do Samabaia. Agora eles sabia que minha vida escorria por um buraco de bala na coxa.

Deitei as costa’ na escada numa posição desarranjada, antes que as cria’ de Satã finalmente ocupassem toda a minha vista. Pela expressão que fizeram, devem ter pensado que eu tinha acabado de morrer.

— ‘Tá respirando! — exclamou o mulato de barbicha no queixo e gorro verde, girando o olhar na direção do segundo cara. O olhar tinha pressa e raiva. — Atira no filho-da-puta! ATIRA!

Como um daqueles retratos de casa assombrada, que te espiam pelos corredores enquanto você enche a cueca, meus olhos quicavam dum pro outro com triste lerdeza. Vi que o segundo, mordendo o beição, ‘tava segurando o choro. Nesse ponto eu já pensava se ele tinha errado mesmo o primeiro tiro, ou se me acertou na perna de propósito. Claro, claro que tinha sido ele. Mas de qualquer jeito, se eu não acabasse com uma bala na testa já, morreria na poça do meu próprio sangue. Meu chinelo ‘tava caramelizado.

— Vai chorar? Vai chorar, negão? Lembra daquilo que o gerente te disse: a permanência no cargo de segurança depende de como as coisa’ ia rolar essa semana. — Começou o de gorro. Preto lazarento, aspirador de rola. A vontade que eu tinha era abrir um novo nariz no meio da testa dele. — E veja que puta sorte dos diabos, as coisas decidiram rolar que nem enchente na descida. Os fracotes da Boca do Samambaia acharam que podiam travar uma guerrinha, ah-ah-ah! Vê se aproveita a chance, maluco, não deixa ela escapar entre os dedos, não! Iss’aqui é coisa deliciosa, é mamão com mel. ATIRA NA PORRA DA CABEÇA DESSE FILHO DUMA PUTA!

O grito fez o neguinho da pistola encolher os ombros.

Fiz outro cálculo tão certeiro como da primeira vez. Ele tinha 15 ano’. Igual eu. E como é que eu sabia?

Marcinho fazia aniversário cinco dia’ depois do meu.

Dessa vez, no entanto, era uma pistola Taurus PT 938, preta como a cara dele, apontada pra minha, e não um cocô de plástico.

— Mata ele, Marcinho! Porra!

O outro subiu a mão e fechou nela uma boa porção da camiseta de time do Marcinho, que descolou por um tempo os olhos assombrados de mim e encarou o rosto do mulato de gorro — enquanto isso eu fiquei debaixo do olhar do berro.

Foi a minha deixa.

Saquei a pistola do elástico da bermuda e ‘pertei o gatilho. Pensei que ‘tivesse fraco demais pra disparar a bostinha de um tiro, e pensei nisso inclusive ao ‘pertar o pinguelo. Mas quando senti o tranco, o fedor da pólvora, a gritaria de gente abaixada atrás de muro e parede, eu fiquei surpreso comigo mesmo. Também fiquei surpreso quando um buraco se abriu no gorro verde do maluco, cortando uma frase dele na metade. Na hora o buraco começou a sangrar e a deixar o tecido meio preto, me entende? O cara caiu, ainda agarrado à camiseta de Marcinho, que foi parar no chão com ele. Ouvi quando a custura da gola se despregou (trarararará). Meu velho amigo bateu o cu na quina dum degrau e deu um grito.

Eu não fiquei de pé, claro. ‘Tava quase morto. Só consegui sentar, separando as costa’ da escada. A arma de Marcinho ‘tava bem longe dele. Meu amigo tinha finalmente começado a chorá, as palmas brancas por cima da cara preta num “Eu me rendo” deprimente. Uma merda, sabe? O outro ‘tava lá, morto, meio que atravessado por cima, o gorro torto na cabeça, o olho aberto como se ainda não acreditasse que tinha levado um tiro. Estranho, mas me deu vontade de rir.

— Cara, não atira. Eu… eu… eu te salvei o côro! — E, com as bochecha’ encharcadas de lágrima, Marcinho apontou a parede. OS DOIS PISTOLEIROS DO SORRISO. — Lembra? Lembra do dia que a gente fez isso, Zezinho?

Então sorriu. Chorando, sorriu.

E foi a coisa mais feia que já vi, aquela briga de emoções num rosto só.

Levantei o braço trêmulo e, PAAAAM!, acertei ele na boca. A mandíbula estorô numa fúria de dentes que lavou o chão. Em algum lugar um pássaro levantou voo, grasnando, e isso se misturou com o eco do tiro que ricocheteava nas paredes esverdeadas. Matei Marcinho pela segunda vez, e sabia que esta seria a última.

Ele baixou as mãos, baixou elas pra sempre. Já eu não mudei em nenhum momento a expressão da minha cara: a coisa importante acontecia toda dentro de mim. Fora era só um bocado de confusão e dois bocados de nada. Consegui ficar de pé, as pernas arqueadas e moles, e, putaquepariu, essa foi a parte mais foda.

Estiquei a mão suja de sangue pra parede e cobri nossas iniciais, deixando só IS PISTOLEIROS DO SORRISO.

Então caí, caí em cima do corpo do meu amigo Marcinho.

Percebi as palpitações do coração dele e de repente achei aquilo bom. A gente podia morrer junto, virar estatística ao mesmo tempo, me entende?

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Este conto foi escrito por DIOGO BERNADELLI. A publicação neste blog foi devidamente autorizada pelo autor.

10 comentários em “Projétil de Sangue – Conto (Diogo Bernadelli)

  1. Cicero Janio
    25 de maio de 2016
    Avatar de Cicero Janio

    essa foto de cima é do filme” o procurado “

  2. Sérgio Ferrari
    23 de outubro de 2013
    Avatar de Sérgio Ferrari

    Eu me cafundi e achei que era um conto do concurso da viagem no tempo. Seria massa dois favelados com uma maquina do tempo na mão. Anyway, curti bastante.

  3. C.R.Angst
    15 de outubro de 2013
    Avatar de C.R.Angst

    Expressões coloquiais bem empregadas dentro do contexto da narrativa. Trazem veracidade ao enredo, aproximando o leitor à realidade do personagem-narrador. Gostei do dinamismo.

  4. Rodrigo Jaquis
    15 de outubro de 2013
    Avatar de Rodrigo Jaquis

    Senti um espaço de 60 segundos se passando por horas intensas e desesperadoras.
    Lucido, sinistro e real.
    Parabéns ao autor!

  5. selma
    14 de outubro de 2013
    Avatar de selma

    achei muito interessante, li até o final. acho arriscado usar expressões diferentes como essas do protagonista, porque nosso portugues sempre pode nos pregar uma peça, mas o autor conseguiu ir em frente e se fez entender. gostei, parabens! (só acho palavrão demais, mesmo pra malandro do morro).

  6. TONINHO LIMA
    14 de outubro de 2013
    Avatar de TONINHO LIMA

    Justamente o que Lodi considera ruim, foi o que me prendeu ao conto! Li interessado até o fim. Nâo é o que se espera do leitor? Pois a mim o conto atingiu como um projétil muito bem mirado.

  7. Ledi Spenassatto
    11 de outubro de 2013
    Avatar de Ledi Spenassatto

    Murri? ? ? Nunca vi alguém murrir.

    • Gustavo Araujo
      11 de outubro de 2013
      Avatar de Gustavo Araujo

      Oi, Ledi! Acho que você deveria ler o restante do conto para saber que o uso de expressões coloquiais, como “murri”, “tava”, ou “tirô” foi perfeitamente adequado. Repare bem na maneira como o protagonista se expressa – é sempre dessa forma mundana, ordinária, e por isso fantasticamente autêntica.

      Esse. aliás, é um recurso de linguagem usado por vários autores . Monteiro Lobato é um deles, só para citar como exemplo.

      Espero que você leia, então, o conto até o fim, para que seja possível emitir uma opinião adequada.

  8. Rômulo Mafra
    11 de outubro de 2013
    Avatar de Rômulo Mafra

    Uma porrada da realidade na nossa cara!

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Publicado às 10 de outubro de 2013 por em Contos Off-Desafio e marcado .