EntreContos

Detox Literário.

Imortal (Marcelo Porto)

O sangue pinga por entre os dedos metálicos, que não são meus. A trilha de corpos desmembrados os trouxeram até mim. A confusão do lado de fora é enorme, o barulho irritante das sirenes e o burburinho dos curiosos não me incomodam, mas o desespero dos que perderam entes queridos corroeria o meu coração. Se ainda tivesse um.

Ao meu redor mais morte. Os negociadores, os atrevidos e os metidos a herói. Não queria que acabasse assim, mas eles me obrigaram.

“Essa é a única forma de forçá-los a me matar.”

A frieza do aço dói na alma, sinto cada engrenagem, cada parafuso, cada chip.  Não sei o que fizeram para conectar o meu sistema nervoso a esta máquina, mas a dor é terrível. A infinidade de sensações que chega ao meu cérebro é enlouquecedora, e todas, absolutamente todas, são como navalhas dilacerando a minha carne e os meus nervos. A dor é brutal.

“Ainda posso me considerar um ser humano?”

A minha tortura é insuportável, meu organismo perdeu a capacidade de aliviar o sofrimento. A máquina não me deixa morrer, nem ao menos desmaiar. Me tornei imune a qualquer tipo de anestesiante, ao sono, ao torpor… Estou sempre em alerta. A dor é ininterrupta.

Eu tinha muito dinheiro e queria viver para sempre. Fui o primeiro brasileiro a me candidatar à criogenia. Nos Estados Unidos já tinham uns 100 congelados. Aqui fui o primeiro. E o último.

A minha fortuna foi toda investida nessa loucura. Não sei o que aconteceu, hoje, três séculos depois, me tornei um produto, um experimento científico.

Despertei sentindo dores horríveis. Senti cada procedimento, cada conexão. Sem conseguir me comunicar, sofri vendo aqueles homens e mulheres montarem esse corpo cibernético peça por peça. A cabeça foi a primeira a ser ativada e com ela o meu suplício. Não sei há quanto tempo acordei, mas é tempo demais.

A dor é indescritível.

Implorei para que me desligassem, que me deixassem morrer. Mas eles não me ouviram. A descoberta científica se sobrepunha ao meu bem estar. Haviam provado que é possível ressuscitar um corpo em criogenia.

O meu sofrimento é um mero inconveniente, apenas um pequeno defeito que precisa ser consertado e para isso precisaram me manter consciente. Não seriam detidos por um pequeno detalhe: a dor de uma cobaia. Para isso serve o protótipo, era assim que eu era chamado.

Perdi a noção do tempo. Não sei desde quando suporto este martírio.

Senti cada exame, cada agulhada, cada conexão, cada procedimento. Da forma mais terrível que se pode sentir.

Invejo quem tem sangue correndo nas veias, como este que sujam as minhas mãos. Até os fluidos que circulam em mim me causam sofrimento, é como se estivesse passando vidro moído por cada veia do meu corpo. Se isso fosse um corpo.

Eu implorei para que acabassem comigo, mas não me ouviram.

Fui obrigado a matá-los.

Naquele inferno, também tentei morrer. Quando consegui me livrar das correntes, tentei me enforcar. Não deu certo. O incêndio também não funcionou.

Matei todos os reféns, para obrigar os seguranças a atirarem. Mas a couraça que cobre o meu corpo é resistente. Os tiros só aumentaram o sofrimento.

A queda do quinto andar danificou uma das minhas pernas, amplificando ainda mais a dor. As avarias que sofri só fez piorar a minha via crúcis.

Resisti à policia. Eles também não conseguiram me deter.

A dor só aumenta.

Agora o cemitério está cercado. E eu continuo resistindo.

Passei toda a minha existência fugindo de lugares como este. Seria poética se não fosse trágica a inveja que sinto dos habitantes dos túmulos ao meu redor. O quanto rogo para me juntar a eles.

Os policiais estão com medo, já desistiram de se aproximar.

“Quando começarão a usar o armamento pesado?”

Alguns representantes da empresa estão tentando convencê-los a me poupar.

“Eu preciso morrer.”

O executivo está discutindo com o comandante da operação, pelo jeito está ganhando terreno. Os militares estão se afastando.

“Precisam de um estímulo.”

Caminho com dificuldade até o portão principal. Me sinto como o monstro de Frankenstein indo de encontro à multidão amedrontada, ouço as armas sendo engatilhadas, mas não vejo nenhuma de grande porte. Eles precisam me matar, senão a carnificina continuará eternamente.

O executivo grita algo em minha direção. Há muito que não ouço nada, só as engrenagens e o ranger metálico e doloroso deste corpo monstruoso.

O chefe de polícia se afasta amedrontado. O executivo acena, tentando me convencer de algo. Me aproximo ainda mais, ele parece não me temer, só percebe que está sozinho quando fica cara a cara comigo.

A minha mente está me pregando uma peça.

O executivo sou eu.

Ele grita desesperado tentando apaziguar a situação. Não ouço nada. Só sinto dor.

É como se estivesse de frente a um espelho. Só que não.

Ele continua gesticulando, tentando me convencer.

Dolorosamente, o agarro pelo pescoço e o levanto facilmente. Uma máscara de desespero transforma a sua face.

Como um boneco de pano ele pende no ar, vejo nos olhos dele os buracos onde deveriam estar os meus olhos. A escuridão reflete a minha alma.

Enquanto ele sufoca, percebo um logotipo conhecido no crachá preso no bolso do paletó: Prattes Robótica & Engenharia Genética. Roberto Prattes – Presidente.

“Roberto Prattes sou eu!”

Hesito. Isso o faz sofrer ainda mais.

As memórias me atingem como um tiro de canhão.

Eu sou o protótipo. Por quase 50 anos sofri para que descobrissem uma forma de ressuscitá-lo. Fui dissecado, desconstruído e reconstruído como se fosse um objeto inanimado.

Pressiono a sua traqueia vagarosamente. Sinto prazer vendo-o ficar roxo e se debater. Os policiais não podem fazer nada, sob o risco de pôr a vida dele risco. Como se ele já não estivesse condenado.

Sinto satisfação. Alguém para compartilhar a minha dor.

Como se despedaçasse uma folha seca, esmago o seu pescoço. As órbitas ficam brancas e o corpo despenca sem vida. Ele não sangra, um fluido branco escorre pela boca.

“É mais um robô.”

A policia abre fogo. A dor aumenta.

Corro de volta para o cemitério.

“Quantos mais foram criados?”

Na minha mente explode a resposta.

“Muitos.”

A única forma de morrer é matando a todos.

20 comentários em “Imortal (Marcelo Porto)

  1. Diogo Bernadelli
    29 de setembro de 2013

    Achei a proposta e escrita interessantes, esta última até certo ponto. O argumento parecia ser grande demais, de modo que o número permitido de laudas não foi suficiente para contê-lo. A figura do cemitério igualmente não possui grande importância, mas este ponto é superado pela narrativa, a qual se por um lado peca ao buscar se encaixar em um recipiente menor que suas dimensões, por outro traz uma abordagem temática atraente.

  2. Bia Machado
    28 de setembro de 2013

    Achei fora do tema, mas é um texto bem escrito, só não concordei com o final. Mas curti essa ideia central, foi bem interessante.

  3. vitorts
    28 de setembro de 2013

    Não vi tanto do tema cobrado no concurso aqui; parece mais um singelo enfeite de mesa em uma casa bem mobiliada. Bem mobiliada porque está bem escrito, e o mote é muito bom! Gostei do twist quando o protagonista relembra que é um protótipo. Não gostei tanto do final “só posso morrer se matar todos”.

    Boa sorte no concurso!

  4. Fernando Abreu
    28 de setembro de 2013

    Achei meio fora do tema, mas escrito por alguém talentoso. Gosto dessa coisa meio “metálica” que permeia o texto, acho que já li algo do tipo em algum lugar, mas não me lembro. Bom conto, mas que tem potencial de crescimento.

  5. Sandra
    28 de setembro de 2013

    É um choque: seres que buscamos – mesmo que em sonho – a imortalidade, deparar-nos com a dor de um ser coisificado que luta por sua finitude. Realmente, dá medo de encarar um futuro louco como este. Ao contrário de algum comentário, senti o personagem-narrador bem próximo. A dor nos cerca, talvez, por pensarmos que de alguma forma isso possa se transformar no real.
    Bem construído. Quebra alguns modelos recorrentes nas histórias: não é o bem x o mal, ao me ver, o enxerto aí é o elemento neutro.
    Boa leitura.

  6. Rubem Cabral
    27 de setembro de 2013

    Bom conto, mas achei que o cemitério foi mero cenário, apenas o lugar do embate do andróide e seus perseguidores. A história é interessante, o narrador-personagem ficou bem construído. O texto carece de alguma revisão.

  7. Maria Inês Menezes
    26 de setembro de 2013

    Muito bom! Angustiante de se ler mas a leitura prende pela ficçao científica misturada ao cemitério.

  8. Martha Angelo
    25 de setembro de 2013

    Adorei! É um dos meus favoritos!

  9. Gustavo Araujo
    24 de setembro de 2013

    Muito bacana a ideia, aproveitando o mote do Desafio para nos jogar um conto diferente, cheio de nuances bacanas. Gostei do conto – e olha que não me amarro muito nesse lance sci-fi. É que tem essa visão do “eu” refletido, como ocorre no “Clube da Luta” – ops, não se deve falar do Clube da Luta. De qualquer modo, foi uma boa sacada. Bom entretenimento, bem escrito. Parabéns.

  10. feliper.
    24 de setembro de 2013

    Eu gosto da idéia e da escrita, só achei que a criatura ficou distante, muito abstrata. Falta mais descrição, mas é bom.

  11. Emerson Braga
    23 de setembro de 2013

    Excelente história. Sou suspeito de dizer, pois, não resisto a contos de ficção científica tão bem escritos! Muito bom!

  12. Thais Lemes Pereira (@ThataLPereira)
    20 de setembro de 2013

    Gostei muito!! Mas também tive a impressão de que faz parte de um texto maior. É uma boa história para um livro.

  13. Claudia Roberta Angst
    19 de setembro de 2013

    O contexto do conto poderia acontecer em qualquer outro cenário. Tirando as mortes de todos e a do protagonista que não acontece nunca – de humano e perecível, só lhe resta a dor – nada liga os fatos ao cemitério. Porém, está claro que o local é o que menos interessa na narrativa. Prende a atenção, boa construção de frases e exposição das ideias.

  14. Reury Bacurau
    18 de setembro de 2013

    Gostei do contexto “ficção científica” do conto. O final em aberto parece prolongar a agonia do imortal. Parabéns!

  15. Arlete Hamerski
    18 de setembro de 2013

    Gostei! Eu também já escrevi um conto sobre esta temática robô / humano e ao ler o seu fiquei pensando, nossa, muito bom, bem que eu podia ter pensado nisso tb. .. heheh Parabéns!

  16. marcopiscies
    18 de setembro de 2013

    Você escreve muito bem. Deu para sentir a dor do personagem, sua agonia e até sua raiva. Consegui visualizar cada imagem descrita de forma muito clara. O português está impecável e a leitura é bastante tranquila. A ideia da história é excelente. Eu, particularmente, sou fã de Ficção Científica e já li bastante conto com este tema por aí, e esta ideia é realmente boa. Me prendeu bastante.

    Só faltou uma conclusão. Tenho visto isso em muitos contos aqui no concurso: textos interessantíssimos e muito bem feitos mas que parecem um trecho de uma história muito mais ampla. Falta um clímax; uma conclusão.

    • Marcelo Porto
      18 de setembro de 2013

      Concordo com a sua resenha.

      Já vi outros comentários sobre o fato de que alguns contos parecem inacabados. Na minha opinião, acho que o conto tem essa característica, a de deixar alguns desdobramentos por conta de quem lê, não concordo quando o autor exagera na dose e se torna “desonesto”, deixando o leitor sem direção.

      Deixar pequenas lacunas que serão preenchidas pela imaginação de quem lê é uma qualidade.

      Vejo isso neste conto.

      • marcopiscies
        18 de setembro de 2013

        Sério? É, acho que é uma forma de ver.

        Eu sempre aprendi que conto tem que ter uma conclusão. Um ponto final. Um clímax, algo que feche a história.

        É claro que ele pode deixar o leitor pensando, divagando, por vezes pensando na mensagem que o texto transmite. Mas como o conto pode ser definido como uma história curta, no meu ponto de vista ele tem que ter início, meio e fim.

        Mas depende né? O mundo da literatura não tem regras escritas em pedra, rs.

        Eu falei disso por que, no final desse conto (que é muito bom, mas isso já falei, rs), fiquei pensando “poxa, e o que aconteceu com ele? Como assim tinha um robô como diretor da empresa? O que de fato aconteceu? Ele vai morrer, afinal? Ou vão capturá-lo para fazer mais testes?”

        Daí que veio a sensação de que este conto deveria contar uma história maior… =)

  17. selma
    18 de setembro de 2013

    eu fiquei pensando nas pobres cobaias que usam para experiencias e senti pena desse homem robô, mas ficou meio indefinido, embora a ideia seja boa. entendi o que ele quis passar para o leitor, mas não fica muito visível. mas a historia merece ser lida. parabens.

  18. José Geraldo Gouvea (@jggouvea)
    18 de setembro de 2013

    Interessante a ideia do texto, embora a presença do cemitério tenha sido claramente adicionada apenas para que o conto pudesse ser aceito no concurso. Se em vez de cemitério fosse uma lanchonete, uma escola, um prostíbulo ou uma banca de jornais daria na mesma. Mas, enfim, não vou ser ranzinza. A história é boa e a inserção do cemitério não é motivo para desqualificá-la. Vai merecer muitos votos esse texto. Só quero saber se essa boa impressão inicial resistirá a uma segunda leitura, amanhã.

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Informação

Publicado às 17 de setembro de 2013 por em Cemitérios e marcado .
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