EntreContos

Literatura que desafia.

Setenta e Duas Horas – Conto (Bia Machado)

woodstock_csg022Sábado, 5 de dezembro de 1992.

Richard levantou os olhos ao receber o livro que deveria autografar. O gesto mecânico acabou paralisado. Estranhamente, algo fez com que congelasse: a visão inesperada da mulher que segurava o exemplar o tinha deixado atordoado. Era ela, com certeza era Susie.

Sem saber o que dizer, perguntou:

— A quem devo dedicar?

— Para Susanna. Susanna Brown, que nunca conseguiu esquecer Richard O’Connor.

Susanna Brown… Não era o sobrenome dela na época. Aquilo só podia significar que ela…

Não pode deixar de olhar para a mão esquerda dela. Uma aliança de casamento. Susie estava viva e tinha se casado. E agora, ali, sorria para ele.

— Prazer em conhecê-lo de novo, Richard O’Connor. — disse Susanna, quase em um sussurro.

.

Domingo, 17 de agosto de 1969.

Cocker cantava With a little help of my friends quando Richard chegou ao festival. Grande ironia ouvir exatamente aquela música: não era por causa de um grande amigo que podia finalmente estar ali, naquele exato momento?
Deixou-se guiar entre a multidão. Lembrava muito bem onde estava Susie e a aparência da jovem mais bela que ele já conhecera: os cabelos loiros muito compridos, um vestido que, pensando bem, era a coisa mais espalhafatosa que podia existir: cabiam todas as cores nele. Richard precisava chegar antes dos últimos minutos da música, pois fora naquele exato momento que ele havia se aproximado dela da outra vez. Tinha que ser agora, naquele instante. Ou poderia encontrá-lo.

Apressou o passo.

Logo ele a viu e correu, ficando às costas dela. O que ela diria daquele homem que agora tinha a fisionomia de mais de trinta anos? Como a chamaria? O que diria a ela?

— Susie? — Foi só o que ele conseguiu dizer.

Ela se virou, deixando os versos da música morrerem em seus lábios. Por alguns segundos, ela pareceu espantada. Os dois ficaram se olhando, enquanto começavam a cantar junto com Cocker: “All I need is someone, who knows just where I’m going… Somebody who knows quiet sure, baby…”

— Você? Mas você é…

.

Terça-feira, 19 de agosto de 1969.

— Eu devo estar maluca, louca mesmo.

O homem ao lado dela, na cama, despertou com suas palavras.

— Quem está louca?

— Faz dois dias que estamos nesse quarto de hotel, minha mãe não faz ideia de onde eu esteja e você tem… doze? Quinze anos a mais do que eu?

— Qual é o problema com a idade?

— Nenhuma, mas desde que nos encontramos em meio a toda aquela gente, eu… Não sei o que aconteceu comigo.

Era como se Susie não pudesse explicar de forma alguma todas as sensações estranhas que sentia desde dois dias atrás. Havia como que uma voz a lhe dizer, a todo instante: “Vá com ele”. E como ela sabia o nome de Richard, antes dele ter-lhe dito?

— Sinto como se a gente já se conhecesse, Richard… E eu tenho absoluta certeza de que antes daquele momento, ali, no festival, a gente nunca tinha se visto antes.

— Tem razão quanto a isso, Susie, mas… Eu não posso explicar. Não ainda.

— Que história é essa? Por que está fazendo isso? — Ela se revoltou.

— Não adiantaria explicar nada agora. Só posso dizer que nem eu, nem você estamos loucos… Talvez já tenhamos sido, em algum momento, mas agora não… E se depender de mim, não seremos novamente.

— Pare de falar assim, o que você quer afinal? Que eu decifre essas coisas todas que você diz?

— O que eu quero é simples: confie em mim. Agora, você pode confiar. Você confia?

— Eu… Eu quero muito isso. Sim, eu acho que posso fazer isso… Mas por que você não quer sair daqui do hotel? Não podemos passar o resto da vida aqui dentro, não é?

Uma pena que não”, pensou Richard. Nem ele mesmo sabia quanto tempo ainda tinha. Se fosse para sempre! Sim, era tudo o que ele mais queria que se tornasse verdade. Poder ficar ali, com ela, sempre. Mas era melhor esperar ao menos mais uns dois dias. Lembrava-se de que na outra vez ele tinha ido embora apenas no dia seguinte, dia 20.

Não podia correr o risco de estragar tudo, apesar de não saber se aquelas precauções tinham mesmo razão de ser. Ormond tinha sido bem claro: “Tudo isso é um tiro no escuro ainda.” E Richard pagaria qualquer preço por aquele tiro no escuro. Só pela chance de tentar, de mudar… de trazer Susie de volta.

Richard tinha que concordar: era uma angústia não saber o que esperar. Aliás, ele sabia: sabia que da outra vez, a coisa toda não durara mais do que quinze horas e custara a cegueira da “cobaia”.

“Talvez Susie tenha razão, talvez eu seja um louco. Mas eu faria tudo, novamente, para vê-la viva mais uma vez… E saber que ela continuará assim por muito, muito tempo…”

No dia seguinte, à tarde, Richard começou a sentir fortes dores abdominais. Susanna, ao seu lado, dormia profundamente. A dor surgira do nada, então provavelmente queria dizer apenas uma coisa: seu tempo ali estava contado! Levantou-se, cambaleante, procurando alcançar o envelope que trazia no bolso interno de sua mochila. Encontrou-o e o colocou dentro da bolsa dela.

As dores aumentaram e ele não conseguiu sufocar o grito. Susie acordou, assustada, a tempo de ver com seus próprios olhos o corpo dele se desintegrando.

— Richard!!! — gritou ela, sem saber quantas vezes tinha repetido o nome dele depois da primeira vez.

.

Manhã de quinta-feira, 21 de agosto de 1983.

Ormond viu que finalmente Richard conseguia responder a um estímulo. Piscou algumas vezes, antes de abrir os olhos, de forma lenta. O cientista estava entre exultante e preocupado. Exultante porque o amigo tinha conseguido se manter por quase que setenta e duas horas (ou noventa horas do tempo presente) em outra época. Mas quais seriam os efeitos colaterais, daquela vez? Aliás, haveria algum?

— Richard O’Connor, pode me ouvir? Rick?

— Sim, eu… Eu posso ouvir você, Ormond… Ormond, ela está viva agora?

— É cedo para verificar isso agora, cara… Vamos fazer todos os testes par ver se está tudo certo com você primeiro…

— Minhas pernas…

— O que disse? — Ormond aproximou-se mais do rosto do amigo, pois quase não conseguia escutá-lo.

— Onde estão as minhas pernas?

.

Sábado, 5 de dezembro de 1992.

— Então tudo isso que está no livro foi o que aconteceu? Quer dizer, foi o que tinha acontecido antes de você voltar?

Susie viu o homem pousar a xícara de café no pires, pensar alguns segundos, antes de responder.

— Sim, infelizmente. Os quatro anos em que vivemos juntos, fazendo as maiores loucuras, consumindo toda aquela droga…

— Sinto um frio na espinha só de pensar.

— Não consegue acreditar em mim ainda, Susie?

— É claro que acredito, Richard. Nem precisava ter escrito aquele bilhete, dizendo tudo aquilo. Só a lembrança de ter visto você, se desintegrando diante de mim, faria com que eu acreditasse em tudo isso. No entanto, foi bom que o tivesse escrito, pois foi uma prova a mim mesma de que tudo aquilo, naqueles dias, dentro daquele quarto de hotel, foi real.

Richard não se importava mais com nada daquilo. Apenas vê-la viva, saudável, com uma história reconstruída, aquilo tudo era o que realmente importava.

As suas pernas… Bem, eu não posso agora deixar de me sentir culpada por você não andar mais e…

— Eu faria tudo novamente, aconteça o que acontecesse. Consegue entender isso, Susie?

Ela viu uma súplica no olhar dele.

— Eu… Fico feliz por isso, querido… Por ter me dado uma nova chance. De alguma forma foi isso, não foi? Nesses anos todos, foram tantos momentos maravilhosos que só posso agradecer a você por tudo… Espero que você tenha sido feliz tanto quanto eu fui.

— Pode ter certeza de que sim.

— Gostaria de que conhecesse a minha família.

— Não sei se devo…

— Ela é obra sua, não é?

— Essa é uma maneira estranha de ver as coisas… Tudo o que eu fiz foi mudar um pouquinho os acontecimentos…

— Pois mude um pouquinho agora, mais uma vez. Em vez de voltar para casa e jantar sozinho, venha provar todos os sabores da ceia da Família Brown.

Ele não teve como dizer “não”. Era estranho, mas agora que a revia, sentia como se tudo estivesse em seu devido lugar, finalmente.

— Talvez, mas apenas talvez, Sr. O’Connor — disse Susie, em tom de brincadeira —, eu deva culpá-lo por estar me sentindo velha aos 43 anos: minha filha de 18 anos acabou de me dar um neto!

— Se ele for esperto como a avó…

— Ou charmoso como o “xará” dele, um certo escritor chamado Richard O’Connor… Estamos perdidos!

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Este conto foi escrito por Bia Machado. A publicação neste blog foi devidamente autorizada pela autora.

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6 comentários em “Setenta e Duas Horas – Conto (Bia Machado)

  1. Claudio Veiga
    8 de março de 2014

    Muito bom. Como toda história que “viaja no tempo” a gente acaba confuso, sem saber em que tempo está. Sofri tanto com isso em Matadouro 5 que acabei desistindo de saber em que tempo o livro acontecia. kkkkkk
    Pena que o conto é tão curto. Não dá para matar a sede. A descrição do Festival centrada em Joe Cocker e no vestido está perfeita.

    • Bia Machado
      8 de março de 2014

      Oi, Claudio! Concordo, o conto é curto, precisava de mais espaço, mais desenvolvimento. Lembro que o escrevi para um desafio, devia ter um limite de caracteres, rs. Adoro esse tema e foi mais um daqueles contos escritos pela simples vontade de viver um tempo e lugar que não vivi. =)

  2. Vitor Frazão
    26 de setembro de 2013

    Bom conceito e boa execução, embora haja um ritmo estranho em algumas das frases das duas primeiras partes.

    Fora isso tenho de admitir que é preciso muito para um conto tão focado num casal me cativar, por isso não é muito problemático que não o tenha feito. :/ Não obstante, vejo potencial para o fazer a uma pessoa mais virada para a temática.

    • Bia Machado
      30 de setembro de 2013

      Obrigada pelo comentário, Vitor, valeu pela leitura! 😉

  3. Maria Inês Menezes
    18 de setembro de 2013

    Muito bom!! Viajei na fantasia deste conto!

    • No Paraíso de Borges
      19 de setembro de 2013

      Obrigada, Maria Inês! Vou confessar que devo ter escrito esse conto há uns dois anos e não mais o reli, nem alterei nada, e agora acho que tive uma sensação de estranhamento ao lê-lo! Bj! =)

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Informação

Publicado às 10 de setembro de 2013 por em Contos Off-Desafio e marcado .