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Literatura que desafia.

Siga a Estrada de Tijolos Amarelos – Conto (Bia Machado)

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— Siga a estrada de tijolos amarelos…

— Como é que é? — perguntou Marvin.— Tá tudo bem com você hoje?

— Relaxa. Isso é do livro “O mágico de Oz”. Nem sei por que me lembrei disso. Detesto esse livro. — Jéssica desviou de um animal qualquer morto na estrada, fazendo o jipe sacolejar. — Mas bem que eu queria ser a Dorothy agora, caminhando por essa tal estrada… E não aqui. Aliás, que lugar é exatamente “aqui”?

— “O Mágico de Oz”… Lembrança do fundo do baú da sua bisavó, hein? Bem, respondendo, aqui é o que antes das explosões se chamava de Viaduto Santa Ifigênia. Aliás, o viaduto não existe mais.

— Caramba! Meu sonho era conhecer esse patrimônio histórico…

— Vira à direita, tem um prédio quase inteiro ali… Isso é que é incrível. — Ele a interrompeu.

Pararam em frente a uma construção de uns quatro andares, quase intacto por fora. Os outros dois ocupantes do veículo, Rafael e Luís, desceram primeiro, segurando suas armas.

— Entramos todos? — perguntou Jéssica.

— Tá com medo de entrar? — desafiou Rafael, mais para provocar. Gostava de ver Jéssica brava.

— Claro que não. Quero mais é ver se tem alguém aí dentro. Regulem bem suas máscaras. — a moça respondeu, já segurando uma pistola automática.

— Você fica tão sexy com essa coisa no rosto, Jéssica, meu amor… — brincou Marvin.

O prédio era comercial, mas se percebia que tinha sido utilizado como moradia depois das explosões. Contudo, não encontraram ninguém.

— Se o prédio fosse bem mais alto, agora seria só ruínas.

— Ele deve ter subsolo, vamos descer? — perguntou Luís.

— E se encontrarmos alguma criatura? — quis saber Jéssica, que não tinha uma boa lembrança da última vez que tinham topado com um infectado.

— Algum ser humano, você quer dizer? Bem, se ele estiver em condições de nos atacar… — Marvin não precisou terminar a frase.

No subsolo encontraram, sim, um corpo que parecia estar morto há uns dois ou três dias e não tinha sinais da infecção. Os humanos infectados tinham a pele repleta de pústulas.

— Chegamos tarde. Vamos colocar o corpo dele em um saco e levar para o jipe.
Jéssica olhou os pertences do falecido. Do que ele teria morrido? Sede? Fome? Cansaço? Ao seu lado, uma pequena maleta de couro, que em nada combinava com o agasalho de moleton que ele vestia. Dentro dela, encontrou apenas papéis em branco e alguns poucos escritos. A maioria, assinada como Dani. Uma assinada como Sabrina. Percebeu que havia um papel no colo do homem morto e um lápis entre os dedos. A última carta não tinha sido terminada.

— Cada coisa que ele escreveu aqui… Será que foi ele quem redigiu como Daniel e como Sabrina? — Jéssica achou uma carteira de identificação com uma foto muito semelhante ao falecido, mas o nome era Renato Garcia. — Na carta ele fala da Região 307. Mas ela sumiu do mapa faz anos…

— Esquece, Jéssica. Vai ver o cara ficou imaginando alguma coisa sobre o filho, se é que ele tinha um filho… Devia estar delirando, no mínimo. — Rafael começou a voltar para buscar o saco. Eles nunca sabiam de quantos sacos precisariam, então levavam pelo menos dez. E, às vezes, não era suficiente nem para três horas de ronda.
Jéssica pegou as cartas e dobrou-as, guardando-as no bolso da calça. Toda vez que encontravam alguém morto, ela escolhia alguma coisa como lembrança. Por qual motivo, ela não sabia. E nem queria saber.

— Você e seus souvenirs! Coisa macabra! — constatou Luís.

— Ah, lembrei agora de uma música, acho que do Elton John, chamada “Daniel”… Como é que era mesmo? Eu ouvi outro dia em um transmissor… — A jovem pareceu nem perceber o comentário do rapaz.

— Se lembrar, cante pra ele durante a cerimônia de cremação, então. — Sugeriu Marvin. — E faça o favor de sair dessa estrada de tijolos amarelos. Realidade chamando…

Realidade… Aquilo tudo à sua volta era a realidade deles há meses. E o pior: ela tinha que agradecer. E pedir para terminar seus dias sã, o que infelizmente não tinha sido o caso de Renato/Daniel.
E a manhã estava apenas começando… Com sorte, chegaria alguma chuva para amenizar o calor terrível que tinha tomado por completo o lugar do inverno. Aliás, inverno era algo que ela gostaria muito de poder experimentar algum dia. Algum dia.

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Este conto foi escrito por Bia Machado. A publicação neste blog foi devidamente autorizada pela autora.

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Informação

Publicado às 19 de agosto de 2013 por em Contos Off-Desafio e marcado .