EntreContos

Detox Literário.

ER 3 – Lucia, ou Corpo Estranho (O Fantasma)

 

ATO I

Capítulo 1 — tiro na cabeça

Há aqueles dias que prometem mudar tudo na vida de uma pessoa. Pontos de inflexão. São aguardados ansiosamente. Por vezes temidos. Aqueles dias…

Era um desses dias para Lucas Costa. O homem saía do chuveiro em meio a uma névoa de vapor. O enorme banheiro da suíte, revestido em mármore cinza, demorava alguns segundos para ser atravessado.

Chegou, finalmente, ao espelho, um pouco embaçado pelo calor do banho. Era uma silhueta imponente: um metro e oitenta e três, um rosto de feições italianas, olhos castanho-escuros, barba e cabelos bem-feitos, que chegava à meia-idade sem muitos defeitos. Lucas gostava de se cuidar. A pele bronzeada da praia de Ipanema. Braços e pernas bem trabalhados, conquistados com muito afinco na academia. Torso e abdômen definidos, os músculos cobertos por alguns pelos. Logo abaixo, a peça principal. Dezoito centímetros. E meio. Ou, pelo menos, era o que ele dizia para elas na hora H. Ninguém nunca questionou.

Um pequeno LED azul se acendeu no canto do espelho. Um aviso da assistente de IA que geria a casa. E daí se o espelho do banheiro precisava ter uma câmera embutida? Se alguém invadisse, a vista era boa.

Ele se enrolou na toalha e saiu, chegando ao mezanino que levava aos quartos. Contemplou a bela e ampla cobertura. Uma enorme varanda com hidromassagem e churrasqueira, uma sala em plano aberto, e o mezanino, ainda escuros. Eram umas cinco e pouco. A vista era espetacular, recuada um quarteirão da praia de Ipanema. Os primeiros raios de sol começavam a surgir no horizonte. Lucas desceu as escadas, passando por uma grande tela OLED — tecnologia um pouco antiga, já pedia uma substituta — afixada em uma das paredes revestidas em madeira de fronte a um sofá e pelos quadros de Paul Klee, herdados do pai. Chegou à cozinha. A IA comandava os eletrodomésticos. Todos, sem exceção, possuíam telas, e Lucas pagava caro para que não mostrassem anúncios.

— O café está pronto, patrão. — ele havia programado para ser chamado de patrão.

O homem retirou a xícara da cafeteira. Preparou um pão árabe com a pasta proteica recomendada pelo nutricionista. De toalha mesmo, foi até a varanda. Queria contemplar o dia que mudaria sua vida para sempre. O vento gelado da madrugada refrescava a pele ainda quente do banho. Era prazeroso.

Uma ocasião especial pedia uma vestimenta especial. Voltou ao quarto. As paredes revestidas com papel de parede cinza combinavam com o mármore do banheiro. A cama king-size era uma veterana. Se ela falasse, pediria um cigarro. Assim como o sofá, a hidromassagem e a mesa da cozinha. Vestiu um terno Armani com riscas discretas. Afastou um quadro da parede e digitou a senha do cofre embutido. Dentro de uma caixa prateada, um relógio Tag Heuer, edição limitada. Aquele era o momento certo para usá-lo. Agora estava pronto.

 

****

 

Mesmo os dias excepcionais podiam ter seus momentos menos gloriosos.

O sol já brilhava, prenunciando mais um dia de calor no Rio de Janeiro. Uma longa fila de carros bloqueava a passagem de Lucas com seu BMW. Um típico engarrafamento matinal na Zona Sul. O homem não se acostumava com aquilo, apesar de enfrentar o mesmo cenário todos os dias. “Calma, Lucas. Se tudo correr bem, você vai pro trabalho de helicóptero no próximo mês”, pensou, tentando lidar com a situação.

Lucas sempre ligava o rádio ao entrar no carro. Era um ritual, antes mesmo de colocar o cinto de segurança. Música era um elemento importante, capaz de dar o tom das ocasiões. Um metal antes de uma reunião importante dava confiança. Um bom Dance ou EDM na pista era a certeza de um Kenny G mais tarde.

Ligou na JB FM, procurando ouvir algo relaxante que o desconectasse. Foi uma surpresa desagradável ouvir a Cyndi Lauper berrando girls just wanna have fun. Suspirou. Mas deixou para lá. Nada seria capaz de estragar seu dia. Nem mesmo a pessoa esquisita que parecia tentar contato com ele do outro lado do para-brisa quando parou no sinal. Escondeu o Tag Heuer dentro da manga do Armani.

— Hoje tá ruim! — gesticulou com o polegar direito pra baixo, sem muita paciência. Aumentou, em seguida, o volume da música, para abafar o mundo lá fora.

Quando finalmente chegou, entregou as chaves do carro ao valete, como de costume. Mas, em vez de entrar, Ele parou por alguns segundos, contemplando a fachada espelhada.

O Edifício Manchete não era o mais alto ou mais imponente da cidade, mas desde o seu retrofit era um dos mais luxuosos. As empresas pagavam caro para alugar uma laje corporativa na praia do Flamengo, com vista privilegiada da baía de Guanabara e do Pão de Açúcar. Quem ocupava o último andar era a Rock, uma fintech nascida nos pilotis da PUC-RJ, de alunos de economia. Douglas Meirelles era o CEO e grande cabeça pensante do negócio. Bilionário mais jovem do Brasil, capa da Forbes 30 under 30. Os contatos que o parentesco com um ex-ministro da fazenda proporcionava ajudavam, certamente. Lucas Costa conhecia Meirelles de várias chopadas e eventos na PUC. entrou na Rock quando ainda era uma empresa júnior e logo subiu nos organogramas. Em pouco tempo, se tornou CFO, recompensa por um talento nato com os números e as finanças, ao qual ele era muito grato. Ele se via como uma das razões para o sucesso da Rock. Parecia operar milagres com orçamentos, balancetes e impostos. Mas certo dia, há cerca de um ano, o verdadeiro milagre aconteceu.

Uma ligação direto de Brasília. Era da diretoria do Banco Central. Um projeto secreto. A nova fase do PIX precisava de um sistema back-end confiável e rápido, que pudesse lidar com as novas funcionalidades da plataforma. Nos anos 2030, seria capaz de maravilhas, como crediários a prazo, um sistema de criptografia ao portador, quase um cheque eletrônico, e sistemas de recompensas aleatórias ligado a assinatura de um carnê, só para dizer algumas. Seria o maior projeto da história da Rock. Teriam que contratar mais pessoal e colocar projetos secundários em espera. Era uma jogada arriscada, mas se funcionasse, levaria a empresa a outro patamar. E parecia estar funcionando. Uma comitiva do BACEN estava chegando para assinar um pré-contrato naquele dia.

Lucas andou confiante pela calçada. Pisou no pequeno degrau que antecedia a porta com a confiança de Átila, o Huno, ao esmagar a cabeça de um inimigo ao final de uma batalha.

Lucas saiu do elevador assim que a porta se abriu. Encostado em uma das compridas mesas sem divisória, ocupadas por computadores com, pelo menos, dois monitores cada, um homem tão bem-vestido quanto o próprio. Terno Hugo Boss, um enorme Rolex dourado no pulso esquerdo. Na mão direita, segurava um copo de café onde se via a logo verde-musgo do Starbucks. Barba e cabelo curtos, mas arrumados. Um rosto um pouco redondo.

— Olha só, chegou o cara — Gabriel da Silva era um velho conhecido de Lucas nos tempos das festinhas da PUC. Embarcou também na ideia da startup. A convivência na empresa mostrou aos dois que tinham muitos gostos e interesses em comum, e viraram melhores amigos em pouco tempo. Por falta de habilidade e de contatos, não subiu tanto como o amigo, mas, pelo menos, alcançou uma gerência operacional.

— Eu? Não sou isso tudo, não — Lucas apontou para o copo na mão do amigo — e essa viadagem aí? Tá mudando de time?

— Ah, Comprei pra provar

— E concluiu que era uma merda? — O sarcasmo era um dos passatempos preferidos de Lucas.

— Obvio! Mas, vamos falar de coisas importantes — Gabriel mudou o tom de voz, quase sussurrando — já viu a nova secretária do Meirelles?

— A letícia? — Lucas fez uma cara de aprovação — gostosíssima!

— Fala baixo, porra! Mas sim, uma loiraça. Peitos maravilhosos, e aquela bundinha… — nova mudança de tom — mas porra, na aba do Meirelles é foda!

— Ihh, vai arregar? Se tu não pegar, eu pego. Até semana que vem tá na minha cama.

— Você que sabe. Eu não tenho as mesmas proteções que você aqui. Ah, esqueci de avisar. Você-sabe-quem já está na sua sala…

O semblante de Lucas mudou. Sua voz se alterou.

— Puta que pariu! Chegou cedo hoje. E você enrolando pra avisar. Tenho que ir antes que ela bagunce as minhas coisas.

Lucas andou rápido, atravessando o espaço aberto ocupado pelas mesas compridas. O Rolex se fixou em seu pensamento. Nem sabia que Gabriel tinha dinheiro para comprar aquilo. Obviamente, queria chamar atenção, ainda mais em um dia especial e com carne nova no pedaço, mesmo que fingisse que não. Mas Lucas estava confiante que ver a nova secretária no banco do carona de seu BMW sossegaria o amigo. Era uma amizade competitiva, mas ele gostava disso. O estimulava a se superar.

Ao mesmo tempo, aquela presença na sala, sem sua supervisão, era incômoda e deveria ser resolvida. A enxaqueca recorrente das últimas semanas começava a reaparecer.

Ao entrar na sala, Lucas notou logo a familiar silhueta feminina, encaixada de forma justa no uniforme da empresa: saia lápis justa, com um corte atrás, e camisa social branca. Camila Pires era gerente do setor financeiro. Uns trinta e cinco anos, pele bronzeada, o cabelo ondulado tingido com luzes. Mexia em algumas pastas em sua mesa.

— Já está fazendo bagunça?

— Bom dia pra você também, senhor Costa — Camila respondeu, cínica, como era de costume. Já se cansara das peripécias de Lucas há muito tempo. O conhecia bem. Bem até demais. — estou trazendo os relatórios do financeiro pra você assinar. Estamos tendo problemas no servidor e tá uma loucura.

— Porra, logo hoje — Lucas sentou-se na cadeira. Tirou o paletó, pendurando-o no encosto. Desabotoou as mangas da camisa e começou a coçar os pelos do antebraço. — cadê a menina do TI?

— Marina está desde a madrugada mexendo nisso. Você sabe, rodamos essa porcaria toda em COBOL. Claro que volta e meia ia dar problema.

— Eu sei. Mas modernizar o código todo ia ficar caro pra caralho — levou a mão a cabeça e falou baixo, para si mesmo — puta que pariu, minha dor de cabeça tá piorando.

— Você é tão profissional, Lucas. Quanta finesse — Camila era uma das poucas pessoas que conseguiam desarmar Lucas. Virou-se e já ia saindo — enfim, os relatórios estão em ordem cronológica, como você prefere.

— Obrigado — ele se resignou — o que eu faria sem você aqui? É por isso que não posso te demitir…

Ela parou imediatamente após a fala, sob a moldura da porta. Virou-se de volta, e o olhou fixamente nos olhos. A cara mais séria do mundo.

— Você sabe que não pode.

Lucas ficou sozinho na sala, enfim. Respirou um pouco. Ainda tinha um dia de trabalho, mas precisava lidar com a dor de cabeça. Podia ser só estresse. Talvez passasse quando começasse a se concentrar nos relatórios. Contou até três, respirou fundo, e abriu a primeira pasta.

 

****

 

A rolha voou da garrafa de champanhe, com a espuma esbranquiçada escorrendo e melando a mão de Meirelles, o CEO, sob efusivas palmas dos outros presentes. Ele cuidou para que o líquido não alcançasse o Patek Philippe em seu pulso. A grande antessala do gabinete do CEO era decorada cafonamente em tons de branco e dourado, quase uma imitação de algum hotel em Dubai. Estavam presentes os executivos do Banco Central, o conselho deliberativo, Meirelles, Lucas, e alguns gerentes operacionais, além de alguns funcionários. O CEO, de pé, na cabeceira de uma longa mesa oval, que apoiava as garrafas de champagne dentro de baldes de gelo e algumas bandejas de canapés, chamou a atenção do grupo e iniciou seu discurso. Seus olhos brilhando tanto quanto sua testa que entrava pelas laterais do cabelo, uma calvície que o minoxidil já não conseguia remediar:

— Hoje é um dia histórico para nós! Subimos a um novo level. A Rock, que comecei de forma tão humilde e com tanto sacrifício, não brigará mais nem com as fintechs da Faria Lima, mas sim com os grandes players de Wall Street!

Efusivos aplausos.

— Mas nada disso — continuou — seria possível sem o trabalho mágico de nosso CFO, que conseguiu projetar um budget tão impressionante e ousado, que pode nos possibilitar todo o resto. Se alguém merece os aplausos hoje, é esse rapaz.

Lucas, agradecendo os aplausos, tentava se fingir de humilde, como se aquela chamada fosse inesperada.

— Muito obrigado, mas não sou só eu que mereço. Não fiz nada sozinho. É um prazer enorme fazer parte dessa família que me dá tanto orgulho.

Lucas observou os presentes na sala. Era aplaudido e aclamado por todos. Gabriel gritava “bravo”, feliz pelo amigo. Marina, exausta após o dia mais estressante de sua vida, mal se aguentava em pé, quanto mais aplaudir. Mas, para ele, não importava muito. Ossos do ofício, ela já deveria saber. Até mesmo Camila o cumprimentava, aplaudindo com um sorriso discreto.

O olhar de Lucas se perdeu um pouco pela sala, até se achar na saia da nova secretária. Aquelas pernas bem torneadas, cobertas delicadamente por uma fina meia-calça, que saíam por debaixo do pano bem justo. As curvas do quadril, onde a saia se encontrava com a blusa branca, translúcida a ponto de revelar o sutiã branco por baixo, os cabelos loiros, perfeitamente escovados, que caíam sobre os ombros e enquadravam o jovem rosto como a moldura de um belo quadro.

Imaginou ela mais tarde, sem a saia, a meia calça, a blusa, o sutiã e o que mais tivesse de pano, encaixada sob seu corpo, após ser facilmente seduzida por seu prestígio corporativo, suas mãos fazendo drift por todas as curvas daquele corpo em uma cama do Motel Vip’s, o melhor da cidade. Isso, se não a levasse para o seu próprio quarto. Mas precisava se concentrar, terminar o discurso, antes que fosse tarde demais e tivesse que disfarçar o volume na calça.

— No mais, eu diria que…

Não conseguiu terminar. Uma dor agudíssima irradiou em sua cabeça, quase como se tivesse levado um tiro. Igualmente agudo era o tinito em seu ouvido. Não conseguia se manter em pé. O corpo balançava, as pernas tremiam. A dor não permitia nenhum pensamento. Enquanto caía, via as imagens borradas e cada vez mais escurecidas de seus colegas. Já no chão conseguiu ver Camila se debruçando por sobre seu corpo, a voz trêmula, chamando seu nome e perguntando o que acontecera. Inutilmente, já que ele não conseguia pronunciar uma única palavra. Viu também a secretária nova correndo, em desespero, em direção ao corredor, chamando por ajuda. Em um último fio de pensamento, antes de apagar tudo, ainda ruminou: “que vergonha, não tenho mais nenhuma chance com ela”.

Capítulo 2 — O milagre da medicina

 

Lucas acordou, ainda grogue. Tentava olhar em volta, os olhos ainda embaçados. Sentia um cobertor pesado sobre seu corpo. Aos poucos, se deu conta que estava deitado em uma maca, em um quarto de hospital meio escuro. Os fios dos eletrodos presos ao seu peito limitavam seus movimentos. A luz vermelha do monitor de oxigenação preso em seu dedo indicador iluminava a penumbra. Tentava recobrar sua consciência. Nada fazia sentido naquele momento. Só recordava-se do champagne estourando e dos aplausos, como se fossem há um minuto atrás.

O silêncio foi quebrado por uma figura alta, negra, que abria a porta de correr. Lucas percebeu que estava em um centro de terapia intensiva. Não era bem um quarto onde estava, e sim um box. Através da porta, observou vários outros boxes como o que ocupava. Pacientes idosos, moribundos ou em coma em cada um deles. O homem vestia um uniforme azul e um Crocs branco. No braço, um smartwatch. Uma figura tão serena como imponente. Não disse nada. Apenas deu um passo para trás, liberando a passagem. Apresentou-se um médico idoso, calvo, muito magro. Um jaleco branco e um estetoscópio pendurado no pescoço. Apresentou-se, com uma voz tranquila. Doutor Salvatore Keller, neurologista.

— Como vai, Lucas? Como se sente?

— Não sei… o que aconteceu? — Ele ainda estava grogue — não lembro direito do que houve.

— Você ficou desacordado por dois dias. Teve sorte de ter recebido um atendimento rápido. Tem tido muitas dores de cabeça ultimamente?

Lucas estranhou o conhecimento do médico sobre as dores de cabeça.

— Tenho tido, sim. Mas é normal pelo ritmo de trabalho, não? Como sabe?

— Sua colega, Camila, veio com você na ambulância. Ela fez seu check-in. Comentou sobre sua enxaqueca recorrente — o médico fez uma pausa — estava bem abalada. Ela é sua secretária? Assistente pessoal?

— É… sim….não… mais ou menos. Bem, o que aconteceu?

O dr. Keller fez uma expressão solene, lançando sobre Lucas um olhar sério.

— Infelizmente, não trago boas notícias. Preciso que se prepare.

— Pode falar, doutor. Não tenho medo de doença — disse em tom sarcástico, recobrando um pouco mais a energia — meu corpo é uma máquina perfeita.

— Bom, não é isso que os exames mostram, infelizmente — Keller fez uma pausa — Lucas, você provavelmente tem uma doença autoimune bastante rara. A ressonância magnética que fizemos detectou uma encefalite bastante importante.

O sorriso de Lucas cedeu — como assim?

Os exames de sangue complementares indicaram a presença de autoanticorpos, produzidos pelo seu próprio sistema imune. Eles muito provavelmente estão atacando os neuroreceptores de NMDA do seu cérebro, provocando a encefalite. Parece ser um caso bem agressivo de EDAI, encefalopatia degenerativa autoimune.

O semblante de Lucas mudou. Contraiu um pouco as pernas. Encolheu-se sobre a maca. Em meio ao choque, só conseguiu soltar a frase mais clichê do mundo.

— Isso é grave, doutor?

— Infelizmente, é bastante grave. Administramos uma pulsoterapia de metilprednisolona. É o que diminuiu a inflamação e te possibilitou despertar. Mas não deve ser suficiente. Infelizmente, se a doença progredir como os casos documentados na literatura médica, seu estado mental pode deteriorar progressivamente. Poderá ter lapsos de memória, esquecer nomes, datas e rostos. Perder a coordenação motora, a capacidade de andar, e até de usar o banheiro. A visão e a audição se deteriorarão progressivamente. Nos estágios mais avançados, o sistema nervoso autônomo pode ser seriamente comprometido, inibindo a respiração e o ritmo cardíaco, levando ao óbito.

— Quanto tempo eu tenho? — Lucas gaguejou, estremecido.

— Se realmente for confirmado o diagnóstico, cerca de quatro a seis meses.

— Não tem tratamento?

— Há tratamentos experimentais, mas não há nada comprovado. De qualquer forma, dada a aparente gravidade do seu caso, aconselharia a buscar o que puder.

— Como o que?

— Bem, eu comando uma equipe multidisciplinar. Estamos conduzindo uma pesquisa, com um tratamento experimental, para alguns casos extremos. Selecionamos estritamente os pacientes. Acredito que você se encaixe nas condições que procuramos — o doutor tirou um cartão de visitas branco do bolso, e colocou sobre a maca — Marque uma consulta, se te interessar.

— Bem, preciso pensar um pouco. — ele estava desanimado. Passava a mão direita suavemente por sobre os pelos do antebraço esquerdo — ainda estou processando a situação. E se não der certo?

— Se não der certo, infelizmente, teremos que discutir cuidados paliativos. Tem alguém para estar do seu lado nesse momento?

— Não, sou solteiro e meus pais moram no exterior — demonstrou levemente certa tristeza e abatimento, o que devia ser mais raro dele externar do que a própria doença.

— E Camila?

— Não, Camila… — Lucas deu um sobressalto — nossa relação é estritamente profissional. Não posso envolvê-la nisso.

Os dias passavam lentamente naquele box de UTI, mas a memória ficou como um borrão, uma coisa só. Lucas dormiu pouco, incomodado com os bipes do monitor e as eventuais intercorrências dos outros pacientes. A comida era insossa. Não mexeu no celular. Tentou se distrair com alguns filmes, mas não conseguiu prestar atenção. Viu algo no noticiário sobre estudantes da UFRJ sendo vítimas de crimes na ilha do Fundão, mas não deu bola. Já era desgraça demais na sua própria vida. Perdera o chão, o sentido, o moral.

Saiu do hospital após cerca de uma semana. Só então lembrou de mandar mensagem para Camila. Disse que estava bem. Não deu detalhes. A dose cavalar de corticoides paravam a inflamação e davam um pouco de ânimo, mas também ansiedade. Devia ir pra casa descansar, mas quis aproveitar o que poderiam ser seus últimos dias na terra.

A brisa gelada da praia do Flamengo atravessava a camisa social branca. Escolheu para sua última contemplação o lugar que via todos os dias da janela do escritório. O paletó Armani e os sapatos jaziam em uma lixeira do parque adjacente. Talvez algum morador de rua os aproveitassem. Seria melhor assim. Lucas odiaria ver aquela obra de alta-costura sendo engolida pela terra junto de seu corpo. Bem, não veria, tecnicamente. Mas o pensamento ainda era doloroso. Os postes do aterro já se acendiam, iluminando os últimos banhistas e os corredores na ciclovia. Lucas, apertando a areia com os dedos dos pés, pensava na injustiça que o destino o reservara. Logo agora, que concluíra o feito mais impressionante de sua carreira, que se tornaria importante e alcançaria o reconhecimento que sempre almejara.

Ele observava as pessoas seguindo suas vidas, tranquilamente, enquanto via-se condenado por uma obra do acaso. Um possível castigo divino que não entendia por quê, afinal havia gente pior no mundo. Não era nem um pouco justo. Fitou, por longos segundos um casal, sentado sobre uma toalha, que brincava com seus dois filhos pequenos na areia. Não se interessava muito em ter uma família. Não era bem seu estilo de vida. Mas era cruel que o destino lhe tolhesse a escolha. Sentiu uma angústia profunda. Era coisa nova para Lucas. Raramente se sentia triste. Não tinha motivos para tal.

Andou pela areia. Aos poucos, o som das pessoas, do vento, de seus pensamentos iam sendo desligados um a um, até sobrar apenas o mais profundo silêncio em sua mente, entrecortado pelo ocasional marulhar das ondas. Sentia, agora, apenas as águas da Baía de Guanabara resfriando seus pés, encharcando a calça social. Pensou em se jogar. Sumir nas águas salgadas. Morrer afogado parecia doer menos.

Passaram-se longos segundos, até que o barulho de um jato decolando no aeroporto Santos Dumont o despertou. Viu aquele monstro de metal subindo, contornando delicadamente o Pão de Açúcar, cujo topo era iluminado pelos últimos raios de sol. Uma tocha de pedra marrom. Uma cena belíssima. “talvez seja bom ainda ver essa cena algumas vezes”, pensou. Respirou fundo, pegou o cartão de visitas branco no bolso da calça. Observou-o por longos segundos, ainda dentro da água.

 

DR SALVATORE KELLER

Neurologia * Neurocirurgia

Rua Voluntários da pátria, 157

(21) 5555-8989

 

****

Lucas desceu do Uber em uma esquina movimentada de Botafogo. Estava respeitando, muito a contragosto, a recomendação médica de não dirigir. Estranhou o prédio sem janelas, de poucos andares e nenhum nome na fachada. Mas o número estava certo. Tocou o interfone, e a porta abriu imediatamente, sem nenhum questionamento. Lá dentro, uma sala vazia, silenciosa. Muito limpa e bem iluminada. Paredes de gesso acartonado branco e madeira falsa, típicas de clínica. Um pequeno jardim de inverno com trepadeiras de plástico no canto. As luzes fluorescentes eram tão brilhantes que pareciam rivalizar com o sol lá fora, mas era difícil saber com exatidão, dada a falta de janelas.

Lucas, sentando-se em um sofá branco, pôs-se a pensar, olhando para a televisão desligada afixada na parede. Não sabia o que ouviria ali, se uma sentença de morte ou uma ponta de esperança. Tentou se manter confiante, mas era engolido pela impotência do desconhecer o futuro. Impotência. Coisa que Lucas temia com todas as forças. Queria controlar tudo, queria poder tudo, queria possuir tudo. E estava no caminho certo antes da doença se intrometer.

O devaneio durou pouco, sendo interrompido por um enfermeiro, alto, moreno, um tanto intimidador, um uniforme hospitalar azul que parecia bastante fora do lugar ali. Ele parecia um pouco com a figura do hospital. Estranhou.

— Senhor Costa? Siga-me até o elevador, por favor.

Lucas se levantou buscando manter as costas eretas, de forma a não ser apenas a segunda pessoa mais alta naquela sala. Encarou-o e o seguiu até o elevador. Após saírem, caminharam por um corredor igualmente branco e insípido, até uma porta, que para nenhuma surpresa, também era branca. Lia-se nela o nome do médico e diretor da clínica.

— Aqui, senhor — guiou o enfermeiro, erguendo o braço.

Keller quase que sumia atrás da mesa. Os cabelos brancos faziam uma volta pelas têmporas, coroando o couro cabeludo manchado e nu no topo da cabeça.

— Sente-se, Senhor Costa. Fique à vontade

— Pode me chamar de Lucas, doutor. Gosto do meu nome.

— Como queira. Que bom que pode vir hoje em um dia que a clínica está vazia, assim teremos mais tempo para conversar.

Lucas se ajeitou na cadeira, um pouco mais relaxado. Não parecia ser ele quem precisava de cuidados paliativos ali.

— O hospital mandou o restante dos meus exames, certo?

— Claro, já os vi. Realmente, é um caso complicado.

— Então, não tem o que fazer?

— Bem, para tratar os autoanticorpos anti-NMDA, seria preciso fazer uma grande limpeza no seu corpo. Faríamos um tratamento imunoterápico, com ciclos de anticorpos monoclonais para limpar o seu sangue.

— Isso resolveria o problema?

— Não, mas traria um grande alívio dos sintomas. O problema é que é temporário. Se a sua medula óssea continuar produzindo os linfócitos que fabricam os autoanticorpos, a doença volta e a degeneração do seu cérebro continua. Então, poderíamos tentar um autotransplante, através da edição genética das suas células-tronco, para que sua medula produza linfócitos saudáveis.

— Me parece bem complicado — Lucas estava um tanto cético.

— E é. O problema é que não é um transplante comum. Precisamos realmente matar toda a sua medula, em um nível muito maior que os tratamentos convencionais. A quimioterapia a ser usada é extremamente neurotóxica, e pode gerar uma inflamação até pior que a própria doença no seu sistema nervoso central.

— Então, de um jeito ou de outro, eu vou virar um moribundo. — ele não consegui esconder o desânimo — Então, pra sofrer tanto e ter o mesmo fim, não é melhor ir pelo caminho dos cuidados paliativos?

— Ainda não terminei — Dr. Keller se ajeitou na cadeira, debruçando-se sobre a mesa e apoiando nela os cotovelos. Passou a falar mais baixo, como se contasse um segredo — é por isso que marquei essa consulta em um dia em que o consultório estava vazio. Há uma chance de te salvar, mas é um tratamento bastante caro e experimental. Você seria parte de uma pesquisa bastante secreta que estamos desenvolvendo.

— Eu topo qualquer coisa, doutor. — Lucas assumiu um tom sério e determinado.

— O tratamento consiste em um transplante temporário de todo o seu encéfalo para um corpo provisório sintético. Assim o trabalho em seu corpo original poderia prosseguir sem nenhum dano. Já obtive sucesso com alguns pacientes acometidos por outras doenças terminais. Mas com o seu caso específico seria a primeira vez.

Lucas ficou espantado. Arregalou os olhos.

— É sério? Dá pra fazer isso?

— Impressionante, não? A ciência está avançando rapidamente. Agora, com as técnicas que desenvolvi, consigo separar o cérebro desse corpo quando ele não serve mais ou precisa de reparos mais complexos. Há tempos, já se pode substituir partes defeituosas por próteses biônicas até melhores que os membros naturais. Trocar o corpo todo seria, naturalmente, o próximo passo. Um verdadeiro milagre.

Lucas ouviu atentamente a explicação. Não sabia se acreditava. Era bizarro demais. Mas, talvez, a única esperança. Conformou-se.

— Se não tem outro jeito…

— Bem, mas tenho que alertar dos riscos. É um corpo diferente do seu, então pode gerar algum estranhamento, pela aparência e características que você já está acostumado no seu corpo e não vai encontrar nesse. É o que se chama de disforia. Mas oferecemos acompanhamento na clínica para isso.

— Ah, corta essa, doutor — Lucas adotou um tom jocoso.  — o que eu posso estranhar? Ele é feio? Estranho? Baixinho talvez… ah, já sei: tem o pinto pequeno.

— Não tem pinto.

Keller não tinha um traço de ironia sequer em sua voz. Falava sério. Lucas fechou a cara, recuou-se na cadeira e inclinou a cabeça ligeiramente, da mesma forma que um cachorro que tenta entender o que seu dono faz. O silêncio reinou por alguns segundos.

— Como é que é? — A voz que saiu era mais grossa que a de um locutor de rádio.

— É um corpo feminino, Lucas. Infelizmente, corpos masculinos demonstraram, nas primeiras tentativas, ter um maior risco de rejeição, pelo nível mais elevado de testosterona. Mas lembre-se: é temporário, e é sua única chance de voltar à sua vida normal.

— Mas doutor… virar mulher? — Lucas estava resignado. Colocou as mãos contra a região do púbis, instintivamente. A voz afinou com a aflição — que loucura é essa?

— Veja bem, Lucas — Dr. Keller se levantou da cadeira, andando até uma estante com alguns livros acadêmicos, pondo-se de costas para o paciente. — o seu corpo é apenas uma ferramenta, um avatar, com o qual você interage com o mundo. O que importa mesmo é o seu ser, sua identidade. Isso, pelo que a neurociência entende, está no seu cérebro. Você pode ser desconectado do corpo, mas não vai deixar de ser você por isso. Não é empolgante? Já ouviu o mito do barco de Teseu? É a mesma coisa — ele se virou para Lucas, olhando-o nos olhos — pense nas possibilidades: vida eterna, plugar o cérebro em uma simulação, a cura da disforia de gênero para as pessoas trans. O futuro, sem os limites corpóreos, é muito promissor!

— E se não der certo? Eu fico preso nesse corpo novo?

— Bem… há sempre essa possibilidade. Nada é completamente livre de riscos. Mas não é melhor ter uma esperança? A medicina está muito avançada hoje em dia. Não se preocupe — Keller tentava ser persuasivo, de forma sutil — Sabe, tem pacientes que gostaram tanto do corpo novo que não quiseram regressar. Fica sempre a critério deles.

Lucas se levantou e se dirigiu à porta, com muito menos confiança do que tinha quando entrou na sala. Parecia uma criança acuada.

— Eu… eu não sei se eu consigo fazer isso. É muito radical para mim.

— Eu entendo perfeitamente. À primeira vista, parece assustador — o doutor disse com muita calma e cortesia — pense com calma, Lucas. É o que posso te oferecer. Se mudar de ideia, sabe onde me encontrar.

Mais tarde, naquele dia, Lucas chegou em seu apartamento. Já era noite. Não acendeu as luzes, nem comeu nada. Sentou-se no sofá. Respirou. Olhou para o chão escuro por longos minutos.

O breu apenas foi quebrado quando ligou a televisão. Uma reportagem passava no Globo Repórter sobre a longevidade em uma vila no interior do Japão. Novamente, o acaso parecia lhe mostrar, ironicamente, um futuro inalcançável. “tá maluco, deixar de ser homem pra viver mais alguns anos”, pensou.

Levantou-se e andou lentamente até a estante. Pegou um álbum de fotografias de sua infância. Talvez algumas lembranças felizes o animassem. Sentou-se novamente. Folheando o álbum de trás para frente, passou por sua formatura no Colégio Santo Agostinho, suas viagens a Orlando, suas festas com amigos que não via há décadas.

A viagem pelo passado era acolhedora. Sentia-se um pouco melhor. Viveu, realmente, uma vida confortável. Não se envergonhava daquilo. Para ele, era apenas uma circunstância. Uma feliz coincidência. Não se via como privilegiado. Afinal, teve que batalhar muito para chegar na posição que conquistou. Seu sucesso, imaginava, era merecido.

A nostalgia, porém, deu lugar novamente à angústia ao virar a página e chegar em um de seus primeiros aniversários. Viu-se bastante criança, com uma roupa colorida, no colo da Tia Lurdinha, que o segurava com dificuldade devido à idade avançada. Lembrou-se de sua morte difícil, acamada, sem falar e sem reconhecer seus familiares, sendo acompanhada por um cuidador 24 horas por dia. Uma das primeiras vezes que encarou a morte na vida. Foi confuso. Triste. “Esse sou eu em seis meses”, pensou. O coração acelerou com a adrenalina.

Pensou em voltar à praia do flamengo no dia seguinte. Ver aquele pôr do sol o quanto pudesse, principalmente depois que não aguentasse mais ir aos happy-hours no Baixo Leblon.

Ainda com a memória da tia, olhou para a imagem do senhor japonês de 104 anos na tela. Sua voz encoberta por uma dublagem em português. Tudo se embaralhou na cabeça. A paz que ele buscava nas lembranças não foi alcançada. A mente rodava, mais rápido do que nunca. A tia morta. O pôr do sol. O velho japonês. A tia, o sol, o velho. A tia, o sol…

Pegou o telefone. Ligou para o Dr Keller.

Capítulo 3 — Preparação

O Nosso Bar era um rooftop elegante, com vista para a Praça Nossa Senhora da Paz. Calmo e sem música alta, dá pra conversar tranquilamente. Fora, inicialmente, um restaurante, modificou suas atividades após dificuldades financeiras causadas por um incêndio. O espaço era pontilhado por cadeiras e mesas coloridas e suas paredes brancas eram iluminadas por LEDs igualmente coloridos. Não era o lugar costumeiro para Lucas e Gabriel esquentarem a noite antes das baladas. Não dava a impressão de ser um lugar onde as mulheres se impressionariam com um relógio Hublot ou Tissot, um perfume Carolina Herrera ou a chave de um BMW.

— Que porra de lugar é esse? — Gabriel, sem conseguir esconder o descontentamento, cumprimentava o amigo. Chegou cedo. Sentado em uma mesa, bebia lentamente uma margarita. Usava um blazer esporte por cima da camisa social branca.

— Um lugar mais tranquilo — Lucas se sentou. Olhou para o garçom — uma caipirinha, por favor?

— Por que um lugar tranquilo? Para morrer de tédio?

Lucas tentou deixar a situação um pouco mais confortável. Falou em um tom sereno.

— Bem, eu queria conversar um pouco. Acho que estou precisando.

— Vai me pedir em namoro? — Provavelmente, Gabriel percebeu que estava sendo um estraga prazeres e tentou melhorar o clima também. Lucas reagiu com um sorriso contido. Respondeu de forma igualmente leve.

— Se tem alguém aqui querendo namorar outro homem, com certeza não sou eu — deu uma pausa de alguns segundos, com uma respiração longa. Seu semblante mudou. Apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Eu fui no médico ontem. Acho que estou com um problema meio complicado.

Gabriel riu. Deu de ombros.

— Ihhh… pegou uma paradinha de alguma piranha.

—Não, cara. Eu… tenho algo na cabeça. Talvez precise de um tratamento mais pesado.

— Como assim — finalmente, Gabriel percebeu que o amigo falava sério. Falou mais baixo, quase sussurrando — câncer? — Olhou para o garçom, erguendo a taça vazia — traz outra?

— Não… não sei. Vou ser direto. Acho que preciso tirar um sabático. Sair por aí, esquecer um pouco esse susto, processar as coisas.

— Não brinca — Gabriel voltou ao tom jocoso — as mulheres do Rio de Janeiro não são mais o suficiente pra você? Porra, logo agora que você está por cima da carne seca…

— eu sei. Mas é rápido. Alguns meses. Eu faço essa viagem, esfrio a cabeça, faço o tratamento, volto pronto pra outra. O que você acha?

— Bem, se é o que vai te ajudar… faz o que você achar melhor. Era só isso que você queria me dizer?

 

****

 

Lucas entrou em casa. Fechou a porta e ficou alguns segundos parado, com as costas contra ela. Um pouco arrependido por ter marcado a conversa com Gabriel. Se sentiu estúpido por ter pensado em algum momento que seria produtivo. Dentro daquela cabeça só devia ter pensamentos sobre álcool e sexo. Bem, não que ele fosse diferente, mas não se considerava tão fútil. Ainda tinha alguma substância. Pensava, por exemplo, em negócios, dinheiro, e tinha ambição. E era essa ambição que, mesmo nesse momento de dificuldade, lhe moveria. Estava na hora de colocar o plano em prática.

A ideia era voltar para a empresa, na forma feminina que assumiria. Todos pensariam que ele estaria viajando, em outro continente. Poderia, imaginou, espionar seus colegas. Saber quem conspirava contra ele, quem realmente o defendia. Saberia coisas que talvez não passassem por ele. Poderia ganhar poder, seria imbatível. Talvez, se tornasse o novo CEO. O homem deu um longo suspiro antes de prosseguir.

O primeiro passo seria redigir um e-mail, que enviaria para a mailing list da empresa. Dizia que, por motivos de força maior, adiantaria suas férias e ficaria alguns meses ausente e, enquanto isso, selecionaria algum representante externo, um neutral party, para tomar conta de seus interesses. Agradecia a compreensão. Atenciosamente, Lucas Costa.

Pairou com o dedo por sobre o botão Enter por alguns segundos. Se enviasse, não teria mais volta. Resolveu apertar de uma vez. Ficou com medo de que, se pensasse demais, desistisse.

Agora, precisava das bases dessa persona. Um endereço, um CPF. A clínica ajudaria a cuidar disso. Era parte do contrato. Proteção total da identidade dos pacientes. Optou por terminar de escolher o nome quando já estivesse com o corpo novo. Queria algo que julgasse coerente com a aparência, que ainda desconhecia. Mas, de qualquer forma, estava engatilhado.

Dali a uns dias, marcou um horário com um corretor de imóveis. Disse que seria o fiador de uma conhecida que viria trabalhar na cidade e precisava alugar um apartamento. Visitou um quarto e sala em Copacabana, na Rua Siqueira Campos. O local era bem diferente de onde ele morava. Mais caótico. Barulho de trânsito, das pessoas e das lojas na rua. O apartamento era minúsculo, mal decorado, com manchas de umidade e mofo mal cobertas com tinta branca barata nos cantos das paredes. Lhe dava ojeriza. Mas, pensou, ajudaria a entrar melhor no personagem. Não faria sentido que sua representante compartilhasse o mesmo endereço, ou mesmo que tivesse status social comparável. Resolveu fechar o contrato. Ao sair, parou sob a soleira. Observou o local por alguns segundos. Aquela seria sua casa nos próximos meses. Fechou a porta lentamente, com bastante cuidado.

 

****

 

— Que bom que chegou, senhor Costa. Quase tudo pronto — o dr. Keller o esperava no corredor, fora do elevador. Mesmo esquema: mesma sala de espera vazia, mesmo enfermeiro. Mas o destino era diferente. O terceiro andar tinha alguns quartos e uma bancada de enfermagem. Uma ala hospitalar em miniatura. Ao final do corredor, uma grande porta dupla metálica. As paredes em tom marfim, o chão azul. O doutor abriu a porta de um dos quartos, fazendo sinal para Lucas entrar.

— Fique à vontade. Terá algumas horas para se aprontar.

Lucas, ainda um pouco tenso, tentava processar tudo aquilo. Quanto mais o momento se aproximava, mais parecia surreal. Entrou no quarto em silêncio. Percebendo a preocupação do paciente, Keller tentou intervir.

— Acha que te acalmaria um pouco se eu explicasse novamente o procedimento? Para te assegurar que é seguro?

— Pode ser — respondeu, seco.

Logo, a penumbra do quarto foi quebrada pela luz do aparelho de TV. Um vídeo com uma animação 3d de um corpo humano, com destaque para o cérebro, começou a rodar.

— Então, Lucas. Vamos abrir sua caixa craniana com a ajuda de um equipamento robótico. Não se preocupe, é extremamente preciso. Não fica cicatriz nenhuma. Depois, desconectamos seu encéfalo da medula espinhal. Usamos um nano-bisturi a laser para seccionar os neurônios, com muito cuidado. Em seguida, transferiremos o encéfalo para o corpo provisório, religando neurônio a neurônio, em seu determinado lugar. É um processo demorado, e talvez você precise de uma sedação por alguns dias, enquanto o seu cérebro e o corpo se habituam um com o outro. Dentro de alguns meses, revertemos o procedimento. Se sente mais calmo agora?

— Acho que sim — mentiu. Mas não queria parecer covarde.

— Olha só. Pense nisso como uma fase. Um estágio no processo para alcançar, talvez um dia, a imortalidade. Em pouco tempo, terá seu corpo de volta, novinho em folha.

Lucas respirou fundo, ainda desconfortável.

— Acho que… preciso de um tempo sozinho para me preparar.

— Claro, sem problemas — o doutor saiu, desligando a televisão. O homem, agora, se viu só naquele quarto escuro. Respirou fundo. Meditou sobre as palavras do médico. “É temporário”, repetiu mentalmente várias vezes.

Foi até o banheiro. Olhou o rosto no espelho por vários minutos. Quis reparar em cada detalhe. Cada poro, cada fio de barba. Os pequeníssimos vasos sanguíneos no branco dos olhos. Queria lembrar, para conferir quando recebesse de volta.

Em seguida, lentamente, seu olhar se desviou para baixo. Queria aproveitar o pouco tempo restante para se despedir daquele corpo. De algumas partes, em especial. Despiu-se. Colocou-se sob o chuveiro. Tomou o banho mais demorado de sua vida.

Quando o enfermeiro voltou, estava deitado, o avental médico colocado. Ele pegou seu braço muito delicadamente, apesar da corpulência. Lucas sentiu uma leve pressão quando foi introduzido o cateter periférico em sua veia cefálica. Em seguida, foi requisitado a abaixar seu avental. O enfermeiro, então, colou alguns eletrodos em seu torso. Depois, foi orientado a se deitar em uma maca. Foi levado, finalmente, até o final do corredor.

A maca atravessou a porta metálica. Lucas se surpreendeu ao ver que adentrara um centro cirúrgico completo. O prédio era muito maior do que aparentava pela fachada. Seu coração palpitou um pouco ao ver as grandes luzes redondas pendendo do teto. Foi colocado na mesa, a cabeça embaixo de um grande robô, com vários braços pontudos mirando ameaçadoramente para ela. Um feixe de laser traçava uma linha vermelha em sua testa. Ao virar para o lado direito, além de ver as várias telas na parede, que auxiliariam no procedimento, ainda desligadas, notou uma maca. O cobertor verde cobria a óbvia silhueta de um corpo humano. Fios e tubos saíam por debaixo dele, se conectando a monitores e máquinas. Aquilo o deixou um pouco mais espantado.

A observação foi interrompida por Keller, usando uma máscara cirúrgica e segurando uma seringa, preenchida por uma substância branca e leitosa. Propofol.

— Fique tranquilo. Está em boas mãos. Vai sentir uma ardência no braço agora — o médico injetou a seringa no acesso, Junto dele, o enfermeiro e mais uns dois assistentes que ainda não tinham se apresentado. Eles amarravam seus braços nos suportes da mesa. Lucas, agora, estava com o coração saindo pela boca. O monitor cardíaco não deixava esconder. Mas não iria ser fraco a ponto de desistir de última hora. Keller colocou a máscara em seu rosto. O mundo foi, aos poucos, ficando mais distante.

— Respire fundo agora, Lucas — o doutor estava inabalável — conte comigo: 10, 9, 8…

 

FIM DO ATO I

 

ATO II

 

Capítulo 4 — Despertar

 

Lembranças. Flashes de uma tarde ensolarada. Adolescentes. Uniformes brancos. Uma menina bonita. Um beijo. Em outra pessoa. Por que não eu? Por que não…

 

Despertou. Grogue. A cabeça pesada, visão embaçada. Aos poucos, formava-se a imagem de um quarto de paredes azuis. Uma maca. Um avental sobre o corpo. Braços muito brancos.

Aos poucos, Lucas foi recobrando a consciência. Lembrou-se da cirurgia. “Estou vivo. Funcionou então”. Mexeu levemente as pernas. Depois, os braços. A percepção do corpo e do espaço ia ficando mais nítida. Percebeu o acesso venoso desconectado e não sentia dor alguma. Nem parecia que havia sido operado. Percebeu, também a bexiga muito cheia. Disposto a manter sua autossuficiência, Resolveu ir ao banheiro por conta própria, sem pedir por ajuda.

Sentou-se na maca, após alguns segundos. Além da cabeça ainda rodando um pouco, sentiu outra coisa, que o assustou. Um peso que parecia pender da frente de seu tórax. Agora, recobrava o porquê da cirurgia. Aquele já não era seu corpo. Ficou apreensivo. Não sabia o que esperar, mas, ao mesmo tempo, estava curioso para saber como seria sua aparência pelos próximos meses. Apoiou as mãos sobre as coxas, que, agora, se esparramavam e tomavam mais espaço no colchão que as “originais”. As mãos eram delgadas, levemente rechonchudas. Os dedos curvos e a pele muito alva. Lucas começou a respirar mais forte.

Levantou-se, não conseguindo ficar de pé imediatamente. Se escorou em uma parede. Além da tontura, parecia que aquele corpo tinha um equilíbrio diferente. Era como se o mundo tivesse ficado ligeiramente maior. O teto e a esquadria das portas pareciam um pouco mais altos. Deu dois passos e abriu a porta do banheiro, ainda segurando a parede.

O pequeno banheiro era completamente branco, desde o azulejo da parede ao piso. Algumas peças de aço inoxidável, como a pia e uma barra para se escorar no box eram o único contraste. O sanitário estava posicionado bem em frente à porta. Entre eles, uma pia e um espelho de boas dimensões. Não tão grande como o da cobertura de Lucas em Ipanema, mas o suficiente para se enxergar bem. “Ótimo. Vejo como fiquei, faço o que tenho que fazer e volto. Sem problemas”

Mas a realidade não era tão fácil assim. O coração, que não era o de Lucas, começou a acelerar, estimulado pela adrenalina e o cortisol produzidos sob os impulsos elétricos emanados por aquele cérebro em um corpo trocado. Parou diante do grande retângulo prateado. Os olhos mirando a pia. Respirou fundo. Levantou o olhar.

O rosto era ligeiramente ovalado, o maxilar, bastante delicado, marcava muito suavemente a pele. A pele muito branca, as bochechas levemente rosadas pontilhadas com algumas sardas. Os olhos, redondos, cor de mel. Sobre eles, uma fina sobrancelha avermelhada. Uma boca pequena, lábios róseos. Lucas suspirou.

Agora, finalmente, percebia a touca acima de sua cabeça. Puxou-a. Mechas ruivas levemente onduladas penderam sobre seus ombros, de forma incômoda. O cabelo terminava apenas alguns centímetros abaixo, em suas costas.

Engoliu em seco. Estava nervoso, mas ainda queria compreender a dimensão completa daquilo. Desfez os laços do avental. Descobriu os ombros delgados, a mesma pele clara, as mesmas sardas. Desceu mais um pouco e viu os dois volumes em seu peito. Não eram grandes. Pareciam tão firmes como delicados, as aréolas róseas como a boca. Tocou-os, sentindo o tato macio e morno ao qual já era quase um sommelier. Mas, agora, sentia-se igualmente tocado. Em partes que antes não tinha. Propriocepção e sensibilidade completamente desconhecidas para ele. Era bizarríssimo. Precisou de alguns segundos antes de continuar.

Olhou mais para baixo. Sabia que aquela exploração ainda não tinha chegado ao fim. “então, obviamente…”

Deixou o avental cair de uma vez. Revelaram-se quadris arredondados, pernas curtas e, escondida entre elas, uma pequena fenda, no lugar onde Lucas normalmente encontraria um de seus bens mais preciosos. O coração mais disparado do que nunca. A respiração ofegante. Os olhos cor de mel, arregalados, vidrados no espelho. A boca aberta em espanto, revelando pela primeira vez os dentes brancos.

Ficou um tempo ali, congelado, por alguns segundos. Era difícil compreender que aquilo era real. Lentamente, pôs a mão esquerda por sobre o púbis sem pelos, deslizando-a receosamente para baixo, tentando entender aquela anatomia. A mão direita acompanhou. Observava o procedimento pelo espelho. Afastou os grandes lábios, e depois os pequenos, estudando com os olhos aquelas dobras de pele fina e rosada. A abertura revelou, na parte frontal, um pequeno relevo de pele com formato de capuz. Lucas sabia do que se tratava. Puxou o capuz delicadamente, revelando a glande do clitóris. Queria saber a sensação. O porquê de as mulheres gostarem tanto daquele ponto diminuto. Apalpou-o, com certo vigor, usando o dedo médio.

— Aiii…

A resposta, bastante sensível e um tanto dolorosa, fez escapar um leve grunhido. E isso talvez tenha assustado Lucas mais do que qualquer coisa. Pela primeira vez, ouvia aquela voz, muito mais suave e aguda do que a sua. Toda vez que precisasse se comunicar ou se expressar pelos próximos meses, seria com aquela voz irreconhecível.

Ainda precisava urinar. Sentou-se ao sanitário, as coxas se esparramando contra a tampa. Após se acomodar, relaxou, aos poucos. Sentiu o líquido saindo por um lugar onde não estava acostumado, mais embaixo. Ia molhando aquelas dobras de carne de uma forma bizarra. A sensação era terrível. Arqueou as costas e franziu a testa, rezando para que acabasse logo. Por fim, se limpou, estranhando demais a sensação de tocar naquele lugar novamente, com o papel higiênico.

Se recompondo um pouco após cerca de um minuto, vestiu o avental e voltou, ainda desajeitado, para a cama. Precisava processar o que tinha visto, e se preparar para os próximos quatro a seis meses. Apertou a campainha. Não sabia direito o que falar, nem se conseguiria com aquela voz, mas sabia que precisava de ajuda. O doutor Keller chegou prontamente.

— Bom dia, lucas. Que bom que está desperto. Como se sente?

— eu… hã… estranho — era, de fato, muito estranho falar com aquela voz.

— Bem, isso já era esperado. Mas você está se recuperando bem. A cirurgia foi há três dias. Te deixamos em um coma induzido para que seu cérebro pudesse se acomodar.

Três dias a menos de vida. Em outros tempos, seria o suficiente para que Lucas enlouquecesse. Em 72 horas poderiam caber um sem fim de movimentações, decisões a serem tomadas, imprevistos a serem enfrentados. Mas, agora, estava tirando seu sabático. Não havia trabalho com que tivesse que lidar. Logo, sua “representante” chegaria à Rock para cuidar da bagunça.

Lucas passou o resto da semana na clínica, se recuperando da operação e aprendendo a controlar aquele corpo através de sessões de fisioterapia. Evitou, o máximo que pode, olhar para aquele corpo desnudo novamente. Quando precisou ir ao banheiro ou tomar banho, fez de forma breve. Mas o estranhamento ainda persistia. Os dias na UTI após seu mal súbito pareciam um spa perto daquilo.

Logo, estava de alta. Vestiu-se de forma a não chamar a atenção: tênis, calça jeans, um sutiã simples e uma blusa de alcinha preta. As roupas eram providenciadas pela clínica. O doutor Keller ainda teve a cortesia de pedir um uber para o paciente. Antes de ir, porém, entregou a Lucas uma bolsa de dimensões consideráveis.

— O que é isso, doutor? — Falou com aquela voz ainda estranha, mas que não o incomodava mais tanto.

— Ah, é o “kit de sobrevivência”. Entregamos a todos os pacientes do sexo masculino. Aí tem tudo o que você pode precisar para passar os próximos meses. Não se preocupe. Se precisar de algo mais, é só falar. A propósito, Já decidiu o nome que quer usar durante esse período.

— Ah, ainda não. Preciso pensar… — Lucas ficou nervoso. Não reconhecia outro nome que não fosse o seu. Nem mesmo apelidos teve durante a infância ou a adolescência.

— Claro, sem pressa. Assim que decidir, nos avise e preparamos toda a documentação.

A conversa foi interrompida por um carro preto parando em frente à porta da clínica.

****

 

Entrou no apartamento. Os últimos raios de sol ainda impediam a escuridão total. Apoiou as costas na porta, como fizera antes de pôr o plano em prática. Mas, agora, já estava em campo. O que via ao olhar para baixo e o que sentia tocando aquela pele não deixavam dúvida. Incômodos sem fim, como se o mundo estivesse desregulado. A textura da tinta barata aplicada pelo senhorio na porta em nada lembrava a madeira laminada de sua cobertura. O sutiã provocava um aperto um tanto doloroso naqueles volumes estranhos e novos, e o atrito com a porta aumentava a sensação. O tecido da calcinha entrando por entre as nádegas e por outras partes adjacentes gerava um desconforto indescritível. Talvez tivesse que ser assim, algo que devesse aguentar durante o processo. Mas era temporário, não ia durar para sempre, pensou.

Sentou-se de frente para a pequena escrivaninha. Estranhou demais a sensação, ou melhor, a falta de sentir algo pressionando no meio das coxas. Também não suportava mais aquele aperto no peito. Com um gesto um tanto desajeitado, buscou, com as duas mãos, o fecho do sutiã. Precisou de algumas tentativas até conseguir soltá-lo. Ao conseguir, porém, foi tomado por uma estranha, mas reconfortante, sensação de alívio. Era como soltar um cinto apertado depois de um dia inteiro, mas muito mais intenso. Talvez, entre todas as novas experiências, a primeira positiva. “Pelo menos uma coisa de bom nesse corpo”, pensou.

Ligou dois notebooks, um MacBook Pro, que pertencia a sua antiga identidade, e um outro, mais simples. Logou no sistema da empresa, a partir de um VPN que indicava um IP do Nepal. Assim seria: depois, Lhasa, Bali, Kerala, Egito, et cetera. Estaria buscando a cura para os males do corpo e da alma através da espiritualidade, do jejum, da meditação tântrica, kundalini, acupuntura, sucos detox, contato com a natureza. Tudo o que estava na moda e apontavam para a imagem de um ser iluminado, assim como Steve Jobs.

Enviou uma mensagem, indicando já ter encontrado sua representante. Agora, precisava preencher a ficha da empresa com a nova identidade. Começou pelo trivial, endereço o RG e CPF já preparados pela clínica. Marcou, por memória muscular, o botão de sexo masculino, mas percebeu em poucos segundos. Corrigiu o erro, mas de forma um pouco hesitante, após um suspiro profundo e pensar por alguns segundos. Ainda não fazia sentido na sua mente. Agora faltava o principal.

Ainda não conseguia decidir qual seria o nome. Primeiro pensou em algo irônico, meio bobo. Algo que pudesse se desprender facilmente após voltar à vida normal. Escreveu Kethleen. Apagou. Kathyah. Kleicianny. Nomes de pobre. Engraçados, mas não iriam impor nenhum respeito. Pensou em alguma personagem. Rose DeWitt Bukater. Beatrix Kiddo. Trinity. Evelyn Williams. Não. “Muito na cara, alguém vai desconfiar”. Lolita? “Ficou doido?? que porra de pensamento intrusivo é esse?”, admoestou a própria consciência.

Estava se cansando de tudo aquilo. Olhou para a pele alva e delicada dos antebraços, iluminada pelo brilho das telas dos notebooks. “Humm, Acho que esse corpo combina com clara”. Isso, Clara. Escreveu. Rolou até o fim do formulário. Hesitou, já com o cursor sobre o “enviar”. Clara combinava até demais. Ficou nervoso. Não queria criar algo que gerasse algum tipo de apego com aquele corpo. Já não bastasse ser mulher, ainda piorar com algum tipo de afeto, alguma lógica que fizesse sentido. Não, um homem como Lucas não poderia se ver assim. Era uma posição temporária e nada mais. Ele era homem, nasceu homem e iria morrer homem, apesar da situação. Então não, nada poderia fazer sentido. Nada para ele poderia encaixar em ser mulher. “Eu, hein, tá me estranhando?”, disse a si mesmo em seu monólogo interno. Voltou e apagou o nome.

Escreveu Lucia. Simples. Ele mesmo, mas no feminino. Se alguém desconfiasse da semelhança do nome, era só responder que se tratava de uma coincidência tremenda. Afinal, são nomes muito comuns. Estava tão farto daquela elucubração que nem notou que esquecera o acento agudo da letra u. Enviou o formulário. Desligou os computadores. Se jogou na cama e adormeceu sem sequer ter trocado de roupa. Antes de dormir, porém, ainda ponderou sobre aquilo tudo por alguns segundos: “Agora essa operação tem um nome e uma identidade: Lucia”.

 

Capítulo 5 — De volta ao jogo

 

Lembrava do pai. Severo. Distante. Traíra sua confiança. Os quadros de Paul Klee não passariam na alfândega. Coisa feia, disforme. Penduraria na sala para lembrar o buraco que carregava no coração…

 

Lucas acordou com uma dor lancinante. Achou que fosse um infarto. “será que dá tempo de ligar pro doutor?”. A realidade, porém, era mais simples: dormira sobre o seio. Talvez, demoraria algum tempo até seu cérebro entender que certas posições não eram mais práticas ao se deitar.

Não precisava de despertador. O barulho do trânsito e os camelôs da rua Siqueira Campos eram o bastante para lhe despertar. Já era a segunda semana naquele corpo, mais ou menos. Não lembrava a data exata. Sabia, porém, que era o terceiro dia após criar a identidade de Lúcia. E era também o dia da entrevista na Rock.

Era razoável que, para representar alguém de tamanha importância na hierarquia da empresa, seria necessária uma aprovação. Lucia seria sabatinada por uma comissão. Cabia a Lucas prepará-la. Ainda não saberia quais eram os membros, mas não haveria surpresa. Ele conhecia muito bem todos os membros da alta cúpula. E os sócios pouco se importariam com a situação, desde que os números fossem positivos.

O problema maior era, pela primeira vez, sair do apartamento. Mandou o supermercado entregar as compras no dia anterior. Pediu para deixar na porta e só saiu para pegar com o corredor já vazio. Ainda não sabia como se comportaria, como seria percebido naquela forma. Nunca admitiria a ninguém, mas, no fundo, estava com um certo medo.

Foi até a cozinha. Usava uma camiseta velha que trouxera consigo do apartamento. Um abadá de um camarote do carnaval de Salvador, um dos piores dias da sua vida. Com certeza, não era seu tipo de diversão. Faltava refinamento. Também vestia uma calcinha. A mesma desde que chegara. Pegou um pão e um vidro de geleia na geladeira. Tentou girar a tampa, como fazia habitualmente. Sem sucesso. Tentou de novo. Apoiou na pia, tentou usar o pano da camiseta como auxílio. Nada funcionou. “Mas que porra”. Não entendia por que aquele gesto tão banal se tornara tão complicado.

— Mas que porra de mão fraca e pequena. Puta merda!

A voz também não ajudava. Era suave demais para que qualquer xingamento proferido tivesse algum impacto. Suspirou. Lembrou de um velho truque. Pegou o isqueiro e esquentou a tampa por alguns segundos. Depois, usando a camiseta, girou a tampa. Ela saiu facilmente.

— Caralho, já não basta mijar sentado, agora vou ter que viver sem força também — falou quase sussurrando, com medo de algum vizinho escutar.

Após tomar café, com muito esforço, pois considerava o gosto do café coado intragável e não tinha mais a acesso à cafeteira de expresso da sua cobertura, começou a preparar as coisas. A reunião era só à tarde, então poderia tomar o seu tempo. Correr, naquelas circunstâncias, seria uma receita para o desastre. Abriu, finalmente, o “kit de sobrevivência”. Esperava algo hi-tech, mas se surpreendeu com a banalidade dos itens que estavam guardados ali: Primeiramente, roupas, de todos os tipos: calcinhas, sutiãs, tops, roupas de banho, calças, desde jeans a leggings, camisetas e blusas de vários estilos, vestidos, de festa, casuais, formais, saias plissadas, rodadas, curtas, longas. Um guarda-roupa completo, para qualquer ocasião. Maquiagens, esmaltes, e outros produtos de beleza, que ele sabia que precisaria procurar tutoriais na internet para usar. Alguns brincos (as orelhas já vieram furadas), colares e pulseiras. Tudo bijuteria, mas bonitas. Itens de higiene pessoal. Absorventes, sabonete íntimo, hidratantes, etc. Não faltava nada. O Doutor Keller havia realmente pensado em tudo.

Tirou a camiseta. Começou a testar as roupas. Viu um vestido bonito, estampa floral. Gostou da simplicidade de vestir. Mas o decote em v e as alcinhas eram um pouco reveladores, não se sentia confortável em mostrar aqueles volumes ainda, por mais que nem fossem tão grandes. Achou que seria estranho demais usar saia. Decidiu, então, ficar só no básico de camiseta e calça por enquanto.

Despiu-se. Precisava enfrentar o horrendo desafio de tomar banho. Ligou o chuveiro. Esperou a água esquentar. Testou, esticando o braço esquerdo até alcançar a água. Esperou mais um pouco. Entrou sob o chuveiro com a água quase queimando a pele. Nunca fora adepto de banhos extremamente quentes, mas agora estava sendo estranhamente confortável. Parecia que aquele corpo pedia aquela temperatura. O que não era confortável era a água fazendo caminhos que Lucas nunca havia experimentado. Por entre os seios, por sobre os quadris, encharcando os cabelos e deixando-os pesados, ou descendo pelo púbis e escorrendo por entre os lábios. Deixava aquela anatomia estranha extremamente pronunciada em sua propriocepção. Sentia, com ainda mais veemência, que estava em território desconhecido.

Tocar naquele corpo trazia um tato delicado, macio. Uma pele suave, como porcelana, meio fria, ainda mais quando molhada. A textura macia da gordura por baixo da pele, principalmente nos seios, bem diferente do corpo de Lucas. Era uma sensação que ele já conhecia e adorava. Mas, experimentar isso de dentro era totalmente diferente. Ao terminar o banho, se secou com delicadeza, pela estranheza de sentir a toalha passando por aquela anatomia.

Enrolou a toalha na cabeça, por sobre os cabelos ruivos molhados. Ficou ali, observando um tempo no espelho, repetindo o ato que fizera na clínica. “O que será que ainda não vi? O que falta aprender sobre esse corpo?”. Como que tomado por um ímpeto, tentando seguir antes que perdesse a coragem, foi até a cama, e mergulhou as mãos na grande bolsa preta do “kit de sobrevivência”, até achar um espelho de maquiagem. Deitou-se na cama, o corpo ainda desnudo em exceção da toalha na cabeça, as pernas dobradas e ligeiramente abertas. Posicionou o espelho por entre elas, segurando com a mão esquerda. Com dois dedos da outra mão, afastou os lábios. Sentiu um ar fresco tocando aquela cavidade. O espelho mostrava, com clareza, aquelas camadas de pele rosada, guardadas por aquelas bandas carnudas que ele afastava com os dedos. Por entre elas, duas bandas de pele mais fina, que se encontravam na parte anterior, formando uma dobra que se assemelhava um capuz. Lucas afastou-o com os dedos, revelando a diminuta glande do clitóris. Ainda estava com receio de tocá-la após o incidente na clínica. Afastando os grandes e pequenos lábios, pode ver um pequeno furo que deduziu que seria por onde saía o xixi, e um outro maior, na extremidade posterior, com uma textura mais complexa. Sabia que era a entrada da vagina. Teve o pensamento intrusivo de talvez introduzir um ou dois dedos, mas se conteve, por medo de doer ou de a sensação ser ruim e estranha demais. Estranhou a ausência do hímen, que deveria proteger aquela entrada. Esse pequeno detalhe o intrigou.

O nervosismo inicial se misturava com um pouco de fascínio. Não era nem de longe a primeira vez que Lucas via uma genitália feminina, mas nunca teve a oportunidade de apenas observá-la assim, de modo a explorar seus detalhes, sem a intenção de satisfazê-la, ou melhor, de usá-la para sua satisfação. Parecia quase um inquérito científico. Era estranho chamar aquilo de autoconhecimento, afinal, não sentia que era propriamente seu corpo. Mas julgou pertinente aquela compreensão. Talvez ajudasse em algo nos próximos meses. Guardou o espelho de volta. Continuou sua preparação para a reunião.

 

****

 

— Boa tarde, querida. Pode entrar — Gustavo era o gerente de RH da Rock. Lucas sempre o considerou um homem patético. Feio, gordo, mal nascido. Dotado de um mal gosto para estética e para mulheres. Se esforçava para se integrar com a alta cúpula da empresa, mas, para Lucas, isso nunca seria possível. Não tinha a classe, a testosterona para tal.

Lucas usava uma calça social preta e uma camisa simples da mesma cor. Não teve coragem nem o conhecimento para algo mais elaborado em termos de moda. Apenas passou um batom fosco. Arriscou um delineado, mas não teve a precisão que os tutoriais da internet requeriam. A tentativa de apagar os erros deixou as sobrencelhas levemente esfumadas com a tinta do lápis, o que julgou suficiente.

Gabriel também estava presente. Lucas não sabia exatamente por que ele estava ali. Talvez tentando escalar na hierarquia de novo. Isso, só o CEO saberia responder. A surpresa, porém, era Camila. Não era de tomar parte nessas ocasiões importantes. Não era a dela. Com certeza, Meirelles não a delegaria se não tivesse pedido expressamente, porque não era a primeira, nem a segunda, nem a última opção. E o pior: ela notaria melhor do que ninguém qualquer trejeito ou conhecimento particular de Lucas. A interpretação da personagem Lucia teria que ser muito boa.

— Então, foi difícil achar o endereço? — Gustavo não sabia fazer graça.

— Na verdade, não. Lucas me passou o endereço muito bem.

— O que mais ele te passou? — Camila tinha, de longe, a postura mais séria da sala — Eu acho estranho ele escolher alguém de fora para lhe representar, em vez de alguém de confiança e que conhecesse os projetos da empresa. Mas isso não é culpa sua. Apenas uma observação minha.

Ah, então era isso? Ela estava com ciúmes? Ou tinha a pretensão de alguma ascensão na empresa? Lucas respirou fundo. Queria fulminá-la, mas não podia sair do personagem. Contou “um, dois” mentalmente

— Então, eu fiz isso por…

— Quer água, café, senhorita? É senhorita, sim?

Salvo pelo gongo. Quase pôs tudo a perder com uma gafe. A intromissão de Gabriel era, de certa forma, oportuna. Teria tempo de se recompor e recomeçar a resposta. Notou que ele o olhava meio obstinadamente desde que entrou na sala. Lucas conhecia aquele olhar. Infelizmente, não tinha como avisar o amigo. Restava torcer que seu medo de mexer com alguém acima no organograma da empresa o contivesse, da mesma forma que com Letícia, a secretária de Meirelles. Lucas sabia que, por sorte, Gabriel era burro demais para desconfiar de algo.

— Senhorita, sim. E não quero, não, obrigado… digo… obrigada — era muito, mas muito estranho para Lucas se referir a si mesmo no feminino. Como se tivesse que fazer força para a palavra sair de sua boca — pelo que conversei com lucas, ele quer que suas decisões passem por alguém neutro, sem uma opinião própria sobre os rumos dos projetos, que possa gerar alguma interferência. É apenas uma forma de manter ativa sua presença enquanto está longe. Um avatar. E é menos frio que só delegar as coisas por e-mail. Não é muito comum no Brasil, mas acontece muito em Wall Street e no Vale do Silício. É uma vanguarda e um pouco de modernidade que eu… ele quer trazer para a Rock.

— Então é falta de confiança mesmo — Camila sussurrou discretamente, mas Lucas pode perceber. “Bom que sabe que não confio em você, filha de uma p…”. Teve que respirar fundo de novo.

— Bem, eu tenho plena confiança nas escolhas do senhor Costa. O conheço muito bem. Além de um gestor eficiente, é meu amigo pessoal. Sua presença vai ser muito bem-vinda, e vai trazer muita beleza para o ambiente do escritório.

— Obrigada — deu um sorriso desajeitado.

— No mais — Gabriel continuou — se quiser, posso te explicar como funcionam as planilhas do financeiro. Tenho certeza que Lucas já te deu um Briefing, mas sempre pode ter escapado algo.

“Fui eu que projetei as planilhas, idiota”. Lucas foi enfático:

— Não precisa. Já me familiarizei bem com elas. Lucas foi muito didático.

— Pressuponho que Lucas tenha te informado do nosso dress code, também — Gustavo acrescentou.

Ah, o bendito dress code. Ele estava torcendo para que esquecessem desse detalhe. Talvez aquilo fosse um problema.

— Dress code? — Tentou desconversar.

— Sim. O uniforme feminino é uma camisa social branca, saia lápis de linho, acima do joelho, com fenda traseira, na cor cinza-escuro. Calçado de salto preto, Meia-calça opcional. Estranho o senhor Costa não mencionar isso, ele foi um dos proponentes mais entusiastas do uniforme nas reuniões do conselho diretor. Defendia que valorizar a estética das funcionárias ajudaria a elevar o moral e aumentar o engajamento da equipe.

Claro que Lucas lembrava. Propôs o uniforme porque, ao observar as funcionárias dos escritórios vizinhos, constatou que era o modelo que mais proporcionava uma vista das pernas das secretárias. Agora, era ele quem teria que deixá-las à mostra.

— Entendido. Irei me preparar.

— Bem — intrometeu-se Camila — acho que é tudo, por hoje. Deliberaremos sobre a entrevista. Algum de nós ficará responsável pela sua supervisão aqui na empresa.

“E não será você, obviamente” Lucas pensou. Um e-mail do Nepal resolveria aquilo facilmente. Era só delegar a supervisão a Gabriel.

Levantaram-se. Gustavo se adiantou para cumprimentar a nova colega, apertando-lhe a mão, seguido por Camila. Já Gabriel surpreendeu, pondo as mãos sobre os ombros de Lucas/Lucia e beijando os dois lados de sua face.

— Nos vemos em breve, senhorita.

Lucas saiu. Aproveitou o escritório vazio para seguir até o banheiro sem que ninguém notasse que já sabia o caminho. Precisava repetir aquele hórrido ritual de esvaziar a bexiga. Pôs a mão sobre a porta. Só quando começou a empurrá-la, notou se tratar do banheiro masculino. Parou imediatamente. Olhou para trás, para checar se alguém notara a confusão. Virou-se e entrou no banheiro certo.

Parou diante do espelho. Com as mãos apoiando sobre a pia, contemplou aquele rosto ovalado, pontilhado de sardas, olhos cor de mel, o cabelo ruivo partido no meio da testa, formando duas leves franjas. Respirava fundo. “Então, eu vou ter que ser a Lucia, agora?”

Capítulo 6 — Um dia de trabalho

 

Lucas acordou cedo no dia seguinte ao da entrevista. Pudera. Agora que não era mais o CFO, o ponto deveria ser cobrado com mais rigor. Tomou seu desjejum e começou a se arrumar. Havia testado algumas maquiagens na noite anterior. Decidiu fazer algo suave, apenas um pouco de corretivo sobre as sardas mais proeminentes e um pouco de blush nas maçãs do rosto. Conseguiu passar o lápis na pálpebra, mas ainda não sentiu segurança em tentar fazer o “gatinho” como o tutorial ensinava. Passou um gloss suave de cor cereja nos lábios. Pronto. Sentia que era o suficiente para ser apresentável, mas sem chamar atenção. Achava que, para cumprir seus objetivos e coletar as informações que gostaria, deveria passar a impressão de ser uma funcionária comum.

Vestiu-se. E aí as coisas não se encaixaram. A blusa branca justa transparecia a silhueta do sutiã. Podia-se espiar os seios por entre os vãos dos botões. A saia deixava a mostra uma certa extensão das pernas. E a fenda atrás mais ainda. Era perceptível que se sentar com ela exigiria certo recato. E o pior, Lucas sabia que aquilo tudo era exatamente o efeito esperado. Não seria nada fácil sair assim. Pelo menos teve a cortesia de liberar o uso de meia-calça, pois as mulheres sempre reclamaram do frio do escritório. Sem problemas. Achava algumas meias-calças sexy também. Vasculhou o “kit de sobrevivência”. Nada. Doutor Keller não pensou em tudo, infelizmente. Teria que comprar em algum momento, mas no começo daquele dia, pelo menos, sofreria com o frio e a exposição.

Pegou um táxi na rua. Conseguira fazer um rabo de cavalo, seguindo um tutorial e comprando um elástico em uma loja chinesa na rua. Mais um lapso do doutor Keller. Ficaram apenas duas pequenas mechas de cabelo caindo de cada lado do rosto, que ele prendeu por trás das orelhas menos de um minuto depois, pois começavam a incomodar. Mal fechou a porta e ouviu os cumprimentos do motorista.

— Bom dia, linda. Para onde vamos?

A fala do motorista pegou Lucas completamente desprevenido. Nunca em sua vida havia sido abordado daquela forma. Obviamente, já havia abordado mulheres em baladas de forma bem mais tórrida, normalmente com sucesso. Mas ali, num táxi, era inoportuno. Sem contar que não era para isso que planejara aquela operação.  “Preciso que Keller arrume uma carteira de motorista para a Lúcia”. Passou o resto da viagem com as pernas bem fechadas e os braços cruzados, sem conseguir disfarçar o constrangimento, o que permitiu contemplar ainda mais aquela falta sensorial entre as coxas.

— Deu 50, princesa. Como vai pagar? — Nem mesmo após o fim da corrida o homem se conteve. Estava ficando um tanto inconveniente — tchau, bebê. Tenha um bom dia.

Andou meio constrangido a pequena distância da calçada até a porta do prédio. Os calcanhares balançavam como um bambu fino. Ainda não se acostumara ao salto. Notava que alguns homens a olhavam, uns brevemente, outros a encaravam por alguns longos segundos. Bem diferente de antes, quando, na maioria das vezes, passava como um fantasma por ali. O único olhar que recebia vinha do canto do olho de outros executivos, corrigindo a rota para não se trombarem na calçada, ou o breve “bom dia” do segurança na porta.

Lucas ia atravessado o pequeno degrau antes da entrada do prédio. Quase que imediatamente ao levantar a perna, sentiu o tecido da saia subindo por sobre sua coxa, revelando um pouco mais de pele. Seu rosto corou. Teve a impressão de que o segurança deu uma olhada mais vistosa. Tentou discretamente e ligeiramente esticar a barra da saia enquanto seguia em um passo ligeiro até o elevador.

 

****

 

Lucas passou boa parte da manhã revisando as planilhas de orçamento. Era um trabalho tedioso, mas queria ter certeza de que não havia nada de errado. Nada que custasse o grande contrato do Pix. Se algo desse errado por sua causa, iria de herói a vilão em um piscar de olhos. Como tinha acesso à sua antiga sala, não havia como alguém observar e questionar o que estava fazendo.

Só havia um problema: estava caindo de sono. Dormir naquele corpo havia se provado uma tarefa difícil. Os seios e os quadris exigiam negociar com a cama e procurar posições que melhor acomodassem sua forma. Frequentemente, isso levava horas, ou todo o esforço era depreciado por movimentos involuntários durante o sono. Resolveu fazer uma pequena pausa para buscar um café. Mal saiu e deu de cara com Gustavo, do RH.

— Bom dia, senhorita. O uniforme caiu muito bem no seu corpo. Como está se adaptando ao trabalho?

— Bem, eu acho — Lucas deu um sorriso mecânico — só estou achando o ar-condicionado um tanto gelado…

— Ah, aqui é assim mesmo, meu bem. As meninas sempre reclamam. Vista uma meia-calça amanhã, deve ajudar a segurar o frio um pouco.

— É… vou aderir… obrigada — Lucas já estava ficando sem graça.

— Um café ajuda, também. Se quiser, te mostro como operar a máquina.

Lucas deu um passo para trás.

— Não precisa. Parece bem intuitivo — realmente era. Apenas posicionar o copo e pressionar a tela.

— Fique à vontade m’lady. Se precisar de algo, pode me procurar — Gustavo sorriu e fez arminhas com os dedos. Lucas se segurou para não revirar os olhos. Não podia perder o personagem. Apenas sorriu de forma discreta, apertando os lábios, e repetiu o gesto timidamente.

Dirigiu-se à máquina de café. Como qualquer executivo no mundo, os membros da alta cúpula da Rock Pagamentos se apresentavam como legítimos cafetófilos. Douglas meirelles havia comprado uma máquina industrial da Nespresso, do mais alto luxo, para potencializar o teamwork. Era abastecida todas as manhãs com grãos de dulsão Madagascar, torra média. Oferecia notas de avelã e canela do Ceilão, e deixava um final de baunilha. Lucas considerava um blend decente, apesar de ter uma preferência pelos grãos nacionais. Sabia, porém, que o catálogo internacional agregava valor à cultura do escritório.

Ao chegar, notou que não estava desacompanhado. Gabriel fitava meio de lado, um sorriso de canto de boca, apoiado na parede e segurando um copo.

— Bom te ver, Lucia. Precisa de ajuda com a máquina?

— Não, obrigada. Acho que já peguei o jeito.

Gabriel deu um passo a frente. O sorriso abriu mais.

—É sempre bom ter gente nova e inteligente por aqui. Conte-me mais sobre você? Quantos anos tem? Que tipo de música gosta de ouvir? Curte sair, bar, balada?

Lucas não queria deixar Gabriel muito confortável. Suas intenções eram bem óbvias, até porque ele mesmo já havia performado a mesma abordagem na máquina de café. Mas ele se saía melhor. Ao mesmo tempo, sabia que rebater de uma forma muito dura geraria problemas. Era a etiqueta da empresa.

— Ah, não muito — sorriu discretamente — sou uma pessoa mais quieta. E acho que, em termos de música, gosto de tudo.

— Eu gosto muito de rock progressivo, sabia? Conhece Pink Floyd? A “música do helicóptero” deles é ótima. É só uma pena que o Roger Waters começou a usar os shows para fazer política. Às vezes é até bom ele não tocar mais…

Lucas percebeu a chance de terminar aquela conversa. Conhecia bem o amigo. Sabia como poderia desarmá-lo de forma sutil.

— Conheço, sim. Você está falando de The Happiest Days of Our Lives, que emenda em Another Brick in the Wall, parte dois. Eu gosto muito do conceito do álbum The Wall. Praticamente uma ópera-rock.

O sorriso de Gabriel murchou. Lucas sabia que ele perdia o cool quando não estava mais por cima da situação.

— Bom… que legal que conhece. Você tem bom gosto — Gabriel retirou da carteira o seu cartão. O fundo na cor light bone, com a marca d’água da empresa, seu nome e número de telefone impressos na fonte Silian Rail — se precisar de alguma coisa do seu supervisor, mande uma mensagem. Será um prazer te responder.

Tinha mais essa. Ele ainda seria o supervisor. Era um mal menor que Camila, mas ainda ruim. Agora, sozinho na máquina, Lucas podia beber seu café em paz.

Deu o primeiro gole. Fez uma careta. O gosto amargo quase fechou sua garganta. Não podia ser. Meirelles nunca deixaria o café estragar dentro da máquina. A tratava como sua filha. Deu outro gole. Não era o café. Era ele mesmo. “Agora eu não gosto mais de café? Mas que porra… essa tortura ainda vai piorar?” esbravejou mentalmente. Por sorte, estava sozinho. Cometeu o pecado mortal de despejar todo o conteúdo de um saquinho de açúcar na bebida. Só assim para torná-la suportável.

 

****

 

No dia seguinte, Lucas se dirigiu à copa durante o horário de almoço. Adotou o hábito de trazer marmitas de casa e esquentá-las no micro-ondas, o que considerava de extremo mal gosto, além do fato de não saber cozinhar direito. Na sua cobertura, delegava o preparo da comida à sua IA pessoal, que operava aparelhos automatizados na cozinha. Não queria, porém, se aventurar muito pela vizinhança com aquele corpo.

No dia anterior, pode almoçar sozinho. Agora, porém, Encontrava companhia. Três mulheres. A mais velha, Carla, cerca de 50 anos. Lucas não a via muito. Sabia apenas que era uma subordinada da equipe de Gabriel. Fazia uma expressão meio chorosa.

— É por causa da minha cor, não é, Camila?

— Eu espero que não seja, querida. Senão teremos problemas sérios aqui. Mas dessa empresa eu espero tudo — Camila tinha a expressão séria e determinada de sempre.

A terceira mulher era Marina, a “menina do TI”. Pálida, magra, cabelos lisos curtos que não chegavam aos ombros. Tinha uma aparência pronunciadamente mais jovem que as outras duas. Mais até que a da Lucia. Mexia em um quebra-cabeças que se assemelhava a um cubo mágico, mas com muito mais lados e cores. Um “icosaedro mágico”, por assim dizer. Não falava muito. Observava a conversa na maior parte do tempo.

As três mulheres demoraram um pouco para perceber a nova presença na copa. Lucas teve medo da reação de Camila, principalmente após a reunião. Mas a reação foi inesperada. Camila abriu um sorriso. Falou em tom convidativo.

— Bom dia, Lucia. Sente aqui com a gente.

Carla ia se levantando da mesa. Lucas sentou em seu lugar.

— Bom, não vou amolar mais vocês. Deixe-me ir

— Você não amola, querida — Marina falou em um tom baixo, mas singelo.

— O que houve — Lucas perguntou, entrando no personagem e tentando expressar preocupação.

— O que houve? — Camila adotou um tom sério — O que acontece todo dia nessa empresa. A gente é explorada, assediada, trabalha que nem um burro de carga por uma mixaria. Eu fico preocupada com você. Eu não sei onde o lucas te achou. Mas, isso aqui, minha filha, é o inferno.

Lucas já conhecia aquela afronta. Não ia sair do personagem, mas não queria perder a oportunidade para alfinetar.

— E por que você ainda trabalha aqui, então?

— Pra não morrer de fome, né? Aqui eu faço o trabalho de cinco, sou praticamente a secretária daquele… me desculpe, porque ele te contratou… mas, daquele cachorro do Lucas. Ele não deve saber nem trocar a cueca se eu não ajudar. Além de ser gerente do financeiro, e outras coisas.

— Isso sem contar tudo o que eu faço — Marina entrou na conversa, finalmente.

— Pois é! Essa menina cuida do back end quase sozinha. Tem coisa que só ela mexe. E ainda pagam ela como analista júnior. Essa empresa não tem trinta funcionários. A coitada da Carla tá sofrendo um assédio moral danado do Gabriel. Ele comanda uma equipe de três pessoas e se acha o fodão por isso. Por isso ela estava chorando.

De fato, a folha de pagamentos era enxuta. De outra forma, o projeto do Pix não caberia no balanço. Travar o orçamento de pessoal, impedindo novas contratações, foi necessário para alocar o montante necessário para o desenvolvimento. Fazia parte do “milagre” alcançado por Lucas que fez a empresa entrar nos requisitos da licitação. Mas, de certa forma, ele achava que eram os ossos do ofício. Quem não desse conta podia pedir pra sair. Apertou os lábios discretamente.

— Mas, deixando isso de lado, estamos curiosas. Conta pra gente como o Lucas te achou.

— É, bem… — teve que inventar algo na hora. Não esperava esse tipo de pergunta naquele momento — a gente se conheceu no LinkedIn e…

— E rolou alguma coisa? — Marina deu um sorriso malicioso.

— Marina! Respeite a colega — Camila repreendeu a amiga — mas… é isso: Estamos curiosas. Ele fez alguma proposta nesse sentido?

— Nossa, meio invasivo, não? — Lucas corou — e não, não rolou nada. Ele foi extremamente profissional. Muito educado.

— Caramba, pelo visto ele está evoluindo — Camila continuou — bem, eu notei a conversa que o Gabriel teve com você esses dias no cafezinho. E o jeito que ele e o Gustavo falaram com você na entrevista. Aliás, por que o Lucas iria querer delegar a sua supervisão pra ele? Por que se importa com isso? Toma cuidado com os homens nessa empresa, tá bom?

Lucas se sentia bastante ofendido. Claro, já havia se relacionado com colegas, e não poucas. Mas Não via mal nisso. Todos os relacionamentos foram consentidos. Elas poderiam simplesmente dizer não. Queria dar uma resposta. Mas Camila parecia aberta. Se aproximar dela poderia render informações. Ela poderia baixar a guarda futuramente e deixar escapar algo sensível. O melhor era que Lucia se fizesse de desentendida.

— Como assim?

— Ah, Lucia — Marina respondeu meio tímida — você é… com todo o respeito… uma mulher jovem, atraente, bonita. Esses canalhas não se aguentam. O cérebro deles deve ficar na cabeça de baixo.

— Pois é — Camila aproveitou o fio — é complicado falar tanto aqui. Lucia, é estranho dizer isso pra alguém que eu mal conheço, mas eu enxergo algo positivo em você, de verdade. Mas não sei explicar o quê. Você me parece ser uma boa pessoa. Que tal a gente sair pra almoçar qualquer dia? Aí eu te boto por dentro dos podres de todo mundo. Te deixo preparada pra tudo.

Lucas se entusiasmou. Estava dando certo. Sorriu.

— Mas que gentileza. Aceito.

— Combinado. Bem-vinda a Rock, e boa sorte!

Capítulo 7 — Revelações

 

— E então, Lucas? Como tem sido? Está se adaptando? — Keller sentava relaxado em sua cadeira. Ostentava o sorriso e a leveza que Lucas já conhecia.

— Bem, doutor. Acho que sim, aos poucos. Preferia mil vezes ter meu corpo de volta. O meu… você sabe.

— Tudo a seu tempo, Lucas. Estamos trabalhando muito bem. Infundimos a primeira dose da medicação ontem. Até agora, está tudo estável. Não se preocupe. Foque no que está a seu alcance agora. Tem algo que eu possa te ajudar?

— Ah, tem a coisa do café.

— Sim, sim. Bem, como posso explicar? Você tem seus gostos, suas preferências, e elas ficam no seu cérebro. Mas a reação do cognitivo é mediada pelo sensorial. Você está em um corpo diferente, é lógico pensar que vai ter uma sensibilidade diferente. De paladar, de tato, de temperatura. Não é um crime beber café com açúcar. Não tem problema nenhum se adaptar temporariamente. Daqui a pouco está tudo de volta ao normal.

— Entendo doutor. Bem — ele se sentou mais ereto na cadeira. Mais tenso. Cruzou as pernas bem fechadas, por sobre a longa saia preta que usava, pois achou as calças jeans femininas apertadas demais — eu tenho umas perguntas sobre… lá embaixo. Eu andei, como posso dizer, explorando.

— Isso é normal — Keller sorriu discretamente —  é um autoconhecimento. Vai te ajudar a entender melhor e a enfrentar esse período.

— Bem, uma coisa que eu notei: eu não… digo, esse corpo não é… virgem?

— Lucas — Keller retornou à tranquilidade. Buscava acalmar o paciente — fazer um corpo sintético é um grande desafio para a bioengenharia. É natural que alguns detalhes possam ser relativizados. O corpo funciona perfeitamente. Não faz falta nenhuma. Não se preocupe com isso.

Lucas se acalmou um pouco. Mas ainda era estranho demais ter aquela conversa. Keller também não ajudou muito com a próxima pergunta.

— E então? O que sentiu durante essa exploração?

— Eu? — Lucas franziu a testa — acho que curiosidade, talvez. Nervosismo, como se tivesse mexendo em algo que não é meu, mesmo dentro desse corpo… bem. Acho que só. Nunca imaginei que um dia iria olhar e tocar um corpo feminino e não sentir tesão ou prazer — ele se agitou um pouco — eu acho que sinto falta disso. Sexo, prazer, sempre foram importantes para mim, sabe? Ficar distante do que me faz poder experimentar essas coisas está me fazendo mal.

Keller se projetou para frente. Sorriu.

— Mas quem disse que você está distante? Acha que um corpo de mulher não pode proporcionar isso?

Lucas deu um pulo na cadeira.

— O que? Você quer que eu… sinta prazer assim? Eu nem saberia por onde começar.

— experimente aos poucos. É um corpo perfeitamente funcional. Uma hora você chega lá, não se preocupe.

Lucas corou ao ouvir aquilo. Considerou um absurdo a hipótese de sentir prazer em um corpo feminino. O completo oposto de sua masculinidade. Fazer qualquer coisa sexual naquelas circunstâncias parecia ferí-la. Inadmissível.

O doutor se levantou da cadeira. Pôs-se a caminhar em direção à porta do consultório. As mãos dentro dos bolsos do jaleco branco.

— Venha comigo, Lucas. Quero te mostrar uma coisa. Acho que vai te animar.

Lucas levantou. Seguiu Keller pelo corredor de paredes azuladas até o elevador. Desceram até o subsolo da clínica. Outro corredor os levou a uma enfermaria. Possuía cerca de oito nichos enfileirados, cobertos por cortinas. Ouvia-se o chiado e os bipes de aparelhos médicos trabalhando e monitorando por trás de algumas delas. Keller conduziu Lucas até o último nicho, perto da parede.

— Prepare-se, Lucas.

Keller puxou a cortina. E lá estava o corpo. Deitado, imóvel, sobre uma maca. Nu, com um lençol cobrindo-o do umbigo para baixo. Eletrodos monitoravam seus sinais vitais. Um tubo entrava pela boca, responsável pela respiração. Fluidos corporais eram coletados por uma sonda. Outros fluidos eram inseridos por um catéter no pescoço. Um emaranhado de fios e tubos conectavam aos monitores, ao respirador e às bombas que mantinham o fluxo das garrafas de soro.

Lucas começou a hiperventilar. Foi um choque se ver assim, de fora. Frágil. Inanimado. À mercê da medicina e dos aparelhos. Sentia sua existência e identidade sobre uma corda bamba. “Isso não está me animando, doutor”.

— Está vendo, Lucas? Está tudo bem, tudo sobre controle.

— Não é essa a impressão que tenho — a voz quase não saía, estava ofegante.

— Fique calmo. Eu sei que pode não parecer para alguém leigo, mas está tudo correndo bem. Essa é a mais alta tecnologia. Você retornará em breve.

Lucas respirou fundo. Como o doutor falou anteriormente, não era algo que estava mais sob seu controle. Deveria confiar. Tentou mudar de assunto, não pensar tanto no que via em sua frente

— E o que acontece com esse corpo quando eu voltar?

— Você vai ver.

Passaram então a outra sala do subsolo. Uma sala menos iluminada e muito fria. Montadas nas paredes, algumas cápsulas de metal branco. Pequenas escotilhas de vidro permitiam ver uma densa névoa no interior delas. Em algumas, percebia-se, por entre a névoa, a silhueta de uma cabeça. No centro, uma mesa de metal com um lençol branco, que claramente cobria um corpo

— É aqui que os corpos sintéticos ficam armazenados antes dos procedimentos. Em um ambiente controlado, antes de serem ativados — descobriu a cabeça. Um rosto feminino, pálido, nariz e queixo fino. Cabelos lisos e bem pretos — esse aqui está sendo preparado para o nosso próximo paciente. Um homem com câncer de pâncreas terminal. Não falo mais detalhes pelo sigilo que nos comprometemos.

Era uma visão um pouco macabra. Mas ajudava a passar um pouco mais de credibilidade. Tudo parecia muito avançado. Lucas admirou por alguns segundos, antes de ter que sair rápido por causa do frio.

Seguiram até uma porta metálica no final do corredor. Ali o ambiente mudava completamente. Uma parede grossa de tijolos. A temperatura era bem mais elevada. Lá dentro, uma caldeira com uma escotilha circular. O fogo que saía iluminava toda a sala. Um carrinho sobre trilhos com a tampa da escotilha estava posicionado. Um corpo coberto por um lençol sobre ele.

— E é aqui que cremamos os corpos após seu uso. Para não gerar risco biológico — Keller empurrou o carrinho, dando destino final ao corpo e tampando a escotilha.

Lucas sentiu um pouco de aflição naquela sala. Eram corpos sintéticos e provisórios, mas ainda era estranho. Quase como cremar um ser humano real. Estranho pensar que o corpo que agora habitava terminaria ali também. Não queria se apegar, mas também não conseguiu relevar aquele pensamento.

Voltaram ao lobby. Keller pegou uma prancheta.

— Eu já ia me esquecendo. Para a sua carteira de motorista, preciso que assine esse papel. Vou dar entrada nos documentos e te entregarei em breve.

Lucas pegou uma caneta sobre a mesa, com a mão esquerda. Assinou na linha determinada. Despediu-se. Pegou um uber de volta para casa, onde iria se arrumar para voltar ao trabalho, após almoçar com suas nem tão novas colegas.

Ainda estava estranho. Muita informação para processar de uma vez. O impacto de ver seu antigo corpo. A possibilidade de sentir coisas naquele estado. Toda a estrutura. Mas, por fim, um pensamento peculiar tomou sua mente e o intrigou mais ainda. “Espera aí, eu assinei aquele papel com a mão esquerda?”

 

****

Lucia, Camila e Marina resolveram almoçar em um bar descontraído na Praia do Flamengo. Um pouco afastado do escritório, mas a caminhada extra protegia de qualquer entreouvido. Sentaram-se uma mesa na calçada. O vento fresco balançava as abas do guarda-sol por sobre a mesa. Não era exatamente um dia bonito, mas ainda dava para aproveitar o ar livre. Marina tirou a camisa, pendurando-a no encosto da cadeira, e revelando uma blusa preta por baixo.

— Você não está com frio? — Lucas tentou quebrar o gelo.

— Não. Não sinto muito frio em geral

O clima entre elas parecia leve, como se já convivessem há muito tempo Fizeram seus pedidos. Observaram o ambiente por alguns segundos. Novamente, Lucas tentou puxar conversa.

— E então, o que vocês queriam me contar?

Camila se aproximou da mesa, como se tentasse falar sem que ninguém de fora ouvir.

— A gente quer te alertar. Essa empresa tem uma cultura extremamente tóxica em relação Às mulheres. Os homens aqui são predadores. Todos eles. O Lucas e o Gabriel são os piores. Não podem ver uma funcionária nova.

— O Meirelles também, mas é mais discreto — Marina retrucou.

— Ele é até a página dois. A Letícia, secretária nova, já entrou na roda.

Lucas estava resignado. Não queria um segundo round da conversa da copa, para ser golpeado de indiretas por Camila. Mas não sabia como reagir.

— Não foi essa a impressão que eu tive do Lucas — falou em um tom sério.

— Menina, você não sabe de nada, inocente. O Gabriel já começou com você. Chega com uma conversinha mole, daqui a pouco chama pra sair, dá uns presentinhos, pede uber black pra você voltar pra casa… daqui a pouco está na cama dele. E sabe o que acontece depois? Te descarta, vai atrás de carne nova. E se você falar algo, ou atrapalhar a sua produtividade, é rua. Ah, e tem o Gustavo. Os homens da empresa desprezam ele, então ele tenta chamar a atenção sendo o cafetãozinho das meninas. Dá pitaco em roupa, maquiagem, manda sorrir e ser simpática.

Lucas estava petrificado. Apertou os lábios. Apertava o antebraço com uma das mãos por baixo da mesa. Não sabia o que responder. Afinal, não tinha uma única mentira saindo da boca de Camila.

— Eu achei muito estranho o Lucas mandar um e-mail da puta que pariu pedindo pro Gabriel ser seu supervisor. Fiquei preocupada. Acho que tem coisa aí. Eles devem estar armando algo para você. O Lucas está levantando pro Gabriel te cortar.

O sangue de Lucas ferveu. “Que afronta”, pensou. Isso nunca aconteceria. Nem em circunstâncias normais. Nunca que ele ajudaria Gabriel a competir com seu body count.

— E você não tem medo de eu contar isso pra ele?

— Não. Primeiro, porque imagino que você não é esse tipo de pessoa — Camila ficou séria — e segundo, porque ele já sabe de tudo isso. Sabe o filho da puta que ele é. E não pode fazer nada. Sabe por quê? Porque eu sei os podres daquele homem, minha filha. Se ele tentar alguma coisa eu acabo com a vida dele.

— Podres? — Lucas ficou tenso. A conversa foi para uma direção que, apesar de não ser inesperada, era temida. Sabia exatamente a história que Camila contaria. Nenhuma novidade. Mas queria ouvir da boca dela — que podres?

— Ah, ela não sabe ainda — Marina deu um sorriso irônico.

— O Lucas é meu ex, Lucia. Eu caí nesse golpe quando entrei aqui — Camila suspirou — na verdade, não teve um pedido de namoro concreto. A gente ficou por um pouco mais de um ano. Eu sei que foi de longe o relacionamento mais longo dele. Ele sempre me disse que raramente saía mais de duas vezes com a mesma pessoa. Não sei o que ele viu em mim, se queria algo diferente ou sei lá.

— Caramba — era realmente diferente para Lucas ouvir isso daquela forma. Inicialmente, achou que não faria a menor diferença em como enxergava a situação. Mas era claro que tinha deixado uma ferida profunda no coração dela.

— No começo, era muito bom — Camila continuou — ele me tratava bem, me levava nos lugares que eu gosto, e… era muito bom na cama. Acabei virando uma pessoa fundamental na vida dele, até mesmo no trabalho. Mas, depois, começou a mudar. Começou a ficar frio. E ciumento. Passou a me perguntar sempre onde e com quem eu estava. Queria mandar nas minhas roupas, na minha rotina. Eu também comecei a ser mais cobrada no trabalho e fiquei muito cansada. Até que peguei o telefone dele e vi as conversas picantes que ele mantinha com a menina nova do marketing. Ali acabou. Disse que a Rock inteira iria saber. Acho que por isso subi tão rápido. Ele deve ter usado a influência para tentar calar a minha boca. Vai saber…

Sinto muito por isso, Camila — Camila era bem diferente da maioria das pessoas que Lucas convivera durante a vida. Tinha, genuinamente, uma bondade e uma sinceridade no coração. Não ligava para dinheiro, status ou aparência. Ele achou que poderia ser a pessoa para finalmente parar e criar uma família, como seu pai sempre lhe aconselhara. Traumas do passado… achava uma pena deixar ela escapar. Mesmo não se acostumando com a vida a dois. Já era bem familiarizado com a vida de solteiro. Mas, agora, não dava mais para voltar atrás. O garçom servia os pratos e as três estavam com fome.

— Não tem problema, Lucia. Foi bom botar para fora um pouco.

— O assunto pesou, né? — Marina falou em tom jocoso — vamos comer e tentar distrair disso.

— Certo, amiga — Camila seguiu o tom — coma logo pra voltar e brincar com seu pogobol.

— Meu o quê?

— Não é com isso que você mexe? Pogobol?

— É COBOL, amiga — as três riram

— Eu sei, mulher. Estou zoando.

 

 

Capítulo 8 – Meu nome é Lucia

Foi a contragosto ao aeroporto. O pai levava a mãe quase como uma refém pelo portão de embarque. Sumiriam pelo corredor. Última vez que os viu. Página virada. Página que insistia em se desvirar.

 

Lucas acordou pensativo. A chuva se lançava contra o vidro da janela com o vento. Era o começo de um feriado prolongado no Rio de Janeiro. Saiu debaixo do cobertor e levantou-se da cama. O frio parecia cortar a pele. Não sabia se era pela sensibilidade mais acentuada daquele corpo ou pelo isolamento térmico deficiente do apartamento.

Andou até a cozinha. Agora, mais desperto, refletia sobre o que havia sonhado. Nunca foi exatamente a pessoa que se lembrava dos próprios sonhos após acordar ou os atribuía significados complexos. Mas a recorrência de um mesmo tema o incomodava. Eram coisas que julgava tanto serem águas passadas a ponto de esquecer. Os pais moravam na Espanha desde que tinha se formado na faculdade. Entraram em um avião no dia seguinte em que a aposentadoria do pai saiu. O relacionamento nunca foi bom, maculado por situações esquecíveis. Trocavam mensagens esporadicamente. Lucas nunca fez questão de tentar reatar. Agora, então, seria impossível. Lembraria o final de um filme estranhíssimo do Almodóvar que assistira quando mais novo. No filme, o cirurgião plástico interpretado por Antônio Banderas transformava cirurgicamente um homem que atacara sua filha em mulher. Que ironia do destino… deu um leve riso enquanto cortava o pão.

Ao mesmo tempo, pensava em Camila. Passaram anos a fio se bicando, uma convivência tão desgastante quanto a com seus pais. Passou por um instante em sua cabeça o pensamento aterrador e desmoralizante de que, talvez, tivesse sido injusto com ela. O pensamento lhe provocou uma comichão. Quase derramou a xícara de café. “Mas que ideia é essa? Claro que foi tudo culpa dela…” pensou, não querendo dar o braço a torcer tão fácil.

Sentou-se à pequena mesa da cozinha. Pelo menos o pensamento sobre Camila o distraía da questão com os pais. O problema é que, realmente, ficou tocado pelo relato dela. “É culpa dela”, repetia mentalmente, tentando repelir pensamentos contrários. Mas… culpa de quê? Foi Lucas que pulou a cerca, o que esperava ao ser descoberto? De qualquer forma, se sentia mal de ter machucado outra pessoa. Um sentimento que ele não costumava levar em consideração.

O celular vibrou sobre a mesa. Ao desbloquear a tela, revelou-se que Camila mandava uma mensagem. “Falando no diabo…”. O sentimento retroagiu um pouco. Que assunto de trabalho seria tão importante a ponto de demandar a inconveniência de uma mensagem em uma manhã de feriado? Lucas mesmo se deu ao trabalho de deixar os e-mails para serem checados mais tarde naquele dia. Os mais gerais, responderia como Lucia, que obviamente seria uma representante tão assídua quanto o exigente CFO. Os mais críticos, respondia como ele mesmo, o VPN agora apontando um IP da Tasmânia. Porém, o balão verde do WhatsApp mostrava uma mensagem com um tom bem pouco profissional.

[Fala, amiga. Tranquila?]

A mensagem o chocou. “Amiga?” De onde viria aquela intimidade toda? Não lembrava de ter dado abertura para tanto. Respirou fundo por um tempo. Depois, voltou a lembrar da “missão” de conseguir informações na Rock. Camila era, sabidamente, muito profissional, mas poderia deixar algo escapar. Decidiu seguir o fluxo.

[Bom dia, Camila. Estou bem, sim. E você?]

Uma resposta sensata. Nem seca, nem melosa demais. “Vamos ver o que ela quer”.

[Querida, vou fazer um grupo com você e a Mari, pode ser?]

Lucas quase deu um pulo da cadeira. Colegas de trabalho batendo papo em um grupo paralelo. Poderia ser sua chance de se infiltrar.

[Claro! Fique à vontade.]

Terminou o café e deitou-se na cama, esperando o desenrolar daquela história. Em poucos segundos, o celular vibrou. Lá estava o grupo “as amazonas”. Marina fez as boas-vindas antes de trocar algumas piadas e figurinhas com Camila.

[Bem-vinda, Lucia. Espero que esteja bem.]

Até então, nada demais. Apenas uma amizade feminina normal, sendo observada por um terceiro elemento. Lucas não entendeu muito bem o que estava acontecendo ali. Até que Camila se dirigiu diretamente. Ele gelou.

[Lu, tá a fim de pegar uma praia no domingo?]

Demorou um segundo ou dois para aquilo se assentar na cabeça de Lucas. “Tá maluco?!” Ir à praia com sua ex, naquelas circunstâncias e… naquele corpo, tendo que mostrar uma quantidade muito maior de pele, afinal, não dá pra usar calça jeans e moletom na praia. “Ela é louca, mesmo”, tentou retomar o fio do pensamento de mais cedo, mesmo diante de um convite tão banal. Tentou escapar da proposta.

[Com esse tempo?]

[Amiga, vai abrir. Olha a previsão do tempo. Você mora em Copa, não é?]

Ele se impressionou com a velocidade da resposta. Camila realmente queria ir à praia, aparentemente. Bem, seria fácil, inferiu, sair daquela situação. Bastava dizer que estava com cólica ou naqueles dias, mesmo que aquele corpo não tivesse essa função ativa. Poderia, se quisesse, ter a experiência feminina completa, caso ocorresse a improvável possibilidade de resolver permanecer. Doutor Keller ativaria os ovários e a parte hormonal de forma bem simples. O problema é que não queria dar uma resposta seca. “As informações, não se esqueça”, seu monólogo interno quase gritou. Aquela poderia ser uma abertura para oportunidades futuras. “Podia ser só ir almoçar no shoping, poxa”. Respirou fundo.

[posso confirmar até amanhã?]

[Claro, amiga! Sem problemas.]

Soltou o ar, aliviado. Agora, tinha uma janela de tempo um pouco maior. Talvez, conseguisse convencê-la a reprogramar o passeio. Nem tudo estava perdido. Permaneceu naquela posição por mais um tempo. Uma perna dobrada, outra esticada. O celular sobre o rosto, na mão esquerda, o braço direito, em um gesto que Lucas já parecia ter aprendido e internalizado durante aquelas semanas, servia de apoio sob a cabeça, com cuidado para não puxar dolorosamente os cabelos ruivo-acastanhados que, agora um pouco maiores, já começavam a alcançar as escápulas. Voltou a pensar em sua peculiar condição. Lucia, agora, parecia ser um pouco mais que mero personagem ou identidade falsa. Já havia quem acreditasse em sua existência, e que até se afeiçoasse a ponto de dar um apelido carinhoso. A engenhosidade da coisa, ao mesmo tempo que assustava pela bizarrice, gerava um estranho fascínio. “Olha só, ‘Lu’: Agora você tem até uma amiga, quem diria…”

 

****

 

O sábado amanheceu ainda nublado, mas menos friorento e sem chuva. A previsão do tempo parecia mesmo estar acertando. Se continuasse assim, o domingo seria de sol e leve calor. Perfeito para praia. O que preocupava Lucas. Camila era irredutível quanto aos planos para aquele dia. Não teria muita escapatória se quisesse aprofundar a relação entre sua ex e seu alter-ego. Suspirou, ao olhar pela janela, coisa que evitava pela discrição extrema que adotara desde a operação, deixando uma mancha embaçada no vidro.

A manhã seguiu como de rotina. Ir ao banheiro já não era mais uma tortura sensorial. Já havia se acostumado com a sensação, e o requisito de se secar ao final, o que antes ele costumeiramente delegava às cuecas. Afinal, não via como muito másculo ficar passando papelzinho higiênico depois de uma mijada. Com esse corpo, o desconforto e o risco de infecções vetavam tal desleixo.

Ao se dirigir à cozinha, se deu conta que precisava repor alguns itens na despensa. Já ia pegar o telefone para chamar a padaria. Ligou a tela. Desligou. Teve uma ideia.

Lembrou-se de um certo momento da adolescência, quando decidiu se inscrever em uma aula de teatro na escola por um semestre. Não que fosse muito inclinado às artes. Foi mais por causa de umas meninas que frequentavam as aulas. Surpreendentemente, aprenderia algumas habilidades muito úteis para o networking. A questão era a lembrança de uma determinada fala do professor, ao final de uma aula. Comentou sobre certos atores que continuavam se comportando como seus personagens mesmo fora de cena. Alguns introduziam trejeitos e sotaques em seu cotidiano. Era o que se chamava de method acting. Ou, pelo menos, era isso que Lucas lembrava. Talvez fosse isso que precisasse. Entrar um pouco mais na personagem. Viver ou, pelo menos, tentar viver um pouco mais como uma mulher normal fora do ambiente profissional, por mais estranho que a ideia parecesse. Talvez ajudasse a situação do dia seguinte a se tornar um pouco mais confortável e a interação com Camila e Marina mais natural, inferiu. Restava, porém, apenas mais um dia para praticar.

Voltou ao quarto. Os itens do “kit de sobrevivência” estavam cuidadosamente organizados no armário. Lucas nunca deixou de ser uma pessoa organizada, mas agora levava mais tempo para arrumar as coisas sem uma empregada doméstica. Pensou em como se vestir. Uma camisa básica e uma calça jeans seriam neutras demais para aquela experiência. Precisava de algo genuinamente feminino. Retirou um vestido de tecido leve, levemente plissado. Um colorido opaco meio pastel, quase aleatório. Vestiu a peça. A barra terminava um pouco acima do joelho. O decote, pendurado por duas alças finas, fazia um “V” sobre o busto. As costas ficavam um pouco abertas e os ombros bem à mostra. Mas tinha a vantagem de não exigir o uso incômodo do sutiã. “Agora você está ficando louco, Lucas. Se vestir de menininha?”. Pensou, por um instante, que o experimento já ia longe demais. Mas, também surgia a impressão de que nada daquilo importava muito. Tudo o que as pessoas viriam seria uma jovem mulher indo comprar pão. Nada a associaria aquela figura a Lucas Costa. Respirou fundo. “Vamos abraçar a loucura, então”.

Pegou o estojo de maquiagem. Não precisava fazer algo muito elaborado, como se fosse para o escritório ou balada. Iria apenas comprar pão. Apenas isso. Passou uma camada fina de pó, um pouco de corretivo e um batom fosco discreto. A “Lucia da padaria” possuía uma aparência bem distinta da “Lucia do escritório”. Mais jovem, delicada. Resolveu deixar o cabelo solto. Combinava com a composição. Esboçou um leve sorriso. Achava agradável o sorriso em um rosto feminino, mesmo agora esse rosto sendo o próprio.

Descia a Rua Siqueira Campos, andando calmamente. As sandálias rasteiras de palhinha arrastavam no concreto da calçada. A brisa fresca do mar batia nos ombros e atravessava um pouco o vestido, tão leve que as vezes dava a impressão de não haver nada por sobre o corpo. Lucas avançava. Quis cruzar os braços para se proteger do frio e da sensação de exposição, mas se conteve. A ideia era praticar, e não queria assumir uma postura antipática com aquele personagem. Manteve os braços esticados balançando ao lado do corpo. “Tem que andar rebolando a bunda um pouco, não é?”. Ele estava concentrado, como se estivesse em um palco em frente a uma multidão. Mas, aos poucos, percebia o contrário. Não havia multidão. O mundo continuava ali, funcionando como sempre. A “Lucia” era só mais uma transeunte. Atraía, talvez, alguns olhares discretos, sim, mas não de uma forma especial. Realmente, a tese de que aquilo não importava parecia se justificar, trazendo uma estranha sensação de tranquilidade.

“Por enquanto tá tudo tranquilo”, pensou, enquanto terminava de escolher os produtos e se dirigia ao caixa. Aquela seria a primeira interação do dia.

— Algo mais, moça? — A atendente, uma senhora corpulenta e de certa idade, perguntou educadamente.

— Não, obrigada. Isso é tudo — a resposta foi quase automática.

Lucas pegava as sacolas e se preparava para sair. Recebeu, porém, outro questionamento da mulher no caixa. Esse, ele considerou um pouco mais desconfortável.

— Tem certeza que consegue carregar isso sozinha, moça? Não quer que algum colega aqui leve para você?

“Mas o quê?”, Lucas pensou, um pouco estupefato. Eram apenas umas três sacolas de pão, queijo e algumas frutas. Com o corpo antigo, não seria nada. Agora, precisaria de um pouco mais de esforço, mas nada impossível. Tentou responder sem demonstrar incômodo.

— Não precisa. Estou acostumada. Mas obrigada.

Seguiu o caminho de volta ruminando sobre a experiência. “Moça, obrigada, acostumada…”. Estava, ao mesmo tempo, intrigado com aquelas palavras e surpreso com a relativa facilidade que teve em utilizá-las. Sabia, obviamente, das flexões de gênero da língua portuguesa. Mas nunca se deu conta de como aquilo poderia soar tão íntimo e pessoal. Era quase como se homens e mulheres utilizassem línguas diferentes de acordo com o próprio gênero.

Fazia o caminho de volta exatamente como o de ida. O mundo seguia sua ordem, sem que sua presença fosse particularmente importante. Notava, agora, os braços começando a se cansar com o peso das sacolas. “Keller podia ter conseguido um corpo com um pouco mais de shape”. O pensamento foi interrompido por uma pequena disrupção daquela ordem urbana. Um homem pareceu passar por Lucas, olhando seu corpo por mais tempo que o que parecia habitual. Era um homem jovem, alto, barba e cabelos bem feitos. Tal como Lucas antes da operação. Cumprimentaram-se brevemente, com um sorriso discreto, seguindo seus caminhos em direções opostas.

Muito provavelmente, aquele homem se esqueceu daquela interação menos de um minuto depois. Lucas, porém, gravou seu rosto, como uma adolescente que cola o pôster de seu ídolo na parede do quarto. Uma sensação diferente o acometeu naquele momento. Algo que ele não sabia explicar…

Chegou, finalmente, ao apartamento, com a sensação de ter sobrevivido. O dia seguinte, inferia agora, talvez não tivesse que ser tão difícil.

 

****

 

O domingo amanheceu ensolarado, como previsto pela meteorologia. Lucas andava pelo calçadão de Copacabana. O sol lhe esquentava os ombros, passando pela saída de praia semi-transparente que lhe cobria o corpo e esvoaçava com a brisa. A peça, extremamente leve no corpo, junto com o biquíni, davam a Lucas uma sensação quase de nudez, mesmo estando vestido. O dress-code mais bizarro para uma reunião de trabalho em toda a sua vida. Afinal, ainda queria seguir o plano de infiltração e coleta de informações. Tudo aquilo tinha um propósito. Mas, de certa forma, não era tão incômodo quanto imaginava. Novamente, não parecia fazer diferença para ninguém, e não era a pessoa menos vestida naquela praia, nem de longe.

Seguiu até o local marcado, no Posto 4. Não muito longe do apartamento. A praia estava cheia, como era de se esperar de um domingo ensolarado após uma semana de tempo fechado. Imaginou logo que se trataria de uma tarefa quase impossível encontrar as duas amigas em meio a aquela multidão. Foi, porém, surpreendido por uma voz familiar chamando de uma certa distância.

— Lucia!

Camila vinha ao seu encontro, acenando com o braço direito por sobre a cabeça. Com a outra mão, segurava uma bolsa razoavelmente grande e uma cadeira de praia. Vestia um biquíni verde e um short jeans curto, além de um par de havaianas com as cores do Fluminense. Marina seguia um pouco atrás, trazendo um guarda-sol desmontado. Vestia uma blusa preta e um short jeans ligeiramente mais comprido. Ao se aproximar, Camila pôs os braços em volta do corpo de Lucas, beijando uma bochecha de cada vez. Marina adiantou-se, esticando o braço e oferecendo um aperto de mão, sem muita vontade de repetir o gesto.

— Como vai, amiga? — Camila cumprimentou — não acredito que você vai pegar praia aqui pela primeira vez mesmo morando tão pertinho.

— pois é, não sou muito de praia — Lucas tentava manter o personagem — eu caminho no calçadão de vez em quando, mas não fui no mar ainda.

— Bom, pra tudo tem uma primeira vez — Camila demonstrou um sarcasmo que Lucas não estava acostumado. Era uma personalidade bem diferente da seriedade em pessoa do escritório. Uma personalidade que talvez ele experimentara em um passado já muito distante, que tentou apagar da memória com muito esforço — bom, vamos lá, temos que montar as coisas.

Dirigiram-se até o meio da areia, onde encontraram um espaço menos ocupado e longe das rodas de altinha. Montaram ali a cadeira, o guarda-sol, e estenderam uma esteira de palha que Camila trazia na bolsa. Lucas começou a puxar assunto. Tentou adotar um tom mais descontraído, próximo ao das amigas.

— Então, amiga. Como anda o trabalho? Alguma novidade?

— Ah… — Camila respondeu com desânimo — tá a mesma merda de sempre. Acho que você tá vendo que aquela empresa é um inferno. Eu tô exausta, como sempre. Pelo menos, sem o Lucas é um a menos para me aporrinhar.

— Nossa — Lucas ficou um pouco sem graça — realmente, ele me passou uma impressão bem diferente.

— Não se iluda, aquilo é um ogro, da pior espécie. E ele me enganou direitinho por quase um ano, não sei onde eu estava com a cabeça de namorar aquela coisa.

— Ei — Marina interveio, ríspida — não é possível que vocês vieram para ficar falando de trabalho e de homem idiota. Eu estou a fim de relaxar, se vocês não perceberam.

Ali, encerrou-se o assunto. Por mais que fosse um alívio para Lucas parar de ser insultado por Camila, se decepcionou um pouco, pois esperava que aquela conversa pudesse render alguma informação. “Poxa, essa nerd estragou minha chance”, pensou. Camila pôs-se a fuçar a bolsa, encontrando prontamente um frasco de protetor solar.

— Lu, você pode passar nas minhas costas?

Lucas gelou. “O que, passar protetor na minha ex?” pensou, resignado. Há muito tempo, já tocara várias vezes cada centímetro daquele corpo. Não sabia o que sentiria ao tocá-lo de novo, depois de tantos conflitos. Temia que algum gesto ou reflexo pudesse entregar a atuação. Preparou-se para negar, sendo superado por Marina.

— Por favor, Lucia. Sempre sou eu que passo e fico com a mão melequenta. Eu odeio.

“Não vai ter jeito…” Lucas se preparava para a tortura que seria, mas não queria perder a cortesia.

— Tudo bem, eu passo.

Despejou o produto sobre a pele de Camila. Respirou fundo, discretamente, antes de tocá-la. A pele ainda mantinha a mesma textura. Uma nostalgia dolorida. “Olha o que você perdeu, seu idiota”, se martirizou. Camila era, afinal, um ótimo partido, além de ser extremamente bonita. Era óbvio que a mente hedonista e calculista de Lucas acharia uma forma de sabotar aquela oportunidade. Talvez fosse feito para a solteirice como o padre é feito para a igreja. Tentou disfarçar o desconforto que não conseguia esconder do rosto, enquanto espalhava o creme.

— Essa marca é melequenta, mesmo. Não tem uma outra melhor?

— É a única que não me dá alergia, amiga.

De fato, aquela pele enrubescia e empolava com certa facilidade. Um dos motivos de ela usar pouca maquiagem nos encontros durante o namoro, para desaprovação de Lucas.

Passaram-se alguns minutos. Camila esticava-se sobre a esteira como um lagarto ao sol. Marina lia um livro. Tinha uma capa bem colorida, porém em cores um tanto escuras, com um homem musculoso — ou seria talvez um lobisomem — abraçado a uma mulher pouco vestida. Lembrava, de certa forma, um rótulo de Catuaba. Lucas, por sua vez, olhava o horizonte, tentando processar o que acabara de passar. Marina fechou o livro, cuidadosamente marcando a página com uma fita, e se levantou da cadeira.

— Sabe, estava com vontade de molhar os pés.

— Boa ideia, amiga — Camila se levantou, desabotoando o short — vamos, Lu?

De novo, Lucas não quis ser estraga-prazeres. Seria, talvez, bom para se distrair de todas aquelas lembranças. Marina se livrou da camisa com certa vergonha, enquanto o short de Camila já estava guardado na bolsa. Restava Lucas tirar a saída de praia. Procedeu com certa dificuldade, se enroscando com o pano. Em alguns segundos, porém, se via livre da peça. Agora, apenas o biquíni o separava da total nudez. Era uma sensação incômoda, uma exposição que ultrapassava todas as outras ocasiões. A saia no escritório ou o vestido na rua não chegavam perto daquilo. Agora, expunha quase todo aquele corpo para quem quisesse ver. Um corpo que não era propriamente dele, o qual não se identificava, uma aparência que esperava assumir apenas por alguns meses. O fato de ninguém parecer ligar confortava um pouco. Uma pessoa pareceu ligar, porém.

— Você tem um corpo bonito, Lucia — Marina falou de modo um pouco desajeitado.

— Não é, amiga? — Camila retrucou — esse tempo todo escondendo esse corpão…

Os comentários fizeram Lucas corar um pouco. Já recebera muitos elogios por sua aparência, mas nunca por características femininas. Era algo novo e inesperado. Não que os repudiasse ou sentisse vergonha, afinal gostava bastante de ser elogiado. Mas era uma sensação diferente. Geralmente, no passado, era ele quem elogiava o corpo das mulheres, inclusive de Camila.

— Obrigada, amigas. Não sou de me mostrar muito assim, acho meio estranho…

Caminharam alguns metros até a água. Lucas colocou o pé sobre uma onda que morria fracamente sobre a areia.

Foi pego de surpresa pela temperatura. Por mais que conhecesse a água fria do Oceano Atlântico que banhava o Rio de Janeiro, se esquecera que aquele corpo parecia possuir uma sensibilidade diferente. Deu um pulo para trás, arqueando o corpo, dobrando ligeiramente os joelhos e os cotovelos, apontando os antebraços para cima. Um gesto estranho para ele. Estranho, porém, apenas de vivenciar de dentro, pois já vira várias mulheres o repetindo na praia. Um gesto delicado, um gesto… feminino.

O espasmo surpreendeu Lucas, mais pela espontaneidade que pelo gesto em si. “Acho que agora o personagem está natural, incorporado”, pensou. Sentiu-se relaxado. Decidiu se entregar um pouco mais. Viu Camila mergulhando por baixo de uma onda. Decidiu segui-la. A água gelada acentuava a propriocepção daquele corpo. Seios, quadris, a água parecendo puxar os cabelos, o que tinha ou deixava de ter entre as pernas. Mas, surpreendentemente, aquilo tudo parecia não importar tanto naquele momento. Estava tomado por uma certa euforia. Pela primeira vez em semanas, sentia que estava se divertindo.

Passaram longos minutos na água. Mergulhando, nadando, pegando jacaré. Era como uma repetição de momentos felizes com Camila de muitos anos atrás. Parecia que uma ferida do passado começava a cicatrizar aos poucos.

Voltaram à sombra do guarda-sol, agradecendo a uma família próxima por tomar conta dos pertences. Marina se dirigiu a um quiosque, a fim de comprar uma tigela de açaí. Lucas e Camila estavam a sós, ainda que através do avatar de Lucia. Lucas quis puxar assunto.

— Não me divirto assim há tempos. Obrigada por me tirar daquele apartamento.

— De nada. De tempos em tempos gente tem que sair, se libertar das coisas chatas, mesmo.

— Sabe, andei pensando — Lucas mudou o tom — sobre aquela história de denunciar o Lucas. Acha mesmo que uma pulada de cerca seria suficiente pra acabar com a carreira dele? Pelo que você me diz, ele só vai adicionar isso ao body count, e os amigos homens dele vão achar até bonito…

— Bom, talvez você tenha razão. Mas é a única arma que eu tenho. Eu tenho um certo medo pelo poder que ele tem na empresa, ele poderia me prejudicar facilmente.

Lucas tomou uma postura diferente. Mais de consolo e preocupação. Uma postura completamente nova para ele.

— Olha, ele tá passando por algo muito sério. Quem sabe ele não volte uma pessoa diferente… isso se voltar. Dar de cara com a morte na sua frente mexe muito com algumas pessoas.

Pois é, pode ser — Camila continuava resignada — mas não confio muito nele. Acho que aquele homem não tem muito jeito. De qualquer forma, pode ser que tenha outra arma, tenho algumas pistas… mas não posso falar agora.

Lucas se espantou. Não fazia ideia do que Camila queria dizer. Pensou em responder, tentar descobrir. Finalmente alguma informação valiosa. Foi interrompido, porém, por Marina, que voltava carregando uma tigela de açaí maior que sua própria cabeça.

— Nossa, ela vai comer isso tudo? — Lucia sussurrou a Camila.

— Ih, amiga. Essa aí é magra de ruim — retrucou Camila. As duas riram

— Amigas, disfarcem, mas acho que aqueles homens estão olhando pra cá — marina falou baixo em um tom mais sério.

Um grupo de jovens acabava de interromper um jogo de altinha e sentava na areia, próximos do trio de amigas. De fato, as observavam indiscretamente.

— O que vocês querem? — Camila perguntou, séria. Já conhecia a praia.

— Nada, apenas observando essas maravilhas. Você é demais, mas a ruivinha é um espetáculo!

— Que atrevimento, menino! — Camila estava nervosa, mas Lucas parecia não ligar. Novamente, era elogiado por causa do corpo em que habitava. Adorava a sensação de ser elogiado e admirado. Descobrir que aquele corpo podia proporcionar isso foi como uma epifania. Abriu um sorriso e esticou as costas, aumentando a proeminência dos próprios seios.

— Deixa eles, Camila. Deixa eles olharem.

— Tá doida, menina? — Camila ficou indignada.

Os homens, agora, assobiavam e uivavam. “Eu sou gostosa”, Lucas pensou, ironicamente.

— Acho que já chega de praia por hoje — Camila se levantou e começou a arrumar as coisas, seguida por Marina.

— Concordo.

— Poxa, mas já? — Lucas ficou resignado. Estava sendo divertido. Ao sair, as três foram abordadas uma última vez pelos homens.

— Qual é o nome das gatinhas? — um deles perguntou.

— Meu nome é Lucia…

— Vamos embora, cara — Camila a cortou, prontamente.

 

****

 

Lucas chegou no apartamento com o corpo ainda úmido do mar. Os últimos raios de sol iluminavam fracamente o quarto. Parou de frente ao espelho, no mesmo ritual que, sem perceber, repetia frequentemente desde o início do experimento. Talvez, ainda buscasse, de algum modo, se reconhecer ou, pelo menos, reconhecer algo com o qual se identificasse naquele corpo estranho. Mas, agora, talvez não fosse mais necessário. Aquele corpo já mostrara suas capacidades. Era um corpo bonito, de fato, isso já havia sido constatado desde o começo. Mas receber elogios de outras pessoas foi algo completamente avassalador. Talvez, estivesse em posse de um corpo tão admirável quanto o original.

Tirou a saída de praia. Queria, ele mesmo, admirá-lo. “Essa Lucia é um mulherão, mesmo”, pensou, enquanto fazia poses, que se tornavam cada vez mais sugestivas. Pôs as mãos sobre os seios, depois ao lado dos quadris e sobre a cabeça. Não quis parar por aí. Tirou o biquíni, deixando aquele corpo inteiramente nu diante do espelho.

Pensou no homem no caminho de volta da padaria. Depois, nos jovens da praia. Sentia algo diferente. Algo quente entre as pernas. Isso o deixou confuso. “Isso… é excitação? Eu estou tendo tesão por causa de outros homens?”. Havia, porém, uma necessidade incessante que parecia superar a estranheza daquele pensamento. O prazer sexual era a gasolina de Lucas. Não sabia viver sem aquilo. Desde que o descobrira, poucas vezes havia passado tanto tempo sem sexo como durante o experimento. Talvez, além do medo inicial de que sentir prazer em um corpo feminino pudesse, de alguma forma, ferir sua masculinidade, também houvesse certo receio da nova anatomia, ou mero desconhecimento. Era diferente tê-la como sua, e não como uma parte de outra pessoa. Agora, porém, não se aguentava mais. Queria, ou melhor, necessitava descobrir como funcionava.

Deitou-se na cama, as pernas ligeiramente dobradas e abertas. A mão esquerda buscou o sexo com certa delicadeza, a direita concentrou-se nos seios. Pensou de novo no homem da padaria. Talvez fosse um homem como ele fora até descobrir a doença, apenas tentando ganhar a vida. “O que ele faria com Lucia? Se interessaria? Gostaria de beijar? Transar, talvez?”

A mão esquerda alternou movimentos ora lineares, ora circulares. Ora mais rápidos, ora mais contidos, ora mais fortes, ora mais delicados. Uma estranha familiaridade com a situação que espantou Lucas. Era como se não fosse a primeira vez que aquele corpo passasse por aquilo. Era prazeroso, porém, e isso bastava. Pensou nos garotos da praia. No homem da padaria. Na mão esquerda. A temperatura do quarto parecia subir. O ritmo aumentou, consideravelmente. O homem. Os garotos. A mão. O Homem. Os garotos. A mão…

A sensibilidade explodiu. O corpo respondeu com contrações ritmadas. Soltou um gemido meio agudo, que durou quase um segundo. Passado o clímax, jogou os braços por sobre a cabeça, ainda ofegante, mas sentindo um profundo relaxamento.

Observava o teto, sentindo o resto de sensibilidade naquele corpo nu. Pensava novamente em dosas as experiências daquele feriado prolongado. Nas pessoas com quem interagiu, nos lugares que frequentou, nas roupas que vestiu, nos momentos com Camila e Marina. Aquele corpo mostrava ter mais atributos do que compreendera inicialmente. Além de ser bonito, proporcionava admiração e prazer. Mesmo sendo um corpo feminino. Isso era surpreendentemente bom. “Os próximos meses não precisam ser tão pesados”, pensou.

Respirou fundo. Sentou-se na cama, um pouco desconfortável com a sensação melada entre as pernas. Olhou pela janela. Talvez, não fizesse mal assumir completamente aquela identidade pelo restante do tratamento. Seria algo mais natural que apenas um personagem que interpretaria diuturnamente.

Olhou para baixo, fitando a silhueta desnuda, iluminada pela luz da cidade que atravessava a janela. Ela — sim, ela — então falou baixinho, como se fizesse uma promessa àquele corpo.

— Vou ser a Lucia a partir de agora.

 

FIM DO ATO II

ATO III

Capítulo 9 — Gabriel

 

Lucia acordou e seguiu normalmente com sua já bem definida rotina matinal. As únicas diferenças eram a conformação com a identidade feminina nos últimos dias e um conjunto de peças de roupa usados para ir ao mercado no dia anterior. Notadamente, uma mini saia plissada e uma blusa cropped usada no dia anterior. Normalmente, Lucas teria achado esse tipo de bagunça inaceitável. Mas, naquelas circunstâncias bizarras, passou a se permitir certas liberdades como Lucia.

A experiência de ir ao mercado de cropped e mini saia havia sido positiva. Sentia que era um pouco mais protagonista naquele mundo. De fato, atraiu bem mais olhares que o vestido da padaria ou até mesmo o biquíni da praia. Ela não ligava, porém. O receio inicial em ser vista em um corpo estranho, alheio à sua imagem, deu lugar a uma encantamento por ter um físico elogiável e admirável. Era como se a água respondesse de volta a narciso: “Você é deslumbrante”.

De fato, o espelho se tornara uma parte importante da rotina matinal de Lucia. Para além de se arrumar e se maquiar, havia ali certo encantamento. Sempre gostara de observar mulheres bonitas. De frente, perfil, costas ou de cócoras, vestidas ou desnudas. E era isso que fazia. Uma espécie de auto-lesbianismo.

A “mulher” se encontrava, então de frente ao espelho. Fez uma pose.

— e aí, gata? Tá sozinha?

Lucia riu. Estava realmente se divertindo. Ficando à vontade naquele corpo.

Talvez à vontade até demais. Como lucas, frequentemente, pensava mais com a cabeça de baixo. O executivo sério dava lugar a um homem um tanto impulsivo quando se tratava de satisfazer seu tesão insaciável. Com isso, certas ideias e situações um tanto descabidas apareciam não raramente.

E foi isso que aconteceu. Um pensamento intrusivo saltou em sua mente: “Como será que é transar nesse corpo?”. Bom, já havia conseguido sentir prazer, e já havia alcançado o clímax naquela semana vezes o suficiente para decorar o caminho. Naturalmente, pensou, o próximo passo seria testar isso com outra pessoa.

Lucia arregalou os olhos. Parecia que havia diante dela uma espécie de conhecimento proibido, que pouquíssimos humanos experimentariam: a possibilidade de saber como seria estar dos dois lados de uma relação heterossexual, penetrar e ser penetrado. Um, já havia experimentado até o último detalhe. O outro, pensava, só estaria esperando para acontecer.

“Mulher consegue escolher mais, né?”, pensou. Mas os pensamentos, em rápida sucessão, lembraram que já havia um pretendente. Alguém que já demonstrara interesse: Gabriel

O coração errou algumas batidas. A respiração ficou um pouco ofegante. “Transar com meu melhor amigo só pra saber como é dar a ‘peleleca’?” Pensou, lembrando o apelido carinhoso que os altos executivos brasileiros davam à região íntima feminina desde tempos imemoriais. “Que loucura é essa, meu deus…”

— Eu vou fazer isso mesmo? – Disse ao espelho, assustado com a própria mente. Respirou fundo. Tentou se controlar. Mas o tesão chamava. Ou melhor, gritava. A pergunta se tornara retórica — vou sim.

Ao se arrumar, puxou a saia do uniforme para cima. A barra terminou quase no meio das pernas. Fez uma maquiagem mais chamativa. Estava pronta para mais um dia de trabalho.

 

****

 

Lucia começou o dia como sempre fazia, organizando as planilhas e respondendo os e-mails no gabinete do CFO. Graças ao VPN e a um temporizador de envio, decisões e respostas que poderiam ser dadas de dentro do mesmo prédio pareciam vir do outro lado do mundo. Não havia muito a ser feito, apenas atualizar o fluxo de caixa de cada semana. O planejamento todo já havia sido feito há tempos, em antecipação ao projeto do pix. Era só seguir a estratégia e contornar qualquer eventualidade.

Ficou entediada. Estava tudo bem demais. Aquela tranquilidade era monótona, às vezes. Nenhuma pauta-bomba vinda da board. Nenhum gasto emergencial precisando de custeio, como quando um sprinkler disparou por causa de uma tentativa de fazer pipoca no micro-ondas da copa, queimando três computadores, inutilizando mesas e gerando uma justa-causa.

Entrou no Slack da Rock. Sempre tinha alguma discussão ou história interessante por lá. Claro que, quase sempre, na camada mais superficial. Coisas confidenciais eram passadas, geralmente, por WhatsApp, com mensagens de visualização única. Como a conta de Lucas tinha direitos de administrador, por ser o CFO, conseguia entrar no site de forma anônima. Era um fantasma, um espírito possuindo um corpo alheio e assombrando os colegas da empresa sem que eles soubessem.

O ambiente virtual era uma cópia do organograma da empresa. Cada departamento, cada equipe, cada uma com sua sala, seu canal de chamadas de áudio, seu chat. Alguns, como o da diretoria, exigiam senha para entrar. Outros, de menor importância, eram abertos.

A barra de usuários mostrava que camila estava online, naquele momento. Não encontrou, porém, qual sala estava. Não estava no bate-papo geral, nem na sala do financeiro, onde normalmente seria encontrada. Lucia passou então a olhar, uma a uma, a sala das equipes. Estava curiosa sobre o que a amiga estaria fazendo. “Um pouco de espionagem corporativa não vai machucar ninguém”. Abriu um leve sorriso. Passou pelo operacional, pelo RH, marketing, relacionamento ao cliente. Nada.

Voltou ao lobby principal. Percebeu outra bolinha verde na barra. Marina. “Ah, vão usar a ferramenta de trabalho para ficar de fofoca. Que bonito”. Presumiu que Marina poderia estar na sala de uma das equipes de TI. Ao abrir a aba, se deparou com nada menos que trinta e cinco salas. “Mas o quê? Nem tem isso tudo de funcionários aqui”. Não conseguiu pensar em uma explicação racional para aquele exagero. “Pessoal de TI é muito maluco, mesmo…”

A sala 1 recebia uma reunião de uma equipe de front end. Na sala 2, alguns funcionários debatiam, há alguns dias, mudanças em um protocolo de internet, e as modificações que faziam no Github. Se as duas fossem mesmo papear ali, seria em uma sala mais vazia. Notou uma nova mensagem na sala 29. Era Camila. Eureka.

[Agora que o fdp do Lucas não tá aqui fica mais tranquilo pra pegar essas coisas e te mostrar]

Lucia ficou confusa. “Mostrar o quê?”

[Por que não me mostrou logo depois que ele foi embora? Por que não tá usando áudio??]

[Porque esses arquivos têm registro de acesso. Não dá pra ficar entrando toda hora. E eu tô no escritório. Não tenho privilégio de home office igual a você. Tem gente ouvindo aqui.]

De fato, Lucia conseguia ver a silhueta da cabeça de Camila pela persiana da divisória. Sentia-se, ao mesmo tempo, curiosa, mas um pouco decepcionada. “Mas que porra é essa?”

A próxima mensagem foi um link do Mediafire. Lucia prontamente acessou. Baixou o arquivo “Planilha_Financeiro_Rock_Confidencial.xlsx”. Uma última mensagem de camila.

[baixa isso logo e depois apaga a sala. Vou apagar o link depois. SE ALGUÉM MAIS VER ISSO TAMOFU]

Lucia estava confusa. Era aquele o “podre” sobre Lucas que Camila não podia falar na praia? Uma planilha do financeiro, que o próprio projetou e sabia cada detalhe de cor? Sem comentar a burrice de usar um canal oficial da Rock para compartilhar a tal planilha. Puro amadorismo. Checou novamente a persiana. Camila saíra de seu posto. Não havia ninguém no corredor que pudesse surpreendê-la. Abriu, então, o arquivo, esperando não ter muita surpresa. De fato, as primeiras linhas eram bem familiares: o balanço do último trimestre, despesas, impostos, contratos a receber. Nada novo. “Fala sério, Camila”. Ao continuar rolando pela planilha, percebeu que havia mais linhas do que a planilha geral que projetara. Aquilo começou a ficar estranho.

As linhas extras mostravam gastos das Holdings da companhia. Rock Participações, Rock tecnologia, Rock Investimentos… até aí nada de anormal. Muitas empresas separam seu capital em vários CNPJ por motivos tributários ou organizacionais. Porém, havia nomes que desconhecia. Empréstimos, juros sobre juros, gastos astronômicos. Lucia arregalou os olhos. Com todo esse adicional, as contas da companhia, que trabalhara muito para manter equilibradas com uma margem mínima, ficavam criticamente no vermelho. Estava ofegante. Uma linha de suor escorria pela testa. O estômago queria botar a barrinha de cereal que consumira quinze minutos antes para fora. Fechou o arquivo e levantou-se. Precisava de um café, e de preferência com bastante açúcar.

Atravessou o escritório com as mesas de plano aberto, ainda sem acredita no que vira. Poucas pessoas trabalhavam naquele momento. Uma presença chamou a atenção, porém. Gabriel, encostado contra a parede ao lado da máquina de café, um copo descartável de isopor na mão. Uma boa oportunidade de deixar aquele problema um pouco de lado, até porque não chegaria a nenhuma solução naquele momento. Respirou fundo. Esboçou um sorriso meio torto, e tentou fazer uma voz mais adocicada.

— Bom dia, Gabriel.—

Gabriel levantou os olhos. Demorou-se um instante no palmo de pele a mais que a saia revelava nas coxas. Sorriu.

— Bom dia. Tá bonita hoje.

Lucia sorriu de volta. Um sorriso um pouco mais aberto. Estava conseguindo relaxar aos poucos.

— Só hoje?

— Não. Hoje eu resolvi falar.

Ela riu. Gabriel nunca se preocupou em ser sutil ao demonstrar interesse.

— Hoje não tinha reunião do operacional?

— Daqui a pouco.

— Está enrolando, então? — falou com certa ironia.

— E quem não enrolaria com essa oportunidade? — Ele foi malicioso.

Lucia levantou as sobrancelhas. O tom foi incisivo, mesmo para ele.

— Que oportunidade?

Gabriel apontou com o copo.

— De falar com uma gracinha dessas…

Ela não conseguiu segurar o riso. Estava achando aquilo muito engraçado. Conhecia aquele tipo de abordagem muito bem, até porque fazia a mesma coisa, mas com muito mais elegância.

— Você é sempre tão direto assim?

— Só quando sei que é recíproco.

— E como você sabe? — Lucia olhou para o lado, enroscando uma mecha do cabelo ruivo com o indicador.

— Você deixa muito na cara.

Lucia balançou a cabeça, rindo, enquanto Gabriel bebericava o café. O relógio no pulso chamou sua atenção. Não era o Rolex do dia da cerimônia com os executivos do Banco Central. Era um Technos, muito mais barato. Ela ainda não conseguia deduzir de onde saíra aquele relógio. Deveria ser alugado ou emprestado, provavelmente.

— Preciso ir. Se eu chegar atrasado, vão reclamar que estou trabalhando pouco.

— E você trabalha? — Lucia recuperava o sarcasmo do velho Lucas.

— Vou precisar te provar?

Era óbvio onde aquilo ia parar. Tudo de acordo com o plano.

— Como?

— Sexta-feira no Baixo Leblon, que tal?

Ela ficou alguns segundos em silêncio. O coração acelerou um pouco. Se perguntou se já não estava indo longe demais. Tinha o plano, mas não se preparou para o caso de dar certo. A curiosidade a arrebatava, porém. A oportunidade de obter o “conhecimento proibido” estava ao alcance, e chegava a ser ridícula de tão fácil.

— Fechado.

Gabriel terminou o café e jogou o copo no lixo.

— Até sexta, então.

— Até.

Ele se afastou em direção ao corredor. Lucia ainda ficou alguns segundos olhando para o vazio, sem saber no que pensar.

— Funcionou mesmo…

 

****

A tarde começava a morrer naquela sexta-feira. O sol dava um tom amarelo ao quarto. Lucia estava com a cabeça a mil. Se o espelho pudesse responder, talvez pediria algum aconselhamento, ou desabafaria a ansiedade. Só que aquele não era o espelho com IA da suíte da cobertura em Ipanema. Não ouviria uma resposta.

Encontrava-se, agora, um tanto apreensiva. Ainda não tinha certeza do que esperar. Lembrava da sua primeira vez, ainda no corpo antigo. Uma festinha de adolescentes em uma mansão do Jardim Pernambuco. Um de seus amigos era filho de um diplomata da Noruega. Os pais estavam de volta ao país natal para tratar de assuntos do trabalho, e o filho subornou os funcionários da casa para que tudo ficasse em segredo. Sortudo como sempre, ganhou o quarto principal no pôquer. Teria uma cama king size para chamar de sua naquela noite.

O nome da namoradinha era Maíra. Um nome que não vinha a sua mente há bastante tempo. A primeira de muitas outras. O Lucas adolescente gostou bastante da experiência. A menina, nem tanto. Agora, poderia saber o que ela sentiu. Quem mais no mundo teria a possibilidade de perder a virgindade duas vezes?

Vestiu a mesma blusa cropped jogada na cadeira. Só a havia usado uma vez. Optou por uma saia mais colada, mas tão mini quanto a do supermercado. Teve que encolher a barriga para fechar o zíper. Talvez fosse um número menor. O espelho devolvia uma imagem provocadora. Algo que o antigo Lucas adoraria, e, obviamente, também interessaria a Gabriel. Estava pronta. Chamou o Uber.

Chegou no horário marcado na Pizzaria Guanabara, sentando-se em uma mesa na calçada. A pontualidade era um valor ao qual não abriria mão, mesmo com aquele corpo. O letreiro LED colorido, imitando o antigo neon, iluminava seu rosto. Tomou dois martinis para criar um pouco de coragem. Gabriel demorou quase meia hora para chegar. Sentou-se na mesa, não antes sem tocar com uma das mãos no ombro de Lucia.

— Desculpe a demora. Alguns imprevistos lá na Rock.

A mentira era descarada demais. Mas Lucia não quis estragar o momento. Reparava no paletó de tweed, na barba bem-feita e no relógio. O maldito Rolex dava as caras novamente. Ele queria impressionar.

— Então, Lucia — Gabriel queria puxar assunto — Onde o Lucas te achou? Estou curioso. Coincidência o nome tão parecido…

— Bem… — ela teve que improvisar — ele colocou um anúncio no LinkedIn. Fez uma entrevista. Tinha acabado de chegar na cidade e precisava de um emprego.

— Ah, então você não é daqui?

— Não, vim de Petrópolis. Meus pais, eles…

Pausou a fala. Percebeu a visão ficando um pouco embaralhada, as cores mais vibrantes. Se deu conta, em um momento um tanto delicado, que aquele corpo tinha menos resistência ao álcool que o original. Dois martinis eram como água para Lucas. Agora, já tinham um certo efeito.

— Ah, Petrópolis. Tem umas cervejas ótimas lá. A propósito, o que falava sobre seus pais?

— Ah, sim — a pausa acabou dando tempo para pensar um pouco — meus pais não queriam que eu viesse. Acham o Rio perigoso demais. Mas, eu sou uma menina corajosa — ela riu.

A partir desse ponto, a memória de Lucia começou a falhar. Lembrava-se somente de alguns flashes. Lembrava-se de inventar um namoro de um ano com um certo Camilo quando perguntada sobre relacionamentos passados, respondido com um “puta coincidência, meu” por Gabriel, imitando um sotaque paulistano bem forçado, por algum motivo. Um dos momentos de humor questionável daquela noite, mas os outros foram esquecidos. Ele também inventou um relacionamento passado inexistente. Lucia sabia que ele sempre foi solteiro, mas queria mostrar alguma qualidade amorosa. Lembrava de rir forçosamente das primeiras piadas sem graça, mas ir relaxando ao longo da noite. Depois, lembrava dos dois gargalhando por causa de alguma outra coisa.

Em determinado momento, decidiram que o bar estava chato. Gabriel pagou a conta, como bom cavalheiro. Andaram pelo Leblon, até o apartamento dele. O primeiro beijo veio na calçada vazia. Depois o segundo, e o terceiro…

A memória começou a clarear quando chegaram ao apartamento, continuando com os beijos quase imediatamente. Mesmo, à meia-luz, dava para ver alguns detalhes. Paredes de cor bege, móveis antigos de madeira escura, um sofá com estampa floral. Não tinha nada a ver com Gabriel.

Foram até o quarto. Gabriel empurrou Lucia de leve, fazendo-a cair de costas sobre a cama, apoiando-se com os braços abertos. O homem se pôs sobre ela, apoiando o joelho no colchão, abrindo espaço para que ela se sentasse enquanto se beijavam.

O pensamento de Lucia voava enquanto Gabriel corria a palma da mão sobre seu braço. Ainda não sabia o que pensar sobre o momento, nem conseguia interpretar com exatidão se já estava excitada. “Acho que não tem como voltar agora”, pensou. A mão dele alcançou sua coxa.

Os beijos começaram a ficar mais amplos e vigorosos. A outra mão de Gabriel encontrou o seio de Lucia, enquanto a boca foi descendo até o pescoço. Soltou um leve sussurro.

— Ah, Gabriel.

O efeito dos martinis parecia passar mais um pouco. Lucia pensava e sentia com um pouco mais de clareza, agora. O momento e a sensação dos toques eram bastante vívidos. Ainda não tinha certeza do que sentia sobre isso. Mas parecia ser agradável até ali.

A mão de Gabriel alcançou o zíper da saia, que abriu rapidamente com um puxão. Lucia sentiu a barriga se expandindo e o volume da coxa saindo pela abertura. O pensamento ganhou clareza, quase imediatamente. Reconheceu a situação absurda em que se colocou.

— Gabriel…

Não houve reação. Sua boca descia sobre seus ombros, até a base dos seios, honde havia uma pinta. A mão que puxara o zíper corria os dedos pela renda da calcinha, em direção ao meio. A outra se preparava para puxar o decote.

— Gabriel, para! —- Foi quase um grito.

Ele levantou o olhar imediatamente, afastando as mãos.

— o que foi, meu amor?

— É que… eu não me sinto pronta ainda, acho que fomos muito rápido.

Gabriel sentou na cama e soltou um suspiro. Lucia fechou o zíper da saia, escondendo a calcinha branca de renda, e ajeitou a blusa.

— Desculpe. Acho melhor eu ir embora.

— Poxa, mas eu já estou no embalo, ja chegamos até aqui… — ele estava resignado.

— Eu não vou transar com você hoje, cara — o tom foi mais sério.

— tudo bem. Mas você podia pelo menos…

Lucia ficou preocupada. Não sabia o que Gabriel poderia pedir naquelas circunstâncias. Uma recusa poderia causar uma articulação para gerar problemas para ela na empresa. Mesmo que ele não fosse de um cargo tão alto como Lucas, ainda era um gerente operacional, e tinha suas alianças. Além disso, seu ímpeto já era conhecido de outros tempos. E, agora, havia aquela maldita planilha. Não podia fechar nenhuma porta até descobrir o que estava acontecendo.

— Me dar uma chupada.

Lucia gelou. Aquilo era mais além de qualquer coisa que havia pensado. Pensou se ainda daria tempo para recusar, mas pensou nas consequências. Na maldita planilha. O volume na calça do homem era perceptível

— ah, que seja. Vamos logo com isso — disse se ajoelhando sem muita vontade. Ficou ali, alguns segundos, imóvel

— como é que é, não vai abrir?

“Mas que folgado! Eu vou ter que fazer tudo, ainda por cima?”. Ela abriu o zíper do homem com a ponta dos dedos. E ali estava a coisa. Dura, pulsando. Apontava para sua testa ameaçadoramente, como uma arma. Lucia achou irônico o fato de possuir um objeto como aquele até umas semanas atrás. Já esteve na mesma posição que Gabriel se encontrava várias vezes.

Lentamente, encostou os lábios na ponta do membro, com um pouco de receio. A textura era estranha. Gabriel segurou seus cabelos, empurrando a cabeça de Lucia em sua direção. A ponta, que antes tocava delicadamente os lábios, chegou quase à garganta, gerando ânsia de vômito em Lucia. Não dava nem para dizer nada, agora.

A cena continuou por alguns minutos. Gabriel fazia a maior parte do esforço. Gemia baixo e contraía os músculos ritmadamente. Até que, em determinado momento, segurou a cabeça de Lucia com um pouco mais de força, descarregando seu sêmen em sua boca. O gosto era horrível, a textura molecada e bastante enjoativa. Ela sentiu o estômago revirando. Uma lágrima desceu do canto do olho. Finalmente, conseguiu retirar aquela coisa, já ficando amolecida, de sua boca. Gabriel jogou as costas na cama, ofegante, ainda um pouco entorpecido pelo efeito do álcool e do orgasmo.

— Ah, Lucia, você é demais…

Ao chegar em casa, ela correu para o banheiro. Ajoelhou-se de frente para o vaso sanitário. Quase imediatamente, seu estômago contraiu, soltando uma quantidade relativamente grande de vômito. Os martinis e os petiscos da noite, junto com os sêmen de Gabriel. Ela se encontrava extenuada.

Enquanto sua cabeça pendia sobre a privada, sem forças para se levantar, ela se lembrou de Camila. De momentos prazerosos e dolorosos do relacionamento. Lucas e Gabriel compartilhavam o mesmo apetite insaciável por sexo. Não que Camila fosse uma mulher frígida, pelo contrário. Mas, quando a cobrança do trabalho começou a apertar, ela não pode manter o ritmo. A relação azedou. Brigas e silêncios prolongados passaram a dominar. E Lucas, insatisfeito, buscou saciar seu tesão na rua. Era imoral, ele sabia, mas tentou se justificar com a falta de pique da parceira. Camila descobriu por acaso, atendendo uma ligação. Estava acabado.

Lucia suspirou. Os erros do passado a atropelavam como um trem. Camila não merecia aquilo.

— que merda que eu fiz…

Capítulo 10 — Desventuras em série

 

A semana começou normalmente, com Lucia seguindo sua já estabelecida rotina matinal. Não fez quase nada no fim de semana. A noite de sexta rendeu uma bela ressaca e uma exaustão que custou a passar, sem contar a enxaqueca. A repetitividade ainda trazia alguma segurança em meio às circunstâncias desafiadoras, mesmo que estivesse, aos poucos, se acostumando com tudo aquilo. Com o corpo, com o nome e os pronomes. Não era mais tão novidade assim. A novidade incômoda eram as finanças da Rock. “Não é possível que eu deixei isso passar. Como isso aconteceu, como não reparei nisso”, ruminava. De fato, não se lembrava daqueles números em nenhum momento, desde que assumira como CFO. Tudo o que passou por ele havia sido contabilizado da melhor forma possível. Não fazia sentido.

Tomava seu banho, como todas as manhãs. A água quente espalhava uma nuvem de vapor pelo minúsculo banheiro enquanto percorria as curvas e dobras do corpo feminino. Uma sensação que Lucia já se acostumara bem e achava curiosamente agradável. Naquela manhã, porém, a sensação foi suplantada por outra, mais estranha. Despejou um punhado de sabonete íntimo na palma da mão esquerda. Sempre ouviu que o corpo feminino demandava bastante asseio. Direcionou a mão até a entrada em meio às pernas. Antes de chegar ao destino, porém, a mão tocou rapidamente o púbis, revelando a tal sensação estranha. Áspera. Pelos despontando da pele.

Lucia tomou um susto. Como informado pelo doutor Keller, aquele corpo não possuía hormônios sexuais ativos. Aquela afloração não deveria acontecer. Interrompeu o banho imediatamente. Secou-se rapidamente com a toalha e se pôs diante do espelho do banheiro. Observou os pequenos pontos pretos que despontavam no monte de vênus. Ergueu os braços, observando as axilas. A mesma visão, a mesma sensação. Correu para o telefone. Foi atendido quase instantaneamente.

— Doutor, preciso falar com você.

— Bom dia, Lucas. Como está?

— Estou com um problema. E… pode me chamar de lúcia.

— Ah — a voz do doutor parecia entusiasmada — então decidiu ficar com esse corpo em definitivo?

— Não! — Lucia deu um pulo para trás — eu só… estou acostumada… digo… acostumado com o nome e estou assumindo ele por enquanto. Ajuda a entrar no personagem, sabe…

— Ah, sim. Compreendo. E qual é o problema?

— Você disse que o corpo não possuía os hormônios sexuais ativos, certo?

— Perfeitamente.

— Bem, é que… estão crescendo pelos. Em certas áreas indevidas.

— Ah, isso pode perfeitamente acontecer — o doutor falava sempre de modo muito seguro — é um corpo adulto, mesmo que não seja fértil. Alguns processos fisiológicos ainda podem ocorrer mesmo sem muito estímulo. Talvez na próxima consulta eu possa te aplicar um bloqueador hormonal.

— Na próxima consulta? E o que eu faço até lá.

— Não dá pra fazer muita coisa. Comprar uma Gilette ou um pouco de cera, talvez.

Lucia soltou um suspiro. Não ficou nem um pouco satisfeita com a espera. Haviam, porém, coisas maiores para se preocupar. Precisava terminar de se arrumar para ir ao trabalho.

 

****

 

A manhã passou lentamente. Lucia vasculhou todos os arquivos e notas fiscais. Nada de diferente. Pelo menos, nada de diferente no que tinha em mãos. Mas falsificar coisas não era o perfil de Camila. Lucia conhecia os defeitos dela, e corrupção certamente não era um deles. Também não imaginaria que ela fosse vingativa. A declaração da praia sobre querer apenas se defender pareceu ser bastante sincera para Lucia. Compreensível, por Lucas sabidamente nutrir uma grande mágoa contra ela e estar em uma posição de poder.

Antes de sair para o almoço, enviou um e-mail para o CEO Meirelles. “Por favor, marque uma reunião com minha representante. Assuntos confidenciais e urgentes. Atenciosamente, Lucas Costa”. Imaginou que, se alguém teria interesse em resolver aquela emergência seria o CEO e sócio-fundador.

Foi até a sala de Camila, ao lado da sua. Ninguém. Retornou pelo corredor. Gabriel saía de uma sala. Ao passar por ele, Lucia a cumprimentou.

— Bom dia, Gabriel

— Bom dia.

A resposta, extremamente seca, quase de ojeriza, surpreendeu Lucia. A noite não havia sido das melhores, mas não esperava ser tratada com tanta indiferença. “Que ingrato. Eu lhe dou um boquete e é assim que ele retribui”.

Foi até a copa. Encontrou Camila e Marina na mesa do fundo. As duas cabeças bastante próximas.

— Estou te falando. Tinha dois downloads no histórico do arquivo antes de eu excluir. Se você nao baixou duas vezes, então alguém mais acessou — Camila quase sussurrava, com uma voz preocupada.

— Espero que seja alarme falso, amiga. Porque a coisa é muito feia, mesmo.

Antes que a conversa pudesse continuar, Lucia se intrometeu.

— Bom dia, amigas. Onde vamos almoçar?

Camila ajeitou-se na cadeira quase instantaneamente, como se tivesse levado um susto. Deu um sorriso amarelo.

— Bom dia, Lu. Vamos naquele lugar de sempre.

As três andaram sob o sol até o restaurante, na praia do Flamengo, sentando-se em uma mesa na calçada coberta por um guarda-sol, como de costume. Após se acomodarem e fazerem seus pedidos, Lucia quis puxar assunto.

— Amiga, nem te conto — tentou imitar a forma de falar que observava as colegas utilizando.

– O que? – Camila respondeu. Marina checava o celular.

— saí com um boy na sexta.

— Ah que tudo — ela se entusiasmo — e aí?

— ah… não foi grande coisa, não — Lucia fez uma expressão de desconforto, sem conseguir disfarçar. Camila percebeu imediatamente.

— Eita! Eu conheço o bofe?

— É… sim. O Gabriel.

Camila reagiu com um misto de espanto e indignação. Bateu as palmas das mãos contra a mesa.

— Ficou doida amiga? Aquele embuste?

— Ah, eu quis fazer uma doideira — Lucia tentou disfarçar.

— Fazer uma doideira não é arriscar a própria vida, cara. Pelo visto você não tem experiência com homem problemático ainda. Tem que passar longe.

Camila suspirou. Marina balançou a cabeça em desaprovo. O clima ficou pesado.

— Por favor — Camila continuou, olhando para baixo, com as mãos apoiando a testa — me diz que foi só um beijo.

— bem… teve um boquete também

— Meu deus do céu — Camila fez uma expressão de desespero. Marina fingiu vomitar.

— Nossa, não sabia que vocês eram tão puritanas. Só achei estranho ele ter sido tão seco comigo hoje…

— Não somos. Mas porra, não se chupa o pinto de um bosta desses. E claro que ele foi seco. Ele queria te comer, você não deu pra ele, ele se frustrou. Ele acha que é direito dele, depois de gastar tempo e dinheiro com você. É assim que funciona.

O silêncio voltou. Lucia sabia que não era uma boa hora, mas quis seguir para o próximo assunto. Precisava de ajuda com a planilha. Inferiu que Camila ficaria do seu lado, se conseguisse uma boa desculpa, que tentava elaborar em sua mente.

— tem mais uma coisa que eu preciso dizer… eu vi a planilha.

Camila e Marina ficaram terrivelmente espantadas.

— Então foi você? Você estava espionando a gente?

— Não, eu só… achei que algo estranho no financeiro preocuparia o Lucas, não?

A expressão de Camila começou a ganhar, lentamente, tons de raiva.

— Você tem noção do que tá fazendo? Foi o Lucas que fez essa merda toda em primeiro lugar. Eu tenho certeza! Ele é um corrupto safado e tá mandando a empresa pro buraco pra tirar vantagem de alguma forma. Você acabou de me botar na rua, sua idiota!

— Não! Eu nunca faria… o Lucas não é esse tipo de pessoa.

— Você acha que sabe mais do que quem dormiu com ele por um ano inteiro, sua piranha?

— Você é uma traíra, Lucia — Marina complementou.

Camila se levantou da mesa, enfurecida

—Vamos embora, Marina. Perdi o apetite.

 

Capítulo 11 — A queda

 

O calçadão de Copacabana estava vazio como poucas vezes ficava naquele início de noite. Além de ser uma segunda-feira, havia uma frente fria chegando. Lucia se arrependeu de ter vestido apenas um short jeans, um par de havaianas e uma blusa de alças finas. O vento gelado, junto do barulho das ondas, bloqueavam seus pensamentos. A caminhada para espairecer e tentar concatenar uma saída não rendia frutos.

— Porra, claro que ela ia ficar puta. A Lucia é a representante do lucas, caralho. Tu tá sem o pau, não sem o cérebro — falou baixo. Apenas a estátua de Carlos Drummond de Andrade se encontrava presente para ouvir, sentada de forma relaxada em um banco, e sem os óculos já há muito tempo perdidos.

Ela se sentia terrivelmente sozinha. Perdeu as únicas amigas que tinha sob aquela identidade, seu antigo melhor amigo, que não poderia saber da história, ainda mais depois da semana anterior, a tratava com indiferença. O corpo apresentava sinais que a levavam a questionar o doutor a quem sua vida e seu futuro dependiam.

Desistiu da caminhada. Resolveu que uma boa noite de sono e, talvez, uma cerveja o ajudariam a pensar melhor no dia seguinte.

Abandonou a praia. Não aguentava mais o vento gelado e pegajoso da maresia na pele exposta dos ombros e das pernas. Andava com os braços cruzados por sobre o peito, se protegendo do clima. Atravessava, agora, um trecho vazio da rua Domingos Ferreira, escurecido devido a um poste com defeito. Ao longe, uma silhueta encostada em uma parede. Parecia acender um cigarro. Enquanto se aproximava, parecia reconhecer um rosto familiar nela, mas não se recordava de onde.

Chegou mais perto da silhueta. Era um homem. Um homem que já vira antes. Finalmente a encontrou. Ele se pôs de frente a ela, bloqueando a passagem.

— E aí, gata? Tá sozinha?

Lucia reconheceu a voz. Era um dos homens da praia. Parecia alterado pela bebida ou por alguma droga estimulante. Foi como se uma ficha caísse em seu cérebro de repente. Estava em uma rua escura e deserta, diante de alguém mais alto e mais forte. Corria perigo.

— não estou interessada — ela deu um passo para o lado. O homem a acompanhou, bloqueando novamente a passagem. Pôs a mão sobre seus ombros.

— Ah, mas você parecia estar querendo tanto aquele dia na praia, sua safada. Vamos lá. Quero um beijo.

Não! Sai! — Lucia empurrou o homem, e correu o mais rápido que pôde na direção oposta.

Aquele corpo se mostrava um pouco desajeitado e desequilibrado para correr. Ainda mais usando um par de havaianas. Ela lutava para se manter em pé tanto quanto para ganhar velocidade. O homem se aproximava rápido.

— Porra! – a tira do chinelo não aguentou e se partiu, deixando a sola se arrastando no chão da calçada de pedra portuguesa. Lucia perdeu ainda mais velocidade. O homem a alcançou sem esforço, em poucos segundos. Puxou a alça da blusa com força suficiente para desprendê-la, e trançou seus pés com os da mulher, fazendo-a cair de costas no chão. Em seguida, se jogou por cima dela, agarrando vigorosamente seu seio. Ela sentia um volume duro pressionando contra sua virilha.

— você vai ser minha, agora!

— Socorro! — ela gritou com todas as forças, em desespero.

A cena se desenrolou a poucos metros da entrada vazia de um hotel. Um segurança saiu após ouvir os gritos.

— O que está acontecendo aqui?

— Me ajude, por favor! – a voz começava a falhar.

— sai de cima dela! Vou chamar a polícia!

O homem se afastou. Lúcia se levantou, ajudada pelo segurança, segurando sua mão. A outra, trêmula, segurava a blusa rasgada.

— você está bem?

— Sim, ele não conseguiu fazer nada comigo.

— Fique calma, ele já foi embora. Quer que eu peça um uber pra te deixar em casa?

— Não precisa. Eu vou sozinha.

— Tem certeza?

— Tenho.

Retornou pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, mais movimentada. Descalça e ainda segurando a blusa. Não havia mais nada em sua mente. Sumiram a planilha, o doutor, Camila, Marina, a Rock. Havia apenas o homem por sobre seu corpo, aquele momento se repetindo como um disco arranhado.

Chegou em casa. Fechou a porta, imediatamente desabando no chão. Chorou copiosamente.

Capítulo 12 — Maria Clara

 

O consultório de Keller continuava exatamente igual. Lucia olhou rapidamente os livros sobre a estante e os papéis sobre a mesa. Depois, olhou lentamente para o chão. Queria evitar os flashes do ataque que sofrera. Um objeto, uma palavra, um rosto, qualquer coisa aparentemente banal e aleatória já eram suficientes para a transportar de volta para aquela noite em Copacabana. Acontecia várias vezes por dia. Às vezes, com menos de um minuto entre um e outro.

A consulta demorou um pouco a ser marcada, o que foi justificado por Keller com sua agenda lotada. Lucia já estava naquele corpo há cerca de três meses. Vestia um casaco de moletom bastante folgado e grosso, mesmo em um dia moderadamente quente.

— Então, doutor. Em cerca de um mês tudo volta ao normal, não é?

— Veja bem… — o doutor sabia manter um tom calmo mesmo quando tocava em assuntos delicados – a sua enfermidade é um caso inédito nesse tipo de tratamento. Naturalmente, estamos encontrando algumas dificuldades. A doença está se provando mais resistente do que o esperado no início. Talvez seja necessário mais um ou dois meses antes que seja possível fazer a reversão com segurança.

Lucia ficou inquieta.

— um ou dois meses? Então eu vou passar seis meses nesse corpo no total?

— na verdade, o prognóstico inicial era de quatro a seis meses, então podemos chegar a oito.

Lucia ficou rígida como uma tábua. Aquelas palavras a atingiram como um tiro.

— Oito? – Ela levantou a voz, resignada — eu vou ter que ficar oito meses sendo mulher? Não pode ser!

— Acalme-se. Infelizmente, é necessário.

— Não, por favor. Não aguento mais. Não faça isso comigo.

O doutor não se afetou com o protesto. Era fleumático.

— Respirou fundo. Eu entendo, viver como mulher pode estar te deixando um pouco histérica…

Lucia não deixou o doutor completar a frase. Ficou indignada.

— Histérica? Você não falou isso. Vai se ferrar!

— Lucia, calma! Você me entendeu errado. Não foi isso o que eu quis dizer.

— Então o que você quis dizer? – ela se levantou — Quer saber? Eu vou embora. Não vou ficar aqui ouvindo você me insultar. Me ligue quando o tratamento estiver terminando.

Saiu do escritório com raiva. Segurava para não chorar. A indignação por ser chamada de histérica foi tamanha que se esqueceu que fora ao consultório para tomar uma dose de bloqueador hormonal. O problema com os pelos iria continuar.

 

****

 

Ainda era a metade da manhã. Só voltaria ao escritório depois do almoço. Resolveu aproveitar para ir ao supermercado no tempo que sobrou ao terminar a consulta mais cedo. Andou alguns minutos até um estabelecimento próximo. Notou que recebeu alguns olhares na rua, deduzindo, pelas expressões faciais que seriam de estranheza pela escolha de vestimenta.

Caminhou pelos corredores do supermercado lentamente. O local estava vazio. Por mais que a tranquilidade e o pouco barulho ajudassem a se acalmar, estar totalmente sozinha em um lugar público ainda assustava. Percebia-se hesitante antes de entrar em um novo corredor.

“Histérica? Com quem ele pensa que tá falando”, ruminava mentalmente enquanto aguardava na fila do caixa. Rezava para pegar um uber que não ficasse de gracejos. Mas um motorista silencioso demais também seria suspeito. O ambiente silencioso, a não ser pelo bipe das leitoras dos caixas e pelos carros passando na rua em frente. O marasmo, no entanto, foi quebrado por uma voz fina e um tanto aflita.

— Maria Clara?

Lucia se virou ao perceber que a voz vinha de perto, de seu lado direito. Vinha de uma mulher de meia idade, com uma expressão de espanto no rosto e as mãos pressionadas sobre o peito. A mulher olhava fixamente para Lucia, que ficou confusa.

— Você está viva, minha filha. Por que você sumiu assim?

A estranheza aumentou quando Lucia se deu conta de como a mulher se parecia com ela. O mesmo rosto ovalado, olhos cor de mel e cabelos ruivos, mas uma aparência algumas décadas mais velha. Não sabia como reagir. A mulher se aproximou e tentou segurar sua mão.

— Sou eu, sua mãe. Por que não diz nada?

— você tá me confundido com outra pessoa — recolheu a mão, dando um passo para trás. Estava, agora, bastante assustada — eu me chamo Lucia.

— Para com isso, filha. Volta pra casa. Vem com a sua mãe.

— Me deixa em paz, eu não sou sua filha.

Lucia largou as compras no chão. Bastante assustada, saiu andando rápido do supermercado, deixando a mulher para trás, que chorava em desespero.

— Maria Clara!

 

****

 

Lucia voltou à empresa, abandonando o plano inicial de passar em casa após a consulta. Sabia que o moletom, incompatível como dress-code, lhe renderia uma reprimenda. Aquele dia era importante, porém. Finalmente, Meirelles encontrou espaço em sua agenda para marcar a reunião, que a princípio deveria ser de emergência. “Se eu ainda estivesse como Lucas, aquele idiota acharia falaria comigo no mesmo dia”, pensou, lembrando de situações anteriores. Antes de seguir para o gabinete do CEO, porém, passou na copa para beber um copo de água, uma tentativa de se acalmar um pouco após os acontecimentos bizarros daquela manhã.

Andou até a antessala cafonamente decorada de marfim e dourado. O local evocava lembranças do fatídico dia que virou sua vida de cabeça para baixo. A secretária loira do CEO não estava mais ali. Algumas posições na Rock apresentavam altíssima rotatividade. Gabriel era outra face do passado. Assinara sua justa-causa no dia anterior, após uma denúncia anônima de assédio sexual chegar no RH e, miraculosamente, ser levada a sério. “O que um e-mail direto do Taiti não faz”, pensou.

Entrou à sala. A decoração não era muito melhor do que a do lado de fora. Meirelles estava sentado à mesa.

— boa tarde, Lucia. Sente-se. O que te traz aqui?

— Boa tarde. Eu recebi… digo, o Lucas recebeu uma denúncia de uma pessoa anônima de que havia um problema com as finanças da empresa. Disse que alguns números não chegaram a ele e que pode haver um rombo nas holdings. Por favor, dê uma olhada nisso.

Lucia colocou os papéis com as seções mais relevantes da planilha sobre a mesa. Meirelles leu por breves segundos. Não parecia impressionado.

— Bem, é isso mesmo — Lucia franziu a testa. A calma do CEO a deixava confusa.

— Ele disse que esses números nunca chegaram a ele. Como é possível?

— Não eram para chegar. Foi uma decisão minha.

— pode me explicar, por favor? – Lucia ficou assustada. Algo estava definitivamente errado.

— Com prazer. Bem, como você sabe, a Rock conseguiu um contrato importantíssimo com o Banco Central. Precisávamos de financiamento pesado para isso. Mas o lucas é muito quadrado. Ele não iria se arriscar. Então, deixei que soubesse apenas o suficiente e montei o orçamento real por fora.

Lucia sentiu o estômago revirando. Sentiu-se traída.

— Para onde foi esse dinheiro todo? Nossa back-end roda em COBOL e a programadora sênior ainda ganha salário de júnior.

— Infraestrutura, licenças… molhar a mão de autoridades. Aqui é o Brasil, se não percebeu.

— E como pretende quitar essa dívida agora?

— Não pretendo — a calma de Meirelles era assustadora — o mais importante já conseguimos, que era o contrato. Isso que tem valor. Os fundos de private equity adoram isso. Podem fazer uma proposta pela empresa, talvez usar o nosso próprio patrimônio como garantia para conseguir o financiamento.

— Você vai vender a Rock? Vai aceitar um leveraged buyout?

— É uma possibilidade. Mas é um problema para os próximos trimestres.

— e o que vai dizer quando desconfiarem das finanças?

— nada, ué. Não é o lucas o CFO? A bomba vai estourar no colo dele alguma hora.

Lucia quase saltou da cadeira. Não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Teve que respirar fundo para não socar a cara do homem.

— Com todo o respeito, mas é sério que você não pensou no seu amigo de faculdade, de anos? Nem em todo em todo que trabalha aqui? O que eles vão fazer depois.

— Olha, querida. Você é jovem. Não conhece as coisas. Isso acontece toda hora. Não posso pensar em absolutamente todo mundo. Quer um conselho? Você é bonita, ainda. Pode sair dessa loucura que é a vida no mercado financeiro, arrumar um bom marido, quem sabe o próprio Lucas. Viver uma vida tranquila. Vai por mim.

Lucia estava enojada. Queria fugir dali. Não conseguia acreditar que Meirelles, o homem que sempre almejou ser, o seu ideal profissional, se revelava agora uma pessoa podre. Levantou-se da cadeira

—Acho que essa reunião pode se dar por encerrada. Já tenho a informação que precisava.

 

****

 

Chegou em casa. Passou longos minutos sentada na cama. Não ligou nenhuma luz. O dia cheio a deixou com uma dor de cabeça horrível. Não conseguia processar todos os acontecimentos de uma vez. A petulância de Keller ao chamá-la de histérica. A audácia de Meirelles em implodir a empresa e sua imagem profissional e sair por cima com o dinheiro da venda, já que era o sócio majoritário. Por fim, pensou na mulher do supermercado. Imaginou ser uma doida esquizofrênica ou uma tentativa de golpe. Uma situação perigosa de qualquer modo. Um pensamento, porém, cruzou sua cabeça: “e se?”. E se aquela mulher estivesse sendo sincera, e realmente houvesse uma filha desaparecida ou fugida muito parecida com aquele rosto? “Poxa, coitada dela se for isso”.

Resolveu investigar. Abriu o notebook sobre a cama e acessou a lista de desaparecidos da polícia. Desceu até a letra M. Uma profusão de Marias Claras. “Isso aqui vai levar uma eternidade”. Rolou a lista por alguns minutos, sem muita atenção. Até que algo a assustou.

Havia uma certa Maria Clara Saldanha, desaparecida há quase 5 meses. A foto a chamou a atenção pela semelhança. Ao ampliá-la, levou um enorme susto. Nao era só parecida. Era uma exata fotografia daquele rosto. Tudo completamente idêntico. As sardas, a cor dos olhos, o formato da boca. A blusa decotada na foto revelava a mesma pinta na base dos seios. Não havia como alegar que seria outra pessoa.

Lucia ficou ofegante. Algo estava muito errado. Pôs as mãos trêmulas sobre o rosto. Sentiu o coração acelerar de forma acentuada. Uma lágrima escorreu de um olho. Finalmente, soltou um grito bastante agudo.

 

FIM DO ATO III

 

21 comentários em “ER 3 – Lucia, ou Corpo Estranho (O Fantasma)”

  1. André Lima
    15 de agosto de 2026
    Avatar de André Lima

    CRÍTICA APÓS LEITURA DA SEGUNDA ETAPA

    Fala, Felipe! Terminei o Ato II. Antes de entrar capítulo a capítulo, um comentário geral de abertura: você pegou a pergunta que eu deixei em aberto na crítica do Ato I (O que a experiência de habitar um corpo diferente vai revelar sobre Lucas?) e começou a respondê-la, ainda que timidamente. Isso é bom sinal. O texto não virou sátira fácil e isso é a favor do romance.

    O flash inicial em itálico é uma sacada interessante. Você está plantando um mistério sobre o passado do Lucas que ainda não sei onde vai dar, mas funciona como gancho. O eco estrutural com a abertura do Ato I (Lucas se olhando no espelho da cobertura) é elegante. Os dois atos abrem com um homem se reconhecendo, ou tentando, num espelho. Se isso for intencional, é ótimo. Se não for, considere reforçar, porque está funcionando como espinha dorsal simbólica do livro.

    A cena da exploração no banheiro é longa, mas eu entendo a função: é o primeiro contato do leitor (e do Lucas) com a nova materialidade. O detalhe do clitóris é bom porque devolve a cena pro corpo, pro susto físico, em vez de ficar só no campo do olhar. Ponto de atenção: a extensão. Você já vai repetir uma exploração parecida no capítulo 5 (a cena do espelho de maquiagem na cama) e as duas juntas correm o risco de parecer redundantes, ou pior, de parecer que o romance está mais interessado em documentar a genitália nova do que em documentar o Lucas reagindo a ela. Se eu pudesse dar uma dica para a próxima etapa, eu cortaria ou fundiria uma das duas, ou faria a segunda claramente diferente em função. A primeira é choque, a segunda poderia ser mais fria, quase clínica, “um inquérito científico” como você mesmo escreve depois. Aliás, essa frase, “quase um inquérito científico”, é o tipo de linha que deveria estar guiando a cena, não sendo dita depois dela.

    A cena de escolher o nome é o melhor trecho do capítulo, talvez do ato inteiro até aqui. Kethleen, Kathyah, Kleicianny descartados por serem “nomes de pobre” (o preconceito de classe do Lucas vazando até na escolha de um pseudônimo. Boa caracterização), Clara descartada porque geraria afeto demais, e por fim Lucia. Ele mesmo, no feminino. E o detalhe de esquecer o acento no u é genial. Não sei se foi proposital ou lapso seu de digitação, mas se foi proposital, mantenha a todo custo: Lucia sem acento é uma identidade incompleta, mal-acabada, feita às pressas por alguém que não quer se comprometer com ela. Se foi lapso, finja que foi proposital, porque ficou muito bom kkk.

    A cena da entrevista com o dress code é o momento mais afiado do livro até agora. Lucas, que propôs o uniforme para ter vista das pernas das secretárias, agora vai ter que usar a saia com fenda que ele mesmo idealizou. Isso é ironia dramática bem construída, sem parecer forçada. Acho que é aqui que o castigo poético da premissa começa a de fato render. Muito bom. Camila, na entrevista, já desconfia de algo. Isso é ótimo para tensão, mas talvez precise decidir logo o quanto ela vai desconfiar e quando isso vai estourar, porque se ela for perceptiva demais por capítulos a fio sem nada acontecer, o leitor vai começar a achar Lucas descuidado ou Camila burra, e nenhuma das duas coisas serve à história.

    O motorista de Uber tem uma cena interessante e mostra a virada de posição social do Lucas. O café que agora tem gosto ruim é um detalhezinho sutil e eu gostei bastante. Sugere que a mudança não é só de superfície, é sensorial, quase neurológica, o que reforça a explicação do Keller sobre cognição mediada pelo sensorial. Aproveite mais esse fio depois!

    A cena do Pink Floyd com o Gabriel é a melhor reviravolta de caracterização do ato. No Ato I eu disse que Gabriel era “apenas uma função, não um personagem”. Pois bem, aqui ele ganha um momento real. O Lucas, tentando manter o personagem de Lucia, acaba se revelando por completo ao citar The Wall com precisão e o resultado é que ele desarma o próprio amigo sem querer, expondo o quanto de si mesmo ainda vaza por trás da máscara. Isso é ótimo porque devolve ambiguidade pra cena: é a Lucia falando ou é o Lucas? A resposta é as duas coisas. É exatamente aí que a premissa fica interessante.

    O capítulo 7 é o mais denso e o que mais me deixou curioso. Duas coisas plantadas aqui merecem destaque: Primeiro, a revelação de que o corpo sintético não é virgem. A resposta do Keller é evasiva o suficiente para soar como mentira, sem soar como mentira na cara do leitor. Segundo, e mais sutil: Lucas assina o documento com a mão esquerda, e só percebe depois. Ele é destro (ele mesmo descreve, no Ato I). É uma pista plantada deliberadamente.

    A visita ao subsolo é a cena mais macabra e mais bem construída visualmente do ato. O contraste entre o frio da sala de armazenamento e o calor da fornalha é bom trabalho sensorial e reforça o horror sob a superfície tecnolaógica todo-poderosa do Keller. A conversa final com Camila, Marina e a revelação do relacionamento passado com Lucas é o momento mais humano do livro até agora. “

    PONTOS DE ATENÇÃO GERAIS: Bom, aqui vão algumas SUGESTÕES para a próxima etapa. As cenas de exploração corporal (capítulos 4 e 5) precisam de uma poda ou de uma diferenciação clara de função, senão vão começar a parecer repetitivas. O ritmo cômico dos problemas de mulher (potinho, mijar sentado, meia-calça) está bem dosado até agora, mas cuidado pra não virar piada única repetida. Já apareceu um pouco demais em pouco espaço. Camila precisa de um arco de desconfiança mais claro e progressivo. Ela sabe demais cedo demais, e isso é uma faca de dois gumes.

    APANHADO GERAL

    O Ato II cumpre o que prometeu: começa a responder a pergunta que ficou em aberto no Ato I. Lucia deixou de ser só um dispositivo de punição corporal pro Lucas e começou a virar, pouco a pouco, uma lente através da qual ele vê gente que sempre ignorou. O capítulo 7, com a revelação de Camila e o mistério crescente em torno do Keller, é onde o romance mais se aproxima daquele “algo mais complicado” que eu pedia na crítica anterior. O risco que eu vejo daqui pra frente é de ritmo: o livro está gastando muito tempo em cenas de adaptação corporal (o que é justificável nesse ponto da narrativa, mas não pode se estender por muito mais tempo sem que a trama do Keller e da clínica avance também). Você já tem material de sobra pra isso. O corpo não-virgem, a mão trocada, os corpos em cápsulas no subsolo… Puxe esse fio com mais força na próxima etapa.

    Parabéns, Felipe!

  2. marco.saraiva
    14 de agosto de 2026
    Avatar de marco.saraiva

    Na segunda parte do livro temos agora o ponto de vista de Lúcia – o Lucas “travestido”.

    Abrimos com a cansada cena do espelho, novamente, mas aqui ela também tem uma função menos “clichê”. Enquanto na primeira parte ela estabelece o ar de “Patrick Bateman” de Lucas, na segunda a cena análoga faz o contraste. Na primeira, a certeza, a confiança, o orgulho. Na segunda a insegurança, a estranheza, a descoberta.

    Engraçado que, inicialmente, durante a primeira leitura, quando ficou óbvio que ele se tornaria mulher, eu achei que a narrativa iria mais para um lado de “redescoberta do próprio corpo”. Algo como Lucas descobrindo que, talvez, preferisse ser mulher do que homem. Mas aqui, a narrativa me pegou de surpresa e foi para um lado diferente: agora no corpo da mulher, ele é forçado a entender como ele se sente sob os olhos dele mesmo, e de outros que agem como ele agia. É uma lição forçada. Antes, como homem, a sua empatia com o ser feminino era próxima ao zero. Agora, no corpo feminino, ele começa a entender as dificuldades exclusivamente femininas, ouve os relatos das mulheres e de como elas sofrem nas mãos dos homens. A ideia, ao meu ver, é que o livro caminha para uma rota de correção, “lição aprendida”, e que Lucas pode sair do outro lado um homem mais amoroso e empático. Um homem de verdade.

    Há alguns momentos que deixam isso bem claro. Um que, para mim, foi óbvio, foi quando ele acha “um absurdo sentir prazer no próprio corpo feminino”. Essa parte fala muitas coisas ao mesmo tempo. A maioria dos homens, quando confrontados com a hipótese de passar pelo que Lucas estava passando, faria piadas sexuais. “Se eu tivesse corpo de mulher por um dia eu ia mexer aqui e mexer ali, e apertar aqui e ali, etc”. Mas o texto faz bem em colocar Lucas realmente no corpo feminino. Ele não sexualiza a si mesmo. O trecho também destacada a forma como ele vê a mulher: como se fosse um absurdo a mulher sentir prazer no sexo. A mensagem é clara: ele está aprendendo a entender a mulher, e não há livros que as expliquem. Apenas estando na pele de uma é que ele as entenderia, de verdade.

    Enquanto a primeira parte do livro foi para estabelecer Lucas, essa segunda parece querer estabelecer Lúcia. A história anda, mas ainda está no início. Novas relações com personagens antigos, redescobertas de segredos antes meio velados. Novas dinâmicas estabelecidas, e agora sim, nas partes 3 e 4, teremos os desfechos.

    Vamo que vamo!

    • marco.saraiva
      14 de agosto de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Agora, para algumas críticas. Opiniões pessoais, você pode descartá-las se desejar.

      Entendo que um dos objetivos dessa segunda parte era narrar a forma como Lucas (ou Lúcia, no caso) se adaptaria ao corpo feminino. Mas não creio que seja o único objetivo, nem o mais importante. E o texto passa muito tempo narrando cada mínimo detalhe à exaustão, com direito a descrição detalhada de vaginas e sensações de passar urina. Tentei contar as palavras usadas nessa segunda parte para narrar os detalhes do corpo feminino e parei de contar perto das 5000. Cansou demais ler tanto detalhe, ao menos para mim. A mensagem já estava clara: sim, é um corpo estranho para ele, com problemas específicos que ele não conhecia. Mas o grau de detalhe e a extensão das descrições cansou.

      O objetivo que faz mais sentido neste texto, ao meu ver, e que deveria ser explorado em primeiro plano, é justamente a jornada de Lucas em se corrigir, aprender, entender o mundo que ele achou que dominava, descobrir o outro lado da lua, ver pessoas que ele achava que conhecia de outros ângulos. Mudar, aprender. E o texto faz isso, sim, mas acho que com pouca nuance. A narrativa em preto e branco acaba soando um pouco fora da realidade. Todos os homens são canalhas e só pensam em comer mulheres. Todas as mulheres são vítimas. Lucas mal está no corpo feminino e entra em um uber, que, aliás, não deu a entender nada, e ele já achou que “poderia ser estuprado”. O uber só estava trabalhando mas de alguma forma o medo do estupro entrou na mente dele. O mundo real tem mais nuances, a maioria dos homens são gente de bem, a maioria das mulheres são independentes e sabem se impor. Quando há contraste, há realismo, e sinto que, quando o autor faz isso bem, a leitura me prende muito mais. Quando a maioria dos homens é normal, o vilão se destaca. Mas aqui pareceu que os personagens estavam na história mais para servir a uma mensagem e menos por serem personagens de verdade.

      Outra coisa que me incomodou foi a ingenuidade da narrativa. Uma série de coisas aqui não fazem muito sentido quando colocadas no microscópio. Segue a lista de algumas que me vem à mente:

      – Por que Lucas simplesmente não deu a Lúcia uma persona rica? Ele vive falando do apartamento ruim e de como agora tem que se adaptar a uma vida de menos luxo, mas nada o impedia de usar o próprio dinheiro para dar a si mesma (na sua versão feminina) todos os luxos que precisava (se é que a falta deles o incomodavam tanto).

      – Não entendi Lúcia ter que passar por uma entrevista e ser monitorada. Se Lucas tem cargo de diretoria, e diretamente indica Lúcia como a sua substituta, então o resto da empresa deveria é respeitá-la e servi-la exatamente como serviriam Lucas, e não tratá-la como uma estagiária! Este ponto é excepcionalmente importante por que nele está equilibrado todo o resto da narrativa. Os diretores estão agindo como se Lúcia fosse de cargo inferior. Até as outras mulheres agem como se ela fosse uma novata. Mas se ela está fazendo o trabalho de Lucas, ela deveria ser uma das pessoas mais importantes da empresa, e a dinâmica inteira do livro deveria ser diferente!

      – Tem uma hora que Lucas esquece que é mulher e usa um “Obrigado” ao invés de “Obrigada”, coisa assim. Coisa simples. Mas o texto fala que “A gafe quase pôs tudo a perder”. Poxa, usar o gênero errado de uma palavra subitamente faria com que as pessoas achassem que ele era, na verdade, Lucas no corpo de mulher? Difícil!

      – O texto narra que ele já estava no corpo dela há duas semanas quando vai para a empresa. E só então descobre que é canhoto?

      Enfim, uma série de detalhes deste tipo que acabam tirando o leitor da imersão.

  3. Canibalismo Cultural
    6 de agosto de 2026
    Avatar de Canibalismo Cultural

    Achei esse trecho bem envolvente. A leitura flui rápido e dá vontade de continuar para descobrir como o Lucas vai lidar com essa situação absurda. Gostei principalmente de acompanhar o estranhamento dele em relação ao novo corpo. As reações parecem coerentes com a personalidade do personagem, e isso fez com que eu comprasse a ideia da história.

    Também achei interessante como, aos poucos, ele vai percebendo coisas que nunca precisou pensar antes, desde questões simples do dia a dia até a forma como passa a ser tratado pelas outras pessoas. Essa mudança de perspectiva deixa a narrativa bem mais rica do que só a premissa da troca de corpos.

    Uma coisa que me chamou atenção foi a crítica ao ambiente de trabalho. As conversas com as colegas acabam mostrando um outro lado do Lucas, e foi curioso ver ele ouvindo opiniões sobre si mesmo sem poder responder. Acho que esses momentos são alguns dos mais fortes do capítulo.

    Uma observação, em alguns momentos as descrições ficaram um pouco longas, principalmente nas cenas em que ele explora o próprio corpo. Entendo a importância dessas passagens para mostrar o impacto da mudança, mas senti que elas quebraram um pouco o ritmo da narrativa.

  4. claudiaangst
    4 de agosto de 2026
    Avatar de claudiaangst

    Oi, Fantasma, tudo bem?

    Vamos ao comentário do segundo ato.

    A narrativa continua prendendo a atenção por desenvolver um tema inusitado, uma troca de corpos que não se relaciona com transição de gênero, mas sim a questões de saúde.

    O procedimento ocorreu sem problemas, Lucas agora terá de assumir nova identidade, agora como Lúcia. Daí surge o meu primeiro questionamento: Lúcia é o feminino de Lucas? Os dois nomes têm a mesma origem, tudo bem, mas não acredito que alguém fosse associar os dois nomes como versão feminina/versão masculina. Se ele se chamasse Lúcio, aí sim, poderiam estranhar uma Lúcia no seu lugar. Que coincidência, diriam… ou não. Chatice da minha parte.

    O detalhamento na exploração do novo corpo foi bem realizado. Dormir de bruços causou dores em Lúcia? Muitas mulheres dormem assim, acredito, mas acho que tudo depende do volume dos seios. Entendi que quis usar o desconforto físico para enfatizar a difícil adaptação ao novo corpo.

    Concordo com a Kelly quanto ao estranhamento por Lucas não ter um suporte maior após a cirurgia. Senti que ele ficou largado, perdido ao lidar com uma transformação de vida tão radical.

    Os diálogos trazem dinamismo à narrativa, tornando a leitura mais fluida. As falas dos personagens soaram naturais para mim.

    Lucas, agora no corpo de Lúcia, tem a possibilidade de avaliar o comportamento dos colegas sob um novo ponto de vista. Fica sabendo o que os outros pensam dele e das suas atitudes. Acho que Lucas ainda terá muitas revelações e decepções.

    Quanto à revisão, ouso fazer alguns apontamentos:

    Bom dia, lucas. > Bom dia, Lucas

    estava tirando seu sabático. > Seu ano sabático? Seu mês sabático? Seu período sabático? Sabático é um adjetivo e não um substantivo.

    o máximo que pode > o máximo que pôde (o verbo ganha acento circunflexo no Pretérito Perfeito.

    A propósito, Já > A propósito, já

    et cetera > bastava a abreviação etc.

    “Ficou doido?? que porra > “Ficou doido?? Que porra

    “Humm, Acho que > “Humm, acho que

    Dotado de um mal gosto > Dotado de um mau gosto

    as sobrencelhas > as sobrancelhas

    conversei com lucas > conversei com Lucas

    mas Lucas pode > mas Lucas pôde

    Fique à vontade m’lady > Fique à vontade, m’lady

    Douglas meirelles > Douglas Meirelles

    um passo a frente > um passo à frente

    Agora, porém, Encontrava > Agora, porém, encontrava

    O que houve > O que houve?

    onde o lucas > onde o Lucas

    experimente aos poucos > Experimente aos poucos

    ferí-la > feri-la

    em relação Às > em relação às

    uma pena deixar ela escapar. > uma pena deixá-la escapar.

    O que transparece para mim é que o autor está curtindo escrever o romance. Considero isso muito positivo, pois além de buscar entreter o(a) leito(a), aproveita o processo criativo para também se divertir. Essa falta de pretensões maiores, contribuem para a elaboração de um texto leve, sem entraves.

    Parabéns pelo trabalho e por conseguir escrever tanto sem perder a linha narrativa.

    Abraço.

  5. Kelly Hatanaka
    31 de julho de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Oi Fantasma.

    A cirurgia foi um sucesso e Lucas tenta se habituar ao novo corpo. É divertido acompanhar seu estranhamento, seus desconfortos. Coitado. Dê a ele uma gripe, para ele ver um lado bom de ser mulher: um resfriado não é mais o fim do mundo.

    Lucas se beneficiou a vida toda de um sistema que o privilegia e criou um ambiente tóxico e exploratório e agora vai se ver do outro lado da história, provavelmente vítima da própria armadilha. Isso é muito bom. É interessante também, vê-lo se aproximando das meninas, entendendo um pouco o ponto de vista delas.

    O início dos capítulos 4 e 5, em itálico, chamaram minha atenção. O que são? Memórias?

    Sabe, seu texto exige um bocado de suspensão de crença. O cara passa por uma cirurgia de troca de corpo e não tem nenhum suporte para passar por isso? Sai da clinica com uma sacola com roupas e cosméticos e só?

    Vou lista aqui algumas coisas que me causaram estranhamento:

    1. Algumas coisas parecem acontecer rápido demais. Lucas sente medo no taxi. Isso não parece natural. Esse medo não veio com o corpo novo, não é algo embutido no hardware. É algo que vem com a vivência, que ele não tem.
    2. Ele também tem uma raiva um tanto desproporcional e flutuante de Camila. Ele a antagoniza e, do nada, se sente triste e reconhece a bondade dela.
    3. Camila diz que sabe podres dele que poderiam destruí-lo. Mas no final, é só que os dois namoraram e que ele a traiu. Isso não é podre no mundo misógino que ele habita e muito menos chegaria perto de destruí-lo. Ele colocaria esse relacionamento e a traição no body count dele, contaria vantagem e ainda sairia bonito na foto.
    4. Esse dress code no escritório também é bem esquisito. Nunca vi uso de uniforme fora das áreas de atendimento ao cliente, mesmo a intenção sendo “embelezar” o ambiente.

    Bom, a questão é que a história é divertida e interessante, então, funciona. Ao menos para mim. Esses itens acima são coisas que chamaram minha atenção, mas não prejudicam a leitura. Exige suspensão de crença? Sim. Tem alguns elementos estranhos? Tem. Mas é uma ótima história e dá vontade de ir lendo, sem falar que exige um bom tanto de coragem e despudor desenvolver uma história como essa.

    Consigo imaginar vários possíveis desdobramentos na história. Muitas possibilidades. O corpo de Lucas morre e ele vai ser Lucia para sempre. O tratamento é um sucesso, mas Lucas prefere a pessoa que se tornou como Lucia. O tratamento é um sucesso, Lucas volta a seu antigo corpo, mas torna-se outra pessoa.

    O que será que vai acontecer? Não vai ser fácil esperar pela continuação.

  6. Martim
    28 de maio de 2026
    Avatar de Martim

    Fantasma,

    Pra começar com sinceridade, a imagem me deixou indisposto com o texto. Achei que entregava muito, e além disso os traços impecáveis do personagem parecem mais exaltar do que criticar a padronização da beleza, que previ (com razão) ser objeto de crítica ao longo do texto.

    Acontece que essa mesma impressão negativa inicial, ao colocar as expectativas lá embaixo, surtiu um efeito curioso: gostei bem mais do texto do que o esperado. Há um humor bem dosado (por exemplo, na elipse do banho demorado), uma aproximação inteligente ao universo empresarial contemporâneo. Nota-se uma pesquisa de vocabulário, de objetos significativos, marcas, hábitos. Por vezes a coisa fica um pouco esquemática, sobretudo na caracterização dos personagens, mas entendo que isso poderá ser colocado em crise ao longo do romance, para que você tenha criaturas palpáveis, não apenas tipos. Esse mesmo esquema também oferece o risco de que seu romance fique parecido a tantos outros que mesclam sci-fi com crítica social (a meu ver, muitas vezes moralistas e conservadores).

    Gostei muito de uma passagem em que você diz assim: “Queria contemplar o dia que mudaria sua vida para sempre.” É inteligente, porque se mesclam as razões do personagem com as do narrador. O narrador sabe que as razões da mudança são outras, mas o personagem ignora. Acho que pode explorar mais jogos linguísticos desse tipo, pois dão força à prosa, que sem trabalho miúdo corre o risco de ficar apenas em função da entrega do enredo.

    No mais, gostei de ler e quero saber como a coisa continua. Até a próxima!

  7. cyro eduardo fernandes
    26 de maio de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    Fantasma, você criou uma trama de ficção científica original.

    Os personagens estão bem construídos e o texto flui relativamente bem. Às vezes dá uma travadinhas, exagerando nas marcas de relógio ou nas transições pela cidade. Nada crítico.

    Uma revisão é necessária para eliminar os pequenos erros de digitação. Por exemplo, “estãoatacando os neuroreceptores de NMDA” .

    Acho que você fez uma abertura que permite explorar a história do protagonista por diferentes ângulos. Considero um ponto bem favorável para manter o texto interessante.

    • cyro eduardo fernandes
      6 de agosto de 2026
      Avatar de cyro eduardo fernandes

      Gostei muito da descoberta do novo corpo por Lucas. Achei a descrição bem construída e curiosa.

      Os diálogos na empresa e com o motorista são um choque para ele. Lucas sofre na pele as consequências do machismo tóxico. O almoço com Camila e Marina são reveladores e geram uma reflexão profunda.

      Achei que a consciência de Lucas lutando contra os fatos, somados às descrições sensoriais e às críticas sociais e às corporações, todas muito bem endereçadas.

      A segunda parte é superior à primeira. Há oportunidade de revisão para eliminar alguns erros de digitação e de enxugar algumas passagens. Desejo que a continuação do romance que siga interessante.

  8. Canibalismo Cultural
    25 de maio de 2026
    Avatar de Canibalismo Cultural

    Esse texto me lembrou um encontro improvável entre American Psycho, Frankenstein e A Metamorfose, mas atravessado por uma estética muito brasileira, corporativa… A forma como o Lucas é construído: ele não é só um personagem arrogante, ele é quase um símbolo de um capitalismo narcísico que acredita ter controle absoluto sobre o corpo, sobre o dinheiro e até sobre o próprio destino. E justamente por isso o “tiro na cabeça” funciona tão bem como título, uma execução simbólica daquela masculinidade performática que ele cultiva obsessivamente.

    A tecnologia no texto não aparece como algo futurista no sentido brilhante da ficção científica clássica, mas como uma continuação grotesca do presente. Os espelhos inteligentes, o PIX evoluído, os corpos sintéticos, tudo parece muito plausível e próximo, quase sufocante. Isso me lembrou muito Black Mirror,.

    Iinteressante como o texto brinca com o horror corporal de uma maneira quase filosófica. Quando Keller fala sobre o corpo ser apenas um “avatar”, imediatamente pensei no paradoxo do barco de Teseu, mas também em O Retrato de Dorian Gray. Só que aqui não existe beleza eterna: existe a manutenção desesperada da identidade através da ciência. O terror não está em morrer, mas em deixar de ocupar o lugar social que Lucas construiu para si mesmo. O corpo feminino vira, para ele, uma espécie de fantasma antecipado.

  9. André Lima
    22 de maio de 2026
    Avatar de André Lima

    CRÍTICA APÓS LEITURA DO ATO I

    Fala, Felipe. Tranquilo? Ficam aqui as impressões:

    Esse texto tem energia e uma premissa genuinamente interessante. Antes de entrar nos pontos específicos, preciso dizer que a escolha de estruturar o romance em torno de uma transferência de consciência para um corpo feminino como dispositivo narrativo tem potencial real, especialmente se a intenção for explorar questões de identidade, gênero e corpo. A primeira etapa ainda não deixa claro se essa é de fato a intenção.

    A abertura em torno de Lucas é competente. Você instala o personagem com eficiência, e o ambiente da fintech com seu verniz de modernidade e competição tem verossimilhança. A relação com Camila funciona bem como tensão latente, especialmente a cena em que ela para sob a moldura da porta e diz você sabe que não pode, que carrega história sem explicá-la. Esse é o melhor momento do capítulo.

    O colapso durante o discurso tem boa mecânica dramática, e o último pensamento de Lucas antes de apagar, a preocupação com a secretária, é um detalhe de personagem que revela muito com economia.

    O problema do capítulo é que Lucas é apresentado quase exclusivamente por marcadores de status: o Armani, o Tag Heuer, o BMW, os dezoito centímetros e meio. Entendo que a intenção é retratar um homem definido por posses e aparência, e isso é uma escolha legítima. Mas para que o leitor acompanhe com interesse a jornada de um personagem assim, precisa haver algo além da superfície que justifique a atenção. Por ora, Lucas é uma coleção de atributos, não uma pessoa. A doença vai ser o catalisador para aprofundá-lo, o que é válido estruturalmente, mas o capítulo 1 deixa muito pouco para se agarrar antes de isso acontecer. Talvez valha alguns ajustes na etapa 2.

    A conversa sobre a secretária entre Lucas e Gabriel também merece atenção. Ela cumpre uma função de caracterização, mas o tom vai além do desconfortável de forma que pode alienar o leitor antes que ele se engaje com a história. É uma escolha que você precisa fazer conscientemente: se o objetivo é mostrar um homem que precisa ser desconstruído, tudo bem. Se é apenas textura de personagem, corre o risco de cansar antes de engajar. Eu, particularmente, gostei da escolha, mas estou apontando aqui que pode ser um risco para alguns leitores.

    A cena do hospital funciona melhor que o capítulo anterior. O doutor Keller tem uma presença interessante, com aquela calma calculada que sugere mais do que diz. A cena na praia do Flamengo é o momento em que Lucas mais se parece com um ser humano real, e você acertou em deixá-la respirar. O jato contornando o Pão de Açúcar como razão para não se atirar é uma imagem bonita e contida. Gostaria de ver mais e mais desse seu estilo narrativo aqui na próxima etapa.

    A revelação do transplante de consciência é onde o texto precisa de mais cuidado. A premissa científica é apresentada com uma velocidade que não deixa o peso da proposta pousar no leitor. Lucas processa em segundos o que seria uma ruptura total com a realidade que conhece. A resistência dele é legítima e cômica, mas é resolvida rápido demais. O momento em que ele liga para Keller após ver o álbum de fotos tem boa motivação emocional, a memória da tia acamada é eficaz, mas a transição do desespero à decisão ainda poderia ganhar mais tempo e textura. Eu sugeriria aproveitar o amplo limite de palavras para dar mais peso a isso.

    A conversa com Gabriel é o trecho mais fraco da etapa. Ela existe para que Lucas se despeça do mundo sem revelar nada, o que é uma função narrativa legítima, mas a cena não entrega mais do que isso. Gabriel é por ora apenas uma função, não um personagem.

    A sequência da preparação para o procedimento funciona melhor. O apartamento de Copacabana como disfarce, a decisão de espionar a empresa na forma feminina, a despedida no espelho. Esse é o Lucas mais interessante do texto, o homem que até na véspera de uma transformação radical está pensando em poder e estratégia corporativa. Há algo simultaneamente cômico e patético nisso que o romance pode explorar muito bem. Gostei bastante disso. É bem original.

    O centro cirúrgico e o encerramento do ato têm boa tensão, e terminar no propofol e na contagem regressiva é uma escolha de final de ato que funciona.

    APANHADO GERAL

    A premissa é sólida e a estrutura da primeira etapa cumpre sua função de instalação. O que vai definir o que esse romance pode ser é o que você faz com Lucia, que presumo ser o nome que Lucas escolherá para o corpo feminino, o que também dá o título ao romance.

    A questão central que o texto vai precisar responder, e quanto antes melhor, é o que a experiência de habitar um corpo diferente vai revelar sobre Lucas que ele não poderia ter descoberto de outra forma. Se a resposta for apenas que ele vai aprender a respeitar as mulheres depois de ser tratado como uma, o romance vai funcionar como sátira mas vai ter um teto baixo. Se a resposta for mais complicada do que isso, se a experiência revelar algo sobre identidade, sobre a relação entre corpo e consciência, sobre o que Lucas realmente é sem os marcadores de status que o definem, o texto tem potencial para ser muito mais. Mas atenção para fugir dos clichês!!! Há muitas histórias com premissas parecidas.

    Keller é um personagem que ainda guarda muitas perguntas. Aquela clínica sem janelas, o enfermeiro intimidador, a proteção total de identidade. Há algo funcionando nas margens da narrativa que ainda não se revelou, e isso é um dos elementos mais interessantes da etapa.

    No geral, é uma abertura promissora. Agora é com a Lucia.

    Parabéns, Felipe!

  10. Fabiano Dexter
    20 de maio de 2026
    Avatar de Fabiano Dexter

    Olá Fantasma!

    Terminei de ler a primeira parte do Romance na semana passada, mas só agora consegui organizar os comentários.

    Fique à vontade para dar esclarecimentos e explicações sobre o meu ponto de vista aqui. Como meu conhecimento em português está bem abaixo da média dos demais autores/leitores aqui, busco focar mais na minha experiência como leitor. Como isso acaba sendo um tanto pessoal, espere críticas que talvez não façam sentido para você, mas que foi a experiência que tive ao ler o texto.

    Inclusive estou sendo bem critico, pois acho que posso ajudar mais assim. Mas deixo claro que gostei do texto e achei a proposta bem interessante!

    Visão Geral:

    Achei o texto um pouco truncado. Há um foco em detalhes das aparências e vestimentas dos personagens de forma a descrer um pouco a sua personalidade e o que se esperar deles que é bem interessante, mas pode ser um pouco mais trabalhada. Não sei se é proposital, mas achei os personagens um pouco caricatos, exagerados dentro de um estereótipo.

    Além disso o texto carece de uma revisão mais aprofundada, com alguns erros bobos de pontuação. Nada que atrapalhe a experiência ou que vá impactar o texto final, já que isso aqui é apenas o começo de algo muito maior.

    Gostei de ideia e do tema e, por conhecer o Rio de Janeiro, a ambientação ficou muito boa para mim. Talvez para quem não conhece a cidade valha a pena dar detalhes da região, esclarecendo o motivo da escolha (que para mim foram certeiros!), como a clínica escondida em Botafogo ou o Nosso Bar em Ipanema.

    O modo como a história começa a se desenhar a partir do Capítulo 3 é bem interessante, e me faz pensar que caberia um maior desenvolvimento da rotina de Lucas e sua iteração com os personagens centrais. Talvez até mesmo um capítulo à parte para tratar isso, antes do 1 ou entre o 1 e o 2.

    Opinião Pessoal:

    Interessante e intrigante. O romance parece entregar uma visão de um mundo diferente, por parte do protagonista, de alguém que se encontrava com a vida resolvida, no ápice, e de uma hora para outra precisa rever não apenas os seus conceitos, o modo como enxerga o mundo, mas também entender como o mundo agora o enxerga. (E o enxergava)

    Querendo saber o que essa história vai nos entregar no seu desenvolvimento.

    Capítulo 1

    Muitos detalhes na rotina, descrevendo Lucas. Vai dando uma ideia de sua personalidade com base na sua rotina.

    “Ele” com letra maiúscula, não sei se proposital.

    “entrou na Rock” iniciando com minúscula após ponto final.

    “leticia” com letra minúscula. Algumas falhar em pontuação também, como o ponto final logo em seguida após “gostosíssima”.

    O primeiro capítulo é um pouco corrido na apresentação dos personagens. Temos a questão do limite de palavras, mas acho que ele poderia se estender mais, como uma primeira parte. Mais tempo para entendermos e sentirmos os personagens, de modo que a transição seja mais impactante para o leitor.

    Capítulo 2

    Capítulo 2 segue apresentando o personagem e agora a proposta da história. Está interessante, mas ainda sinto que poderia aprofundar mais no personagem. Temos cenas e personagens descritos pelas suas aparências, talvez de forma proposital já que temos a aparência e vida de Lucas como ponto central da história.

    É apresentado, ao fim, a doença de Lucas e uma primeira proposta do que será o caminho principal da história. (Que depois vemos que muda na terceira parte)

    Ainda temos alguns erros de revisão, como no trecho que diz  “mas era engolido pela impotência do desconhecer o futuro”.

    Capítulo 3

    Conversa no Nosso Bar pode ser usada como uma ponte no futuro, ou ser um pouco mais aprofundada. As cenas seguem parecendo passar um pouco mais rápido do que o necessário. A história está muito interessante, mas por se tratar de um romance acho que é possível enriquecer bastante o cenário e os relacionamentos. (Não me pergunte como, talvez algum dos outros comentaristas seja melhor nisso do que eu)

    Em seguida vamos para a melhor parte desse primeiro ato, onde começamos a ver qual era o plano do protagonista desde o início e as coisas fazem sentido. As ações casam perfeitamente com a personalidade que havia sido apresentada até aqui.

    Voltando agora ao Capítulo 1, acho que o ganho de um maior desenvolvimento dos personagens centrais ainda mais importante. Não sei o que se passará, mas se a ideia é fazer um comparativo de como as pessoas reagiam ao Lucas e como se portarão frente à nova personagem isso acabará pesando mais.

    • Fabiano Dexter
      30 de julho de 2026
      Avatar de Fabiano Dexter

      Olá Fantasma!

      Seguindo com os comentários referente ao romance Lucia. (Ato II)

      Só gostaria de começar dizendo que estou gostando da história e, principalmente, da ambientação. Achei o cenário, que serve de base para a história, muito interessante e essa mistura de ficção cientifica com drama pessoal está casando muito bem.

      Vou colocar abaixo alguns outros pontos que vi, coisas pequenas, mas que acho que podem agregar.

      Revisão
      Alguns trechos precisam de uma revisão um pouco mais detalhada, com o nome do Lucas aparecendo com letra minúscula em mais de um momento ou um “Às” com letra maiúscula no meio de outra frase. Detalhes que precisam ser ajustados em uma versão final.

      Escrita
      A escrita é fluida e agradável, com a história se desenvolvendo sem enrolação ou momentos que parecem existir sem sentido. Pelo contrário, acho que houve cenas e momentos que poderiam inclusive ser estendidos, mais detalhados, visando aprofundar a história e sem cansar o leitor.
      Um exemplo disso é a entrevista com Lucia, no Capítulo 5, que achei um pouco curta dada a importância do evento. Ainda que ninguém fosse questionar a decisão de Lucas de colocar Lucia como substituta dele, certamente iriam querer mais informações sobre quem seria essa pessoa que teria acesso aos projetos deles, inclusive dados sigilosos. Poderia talvez incluir mais detalhes sobre o que Lucas pensa de cada um.

      História
      A história está bem redonda, com as licenças necessárias para que faça sentido (até porque partimos do princípio que uma pessoa trocou de corpo). Um exemplo são os tempos da cirurgia e recuperação, bem curtos, fazendo total sentido dentro da história. Não daria para Lucas sumir por um mês e Lucia aparecer do nada em seguida. A história é o mais importante para mim e roda muito bem.
      Um detalhe que achei muito bom foi a questão do dress code da Rock, idealizado por Lucas com segundas intenções e que ele agora se vê vítima dessa decisão. É algo que pode ser explorado no decorrer da história.

      Personagens
      Os personagens são interessantes e próprios, cada um com a sua identidade e características próprias. O modo como muito do que aprendemos sobre eles é do ponto de vista de Lucas/Lucia é um ponto forte e que faz diferença dentro da narrativa.
      A iteração entre eles, que muda drasticamente entre como eram com Lucas e agora é com Lucia e a divisão clara entre os personagens masculinos e femininos, com Lucas/Lucia sendo a ponte entre eles é muito boa. 

      Sugestões
      Alguns pequenos pontos que eu acho que podem melhorar a história, do meu ponto de vista.
      A entrevista no Capítulo 5 pode ser mais aproveitada. Não chegou a ser uma entrevista, foi muito curta.
      Acho que pode ser estendida, dar mais detalhes do que Lucas pensa de cada um dos presentes e as reações deles à Lucia, como por exemplo o final onde Gabriel não aperta a mão, mas dá dois beijos (detalhe muito bem colocado).
      Outra coisa, quando Camila diz que sabe os podres do Lucas eu esperava algo mais. Que ele a havia traído não me parece muito, dada a sua fama e modus operandi na Rock. Poderia ter algo mais sujo, que realmente pudesse prejudicá-lo (ainda que ela não diga a Lucia, diga apenas que poderia derrubá-lo).
      Não sei quais os próximos passos (estou curioso) e por isso não sei se cabe um maior detalhamento da clínica nas visitas posteriores, ou com que frequência Lucas deve retornar.
      Estou curioso, mas ainda sem muita ideia 

      Conclusão
      Sigo gostando bastante da história e quero ver onde isso vai dar, como as ideias serão costuradas para a história fechar.
      A verdade é que gostei tanto da ideia base que ontem à noite, enquanto eu estava correndo, eu pensei (e estruturei na minha cabeça) toda uma conclusão para o restante do romance…

  11. Kelly Hatanaka
    15 de maio de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    O texto entrega algo totalmente inesperado. Ele me enganou direitinho. Achei que fosse uma história sobre a transição de uma mulher trans, algo denso e dramático e me deparo com um soft sci-fi (será que é mesmo? Já não sei mais…), sobre um homem desenganado que apela para um tratamento experimental que vai trocá-lo de corpo temporariamente.

    Lucas é um heterotop padrão, do alto de todos os privilégios que as loterias genética e socio-econômica poderiam conceder. E, em seu momento de maior conquista, vê tudo desmoronar. Agora sua única chance de se salvar é viver algum tempo num corpo feminino.

    Vou te falar que gostei muito! É uma premissa interessante e corajosa.

    Enquanto lia, fui pensando naquele filme dos anos 2000, com Mel Gibson, “Do que as mulheres gostam”. No filme, o protagonista, um completo misógino cretino, sofre um acidente que faz com que ele consiga ouvir os pensamentos das mulheres e isso o transforma num ser humano aceitável.

    Não sei se sua história vai seguir esse caminho. Percebo essa possibilidade e é bem interessante. Mas tem algo mais aí, não tem? Esse doutor Keller aí é bem suspeito, com essa clínica escondidinha, esse procedimento meio Frankenstein. Tem caroço nesse angu. E vejo aí a possibilidade de um outro tipo de história, talvez um thriller.

    Sem falar na ideia de que Lucas, com seu corpo feminino, pretende continuar trabalhando na mesma empresa, como representante dele próprio. O que ele vai descobrir desse jeito? Tem a Camila, que bem poderia ser uma aliada/interesse romântico/parça de verdade. Tem seus amigões do peito que, talvez não sejam tão amigos assim.

    E por isso eu disse que achava a premissa corajosa. Ela abre muitas possibilidades e cada uma leva para um desenvolvimento diferente. Acho que um ponto de atenção aqui seria perceber se será necessário fazer uma escolha. Ou se será possível desenvolver todas as possibilidades.

    De início, percebi alguns excessos. Tudo é muito detalhado. As roupas, carros, grifes, e que fetiche por relógios, hein! Porém, entendi, ao longo do texto, que esses elementos desenham quem é Lucas, como é seu mundo e quem são as pessoas que o rodeiam.

    Chamou minha atenção a solidão de Lucas. Tem tudo e não tem ninguém a seu lado.

    Apesar de ter gostado muito da história até agora e de ter funcionado muito bem para mim, um leitor mais chato  realista pode achar difícil de embarcar totalmente. Esse pode precisar de mais para suspender a descrença.

    O que eu aponto nesse sentido?

    Lucas aceita muito fácil a ideia de morrer. O luto está muito rápido. Ele quase não passa pela negação, pela raiva, pela barganha. Vai direto para a depressão e aceitação. Entendo que ele teve pouco tempo para processar, mas acho que seria mais comum ele ficar confuso e errático do que triste e melancólico.

    Outra coisa: um sujeito como ele não aceitaria facilmente um diagnóstico de um médico. Com certeza ia consultar especialistas no exterior, médicos “de grife”. E ia exigir mais do que palavras como garantia.

    Também, não acho que ele deixaria Lúcia em um apartamento tão precário. Afinal, ela é ele e ele se ama. Mas, talvez isso faça sentido mais para frente.

    Aliás, vale para tudo. Só vi aqui o comecinho de sua história e os pontos que destaquei podem ser propositais. Se meus pitacos puderem ajudar, ótimo, senão ignore.

    Resumidamente, gostei muito e espero pela continuação.

  12. GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
    13 de maio de 2026
    Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

    Lúcia / Corpo Estranho | Autor(a):[O Fantasma

    Fase de Leitura: [Ex: Capítulos 1 a 5 / Primeiro Arco]

    Data: 12 e 13/05/2026 

    I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS

    Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.

    Lúcia / Corpo Estranho tem uma roupagem de comédia de ficção científica. Lucas, um machão CFO de uma grande companhia, se vê obrigado a trocar de corpo , indo parar no de uma mulher, para se curar de uma grave doença neurológica autoimune. 

    Pessoalmente, não sou fã de humor. Acho que tanto a escrita quanto a narrativa tem alguns problemas urgentes para cativar o leitor. Mas, creio que os ajustes corretos e uma melhor atenção ao desenvolvimento dos personagens e do universo do romance, pode ser um bom livro divertido /satírico.

    II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)

    Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.

    1. Arquitetura do Enredo e Ritmo

    • ✨ Pontos Fortes: [O que já funciona na estrutura da trama? O gancho inicial é forte?]
      • Acho que você seguiu uma linha temporal segura. De A até B.
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Onde a história perde tração ou parece apressada?]
      • De uma forma geral, penso que a história foi corrida demais. Três capítulos e o nosso protagonista já está na mudança de sexo. Tudo fluiu demais para que isso acontecesse. Tudo pré-determinado demais pelo roteiro

    2. Modelagem de Personagens

    • ✨ Pontos Fortes: [As vozes são distintas? As motivações estão claras?]
      • Apareceram poucos personagens. Isso é positivo porque, em certos romances, estão vindo uma profusão de personagens que estão atrapalhando o desenvolvimento.
      • Camila pode ser uma personagem interessante. Convém dar um espaço maior no próximo trecho
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Há inconsistências ou falta de profundidade em algum personagem?]
      • Talvez fosse a intenção, mas Lucas é um personagem bem superficial (no sentido literário mesmo). Acho fundamental desenvolvê-lo melhor, para além das marcas, a fim de que o leitor possa criar alguma conexão com ele e se prenda à história. Por exemplo:
        • Assim, um cara é um CFO de uma das maiores empresas financeiras do país e ele aceita um diagnóstico de uma doença grave sem uma segunda opinião? Mesmo tendo recursos? E simplesmente aceita uma cirurgia experimental assim? Seria interessante demonstrar que ele tentou. Tentou ignorar os sintomas. 
        • Acho que existem outros jeitos de demonstrar que o cara é rico, além das marcas que ele usa. Foi um recurso exagerado e que tornou a leitura repetitiva, meio chata. Como CFO, ele pode ter segurança, carro blindado… Além disso, mostrar mais sobre o estilo de vida, e ele de fato vivendo isso, mais do que citando por alto.
      • O grande conflito que se desenha até o momento (a transição de gênero e os impactos de um macho men) também não foi tão bem construído. Poderia ser melhor delineado. Claro, com certeza será desenvolvido na próxima etapa, mas penso que precisa aparecer melhor aqui. Ao meu ver, está meio translúcido demais. 

    3. Estilo e Domínio da Linguagem

    • ✨ Pontos Fortes: [Uso de metáforas, clareza do texto, tom adequado ao gênero.]
      • A escrita está com um tom adequado. Entretanto, ainda precisa melhorar um pouco ao meu ver. Em certos pontos, está dura demais. Ora, é uma história que se passa no Rio de Janeiro. Precisa de um maior gingado literário.
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Repetições de palavras, problemas de pontuação ou ritmo de frase.]
      • A escrita oscila entre uma mais coloquial e outra padrão. Convém corrigir.
      • Frases com construções estranhas:
        • “Quando o enfermeiro voltou, estava deitado, o avental médico colocado”. – construção ambigua 
      • Cuidado com o estrangeirismo. Acho que há um abuso, nessa tentativa de mimetizar o estilo “farialimer” Nem todo mundo compreende o que é rooftop, mailing list… Convém reduzir ou colocar uma nota de rodapé;

    III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)

    O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.

    • 🗣️ A Força da Voz Autoral: [O autor possui uma identidade própria de escrita? O texto traz frescor ao gênero?]

    Felipe, confesso que não conheço tanto o seu trabalho. Lembro de um ou outro texto que li em alguns desafios. Então, vou abordar mais a ideia. é uma ideia interessante, que me lembra alguns filmes (tem dois filmes da Netflix, um francês e um inglês, que partem da ideia de um homem sendo inserido num universo que a misoginia é substituída pela androginia. Também temos o clássico brasileiro Se Eu Fosse Você, no qual Tony Ramos e Glória Pires trocam de corpos. E por fim, lembro também daquele filme do Mel Gibson que ele consegue ouvir os pensamentos das mulheres [e que tem a versão das mulheres que escutam os pensamentos dos homens).

    Há uma roupagem interessante aqui da ficção científica para a discutir a diferença entre os gêneros. Ainda assim, creio que será necessário dar um passo a mais com essa história, para não cair na mesmice desse tema.

    • 🌍 Poder de Imersão e Ambientação: [O universo do romance é crível? O leitor consegue se transportar para o cenário?]

    Então, esse é um ponto interessante. O universo do trecho está bastante centrado na figura do personagem central, um homem rico, bem sucedido, sedento atrás de status. Acho que está mais para o lado de uma alusão do que para o lado da construção. Como destaquei anteriormente, penso que a ambientação e a construção ainda não está boa. Penso que é fundamental desenvolver melhor as cenas, adicionar coisa nova, para mostrar que Lucas é rico e detèm status, para além das marcas. Mostrar seu machismo para além de uma menção indireta.

    Outro ponto que queria destacar é que, se tratando de uma história que se passa no Rio de Janeiro, sendo uma cidade tão rica culturalmente, acho que a história precisa refletir muito bem esse ambiente. Se, por exemplo, Lucas vive tranquilamente nesse território boêmio e farialimer (que pessoalmente desconheço, sendo algo até estranho) do Rio de Janeiro, acho que o romance precisa demonstrar isso. Agora que Lucas vai virar Lúcia, é importante mostrar a transformação da visão que elu (risos) tem da cidade. E, por que não ousar mais e transformar a cidade do Rio em um personagem da história. Vivo, pulsante, cosmopolita, perigoso, mas apaixonante.

    • ❤️ Engajamento Emocional: [O texto desperta curiosidade, tensão ou empatia? O que faz o leitor querer continuar?]

    Eu tenho uma dificuldade natural com textos de humor (assim, eu interpretei esse romance, pelo menos). Acho que sou mais visual nesse ponto. Ou, sou só chato mesmo. Então, não consumo esse tipo de literatura.

    No final das contas, enquanto uma obra de humor, penso que seu trecho depende do leitor comprar sua ideia ou não. Ainda acho que nesse caso, seria fundamental que você investisse um pouco mais em desenvolver o personagem. Mostrar que ele é sem noção sim, mas é gente boa. 

    No final, penso que o cliff hanging ao final do trecho foi muito bem executado. Com certeza retornarei a ler esse romance na próxima etapa. 

  13. Desafio Entre Contos
    12 de maio de 2026
    Avatar de Desafio Entre Contos

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    Atenção: esta é uma análise gerada por Inteligência Artificial, no contexto do presente Desafio, com base em fontes selecionadas pelo Autor.

    ———————–

    A obra “Lucia, ou Corpo Estranho”, do autor Fantasma, apresenta-se como um prólogo instigante que utiliza uma premissa de ficção científica para explorar dilemas profundos da condição humana. O texto inicia introduzindo Lucas Costa, um homem de meia-idade extremamente vaidoso, bem-sucedido no ambiente competitivo das startups e cujas interações sociais são pautadas por um narcisismo tóxico e pela objetificação alheia. O ponto de inflexão surge com o diagnóstico de uma doença autoimune rara, a EDAI, que lhe reserva apenas poucos meses de vida. A “salvação” oferecida pelo Dr. Salvatore Keller é radical: um transplante temporário de seu encéfalo para um corpo sintético feminino, enquanto seu corpo original é tratado. O capítulo encerra com Lucas prestes a iniciar o procedimento, já planejando usar sua nova identidade como uma ferramenta de espionagem e poder corporativo. Conexão com o Leitor e Valores Universais

    O texto conecta-se com o leitor ao tocar em medos universais: a finitude da vida e a perda da identidade. Como aponta a sociologia de Bauman, vivemos em uma “modernidade líquida” onde a busca pela saúde tornou-se uma guerra contra a doença e a identidade é algo a ser “comprado” ou moldado conforme a conveniência. Lucas personifica o homem contemporâneo que acredita ter controle total sobre seu “corpo máquina”. A fragilidade dessa ilusão gera uma empatia imediata, pois o leitor reconhece o desamparo humano diante da natureza implacável, um tema central na psicanálise freudiana. Aspectos Psicológicos e Filosóficos

    A obra é um campo fértil para o exame do dualismo cartesiano. Dr. Keller utiliza uma premissa puramente de Descartes ao afirmar: “o seu corpo é apenas uma ferramenta, um avatar… você pode ser desconectado do corpo, mas não vai deixar de ser você”. Essa visão separa a “coisa pensante” (res cogitans) da “coisa extensa” (o corpo), tratando o organismo como um relógio que pode ser consertado ou substituído.

    Entretanto, a psicologia de Jung e a filosofia existencialista de Sartre lançam questionamentos sobre essa facilidade:

    • Individuação e Sombra: Lucas é guiado por seus apetites e ambição, assemelhando-se ao arquétipo do Trickster (o trapaceiro). A transição para um corpo feminino forçará o confronto com sua Anima, o lado feminino do inconsciente que ele antes desprezava através de falas machistas.
    • O Olhar do Outro: Para Sartre, o “outro” é indispensável para o conhecimento de si mesmo. Lucas planeja ser um “neutral party” na empresa, um observador invisível. Isso evoca a “Náusea” de Roquentin ao perceber que, sem o reconhecimento simbólico da sociedade (o “Grande Outro” de Lacan), sua identidade pode “derreter como um boneco de neve ao sol”.

    Análise Técnico-Literária

    O autor Fantasma demonstra habilidade ao seguir a máxima de Stephen King: priorizar a situação sobre o enredo. A situação de um “macho alfa” preso em um corpo feminino é robusta o suficiente para sustentar a narrativa sem artifícios mirabolantes.

    • Arco Narrativo: O capítulo funciona como uma “exposição” clássica, mas com um ritmo ágil. A construção de Lucas é eficiente, embora beire o clichê do vilão corporativo. O uso de diálogos como: “e essa viadagem aí? Tá mudando de time?”, revela o caráter do personagem sem necessidade de narração expositiva, uma técnica de “mostrar em vez de dizer”.
    • Metáforas e Linguagem: O autor utiliza metáforas como a de Átila, o Huno, para descrever a confiança de Lucas, o que reforça sua prepotência. No entanto, há trechos onde a descrição física da secretária — “aquelas pernas bem torneadas… as curvas do quadril” — embora coerente com o olhar de Lucas, pode soar como uma “escrita preguiçosa” ou recurso datado se não for subvertida nas próximas etapas.

    Afinidade Literária e Crítica

    O texto possui afinidade óbvia com “A Metamorfose” de Kafka, na medida em que o sujeito acorda em um corpo que não reconhece como seu, e com “O Médico e o Monstro” de Stevenson, pela dissociação física da psique. Diverge, contudo, ao dar ao protagonista uma agência consciente e maquiavélica sobre sua transformação, aproximando-se mais de uma fantasia de poder do que de um horror existencial puro.

    Qualidades:

    1. Premissa Forte: A ideia de usar a transição de gênero como estratégia de espionagem corporativa é um “fóssil” narrativo valioso.
    2. Honestidade na Escrita: O autor não tenta embelezar Lucas; ele o apresenta em toda sua futilidade, o que é essencial para que o “processo de individuação” posterior seja crível.

    Defeitos:

    1. Excesso de Exposição na Clínica: O diálogo do Dr. Keller soa, em alguns momentos, como um “manual de instruções” para o leitor, o que King sugere evitar para não “drenar o pântano” rápido demais.
    2. Estilo: O uso de alguns clichês de gênero (a loiraça de peitos maravilhosos) pode afastar leitores que buscam uma literatura mais refinada, caindo no que C.S. Lewis chama de “leitura não-literária” focada apenas na excitação da trama.

    Em suma, “Lucia, ou Corpo Estranho” é uma abertura promissora. O sucesso da obra dependerá de como o autor lidará com a “desorientação” de Lucas no novo corpo. Se ele se limitar à espionagem, será um conto de entretenimento; se mergulhar na reconstrução da identidade de Lucas, poderá alcançar a “ressonância” que transforma um livro em uma experiência duradoura.

  14. claudiaangst
    4 de maio de 2026
    Avatar de claudiaangst

    Olá, Fantasma, tudo bem?

    Ao contrário do nosso colega Rubem, não achei que a imagem escolhida tenha sido uma espécie de spoiler. Imaginei outra situação do que a retratada, talvez uma transição de gênero🕺>💃. Enfim, nada me alertou para o que eu leria a seguir.

    O título pode não ser o definitivo, mas eu recomendaria acentuar Lúcia.

    (fala a Claudia que não recebeu o acento devido no seu nome ao ser registrada, pois segundo a IA: “O acento agudo no “a” (Cláudia) é uma característica da língua portuguesa (e às vezes espanhola), devido às regras de acentuação de paroxítonas terminadas em ditongo crescente. Inglês, Italiano, Alemão, Espanhol: A grafia comum é Claudia (sem acento).” Isso tudo para dizer: é melhor tacar um acento aí no nome Lúcia só para agradar os revisores chatos de plantão.

    Mas vamos ao que interessa, o seu texto:

    O começo do romance é repleto de descrições, ambientações, detalhes que enfatizam as circunstâncias sociais do protagonista. Sim, autor, conseguimos entender que todos são ricos 💲 e ostentam estilos de vida caríssimos: uma grande tela OLED; uma enorme cama king-size; quadros de Paul Klee; relógios ⌚ das famosas marcas Tag Heuer, Rolex, Patek Philippe, Hublot, Tissot; citação na revista Forbes; ternos 🕴️​ Armani e Hugo Boss; BMW; menção à Faria Lima, e ao fato dos pais do Lucas morarem na Europa. Talvez um pouco de clichês além do necessário, mas aí é com você. Também exagero em alguns pontos para marcar bem meus personagens. Menos é mais? Não sei, às vezes mais é só precaução mesmo.

    Ainda comentando sobre o início do seu ato 1, fiquei receosa de estar lendo um romance hot, 💋cheia de relações 🔥 escusas com CEOs. Talvez lá na frente o excesso de descrições, sobretudo focadas no corpo do protagonista, se justifique. Enquanto fui lendo, fui virando os olhos, e tive um pouco de dificuldade de focar minha atenção🔎.

    Ainda bem que a narrativa seguiu para outro lado, mais interessante ao meu ver. A ideia de trocas de corpos não é original, mas sempre dá pano pra manga, digo, dá assunto pro desenvolvimento do enredo. Acho que vou curtir a continuação do seu romance🙂. Quem viver (ler), verá.

    Vamos à parte chata🙄, as falhas de revisão:

    • Algumas trocas de minúsculas e maiúsculas:

    – […] patrão. — ele havia > […] patrão. — Ele havia

    – […]na PUC. entrou na Rock > […] na PUC. Entrou na Rock

    – Ah, Comprei pra provar > Ah, comprei pra provar

    – A letícia? > A Letícia?

    – […] demais. — estou trazendo > […] demais. — Estou trazendo

    – […] antebraço. — cadê a menina do TI? > […] antebraço. — Cadê a menina do TI?

    – […] um pouco. — ele estava > […] um pouco. — Ele estava

    – […] um moribundo. — ele não > […] um moribundo. — Ele não

    – […] paciente. — o seu corpo > […] paciente. — O seu corpo

    – rio de janeiro > Rio de Janeiro

    – — eu sei. > — Eu sei.

    • Erros de pontuação:

    – fingisse que não Mas Lucas > fingisse que não. Mas Lucas

    – no acesso, Junto dele, o enfermeiro > no acesso. Junto dele, o enfermeiro

    • Obvio! > Óbvio!
    • Tinito > tinido
    • Só recordava-se > Só se recordava (o só atrai o SE)
    • Como o que? > Como o quê?
    • Só então lembrou de > Só então se lembrou de
    • algum morador de rua os aproveitassem > algum morador de rua os aproveitasse
    • não entendia por quê, > não entendia por que, OU não entendia o porquê,
    • o som das pessoas, do vento, de seus pensamentos iam sendo desligados > os sons das pessoas, do vento, de seus pensamentos iam… OU o som das pessoas, do vento, de seus pensamentos ia sendo desligado (cuidado com a concordância)
    • — Não tem pinto. > achei estranho o médico todo formal, didático e técnico nas suas explicações, se referir ao órgão masculino assim. O protagonista, tudo bem, mas o médico?
    • Dr Keller. > Dr. Keller.
    • um estraga prazeres > um estraga-prazeres
    • Lhe dava ojeriza. > na norma culta não se começa uma frase com pronomes pessoais do caso oblíquo > Dava-lhe ojeriza.

    Se escapou alguma coisa, peço desculpas, mas foi o que encontrei para poder te ajudar a melhorar o texto.

    Caso eu me lembre de mais alguma sugestão, aviso em outro comentário. Siga em frente com confiança que o romance vai vingar.

  15. marco.saraiva
    4 de maio de 2026
    Avatar de marco.saraiva

    Optei por uma revisão bem sincera para este desafio, daquelas cruas, que acho que eu, como autor, gostaria de ter para uma obra deste porte. Tanto tempo que você dedicou para escrever este texto, o mínimo que eu posso oferecer de volta é a total sinceridade!

    Quando comecei a leitura, soltei um enorme suspiro. O tom inicial me fez pensar que o conto era um soft-porn, descrevendo cada detalhe do corpo de Lucas, inclusive indo além do que o necessário para descrever também a sua genital. Não que seja ruim, mas não sou o público-alvo, que achei que a leitura seria enfadonha. Para a minha surpresa, não foi. O conto não é soft-porn. O que no início parece superficialidade, depois notei ter profundidade. O espaço gasto para descrever cada detalhe de Lucas, suas vestimentas, seus acessórios, tem um objetivo. Passa para o leitor que são essas as coisas que ele valoriza. Lucas é superficial, lembra Parick Bateman, escolhendo relógios e ternos a dedo, comparando as suas posses com as posses dos seus amigos, amizades competitivas. Tem orgulho do próprio pau, por que é o macho-alfa, o cara que tem certeza que vai comer a secretária em uma semana, por que está acostumado a ter acesso fácil às mulheres, e as vê como objetos a serem conquistados. É importante que o texto tenha passado para mim esta ideia, por que senão a coisa toda seria pura perda de tempo: a cena típica de início de romance, onde o autor usa a velha tática de colocar o personagem de frente para o espelho para descrever as suas características físicas. Mas aqui, a cena tem um peso maior.

    O tom da leitura é informal. Trechos como “De toalha mesmo, foi até a varanda” e “E daí se o espelho do banheiro precisava ter uma câmera embutida? Se alguém invadisse, a vista era boa” convidam uma leitura conversacional e irreverente.

    A guinada da história era meio óbvia não só pelo título da obra como também pela imagem de capa escolhida, mas não acho que em algum momento foi a sua intenção fazer disso uma surpresa. E você trabalhou a coisa bem, pulando o desnecessário e indo direto ao assunto. Achei particularmente boa a forma como você descreve os personagens ao redor de Lucas. A narrativa é de terceira pessoa limitada, mas você consegue fazer com que o leitor absorva as mudanças em Lucas de forma natural, mudando o tom que usa ao descrevê-las. O início do livro traz a imagem de Douglas Meirelles como um homem bem-sucedido, uma figura deífica, alguém que todos querem ser, que Lucas almeja ser um dia. Mais para o final deste primeiro ato, porém, vemos um Douglas sem nenhuma profundidade, um homem egoísta e superficial, que só pensa em mulheres e materialismo, extremamente arrogante. Um homem que não dá valor algum à amizade de Lucas. Acompanhamos, inclusive, a mudança progressiva de ponto de vista de Lucas, já que, inicialmente, o fato de ninguém tê-lo visitado no hospital é tratado pela narrativa como algo sem importância alguma. O CFO da empresa, um dos homens mais importantes do negócio e amigo de várias daquelas pessoas, não recebe a visita de ninguém por uma semana inteira. E ele nem nota. Mas aos poucos estas discrepâncias nas expectativas de Lucas ficam óbvias, a ponto de ele até se arrepender de ter chamado Douglas para conversar. Isto bota as coisas em perspectiva: Lucas, quando posto de frente com a morte, muda o ponto de vista da sua vida inteira. Agora Douglas não é um exemplo e sim uma farsa, quase um desapontamento. Camila, que no início parecia tê-lo levado ao hospital por admirá-lo e considerá-lo um amigo, provavelmente o fez apenas por obrigação.

    A cena onde ele joga o terno e os sapatos no lixo é importantíssima: ele está se despindo da sua pele anterior, tornando-se alguém novo. Mudando de atitude, pensando no que nunca pensou antes. Por isso foi um pouco frustrante quando, mais para o final do conto, descubro que ele está tramando voltar à mesma empresa como mulher, para espionar os antigos amigos e tentar escalar a escada corporativa de novo. Me parece uma volta à persona antiga, descarta o simbolismo do terno jogado fora, da mudança de perspectiva. Mas é difícil julgar a mudança de personagem apenas no primeiro ato, temos muito espaço pela frente para trabalhar este arco.

    No final, ficou essa sensação louca de Psicopata Americano + A Substância + Emília Perez, com toque de Brasil e da personalidade do autor, também com a sua criatividade. Foi uma leitura que me chamou a atenção e quero continuar lendo para ver onde vai dar!

    • marco.saraiva
      4 de maio de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Agora, para as tecnicalidades! Tudo o que se segue são o que eu considero “tecnicalidades” e você pode ignorar ou acatar, tanto faz. Acho que tem muito de gosto e opinião pessoal então não necessariamente são críticas:

      – Lucas ouve Heavy Metal? Pelo estilo, me parece difícil. Não impossível, mas extremamente pouco-provável. Gente que aprecia o metal tende a ser outlier, ter um espírito rebelde e criativo, com mais personalidade. Lucas é o oposto de tudo isso: joga o jogo da sociedade, faz o que as pessoas esperam dele, tenta ganhar o jogo da vida seguindo as regras do mundo.

      – “Lucas andou confiante pela calçada. Pisou no pequeno degrau que antecedia a porta com a confiança de Átila, o Huno, ao esmagar a cabeça de um inimigo ao final de uma batalha.” Não seria a confiança de Átlia ao IR para a batalha? Depois que esmagou a cabeça o oponente ele já não precisa mais de confiança.

      – Como que Camila Pires, a gerente do financeiro, conhece COBOL? No mundo corporativo este tipo de linguagem e conhecimento fica mais para a galera de TI. No máximo, gente da alta gerência fala coisas do tipo “Ah o nosso sistema é antigo” ou “o banco de dados está desatualizado”. Como a história se passa daqui a uma década, talvez dê para acreditar que as pessoas do futuro adquiriram um pensamento mais tecnólogico, mas eu duvido. A tendência é o oposto: daqui a dez anos, a galera do alto escalão falaria simplesmente “nosso sistema é tão antigo que nem IA tem”. Falar que “a gente ainda está rodando COBOL” é algo extremamente técnico para um CFO e uma gerente do financeiro.

      – O que Marina, a “menina do TI”, estava fazendo na reunião do alto escalão, com representantes do governo e os grandes nomes da empresa em uma reunião de abertura de champagne? Talvez o CTO estivesse lá mas… a “menina do TI”?

      – Alguns anglicismos foram destacados com itálico, mas outros, como “drift”, não.

      – A dor de cabeça de Lucas me parece algo essencial para o primeiro capítulo e é o artefato que muda completamente o sentido da narrativa e inicia o conflito. Porém, ela surge de repente, na metade do primeiro capítulo quando ele já está na empresa. Eu colocaria a dor de cabeça logo no início. Talvez até abriria o livro com ela: Lucas reclamando da dor de cabeça antes de admirar o próprio pênis nos primeiros parágrafos.

      – Notei algumas vezes a obsessão por detalhes desnecessários. “Segurava o copo na mão direita” ou “fez algo com a perna esquerda”. Por exemplo: “Passava a mão direita suavemente por sobre os pelos do antebraço esquerdo”. Quase sempre este tipo de descrição é desnecessária. “Coçava o próprio braço” ou “se abraçava como se o ar-condicionado estivesse frio demais” é melhor do que “a mão direita tocava o braço esquerdo”.

      – Revisãozinha boba: “A dose cavalar de corticoides paravam a inflamação e davam um pouco de ânimo, mas também ansiedade. ” – O sujeito é “dose” então o verbo deveria ser “parava” e não “paravam”. “Dava” e não “davam”. Ou então troca para “Os corticoides em excesso paravam…”.

      – Revisãozinha boba: o parágrafo a seguir é diálogo mas não tem travessão e tem duas palavras sem espaço entre elas. “Os exames de sangue complementares indicarama presença de autoanticorpos, produzidos pelo seu próprio sistema imune. Eles muito provavelmente estãoatacando os neuroreceptores de NMDA do seu cérebro, provocando a encefalite. Parece ser um caso bem agressivo de EDAI, encefalopatia degenerativa autoimune.”

      – A distinção de “evitar contar e tentar mostrar” é sempre subjetiva e cada autor tem as suas próprias ideias do que é “contar muito”. Aqui eu vejo que você usou muitos parágrafos dedicados a contar histórias paralelas, como, por exemplo, as origens de certas amizades, a história do prédio Manchete, casos que ocorreram no passado, pensamentos e devaneios. Eu uso pouco este tipo de recurso, mas não acho um recurso inválido, e você o utiliza bem na maior parte do tempo. Mas, algumas vezes, o “contar” passa um pouco do limite, para mim. Por exemplo: “Camila era uma das poucas pessoas que conseguiam desarmar Lucas”. Nem precisava ter falado. O diálogo já meio que deixava isso claro, e bastava mais algumas cenas com Camila para enfatizar a ideia.

      – Finalmente: O livro trabalha a estranha ideia de que os cérebros não têm conexões com o resto do corpo (como se os hormônios femininos e masculinos não fizessem parte da evolução do cérebro humano, fazendo com que cérebros femininos e masculinos sejam bem difrerentes). Mas apenas um personagem trabalha este ponto, o doutor Salvatore, então estou assumindo que esta seja uma visão de um doutor meio inescrupuloso, e não uma mensagem do texto em si.

  16. rubem cabral
    1 de maio de 2026
    Avatar de rubem cabral

    Olá.

    Gostaria de complementar: as lembranças do Lucas sobre sua infância e sua fragilidade ao se descobrir mortalmente doente trouxeram uma lufada boa de complexidade e humanidade ao personagem. Então, ao contrário do que eu disse, Lucas não é 100% um personagem “plano”. Quis comentar aqui, pq achei que não fui completamente justo na minha avaliação.

    Abraço!

  17. rubem cabral
    1 de maio de 2026
    Avatar de rubem cabral

    Olá, Fantasma.

    Li o ato 1 e aí vão minhas impressões.

    Primeiro, sem ter a ver com o seu texto em si, não gostei muito da imagem que você escolheu, pois é um grande spoiler. Quando vi a imagem, vi o título e o nome do personagem principal, embora ainda não soubesse “como”, já sabia que alguma mudança de sexo do personagem principal estava a caminho. Não estraga a experiência, mas talvez você pudesse usar uma imagem diferente, caso resolva criar um e-book, por exemplo.

    Bem, vamos ao texto em si.

    Impressão geral: eu gostei do que li até agora, mas estou dando crédito pelo que virá depois. A ideia de um personagem machista que se torna mulher e passa por poucas e boas já vi, por exemplo, no filme “Switch”. Até agora os personagens estão um tanto unidimensionais e estereotipados. Se irá acontecer alguma redenção ou não do Lucas, isso ainda é mistério. O arco do personagem promete ser interessante.

    Qualidade da escrita

    • Ortografia, pontuação e etc -> O texto é bem escrito e não há quase erros. Vi bem pouca coisa: “patrícia” com “p” minúsculo, “praia do flamengo” em minúsculas também. “rio de janeiro”, idem, começo de um diálogo “— eu sei…”. Enfim, mais erros de digitação do que outra coisa.
    • Qualidade da escrita. O texto é correto, embora tenha faltado um pouquinho de “molho”, algumas frases inspiradas ou metáforas seriam bacanas de ver. Está correto, entrega a história sem entraves e soluços, mas não traz algo mais (ainda).
    • Diálogos -> são bons. Estão “soltos” e parecem falados por gente de verdade.

    Personagens: até agora são mais arquétipos. Lucas e Gabriel não têm muitas nuances. Certamente Lucas passará por transformações que o farão ver o outro lado, mas, por enquanto, ele é um personagem “plano”.

    Enredo

    Eu gostei da pesquisa que você talvez tenha feito sobre a doença do Lucas e a ideia futurista de um corpo que o cérebro dele poderia habitar enquanto seu corpo original sofreria o tratamento. Uma dúvida: na passagem em que Lucas estava na Praia do Flamengo, ele havia saído do prédio da empresa na Glória e caminhado a pé ou havia saído de casa? De início eu estranhei pq lembrei que o Lucas morava em Ipanema e poderia ter ido a praia ali perto de casa, embora de lá ele não tivesse a vista do Pão de Açúcar. Talvez você pudesse justificar no texto o pq dele estar nessa praia ou como ele chegou lá.

    Resumindo: bom começo de trama! Vamos ver o que vem por aí.

    Abraço.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 3 de outubro de 2026 por em E-Rom G1, Entre Romances e marcado .