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Detox Literário.

Paralaxia – Crônica (Pedro Paulo)

Estes idos e vindos têm seus extremos da desorientação. Ora é algo material, mais ou menos importante, um livro que se precisava aqui e foi deixado lá ou um documento que impede algum cadastro e que ficou na outra casa. Às vezes, entretanto, é o crucial. É uma chamada de vídeo, na tela o rosto sorridente dela acalma seus receios, o rostinho dele o toca na alma, faz parecer que não há distância. Mas há. Ela exclama que ele acabou de dizer papai, que mostrou uma foto sua e ele verbalizou o reconhecimento. Era esperado. Ele já dissera mamãe, vovô, vovó e até o nome do gato! Só faltava papai. Não esteve lá para ouvir em primeira mão, mas talvez agora… O menininho pisca, a mãe instiga que repita e a criança parece confusa sobre o que fazer. Sorri banguelinho para o pai, não pronuncia a palavra, só a mãe a repete, constrangida. Ele a tranquiliza, garante que ele dirá de novo na hora certa. Despedem-se. Escondeu bem a frustração. Volta a sentir as centenas de quilômetros entre onde está e o lar.

Não é como se o trabalho não o acompanhasse na viagem de volta para casa. Silencia notificações, ativa o “não perturbe”, põe o celular virado para baixo. Pouco depois, entre um chamego com a família e uma tarefa doméstica datada, está olhando para o aparelho novamente. Vira-o, abre os aplicativos, resolve o que é rápido, deixa o mais difícil por responder, mas fica com aquilo na mente. Sem se dar conta, algum feed o absorve. Absolve? Pelo menos não está pensando mais nas demandas do trabalho. A esposa chama sua atenção. Esqueceu deles também? Ela reclama que havia prometido não trabalhar em casa, pergunta quem ele está vendo no celular. Na verdade, ele nem sabe. Sem contar que não reparou que ela cortou o cabelo. Havia quanto tempo que ela falava nisso? Semanas, meses? Aliás, tem a impressão de ter uma consulta para daqui a uns dias. Olha o calendário. Foi no mês passado, não lembra se compareceu. Ao menos não perde as do menino.

A estrada o entretinha no começo, depois enjoou dela. O odor do mofo dos estofados, o sacolejo dos carros e os burburinhos dos passageiros das vans, tudo o enfastiava. Encontrou algum alento ao relembrar uma curiosidade. Ali dentro dos veículos em movimento, a visão pelo para-brisa até sugere que vão devagar, conseguiria contar cada um dos traços de tinta sobre asfalto a dividir as faixas da estrada, sendo engolidos pelo avanço constante do carro. Pela janela lateral, entretanto, a paisagem é turva,  quase indiscernível. Uma vez decidiu pesquisar o fenômeno, encontrou que o nome é paralaxe. Bonito. Seu ir e vir, família num canto, trabalho no outro, corpo indo, mente ficando, faz que se sinta assim, num estado de paralaxia: olha para frente e sabe para onde vai. Vê ela mais o seu garotinho. Mas seus caminhos? Trabalho? Casa? Tudo borrão.

Ele não dirá papai tão cedo. O que não significa o fim de novidades. Já é uma criança maior, quando o pega no colo os bracinhos já o envolvem. Mais recente, seu filhinho aprendeu um gesto novo. A boca entreaberta, primeiro encosta os lábios e depois aplica uma pressão e se afasta rápido, faz um estalinho. Protótipo de beijo, pleno carinho. Recebe um desses e experimenta uma espécie de presença absoluta, não existe lugar que não aquele, não vai sair e por isso não terá que esperar para voltar. A nitidez do instante o resgata.

E Então? O que achou?

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Publicado às 18 de agosto de 2026 por em Crônicas e marcado .

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