Estes idos e vindos têm seus extremos da desorientação. Ora é algo material, mais ou menos importante, um livro que se precisava aqui e foi deixado lá ou um documento que impede algum cadastro e que ficou na outra casa. Às vezes, entretanto, é o crucial. É uma chamada de vídeo, na tela o rosto sorridente dela acalma seus receios, o rostinho dele o toca na alma, faz parecer que não há distância. Mas há. Ela exclama que ele acabou de dizer papai, que mostrou uma foto sua e ele verbalizou o reconhecimento. Era esperado. Ele já dissera mamãe, vovô, vovó e até o nome do gato! Só faltava papai. Não esteve lá para ouvir em primeira mão, mas talvez agora… O menininho pisca, a mãe instiga que repita e a criança parece confusa sobre o que fazer. Sorri banguelinho para o pai, não pronuncia a palavra, só a mãe a repete, constrangida. Ele a tranquiliza, garante que ele dirá de novo na hora certa. Despedem-se. Escondeu bem a frustração. Volta a sentir as centenas de quilômetros entre onde está e o lar.
Não é como se o trabalho não o acompanhasse na viagem de volta para casa. Silencia notificações, ativa o “não perturbe”, põe o celular virado para baixo. Pouco depois, entre um chamego com a família e uma tarefa doméstica datada, está olhando para o aparelho novamente. Vira-o, abre os aplicativos, resolve o que é rápido, deixa o mais difícil por responder, mas fica com aquilo na mente. Sem se dar conta, algum feed o absorve. Absolve? Pelo menos não está pensando mais nas demandas do trabalho. A esposa chama sua atenção. Esqueceu deles também? Ela reclama que havia prometido não trabalhar em casa, pergunta quem ele está vendo no celular. Na verdade, ele nem sabe. Sem contar que não reparou que ela cortou o cabelo. Havia quanto tempo que ela falava nisso? Semanas, meses? Aliás, tem a impressão de ter uma consulta para daqui a uns dias. Olha o calendário. Foi no mês passado, não lembra se compareceu. Ao menos não perde as do menino.
A estrada o entretinha no começo, depois enjoou dela. O odor do mofo dos estofados, o sacolejo dos carros e os burburinhos dos passageiros das vans, tudo o enfastiava. Encontrou algum alento ao relembrar uma curiosidade. Ali dentro dos veículos em movimento, a visão pelo para-brisa até sugere que vão devagar, conseguiria contar cada um dos traços de tinta sobre asfalto a dividir as faixas da estrada, sendo engolidos pelo avanço constante do carro. Pela janela lateral, entretanto, a paisagem é turva, quase indiscernível. Uma vez decidiu pesquisar o fenômeno, encontrou que o nome é paralaxe. Bonito. Seu ir e vir, família num canto, trabalho no outro, corpo indo, mente ficando, faz que se sinta assim, num estado de paralaxia: olha para frente e sabe para onde vai. Vê ela mais o seu garotinho. Mas seus caminhos? Trabalho? Casa? Tudo borrão.
Ele não dirá papai tão cedo. O que não significa o fim de novidades. Já é uma criança maior, quando o pega no colo os bracinhos já o envolvem. Mais recente, seu filhinho aprendeu um gesto novo. A boca entreaberta, primeiro encosta os lábios e depois aplica uma pressão e se afasta rápido, faz um estalinho. Protótipo de beijo, pleno carinho. Recebe um desses e experimenta uma espécie de presença absoluta, não existe lugar que não aquele, não vai sair e por isso não terá que esperar para voltar. A nitidez do instante o resgata.
Creio que todo pai passa por algo assim quando os filhos são pequenos, mesmo quando trabalham na mesma cidade em que vivem. Na verdade, se pararmos para pensar, depois que os filhos nascem percebemos que até então vivemos uma paralaxe constante até o surgimento daquele pequeno ser. É ele (ou ela, claro) que nos resgata, que faz a vida desacelerar, ou, como você disse, que nos absolve dessa pressa muitas vezes sufocante que nos faz perder os detalhes do tempo. Excelente crônica, agridoce na medida certa.
Que graça de crônica, Pedro! Achei muito interessante que, no fim, haja uma espécie de redenção que, por sua fragilidade, não mascara os problemas cotidianos nos quais o sujeito está imerso. Ele se redime pela atenção dada ao instante. Mas não há nada mais fugaz que o instante – e, assim, o arremate da crônica ressoa a fugacidade das coisas, condensada na imagem borrada da vida que flui a uma velocidade que nos impede de apreendê-la, pela janela do carro.
Me fez lembrar de uns versos de Quevedo: “huyó lo que era firme y solamente / lo fugitivo permanece y dura.”
Gosto como você usa um termo científico sem que isso implique uma revelação pedante. Pelo contrário, o conceito é coberto de ternura.
Devo dizer também que o tema do deslocamento dentro de um veículo é uma coisa em que tenho pensado muito, por conta do autor que estudo (Saer). Ele é cheio de “ficções veiculares” e coisas “borradas” (tem um conto central da ficção dele que se chama “A medio borrar”). Recentemente até escrevi um ensaio sobre o assunto chamado “La escritura como desplazamiento”. (E você talvez se lembre que quase ao final de um conto meu que você leu há uma cena em que o trecho entre estações, numa viagem de trem, fica borrado. Não sabia que isso era por conta da paralaxe!). Enfim, tudo isso para dizer que sua crônica deu uma forma bonita a coisas sobre as quais venho pensando bastante.
Deixo em seguida um trecho de Saer bastante singular sobre uma certa percepcao de deslocamento em viagem. É a meu ver, embora isso não esteja enunciado, uma formulação de projeto narrativo e metáfora do fluxo da experiência, por assim dizer.
“Cuando puedo, trato de viajar de espaldas al sentido de la marcha, para que lo que voy viendo por la ventanilla permanezca mucho tiempo en mi campo visual, que, en razón de esa persistencia, va enriqueciéndose con los nuevos elementos que se incorporan en él a causa del desplazamiento del tren. […]. A medida que el tren se desplaza, esos simulacros van desplazándose a distinta velocidad, más rápidas las más cercanas al ojo, más lentas las más alejadas, como si el círculo cuyo límite es el horizonte estuviera en realidad constituido por una serie de aros concéntricos que giran en diferente dirección y a velocidades diferentes.” [El río sin orillas].
Olá, PP!
Poxa, que crônica sensível! Gostei bastante do seu texto: real, honesto e muito bem pensado. Inclusive, essa é uma qualidade intrínseca a suas crônicas. Mais que os contos, é interessante perceber como a crônica revela uma faceta muito íntima do autor/ da autora.
obrigado por compartilhar conosco! Abraços!
Caramba!
Comecei achando uma graça trágica pela imagem de escutar sua cria proferir a palavra Papai pela tela de um celular e até me enganei pensando ser algo “normal” “comum” da atualidade mas no decorrer do texto fui me elucidando, novamente, das nossas amarras sociais que muitas vezes adormecem dentro de nó com a repetição do cotidiano.
Das redes sociais que tomam a nossa atenção e o trabalho que furta nosso tempo e sanidade a ponto de não repararmos mais em nada ao nosso redor, em nós mesmos…