EntreContos

Detox Literário.

ER 2 – A Arte de Não Se Afogar (Kelly Hatanaka)

1

Estou a uma hora de casa.

Aqui em São Paulo medimos distâncias em horas, porque quilômetros e metros não significam nada, enquanto tempo… ah, tempo é tudo.

Então, imagine, morar longe é um crime nesta cidade que nunca para, que corre demais, atropela os minutos, passa rápido pela esquerda na escada rolante e aproveita os tropeços para avançar. Quem vê as pessoas andando sempre apressadas, ombros tensos, mandíbulas travadas, falando de negócios, pensa logo que o paulistano é obcecado por trabalho e dinheiro. Ledo engano. Nós somos obcecados por tempo.

Tempo para trabalhar e ganhar dinheiro.

E o tempo, bem como o dinheiro, escorre rápido, evapora como uma gota de água no asfalto quente nestes dias infernais de verão e quando olhamos, não para trás, mas ao redor, percebemos que algumas coisas foram ficando pelo caminho.

Infelizmente, nunca é a gordura abdominal.

Enfim, não moro longe, este pecado eu não carrego. São só trinta minutos de casa até o trabalho. Mesmo assim, acabei de sair do estacionamento ao lado do escritório e o aplicativo mostra que estou a uma hora de casa. Uma mosca pousou no lugar errado e pronto: o trânsito desta cidade travou. É assim.

Isso não é de admirar, especialmente considerando-se o dia de merda que eu tive. Um dia típico, na verdade. Cheguei atrasada, queimei a língua com o café quente, pulei de susto, derramei o café na roupa e no chão, fui limpar o chão e quebrei a unha e passei a manhã toda me sentindo um zumbi para só então perceber que o café era descafeinado.

Poderia parecer que foi tudo culpa do café, mas não. Por incrível que possa parecer, ele foi somente um coadjuvante nos acontecimentos deste interminável dia.

O importante é que cheguei ao fim do expediente com a sensação do dever cumprido: sofri bastante e, com isso, galguei degraus na minha evolução espiritual, rumo à iluminação. E posso dizer que hoje eu mereci meu salário.

Dentro do meu carro, ar-condicionado no nível Polo Norte, minha playlist de clássicos piegas das décadas de 70 e 80 gritando alto que once upon a time I was falling in love,
now I’m only falling apart
, me preparo para passar a próxima hora avançando lentamente em meio a este mar de luzinhas vermelhas, quando toca o telefone. Atendo, pausando a melodia nostálgica e revelando a voz de minha irmã.

— Oi, Tê. Pode falar?

Ao fundo, ouço o som de uma frigideira chiando, água correndo, a lâmina da faca batendo na tábua repetidamente.

— Sim, Sô, posso.

— Você sabe que odeio quando você me chama de Sô.

— E você sabe que odeio quando você me chama de Tê e aqui estamos.

— Ui, que azeda. Dia difícil?

— O de sempre.

— Puxa, sinto muito.

Alguma coisa cai no chão, ouço minha irmã praguejar. Após uma breve pausa, ela volta.

— Saco. A tigela com batatas cozidas caiu no chão. Felizmente ninguém viu. Mas enfim, Te-o-do-ra, prezada irmã, o que eu queria perguntar é se você tem falado com papai.

— Conversamos no final de semana, So-fi-a, estimada parente uterina. Por quê?

— Não sei, alguma coisa está errada. Liga pra ele depois, vê se descobre alguma coisa.

Eu já sei o que acontece. Meu pai não gosta de se explicar. Era assim jovem, imagine agora então, com a teimosia da velhice se juntando à teimosia da vida toda.

Minha irmã, por outro lado, está sentindo o ninho esvaziando. Meus sobrinhos estão cada vez menos adolescentes, cada vez mais independentes. Dá para ver que estão esticando as asas, se preparando para saltar. E no coração da minha irmã, bem ao lado do orgulho e do senso do dever cumprido, está a tristeza da antecipação e a saudade do presente. Nada melhor para deixar de lado esses sentimentos do que voltar suas atenções obsessivas para papai, que, por sua vez, deve ter desviado das muitas perguntas de Sofia por motivos da mais pura preguiça.

Como de nada adianta dizer a um exagerado que ele está exagerando, respondo de forma neutra.

— Tá bom.

— “Tá bom” o cacete. Liga para ele. Eu não estou exagerando. Preciso desligar agora, o molho está desandando.

Desliga o telefone e me lança de volta para o mar de luzinhas vermelhas, onde vou avançando muito lentamente, quase de forma imperceptível.

Se eu estivesse na praia e não neste trânsito horrível, e eu estivesse relaxando e não cada vez mais tensa, seria quase como estar boiando no mar, contemplando um céu de estrelas escarlate. Ou seja, totalmente outra coisa sem nenhuma comparação com o momento atual.

Nem sei o que estou dizendo aqui comigo mesma.

I don’t know what to do and I’m always in the dark.

Falo pouco, minhas irmãs dizem que sou fechada. Chegam a me acusar de não me importar com o que se passa ao meu redor. Não desdigo. Tenho preguiça. Talvez eu tenha puxado este aspecto de meu pai, esta falta de vontade de me explicar. Porém, penso muito.

Falo pouco e penso muito. Não é uma boa combinação. As palavras não saem de minha boca e ficam rodando infinitamente em minha cabeça, como um carrossel sem fim, e é assim que as coisas adquirem sentido para mim, nessa verborragia mental formada por pensamentos repetitivos e imagens estranhas.

Compreendo meu pai. Talvez nada haja a dizer, mas minha irmã pediu ajuda. Ajudarei, até porque não é nenhum problema para mim. É sempre sentada ao lado de meu pai, escutando seu silêncio, que mais facilmente me chega o entendimento das coisas.

O telefone toca novamente. Mal atendo e ouço a voz de minha irmã mais nova.

— Odeio seu marido.

— Oi Cat. Boa tarde. Tudo bem com você? Comigo está tudo bem.

Do outro lado vem o som de um suspiro alto, de uma trava metálica batendo com força, música ambiente, um rap.

— Para que passar dois dias de inferiores, hein? Leg press. Quem inventou isso? Só pode ter sido a igreja, na época da Inquisição. A finalidade era outra, mas o aparelho é idêntico, tenho certeza. E ainda tenho que fazer o horizontal num dia e o 45 graus em outro. Pode isso?

— Então pule o treino, ué.  — Para mim, a solução é muito simples.

— Tá louca? Pular o treino de perna? E ficar com dois gambitos patéticos equilibrando a grande gostosa em que estou me transformando? Estou em pleno projeto Cavala 3.3.

— Cavala? Catarina, você tem um metro e meio. O projeto devia se chamar Meu Querido Pônei 3.3.

— Eu xingaria você, mas escolho o desprezo. Escuta, a rainha da Inglaterra te ligou?

— Acabamos de falar. Ela me pediu para conversar com papai.

— Ah é? Pois para mim, pediu para não o incomodar. Veja a audácia. Como se eu incomodasse alguém. Como se eu fosse inconveniente. Como se eu não tivesse noção. Como se eu reclamasse sem parar. Como se eu…

— Que injustiça!

Ela ri do outro lado.

— Teo, seu marido sabe que você fica por aí aconselhando as pessoas a pularem o treino que ele passou?

— Cat, você me ligou só para ganhar mais tempo de descanso entre as séries, não é? Aposto que está aí no aparelho, ocupando espaço e usando o celular, enquanto ignora a fila de espera.

Ouço ao fundo alguns risinhos e sons de concordância, pouco antes de Catarina me xingar e desligar na minha cara. Nem deu tempo de pedir uma nova receita de ácido hialurônico. O meu está no finzinho. Ter uma irmã dermatologista tem suas vantagens.

Com duas irmãs como essas, que necessidade eu tenho de falar?

Elas falam por mim.

Quem vê Sofia tão séria em seus conjuntos de linho irrepreensíveis, o cabelo impecável, levando e buscando os filhos de lá para cá e de cá para lá, cuidando da casa e organizando as festas de aniversário mais perfeitas, e quem vê Catarina voltando de rolês malucos, de viagens malucas, em seus figurinos espantosos (e malucos) e quem vê a mim, bem, sendo eu, calada e um tanto reservada, pensa que somos as irmãs mais diferentes já produzidas neste planeta.

Engano.

Por baixo dessas superfícies dissonantes, sob essas peles, roupas e estilos conflitantes, por trás desses comportamentos opostos, corre um fluido que nos conecta. Por dentro, somos trigêmeas, tão semelhantes quanto três pessoas podem ser sem se tornarem uma só.

O aplicativo chama minha atenção: “Seu tempo estimado de chegada aumentou”.

Todas as ruas do meu trajeto estão em vermelho na tela. O aplicativo recalcula minha rota, sugere que eu saia na próxima direita. Seria um caminho mais longo, mas mais rápido. Cansada de ficar boiando no mar de luzinhas vermelhas, acato a sugestão.

E me arrependo em seguida. Vire à primeira direita, a segunda esquerda, terceira saída na rotatória, em 300 metros, mantenha a direita na bifurcação, segunda saída na rotatória.

Estou completamente perdida. Every now and then I fall apart.

E há algo de profundamente inquietante em estar perdida em um lugar desconhecido. O que não é um pleonasmo, estar perdida em um lugar desconhecido, pois é perfeitamente possível estar perdida em um lugar que você bem conhece. Quem não sabe disso não sabe o que é se perder.

Eu já estive perdida perto do bairro em que nasci e lá não tive medo. As ruas que me viram crescer, aquelas em que persistem partículas de meus joelhos ralados na infância, não são ameaçadoras. Mas estas ruas em que sou estrangeira me olham feio, questionam o meu direito de estar aqui. Penso que as ruas de um bairro ou de uma cidade têm uma alma própria que reconhece os seus. Aqui, cada esquina guarda uma ameaça que eu não entendo bem e sinto vontade de voltar. Mas voltar como, se nem sei como cheguei aqui?

Olho para o mapa no aplicativo e estou apenas no começo de um longo caminho, uma sucessão de primeira direita, segunda esquerda em ruas que parecem cada vez mais estreitas e escuras. O que antes era um caminho vira um labirinto e todo labirinto guarda um monstro.

Penso em voltar, manobro o carro. O carro que vem no sentido oposto buzina e me xinga e percebo que estou na contramão. Manobro novamente e paro junto à guia. Uma sombra se aproxima andando e penso que ficar parada em um lugar ameaçador não é uma boa ideia. Saio dirigindo devagar, decidindo o que fazer.

There’s nothing I can do, a total eclipse of the heart.

Enquanto espero pelo Minotauro, minhas mãos estão rígidas e geladas, o ar entra com dificuldade nos pulmões, minha cabeça lateja e um bolo se forma na minha garganta. E se eu desmaiar aqui? E se eu nunca conseguir sair deste emaranhado de ruas? E se eu nunca chegar em casa?

O telefone toca novamente.

— Tudo bem? — Ele pergunta antes que eu possa dizer “alô”.

Do outro lado, por trás da voz familiar, ouço o silêncio reconfortante de minha casa.

— Tudo.

Marcel tem um sexto sentido para minhas crises de ansiedade. Ele diz que viu minha localização, ou que viu que algo aconteceu no caminho e que sabe dessa minha sensação de claustrofobia, que nem é claustrofobia, uma vez que estou ao ar livre, só não estou conseguindo ver uma saída, só me sinto presa, ele sabe, ele entende.

— Vi sua localização, você não está tão longe. Vai seguindo o aplicativo.

— Estou perdida, isso é um labirinto, as ruas estão cada vez mais estreitas e escuras…

— Normal. Está anoitecendo mesmo e você está se afastando da avenida.

— Queria dar meia volta e retornar à avenida. Não devia ter saído.

— Teodora, lembre-se: se estiver atravessando o inferno…

— Siga sempre em frente.

— Isso. Segue o aplicativo que vai dar tudo certo.

Sigo. Uma primeira direita, uma terceira direita, uma primeira esquerda. A voz dele, me distraindo, tirando meu foco da ideia de estar presa, de labirinto sem saída, de Minotauro.

— Aposto que a Catarina ligou para você.

— Ligou. Reclamou dos dois dias de inferiores que você passou para ela.

— Da próxima vez passo três. E mais o búlgaro, que ela odeia. E a rainha da Inglaterra também te ligou, aposto.

— Até você está chamando Sofia por esse apelido?

— É perfeito.

— Nossa, o aplicativo atualizou de novo meu tempo estimado de chegada. Mais trinta minutos! Me fala que você está adiantando o jantar. Caramba, que fome!

Sentir fome é bom sinal. Sinal de que estou retornando ao meu corpo. Estou respirando, volto a sentir minhas mãos e pés.

— Não posso mentir para você, meu amor.

Ouço um barulho familiar ao fundo. Algo metálico raspando. As portas do elevador.

— Você está descendo para a portaria. Pediu pizza?

Ele sim, é perfeito.

— Pedi. Agora, presta atenção no caminho, segue o aplicativo e, ao fim, terá uma pizza à sua espera.

Together we can take it to the end of the line.

Nós nos conhecemos numa festa da faculdade. Só sabemos disso. Estávamos os dois bêbados demais para lembrar de qualquer detalhe. E olha que tentamos reconstituir os eventos daquela noite no dia seguinte, enquanto lutávamos contra a ressaca e tentávamos achar nossas roupas naquele quarto desconhecido para ambos. Foi um grande fracasso: não conseguimos lembrar de quase nada, perdemos feio para a ressaca e não encontramos a camiseta dele nem minha calcinha.

Saímos daquele lugar de fininho e cheios de vergonha, com planos de não nos vermos nunca mais. Porém, ele estava usando meu kimono favorito. O mínimo que eu poderia fazer após tudo o que houve entre nós, e de que não lembro, mas tenho certeza de que foi muita coisa, haja vista o estado em que acordamos, era emprestar-lhe meu kimono, ou ele seria barrado no ônibus no meio de uma ressaca feroz. Então, trocamos telefones, para que ele pudesse devolvê-lo.

Aproveitamos e nos apresentamos.

Lembro de ter olhado enquanto ele se afastava e ter pensado, diante da visão daquele rapaz usando um jeans muito surrado e kimono de flores de cerejeira em fundo preto que eu jamais o veria de novo.

Claro que, naquele momento, eu pensava no kimono.

Felizmente, estava enganada. Alguns dias depois, ele me ligou e combinamos de nos encontrar. E, num café pequeno, saboreando pães de queijo requentados e um cafezinho superfaturado, ele me devolveu o kimono, lavado, passado, dobrado e cheiroso. Eu me apaixonei.

Turn around bright eyes.

Sempre brincamos que um dia teríamos que combinar uma história menos vexatória para contar aos nossos filhos. Combinamos algo no estilo papai conheceu mamãe numa ação humanitária para construir casas na Guatemala, pouco depois de mamãe sair do convento e papai do colégio de padres. O primeiro beijo? Ah, foi depois de três meses de namoro, quando papai pediu a mão de mamãe ao vovô.

Essa história foi sendo incrementada com o passar dos anos, ganhando elementos cada vez mais épicos e românticos, envolvendo subtramas complicadas, uma gêmea maligna, duelos de espadas, realmente, nós não lidamos bem com limites.

Pena que essa história nunca foi usada.

 

 

2

Duas horas depois de sair do escritório, desconfiando de que teria chegado mais rápido se tivesse vindo a pé, chego em meu prédio. Como uma recompensa cármica por todos os perrengues nesse dia de merda, a garagem está quase vazia e minha vaga favorita, inteiramente à minha disposição. Sinto uma felicidade tão genuína que preciso me esforçar para não sucumbir ao impulso de estacionar na diagonal, ocupar três vagas sozinha e sair dançando.

Saio do carro, estico as pernas, tento relaxar a lombar. E ouço aquela voz áspera, vinda das profundezas do inferno.

— Está se preparando para fazer mais barulho e me impedir de dormir de novo?

Claro que meu carma não podia ser tão positivo assim. Eu teria que ter milhares de dias de merda para acumular o merecimento de me ver livre dessa jararaca da dona Matilde, ou, como eu a chamo, a Bruxa do 71.

É daquelas coincidências do universo. Ela é uma bruxa, no sentido figurado, claro, não tenho nada contra a religião Wicca, aliás, me identifico muito, mas ela é bem o estereótipo da bruxa pré-harry-potter, daquelas bruxas raiz, de conto de fadas. É bruxa no sentido de surucucu mesmo. De quebra, mora no 71. E ainda se chama Matilde, que rima com Clotilde, a eterna vizinha do seu Madruga.

Respiro fundo, vou manter a educação.

— Boa noite, dona Matilde. Encontrou vaga para sua vassoura?

Menti, não vou não.

Dona Matilde se empertiga, estufa o peito, a imagem da indignação justa.

— Costumava só ter gente de nível neste condomínio.

— É mesmo? Antes da senhora se mudar para cá, né?

Ela, é claro, me acompanha até o hall dos elevadores.

— Pois, no meu tempo, as pessoas tinham educação.

— De fato, muita coisa mudou desde a época de Matusalém.

Seguimos conversando, trocando amenidades.

— Eu sei que não adianta falar…

— E vai falar mesmo assim?

— … mas eu não aguento mais o barulho do seu apartamento.

— Dona Matilde, a senhora mora do meu lado. Quem poderia reclamar é a dona Araci, que mora no andar de baixo e, veja só, dona Araci não reclama de nada, diz que somos silenciosos, os melhores vizinhos de cima que ela já teve.

— A Araci é surda feito uma porta.

— Somos só eu e meu marido em casa, nem crianças temos, que barulho é esse que tanto a perturba?

— É o que quero saber. Eu não consigo dormir com a barulheira.

— A senhora já parou para pensar que pode ser a sua consciência pesada que a impede de dormir?

O elevador chega. Entramos e, quando ela ia responder, é interrompida pela entrada de dona Araci. Surda ou não, manter o silêncio no elevador é praxe, afinal, o resto do prédio não precisa saber do que se passa no nosso andar. Nós, do sétimo, lavamos a roupa suja em casa. Só depois de descermos, ela prossegue.

— Minha consciência está tranquila. Pelo menos eu não misturo o lixo orgânico com o reciclável. Como uns e outros.

— Agora a senhora virou fiscal de lixo também.

— Eu tenho senso comunitário.

— E eu tenho mais o que fazer.

— Malcriada.

Ela entra no 71 e fecha a porta atrás de si.

Mostro a língua.

Malcriada, pois sim.

 

 

3

Depois de muito esforço, consegui encaixar uma rotina de treinos nos meus dias. O fato de Marcel ser personal trainer ajuda muito, claro. É ele quem monta minha planilha de treinos, embora jamais possa me acompanhar. Afinal, só consigo ir à academia em seu horário mais requisitado.

Eu acho ótimo. Para mim, treinar é um ato solitário. Enfio meus fones no ouvido e interajo minimamente com os demais seres humanos.

Cheguei cedo hoje, ainda está meio escuro e a academia está totalmente vazia, o que é bem incomum. Pego minha planilha, que diz que hoje é dia de costas e bíceps. Odeio. Mas também, de qual treino eu gosto? Vou pegar os halteres, contrariada e, neste curto caminho, meu ódio embola no estômago e vai virando uma revolta muda, uma indignação inexplicável. Não quero fazer remadas, nem roscas. Só de pensar nisso, quero socar algo. Alguém.

Talvez seja a perspectiva do que me espera no trabalho hoje.

As coisas andam caóticas por lá. Só ontem recebi três avisos de licença maternidade. Desde o início do mês foram mais duas. E no mês passado haviam sido três. A empresa é pequena, trabalhamos com equipes enxutas, o que significa que precisamos de oito pessoas para cobrir as que estarão fora nos próximos meses.

Enquanto as solicitações estavam partindo de departamentos diversos, estava tudo sob controle, ao menos para mim. O problema do meu departamento é encontrar pessoal temporário e lidar com as queixas dos demais líderes, de que teriam que treinar os temporários em caráter urgente e, bem… temporário. Né?

Sem falar na queixa não dita em voz alta, mas que pode ser claramente lida nas expressões gerais. Essa é a pior, e penso que talvez seja ela a principal fonte de minha irritação hoje. “Isso que dá contratar tanta mulher”. Eles pensam isso. Não falam porque não são nem bestas. Mas as palavras estão na ponta da língua, prontas para cometer sincericídio. Sinto também a acusação muda. “Um homem na gerência do RH não teria caído na besteira de contratar tanta mulher”.

Talvez minha batata esteja assando.

Diante disso, o que eu faço? O que toda mulher faz: reconhece que está quase sempre pisando em território hostil, ignora e segue em frente. Porque se for parar para pensar, porque se minhas preces forem ouvidas e Deus me der força, ah, ele não faria isso, famoso que é por não dar asa a cobra.

Então eu ignoro, visto minha melhor máscara de gueixa, totalmente desprovida de emoções, e saio em busca de recursos. E tudo bem, porque buscar pessoas é a parte boa do meu trabalho e porque, quanto às reclamações, só posso mesmo emprestar meu ouvido, minha cara de sonsa e uma quantidade limitada de empatia, afinal, estou feliz pelas futuras mamães. Sim, estou feliz.

Até que chegaram, juntas, exatamente ao mesmo tempo, as três solicitações de ontem. As três do meu departamento. Agora, preciso encontrar substitutas para três excelentes funcionárias, que são 90% do meu departamento, a tempo de serem treinadas e nem tenho com quem reclamar.

Um rapaz entra na academia. Trocamos um bom dia e nos ignoramos mutuamente.

Sem falar no medo de que elas, todas ou algumas, decidam não voltar ao trabalho. E se elas resolverem ficar em casa, cuidando de seus bebês? Eu ficaria feliz por elas, claro. Desejaria o melhor a cada uma delas, que durante anos cumpriram suas atividades com competência e dedicação. E ficaria feliz. Sim, ficaria.

Agora, preciso reconhecer que estou meio magoada com as três.  Maria, Marina e Mariana. Nós quase sempre almoçamos juntas. Evitamos falar de trabalho no almoço, conversamos amenidades, falamos sobre filmes, séries, música. Nos últimos meses, notei que elas estavam mais cheinhas, mas, obviamente, não disse nada. E, então, depois de guardar segredo por seis meses, elas jogaram a bomba na minha cabeça. Três bombas. Fiquei feliz por elas, fiquei sim.

Porém, elas esperaram o fim do segundo trimestre para me avisar.

Penso no porquê de elas guardarem segredo de mim por tanto tempo. Elas vieram até minha mesa juntas, se sentaram e Maria disse as notícias. Depois, ficaram um tanto tensas esperando por minha reação. Mariana olhava para o chão, como se conferisse o piso falso. Marina parecia prender a respiração. Por que tanta tensão? O que acharam que eu fosse fazer?

Olhando em retrospecto, minha reação foi um tanto fria. Não lembro muito bem, ainda estava um tanto surpresa e, não vou negar, chocada, e acho que não as abracei. Eu dei a cada uma delas um aperto de mão, gesto estranho e desconfortável. Em seguida, fui ao banheiro. E não almocei com elas. O dia estava corrido.

O que há de errado comigo?

Para falar a verdade, não é algo assim tão estranho que alguém espere alguns meses para anunciar a gravidez. E se alguém deveria entender o porquê, esse alguém sou eu.

É que está tudo muito difícil. O mercado está ruim para contratações, ainda mais temporárias. Isso é um bom sinal, sinal de que a economia está bem. Mas e eu?

E eu?!

Que pergunta besta e sem sentido. E egoísta. Eu, eu, eu! Dane-se. Não tenho nada a ver com isso, com toda essa história de maternidade. Que sentido haveria em imaginar o que eu faria caso tivesse um filho?

Faria nada, é isso.

Minha vida continuaria igual, girando ao redor dos mesmos eixos. Voltaria da licença maternidade, meu filho ficaria com a babá ou em um bom berçário, eu passaria o dia inteiro trabalhando e me remoendo de culpa, compensaria essa culpa sendo permissiva com relação a doces e ao tempo de tela e depois viraria tema das sessões de terapia dele, quando fosse adulto.

Normal.

O rapaz deixa cair o halter no chão. Eu me assusto.

Ou, talvez, quem sabe, eu parasse de trabalhar por alguns anos e fosse mãe em tempo integral? Marcel aprovaria, tenho certeza. Nunca conversamos sobre isso. Mas, tenho certeza de que ele concordaria com a ideia, ou, mais precisamente, que ele concordaria com o que parecesse melhor para mim. Eu, então, passaria dias trocando fraldas, preparando papinhas, brincando com o bebê, cuidando da casa. Um cenário tão absurdo! Impossível de imaginar e de decidir se isso seria o paraíso ou o inferno, pois teria um pouco de cada.

Não fui feita para isso.

E, se eu parasse de trabalhar por alguns anos, como voltaria para o mercado de trabalho? O que eu colocaria no currículo nestes anos de vazio profissional? Este é o tipo de dúvida que eu, gerente de RH não deveria ter. Mas que, na verdade, tenho justamente por ser gerente de RH.

Se eu estivesse falando para outra pessoa, diria que isso não é um problema. Coloque no currículo que você estava vivenciando a maternidade em tempo integral, as empresas compreendem e, inclusive, veem com bons olhos, todos sabem que a maternidade desenvolve fortemente um importante grupo de soft skills, blábláblá.

Mas não estou falando para outra pessoa e sei quando estou mentindo. Na prática, é tudo menos bonito e muito diferente. Você teria ficado fora do mercado por uns sete anos, talvez mais. Até lá a tecnologia, as relações e o mercado teriam mudado tanto que as IAs já estariam no comando.

Boa sorte tomando de volta seu lugar nesse novo mundo, sendo que neste mundo velho aqui a vida já não é nenhum morango.

O fato é que nunca pensei muito sobre isso, se eu pararia de trabalhar, se continuaria. Nesse sentido, meu conselho sobre o assunto é tão inútil quanto o de um homem.

O rapaz deixa cair o halter novamente. Por que não pega um peso que aguente? Julgo mesmo, esses treinos com ênfase no ego. Irritante. Tudo me irrita.

Se eu parasse de trabalhar, pararia pensando em não voltar para minha área. Já me protegeria da desilusão. Estudaria alguma outra coisa, talvez empreendesse.

Empreendesse. Que piada. Logo eu?

E como ficariam nossas finanças? Marcel não se oporia, se eu quisesse parar de trabalhar. Acho. Não, tenho certeza. Ele não se oporia. Mas teríamos que dar uma boa apertada nos gastos e, por apertada, quero dizer, parar de gastar com qualquer coisa supérflua, como passeios, viagens, jantares, lazer.

Será que nosso casamento sobreviveria? Talvez as coisas sejam mais frágeis do que parecem.

O mais provável é que eu continuasse a trabalhar, do mesmo jeito que trabalho hoje. O fato é que essa é uma decisão pessoal, mas as variáveis a serem consideradas são tudo, menos pessoais. Ainda bem que não preciso me preocupar com isso. Ainda bem. É um alívio. Sim, é.

Pode ser que eu tenha pensado um pouco sobre este assunto, em algum momento. É o que parece.

Agora, oito gestantes em dois meses! É alguma coisa na água da empresa? E por que não funciona com todo mundo?

Uma pergunta sem resposta.

Percebo agora que a irritação e a raiva, aquela vontade de socar algo ou alguém, acabou me levando até a esteira. O treino que Marcel me passou era de costas e bíceps. Era. Pulei sem remorso. Já estou alternando corrida e caminhada em um treino intervalado há vinte minutos, minha panturrilha dói, meu quadríceps queima, mas não sinto mais vontade de perder meu réu primário e percebo as endorfininhas cintilando pela minha corrente sanguínea e levando embora parte da irritação.

Sem falar na satisfação de fazer algo só porque sim.

4

Chego do trabalho e descubro que o elevador está em manutenção. É a terceira vez esta semana. O síndico avisou no grupo do condomínio que a empresa de elevadores trocou uma peça danificada, daí a peça trocada também deu defeito, e agora devem estar trocando mais uma vez. Resignada, vou pelas escadas.

Depois do treino da manhã, uma hora de esteira intercalando corrida e caminhada, movida pela força do ódio, minhas pernas ainda estão bambas. E a raiva passou, devo dizer. Vou subindo lentamente.

Na altura do terceiro andar, encontro a Bruxa do 71, agarrada aos corrimãos e avançando degrau a degrau, com longas pausas entre um e o próximo.

Ela olha para trás e me vê.

— Sabia. Até para subir as escadas você faz barulho. Dá para bufar mais baixo?

— E a senhora, não poderia manter a esquerda livre?

— Aqui não é a escada rolante do metrô. Tenho o direito de ocupar a escada inteira e vou ocupar.

— Oi, boa noite, dona Teodora. Boa noite, dona Matilde.

Atrás de mim estão agora o seu Luis do oitavo andar, Lucas, filho da Lucinda, do decimo, e dona Marta, que se mudou há pouco para o quarto andar.

— Boa noite, seu Luis. Olha, não sou eu que estou atravancando a escada, viu. É a dona Matilde aqui que se recusa a dar passagem.

— Eu quero me segurar com as duas mãos nos corrimãos. Do jeito que foi ensinado na palestra de segurança, a qual você, como sempre, faltou.

— Mas a senhora poderia parar, encostar, deixar as pessoas passarem, e depois voltar a subir.

— Imagina, dona Teodora, não há necessidade, ninguém aqui tem pressa.

— Obrigada, seu Luis. Ah, como é bom ter vizinhos educados.

E então, seguimos, numa fila crescente, com a chegada de mais vizinhos, subindo muito lentamente, atrás da Bruxa.

— É quem lá na frente, hein?

— É o seu Luis.

— Não, é não, tô vendo daqui. É a dona Teodora.

— Ô, dona Teodora, poderia dar uma licencinha, faz favor? Estou carregando um monte de sacolas…

— Não sou eu! É a dona Clotilde, digo, dona Matilde.

— Dona Clotilde? Quem é dona Clotilde?

— Não é dona Clotilde. É a dona Matilde, ela disse.

— Sei, a dona Matilde mora no 71.

—Tá, mas quem é a dona Clotilde?

— Não é a Bruxa do 71, do Chaves?

— Puxa, Chaves! Adoro! Ainda tá passando?

— É, dona Clotilde, só conheço essa mesma, a que gostava do seu Madruga.

— Acho que tá passando sim.

— Mas ela mora no 71?

— Nada, desde que o Silvio Santos morreu, acabou…

— Mora.

— Mora aqui? Mas a atriz já não morreu?

— Não, quem mora aqui é dona Matilde.

— Mas, peraí, é dona Matilde ou Clotilde?

— A dona Matilde era atriz?

— A dona Matilde, do 71 é quem está na frente.

— Ah, dona Matilde, daria…

— Não daria, não. Sou idosa e quero me segurar bem.

— Tá certa, a senhora tem toda razão.

— Desculpa aí, dona Matilde.

Aposto que essa sádica está se divertindo enquanto segura todos os vizinhos na escada. Já eu preciso confessar que estou grata. Minhas pernas tremem e é bom subir assim, nesse ritmo mais lento. Tanto que não insisto em minha indignação e não chamo atenção para o fato ridículo de estar metade do prédio em fila indiana na escada. Mas não posso deixar que ela pense que venceu.

— Daqui a pouco já vai ser hora de descer de novo.

— Então desce, malcriada.

—  Não dá. O prédio inteiro está preso na escada atrás da senhora.

A Bruxa parece subir cada vez mais devagar, chega a dar uma paradinha para recuperar fôlego no quarto andar, ainda se segurando nos dois corrimãos enquanto respira, dona Marta fica em seu andar, aliviada, os murmúrios crescem atrás de mim, todos querem saber quem está na frente. Por fim, ela retoma a subida ainda mais devagar, enquanto a fila atrás de nós só faz aumentar.

Por fim, chegamos ao sétimo, posso sentir o alívio da fila na escada que, por fim, avança, ainda discutindo se dona Matilde havia trabalhado em Chaves, se o nome do personagem era Matilde ou Clotilde, se a dona Clotilde morava do lado do seu Madruga ou no 71 do nosso prédio, se Chaves ainda estava passando na TV e se alguém tinha os DVDs de Chaves para emprestar.

Enquanto isso, dona Matilde segue com andar claudicante até seu apartamento, abre a porta, me dá uma banana e entra.

 

 

5

Este é o nosso restaurante preferido para conversar. Foi Sofia quem descobriu esta pérola no Campo Belo. O serviço é péssimo e a comida é mediana, então o lugar está sempre vazio. E a carta de vinhos é ótima. O que importa é que nunca tem fila e podemos conversar tranquilamente por horas, sem ser incomodadas. Os garçons nem notam a nossa presença.

Chegamos praticamente juntas, brincamos com a ideia de nos sentarmos cada uma em uma mesa e, por fim, escolhemos a mesma de sempre, a um canto, encostada na janela.

— Não gosto de cantinhos. Os garçons sempre esquecem dos cantinhos. — Sofia é uma pessoa prática, nunca prefere algo por preferir. Há sempre uma razão.

— Mas aqui não tem problema. Os garçons esquecem de todos igualmente. — Catarina acenou para o garçom, que nem a viu.

— Amo este lugar.

Olhamos o cardápio por hábito, já sabemos o que vamos pedir. Filé grelhado e salada. É o melhor. Em todos os anos que frequentamos este lugar, descobrimos que este é o prato mais seguro. Nem mesmo Sofia, tão desastrada, nem Catarina, incapaz de cozinhar um ovo, conseguiriam estragar algo tão simples. E uma garrafa do cabernet sauvignon de rotulo lilás com nome engraçadinho.

— Como vão as coisas? — Começo perguntando a Sofia. — Simão está bem? Os meninos?

— Tudo bem. Foram para o clube. E o Marcel? Não tinham planos para hoje?

— Ele está bem. Hoje ele vai passar o dia fora. É o dia do Mister M.

— Ah. — Sofia já conhecia esta história.

— Quem é esse? — Cat ainda não.

— O cliente misterioso, um sujeito excêntrico e riquíssimo que não sai de casa. Duas vezes no mês, Marcel vai treiná-lo e passa o dia todo lá.

— Na casa dele?

— O cara tem uma academia enorme, completa, só para ele.

— Nada mal.

Sofia resolveu cortar direto para o assunto.

— Alguém falou com papai esses dias?

— Você quer saber se Teodora conversou com ele, né? Porque pra mim, Catarina, você pediu pra não o incomodar.

Sofia respira fundo.

— Quero saber se vocês duas falaram com ele.

— Então tá. Eu falei. ­

— Pô, Cat, eu pedi pra você não o incomodar!

— Só liguei pra falar mal de você.

Sofia suspira, resignada.

— E você, Teo?

— Liguei, como sempre. Não notei nada de estranho. Ele estava com um pouco de pressa, disse que tinha um compromisso.

— Isso quando? — Sofia perguntou, alarmada.

— Quarta à noite.

— E o que ele teria a fazer numa quarta à noite?

— Pô, Sofi, sei lá. Passear, encontrar amigos, ir ao cinema. Coisas que as pessoas fazem numa quarta à noite.

— Ah, não sei. Alguma coisa está errada.

Os pratos chegam, em tempo recorde. Demoraram menos de uma hora.

— Meu filé veio com ovo por cima. — Sofia nunca gostou muito de ovo.

— Dá pra mim, preciso mesmo bater a meta de proteína. — Cat troca de prato com Sofia. Pelo jeito, esse negócio de Projeto Cavala 3.3 é mesmo sério.

— Aqui, a gente sempre sabe o que vai pedir, mas nunca sabe o que vai receber. É emocionante.  Amo este lugar. — Não me canso de dizer.

Apesar dos erros, a comida é bem feita, nunca decepciona. Talvez a demora dos pratos seja parte fundamental desta impressão, já que aumenta a fome. Se bem que, a fome também piora o humor. Enfim, retomo o assunto, pois essa insistência de Sofia está me deixando intrigada.

— Sofia, vamos lá. O que está pegando? Por que essa preocupação toda com papai? Ele me pareceu normal.

— Sim. Mas, se não estivesse normal, ele nos contaria? Olha, acontece que há duas semanas eu fui buscar o Zion numa lanchonete e vi papai saindo de uma casa. Fiquei curiosa e fui lá ver o que era.

— Xereta.

— Intrometida.

— Fui mesmo. E era um consultório médico. Oncologista.

— Ele pode ter ido acompanhar alguém. — Cat mastigava, despreocupada.

— Ele saiu sozinho, ô, tônha.

— Tônha é você.

Sofia ignora Cat e prossegue.

— Daí, mais tarde fui ver papai e perguntei, casualmente, o que ele tinha feito no dia tal e ele mentiu na minha cara. Disse que tinha ficado em casa o dia inteirinho.

— Ele não quis ficar dando satisfação. Ele odeia se explicar, você sabe disso. — Às vezes, parece que só eu entendo papai.

— Mas, Teo, ele chegou a dizer que ficou assistindo filmes. Disse que assistiu Os Amantes do Círculo Polar, Lanternas Vermelhas e Dersu Uzala.

— E daí? Papai sempre gostou desses filmes esquisitões. — Nem preciso dizer que Cat só assiste filmes blockbuster.

— Daí que você já viu papai dar tanto detalhe? Eu vivo preocupada com ele, sempre pergunto o que ele fez, por onde andou, quem encontrou. E as respostas dele são sempre “sei lá”, “por aí” e “uns amigos”.

Sofia tem razão. Papai não gosta de se explicar e não se explica mesmo.

— Desta vez, contou que ficou em casa, não saiu para nada, pediu uma quentinha para o almoço, que quem foi entregar foi um rapaz diferente do de sempre, que depois de lavar a louça ele sentou no sofá e assistiu os filmes na sequência porque ele acha que faz sentido e que depois esquentou o resto da quentinha para o jantar e que não saiu em nenhum momento e comeu sozinho e foi dormir.

— Nossa, quanta informação. — Estranhei.

— Não é? Tenho ou não tenho razão de estar com uma pulga atrás da orelha?

Pouso os talheres no prato e digo o que me parece óbvio.

— Ele pode ter ido fazer exames.

Sofia, faz uma pausa, busca palavras. Por fim, repete.

— E é isso que me preocupa.

Cat observa Sofia de canto de olho.

— Mas isso não quer dizer nada. Ele pode ter ficado cismado com algum sintoma genérico, fez exames, deu negativo e não quer cometar nada pra gente não ficar pegando no pé dele, querendo controlar o colesterol, a glicemia e o sal.

— Será? Tomara.

— Aliás, você foi buscar Zion onde mesmo? — Pergunto.

— Como assim?

— Em qual lanchonete ele estava?

— No Hamburgão.

— Na Vila Mariana? Perto do metrô?

— Sim.

— E um rapaz de dezessete anos não consegue voltar sozinho, ainda mais morando a quatro quarteirões de uma estação? — Catarina se esforça para não rir.

— Ele não gostou muito de eu ir busca-lo, mas…

Eu ia voltar a comer, mas paro com o garfo a meio caminho da boca.

— O quê? Você foi buscar o menino sem que ele pedisse?

— Sofia do céu, que mico…

— Já estava por lá, na manicure, não custava nada.

Eu e Catarina nos entreolhamos, segurando o riso. Catarina não se aguenta.

— Que manicure? Você sempre vai no salão perto de sua casa.

— Ah, me deixem! Chamei vocês aqui para falar de papai. Não para vocês julgarem minhas decisões de mãe.

— Não estamos julgando… ­

— Fale por você, Teo. Eu estou julgando sim. Lembra quando Naomi era bebê? Você vivia no pronto socorro com ela. E pelos motivos mais bestas. Nariz escorrendo, febre, vermelhidão na bochecha.

— E eu sou uma idiota. É isso?

Neurótica, talvez. Encanada, com certeza. Idiota? De jeito nenhum.

— Não, Sofia. É só que você gosta de se preocupar.

— Eu gosto de me preocupar? Ah, essa é boa. É ótima, aliás. Eu gosto de me preocupar. Então vamos fazer assim? Eu vou parar de me preocupar com vocês. Vou abrir mão desse gosto. Que tal?

— Você se preocupa conosco? — Fico surpresa, de verdade.

— Claro, eu gosto de me preocupar, não é? Não foi isso que você disse? Como se fosse uma escolha. Eu levei sim a Naomi ao pronto socorro por mil motivos bestas. E graças a Deus não era nada. Mas, e se fosse? Quanto antes soubesse seria melhor. E prefiro levar e buscar Zion para toda parte porque é mais seguro assim. Ninguém sabe o que pode acontecer, só tem doido na rua hoje em dia. Já me basta ele ficar de cara fechada porque, segundo diz, atrapalhei o passeio.

Catarina ri.

— Mas atrapalhou mesmo, né, mana. Eles podiam estar combinando de ir para algum outro lugar depois dali. Ou ele podia estar pensando em chamar alguma garota para o cinema. Mas em lugar disso, pegou carona com a mamãe.

— Ele me diria se tivesse planos para depois.

— Claro. Adolescentes são famosos pelo hábito de contar tudinho para a mãe. — Catarina segue, implacável.

— Vocês não entendem. Quando forem mães, vão me dar razão.

Cat pesca uma azeitona da salada.

— Ih, nem vem. Estou ótima assim.

— Cat, você tem 32 anos. O relógio biológico não tocou, não? — Sofia está incrédula.

— Não. E se tocar, taco na parede.

— Não pensa em ser mãe?

Ela responde rápido, segura, sem a mínima hesitação. Um assunto resolvido.

— Não.

A firmeza da resposta parece exasperar ainda mais Sofia. E me surpreende.

— Mas, e se você mudar de ideia e for tarde demais para engravidar? Não tem medo de se arrepender?

— Que besteira. E se eu tiver um bebê e mudar de ideia sobre ser mãe? Isso sim é assustador. Não tem para onde devolver, não tem como desfazer, não dá pra virar para uma criança e dizer, olha, sinto muito, não é você, sou eu.

As palavras de minha irmã me alcançam de forma estranha. É como pisar em um exoplaneta.

— O risco de arrependimentos está em tudo. Nós passamos a vida fazendo escolhas e o fato é que jamais saberemos como teria sido se tivéssemos tomado outros caminhos.

A mesa fica silenciosa por um tempo. Minhas irmãs observam enquanto torno a encher minha taça e sinalizo para o garçom trazer mais uma garrafa. O garçom não me vê. Está concentrado em seu celular. Percebo os olhares de minhas irmãs sobre mim.

— O que foi?

— O Marcel nunca mudou de ideia?

— Que ideia?

— Sobre ter filhos. Ele nunca quis mesmo?

Minha boca está aberta. Nunca pensei essa tivesse sido a conclusão delas. Eu nunca disse nada e elas nunca perguntaram nada e pensei que tudo tivesse sido magicamente compreendido. Sofia continua, parece meio surpresa com minha reação.

— Quando vocês se casaram, ele sempre dizia que era muito cedo. E era mesmo, vocês tinham acabado de sair da faculdade. Mas, o tempo foi passando e vocês nunca mais tocaram no assunto…

— E vocês concluíram que Marcel não queria filhos? — Eu não sabia o que pensar.

Sofia, com quem partilhei a infância inteira, se lembra de tudo.

— Ora, você sempre quis. Desde pequenininha, falava que ia ter cinco filhos. Depois mudou para seis: três meninos e três meninas.

Catarina também tem suas lembranças.

— Depois, quando se desiludiu com o amor, qual era o nome mesmo daquele bocó com quem você namorou aos dezesseis? Bom, quando você teve aquele livramento, decidiu que nunca mais se apaixonaria.

— Sim! E ainda que estivesse sofrendo pelo Jurandir mirim, prometendo nunca mais amar homem nenhum, resolveu tudo dizendo que faria produções independentes. Seis produções independentes.

— Então, é claro que Marcel é quem não quer. Não é?

Silêncio.

— Não é?

Minhas irmãs estão totalmente estupefatas. Olham de uma para outra e depois para mim, como se me vissem pela primeira vez. Suas expressões vão da confusão para a incompreensão, para a descoberta e a pena e, de repente, é demais para mim.

Estouro em uma gargalhada que consegue a façanha de chamar a atenção do garçom.

 

 

6

A noite tem um cheiro próprio, um cheiro fresco, parecido com o de chuva.

Perdemos a sessão de teatro, presos num trânsito fora do normal para um sábado, embora em São Paulo, sábado seja quase um dia útil e todo dia é dia de trânsito. De segunda a sexta, pessoas em seus carros cruzam a cidade para ir e voltar do trabalho, da escola, dos muitos compromissos. Nos finais de semana, as mesmas pessoas em seus carros voltam a cruzar a cidade para curtir seu abençoado descanso e ir ao clube, ao parque ou à praia do paulistano: o shopping.

Eu me pergunto: que descanso é esse? Descanso evoca, para mim, a imagem de um sofá velho, já meio puído e muito aconchegante e meus pés para o alto, metidas em meias velhas e largas.

Mas, cada um com suas escolhas, não é mesmo?

— Pena que perdemos a hora. Você queria tanto assistir esta peça.

Olho para Marcel, andando a meu lado, mãos nos bolsos, apertando meu braço enroscado no dele. Ele está aqui e, ao mesmo tempo, não está. Suas palavras são sinceras e, ao mesmo tempo, soam protocolares. Não sei o que está acontecendo conosco.

— Podemos assistir outro dia. — Tenho certeza de que não assistiremos, mas respondo no automático, também protocolar.

— Hoje era a última sessão.

É estranho que seja ele a lembrar deste detalhe. Sou sempre eu que olho este tipo de coisa. Acho que estamos mudando.

— Neste caso, vou te culpar por termos perdido a hora.

— Me culpar?

— Claro. A culpa é minha, ponho em quem eu quiser.

Ele ri. Parece mais próximo agora. Realmente, a culpa é minha. Troquei de roupa quando vi que minha primeira escolha estava manchada. Depois, minha segunda escolha estava amarrotada, fui passa-la e descobri que o ferro estava queimado. Troquei de roupa novamente e, por fim, esqueci meus óculos e precisei voltar para o apartamento para busca-los.

Marcel fez o que pode. Largou o carro no que parecia ser uma vaga milagrosa ou bem poderia ter sido o meio da rua. Saberemos quando voltarmos ao local e tiver um cavalete do CET com as instruções para recuperar o veículo. Saímos correndo pela Paulista, cogitamos pegar o metrô, desistimos, fomos correndo mesmo até o teatro, só para dar com a cara na porta.

Estamos agora caminhando muito lentamente em direção ao ponto em que abandonamos o carro, sem pressa para descobrir se ele está lá. A lentidão é uma mistura da necessidade de recuperar o fôlego com um estranho relaxamento.

— Olha, não era aqui que ficava aquele restaurante em que a gente almoçava?

Teve um tempo em que trabalhávamos nas imediações. Ele, dando aulas em uma academia, eu, trabalhando em um banco.

Avenida Paulista. Talvez haja, na cidade, avenidas mais bonitas. Mas todas são vias que fazem sentido por sua utilidade: ligar o ponto A ao ponto B. Suportar muitos carros e ônibus em suas superfícies e metrôs em suas entranhas. A Paulista, além disso tudo, existe por si mesma. Ela é mais que um trajeto. É um percurso. O percurso importa.

Caminhando por ela, sinto que a vida está acontecendo, percebo histórias se desenrolando ao meu redor, nas palavras dos vendedores ambulantes, nas conversas que escapam e entram em meus ouvidos, nas pessoas consultando seus celulares. Todos figurantes na minha história. Ou talvez, uma ideia mais reconfortante para mim, é que seja eu a figurante da vida daquele rapaz que acabou de entrar correndo no ônibus.

— Qual era o nome mesmo? — Tento buscar na memória, enquanto vejo o rapaz se acomodando no ônibus.

— Do quê?

— Do restaurante. — O rapaz se senta, o ônibus parte, minha figuração acabou.

— Michelangelo, não era?

— Era parecido.

— Era Michelangelo, sim.

— Da Vinci?

— Começava com M, certeza.

Pensamos um pouco. E a lembrança nos atinge ao mesmo tempo.

— Monalisa!

Rimos.

— Será que ainda existe?

O restaurante ficava na parte de trás de um prédio comercial, uma área aberta, meio escondidinha, uma espécie de galeria externa. Agora, uma corrente de plástico fecha a área, dizendo ao público “não entre”. Ignoramos, pulamos a corrente e vamos até nosso ex-restaurante. Que tinha virado nada. Estava fechado, com uma placa tristonha de “aluga-se”.

Pulamos a corrente de plástico, de volta à calçada e à legalidade.

— Que pena. Eu gostava tanto da panqueca deles. — Marcel olha para o prédio, nostálgico.

— Não. Daqui você gostava do supremo de frango. A panqueca era das tiazinhas.

— Tiazinhas?

— É! Aquele restaurante no primeiro andar de um prédio do lado do Conjunto Nacional. Que tinha aquelas três tiazinhas: a sorridente, a brava e a avoada. A especialidade delas era panqueca.

— Tem certeza? — Ele pergunta, mas sua expressão é de quem começa a lembrar.

— A gente escolhia duas panquecas entre as opções do dia, e vinham com arroz, feijão, salada.

— Hum.

— A brava gostava de você, sempre trazia um brigadeiro de sobremesa. Só para você.

— Ciúmes?

— Claro! Eu também queria brigadeiro. Lembra agora?

— Lembrei.

É reconfortante partilhar memórias. Às vezes, depois de um tempo, tudo parece meio irreal. Será que existiram mesmo três senhoras que tinham um restaurante de panquecas? Será que tinha mesmo um restaurante na parte de trás de um prédio? Houve mesmo um tempo como aquele?

—  Acho incrível essa sua memória. — Marcel tira a mão do bolso e segura a minha.

— Ela só serve para informações inúteis. E comida.

— Neste caso, fale mais sobre o supremo de frango do Monalisa.

— Era o prato da terça-feira. Você sempre queria almoçar lá às terças.

— Duvido que você se lembre do que vinha no prato.

— É um desafio?

Marcel ri.

— Óbvio.

— Pois bem. O supremo de frango acompanhava arroz e creme de milho, mas você sempre pedia uma mini porção de salada russa.

— Nossa, minha boca encheu de água.

— Lógico, a gente não para de falar de comida.

— Vamos jantar?

Vamos andando e, sem combinar, entramos em um restaurante que parece convidativo. Fazemos os pedidos e esperamos, olhando pela janela um movimento intenso de pessoas que parecem estar indo a uma festa.

— O Conjunto Nacional ainda existe? — Marcel quebra o silêncio.

— Existe, ué. Acabamos de passar na frente.

— Sim, mas continua se chamando Conjunto Nacional?

— Continua. Acho. — Na verdade, não sei.

Fico confusa. As coisas mudam tanto e tão velozmente. Construíram um prédio novo em nossa rua, que subiu rápido, em alguns meses estava pronto e habitado e, de repente, não consegui me lembrar do que havia estado antes naquele lugar, por anos. Certamente, não era um restaurante, ou eu me lembraria.

— Existia o Conjunto Nacional e, na Augusta, o Espaço Nacional de Cinema. Você vivia me arrastando para lá pra ver filmes chatos. — Marcel continua.

O que posso dizer? Meu gosto para filmes foi fortemente influenciado por papai.

— Ei, eram filmes de arte, maravilhosos.

— Aham. Mas então, o Espaço Nacional, que chamava Nacional por causa do banco, virou Espaço Unibanco de Cinema. Outro nome, mesmos filmes.

É verdade.

— Depois, virou Espaço Itaú, por causa do banco. De novo, outro nome, mesmos filmes. — Ele continua.

— Acho que mudou de novo. ­— Tento puxar pela memória, mas não consigo.

— Provavelmente outro banco. Mas, na minha cabeça sempre vai ser Espaço Nacional. Estou virando um velho. E, nesse tempo todo, o Conjunto Nacional continua sendo Conjunto Nacional mesmo?

— Não devia ter nada a ver com o banco.

— É.

Ele parece meio triste, meu coração se aperta. A memória é um terreno pantanoso e solitário. As coisas se perdem, se lascam e se esvaem, formando um museu de coisas perdidas. O outro, nessas horas, é um pedaço de terra firme, a dizer, eu lembro, também estive lá, vi o mesmo que você.

— Odeio esses naming rights — ele continua. — Aliás, como se diz naming rights em português? Direitos de nome mesmo? Soa feio em qualquer língua. É um jeito de fazer as coisas mudarem de nome o tempo todo e nada ser lembrado pelo que é.

— Tem razão, vovô.

— Ando meio ranzinza, né?

Sorrimos um para o outro. Estamos ranzinzas. É o que a passagem do tempo faz com as pessoas. Tende a piorar, imagino. Quanto mais tempo, mais coisa fica para trás, o espaço pantanoso das memórias fica mais vasto e o mundo faz cada vez menos sentido. Talvez seja um mecanismo da vida para deixar a morte mais palatável.

Mas não quero pensar em nada. A conversa com minhas irmãs me deixou pensativa, fermentando sentimentos e imaginando cenários irreais de tantas coisas que me enchem de medo e frio na barriga. A vida atualmente pode não ser perfeita, mas é uma grande bolha confortável.

Marcel olha pela janela. Será que ele tem vontade de se juntar àquelas pessoas desconhecidas e ir a uma festa misteriosa? Se eu levantasse da mesa agora e me juntasse a eles, ele viria junto?

De repente, sinto algo transbordar dentro de mim e vazar na forma de palavras que tenho dificuldade de reconhecer como minhas:

— Quero adotar uma criança.

7

A menina anda de mãos dadas com o pai. Ela tem sete anos e toda a energia e curiosidade do mundo. Na outra mão, o pai carrega uma sacola com pães, frios, pães de queijo e mini sonhos.

Ela fala sobre tudo o que aconteceu desde a última vez em que ele esteve com ela. Fala tanto que nem parece que foram apenas duas semanas.

O cachorro da vizinha fugiu duas vezes. O marido dela, que não quer usar óculos de jeito nenhum, trouxe de volta outro cachorro, jurando que era o velho Toddy. Só se convenceu de que era o cachorro errado quando tomou uma mordida. Então, a esposa o levou ao posto de saúde para tomar antirrábica, xingando muito e falando que era tudo ela, tudo ela. No fim do   dia, Toddy voltou para casa como se nada tivesse acontecido. E agora estão com dois cachorros.

E tinha também o Enzo, menino da casa ao lado, que ia se casar. A mãe dele estava muito brava.

— Dá pra casar sem ser adulto, papai?

— Dá, mas é melhor não.

— Como nos contos de fada, né, papai?

— Nos contos de fada?

— Sim. Nas histórias que você conta na hora de dormir: “…terminaram a faculdade, depois se casaram e foram felizes para sempre. E fim”. Não é?

— Isso mesmo — ele riu. O que diriam Andersen e os irmãos Grimm se soubessem de suas mudanças no final das histórias? O que pensariam eles de uma Cinderella formada em Filosofia, ou uma Branca de Neve bacharel em Física?

— Tem que terminar a faculdade, e só depois casar, não é pai?

— Isso mesmo.

— Mas o Enzo só tem dezesseis anos. E repetiu duas vezes o oitavo. Ele não tem faculdade.

— É, ele não tem.

— E como, pai? Por quê? Por que, então ele vai se casar?

O pai olha para os lados. Torce para ser salvo por alguém ou alguma coisa, um terremoto, uma hecatombe, uma abdução alienígena, qualquer coisa. Nada. Nina, é este o nome da garota, olha para ele, esperando uma resposta.

— Ele deve ter feito coisas de adulto, que ainda não deveria fazer. E agora, vai precisar assumir responsabilidades de adulto.

— Acho que não. A mãe dele estava falando para a minha mãe que agora sobrou para ela porque a menina também é uma criança cabeça de vento e a família da menina toda é cabeça oca e que o marido dela, como sempre, não está nem aí. O que isso quer dizer, hein?

— Quer dizer que você não deveria ficar ouvindo as conversas dos adultos.

— Por quê, pai?

Antes que ele conseguisse conciliar uma resposta perfeita, algo que fosse ao mesmo tempo verdadeiro, não-assustador, educativo e adequado a uma criança de sua idade, ela já mudou de assunto. Ela queria morar em um prédio, porque em um prédio tem outras crianças e elas brincam juntas. A menos que ela ganhasse um irmãozinho. Aí ela não ia achar ruim morar numa casa, porque teria com quem brincar. Mas, um prédio, mesmo tendo um irmãozinho, ia ser bem legal. Isso se fosse um prédio com muitas crianças da idade dela. Se tivesse piscina, então, ia ser irado.

A conversa com Nina é assim, pensa o pai. Um assunto se conecta ao outro, as palavras vêm à tona tão logo o pensamento se forma. Seu maior deleite é ouvi-la.

— Mas, por quê, hein pai? Por que é preciso fazer faculdade antes de casar?

E, muitas vezes, os assuntos voltam, como num grande redemoinho de pensamentos que só parecem aleatórios.

— Porque casar não é só uma festa e um vestido bonito. É um compromisso que você assume com alguém. Você sabe o que é um compromisso?

— É como uma promessa?

— É como uma promessa. Se você faz uma promessa, não pode voltar atrás. Entende?

— Entendo.

O coração do pai se aperta.

— E depois de casar não dá para fazer faculdade? O casal que se mudou pra casa dos fundos da dona Amália faz faculdade. Os dois. E são casados, que eu perguntei.

— Dá sim, Nina. Mas é bem mais fácil fazer a faculdade sem tantas outras obrigações ao mesmo tempo. Só curtindo esse período bom de estudos, festas, viagens com os amigos.

— Depois de casar não dá mais para curtir?

— Dá, mas, sabe, Nina, cada coisa tem seu tempo.

— Como é a faculdade, pai?

O pai conta suas peripécias, as que podem ser contadas, claro. Inventa algumas bobagens, muda outras, diverte a menina. Ao chegarem na casa, a mãe já passou o café, aqueceu o leite e arrumou a mesa.

Após o café, o plano é passar o dia na praia. Apesar de morar em Santos, Nina não se cansa da areia, das ondas. Sua mãe, Luana, também sempre morou lá, naquela mesma casa e, tal como a menina, não se cansa do mar. Eram só ela e seu pai e, agora, só ela e Nina. Uma casa fadada a ser habitada por dois.

O dia passa rápido, como sempre, quando ele está com as duas, ele e seu coração compartimentado. Mal tem tempo de registrar o tanto que perdeu entre uma visita e outra e o dia já finda. Põe a menina na cama, após o banho e o jantar. Conta a história ao final da qual a princesa formada em Direito se casa com o príncipe formado em Medicina. Por alguns momentos, observa sua respiração profunda e tenta adivinhar seus sonhos. Por fim, vai à sala e se senta ao lado de Luana.

— Ela está crescendo tão rápido. É tudo rápido demais. Parece que estou sempre perdendo alguma coisa.

— Eu estou sempre aqui e sinto o mesmo.

— Queria poder estar mais perto.

“Você poderia”, ela pensa. “Deveria”. “Fique”. Mas ela sabia tudo sobre ele, desde que se conheceram. Sempre soube. Nunca houve segredos ou mentiras entre eles. Ela sabia como as coisas se dariam e qual seria o preço a pagar por aquele amor pela metade. Tudo que ela imaginava se concretizou. E, mesmo assim, não mudaria nada. Por fim, responde:

— Está tarde, você precisa ir.

Ele a abraça e beija seus cabelos, cheio de amor e culpa, e vai embora.

 

8

A porta se abre e dou de cara com papai. Está usando o avental que os netos lhe deram no Natal. Pois obedeço às palavras no avental e beijo o cozinheiro.

— Chegou cedo, Teo. Foi a primeira.

— Imaginei que você pudesse precisar de ajuda.

— Precisar, não preciso. Mas é sempre bom. Venha.

Ele fecha a porta e o sigo em direção à cozinha. Vejo que a casa está limpa e organizada o bastante. Limpa e organizada demais é sinal de problema. Limpa e organizada de menos, também. No caso, parece normal. Uma limpeza boa foi feita há poucos dias, provavelmente na quinta, quando a faxineira vem, mas os livros estão fora de ordem, a manta do sofá meio amarfanhada, o pote de amendoins esquecido sobre a mesinha do sofá, sinais de uma casa com vida.

É. Num dia, você é adolescente e sua mãe vistoria seu quarto em busca de sinais de delinquência, no outro você é a filha adulta vistoriando a sala de seu pai idoso, em busca de sinais de infelicidade. Minha mãe temia encontrar um pacotinho de maconha. Se ela encontrasse, eu teria que convencê-la de que era medicinal. Já eu, se encontrasse um pacotinho de maconha na casa de papai, torceria com todas as forças para que não fosse medicinal, para que fosse somente a “porta de entrada” para drogas mais fortes.

Tudo parece certo, com exceção de uma sensação estranha, que não sei precisar. Uma espécie de ausência. Deve ser bobagem minha.

De qualquer forma, ver meu pai me deixa mais tranquila. Depois de dias ouvindo as preocupações de Sofia, eu estava ficando inquieta. Porém, meu pai parece ótimo, animado, corado, parece até ter ganhado algum peso, logo ele que sempre foi tão magro. Quase diria que ele tem um brilho diferente.

— Nossa, o que é isso?

A cozinha está uma bagunça. Uma bagunça organizada, mas, ainda assim, uma bagunça. Cada centímetro da pia está ocupado por algum ingrediente ou utensílio.

— Pensei que seríamos só nós quatro hoje. Teremos convidados?

— Convidados? Não, só eu e minhas meninas.

Este é o único lugar do mundo em que sou uma menina. Em que sempre serei uma menina. Tenho vontade de saltitar.

— Mas, e esse monte de comida?

— Finalmente, depois de muito tempo, tenho minhas três filhas em casa juntas. Quis fazer o prato preferido de cada uma.

­— Não acredito. Então, vamos ter estrogonofe de frango, bife à parmegiana e lasanha?

— Isso mesmo. Estrogonofe de frango com arroz branco e batata palha, bife à parmegiana com arroz à grega e fritas e lasanha com almôndegas. E salada verde. Aqui, filha, corte estas batatas em palitos finos, por favor.

Estar nesta casa, ouvindo a respiração e os passos de meu pai, é algo que sempre me conduz a um estado mental de clareza. Enquanto corto as batatas, observo papai montando a lasanha, fritando os bifes à milanesa, checando os arrozes. Dois tipos diferentes de arroz… só o seu Antônio mesmo.

— Depois, seque as batatas que você cortou com este pano. Esfregue bem e daí coloque na panela de óleo.

— Mas assim? O óleo está frio.

— São as minhas batatas fritas rebeldes. Vai funcionar. Confie em mim.

Um tanto relutante, jogo as batatas no óleo frio, todas de uma vez e observo enquanto ele acende o fogo. Vai contra todas as leis da batata frita. Todo mundo sabe que se frita batata aos poucos, em óleo muito quente. Ele está fritando quase um quilo de uma vez e em óleo frio.

Será que isso vai funcionar?

— Vai dar certo.

Confio. A cozinha sempre foi dele. Mamãe tinha muitas qualidades, mas o dom de cozinhar não era uma delas. Ela cuidava da casa e costurava como uma fada. A casa estava sempre impecável, organizada, nem um fiapo fora do lugar. Nós éramos sempre as mais bem arrumadas, usando lindos vestidos desenhados e costurados por ela mesma, e as mais bem penteadas, os cabelos sempre trançados ou presos em coques elaborados. As calças e camisas de seu Antônio eram passados à perfeição, exibindo vincos praticamente indestrutíveis. Mas, na cozinha, dona Suzana só sabia fritar ovo e fazer arroz.

Foi quando percebo o que foi que me causou estranhamento ao chegar.

— Papai, cadê o retrato de mamãe?

Desde que posso me lembrar, havia um grande retrato dela na parede da sala, pintado por um velho amigo do casal. Um clássico óleo sobre tela, que mostrava minha mãe em meio perfil, usando um elegante vestido verde esmeralda, contra um fundo azul. Lembro de ter pensado, algum tempo após sua morte, que talvez aquele retrato pudesse estar pesando no estado de espírito de papai e causando aquela tristeza crônica e profunda da qual ele demorou tanto a sair.

– Isso é surpresa, você vai precisar esperar suas irmãs.

E seguiu assobiando La Vie en Rose, mexendo suas panelas, arrumando os bifes à milanesa na assadeira. Estimulado por aquela panaceia de aromas dançando pela casa de meu pai, meu estômago começou a roncar forte.

— Aqui filha, belisca um queijinho.

A campainha toca, minhas irmãs entram e, de repente, estamos de volta ao passado.

A sala tem outras cores, os móveis estão arranjados de outro jeito. Estamos usando os vestidos que mamãe fazia, nossos cabelos presos, como ela gostava. Mamãe passando roupa na sala, perto da janela, papai fazendo o almoço.

O passado seduz e as memórias dominam tudo por alguns segundos. Mas, o presente convoca e, no presente, Cat e Sofia entram juntas. Sofia trouxe um pudim de leite. Catarina, um incomível chocolate proteico.

— Incomível nada. É delicioso, depois que você se acostuma. E trouxe para mim. Se não quiser, não come.

— Essa sua nutri é meio radical, não é não? — Sofia também, como eu, avalia o estado da casa, procurando por sinais de preocupação. Parece, ao mesmo tempo, satisfeita e desconfiada.

— Esse chocolate foi indicação do Marcel, tá?

Isso me surpreende.

— É? Nunca vi em casa.

— Ele sempre carrega na mochila.

Estranho pensar em quantos pequenos segredos as pessoas carregam. Segredos inocentes, que viram segredos apenas por falta de interesse das partes. Penso se guardo de Marcel algum desses segredos não intencionais, segredos culposos.

Ou dolosos mesmo.

— Bom, já sei onde não procurar doces em casa.

Desde quando papai preparava a macarronada nos domingos de minha infância, seu timing na cozinha sempre foi perfeito. Quinze minutos após a chegada de minhas irmãs, arrumamos a mesa com comida que daria para um pequeno exército. Talvez, a expectativa de papai fosse que cada uma de nós montasse seu prato com os acompanhamentos favoritos, mas o fato é que cada uma de nós pegou um pouco de tudo.

Estávamos com saudades de seus pratos, de estarmos juntos os quatro.

— Então, papai, como estão as coisas? Tem ido ao médico? — Sutileza nunca foi o forte de Sofia.

— Sim, filha, estou bem, já disse. Meus checkups estão em ordem.

— E, se não estivessem, você diria?

Papai parece achar graça.

— Meninas, eu estou ótimo. Não sei de onde surgiu tanta preocupação com minha saúde. Está tudo bem.

— É que a Sofi andou espionando você e o viu saindo de uma clínica oncológica. — Catarina conseguiu esclarecer entre uma bocada e outra de seus carboidratos favoritos.

— O quê? Você me seguiu, filha?

Sofia fica vermelha ao ser delatada, olha com raiva para Catarina.

— Eu fiquei preocupada, você tem estado estranho.

— Estranho? Eu? Como?

— Estranho, estranho. Esquisito. Não sei como explicar, mas sinto que algo está acontecendo e você está escondendo de nós. Quando é assim, eu penso mesmo no pior.

— Sofi, você sempre pensa no pior. — Catarina parece estar hoje determinada a esclarecer coisas e irritar Sofia.

Papai olha para cada uma de nós, parece ponderar por um momento e penso que Sofia pode ter razão, para além de suas preocupações infinitas e, muitas vezes, despropositadas. Ele parece prestes a dizer algo, a fazer uma revelação importante. Hesita.

Por fim, ri.

— Nunca pensei que me sentiria assim a esta altura da minha vida. Meninas, acreditem, está tudo bem comigo.  Sim, algo está acontecendo e, quando for a hora, vou contar. Mas, por, enquanto, não estou pronto para falar.

Sofia abre a boca, prestes a insistir, mas toma um chute na canela de Catarina e um cutucão de mim.

— Porém, minha saúde está ótima. Não pareço bem?

— Olha, eu ia mesmo comentar. Você está ótimo, papi. Tem usado os creminhos que prescrevi? — Cat examina o rosto de papai, com um ar profissional.

— Na verdade, tenho usado sim. São muito bons. Aquele de gotas está acabando, já.

— O sérum. Vou deixar uma receita nova. — E desta vez, quem fica de boca aberta é Catarina, que até então não havia conseguido que papai usasse um mísero protetor solar.

É quando as duas, ela e Sofia, percebem ao mesmo tempo.

— Cadê o retrato de mamãe?

— Ah sim. Isso é algo que estou pronto para contar. Tenho pensado em me mudar daqui. Quero um apartamento, que dá menos trabalho de manter, talvez mais perto das coisas. E esse retrato é enorme, não caberia no tipo de apartamento que procuro. Penso que deveria ficar com uma de vocês.

Nós nos entreolhamos.

— Se mudar? Mas você adora esta casa, sempre morou aqui.

— Sim, adoro esta casa. Cheia de lembranças boas. Vai ser difícil sair daqui.

Papai suspira, olha ao redor. Prossegue.

— Mas, a gente precisa se adaptar ao tempo. Esta casa exige manutenção constante. Semana passada mesmo, naquele dia da chuva forte, precisei limpar a calha correndo. E ela é grande demais. Se eu trocar por um imóvel menor, posso ficar ainda com um dinheirinho. Quem sabe eu viaje um pouco. E eu poderia ficar mais perto dos cinemas que passam os filmes de que gosto.

Isso faz muito sentido. O grande passatempo de papai é o cinema e os filmes de arte. Seria muito bom morar perto de um cinema que não passe só blockbuster.

— Mas, viajar? Você nunca gostou de viajar.

— Gosto sim. Sua mãe é quem não gostava muito, preferia passear por perto mesmo.

— Mas, e se você resolver se casar de novo? Não vai se arrepender de ir para um apê pequeno? — Catarina trata tudo como se fosse piada.

Papai se sobressalta. Parece chocado de ouvir essa ideia.

— Casar, eu? Ora… De qualquer forma, se fosse casar nessa idade, não seria para formar uma família grande. Um apartamentinho seria bom para um casal.

— Mas, é o retrato de mamãe…

— Tenho muitas outras fotos de sua mãe, de nós dois, de nós todos, espalhados em muitos álbuns. — Impressão minha ou ele parece… culpado?

Não esperávamos por essa. Chegamos receosas com a saúde dele, procurando por sinais de desânimo ou descuido e encontramos um homem com a cabeça fervilhando de planos, tramando alguma coisa, como uma criança travessa. Ficamos olhando para a parede vazia.

De repente, Sofia pula da cadeira.

— Eu quero! Falei primeiro!

Cat fica aliviada. O quadro jamais caberia em seu apartamento tão compacto.

Eu fico aliviada. Não o queria e não queria dizer que não queria.

— Ótimo! — Papai sai da sala e volta com um grande embrulho. — Será que cabe no seu carro?

Sofia está felicíssima. Pelo jeito, sempre amou aquele retrato.

 

9

Ouço gritos na cozinha. De novo.

Mamãe e Sofia. De novo.

Elas têm brigado todo dia. Por qualquer coisa. Mamãe é muito chata, implica com tudo. Quer que a gente seja como ela, mas não dá, puxa. Quer tudo organizado o tempo todo, tudo tem que ser do jeito dela e não tem a menor paciência, vive dando bronca.

E desse jeito, vão acordar a Catarina. Ela já não dorme a noite e agora vão acordar ela. Eu levantei para beber água de madrugada e, mais uma vez, a porta do quarto da Catarina estava aberta, mamãe tentando faze-la dormir. Ela nasceu faz quatro meses e, diferente de mim e de Sofia quando éramos bebês, isso é o que mamãe fala, Catarina não dorme mais de três horas seguidas.

Os gritos estão ficando mais altos e estridentes.

— Tudo do seu jeito, né?

— O que você quer da vida?

— Eu não sou você!

— Você fale assim com os outros, comigo não.

— O que você quer de mim?

— Um dia eu não vou estar aqui e você vai ver!

— Você nunca me ouve.

— Mas quando precisa de mim, aí sou ótima, né?

— Eu não sou suas amiguinhas.

— É pra eu responder ou não?

— É sempre assim, parece que estou falando com a parede.

— E saindo escondida de madrugada feito uma, uma…

Xi, mamãe descobriu.

Duas noites atrás, Sofia saiu de casa de madrugada. Tinha uma festa na casa do Tato, que ia começar às 11:00 da noite para terminar só de manhã, cheia de gente legal, mais velha, nada dos menininhos da nossa turma da escola, até o primo do Tato que está na faculdade ia. Só que nossos pais não deixam a gente voltar depois das 10:00. Dizem que somos muito crianças pra ficar fora até tão tarde. O que os vizinhos vão pensar?

E daí o que um monte de gente nada a ver pensa de mim? Os pais tem cada preocupação besta.

O que acontece é que Sofia gosta do Tato. E ele também gosta dela. É amor, sabe, amor mesmo. Dá pra ver. E essa festa é a chance dos dois ficarem juntos, tá na cara que ele agitou essa festa na casa dele só pra ver a Sofia e se ela não fosse… nossa não dá nem pra pensar nisso.

Então, combinamos tudo. Ela se deitou já arrumada. Depois que todo mundo fosse dormir, ela ia sair de fininho pela janela, que, para não fazer barulho, ficou aberta o tempo todo. Arrumamos umas toalhas na cama dela para parecer que ela está lá.

Foi perfeito.

Ela saiu à meia-noite, chegaria meio atrasada, bem cool, quando Tato já ia estar tristinho, achando que ela não iria. E voltou às cinco, pisando em nuvens, me prometendo contar tudo pela manhã: quem fez o que, quem disse o que, se ele beija bem, se ela…

Ninguém descobriu nada.

Era o que achávamos, mas, pelo jeito, mamãe sempre acaba descobrindo as coisas.

— Um dia, me encho e vou embora!

— Pois vá! A porta está bem ali. Ninguém está te impedindo.

Há um silêncio cheio de vozes e gritos e raiva. Ela não vai sair.

Mas ela não pode ficar.

Corro para a sala a tempo de ver Sofia saindo. Papai está assistindo àquela briga sem ação. Fico atônita. Para onde vai Sofia?

Catarina, finalmente grita de seu quarto, ou só agora conseguimos ouvi-la. Mamãe corre até ela, eu corro atrás de mamãe.

— Agora não, Teodora. — E fecha a porta na minha cara.

Volto para a sala, que está vazia. Nem sinal de papai, procuro por ele, ele precisa ir atrás de Sofia, trazê-la de volta. O silêncio agora está na casa toda e é um silêncio vazio.

Passo o resto da tarde em meu quarto, tentando adivinhar conversas por trás das paredes e imaginar para onde Sofia teria ido. Ela estava furiosa. Consigo imaginá-la entrando em um ônibus qualquer, sem sequer olhar o destino. Será que ela tinha dinheiro para ônibus? Será que ela tinha algum dinheiro?

Pensamentos angustiantes de minha irmã em perigo e sozinha me assombram, bem como a culpa. Eu não devia tê-la ajudado com aquele plano idiota. Eu devia tê-la convencido a não ir. Eu não devia ter dado a ideia. A culpa foi minha e agora nunca mais vou ver Sofia.

— Teo, venha jantar.

Papai me chama. Desço e encontro a casa ainda silenciosa, nem parece a mesma casa. Mas, sobre a mesa de sempre há a pizza de sempre, vinda da pizzaria de sempre. Uma coca, dois copos.

— Cadê todo mundo?

— Sua mãe e Sofia vão passar uns dias fora, para esfriar a cabeça. Não se preocupe, elas voltam logo. E Catarina está dormindo, parece um milagre.

— Foram onde?

— Não se preocupe, querida. Elas estão bem. Às vezes a gente só precisa de um tempo longe.

Ele parece tão cansado. Claramente, não quer falar sobre o assunto e está desconversando. Não deve saber onde está minha irmã e não pode me dizer isso. Minha mãe tem estado cansada de nós, deve ter ido embora, como ela jurara fazer várias vezes antes.

— Amanhã vai vir uma babá para cuidar da Catarina enquanto eu estiver no trabalho. Você já é grandinha, consegue se virar sozinha nesse finzinho de férias?

Faço que sim com a cabeça, as mãos geladas e um medo irracional de ficar sozinha no mundo, mas já me sentindo sozinha, com papai dizendo que tudo estava bem quando obviamente não estava.

*

Lembro que depois disso, os próximos dias foram dias de nevoeiro. As recordações são borradas, confusas. Eram férias de verão. Eu acordava tarde, sem coragem, não fazia nada a manhã inteira, ia à casa de alguma amiga, voltava para casa, jantava sem vontade e dormia mal, tudo se passando ora rápido demais, ora lento demais, dentro de uma sensação fria de irrealidade.

Agora, se o tempo passava de forma errática, minha mente estava mais acelerada do que nunca, tentando entender as coisas e digerir a dureza de mamãe e a omissão de papai.

Eu estava convicta de que nunca mais veria Sofia. Ela certamente teria entrado em um ônibus aleatório e poderia estar em qualquer lugar do mundo àquela hora.

Muito tempo depois, nem sei dizer quanto, Sofia voltou. Estava triste, esquisita. Disse que tudo tinha sido um grande erro. Não entendi bem e só senti que meus pensamentos catastróficos sobre o destino de minha irmã se confirmaram de alguma forma. Mamãe voltou pouco tempo depois. Também estava diferente, me abraçou e chorou.

Tudo doía tanto que eu não quis conversar sobre aquilo tudo com elas. Nunca perguntei nada a respeito desse tempo fora, nem para Sofia, nem para mamãe. Preferi não saber detalhes. Eu só queria esquecer.

Mas a forma como eu enxergava mamãe havia mudado. Ela tinha limites humanos. Ela podia soltar a mão de uma de nós, ela podia soltar a mão de todas nós. A rede de segurança que eu imaginava existir entre mim e o mundo nem sempre estaria lá, ou então, ela tinha grandes furos.

Por isso, muito me surpreende que Sofia esteja agora dirigindo para casa com um retrato enorme de mamãe e que planeje colocar aquele olhar julgador em sua parede para sempre. Eu amo minha mãe. Porém, o terror de seu julgamento me acompanha ainda hoje, anos depois de sua morte.

 

10

Por alguma razão, novembro é um ótimo mês para Luana. Muitas encomendas. Dizem que é porque são nove meses a partir do carnaval, época de muito calor e fogo nas veias. Por isso, tantos nascimentos em novembro, o que quer dizer muitas encomendas de bolos, docinhos, bem-nascidos, lembrancinhas. É cansativo, mas vale a pena. É o movimento de novembro, e depois, das festas de fim de ano, que seguram as finanças dos meses de vacas magras, daqueles meses em que, nove meses antes, pouca gente fornicou.

Luana retira mais três formas de bolo do forno e aproveita para fazer uma pequena pausa. Um café, antes de começar a preparar os recheios da próxima leva. Sim, porque os recheios destes bolos que esfriam e transformam a cozinha em um sonho de chocolate e baunilha já estão prontos e acondicionados na geladeira desde o dia anterior.

Organização é tudo na vida de uma confeiteira.

Como sempre, o cheiro de café atrai Nina.

— Mãe, também quero!

— Criança não toma café.

— Ah, mãe. Deixa vai.

— Não.

— Ah…

— Que tal um leite com chocolate?

— Gelado?

— Geladíssimo.

— Tá bom.

Truque de mãe atarefada, Luana mantém na geladeira uma garrafa de vidro com leite misturado com achocolatado. Chacoalha a garrafa para formar espuminha e serve um copo alto, que Nina bebe com gosto, antes de sair correndo para o quintal. A menina brinca por horas, imersa em sua imaginação alucinante.

A mãe se preocupa, às vezes, com a solidão da menina. Ela tem alguns amigos na escola, mas não se encontra com eles fora do ambiente escolar. Moram em bairros meio afastados e Luana não tem tempo de levar, buscar, essas coisas.

Ah, mães, elas são a forma humana da culpa.

Na verdade, a solidão que preocupa Luana nem é a falta de amigos, ou a ideia de que Nina tenha dificuldade em se relacionar. Isso está totalmente fora de cogitação. A menina conversa com todo mundo, adulto, criança, idoso, até seres inanimados, e tem uma natureza doce, apesar da rebeldia e da personalidade forte. Todo mundo gosta dela, famosa na rua por saber de tudo o que se passa e por falar tudo o que pensa.

O problema é a falta de família. Nina não tem tios, nem avós, nem primos. Luana é filha única, os irmãos de seu pai não chegaram à idade adulta e sua mãe era um mistério que nunca quis solucionar. Seu pai foi um pai solteiro, sua mãe, uma desconhecida.

Quando adolescente, as amigas, movidas por sessões de cinema em demasia, queriam investigar sua maternidade, descobrir essa misteriosa mãe desaparecida, reatar os laços entre mãe e filha e assistir a um lindo final feliz da vida real.

Luana se recusou terminantemente.

— Mas, Lu…

— Não quero.

— E se ela for uma atriz famosa?

— Ótimo para ela. Não quero.

— E se ela tiver sofrido um naufrágio, perdido a memória e estiver em um hospital na Suíça…

— Não quero!

Ainda pensaram em investigar mesmo assim, à revelia da principal interessada, mas logo saiu um novo filme, sobre um amor impossível, e outro, de espionagem, e mais outro, uma comédia romântica adolescente e pronto, não pensaram mais no assunto, para alívio de Luana.

Um dia, seu pai quis lhe contar. Na verdade, sentiu que devia algum tipo de satisfação à menina.

— Não quero.

— Tem certeza, filha?

— Tenho.

— Tudo bem. Se um dia quiser saber, me pergunta.

— Pai.

— Sim?

— Alguma chance de ela ter perdido a memória e estar em um hospital em algum lugar do mundo?

Ele achou graça. Uma graça triste.

— Não filha. Não há a menor chance. Eu sei onde ela está.

— Então, não quero.

Ele nunca mais tocou no assunto. Era assim. Um homem de poucas palavras, e que mantinha cada uma delas. Só retomou a conversa alguns anos depois, para contar à menina que a mãe havia acabado de falecer e perguntar se ela queria ir ao funeral.

— Não quero.

Ele temeu que ela se arrependesse.

Ela nunca se arrependeu.

E assim, a família de Luana se resumia a ela e ao pai, só e tão somente.

Os bolos esfriam na bancada, a xícara de café está vazia e as latas de leite condensado esperam sobre a pia para serem transformados em brigadeiros para recheio. As encomendas não esperam. Na grande panela, ela despeja o conteúdo de cinco latas e começa o preparo.

Quando engravidou, Luana relutou em contar ao pai. A situação toda era complicada demais. Mas, sem que ela dissesse palavra, o velho compreendeu tudo.

— Que sina, hein. Passou de pai para filha.

Só neste momento, Luana sentiu alguma curiosidade de saber sobre sua mãe. Ela teve, então, outra família? Era por isso que não esteve presente em sua vida?

— Quer…

— Não quero.

O pai sorriu um sorriso fraco, a doença silenciosa e desconhecida na época já roubava sua energia, sem que ninguém desconfiasse. Felizmente, a neta nasceu a tempo e, por um pequeno período feliz estiveram juntos neste mundo. Mas logo não estavam mais.

E desde então, eram somente as duas. Nina e Luana.

Essa família pequena nunca foi um problema. Mas, Nina estava crescendo e Luana, inquieta, queria ter certezas, como se isso fosse possível. Ela queria garantias de que Nina teria uma vida boa, que seria amada e cuidada, independentemente de qualquer coisa.

Que bobagem. A vida não dá garantia de nada. E a menina tem ao pai também. Ou a parte do pai, um pedaço dele. A questão é que é difícil saber o tamanho desse pedaço. Ele também não tem uma família grande. São apenas ele e a mãe, uma mulher de saúde frágil e pouca paciência.

Bem, se algo acontecesse a ela, Luana, haveria o pai. E seja lá o tamanho do pedaço dele que estivesse disponível para a menina, seria o suficiente. Teria que ser.

Luana chacoalhou a cabeça para afastar esses pensamentos sombrios, vindos sabe-se lá de onde e sabe-se lá o porquê. Ela estava ótima, estava tudo em ordem, ela estaria sempre lá, inteira, por Nina até que esta crescesse e não precisasse mais dela. Nina teria sempre uma mãe inteira e um pai pela metade, perfazendo uma família possível.

E Luana teria a alegria triste de se ver cada vez mais desnecessária, a alegria triste que diz a uma mãe que seu trabalho foi bem feito.

“Estou bem, estamos todos bem.”

 

11

Marcel quis ir à Santa Ifigênia. Entre digitalizar sua coleção de vinis e comprar um toca-discos, a decisão foi fácil. Eu já sabia disso quando joguei a ideia, motivada pela irritação. Mas agora, vendo a animação dele, me pergunto por que essa ideia não me ocorreu antes?

A missão dele é encontrar algo vintage, compacto e com bom preço. Sei que, nessas horas, eu mais atrapalho do que ajudo. Em lugar de simplesmente escolher o que quer, ele fica perguntando minha opinião, sendo que, a respeito de toca-discos, eu não tenho opinião nenhuma.

Marcel não é uma pessoa indecisa. Mas, quando tem que fazer uma escolha, escolhe tudo. O que é o mesmo que não escolher nada. Ele é movido por uma necessidade de agradar a todos e conciliar o inconciliável, o que acaba resultando normalmente numa falta de ação. É irritante, eu sei.

Pois, sabendo disso, resolvo facilitar sua vida (e resguardar minha paciência, que anda limitada desde a noite de ontem) e aproveito para perambular pelo centro histórico de São Paulo tirando fotos, um de meus passatempos favoritos. Quando a missão dele estiver cumprida, ele me mandará um whatsapp e vamos almoçar no Bar Guanabara.

Caminhando muito lentamente e exasperando todos os paulistanos que porventura estiveram andando atrás de mim, chego a um dos meus pontos históricos favoritos no centrão: o Solar da Marquesa de Santos, casarão onde Domitila de Castro foi morar e promover seus bailes e saraus após o rompimento com Dom Pedro I. Hoje, o lugar é um museu, mas o que me agrada tanto é essa aura de fofoca e glamour e imaginar aquelas pessoas e aquele tempo.

Tiro minhas fotos, mirando o edifício do presente, mas tentando acertar o do passado. Tenho outras fotos do mesmo lugar. Mas cada uma é diferente e não falo de tintas, pessoas ou construções e sim do que se passa dentro de mim quando aperto o botão.

Não sou fotógrafa, ninguém jamais emolduraria uma foto tirada por mim, em ângulos estranhos, às vezes desfocadas e até tremidas. Mas, ao olhar qualquer uma delas, tirada há anos, sei dizer como me sentia naquele momento.

Fotografar, para mim, é terapêutico. Uma forma inusitada de digerir o que sinto.

É difícil explicar como a maneira quase acidental com que capto a luz incidindo sobre um objeto possa me ajudar a processar meus sentimentos. Mas é isso mesmo. Vai entender.

Olho para as fotos que acabo de tirar. O palacete rosa, o céu azul forte, muita luz, cores brilhantes. Estão tristes e raivosas.

Ontem, recebemos a visita de dona Odila, a mãe de Marcel. É raro que ela vá nos visitar. Graças aos céus e que Marcel não ouça meus pensamentos. E não, ela não é uma sogra má, que ama seu filhinho perfeito e detesta sua nora horrorosa, muito aquém do que seu tesouro merecia. Ela é uma pessoa má, que detesta todo mundo independente de qualquer coisa, nora ou não. Ok, ela não detesta Marcel. Mas o trata tão mal que não faz a menor diferença.

Ela é uma daquelas pessoas que parece ter uma nuvem escura com raios e trovões flutuando eternamente sobre a cabeça.

Dona Odila entrou no apartamento, carregando o peso do mundo nas costas, que doem desde a lombar até os ombros, e nenhum médico consegue resolver, afinal, esses médicos de hoje em dia só querem saber de operar. Reclamou do tempo, frio demais, reclamou do elevador, que demorou demais, reclamou do prédio, longe demais. Na minha opinião, o prédio está na distância perfeita. Longe o bastante dela para que ela não queira vir e perto o bastante para que ela não venha de mala.

Por fim, ela se sentou no sofá e reclamou de que ele era macio demais. O interessante é que ela não apenas reclama, mas reclama de forma acusatória. É como se tivéssemos escolhido especificamente aquele sofá com o objetivo de incomodá-la.

Dona Odila me irrita e diverte em partes iguais.

O problema é que, vendo o efeito que ela causa em Marcel, minha diversão de desfaz e fico só com a irritação mesmo. Ele sofre, fica atarantado, tentando resolver todos os problemas e agradá-la a qualquer custo, crente de que isso é possível. Trouxe uma cadeira para ela, que reclamou que a cadeira era dura demais. Colocou uma almofada sobre a cadeira, que a tornou alta demais.

Imaginei dona Odila como uma Cachinhos Dourados eternamente insatisfeita, uma Cachinhos Dourados sem o terceiro urso, e não consegui segurar o riso. Marcel olhou para mim surpreso. Dona Odila, também olhou, resignada com minha insensibilidade. Olhos de mártir.

Por fim, ela aceitou o desconforto, não se preocupem comigo, estou acostumada a essas dores, não há o que fazer. E eu, com minha delicadeza de sempre:

— Bom, dona Odila, se não há o que fazer, não é mesmo? Aceita uma água, um suco?

Suco, não, que isso é um veneno para a diabetes dela. Água, então?

— Pode ser, já que preciso beber algo.

Quando eu ia responder que, se ela não quisesse, não precisava beber, Marcel já chegou com um copo. E sim, a água estava gelada demais.

Enquanto Marcel voltava com o copo para a cozinha para aquecer um pouco no micro-ondas, já que a água tinha vindo do filtro e não da geladeira, dona Odila, sentada no sofá macio demais, olhava ao redor com seus olhinhos de rato.

— Vocês pintaram as paredes?

— Não.

— Está precisando.

— Melhor não. A pintura ficaria nova demais.

Respondo com uma seriedade tão sincera que dona Odila fica desconcertada por um instante, tentando decidir se estou ou não zombando dela.

E isso tudo foram apenas dez minutos de visita.

O resto da noite foi mais do mesmo. O jantar tinha comida demais. Sopa e salada ao mesmo tempo, para quê? Muitos legumes nessa salada, que exagero, com tanta gente passando fome no mundo. O frango estava bom, pena que ela não podia comer. Frango não lhe caía bem. Tem carne assada do almoço. Carne também não cai bem. Tem salada de bacalhau. Era alérgica a peixes. Ovo? Não gosta. A essa altura, eu já tinha ligado o fodase; tinha muito legume na salada, não tinha?

Mas Marcel, não. Agora, ele estava preocupadíssimo com a saúde da mãe. Como ela andava se alimentando, desse jeito?

— Ah, meu filho, do jeito que Deus permite.

Imaginei Deus revirando os olhos e fazendo que não com as duas mãos, “Me inclua fora dessa, pelo amor de Mim”.

— E aquele chocolate proteico, Marcel? Aquele que você indicou para Cat?

É. Tenho meus momentos inspirados de sadismo, não nego.

— É mesmo! Mãe, se a senhora não está conseguindo consumir proteína, prove esse chocolate.

— Mas…

— A senhora gosta de chocolate. E este é saudável.

Talvez, a única coisa de que dona Odila goste no mundo seja chocolate. Um dia, em sua casa, uma casa impecavelmente limpa na Vila Medeiros, ela abriu uma barra de chocolate belga que lhe demos de presente. Foi a única vez que ela não criticou nada no presente nem se queixou da diabetes. Eu a vi quebrar um quadradinho do chocolate, colocá-lo na língua e deixa-lo dissolver, saboreando. Juro que vi a sombra de algo parecido com um sorriso. Penso ter até ouvido um rangido quando os cantinhos de seus lábios se voltaram levemente para cima.

Agora, Marcel desembrulha uma barrinha do infame chocolate proteico e entrega para ela. Ela morde e mastiga e mastiga, sem conseguir engolir. Imagino que ela esteja fazendo uma careta de desagrado, mas dadas as suas feições naturais, é difícil dizer. Por fim, engole, mas está sem palavras.

— Bom demais, não é?

— É, é. Mas é melhor não comer mais. A diabetes.

— Não tem açúcar!

— Mesmo assim. Prefiro não arriscar.

Ao lado do Solar da Marquesa está o Pateo do Colégio, o marco zero da cidade. Normalmente, gosto de entrar e tomar um cafezinho lá dentro, um refúgio fresco, bonito e agradável. Mas hoje, quero ficar do lado de fora, quero sol e ar, não puro, pois estou em São Paulo e sou realista, mas ar circulante, externo, não confinado, sabe? E a parte externa do edifício do antigo colégio construído pelos jesuítas também é interessante e belo.

Tiro muitas fotos da fachada. Todas tristes, apesar do dia ensolarado e colorido.

A visita de dona Odila conseguiu assim me deixar profundamente triste e irritada em partes iguais. A irritação é autoexplicativa depois desse breve relato, imagino. Já a tristeza é porque fiquei a imaginar como teria sido a infância de Marcel, sozinho com aquela mulher. Seu pai saiu de casa quando ele era pequeno e vinha busca-lo para passear uma vez ao mês. O resto do tempo era aquilo.

Lembro de ter perguntado a ele se ela sempre foi daquele jeito, ou se foi a idade que foi pesando sobre ela. Ele respondeu que ela tinha melhorado com o tempo. Me-lho-ra-do. Céus…

Num dado momento na noite de ontem, tomando um chazinho após o jantar, ela, voltando a sentar no sofá macio demais, continuou a perscrutar a sala. Pousou os olhos sobre a coleção de vinis de Marcel, seu xodó, e se admirou de ele ainda manter “aquela velharia”. Não entendeu porque ele não se livrava daquilo e que, sempre achou que comprar tanto disco era jogar dinheiro fora. Que na opinião não solicitada dela aquilo era um desperdício.

Fiquei feliz com meu autocontrole, que me impediu de dizer-lhe que não era prudente que ela, logo ela, advogasse em prol de descartar velharias.

Olhei para Marcel nessa hora e vi, não o homem com quem me casei ou o rapaz que vestiu meu kimono, mas o menino que via o pai uma vez ao mês. Meu coração se apertou. E o pior é que ele pareceu prestes a concordar com ela.

— É, na verdade, eu estava pensando em digitalizar minha coleção e vende-la.

“É o que, Marcel?”

Dona Odila continuou a opinar.

— É bom. Isso não serve pra nada. O toca-discos quebrou, não tem conserto. Para que tanto disco, sem uso?

— Pois a senhora coleciona selos. Que eu saiba a senhora não os usa. Ou usa?

— Ora…

— Foi o que imaginei. Aliás, amor, tive uma ideia ótima. E se, ao invés de digitalizar, você comprasse um toca-discos?

— Um toca-discos? — Marcel parece nunca ter pensado nessa hipótese. E nem eu, para falar a verdade. Só falei isso para afrontar dona Odila. Mas que é uma ideia excelente, isso é.

— Sim, um vintage, lindão. Que tal? Ia ficar ótimo aqui neste canto desta parede que vai ficar sem pintar porque eu gastei todo nosso dinheiro comprando legumes.

O rosto de Marcel se iluminou. Os vinis estavam lá meio sem uso e sem destino mesmo, não nego. Mas, naquela hora vi o quanto ele queria mantê-los. E assim, estamos neste sábado ensolarado, Marcel na Santa Ifigênia e eu tentando resgatar em fotos um passado distante e meu equilíbrio emocional.

Penso por um instante sobre para onde ir agora. Mosteiro de São Bento? Teatro Municipal? Catedral da Sé? Olho o relógio. Ainda falta muito para o almoço e duvido que Marcel esteja perto de ter escolhido o toca-discos perfeito. Decido-me, então, pela opção mais distante, a Praça da República e, na volta, vou parar no Teatro Municipal. Faz tempo que não vou pra lá. Vai dar tempo.

A última vez que estive naqueles lados estava tudo bem caído e deteriorado. Agora, parece estar havendo uma tentativa de revitalização, com pequenos comércios hypados abrindo as portas. Fico curiosa.

Inspiro fundo, torcendo para que, um dia, o ar seja puro.

No caminho, tiro fotos das ruas que, no fim de semana, são uma estranha combinação de movimento e abandono. Há lojas abertas, pessoas passando, mas há também um vazio em tudo, difícil de explicar. Tento captar esse vazio, sem sucesso. Talvez ele esteja dentro de mim. Capto, porém uma raiva, que está também dentro de mim, desde ontem.

Marcel jura que não comentou nada com sua mãe de nossos planos incipientes de adotar uma criança. Estamos conversando a respeito, em nosso tempo, tentando entender o que é desejo e o que é desespero. O que é amor e o que é vazio. O que é ilusão e o que é verdade. Coisas fáceis, enfim. Ainda não é hora de compartilhar a ideia com ninguém pois a última coisa de que precisamos no momento é de mais opiniões.

Porém ontem, do mais absoluto nada, dona Odila comenta, logo após criticar os vinis de Marcel, a vista da janela e a cor do tapete, que sua vizinha tinha adotado um bebê.

— Que ideia, veja só! Adotar uma criança que ela nem sabe de onde veio. E se for um delinquente?

— Mas, não era um bebê? — Estou momentaneamente confusa.

— Sim, sim, um bebê!

— É um bebê de quantos meses?

“Sério, Marcel? Isso faz alguma diferença?”

— Cinco meses! Não é uma loucura?

— Bom, acho meio difícil um bebê de cinco meses ser um delinquente, dona Odila.

— Tem coisa que vem dos pais.

“Espero que não, ou vou ter que me separar do seu filho, dona Odila.”

— Um bebê abandonado, sem ninguém!

“Esse é o conceito de adoção, dona Odila. Se não for assim, é sequestro.”

Estou orgulhosa da minha capacidade de não falar o que penso. Muito embora a minha cara tenha legendas, sei disso.

— Ela não sabe nada sobre essa criança, que problemas ela pode ter!

— Mas é assim com filhos biológicos também, não é mamãe?

— É diferente. Sangue é sangue.

Olho para Marcel. Tento ler em seu rosto algum sinal de aprovação daquele festival de besteiras que jorra da boca de sua mãe. Vejo dúvida. Que ódio.

— Acho que ela fez bem. Não sei quais os motivos dela, mas ela fez algo bom porque quis — digo e parece que minha voz sai um tanto cortante demais.

— Pois se não teve filhos é por alguma razão. Devia se abster.

Motivado pelo olhar assassino que viu em meus olhos, Marcel cortou o assunto, dizendo que não é bem assim e mudando o foco para algum dos muitos problemas de saúde daquela mulher horrível, seu assunto preferido. Funcionou.

Depois de um tempo absurdamente longo, dona Odila vai embora. Marcel vai levá-la até sua casa. Eu os acompanho a porta, segurando um suspiro de alívio. Enquanto estamos no corredor, dona Matilde chega pelo elevador. “Boas noites” protocolares são trocados, Marcel e sua mãe entram no elevador e partem, dona Matilde abre sua porta.

Antes de entrar, vira-se para mim e diz:

— Que mulher insuportável!

 

12

O retrato de mamãe foi colocado na maior parede da casa de Sofia, acima do aparador em madeira rústica garimpado em Embu das Artes numa tarde da qual Simão nunca se cansa de reclamar. Ela agora vigia a coleção de budas que Sofia mantém impecavelmente organizada sobre o aparador e o próprio Simão, que lê alguma coisa afundado na poltrona.

Sofia está encantada. Simão, se não gostou do quadro também não diz nada. Está, ao menos, conformado, o que parece ser sua postura geral perante a vida. Minha irmã diz sempre ter sonhado com aquele quadro em sua sala, tanto que manteve aquela parede vazia, a única parede nua em toda sua casa, na esperança de um dia ganha-la de papai. Eu nunca havia percebido isso, nem a nudez da parede, nem o seu desejo pelo quadro.

E, definitivamente, não entendo.

— Fica tão elegante, não fica?

Sim, tenho que reconhecer que o quadro concede à sala um ar de distinção, um quê de cenário de filme, de casa de família quatrocentona. Mas não é essa a questão.

— Você não se sente vigiada?

— Ah, imagina Teodora! É só um quadro.

É só um quadro, mas o julgamento está ali. O pintor captou isso muito bem. Ou é só minha imaginação?

— Gosto de me lembrar dela assim — diz Sofia, de volta ao presente e ao retrato pendurado na parede.

Lembro-me de mamãe dessa época, quando éramos, Sofia e eu, adolescentes e Catarina um bebê chorão. Ela era, então, uma força da natureza. Implacável.

O tempo foi tendo sobre ela o efeito da água sobre a rocha, que lentamente molda e suaviza arestas. E ela foi adoçando, ganhando o hábito de deixar estar. Mesmo assim, sempre vi nela aquela força intransigente que tanto me impressionou durante a infância e aterrorizou no episódio do sumiço de Sofia.

Quando veio a descoberta da doença, esse equilíbrio de força e suavidade sofreu um baque. O prato da suavidade pendeu para baixo, mamãe passou a deixar de lado muitas de suas batalhas e concentrou forças em se manter viva. À tona.

Pode-se dizer que ela conseguiu. Ela superou todos os prognósticos. Viveu mais tempo e melhor do que qualquer um de seus médicos previra. Em dado momento, a doença a levou de nós. Mas não a venceu.

Os últimos dias em que ela esteve doente foram os piores. A despedida foi se dando aos poucos, em dolorosas prestações. Quando ela se foi, vimos que ainda havia tanto adeus a dizer que talvez ainda não tenhamos dito tudo, até hoje. Ela morreu cedo, aos 50.

Daqui a quatro anos terei a mesma idade.

Esse pensamento me assusta.

— O que ela estava pensando quando este quadro foi pintado? — Penso em voz alta.

— “Espero que me pendurem em uma parede bem bonita?”

— Sim, deve ter sido isso mesmo. — Rimos.

— “Na sala de minha filha favorita, de preferência.”

— Você era a favorita mesmo.

— Ah, para, Teo. Ela só falava de você. Dava raiva.

“Será?”

— Pois para mim, só falava de você.

Sofia parece conformada.

— Bom, neste caso, está claro…

— A favorita é a Cat. — Falamos juntas.

— Nem dá para competir — prossegue Sofia. — Mamãe se foi antes de Cat ser adolescente e dar dor de cabeça, como nós duas. Aliás, para ser justa, você era bem boazinha. Quem deu dor de cabeça fui eu. Lembra da madrugada que eu passei fora?

Se lembro?

— Mamãe ficou furiosa comigo quando descobriu. Coitada. Estava possivelmente sofrendo com uma depressão pós parto não diagnosticada, exausta, sem dormir há meses e descobre que a filha de dezesseis anos passou a noite fora. Olha o perigo! Hoje a gente sabe que deu muita sorte. Imagina só, uma menina perambulando sozinha de madrugada…

É estranho olhar para um evento passado com olhos de hoje. Na época, enxerguei tudo com meus olhos adolescentes e foi um momento tão doloroso que tranquei tudo naquele instante congelado. Não revisitei minhas memórias, não as atualizei. Mas, agora que Sofia fala, foi bem isso mesmo. Mamãe estava muito nervosa naquela época, irritadiça, explosiva, chorava por qualquer coisa. Podia ser só cansaço, um bebê pequeno exige muito. Mas podia ser algo mais, algo que, naquela época, não era levado a sério.

— Só me toquei quando estava na praia, ouvindo as conversas das tias da Andressa.

Praia? Andressa?

— Sofi, para onde você foi?

— Você não lembra?

— Lembro que mamãe te mandou embora e papai não fez nada, você saiu e passou um tempão fora. E eu achei que nunca mais fosse te ver.

— Credo, que trágica! Mamãe, na hora da raiva, me mandou embora. Mas papai me alcançou no portão. Eu estava atordoada, nem sabia o que estava fazendo. Então, ele me pegou pela mão e levou até a casa da Andressa.

Andressa é amiga de infância de Sofia. São boas amigas até hoje.

— É? Achei que ele… Deixa pra lá. E ai?

— Aí, ele disse para a mãe da Andi que mamãe não estava bem após o parto e que nós brigamos e se eu poderia passar uns dias na casa dela. Só que a família estava indo para a praia no dia seguinte e ela perguntou se eu podia ir junto. Papai deixou e eu passei a semana na casa da tia da Andi, em Caraguá.

“Caraguá?”

— Tá, mas, e o resto do tempo?

— Que tempo? Foi só isso. Na semana seguinte estava de volta, porque iam começar as aulas.

— Foi só uma semana?

— Foi.

Pareceu tanto tempo.

— E mamãe? Para onde será que ela foi?

— Ela passou aquela semana na casa da tia Flavia, descansando e sendo cuidada. Ela precisava.

— Tem certeza?

— Tenho, ora. Ela me ligou lá em Caraguá. Pedimos desculpas uma à outra, nos entendemos.

— E por que você voltou tão triste? Achei que algo muito ruim tivesse acontecido.

— É mesmo?

Sofia faz um esforço grande para lembrar.

— Ah, sim! No último dia da viagem, vi o Tato passeando por Caraguá agarrado a uma menina. Ele me viu e acenou, na maior cara de pau. Fiquei arrasada.

Fico quieta.

— Papai sempre dizia que mamãe e eu éramos muito parecidas. Por isso brigávamos tanto. Na época eu discordava. Mas agora vejo que ele estava coberto de razão.

E essa agora?

E quando o outro, no terreno pantanoso e solitário das memórias, lhe diz, sim, eu lembro, também estive lá, vi o mesmo que você e, sinto informar, mas não foi nada disso?

 

13

O toca-discos foi colocado numa estante improvisada com ripas de madeira de demolição e tijolos. A ideia é que seja provisória até que a gente se anime a comprar uma estante digna. Mas o fato é que o móvel de improviso ficou tão bonito que provavelmente se tornará permanente.

A agulha corre sobre O Passo do Lui, dos Paralamas, o primeiro vinil que Marcel comprou.

O nosso jogo não tem regras nem juiz
Você não sabe quantos planos eu já fiz

Estamos abraçados, descalços, balançando no meio da sala, com pequenos passos imperceptíveis para um lado e para outro. Minha cabeça está encostada em seu peito, seu coração ressoa em meu ouvido.

Tudo que eu tinha pra perder eu já perdi
O seu exército invadindo o meu país

Estamos à beira de uma decisão e, como gostamos de fazer antes de bater o martelo, ou de cruzar a linha, nós nos voltamos um para o outro.

O mundo é louco, a vida é confusa, o destino é desconhecido, o futuro incerto. Mas estamos aqui, um para o outro. É reconfortante.

Mas sei que não se pode terminar assim

Olho para ele, procurando por sinais de desconforto ou dúvida. Não vejo nada disso, só uma certeza silenciosa e presença. Ele está inteiramente aqui, como há muito não estava e então tenho a certeza de que estamos tomando a decisão correta.

Nos últimos tempos eu vinha achando Marcel distraído. Parecia estar sempre com os pensamentos em outro lugar. Preocupado, talvez? Eu não tenho dúvidas de que ele me ama. Nunca tive. Mas estava com saudades de saber o que se passava em sua cabeça.

Eu o sentia dividido e não sei o porquê.

Mas hoje olho para ele e o vejo completo.

O jogo segue e nunca chega ao fim
E recomeça a cada instante a cada instante

E agora, temos uma pilha de vinis que precisam ser tocados, um toca-discos velho, uma estante improvisada e planos para o futuro. E um ao outro. Do que mais precisamos?

Estamos em casa.

 

14

Vamos adotar.

Sim, enfim, concluímos que é isso mesmo que queremos. Estamos prontos, com expectativas realistas e alinhadas e movidos por motivações genuínas. Ainda há muito o que decidir, mas agora, com a decisão principal tomada, tudo parece mais leve e fácil. São detalhes, só detalhes.

Por isso, resolvemos viajar, descansar um pouco enquanto podemos. Há muito trabalho, mas daqui a poucos meses, Marina, Maria e Mariana vão sair de licença e, aí sim, eu vou ficar sobrecarregada. Melhor aproveitar enquanto elas estão lá para tirar umas férias curtas.

Ainda não decidimos o destino. Talvez Atacama, talvez Curaçao. O lugar, na verdade pouco importa. Só queremos estar juntos.

Se for pensar bem, desde a primeira vez que nós… bem, que nós imaginamos que um bebê estaria a caminho, que o pensamento de sermos mais de dois tem sido um tanto doloroso, cheio de ansiedade e medo. Esta é a primeira vez que essa ideia vem alguma leveza. É estranho.

Na primeira gravidez… É isso: gravidez. Eu fico dando voltas em torno da palavra, como se ela tivesse se tornado um palavrão, ou uma maldição, e quem sabe seja mesmo, para mim, mas a palavra é essa. Gravidez. Pois na minha primeira gravidez, ainda sem saber que eu nunca passaria do primeiro trimestre, a ideia veio cheia de alegria e expectativa, como é com quase todo mundo.

Até que a expectativa acabou, num sangramento intenso e uma dor aguda.

A esta vez seguiram-se muitas outras. Todas iguais, exceto pelo sentimento inicial que foi mudando de alegria para ansiedade, para medo e, por fim, terror. O susto e o horror causados pelo sangramento súbito mantiveram-se iguais, até a última vez. Um dia, não houve mais nada. Nunca mais apareceram aqueles dois risquinhos no visor do exame. A perimenopausa chegou trazendo os desconfortos de sempre, a tristeza que eu já esperava e uma certa dose de alívio. Não haveria mais susto.

Explicações para isso? Não há. Todos os meus exames sempre mostraram a mais absoluta normalidade. Marcel também fez milhares de exames, que retornaram todos normais. Somos “normais”, quem diria? Talvez simplesmente não esteja em nossos destinos sermos pais. Biológicos, ao menos.

Para falar a verdade, essa não foi a primeira vez. Teve outra, essa sim, a primeira, da qual ninguém sabe. Nem mesmo Marcel.

Um dia, pouco depois de nos conhecermos, os famigerados dois risquinhos apareceram no visor do exame de farmácia. Por mais que desejasse ser mãe, sabia que aquele não era um bom momento. Bem no começo da faculdade e com alguém que mal conhecia.

Marcel nunca soube que a noite caótica em que nos conhecemos teve consequências. Não deu tempo de contar e depois que passou, não vi motivo para fazê-lo sofrer por algo que se resolveu sozinho.

Resolveu?

Quando vi o resultado, fiquei desnorteada, desesperada, procurando por uma saída que não existia.

Uma conhecida tinha ouvido falar que chá de canela era infalível. Eu achei isso uma bobagem sem tamanho. Era apenas um chá. Apenas canela. Pesquisei. Era bobagem mesmo. Alguém teria que tomar uma quantidade absurda de canela para que tivesse algum efeito.

Pensei em minha tia Flavia, que é alucinada por biscoitinhos de canela e que trouxe para o mundo quatro crianças. Duvido que ela tenha interrompido o consumo de biscoitinhos durante suas gestações. Duvido que tenha menos canela em um biscoitinho do que em uma xícara de chá.

Enfim, bobagem da grande.

E eu nem sabia o que queria. A ideia de terminar uma gestação era horrível, não conseguiria. A ideia de ter um bebê naquelas circunstâncias era assustadora, também não conseguiria. Eu estava estagnada entre duas ideias aterrorizantes. Angustiada, fui fazer um chá. De camomila.

Mas, ao abrir o armário, um forte cheiro adocicado e picante me atingiu. Um pote de vidro, grande e cheio até a tampa de paus de canela. Nunca tinha visto aquele pote antes. Seria um sinal do universo?

Seguindo um impulso, joguei uma lasca de canela no meu chá de camomila, meio sem saber o que pensar e, certamente, sem saber o que estava de fato querendo. Queria que a canela minúscula funcionasse. Queria que não funcionasse.

Queria que nada disso estivesse acontecendo.

Mal consegui dormir naquela noite, fazendo o que faço de melhor quando estou angustiada: rodando em minha cabeça milhares de cenários alternativos para uma mesma questão até que uma delas apareça magicamente como a melhor saída. Imagino o “sim”, imagino o “não”, imagino o “nunca mais”, imagino o “jamais aconteceria”, imagino a falta de saídas, imagino, imagino, visualizo, sinto na carne cada hipótese.

A saída de Marcel quando precisa enfrentar uma escolha é não escolher. Ele tenta de todas as formas conciliar as opções e preciso dizer que ele faz isso muito bem. Já a minha saída é me torturar. Porque esse processo de imaginar todas as alternativas possíveis é isso: tortura. Tão somente.

Na minha imaginação, foi ganhando força a versão de futuro que trazia um lindo bebê gorducho, um emprego precário e mal remunerado pois a faculdade teria ido para as cucuias e grandes doses de exaustão. E Marcel. Claro que esta parte ainda teria que ser combinada com ele e seria, pois pretendia contar-lhe tudo pela manhã. Mas, de toda forma, neste cenário hipotético ele estava lá.

Era uma má ideia, mas uma má ideia tão… bonita!

Devo ter cochilado em algum momento da madrugada, porque acordei com a sensação de ter feito xixi, apenas para descobrir que não precisava mais me preocupar com nada. Desta vez o sangramento não veio com horror. Lembro de ter sentido um certo alívio, aquela sensação de ter escapado por um triz. Os dois risquinhos não existiam mais. E aquela versão de futuro, que no final, foi a vencedora, não aconteceria.

Eu só não imaginava que não aconteceria nunca.

Talvez não tenha sido nada. Mas não consigo deixar de pensar que a culpa foi daquele pedacinho de canela que joguei na chaleira de forma displicente. Ou dos meus pensamentos. Que talvez, só talvez, eu tenha atraído para mim o castigo cármico de nunca conseguir ter aquela versão vencedora de futuro.

Ou então aquela foi só a primeira vez em que meu corpo se comportou da forma como ele sempre se comportaria, independentemente de meus pensamentos ou de toda a canela do mundo. Esta é a alternativa mais racional e provável.

Porém, é também a que menos explica.

E, céus, como a mente procura por explicações! Um borrão não pode ser somente um borrão. Ele tem que significar algo, sempre. Uma coisa não pode simplesmente acontecer. Ela tem que ser causada por algo.

Senão, sem significados e sem causas, o que estamos fazendo aqui?

31 comentários em “ER 2 – A Arte de Não Se Afogar (Kelly Hatanaka)

  1. Rangel
    12 de julho de 2026
    Avatar de Rangel

    Kelly,

    Seu romance e eu tivemos uma estranha conexão kkkk. Essa semana ouvi um monte de Total Eclipse of the heart por causa da morte da Bonnie Tyler. Além disso, fique comentando bastante sobre um desejo de adotar uma criança…

    Bom quanto à história, sua protagonista é muito interessante. Uma Helena de Manoel Carlos só que paulistana.

    Gostei de como está construindo os pequenos dramas familiares: pai (doente?), desejo de gravidez, relação entre as irmãs, talvez algo desse marido com o Mister M etc.

    É uma deliciosa novela feminina explorando com uma escrita clara e com humor as relações da mulher. Essa escrita, aliás, brilha em passagens bonitas como uma crônica de jornal “Aqui em São Paulo medimos distâncias em horas, porque quilômetros e metros não significa nada…”, essa escrita poética convive harmoniosamente com um humor bastante funcional, ‘infelizmente, nunca é gordura abdominal’.

    Até a relação da Matilde/Clotilde que me incomodou no início foi ficando divertida em algum momento. As provocações muito diretas no início me pareceram esquetes de humor duvidoso, mas ao poucos fui entendendo a proposta delas do no texto. A passagem delas subindo as escadas do prédio, que poderiam soar forçadas, ficaram divertidas quando imaginamos que a protagonista estava meio que aceitando a situação por seu treino pela manhã.

    A narradora em primeira pessoa é um acerto. A escrita, a voz, a perspectiva está totalmente adequada para o que se apresentou da personagem. Enfim, gostei do terreno que está preparando. Aguardarei o desenrolar da história.

    P.S acho que você deve ter escrito os capítulo com um pouco de fome kkkk comida, restaurantes etc apareceram bastante nesse início.

    • Kelly Hatanaka
      15 de julho de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Rangel.

      Que coincidencia! Tanto a Bonnie Tyler, que eu adoro, quanto a adoção…

      Que bom que vc curtiu!

      Quanto à comida, espere só pra ver o começo da parte 2 kkkkk

      Kelly

  2. Priscila Pereira
    1 de junho de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Kelly! Tudo bem?

    Enfim vim comentar seu romance! Desculpe a demora!

    Gostei bastante! Uma delícia de ler! Um dos únicos que tem cara de romance mesmo e não de conto. A escrita está ótima, como sempre!

    Você está apresentando tudo aos poucos, sem pressa, com calma, parece que está aproveitando a viagem, e não querendo chegar logo… confesso que eu só quero chegar logo e isso pode prejudicar muito o meu romance. Tenho que aprender a aproveitar mais o trajeto, como você está fazendo!!

    As personagens principais e o enredo já estão bem estabelecidos, mas apesar de imaginar que o romance seja sobre relacionamentos, possível adoção e maternidade tardia, você não entregou tudo, da pra perceber que você tem muitas cartas na manga ainda.

    Gostei de tudo, não tenho críticas, só que talvez a cena da escada tenha ficado longa demais pra manter o humor.

    Gostei bastante das vozes únicas de cada irmã e quero saber muito mais sobre elas no decorrer do livro, mesmo sabendo que a principal é a Teodora. Enfim, gostei demais!

    Parabéns por ter encarado esse desafio!

    Até a próxima etapa!!

    • Kelly Hatanaka
      2 de junho de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Pri!

      Estava ansiosa pelo seu comentário!

      Sabe, quando criança, eu fazia pintura. Meus quadros eram um desastre, entre outras coisas, porque eu tinha pressa de terminar. Eu dava a primeira pincelada e já queria ver o quadro pronto. Apressadinha, eu. Talvez por isso eu curta tanto os contos e microcontos. A distância entre o começo e o fim é menor.

      Nas minhas outras tentativas de romance, foi isso: sofri com a pressa e a falta de assunto. Então, dessa vez, eu gastei um tempo pensando nas historias paralelas. Vamos ver se vou conseguir manter o tom e o ritmo.

      Obrigadissima!

      Kelly

  3. Canibalismo Cultural
    25 de maio de 2026
    Avatar de Canibalismo Cultural

    Eu senti muito uma atmosfera parecida com o filme Sonhos do Kurosawa, principalmente pela maneira como o cotidiano vai ficando meio onírico e emocional sem precisar acontecer nada “grandioso”. O texto fala de trânsito, academia, restaurante, elevador quebrado, mas tudo parece carregado de algo mais profundo, como se cada pequena situação escondesse um universo inteiro de sentimentos e medos.

    A Teodora me lembrou muito aqueles personagens do Kurosawa que parecem silenciosos por fora, mas têm um mundo enorme acontecendo dentro deles. Ela observa tudo: a cidade, as irmãs, o marido, o pai, as pessoas na rua, e transforma coisas simples em reflexões existenciais. Isso me lembrou especialmente o segmento dos labirintos e caminhos em Sonhos, porque quando ela entra nas ruas desconhecidas dirigindo, aquilo deixa de ser só um desvio no trânsito e vira quase uma travessia psicológica. O medo do labirinto, do Minotauro, de nunca conseguir voltar pra casa… parece muito cena de sonho mesmo.

    Também gostei muito da forma como São Paulo aparece. A cidade engole o tempo das pessoas, deixa todo mundo cansado, ansioso, perdido. Mas ao mesmo tempo existe beleza nisso, principalmente nas memórias pequenas: o restaurante antigo, o brigadeiro, o kimono, os filmes estranhos, o silêncio do pai. Em Sonhos eu sinto muito isso também, essa valorização das pequenas imagens que parecem banais, mas acabam dizendo tudo sobre a vida e sobre o tempo passando.

    Outra coisa que me lembrou muito o filme foi a sensação constante de melancolia calma. Não é um texto desesperado, mesmo quando fala de ansiedade, envelhecimento, maternidade ou medo. Parece mais uma contemplação meio triste da vida moderna. Como se os personagens estivessem tentando não se afogar no cotidiano, nas expectativas e nas escolhas que nunca têm resposta certa.

    E achei muito bonito como o texto trabalha memória e afeto. A conversa sobre os restaurantes antigos, os cinemas mudando de nome, os lugares desaparecendo… tudo isso me bateu parecido com aquela sensação de que o mundo vai mudando silenciosamente enquanto as pessoas tentam guardar pequenos pedaços dele dentro de si.

    • Kelly Hatanaka
      27 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Bebel.

      Muito obrigada pela leitura tão atenta e sensorial.

      Você pegou muito bem o clima que eu tentei construir, especialmente na parte 6. E São Paulo… que corre, devora, cobra, mas, ao mesmo tempo, parece estar sempre acontecendo.

      E, Kurosawa? Amei!

      Kelly

  4. Elisa Ribeiro
    24 de maio de 2026
    Avatar de Elisa Ribeiro

    Oi, Kelly. Um texto delicioso. Parece um filme.

    Sim, um filme que aos poucos vai nos apresentando sua protagonista por meio de suas interações com as irmãs, o marido, o pânico ao se sentir perdida depois de acatar as instruções do GPS (me identifiquei muito nessa cena), o conflito no trabalho ante as gravidezes múltiplas  das funcionárias (também me identifiquei muito aqui), a relação com o pai, com os vizinhos, as memórias compartilhadas com o marido enquanto circulam pela noite paulistana. Tudo muito cinematográfico. Sua personagem tem corpo, sentimentos, pensamentos,  um trabalho, uma família lateral e ascendente, um passado. E um desejo: de adotar uma criança. A frase final do seu fragmento fecha de forma impecável essa sua primeira entrega.

    As cenas são muitos boas, os diálogos muito críveis e não encontrei qualquer questão de revisão.

    Tenho dois pontos atenção para sua reflexão. O primeiro é usa da letra da música. Acho válido para ilustrar o, digamos, ânimo emocional da personagem. Mas me pareceu um pouco excessivo, o que enfraquece um pouco o recurso. A ver.

    O segundo ponto de atenção tem a ver com a sua verve dramatúrgica. A cena da escada me pareceu, vou ser sincera, que a autora se empolgou em construir uma cena de comédia de situação que funcionaria bem no teatro, mas no romance me pareceu longa demais.

    No mais, gostei. Muito! O tema me interessa. Fiquei até com um pouco de invejinha: mães tardias, que resolvem adotar, ou inseminar: gostaria de escrever sobre isso.

    Aguardo com fé o que virá.

    • Kelly Hatanaka
      27 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Elisa.

      Que bom que houve uma identificação com a Teodora! Espero continuar contando com sua leitura nas próximas etapas!

      Muito obrigada pela leitura e por seu comentário generoso!

      Kelly

  5. cyro eduardo fernandes
    24 de maio de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    Kelly, parabéns! Seu texto é muito gostoso. Digo como leitor. Parecem várias crônicas bem escritas, que vão tecendo a história das irmãs, da cidade, da vida!

    É uma narrativa rica, personagens bem construídos, bons diálogos e fácil de ler, no bom sentido.

    Dá vontade de continuar lendo, quem sabe aproveitando para ouvir a playlist com Total Eclipse of the Heart.

    • Kelly Hatanaka
      27 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Cyro!

      Ah, obrigada!

      Fico feliz que tenha gostado, inclusive da trilha sonora! kkkkkk

      Kelly

  6. Gustavo Araujo
    22 de maio de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Oi, Kelly! Poxa, o que dizer desse texto sensacional? Li num fôlego só. Quando percebi, tinha acabado e eu tava naquela fissura de quero mais. Ah, mais de mês para saber como as coisas vão se desenrolar para Teodora… Quase uma tortura.

    Gostei muito do jeito como você expôs a situação-chave do romance: a história de uma mulher que não conseguiu engravidar (por algum motivo ainda não claro) e que, diante do avançar da vida, resolve adotar uma criança. Alguém mais afoito poderia transformar essa questão num melodrama imenso, mas você conseguiu passar toda a angústia da sua protagonista de maneira sagaz, leve até. Creio que é por conta das cenas urbanas que nos soam familiares, como o trânsito engessado, o restaurante em que os garçons não estão nem aí pra nós, os vizinhos chatos… Ri em várias passagens, mesmo antevendo o fio condutor da história.

    Interessante como a história de Teodora, suas relações com as irmãs, com o marido, com o passado e com o futuro, tudo isso se entrelaça com a cidade de São Paulo. É legal perceber, durante a leitura, que a maneira como a vida dela se desenvolve acaba refletindo esse caos organizado que é a cidade grande. Se esse drama se passasse em uma cidade de interior, a abordagem teria que ser outra, diferente, nem menos ou mais interessante, mas diferente. O fato de se passar em São Paulo faz com que a gente, que lê, se identifique com a Tê. Acredito que essa identificação é o grande trunfo de qualquer texto, já que nos mantém fiéis, desejosos de saber, afinal, o que vai acontecer.

    Destaco aqui os diálogos, que parecem sustentar todo o texto. Há poucas descrições sobre os lugares. É pelas falas, tão bem construídas, que entendemos os dilemas e os anseios da Teodora, de suas irmãs e até do velho pai (que, aposto, vai ganhar mais relevância nas próximas fases).

    Não tenho o que criticar, até porque não quero procurar pelo em ovo. Gostei muito da trama, da maneira como você escreve — cheguei a pensar nas novelas de antigamente, em que havia um núcleo dramático, mas que comportava também um núcleo mais leve, cômico. Há, de fato, um eixo principal, mas com espaço para subtramas. Tenho certeza de que essa história, ou melhor, essas histórias, vão cativar muita gente aqui e além.

    Ah, peraí, tenho uma crítica: a música Total Eclipse of the Heart… Ah, eu detestava essa música quando era adolescente e por sua causa eu me peguei ouvindo a voz da Bonnie Tyler na minha cabeça durante toda a leitura kkk

    Brincadeiras à parte, quero encerrar dizendo que gostei dessa primeira parte porque me permitiu perceber que se trata de um texto sobre tempo e memória, assuntos que me instigam demais. Destaco aqui um trecho que me pareceu especialmente inspirador:

    ” memória é um terreno pantanoso e solitário. As coisas se perdem, se lascam e se esvaem, formando um museu de coisas perdidas. O outro, nessas horas, é um pedaço de terra firme, a dizer, eu lembro, também estive lá, vi o mesmo que você.”

    Sensacional.

    Valeu, Kelly!!

    • Kelly Hatanaka
      27 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Gustavo.

      Fico feliz que tenha lido meu começo e que tenha gostado da leitura.

      É bem isso mesmo: uma história sobre algumas angústias que pertencem a todo mundo. Tempo que passa, finitude, memória, apegos, com São Paulo sendo mais que um pano de fundo.

      Paris cheira a urina, mas ninguém quer saber disso. Ela é a Cidade Luz, romântica, eterna. Por que é que, de São Paulo só se falam as agruras? Ela tem muitos problemas, como toda cidade grande. Mas tem também sua beleza. Quero falar sobre isso, mas sem ser escapista e sem “vender” a ideia de uma São Paulo de sonhos, que também ninguém é besta. Não sei muito bem se vou conseguir esse ponto intermediário.

      Acho que esta é uma história que tende a ser triste e trágica, como pode atestar todo mundo que começa a viver mais no passado que no futuro. E que teve um grande sonho que ficou para trás. E que teve grandes decepções. Mas, que eu quero abordar com humor.

      Gostei muito de saber que a leitura fluiu, que o tempo passou rápido. Esse é o meu indicador favorito de que a história está indo bem.

      Ah, e sinto muito por Total Eclipse of the Heart kkkkkk. É piegas, eu sei…

      Muito obrigada!

      Kelly

  7. GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
    19 de maio de 2026
    Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

    A Arte de Não se Afogar | Autor(a): Kelly Hatanaka

    Fase de Leitura: Ex: Capítulos 1 a 6

    Data: 18 e 19/05/2026

    I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS

    Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.

    A arte de não se afogar nos apresenta um romance em primeira pessoa sobre Teodora, uma gerente de RH paulistana que encontra-se um tanto a deriva (não sei se deriva seria a melhor expressão, mas algo como parada no meio do rio, nadando só por nadar) na vida. O trecho apenas indicou alguns conflitos que podem surgir no meio do caminho.

    É uma narrativa simples, mas com uma escrita muito boa, repleta de subtextos. A leitura foi agradável e, de certa forma, surpreendente.

    II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)

    Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.

    1. Arquitetura do Enredo e Ritmo

    • ✨ Pontos Fortes: [O que já funciona na estrutura da trama? O gancho inicial é forte?]
      • Os diálogos trazem um dinamismo muito bem-vindo, além de desenvolverem e muito a narrativa
      • O livro está extremamente equilibrado em termos de estrutura. 
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Onde a história perde tração ou parece apressada?]
      • Não consigo agregar em nada. Está muito bom

    2. Modelagem de Personagens

    • ✨ Pontos Fortes: [As vozes são distintas? As motivações estão claras?]
      • Seria muita loucura dizer que São Paulo surge como um personagem nesse romance? Porque tive essa impressão,e sinceramente, foi uma impressão muito boa;
      • Protagonista bem desenvolvida. 
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Há inconsistências ou falta de profundidade em algum personagem?]
      • é inicial, mas eu prestaria um pouco mais de atenção nas outras personagens. Como é um romance com uma pegada intimista, com algumas digressões da protagonista, penso que é prudente tomar cuidado para não se perder nesse ponto, e tornar a história um monólogo autocentrado nela;
      • Eu não sei, posso ter perdido algo, mas achei as 3 irmãs meio parecidas demais e acabei não gostando muito dessa sensação. Pode ser que com mais aparições eu capte melhor a diferença entre as personalidades.

    3. Estilo e Domínio da Linguagem

    • ✨ Pontos Fortes: [Uso de metáforas, clareza do texto, tom adequado ao gênero.]
      • Kelly, sua escrita está irreparável Muito bom! Quero escrever assim quando crescer.
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Repetições de palavras, problemas de pontuação ou ritmo de frase.]
      • Honestamente, só diria para tomar cuidado nos diálogos com mais de 3 personagens falando, para que o leitor não se sinta perdido em quem está falando o quê. Talvez, inclusive, isso tenha contribuido para eu não perceber um desenvolvimento entre as 3 irmãs

    III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)

    O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.

    • 🗣️ A Força da Voz Autoral: [O autor possui uma identidade própria de escrita? O texto traz frescor ao gênero?]

    Kelly, acho que vou chover um pouco no molhado aqui. Dentre as muitas virtudes do seu trecho inicial, eu destaco justamente a sua capacidade de tecer um texto dinâmico, cotidiano e poético. Quando lemos seus contos e suas peças teatrais, dá para perceber o quanto a dramaturgia influencia a sua escrita. Diálogos reais, bem construídos, concatenados a parágrafos imersivos referentes a psiquê da personagem. 

    O resultado, geralmente, é um texto recheado de subtexto e sensibilidade, aliado a uma escrita simples, sem verborragias (não sou contra, inclusive adoto, mas às vezes em excesso é ruim), e extremamente poderosa. 

    Quero escrever assim quando crescer!

    • 🌍 Poder de Imersão e Ambientação: [O universo do romance é crível? O leitor consegue se transportar para o cenário?]

    Muito bom! Retomando um ponto anterior que mencionei, a própria cidade de São Paulo aparece aqui como uma personagem. Pessoalmente, gosto muito desse artifício. Traz uma vivacidade para a literatura muito agradável. Mesmo que eu não seja muito fã (sim, mesmo que eu nunca tenha pisado na cidade para além do aeroporto e da rodoviária interestadual) da cidade, é muito bom ver SP representada nesse romance.

    Para além disso, muito bom ver outros elementos que aproximam o leitor: Chaves (embora eu não goste de Chaves – sim, eu sei, sou chato), a interação da protagonista com as irmãs, a protagonista usar fone de ouvido durante o treino (inclusive, esqueci o meu antes de ir na do condomínio. Resultado: tive que ouvir por tabela a música que o senhorzinho fit de 60 anos e escuta e seus arrotos. Sim, ele arrotava muito), a escrita simples, do cotidiano.

    Enfim, espero ler mais coisas de gente como a gente no seu próximo trecho

    • ❤️ Engajamento Emocional: [O texto desperta curiosidade, tensão ou empatia? O que faz o leitor querer continuar?]

    Aqui, eu preciso confessar que, inicialmente, não senti como se eu fosse o público-alvo do seu trecho. Inclusive, penso às vezes que isso vira uma desculpa boa para não se permitir caçar algum fio de identificação enquanto leitor. 

    Dito isso, eu diria que seu texto, por vezes, extrapolou essa lógica (ou eu extrapolei) e dialogou bastante comigo. Não só na parte que falou da preocupação das irmãs com o pai e essa lógica implícita que, quando crescemos (e eles envelhecem) nos tornamos seus pais, mas também em alguns personagens masculinos, tipo o Marcel e o pai dela. São personagens interessantes e que, mesmo que ainda não aprofundados (até porque, estamos apenas no início do romance), parecem que terão papel central no desenrolar dessa narrativa. 

    Por exemplo, também tenho esse traço inerente de não querer me explicar sobre determinadas coisas, ou um certo costume confortável em tocar a vida sem combinar com o outro se tudo anda bem, se precisamos mudar algo.

    No fim, sim, consegui me conectar com a história de uma forma diferente do que normalmente se pensa. Não com a protagonista, mas sim com os coadjuvantes. 

    Algo a se tratar na terapia, talvez.

    • Kelly Hatanaka
      25 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Givago.

      Ah, que bom que o texto dialogou com você. Temi que pela natureza do texto e da protagonista ele se tornasse mais atraente para o público feminino, embora as dores e questões que busco abordar sejam universais.

      Os demais personagens vão ganhar mais desenvolvimento nas próximas partes. Teremos muito mais de Marcel, do pai e de outras pessoas que ainda não apareceram.

      E sim, São Paulo é mais que um pano de fundo. Ele é quase um personagem. Claro que ele vai, provavelmente, aparecer de uma forma meio idealizada, não sei bem se vou manter essa ideia ainda. Se, por um lado, tenho uma invejinha da cidade de Paris que aparece nos filmes e na Autobiografia de Alice B. Toklas, e da de Londres das historias de Sherlock Holmes e da Nova Iorque dos filmes e séries, por outro, não dá para falar do Pátio do Colégio, do Solar da Marquesa e da Rua Direita sem mencionar o cheiro de urina. Vamos ver…

      Sobre os diálogos com mais de dois personagens, tem razão. Eu fico evitando verbos dicendi a todo custo, mas preciso trabalhar melhor isso.

      Enfim, muito obrigada por sua leitura atenta e pelo seu comentário tão generoso e gentil.

      • Givago Domingues Thimoti
        25 de maio de 2026
        Avatar de Givago Domingues Thimoti

        Oi, Kelly! Uma vez eu fiz uma matéria na faculdade de direito que era uma interdisciplina entre literatura e arquitetura. Era uma viagem só. Mas uma das coisas que aprendi nessa matéria é que a cidade ela é algo mutante vivo, que se transforma conforme os séculos e os contextos. Mas também sem transforma conforme a ótica de quem a enxerga. Por exemplo, o morador de Nova Iguaçu enxerga o Rio de Janeiro totalmente diferente do morador da Urca.
        Acho que tem uma beleza nisso. E penso que seu romance pode trabalhar isso!

  8. André Lima
    14 de maio de 2026
    Avatar de André Lima

    CRÍTICA APÓS LEITURA DOS CAPÍTULOS 5 E 6

    Acho que esses dois capítulos são os melhores da etapa.

    O capítulo 5 é uma festa. A dinâmica entre as três irmãs no restaurante tem muita naturalidade. As trocas entre as três respiram, têm ritmo, têm silêncios no lugar certo. E a revelação de que as irmãs assumiram durante anos que era Marcel quem não queriafilhos é um dos melhores momentos do romance inteiro. Senti muita verdade nesse trecho, embora não seja algo surpreendente, é verossímil. A gargalhada de Teodora no final, que de repente chama a atenção do garçom que ignorou tudo o resto, é um encerramento perfeito para o capítulo.

    A Catarina ganhou muito mais espessura aqui. O “não” dela sobre maternidade e o raciocínio que vem logo depois, sobre o arrependimento de ter um filho ser muito mais assustador do que o arrependimento de não ter, criam um contraponto interessante à Teodora. As duas estão lidando com a mesma questão de ângulos completamente diferentes, e isso enriquece o tema sem precisar explicá-lo. Acho que você está dando camadas mutio boas à ela.

    O capítulo 6 é onde o texto mais cresce literariamente, aqui o estilo Kelly brilha de vez kk. A caminhada pela Paulista tem uma qualidade quase ensaística que combina muito bem com a voz da Teodora. O trecho dos naming rights e do Espaço Nacional é encantador justamente porque parece uma conversa sobre nada, mas é uma conversa sobre o tempo, sobre perda, sobre o medo de que as coisas se percam antes de serem devidamente lembradas. E Marcel, que até aqui esteve sempre presente e sempre certo, aparece aqui pela primeira vez meio ausente, meio protocolar. Essa fissura sutil é muito bem colocada. É engraçado porque às vezes o texto se esquece do que é e vira um monólogo muito interessante. Meio Dostoiévski, talvez?

    A última linha deixou o gancho perfeito.

    Bom, o pai ainda não apareceu. A revelação do oncologista, que no capítulo 5 ganha mais peso com a história dos filmes assistidos, é o fio mais tenso da etapa. E ficou sem resolução por enquanto. Tudo bem, desde que a segunda etapa não demore muito para retomá-lo. Estou com essa pulga atrás da orelha desde o capítulo 1 kk.

    Marcel continua sendo o maior ponto de interrogação do romance. A fissura do capítulo 6 é bem-vinda (Como você anunciou no grupo), mas ainda é muito sutil. A última linha joga uma bomba no casamento, e vai ser preciso que ele seja um personagem com contradições próprias para que a cena que vem a seguir funcione de verdade. Um Marcel sempre compreensivo e sempre certo pode não estar preparado para essa conversa.

    Um detalhe menor: o Mister M aparece brevemente no capítulo 5 e não volta. Pode ser uma semente para depois, mas se for, talvez valha deixá-la um pouco mais visível, por ora parece um detalhe excêntrico sem destino.

    APANHADO GERAL

    Chegando ao fim dessa primeira etapa, o balanço é muito positivo. A voz narrativa é consistente, o humor é bom, e a protagonista é boa, envolve, convence.

    Em minha opinião, o que funcionou de forma mais consistente foi a construção do subtexto emocional. Teodora nunca diz diretamente o que sente, e o romance tem a inteligência de não dizer por ela. A questão da maternidade foi introduzida com muita sutileza e foi crescendo de forma beeem orgânica. Eu gostei muito disso.

    As irmãs foram uma das grandes conquistas da etapa. Sofia e Catarina têm personalidade, têm função narrativa, e têm uma dinâmica com Teodora que revela a protagonista de formas que o monólogo interno sozinho não conseguiria. O restaurante ruim que todas amam é um dos melhores cenários do romance.

    O que ainda precisa crescer na segunda etapa é o mundo ao redor de Teodora. O pai, Marcel, o trabalho… Todos esses elementos foram introduzidos bem, mas ainda funcionam mais como cenário do que como forças que empurram a protagonista para territórios desconhecidos.

    A última linha abre essa possibilidade de expansão. Curioso para ver qual caminho você vai tomar.

    Parabéns, Kelly!

    • Kelly Hatanaka
      25 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Andre.

      Amei seus comentários, super detalhados. Você muitas vezes pontuava algo que ia aparecer no próximo trecho.

      Nestes primeiros capítulos quis mesmo apresentar os personagens, alguns deles, e definir o tom da história. O mundo ao redor de Teodora e os problemas que a envolvem, bem como sua grande crise, vão ficar mais para frente.

      Quanto a Marcel ser muito perfeito… bom, só digo que não tenho nada a dizer.

      Você pegou bem os detalhes, acho que nada te escapou. E eu realmente procurei intercalar capítulos mais densos com algum alívio cômico.

      Que bom que você gostou e ficou interessado. Espero não decepcionar.

      Obrigada!

  9. André Lima
    13 de maio de 2026
    Avatar de André Lima

    CRÍTICA APÓS LEITURA DOS CAPÍTULOS 3 E 4

    Esses dois capítulos aprofundam o que os dois primeiros prometeram e em alguns momentos superam. O capítulo 3 especialmente me surpreendeu, porque abandona o humor como modo principal e deixa Teodora sozinha com algo que ela claramente não sabe nomear. Isso é um salto de maturidade narrativa importante e foi algo que citei que gostaria de ver.

    O monólogo interno na academia é o melhor trecho que você escreveu até aqui. A progressão é cirúrgica: começa na irritação profissional, passa pelo ressentimento com as três Marias, e pousa, quase de fininho, numa questão muito maior que Teodora se recusa a encarar de frente. A forma como o texto trabalha isso é excelente. Ela não diz o que está sentindo, ela racionaliza, faz piada, muda de assunto internamente, volta, faz piada de novo. É o comportamento real de alguém evitando uma ferida, e você capturou isso com muita precisão. O detalhe do aperto de mão dado às três funcionárias, no lugar do abraço, é uma das imagens mais fortes do romance até agora. Diz tudo sem dizer nada.

    A ambiguidade sobre a maternidade está sendo construída com inteligência, em minha opinião. Teodora não é uma personagem que rejeita a maternidade com convicção, nem uma que a deseja com clareza. Ela está num território muito mais desconfortável do que qualquer um dos dois extremos, e é exatamente isso que torna a questão interessante. O “ainda bem que não preciso me preocupar com isso. Ainda bem. É um alívio. Sim, é.” é um dos momentos em que a voz narrativa mais se revela, justamente porque o leitor já sabe, àquela altura, que não é bem assim.

    O capítulo 4 é mais leve, e funciona como respiro necessário depois da densidade do três. A cena da fila indiana na escada atrás da Bruxa do 71 é pura comédia de timing.

    Como ponto de atenção, posso citar que o capítulo 3 tem um risco que precisa ser monitorado nos próximos: Teodora pensa muito, e pensa bem, mas por ora o romance existe quase inteiramente dentro dessa cabeça. O mundo ao redor ainda é bastante funcional. O trabalho serve de gatilho, Marcel serve de apoio, as irmãs servem de alívio cômico, a Bruxa serve de antagonista leve. Nenhum desses elementos oferece ainda uma resistência real à protagonista. Talvez eu encontre isso nos próximos 2 capítulso. Veremos!

    Outro ponto: Marcel está correndo o risco de se tornar perfeito demais. Nos quatro capítulos, ele aparece sempre no momento certo, sempre com a resposta certa, sempre do jeito certo. Narrativamente começa a parecer um cenário seguro que o romance está evitando questionar. Se a história for mesmo sobre o que o capítulo 3 sugere que é, Marcel vai precisar ganhar contradições próprias em algum momento. Digo mesmo na construção do personagem em si.

    Por fim, a questão do pai, que Sofia levantou lá no capítulo 1, sumiu completamente nesses dois capítulos. Pode ser uma escolha deliberada de ritmo, e se for, é acertada. Mas confiesso que gostaria de ver esse assunto retornar!

    No geral, o romance está crescendo na direção certa. Parabéns, Kelly!

  10. André Lima
    12 de maio de 2026
    Avatar de André Lima

    CRÍTICA APÓS LEITURA DOS CAPÍTULOS 1 E 2

    Esses dois capítulos de abertura têm uma voz! E isso, logo de cara, já é o que mais importa. Teodora chega ao leitor com uma presença imediata, sem rodeios, sem aquela fase de apresentação expositiva que tanto estraga aberturas de romance. Você confia na sua protagonista desde a primeira linha, e ela corresponde.

    A escolha de ancorar o primeiro capítulo no trânsito de São Paulo foi muito feliz. A cidade não é cenário apenas, ela é argumento. Acho que você entende bem disso por conta de sua experiência com peças de teatro (O cenário falando mais do que o normal). A observação de que os paulistanos são obcecados por tempo, não por dinheiro, é daquelas frases que parecem simples mas carregam uma leitura de mundo inteira. Abre o romance com inteligência e humor ao mesmo tempo, que é uma combinação difícil de equilibrar e você equilibra bem. E a progressão do trânsito como espelho do estado interno da Teodora funciona de forma orgânica, sem forçar a metáfora. O texto deixa o leitor chegar lá sozinho, o que é o certo a fazer. Zero exposição aqui. Pontaço!

    Achei engraçado que Sofia e Catarina surgem apenas por telefone, sem aparecer fisicamente, mas têm personalidade tão bem delineada que o leitor as vê. A rainha da Inglaterra e o projeto Cavala 3.3 são alívios cômicos muuuuito bem dosados. E o trecho em que Teodora explica que por baixo das superfícies dissonantes as três são trigêmeas é talvez o mais bonito dos dois capítulos. Tem uma ternura contida que combina perfeitamente com o jeito da narradora de sentir sem verbalizar demais. Me lembrou um pouco seu conto do desafio Nostalgia. Não sei porquê, mas parece que é a mesma narradora para mim.

    Marcel também entra bem. A ligação durante a crise de ansiedade no labirinto de ruas diz muito sobre o relacionamento dos dois sem precisar dizer nada diretamente

    O segundo capítulo, com dona Matilde, muda o ritmo de forma eficiente. Depois da tensão da ansiedade no trânsito, a esgrima verbal com a vizinha alivia sem esvaziar. A troca de farpas tem timing de comédia bem calibrado, e o “mostro a língua” no final do capítulo fecha com a leveza certa. Essa mudança de tom também me lembrou outro conto seu (Menino-herói).

    Agora, os pontos de atenção.

    A voz da Teodora é o maior trunfo do romance, mas também o seu maior risco. Ela é tão presente, tão afiada, tão bem construída, que por ora o texto existe quase inteiramente dentro dela. Isso funciona muito bem em abertura, mas à medida que o romance avançar, vai ser importante que o mundo ao redor ofereça resistência real a essa voz. Teodora precisa ser confrontada por algo que ela não consiga nomear tão prontamente, que escape do seu controle irônico. Caso contrário, existe o risco de a narrativa se tornar confortável demais. Entende o que quero dizer?

    Relacionado a isso: ainda não tenho clareza sobre o que o romance quer de verdade. Os dois capítulos me apresentam uma protagonista muito bem construída, um casamento que parece sólido e feliz, irmãs adoráveis, uma vida urbana reconhecível. Tudo isso é bom, mas o leitor precisa sentir, ainda que vagamente, que há algo em jogo, o que McKee chama de “incidente incitante”. E aqui, estou falando puramente de estrutura narrativa, não estou falando de técnica, nem nada do tipo. A menção ao pai, que Sofia acha que está escondendo alguma coisa, é o único fio que aponta para uma tensão maior. Se for por aí que a história vai, talvez valha antecipar esse fio um pouco mais, deixar ele vibrar com mais urgência desde o início, pro leitor não ter a sensação de que não sabe sobre o que está lendo. Embora eu ache que ainda não chegou nesse limite propriamente dito.

    No geral, é uma abertura sólida, com personalidade e humor genuíno. A sua habilidade de escrita vai cativando letra após letra. Estou curioso para saber o que vem por aí.

    Parabéns, Kelly!

  11. rubem cabral
    12 de maio de 2026
    Avatar de rubem cabral

    Olá, Kelly.

    Impressões gerais.

    É um texto muito gostoso de se ler: flui fácil, os diálogos são ótimos, a dinâmica entre as irmãs é bem típica de irmãos, as pequenas tramas do cotidiano formam um mosaico bacana da vida de adulto nos dias de hoje. O conflito – sempre precisamos de um – aparece bem discretamente: a possível doença do pai, o desejo de ser mãe. Bons tópicos para explorar na continuação.

    Qualidade da escrita

    Ortografia, pontuação, etc. O texto está bem escrito. Não vi nada que me saltasse aos olhos, acho que só uns acentos “comidos”. A narradora segue uma linha coloquial – sem excessos – e o que salta aos olhos é o humor: Cavala 3.3, a bruxa do 71, etc.

    Diálogos

    Os diálogos são o ponto alto do texto: ágeis, às vezes cortantes, mas sempre muito bons, parecem realmente com falas de gente de verdade.

    Personagens

    Teo é uma graça, parece ser daquelas pessoas muito boazinhas que sempre se ferram, as irmãs Cat e Sofia também são divertidas e bem caracterizadas. Marcel ainda me parece meio misterioso, e acho que tem algum segredo ainda por vir.

    Abraço!

    • Kelly Hatanaka
      24 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Rubem!

      Teo, boazinha? Hummm… será mesmo? Non creo em personas boassinhas, pero que las hay, las hay. E quanto ao Marcel, rapaz, nem te conto. Se eu contar você não acredita e, depois que eu contar você vai continuar não acreditando. Mas eu vou te contar assim mesmo. Na parte 3.

      Obrigada pela sua leitura e pelo comentário!

  12. toniluismc
    8 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, Kelly!

    Você não colocou a palavra capítulo, mas acho que li o primeiro. Digo isso porque cada um está construindo sua história em um formato diferente, então às vezes a numeração não reflete o capítulo, mas enfim, vamos ao relato da experiência de leitura.

    Como sempre, você dando aula de como escrever um bom texto. Redação praticamente impecável, qualquer falha passa despercebida devido à qualidade do conjunto. A única coisa da qual me lembro agora foi da cacofonia do “mas mais”, que poderia facilmente ser resolvida com um “porém”, mas isso é frescura.😆

    No começo achei que estava lendo um monólogo, roteiro de um filme ou peça de teatro. Daí no final você já foi trazendo nuances do que pode ser um verdadeiro romance. Não sei se pelo fato de você trabalhar com teatro, mas os diálogos são a principal força da narrativa.

    Deu vontade de continuar, isso é o mais importante. Espero ter a oportunidade em breve.

    Até mais, abraço!

    • Kelly Hatanaka
      24 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Luis!

      É bem por aí. Nesta primeira parte foi só a apresentação de alguns personagens e o começo do delineado das questões principais.

      Obrigada por ter lido e pelo seu comentário e espero continuar contando com sua leitura.

      Valeu!

  13. Martim Butcher
    6 de maio de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Kelly,

    Cheguei no último capítulo do que você apresentou do seu romance e quase “se me pianta un lagrimón”, como diz o Gardel. A nostalgia condensada na sucessão de nomes do cinema tem um efeito todo especial, porque traz o sentimento ao nível das coisas mais reles, mais cotidianas – e por isso mesmo mais pungentes. Não é a casa de infância que muda, o rosto do homem amado, ou qualquer coisa solene e carregada, é simplesmente o nome do banco patrocinador. Me fez lembrar o primeiro parágrafo de El aleph (que sempre guardo na manga quando alguém acusa o Borges de escritor cerebral ou desalmado): “La candente mañana de febrero en que Beatriz Viterbo murió, después de una imperiosa agonía que no se rebajó un solo instante ni al sentimentalismo ni al miedo, noté que las carteleras de fierro de la Plaza Constitución habían renovado no sé qué aviso de cigarrillos rubios; el hecho me dolió, pues comprendí que el incesante y vasto universo ya se apartaba de ella y que ese cambio era el primero de una serie infinita. Cambiará el universo pero yo no, pensé con melancólica vanidad”.

    E por aí vai. Claro que, paulistano que sou, o seu achado me traz uma nostalgia particular. Semana passada mesmo fui “ao Unibanco”, que é como o chamo (devo ter alguns anos a menos que você), ignorando o aplicativo que insistia em chamá-lo de, pasme, “Espaço Petrobrás” (eles não sabem de nada…). Mas quero crer que seu achado comoveria qualquer um com a sensibilidade atenta, não apenas paulistanos da classe média.

    Por falar em classe média, aí já aparece uma questão que me incomodou um pouco ao longo da leitura. A sua escrita é uma delícia (já voltarei nisso). Mas por momentos fiquei com receio de que o romance se limitasse a uns problemas típicos de mulheres da classe média, de maneira um pouco leviana. Não que esses problemas não possam ser abordados. Acho que qualquer grupo social é sujeito a ser ficcionalizado com resultados relevantes. Mas mora na sutileza a diferença entre uma novela sobre “white people problems” e uma história que parta daí para algo maior e mais íntimo ao mesmo tempo.

    Na verdade, eu tenho a impressão de que você já sabe desse risco e escolhe, justamente, flertar com a superficialidade, o que é parte da delícia do texto. Por momentos eu achei que estava em alguma série da Fernanda Young. Nos piores momentos, em Sex and the City. Em outros ótimos momentos, num Woody Allen à brasileira (o Allen cineasta, não o tarado). Você tem um ótimo tino para os diálogos (decorrente da dramaturgia, imagino). Acho que isso não é novidade para o pessoal do EC, mas para mim, que não li muita coisa sua, é gratificante ver como você domina o timing, a oralidade, o humor, enfim… Somado a isso, vejo que a estrutura do romance, que algum apressadinho poderia considerar à deriva, está bem pensada naquilo que você decide acentuar, naquilo que vai avançando aos poucos, sem fazer alarde. O dilema da narradora com a maternagem, por exemplo, chega com sutileza no fim do capítulo 1, quase como um comentário à margem, mas justamente o fato de estar no fim do capítulo acentua a informação. É também muito bem feita a relação um tanto recalcada da narradora com o fato de a irmã ter filhos. As razões para que ela não os tenha vão sendo subentendidas, nunca enunciadas claramente. Talvez ela seja estéril. A proposta de adotar, que você deixou no fim como excelente gancho, abre essa possibilidade como algo que “escapuliu” da narradora, e ao mesmo tempo algo sobre suas capacidades físicas cai no colo do leitor, sem que ele saiba se é exatamente isso que ele está pensando.

    Enfim, poderia seguir aqui a rasgação de seda, mas temos muitos meses para isso. Por ora vou encerrar falando mal de três ou quatro pontos, coisa pequena:

    “—[…]E a rainha da Inglaterra também te ligou, aposto.

    — Até você está chamando Sofia por esse apelido?

    — É perfeito.”

    Achei desnecessária essa fala. Dá a impressão de que você não confia o bastante na sagacidade do leitor para que ele saque que é um apelido. No diálogo anterior, com a irmã, o apelido chega deliciosamente, justamente porque não é explicado, ninguém usa a palavra apelido. Que mais?

    “Lembro de ter olhado enquanto ele se afastava e ter pensado, diante da visão daquele rapaz usando um jeans muito surrado e kimono de flores de cerejeira em fundo preto que eu jamais o veria de novo.

    Claro que, naquele momento, eu pensava no kimono.”

    Longa demais, a explicação A ideia é ótima, mas cabe em três palavrinhas: “Lembro de ter pensado […] que eu jamais o veria de novo. O kimono, quero dizer.”

    Ou algo assim. Penso que isso pode se aplicar ao texto como um todo, mas é coisa de pente fino, talvez pra fazer lá em dezembro. Próximo:

    A cena da fila na escada do prédio é muito boa e chega a seu ponto alto no diálogo entrecruzado. Mas depois disso se estende demais. Para mim, um remate depois do diálogo coletivo já fechava a coisa perfeitamente. E por fim:

    Por fim, ela retoma a subida ainda mais devagar, enquanto a fila atrás de nós só faz aumentar.

    Por fim, chegamos ao sétimo, posso sentir o alívio da fila na escada que, por fim, […]”

    É a verdadeira volta dos que não foram! Coisa simples de resolver, né.

    É isso, por enquanto. Sucesso na empreitada!

    • Kelly Hatanaka
      24 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Martim.

      Ah, que bom que você se identificou e se emocionou com a questão dos naming rights. É tão bom quando a gente acerta o alvo! Bingo!

      Agora, preciso dizer que eu não gosto de temas sociais. Quando, eventualmente, eles aparecem em meus textos, nunca acontece de cara. Estão sempre num pano de fundo, num subtexto, numa situação. E acho que tudo bem. Já tem muita gente bem mais competente que eu falando bastante sobre temas sociais. Mas, espero que isso não me classifique automaticamente como superficial. Pense em Nelson Rodrigues e no tanto que ele é ácido, crítico e profundo escrevendo sobre o universo da classe média.

      Gosto mesmo, mesmo, de falar sobre sentimentos e sobre o mundo interno dos indivíduos. E gosto de humor, essa ferramenta que, sei lá, parece que andamos esquecendo de como usar, ou temos birra de usar, porque ninguém leva a serio, quando, na verdade, num pais como o Brasil, é praticamente um recurso natural.

      Quando decidi participar deste desafio, quis fazer um bicho esquisito. Profundo e leve ao mesmo tempo. Dizem que é possível. Que uma boa tragédia está sempre grávida de uma comédia e que uma boa comédia está sempre grávida de uma tragédia. Vou tentar. Vamos ver se sai como eu pensei kkkkkk.

      Affff e esses “por fim”, hein! Como comentei com a Claudia, a gente revisa, relê e lê de novo e essas coisas escapam. Por fim, vou corrigir isso.

      E, por fim, muito obrigada pela sua leitura seus ótimos comentários. Você é fera!

  14. Fabiano Dexter
    5 de maio de 2026
    Avatar de Fabiano Dexter

    Olá Kelly!

    Vou iniciar os comentários, que serão feitos em partes, à medida que eu for lendo. A ideia é dividir o texto em duas leituras, mas pode ser que comentários sejam mais, após um amadurecimento do texto na cabeça.

    Inclusive vejo a oportunidade aqui de “conversar” através do comentário e por isso irei iniciar a leitura de cada parte por um autor diferente.

    Esse primeiro comentário reflete a minha opinião após a leitura até o Capítulo 4:

    Visão Geral: Um texto muito fácil e agradável de ser lido. Nota-se que as palavras foram escolhidas com muito cuidado, mas passa a sensação de que foi um trabalho fácil, quase rotineiro. A leitura não cansa e os personagens são críveis, reais, palpáveis. Algo difícil de se fazer uma vez que toda e qualquer descrição dos mesmos se dá ao longo do texto e pelos olhos da protagonista.

    Opinião Pessoal: Aqui pesa um pouco o tipo de leitura que me agrada, de modo que ainda que o texto seja excelente e de agradável leitura, fica a impressão de não se chegar a lugar nenhum. É claro que não li praticamente nada do que será o resultado final, mas eu não consegui ainda ver para onde a história irã se desenrolar: problemas no prédio? Desafio no trabalho? Algum problema com o pai? Um livro sobre maternidade?

    Agora passando um pouco sobre cada um dos capítulos. Leve em consideração que muito provavelmente não sou o seu público-alvo. (Ou seja, pode ser que boa parte das críticas e observações nem façam muito sentido ou serão melhor detalhadas no futuro. Se for o caso, apenas releve.  🙂

    Capítulo 1

    Texto começa leve, um dia normal. Um dia como os outros onde uma história sempre começa. Conversas entre as irmãs muita boa. Leve e real.

    Apresentação da família, normal e desfuncional como todas é muito leve e bem-feita. Podemos ter uma ideia de quem é a protagonista, onde mora, o que pensa. O marido não chega a ser apresentado de forma tão detalhada (deverá ser mais para frente) mas a descrição do modo como se conheceram e depois a colocação com um pesar de não terem tido filhos é um excelente fechamento.

    A conexão das músicas com a história ficou muito boa.

    Capítulo 2

    Mais curto, ainda na mesma ideia do anterior, segue apresentando os personagens. No caso agora a vizinha chata. Quebra um pouco o que acredito ser o ponto principal, que é a maternidade. Sair do 1 para o 3 talvez fizesse mais sentido, ou colocar a questão do modo como conheceu o marido ao final desse capítulo, e não no anterior. Não sei. Apenas ideias.

    Capítulo 3

    Achei o corte do 2 para o 3 um pouco abrupto, muito diferente do que foi do 1 para o 2. Demorei um pouco para entender que era outro dia. Talvez finalizar o 2 com a personagem indo para a cama ou iniciar o 3 com ela levantando.

    Esse corte também me fez sentir alguma falta do marido. Pela lógica ele seria o próximo a ser apresentado à trama. Tinha pizza? Não tinha? Como ele a recebeu?

    Além disso o texto aqui perde um pouco a fluidez e leveza. O tema, claro, é outro. Algo mais introspectivo, um olhar mais profundo para dentro da protagonista. A impressão é que aqui a história começa a ser desenvolvida. Ele parece se esticar um pouco mais do que precisa, ficando um pouco repetitivo. A ideia do halter caindo na academia é boa e dá uma quebrada, mas desnecessário. O movimento da protagonista deixando de mão o treino programado e indo para a esteira é muito bom, pois ela faz o que havia sugerido para a irmã (ainda rindo aqui do Pônei 3.3)

    Capítulo 4

    Assim como o 2 ele parece um pouco perdido aqui. Até mais do que o 2. Talvez tenha alguma ligação com o 5 que ainda não li, mas me pareceu o momento certo para deixar a leitura de lado e seguir depois. 

    Achei o diálogo criativo, mas um pouco confuso. Não sei o que ele pode agregar para a continuidade do texto.

    Resumo

    Curioso para saber para onde esses personagens vão e qual será o pilar da história.

    • Fabiano Dexter
      11 de maio de 2026
      Avatar de Fabiano Dexter

      Olá Kelly!

      Partindo agora para a segunda parte dos comentários. Eu já havia lido e tomado notas, mas faltava organizar um pouco mais para colocar aqui:

      Capítulo 5
      A história segue, agora com as três irmãs conversando em um restaurante sobre a vida. A conversa é informal e agradável e as descrições do restaurante muito boas, assim como os momentos tirados pela protagonista para dar a sua visão, sua opinião. Esse é, inclusive, um dos pontos altos do texto para mim até agora. Dá para se identificar facilmente com a protagonista.
      Da parte da história, ainda vejo um certo dilema entre a questão da gravidez de Teodora e a questão do pai, de uma preocupação por parte de Sofia que pode fazer sentido.

      Capítulo 6
      A conclusão da primeira parte me deu uma luz maior do que está sendo proposto no Romance, que nada mais é do que a vida de Teodora, ou pelo menos um momento especial/turbulento pelo qual ela vai passar. Tivemos toda uma preparação nos capítulos anteriores e agora no último (da introdução) temos uma visão de um casamento que envelhece, que carece de algo mais, e a última frase é um gancho para o que vem da história. É uma conclusão do fio principal até aqui: maternidade.

      Visão Geral
      Gostei do texto, a leitura é agradável e a escrita muito boa (zero surpresa aí). O que sinto é um desenvolvimento mais lento da história e dos personagens, mas aí é uma questão mesmo de gosto pessoal. É difícil julgar um texto lendo menos do que a quarta parte dele, mas é uma história que eu quero ver para onde vai.
      Como sugestão acho que algum tipo de conexão entre os capítulos poderia ajudar. Algumas vezes o capítulo começa e demoro um pouco para entrar no clima, me contextualizar, já que as mudanças são bruscas de um cenário para o outro.

      • Kelly Hatanaka
        24 de maio de 2026
        Avatar de Kelly Hatanaka

        Oi Fabiano.

        O desenvolvimento lento foi proposital e foi algo difícil de conseguir. Percebi que tenho cacoete de contista, que quero sair fechando a história logo e isso, em romance, não pode. Isto que você leu é realmente apenas a apresentação de alguns personagens e o começo de uma preparação para a crise.

        A quebra entre os capítulos foram pensado para ser mesmo meio “lacunares”, deixar coisas a serem imaginadas, fragmentos da história para serem encaixadas.

        Obrigada pelo seu comentário!

  15. Kelly Hatanaka
    2 de maio de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Oi Clau!

    Muito obrigada pelo seu comentário e correções. Caramba, reli, procurei, corrigi coisa pra caramba e, ainda assim, escapou um monte de erro!

    Que bom que vc curtiu. As questões de Teodora só começaram a ser sugeridas. A grande questão vai aparecer mesmo na parte 3.

    Quanto a elas serem trigêmeas, não são. Teodora chama Cat de irmã mais nova e, depois, diz que Sofia partilhou a infância com ela. Ela diz que internamente elas são trigêmeas por serem tão parecidas qto possível sem serem a mesma pessoa.

    Obrigada!!!

  16. claudiaangst
    2 de maio de 2026
    Avatar de claudiaangst

    🌼​Oi, Kelly, tudo bem?

    Pretendo comentar mais de uma vez essa primeira fase do seu romance. Isso porque, provavelmente, vou esquecer de dizer algo importante.

    Antes de tudo, devo apontar um fato inegável: você sabe prender a atenção do(a) leitor(a). A leitura fluiu muito fácil e agradável.

    O título “A Arte de não se afogar” passa a ideia de alguém tentando não ser engolida pelo cotidiano estressante em uma cidade como São Paulo.

    Acredito que os diálogos tenham contribuído para a fluidez da leitura. A cena na escadaria do prédio ficou hilária, ótima troca de palavras, confusão e bom humor.  Adorei, mas… (ih, chegou o momento do temível “MAS”). Estranhei algumas falas pela pouca naturalidade:

    • você pediu pra não o incomodar > eu gostaria até de falar assim, usando a próclise de modo correto, mas geralmente não tenho esse refinamento
    • eu pedi pra você não o incomodar! > sei que dói nos ouvidos, mas o que normalmente escutaríamos seria algo como:  – eu pedi pra você não incomodar ele…. ou — eu pedi pra você não incomodar o papai.
    • Portanto, recomendo rever esse diálogo (o das irmãs no restaurante)

    E não é que você inseriu uma música chiclete no texto? Não achei ruim, combinou com a passagem da narrativa. Também foi esperta ao deixar um gancho para a próxima parte do livro. Teodora quer mesmo adotar uma criança? O marido vai compartilhar o mesmo objetivo? O que impede os dois de terem filhos? Fiquei com a ideia de que Teodora tem algum impedimento ginecológico.

    Narração em primeira pessoa, Teodora, gerente de RH de uma empresa. Está lidando com questões relativas à maternidade (de funcionárias e da possibilidade de ser ou não mãe).

    Personagens apresentados: Teodora (Teo), Sofia (Sô), Catarina (Cat), pelo o que entendi são trigêmeas.🙍​🙅​🙆​ Teodora é casada com Marcel (personal trainer) e não tem filhos. Sofia, desastrada, tem o peculiar apelido de “rainha da Inglaterra”, casada com Simão, neurótica com os filhos – Zion e Naomi. Catarina, 32 anos, incapaz de fritar um ovo, não pretende ter filhos. Além das irmãs, temos:

    – O pai das três irmãs é apenas citado, mas é o motivo da preocupação de Sofia. Estará doente?

    – Dona Matilde, a vizinha chata (Clotilde, a bruxa do 71)🙄

    – Dona Araci, a vizinha do andar de baixo (surda)

    – Seo Luís, o vizinho do oitavo andar

    – Lucas, filho da Lucinda, do décimo andar

    – Dona Marta, que se mudou há pouco para o quarto andar

    As cenas descritas estão muito bem amarradas, cada cenário de acordo com os envolvidos. Todos mergulhados nas delícias e agruras da cidade grande. Talvez São Paulo também seja uma personagem, além de pano de fundo.

    Gostei da interação do casal Teodora e Marcel, parece que se conhecem há muitos anos e compartilham de muitas lembranças. Marcel fica angustiado por perceber que sua memória já não está muito boa, mas Teodora, sua mulher e cúmplice, é testemunha dos momentos vividos e o resgata do esquecimento.

    O pai das três mulheres ainda é um mistério. Pode estar muito doente ou não. Isso também funciona como gancho.

    Quanto a falhas de revisão/coesão✔️, encontrei pontos que podem ser melhorados:

    • há a repetição de algumas palavras como “tempo”, mas acredito que tenha sido para dar ênfase a alguma questão específica do trecho.
    • quando toca o telefone. > foi o celular que tocou, né? Eu nunca mais usei a palavra telefone ☎️​
    • o nome Luis com S, pela norma de acentuação, receberia acento no “i”: Luís. (fala a Claudia que não recebeu o acento devido no seu nome ao ser registrado, pois segundo a IA: “O acento agudo no “a” (Cláudia) é uma característica da língua portuguesa (e às vezes espanhola), devido às regras de acentuação de paroxítonas terminadas em ditongo crescente. Inglês, Italiano, Alemão, Espanhol: A grafia comum é Claudia (sem acento).” Isso tudo para dizer: é melhor tacar um acento aí no Luís só para agradar os revisores chatos de plantão.
    • — Oi Cat. > — Oi, Cat. (sempre separar o vocativo com vírgula)
    • de eu ir busca-lo, mas… > de eu ir buscá-lo, mas…
    • fui passa-la > fui passá-la
    • para busca-los. > para buscá-los
    • Por dentro, somos trigêmeas, tão semelhantes quanto três pessoas podem ser sem se tornarem uma só. > Achei confusa essa afirmação. Sendo trigêmeas, elas seriam semelhantes por fora, na aparência… Não sei se foi uma ironia que o meu radar não pegou.
    • Sincericídio > talvez a palavra deva ser grafada entre aspas
    • Do decimo > do décimo
    • […] enquanto respira, dona Marta fica em seu andar > eu colocaria um ponto depois de “respira” e iniciaria nova frase com Dona Marta. E com essa modificação, retornaria ao sujeito em “Por fim, ela retoma” > Por fim, dona Matilde retoma…
    • Repetição de “por fim” muito próxima.
    • cabernet sauvignon > Cabernet Sauvignon = Use letras maiúsculas para nomes de bebidas que sejam criações originais
    • perguntando a Sofia > não é um erro, mas colocar crase evitaria enganos – é a Sofia que está perguntando ou é a narradora perguntando à Sofia?
    • pronto socorro > pronto-socorro
    • exoplaneta > tive de procurar o significado exato > poderia ser só outro planeta
    • Marcel fez o que pode. > Marcel fez o que pôde (ganha ^ no pretérito passado)

    Fiquei com a impressão de que mais uma palavra ficou sem acento, mas não encontrei a dita cuja na segunda leitura. Se descobrir, aviso.

    Por enquanto, é só. Passo aqui de novo se tiver algo a acrescentar, mas devo dizer que estou muito satisfeita com o seu início de romance. Tem grande potencial.

    Parabéns.👏​👏​👏

    • Kelly Hatanaka
      2 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Oi Clau!

      Muito obrigada pelo seu comentário e correções. Caramba, reli, procurei, corrigi coisa pra caramba e, ainda assim, escapou um monte de erro!

      Que bom que vc curtiu. As questões de Teodora só começaram a ser sugeridas. A grande questão vai aparecer mesmo na parte 3.

      Quanto a elas serem trigêmeas, não são. Teodora chama Cat de irmã mais nova e, depois, diz que Sofia partilhou a infância com ela. Ela diz que internamente elas são trigêmeas por serem tão parecidas qto possível sem serem a mesma pessoa.

      Obrigada!!!

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 17 de julho de 2026 por em E-Rom G1, Entre Romances e marcado .