EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – Saber Perder (Elisa Ribeiro)

 

Capítulo I – Um, dois, três / Três a zero

1

[a primeira vez]

 

A primeira vez que pensei em morte, minha avó ainda estava viva.

Tinha nove anos, dez incompletos, era talvez junho, havíamos acabado de nos mudar para o outro lado da estação de trem.

Eu já sabia o caminho da escola, nova desde o início das aulas em março.

Eu, muito independente; minha mãe muito ocupada — e despreocupada; minha avó, nem para comprar um alho que faltasse saía de casa. Meu pai sustentava-nos — e obrigava-nos a ir à missa aos domingos — mas não se ocupava de assuntos comezinhos de crianças e escolas.  Meus irmãos mais velhos tinham seus próprios horários, colégios, compromissos com que lidar, assim como eu, por conta própria.  De modo que, depois dos primeiros dias em que minha mãe me acompanhou para me ensinar o trajeto, eu ia para a escola nova caminhando sozinha, distraída com os desenhos da calçada.

Antes de nos mudarmos para o outro lado da estação, o percurso requeria atravessar uma única rua praticamente sem trânsito. No novo endereço, entre minha casa e a escola, havia três avenidas. Minha mãe deve ter dito para eu prestar atenção ao atravessá-las, sobretudo a Ana Neri por causa da mão dupla. Eu prestei: aguardei o sinal verde para cruzar a Marechal Rondon e a Vinte e Quatro de Maio. Mas do outro lado da estação, a cabeça amiga da distração cansada, ignorei o sinal, olhei só para um dos lados, aquele de onde não vinham carros.

A sensação foi de que uma mão havia me segurado, talvez meu anjo da guarda.  O ônibus passou, só o vento às minhas costas e, por dentro, o sangue acelerado inaugurando um vazio entre a garganta e o tórax.

Foi assim que a morte, que nessa idade não era sequer uma abstração, ganhou a concretude de um medo: das avenidas de mão dupla.

 

2

[inocência]

 

Foi minha experiência inaugural tanto de medo como de morte. Depois dela, colecionei poucos medos e muitas mais mortes do que gostaria.

O episódio fundou no meu cérebro uma estrutura cognitiva adicional que me obriga desde então, não a aguardar mandatoriamente sinais para atravessar ruas, mas a olhar repetidamente, várias vezes, para os dois lados nas vias de sentido duplo. Ou quaisquer vias por onde nunca passei, ou não lembro de ter passado. Imagino que seja engraçado para quem me olha.

Fundou também uma certeza premonitória: de que vou morrer atropelada numa via de mão dupla. Talvez por isso eu não colecione medos, seja leviana com outros possíveis riscos de vida: como vou morrer atropelada, ofereço-me sem reservas a outros riscos.

Como a criança destemida que fui antes dos nove.

Que não sabia perder.

Que transformou a perda da inocência na certeza de adiar a Grande Perda movendo a cabeça freneticamente de um lado para o outro ao atravessar uma rua.

 

3.

[o quarto mais arejado da casa]

 

Eu quis protegê-la. Minha avó.

E protegi, a meu modo.

Estávamos voltando de um fim de semana na casa de praia, quando notei o que achei ser uma lágrima em seus olhos. Provavelmente era apenas a síndrome dos olhos secos ou uma mera obstrução do canal lacrimal, mas eu interpretei como sofrimento. O meu, talvez, em vê-la tão frágil, doente, tendo de se deslocar semana após semana em uma viagem de duas horas, em um carro cheio, porque não era conveniente que ela ficasse sozinha no apartamento durante os finais de semana. Respirei fundo para conter as lágrimas que eu não gostaria de ter de explicar.

Dias depois, falei com a minha mãe que não queria mais viajar todos os finais de semana com a família para a casa de praia. Podia ficar com a vovó, no apartamento da cidade. Para estudar, o exame de admissão à escola onde eu queria ingressar no ensino médio me demandava demais, devo ter alegado. Minha mãe entendeu minha bondade, ou não, e negociou o acordo com meu pai, que exigia a família inteira sempre grudada. Minha avó também entendeu, ou não, e aceitou agradecida. Nenhuma das duas demonstrou reconhecer minha atitude como gratuita generosidade, mas como força de caráter, prefiro acreditar.

Minha avó tinha uma doença nunca diagnosticada nas vias urinárias que a fazia gemer com sua voz quase inexistente o dia inteiro. O que não a impedia de seguir cozinhando para a família, no princípio, mas desde sempre a constrangera a não sair de casa. Não lembro de alguma vez tê-la visto caminhando pela rua, indo às compras, frequentando aniversários.

Pela segunda vez, a morte me atingiu com sua concretude feita de nada. Minha avó morreu em casa.

Antes, esteve em coma em uma cama hospitalar instalada no quarto mais iluminado e arejado da casa. Era o único quarto que tinha vista para a rua, larga, arborizada por oitis nas duas calçadas. Amplo, com espaço de sobra para minha mãe circular pelos dois lados da cama, a cabeça branca da minha avó de costas para a janela.

Desejei em silêncio que ela partisse logo; lido mal com estados terminais, tempos depois entendi. O sofrimento, sua falta de propósito, uma vez que, ao fim, a morte sempre ganha a última batalha, me comovem de um jeito que eu, que só costumo formular desejos negativos, desejo que a morte termine sem demora o seu trabalho.

A morte da minha avó foi uma libertação. Um alívio para ela própria. Para minha mãe, que emagreceu uns dez quilos em menos de quinze dias depois do óbito. Para mim, que parei de me angustiar em culpas por desejar que aquele sofrimento acabasse logo.

Não chorei quando minha mãe deu a notícia, nem depois, nem no velório. Também não quis ver o rosto da minha avó depois de morta: uma vaga sensação de desrespeito em ver o corpo nu da pessoa que antes estava dentro dele. Sem a autorização de sua alma — só fui entender esse sentimento muitos anos depois.

 

4.

[desejo negativo]

 

Fui uma menina definida por nãos.

Não queria casar.

Não queria ser mãe.

Não queria ser gorda.

Não queria usar vestidos.

Não queria ser magra, o que eu queria era não ser gorda. Assim eu me expressava, assim eu me sentia.

Um desejo negativo é um desejo que se formula com um não no início.

Não gostava de feijão preto, nem de qualquer comida ensopada; não dizia que preferia pizza de mozzarella, mas que não queria a de frango desfiado

que meus irmãos gostavam.

Não quis ganhar brinquedo no aniversário de onze, mas roupa: algo útil, que ia ao encontro das necessidades dos meus pais, às voltas com um orçamento apertado.

Pensar antes nos outros: por muito tempo eu me supus magnânima. Mas na verdade, na falta de um desejo próprio, eu embarcava no dos outros.

Era um mecanismo similar ao que fazia com que eu me definisse pelo que me desgostava no meu entorno. Não queria ter a vida da minha mãe, completamente absorvida pelo cuidado dos filhos, marido, casa, roupas, compras. Nem das minhas tias, vizinhas, professoras da escola. Tampouco as mulheres solteiras que me cercavam eram inspiradoras: uma professora feiosa da escola, uma vizinha idosa que cuidava dos irmãos deficientes. Não sabia que tipo de vida eu desejava, só sabia que não me agradavam as opções.

Desvelar-se pelas fronteiras, pelos nãos que a delimitam, é também uma forma de definir-se. Afinal, é pelos contornos que se define uma forma.

 

5.

[pretextos]

 

Comecei a namorar cedo. Entre os onze e os doze, arrisco dizer.

Toda vez que tento ancorar uma lembrança em uma data, me arrependo de nunca ter tido a ideia de manter um diário. O mesmo tipo de arrependimento de não ter arguido certas coisas dos meus maiores. Da minha avó, por exemplo, o porquê da boneca de corda que ela mantinha perfeitinha no fundo do guarda-roupa de mogno, o móvel mais elegante da casa, onde ela guardava todas as suas coisas

Então penso em começar um diário, e começo, mas paro, antes de se completarem duas semanas.

O primeiro namoradinho — protejo seu nome dizendo que se chamava Fred — tinha a pele clara, o cabelo louro, olhos azuis. Era mais velho que eu, talvez três anos, e mais alto uns vinte centímetros. Eu não tinha maturidade para namorar, nem para entender o que significava gostar de alguém, mesmo assim aceitei o vínculo que ele me propôs.

Nos conhecemos na praia onde veraneávamos, por isso calculei minha idade entre os onze anos e os doze anos. Porque foi aos treze que parei de viajar com a família para ficar com a vovó no apartamento da cidade, o que, afinal, foi um alívio para todos. Minha avó poupava-se, além do desgaste com a viagem, de estar mal acomodada em uma casa onde cabiam oito, mas recebia dezoito. A família se desonerava de levá-la, e a sua vulnerabilidade, nos finais de semana. E eu, a pretexto de estudar, livre de vigilância, podia fazer o que queria.

Namorar dois ao mesmo tempo, por exemplo.

Inaugurei essa prática com o Fred.

Foi minha avó quem sem querer me entregou. Quando ele apareceu sem avisar, ela disse que eu estava na casa dos primos. Ele foi até lá e descobriu nosso logro.

Era um bom menino o Fred, fiquei triste, não pelo fim do namoro, não sentia por ele mais que um afeto ligeiro: não tinha maturidade, repito, para entender o significado de um compromisso.  Fiquei triste por decepcioná-lo, traumatizá-lo com uma deslealdade tão gratuita em sua primeira tentativa de amor.

Gratuita, sim, porque não gostava do menino com quem estive naquele fim de tarde e talvez duas ou três vezes em seguida. Era mais feio, mais chato, mais velho e mais desinteressante.

Os namoros para mim eram cenários para o exercício, nem de afetos, mas de movimentos do corpo: beijar, abraçar, ser beijada, caminhar de mãos dadas, ser abraçada. Mal comparando, trocar de namorado seria o mesmo que trocar de personal trainer, por exemplo, nos dias de hoje.

 

6.

[um salto]

 

Depois do Fred, não namorei mais dois ao mesmo tempo. Não de imediato. O aprendizado com a experiência me faria repeti-la muitas vezes, com melhor performance, anos mais tarde e pela vida afora.

Segui flertando, a me esquivar dos compromissos. Mantinha uma espécie de séquito, um harém masculino, a me cortejar e eu alimentando, faceira. Houve dois Marcos na escola, um Helinho e um Luiz na vizinhança e dois primos, um mais velho que eu, o outro mais novo.

Até chegar ao ensino médio.

A escola nova me absorveu. Horário integral, bem mais distante de casa, muitos alunos, eu, umazinha entre mil. Era a época das festas de quinze anos. Eu voltava zerada para casa porque só os garotos mais sem graça – franzinos, baixinhos, esquisitos – se interessavam por mim.

Até que numa dessas festas, o Adamastor me convidou para dançar.

Sim, chamava-se Adamastor, posso dizer seu nome sem risco de expô-lo.

O Ada era africano, mais alto que eu, dois anos à frente na escola, roliço e firme como um brigadeiro guardado por dois dias na geladeira, mas sem a aspereza do granulado por cima. Não foi um desejo negativo dessa vez, embora tenha surgido também como um contorno: do corpo dele contra o meu.

Ele me apertava me forçando a acompanhá-lo nos passos, eu seguia como se minhas pernas fossem dele. Transpirávamos, o salão estava cheio, nossos suores se misturavam, mas eu não sentia nojo, até gostava, embora ele não cheirasse assim tão bem. Dançamos a noite inteira.

Apaixonei-me e passei a persegui-lo na escola. De cortejada a perseguidora foi um salto na minha trajetória afetiva.

As salas do primeiro ano ficavam no térreo, as do terceiro, no segundo andar, minha presença por lá era uma tremenda bandeira. Eu também dava um jeito de ir até o ginásio na hora da educação física dele. Ele era bem popular, quase sempre acompanhado, me cumprimentava de longe com um sorriso de dentes grandes e brancos e eu acreditava tínhamos um futuro à frente.

A perseguição durou uns dois meses. Eu era insistente. Até que aconteceu de um dia ele estar sozinho na saída do ginásio e vir falar comigo. Segurou no meu rosto, achei que ia rolar um beijo e senti o mesmo vazio de morte, entre o pulmão e a garganta — o medo de ser atropelada e morrer.

E morri mesmo.

O Ada me disse que tinha namorada.

Alguma coisa, entretanto, me dizia que ele estava mentindo. A forma delicada como ele tocou no meu rosto, o tom de voz muito brando, a escolha cuidadosa das palavras. Estava me dispensado, sim, mas de uma forma elegante. Eu era importante para ele, mas havia um obstáculo entre nós: eu era branca, ele preto, inventei.

Talvez por pena, ele deu um selinho na minha boca entreaberta de frustração e surpresa. E eu confiei com força na minha narrativa besta.

 

7.

[o superpoder]

 

Na mesma noite tive um pesadelo. O Ada estava com uma garota loura, o cabelo liso dividido ao meio, o rosto de boneca, rosado, com um vestido curto azul marinho com uma estampa muito discreta em verde. Estávamos numa festa, os dois afastados da pista, ele debruçado sobre ela, encostada na parede, ele acariciava o rosto dela e a beijava na testa, nas laterais do rosto, por baixo do cabelo.

A sensação do sonho era tão verdadeira. E a raiva — nem sei se raiva, se ciúme —  fazia meu corpo arder, como uma febre. Não consegui voltar a dormir. Eram quatro da madrugada e meus olhos abertos como se dez da manhã fossem.

A cena era tão real a ponto de me fazer acreditar que não havia sido um sonho, mas a manifestação de um superpoder: de saber o que não estava dado.

Eu acreditei.

Que o Ada tinha uma namorada mais bonita do que eu. Era isso. Minha ficção de amor impossível dissolveu-se num choro violento. E silencioso. Eu dividia o quarto com minha irmã.

Coberta até a cabeça com o lençol, agora transpirando por causa do choro, levei o dedo — o polegar da mão esquerda — à boca.

Foi assim que voltei a chupar o dedo. Escondida ou quando tinha certeza de que não havia ninguém por perto. Aos quinze, de novo, como havia feito até os onze.

 

8.

[a terceira vez]

 

Fui um bebê que chupava o dedo. Comecei antes de me oferecerem a chupeta. É o que contam.

Só lembro de quando comecei a ter vergonha de chupar o dedo na frente das pessoas Foi depois do nascimento da minha irmã. Como ela é cinco anos mais nova do que eu, eu tinha entre cinco e seis anos. Minha irmã também pegou o dedo: mimese entre crianças. E foi por isso que as pessoas começaram a me reprimir: você já é uma mocinha, isso é coisa de bebê, veja só a sua irmã, vai ficar beiçuda que nem você.

Comecei me escondendo só dos que não eram de casa, depois deles também. Chupava o dedo no banheiro, debaixo dos lençóis, quando não havia mais ninguém no mesmo cômodo ou virada para a parede quando me deitava na cama. Só não me preocupava em me esconder da minha avó.

Voltei mesmo a chupar o dedo a partir daquela noite. O polegar na boca em lugar do Ada, que, a mim, preferia a loura, que se chamava Isabela, o nome me ocorreu dois dias depois do sonho.

Voltei a perseguir o Ada mas então com outro propósito: confirmar o poder visionário do meu sonho.

Havia uma menina da minha classe que morava na mesma rua que ele, tratei de fazer amizade. Logo estava frequentando a casa dela, mais preocupada com o que acontecia do lado de fora das portas e janelas do que em conviver com, embora eu disfarçasse bem.

Avistei o Ada duas vezes e ele não estava acompanhado da loura.

Minha loucura temporária demorou a passar, mas abrandou depois de um tempo, embora eu não lembre nem por quê, nem quando.

Estava no segundo ano, o Ada já na faculdade, quando soube que ele havia sofrido um acidente gravíssimo. Mesmo já estando fora do colégio, ele seguia sendo muito popular, muitos estudantes iam visitá-lo e eu decidi fazer o mesmo.

Foi minha segunda experiência com um doente, não digo terminal, mas bem mal. UTI, vários aparelhos ligados, ele parcialmente consciente. A mãe estava no box, a primeira coisa desajeitada que fiz foi cumprimenta-la com um desastroso “tudo bem?”. Me identifiquei, trocamos palavras sobre prognósticos e eu comecei a me sentir mal, enjoada, me despedi atordoada e desabei do lado de fora. Literalmente. Perdi a força nas pernas, escorreguei pela parede até cair sentada no chão, uma enfermeira perguntou se eu estava bem, balancei não com a cabeça, ela me trouxe um copo d’água e eu aos poucos recuperei a força e a cor.

O Ada acabou morrendo, quer dizer, se matando. Aproveitou-se de um momento em que estava sozinho no quarto para desligar os aparelhos que o sustentavam. Havia um prognóstico de que ele não voltaria a andar. Embora essa não tenha sido a versão oficial, nem da família, nem da escola, foi a que circulou pelos corredores.

Pela terceira vez, a Morte me atingiu em sua concretude oca. Em uma nova modalidade: autoimposta e por escolha.

Foi uma comoção na escola. Alunos, professores, funcionários, até os calouros movidos pela tragédia, fomos em peso ao velório.

Foi então que eu vi a loura.

Alisava o cabelo do Ada, murmurava qualquer coisa, os lábios quase tocando-lhe o rosto. Era Isabela o seu nome.

 

Capítulo II – Empate

 

10 .

[a biblioteca]

 

Alguma coisa aconteceu comigo depois que o Ada se foi. A Morte ganhou um espaço – vazio — dentro de mim.

Comecei a ler tudo que encontrava sobre suicídio. A escola tinha uma biblioteca parruda; os livros, eu os tomava de lá e dava um jeito de ler meio escondida. Tanto da família quanto dos colegas. Só uma das funcionárias da biblioteca se deu conta da minha fixação no tema e ficava me arguindo se estava tudo bem comigo. Então passei a frequentar a biblioteca no horário da tarde, depois que ela já havia ido embora.

Não lembro todos que li. Na época não tinha o hábito, nem do diário, que sigo não tendo, nem de anotar os livros que lia. Mas lembro de alguns:  O Mito de Sísifo, do Camus; O Suicídio, de Émile Durkheim; Os Sofrimentos do Jovem Werther, do Goethe; Cartas de amor aos mortos, As virgens suicidas.

Outra coisa que mudou foi  minha percepção e meu sentimento em relação à morte da minha avó. Já havia se passado um ano, mas foi só depois de perder o Ada que eu comecei a sentir falta dela. Era com ela que eu queria falar sobre os livros que eu estava lendo, sobre como eu estava me sentindo, de pedir perdão pela minha frieza, por não lhe ter feito um carinho quando ela estava em coma, por não lhe ter desejado o melhor na outra vida, por não ter me aproximado do seu corpo no velório, não ter tocado nas suas mãos pela última vez.

Comecei a sentir o cheiro dela. Em casa, na escola, na rua, dentro da sala de aula. Às vezes era o cheiro da doença; outras vezes, o cheiro das prateleiras do armário de mogno; às vezes, o da pele, à talco, depois do banho. Como se ela estivesse por perto. Comecei a falar com ela, em silêncio, claro, dentro da minha cabeça.

Só que ela não respondia e eu precisava de respostas.

Minha mãe não era alguém com quem eu pudesse conversar. Ela também parecia ter inaugurado uma Morte dentro de si depois que minha avó partiu. Falar de temas fúnebres com ela não era uma hipótese.

Meu pai talvez até pudesse ter sido um bom ouvinte, um bom aconselhador, mas ele não conversava, sempre ocupado com suas leituras, seus carteados noturnos com os amigos do bairro, seus programas de televisão.

Minha irmã era uma pirralha, meus amigos iam achar que eu era maluca, meus irmãos mais velhos, idem. Só me restavam os ouvidos fantasmáticos da minha avó, sempre disponíveis aos meus temas metafísicos de culpa, perda, saudade, suicídio como possibilidade.

E ainda havia o superpoder de ver o que ainda não existia.

 

11.

[relicário]

 

Desde bem pequena sempre fui uma menina com certa inclinação religiosa.

Quando mudamos para o apartamento do outro lado da estação, senti-me muito acolhida pelo padre da paróquia. Cheguei a frequentar um grupo de jovens por um tempo, embora logo tenha me aborrecido ao perceber que as pessoas só estavam lá para namorar, a conexão com o padre Josef persistiu. Ele sabia meu nome, conhecia minha família, cumprimentava-me quando me via na igreja – às vezes eu ia à missa sozinha durante a semana. Ele me enxergava. Quando fiz quinze anos, me deu uma cruz de presente, segurou minhas mãos entre as suas, brancas e cálidas, fez uma oração em voz baixa, demorada, e eu tive que segurar as lágrimas. Adoraria lembrar o que ele disse — a falta que faz um diário. A cruz, guardo até hoje. Meu relicário.

Devo ter me confessado algumas vezes com ele, mas poucas. Confessar é algo que sempre me constrangeu, não pela humilhação, mas porque eu me colocava no lugar do padre e achava embaraçoso ter que ficar ouvindo toda aquela exposição da intimidade.

Foi o padre Josef que procurei para conversar.

Foi com ele que compreendi, não naquele momento, mas refletindo mais tarde, e até hoje, que a culpa é um sentimento improdutivo. Talvez por isso sejamos sempre perdoados, não importa a gravidade do pecado, mediante um ato de contrição e uma penitência simbólica. O catolicismo com sua sabedoria antiga, quer a reconheçamos ou não, nos impregna.

Padre Josef me conduziu à sacristia, sentou-se à minha frente, ouviu-me com os olhos cerrados por quase todo o tempo, a cabeça levemente inclinada para cima. Hoje eu o consideraria um homem bonito.

Não abri completamente meu coração na conversa. Não revelei meus pensamentos mais mesquinhos, ser consciente deles já era por demais desgostoso, ouvi-los seria insuportável.

Ele me falava com calma e pausadamente, com seu sotaque estrangeiro e a voz nem aguda nem grave. Claro que não lembro de tudo que ele disse, mas lembro bem do efeito das suas palavras.

Comparou minhas leituras, meu interesse em entender a atitude do Ada, com uma espécie de oração por ele. E quando eu falei sobre sentir o cheiro da minha avó, ele deu um sorrisinho muito discreto, segurou as minhas mãos, olhou bem nos meus olhos e disse que aquilo era uma sorte.

Quando enfim eu estava preparada para falar do meu superpoder, já estávamos havia mais de uma hora juntos, ele disse que tinha outros compromissos, me abençoou, beijou minha testa, minha mão, mandou um abraço para os meus pais, disse que eu fosse em paz e voltasse sempre que precisasse conversar porque ele tinha gostado muito de me ouvir.

 

12.

[“Charlotte”]

 

Num dos livros que li durante meu mergulho na temática do suicídio, havia uma família marcada por uma trágica sucessão de suicídios: a irmã da protagonista, a tia, a mãe e, por último, a avó. Um segredo só revelado pelo avô à personagem após a morte da avó, a última do livro.

Como se o suicídio fosse uma condição transmitida geneticamente entre gerações. Como a miopia, uma cardiopatia, a diabetes ou a hipertensão.

No livro, a motivação do suicídio da avó era a de não deixar a cargo da Morte a decisão sobre o momento do seu fim. A avó está doente e acha uma humilhação sujeitar sua vida ao ritmo imprevisível de uma degradação inevitável. Não lembro como ela se mata, mas lembro que, durante a leitura, me pareceu muito razoável sua justificativa. Como tomar um comprimido para aliviar a dor ou baixar a febre. Um artifício deliberado para contornar um mal-estar que o corpo, ou a mente, não consegue, ou não está disposto, a suportar.

Foi o que o Ada fez.

E o que eu poderia fazer, se porventura me acontecesse um mal incontornável.

Bastava não olhar para os dois lados ao atravessar a rua. Eu sabia de antemão — meu superpoder — o que não estava dado: que eu morreria atropelada.

Esse pensamento me tranquilizou. E me tranquiliza até hoje.

 

13.

[a esteira]

 

Era época de pensar em vestibular. Só se falava disso na escola. Precisávamos decidir antecipadamente, porque no último ano do ensino médio, a escola focalizava as disciplinas conforme a área que os estudantes iam prestar.

O caminho natural era fazer medicina, seguir a carreira do meu pai. E da minha mãe também. Ela era enfermeira antes de se tornar dona de casa em tempo integral.

Meu irmão mais velho, desde sempre apaixonado por aviação, já no ensino médio entrou para a aeronáutica e seguia feliz na AFA. O mais novo, desde pequeno um desenhista fantástico, me matava de inveja como as histórias em quadrinhos que criava, resolveu fazer arquitetura. Eu era a última esperança do meu pai e como não tinha nenhuma vocação outra como os meus irmãos, não havia como me desviar.

Eu tinha claramente um problema com a medicina. Eu era covarde, a experiência com o Ada, minha visita a ele na UTI, confirmou. Um horror ante estados graves ou terminais. Antes do Ada, eu já havia experimentado esse horror certa vez em que minha mãe me arrastou com ela ao visitar uma conhecida, que nem estava tão mal, mas o acesso no pescoço, a magreza, a palidez, um cheiro estranho, acho que a senhora era diabética. Vomitei no meio do quarto. Fiquei traumatizada por um bom tempo, a imagem da senhora com acesso no pescoço me fantasmagorizando quando eu fechava os olhos.

Com o Ada foi o vexame de não saber o que dizer, de ter que fugir para não desabar.

Conversei sobre isso com a orientadora vocacional e depois com meu pai. Ambos pareceram ter combinado o discurso. Que como médico era outro o contexto, que o médico se acostuma, que era um desperdício eu, com minhas notas excelentes no colégio e com as portas abertas para a carreira, não seguir uma profissão tão nobre e generosa.

Eu não tinha vontade de ser nada. Nem astronauta, nem aeromoça, nem veterinária. Nem desejo negativo eu tinha: ia bem em todas as disciplinas, não era daquelas que tinha pavor de geografia ou matemática.

Na falta de um desejo próprio, marquei biológicas na preparação para o vestibular: embarquei na esteira da família, no desejo do meu pai.

 

14.

[lenda familiar]

 

Minha mãe parou de trabalhar quando eu nasci.

Meu irmão mais velho tem dois anos a mais que eu; o segundo, um. Três crianças pequenas seriam demais para minha avó sozinha dar conta. Por isso minha mãe teve de deixar o trabalho. A velha história: contratar uma babá sairia mais caro que o salário que ela ganhava. Meu pai ainda era um jovem médico sobrevivendo de plantões nem sempre bem pagos.

O impacto da decisão foi meio forte para ela. Não sei se foi só isso. Acho que o fato de eu ser uma menina também pesou.

O meu superpoder de saber o que não está dado.

Minha mãe teve uma depressão puerperal. Na época não se falava tanto disso, não havia nem CID para classificá-la. Mas foi isso. Hoje ela teria sido mais bem compreendida e assistida, quem sabe.

Parou de me amamentar antes de eu completar um mês. A lenda familiar conta que o leite secou. Eu desconfio de que ela parou deliberadamente, porque não suportava me ter ao colo nem minha sofreguidão em sugá-la.

Na prática, minha avó teve de cuidar de nós três — crianças-bebês, que não paravam de demandar — e da minha mãe, completamente surtada.

Tenho a teoria de que comecei a chupar o dedo nesse contexto. Meus irmãos verbalizando aos berros suas demandas, minha mãe preocupando todo mundo por causa da depressão e eu, a bebê, a menor, no tamanho e na voz, a última na fila em ser atendida em suas necessidades.

O que a bebê, eu, fez? Deu seu jeito. Supriu sua necessidade de colo, de um bico de peito para sugar; descobriu o próprio dedo e o poder da autossuficiência em chupá-lo.

Sim, porque eu nunca suguei o dedo, eu o deixava estar na boca, algo mais passivo. O conforto de ter matéria entre os lábios, entre o palato e a língua. Nunca foi de comida minha falta — disso minha avó sempre deu conta — mas de toque, de pele, de um corpo em contato.

 

Capítulo III – Segundo tempo

 

15.

[a quarta vez]

 

As aulas com cadáveres me intimidavam menos do que à maioria dos meus colegas. Assim eu gosto de pensar.

Começaram cedo. Na terceira semana, se bem me lembro, entramos pela primeira vez no laboratório de anatomia. Não foi uma novidade para mim, já havia estado ali levada pelo colégio junto com outros estudantes que, como eu, iam prestar vestibular para área biomédica.

Como nessa visita prévia, na nossa primeira incursão no Lab só havia peças osteológicas e o cheiro de formol não era tão forte. Que eu me lembre, não houve ninguém vomitando nessa primeira aula. No meu caso, o problema maior nunca foi o formol, mas a luz branca fluorescente que, passado um tempo, começava a me enjoar e eu precisava sair para tomar um pouco de ar.

A corda apertou mesmo na primeira aula com um cadáver inteiro. Embora o professor tenha nos preparado bem para o evento, quando ele descobriu o braço do morto e eu vi a mão acinzentada, as unhas perfeitinhas, senti um vazio no estômago, as pernas tremeram. Para meu azar, eu estava na primeira bancada, a menos de dois metros do morto. Tive que sair da sala para me recompor. Eu e mais meia dúzia de colegas. O professor perguntou se precisávamos de Dramin com sarcasmo e interrompeu a aula. Cinco minutos para tomar uma água, quem precisar, disse, e não se atrasem.

Distribui o Dramin que trazia na mochila; uma outra colega, também filha de médico, tinha Plasil na bolsa; não foi suficiente para os colegas nauseados. Esfreguei um pouco mais de Vick no nariz, embora meu problema não fosse exatamente o cheiro, mas o conjunto da obra.

Mas o pior ainda estava por vir na continuação da aula. O rosto do cadáver. O professor não precisava tê-lo mostrado, mas ele o fez, fingindo descuido, com um risinho forçado, sádico diante das contorções em nossas caras.

As rugas, os vincos, as covas, os dentes, a expressão serena, o cabelo, a mandíbula projetada. Até hoje, me lembro da imagem.

Eu até gostei bem das aulas de anatomia depois, de ver o corpo por dentro, esquecia o formol, a luz branca, conseguia abstrair o fato de que houvera uma vida antes, totalmente absorvida pelo privilégio do conhecimento, não o dos livros, mas o da mão na massa.

Mas aquele primeiro rosto me assombra até hoje. Um rosto sem voz. Uma história interrompida que nunca mais seria contada, devorada pelos vermes, tornada cinza, com sorte um corpo a serviço da formação de estudantes, com sorte vocacionados para a prolongamento de outras vidas que um dia seriam, com sorte, apenas saudade.

 

16.

[desejo negativo II]

 

Eu e grande parte dos calouros circulávamos vestidos em nossos jalecos brancos ou com eles jogados às costas, mesmo quando não tínhamos Lab.

O jaleco não dava apenas status, alavancava também o sex appeal. Não sei se o de todo mundo, mas o meu com certeza. Colecionei um harém de admiradores já no primeiro semestre. Voltei à velha forma. Fiquei com poucos, não sobrava tempo pra nada, mal dava para flertar nos intervalos das aulas. Tinha estudado muito para entrar e seguia me matando para dar conta da carga horária, do volume de conteúdo para estudar em casa.

Só fui namorar já no segundo ano. Um colega de turma. E novamente fiz uma lambança. Comecei a flertar com outro, da engenharia, formando, quatro anos mais velho. Na verdade, ele começou a flertar comigo, para ser exata. Éramos colegas numa classe de estatística aplicada, eu tinha gostado muito da disciplina de bioestatística – as matemáticas sempre foram meu forte — e fiquei com vontade de aprofundar. Ele sentava ao meu lado, puxava conversa, pagava meu café, eu dava corda, sem dar. Até que um dia ele me convidou para uma cerveja. Meu namorado tinha viajado com a família, enforcado uns dias de faculdade no meio de um feriado, e não tinha nem cogitado me chamar. Aceitei tomar a cerveja e aí aconteceu um beijo; fiquei com cara de besta, mas me deixei beijar.

Eu não gostava de nenhum dos dois, mas optei pela novidade. Tentei terminar com o namorado oficial, sem entrar em detalhes sobre a minha pulada de cerca, óbvio, mas ele não aceitava. Então fiz o que eu já sabia fazer, fui levando o romance com os dois até um ponto em que a situação ficou insustentável. A universidade não era assim tão grande e aquele jogo me cansava.

Segui namorando o engenheiro, digamos que se chamasse Roberto. Ele era mais velho, tinha mais repertório do que eu, que na falta de desejos próprios, tomava emprestados os dele, como antes tomara os do meu pai. Mas tomar como seus os desejos alheios, acaba gerando muita frustração. E raiva. E a raiva desgasta. Os colegas e até minha mãe, tão desatenta usualmente, percebiam que alguma coisa não ia bem naquele namoro.

Um dia, num hotel, não sei se antes ou depois de transarmos, compreendi o que faz uma pessoa cometer um crime passional. Não consigo lembrar o que ele falou, ou fez, ou me induziu a fazer, talvez tenha sido apenas o acúmulo de um dobrar-me ao que ele me convocava, talvez o horror de me perceber capaz de um ato tão extremo como tirar a vida de uma pessoa tenha apagado minha memória. Dei graças a Deus por não ter meu bisturi à mão. Teria sido muito fácil rasgar sua carótida.

 

17.

[nunca lhe daria alta]

 

Sentir vontade de matar uma pessoa não é o mesmo que ser um assassino. Mas é quase.

Tenho uma teoria sobre a minha mãe. Acho que ela pensou em me abortar quando se descobriu grávida.

Certamente não fui uma filha planejada. Minha mãe engravidou de mim quando ainda amamentava meu irmão. Imagino a tristeza ao se dar conta de que teria que abandonar o trabalho e se tornar dona de casa em tempo integral. Depois de estudar, se formar, trabalhar, ter um bom emprego, ser reconhecida pelos pares, requisitada pelos médicos, estimada pelos pacientes. Ela costumava dizer “meu paciente” quando contava algum episódio vivido por sua “eu” antes de se tornar uma trivial dona de casa.

Meu pai uma vez me contou que, antes mesmo da minha mãe confirmar a gravidez, ele estava certo de que era uma menina que ela preparava. Sua mãe ficou feia, ele disse e eu não perguntei mais nada.

É claro que minha mãe se percebia mais feia a cada dia; que sabia ser a vida a tomar forma dentro de si a causa; que arrefecia a atração do marido; que a obrigaria a deixar o emprego, que tornaria sua vida um gravitar em torno de filhos e fraldas e tarefas sem fim dentro de uma casa que, por mais que ela se esforçasse, nunca lhe daria alta.

É claro que minha mãe desejou que a gravidez não vingasse. É claro que pensou em sustá-la.

Certa vez uma tia, na verdade, mulher do meu tio, disse, não lembro o contexto, que eu era para ter sido abortada. Depois desmentiu quando percebeu que tinha falado demais.

Conhecendo minha mãe, acredito que ela tenha tentado.

Meu superpoder é uma máquina de criar evidências sobre o que não está dado.

Meu pai era muito religioso, jamais concordaria. Mas minha mãe sabia bem como um corpo funcionava, sabia como tratá-lo caso alguma coisa desse errado. E deu. Então ela levou minha gravidez com desgosto. Por isso a depressão pós parto, a rejeição, o remorso manifestado no apego desmedido quando minha irmã nasceu quatro anos mais tarde e a culpa quando eu me envolvia com tipos como o Roberto ou quando eu dizia ser indiferente à maternidade.

Sentir vontade de interromper uma gravidez, ou tentar, não é cometer um aborto. Mas é quase.

 

18.

[coragem]

 

Passado o impacto inicial, me acostumei com os cadáveres. Minha contagem de mortos acelerou-se vertiginosamente.

Minha curiosidade fazia as aulas de anatomia passarem voando, eu completamente entretida e concentrada e maravilhada em ver e tocar cada órgão-músculo-tendão, totalmente abstraída da vida que antecedeu aquele corpo seco, sua paleta em cinzas, castanhos e amarelados, por dentro. Não havia dor nem sangue, só o meu interesse em aproveitar o privilégio de confirmar o que sabia dos livros com a ponta do bisturi, os dedos protegidos por luvas, os olhos por trás das lentes dos óculos.

Os corpos reais surgiram no quinto semestre com o início da clínica.

Corpos que sentiam dor, que falavam sobre ela. De idosos, de crianças, desnutridos, obesos, que às vezes não cheiravam bem, com feridas abertas, com medo, que queriam saber se tinham cura, que às vezes eram incapazes de ler o que eu prescrevia no papel.

Eu atendia no ambulatório, mas precisava cruzar a enfermaria. Doentes depositados em macas pelos corredores, idosos descarnados alucinando, acidentados imobilizados aguardando atendimento, faces contorcidas de dor ou desespero com a espera. Cumpria meu trajeto olhando o bico dos sapatos, não suportava os olhares esperançosos de alguma atenção quando eu passava com meu jaleco de médica, a vergonha pela minha impotência pesando nas minhas costas.

Você vai se acostumar, meu pai dizia. Eu nem queria acreditar. A hipótese de me acostumar com o horror era tão insatisfatória quanto ter de suportá-lo.

Eu não era a única da turma a sofrer com dúvidas sobre ter escolhido a profissão certa. Não conversávamos muito abertamente sobre isso, salvo depois de uma ou muitas cervejas no barzinho onde batíamos ponto perto da Universidade. Ali, com os jalecos amassados dentro das mochilas, alguém sempre comentava sobre o desgosto com as lâmpadas fluorescentes brancas do hospital, com a capacidade de atendimento sempre aquém da demanda, com o cheiro a desinfetante e água sanitária.

A morte planando — um abutre — sem sombra, acima da luz branca que nunca apaga, o cheiro que exala dos corpos doentes sob os vapores do álcool e da água sanitária. Eu pensava, não ousava falar.

Apenas uma estudante abandonou o curso declaradamente por se perceber não vocacionada — a Mariângela — éramos muito próximas. Foi uma comoção na turma. Uns a julgaram fraca; eu a achei corajosa.

 

19.

[inveja]

 

A Mariângela foi para a biologia. Já bem ambientada no novo curso, nos encontramos para um brunch no sábado.

Ela me conta que aproveitou muitas disciplinas e, por conta disso colapsou sua grade e seu horário. Tem aulas espaçadas ao longo do dia, pela manhã e à tarde, com muitos horários livres e por disso, diz toda empolgada, começou a participar de uma pesquisa que envolve a polinização artificial de flores de maracujá. Fala, demonstrando com as mãos de dedos longos e delicados, da paciência que o processo requer: recolher o pólen de uma flor com um pincel finíssimo — ela prefere ao uso de um cotonete — e transferi-lo para o estigma de outra flor, de outra variedade. O professor não exige a emasculação, mas considera mais seguro que seja feita, ela conta, e explica que remove com uma pinça – o polegar e o indicador da mão direita simulando o movimento — as cinco anteras da flor receptora.

Sinto cheiro de maracujá, embora esteja bebendo limonada.

Ela diz que o professor ficou impressionado com sua habilidade e ficou de interceder por uma bolsa de iniciação científica, faz questão de mantê-la no projeto. Ela ri e me diz abaixando a voz que adquiriu a delicadeza cortando cadáveres.

Eu fico feliz por ela. Um sentimento parente bom da inveja.

 

20.

[Burns]

 

A Mariângela adorava biologia no ensino médio. Talvez tenha sido isso que a empurrou para a medicina. Muito estudiosa, notas boas; fazer biologia para ser professora seria um desperdício, podendo ser médica. Além do desafio de passar para o curso mais concorrido, do status, do jaleco branco, etc.

Já eu, no ensino médio, não tinha preferência por nenhuma disciplina. Estudava tudo e qualquer coisa com a mesma dedicação e nenhum entusiasmo: cumpria o que estava dado, tanto me fazia ser engenheira ou geógrafa. Só lembro de um livro na escola que me capturou: um livro de história, História da Riqueza do Homem, do Edward Burns. Li com gosto e com surpresa, lembro sobretudo do capítulo que associava o nascimento do romantismo com as circunstâncias históricas da época. Acho que a interdisciplinariedade me seduziu. Costumava preferir ficar lendo o Burns a trocar saliva com meus namoradinhos bobocas da época.

Ouvindo a Mariângela falar sobre as aulas de morfologia e sistemática vegetal, em que ela desenha com lápis de cor as curvas, a pele de flores e, depois de dissecá-las com pinças e bisturis, as suas entranhas, me imagino manuseando arquivos antigos, as mãos protegidas por luvas, como no Lab ou, às vezes, no atendimento dos pacientes, decifrando textos do século dezessete.

Não, não seria uma hipótese.

Abandonar a medicina no meu caso não seria uma escolha, seria apenas uma derrota.

 

21.

[os shots]

 

Conheci o Rodolpho e o Sílvio na metade do meu primeiro ano de residência. Eles eram mais velhos, haviam estudado nos Estados Unidos e eram ricos. O Rodolpho, muito, muito mais do que o Sílvio. O pai dele era embaixador, o do Sílvio, funcionário menos graduado da embaixada. Mas a riqueza do Rodolpho não vinha do pai, mas dos avós, talvez dos bisavós.

Acho que só por causa deles consegui suportar a residência até o final.

Os conheci depois de perdermos uma paciente que havia dado entrada pela emergência com uma sepse puerperal com embolia, resultado de uma infecção certamente adquirida no parto.  Lembro quando ela entrou, acompanhada pelo marido, a menina com menos de quinze dias no colo. Não havia vaga na enfermaria, tentei conseguir um quarto, por causa da bebê, mas não consegui. Fiz tudo para convencê-lo a voltar para casa, que voltasse mais tarde sem a bebê, não tenho com quem deixar a bebê, ele disse com uma cara de desespero, e eu antecipei que na próxima fala ele entregaria a bebê aos meus cuidados.

Dei um jeito de arranjar um espaço mais seguro para os três passarem a noite, fraldas e higienizadores para a bebê. Sentei-me ao lado deles por um tempo, a bebê adormecida, eu sem encontrar palavras, ele sem me perguntar nada. Quando o homem se acalmou, já madrugada alta, me contaram que ele e a bebê acabaram indo embora.

A mulher passou um dia e meio na emergência antes de subir para a enfermaria. O marido a visitava todos os dias, por horas, um terço na mão, o sofrimento na cara contrastando com a lividez tranquila dela, desacordada.

Assisti um parto natural logo nos primeiros dias de residência. Por mais que eu soubesse, a experiência superou em muito o horror construído na imaginação a partir de leituras e imagens. E eu confirmei meu superpoder: saber de antemão o que não estava dado. A falastranice rebelde da infância — não quero ter filhos! — não era uma bravata, era um saber antecipado.

A brutalidade e o risco. E o desejo negativo de evitá-los.

A paciente da infecção puerperal faleceu depois de oito dias entre a vida e a morte, duas paradas cardíacas, uma delas após uma hemorragia, consequência de anticoagulantes, sangrando por onde o corpo encontrava saída, a cama encharcada, a enfermeira no corredor exclamando: Meu Deus! Quanto sangue!

Duas semanas depois, conheci os rapazes e os shots que eles dividiam comigo, não queria saber o que eles misturavam, só me interessava o efeito: um amortecimento mental, espécie de abrandamento do vínculo entre o corpo e as emoções, que me permitia agir sem que as pernas bambeassem, o estômago se contraísse, as pálpebras, num reflexo, quisessem se fechar.

Um comentário em “ER 1 – Saber Perder (Elisa Ribeiro)

  1. toniluismc
    1 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, Elisa!

    Farei mais de um comentário ao longo deste mês, pois decidi expressar as minhas reações organicamente durante o processo de leitura. Então, neste momento, esta é a minha primeira impressão.

    Tendo lido apenas o primeiro capítulo, já posso afirmar uma coisa: quanta intensidade!

    Não sei se o seu enredo é autobiográfico, então lembre-se de que toda a minha avaliação é baseada EXCLUSIVAMENTE naquilo que está sendo exposto aqui, já que não te conheço.

    A minha impressão é de que essa garota tem TDAH, pois a conexão de fatos e ideias é feita de um modo neurodivergente, isto é, não-linear.

    Os trechos dentro dos capítulos são verdadeiros universos de conteúdo. Isso faz parecer que existe muito mais do que aquilo que está sendo dito. É tanta informação que acabei nem absorvendo o nome dela (nem lembro se foi citado, pra falar a verdade).

    O que ficou de destaque foi a relação dela com a morte e com a avó, e a paixão pelo Ada, que não é correspondida, mas muito idealizada.

    Certamente este não seria um romance que eu escolheria voluntariamente para ler, pois o tema (ou aquilo que acho que é o tema) não é do meu interesse imediato. Contudo, tenho que lhe parabenizar pelo texto bem redigido/revisado. Isso ajuda bastante a ler com mais boa vontade.

    Para finalizar, posso dizer que o texto me deixou com reações dúbias. Acho que estou tão confuso quanto a protagonista. Se esse era o objetivo, foi atingido com sucesso. Vou continuar a leitura sem reler o primeiro capítulo pra ver se funciona e depois te conto o resultado.

    Abraço!

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Informação

Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G3, Entre Romances e marcado .