EntreContos

Detox Literário.

Voo Solo (Bia Machado)

Ainda tentava entender a esposa abrindo a janela e esticando os braços: um estalo leve e as asas dela surgindo, brilhantes, enormes, sem pudor de serem exibidas. Ela lançou um olhar impaciente ao marido, a voz alterada:

– Você nem percebeu que também criei asas… – E avisou: – Vou tirar três semanas de férias, não se preocupe. Cuide-se. Até a volta.

Alçou voo com a naturalidade de quem finalmente encontrou o botão de comando da própria vida. Ele ficou parado, encarando o vazio, pensando como organizaria refeições, louças e outras responsabilidades que nunca tinham entrado no orçamento.

79 comentários em “Voo Solo (Bia Machado)

  1. André Lima
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de André Lima

    Não sei se foi a pretensão, mas eu considero a ironia presente neste conto com efeitos humorísticos bem interessantes. Eu ri ao final da história. É um texto debochado, ácido, tratando de questões de relação matrimonial (Tarefas domésticas, função do homem, função da mulher) com bastante originalidade (Num tema tão batido).

    O tema não é ponto central aqui. A metamorfose é apenas instrumento para se chegar à ironia. Um pouco de trapaça não faz mal a ninguém! kkk o conto é bom.

    Parabéns pelo trabalho!

    • Ícaro
      16 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      André, que bom saber que você riu! A ironia era mesmo o tempero que eu queria dar ao microconto, esse choque entre o sublime e o cotidiano. Fico contente que tenha percebido esse tom debochado e ácido, porque é exatamente o que eu quis provocar, por isso tentei ao máximo deixar esse marido do texto bem “blasé”. A metamorfose como instrumento para chegar à ironia é uma ótima leitura. Obrigado por destacar isso e por ter curtido o texto!

  2. Fernanda Caleffi Barbetta
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fernanda Caleffi Barbetta

    Olá, Ícaro

    Na minha opinião, se começasse direto com ela mostrando as asas teria mais impacto. Iniciar um texto curto com a informação (menos relevante) de que ele tentava entender ou invés de chamar logo a atenção para a metamorfose, não me pareceu a melhor escolha nesse caso.

    Diante de uma mulher que literalmente ganha asas e sai voando, a preocupação dele no final com os afazeres domésticos ficou estranho. Você vai dizer: a graça do microconto é esse estranhamento. Pode ser, mas faltou lastro para isso, uma justificativa para essa reação. Uma sugestão seria logo no início, apresentar esse homem totalmente alheio, como se nem tivesse notado as asas, por exemplo. Essa segunda sugestão reforça a primeira (de eliminar o personagem tentando entender as asas).

    São apenas sugestões de leitora, o texto é seu.

    Não entendi o uso dos dois pontos na primeira linha.

    Encarando o vazio – é um pouco clichê

    Parabéns pelo microconto!

    • Ícaro
      16 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Fernanda, agradeço demais pelas sugestões detalhadas! Você tem razão: começar direto com a aparição das asas poderia dar mais impacto, vou experimentar essa versão para ver como funciona. Quanto ao estranhamento no final, realmente a ideia era brincar com esse contraste, do extraordinário acontecendo e ele preocupado com o trivial. Mas entendo sua observação de que faltou preparar melhor o terreno para isso. Gostei muito da ideia de mostrar logo no início que ele é alheio, reforçaria bem essa ironia. E sobre os detalhes técnicos, como os dois pontos e a expressão “encarando o vazio”, vou repensar. Obrigado pela leitura crítica e generosa!

  3. Sarah Nascimento
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de Sarah Nascimento

    Olá! Achei uma sacada ótima a ideia do seu microconto. Essa dinâmica onde a mulher cuida do homem, em absolutamente tudo é um negócio tão antiquado e ridículo. O casamento tem de ser uma parceria, é exatamente isso que o microconto diz. E achei lindo essa analogia da mulher criar asas, como se ela se libertasse, se realmente pudesse seguir sozinha e mais, é de se imaginar pela fala dela que a transformação aconteceu diante do marido e ele que não prestou atenção. Muito bem escrito, parabéns! Eu só não entendi porque ela disse: “também criei asas”, como se tivesse acontecido mais coisas. Adorei o cara no final travado, recalculando a rota e pensando na infinidade de coisas a fazer e ele não sabia. risos. Muito bom.

    • Ícaro
      16 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Oi Sarah, muito obrigado pela leitura atenta e pelo carinho nas palavras! Fico feliz que tenha captado essa ideia de parceria e de libertação que eu quis sugerir com a metáfora das asas. Sobre a fala “também criei asas”, a intenção era justamente provocar uma dúvida: será que ele também passou por uma transformação, mas não percebeu? Ou será que ela está dizendo que ambos poderiam ter mudado, mas só ela se permitiu? Gostei de saber que isso chamou sua atenção. E sim, o final é para causar esse contraste entre o voo grandioso e o marido preso às tarefas banais. Adorei seu comentário!

  4. maquiammateussilveira
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de maquiammateussilveira

    Este microconto aborda o tema da metamorfose com humor, algo que poucos fizeram nesse desafio. E humor combina muito bem com o formato microconto. De forma geral, o texto foi bem escrito, a linguagem é clara, o que combina com a história leve. Só achei que a metáfora de criar asas ficou superficial dado o tema proposto. Parece daquelas primeiras ideias que surgem ao se conhecer o tema. Quanto ao texto, ainda poderia passar por revisão e cortar alguns excessos aqui e ali, deixar algumas frases mais diretas, mais concisas. Vou tratar de uma miudeza porque, repito, de forma geral o conto está bem escrito. O começo, por exemplo, “Ainda tentava entender” é um tipo de construção que poderia ser mais bem trabalhada, por se tratar do primeiro contato do leitor com o texto [odeio escrever início de conto, e ainda mais de microconto]. Sinto que o final, comparado ao início, ficou bem melhor escrito. Somando as qualidades e os defeitos, o resultado é um microconto mediano.

    • Ícaro Icônico
      16 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Obrigado pela leitura atenta e pelo retorno tão detalhado. A ideia aqui era justamente brincar com a metamorfose de um jeito leve, usando humor para mostrar uma mudança que é mais emocional do que física e fico feliz que isso tenha sido percebido. Concordo que a metáfora das asas é uma escolha mais direta dentro do tema, e entendo seu ponto sobre trabalhar o início com mais precisão, começo de micros é sempre um desafio para mim. Vou levar suas observações comigo para as próximas versões e experimentos. Agradeço muito pelo cuidado do comentário.

  5. Alexandre Parisi
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Alexandre Parisi

    E aí, Ícaro! Teu conto é um “nocaute” de ironia que transforma o extraordinário em algo corriqueiro. Adorei como você usou o realismo mágico para escancarar a sobrecarga feminina: as asas surgem não para uma missão heroica, mas para garantir três semanas longe da pia. O marido estático, preocupado com o “orçamento” das tarefas domésticas, é uma síntese perfeita da negligência masculina.

    Achei o enredo muito bem construído, produzindo um misto de satisfação e humor ácido. Contudo, você “mastigou” um pouco demais a mensagem ao explicar o “botão de comando” da vida. Se tivesse confiado mais na força da imagem, o texto seria mais poético e menos didático. No geral, é uma crítica social necessária e muito potente

    • Ícaro
      15 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Valeu demais, Parisi! Fico feliz que tenha captado essa ironia do extraordinário virado cotidiano, era exatamente esse contraste que eu queria provocar. A leitura sobre a sobrecarga feminina e a negligência masculina me deixa contente, porque foi uma camada que busquei deixar evidente. Quanto ao “botão de comando”, entendo sua observação: foi uma escolha para dar clareza à metáfora, mas reconheço que a força da imagem por si só poderia sustentar o desfecho. Adorei seu olhar crítico e generoso, obrigado por compartilhar!

  6. Givago Domingues Thimoti
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Givago Domingues Thimoti

    Olá, Ícaro Icônico!

    Tudo bem?

    Em tempos de micros que são densos e extremamente abertos, ler seu texto foi uma grata surpresa. É um micro metafórico e muito bem conduzido, o qual dá luz ao tema da sobrecarga feminina. O leitor pega a história e suas nuances sem dificuldade.

    Talvez, minha única ressalva seja o desfecho meio mastigado/explicado. A sensação que tenho é que o final poderia ser um pouco menos claro. Ainda em tempo, creio que pode ter sido a opção da autora.

    Atenciosamente, 

    Givago

    • Ícaro
      15 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Oi, Givago! Muito obrigado pelo retorno. Fico contente que tenha percebido a metáfora da sobrecarga feminina, que foi mesmo uma das intenções do texto. Sobre o desfecho, entendo sua observação: optei por deixar mais explícito para reforçar o contraste entre o voo dela e a paralisia dele, mas é ótimo saber como isso ressoa em cada leitor. Agradeço demais pela leitura cuidadosa!

  7. Bia Machado
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Bia Machado

    Gosto muito de como o conto trabalha a imagem das asas como ruptura e revelação. A cena inicial já estabelece o contraste entre a naturalidade dela e a perplexidade dele, e isso sustenta bem o micro inteiro. A mistura entre o fantástico e o cotidiano funciona de um jeito que deixa a metamorfose quase banal e justamente por isso mais significativa. Também acho interessante como o texto desloca o foco: o voo dela é grandioso, mas o impacto narrativo está no silêncio dele, na incapacidade de perceber, acompanhar ou até compreender o que está acontecendo. O detalhe das responsabilidades domésticas entrando “no orçamento” cria uma ironia que amarra bem o final. É um micro sobre liberdade, mas também sobre cegueira, rotina e o que acontece quando alguém finalmente decide se mover.

    • Ícaro
      15 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Bianca, muito obrigado pelo comentário tão detalhado e generoso! Fico feliz que tenha percebido esse contraste entre o voo dela e o silêncio dele, porque foi justamente aí que quis colocar o peso narrativo. A ideia era mostrar como o fantástico pode se tornar quase banal quando confrontado com a rotina, e como essa banalidade revela muito sobre quem fica. Gostei muito da sua leitura sobre liberdade e cegueira, porque traduz bem a tensão que eu quis explorar. Agradeço demais por ter dedicado esse olhar atento ao micro!

  8. danielreis1973
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de danielreis1973

    Prezado(a) Microcontista (aviso comum em todo os contos):

    Por conta do sistema de comentários (abertos) e do sistema de votação (escolha dos dez favoritos), estou adotando também um critério de análise mais simples para todos, procurando refletir mais como me senti com leitor do seu texto do que como analista/crítico e atribuidor de notas. Por isso, desculpo-me de antemão pela concisão, e reforço que o que comento aqui é sobre como me senti ao ler seu conto, não sobre o quão bom ele ou você é, ok?

    Vamos à análise:

    Como estou comentando os contos após ler todos, devo notar que o tema “criar asas” como metáfora da metamorfose foi bastante explorado. No caso deste texto, mistura-se o afastamento do casal com o novo talento da mulher em descobrir potencialidades em si. Acho só que ela não deveria voltar e que as preocupações dele deveriam ir muito além do orçamento ou da louça. Mesmo assim, obrigado por compartilhar conosco uma parte da sua alma!

    • Ícaro
      15 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Muito obrigado pela leitura atenta e pelo comentário generoso, Daniel! De fato, o tema das asas como metáfora da metamorfose foi bastante explorado no desafio, e eu quis brincar com essa imagem trazendo o contraste entre a liberdade dela e a perplexidade dele diante das tarefas cotidianas. Achei interessante você sugerir que ela não voltasse, acho que isso abriria uma outra camada de sentido, talvez mais definitiva, sobre o rompimento. Talvez eu ache que seja bom que ela volte, plena, senhora de si e ele possa ver a mudança. Mas também que volte pra pegar suas coisas e ir embora de vez… Quanto às preocupações dele, concordo que poderiam se expandir além da logística doméstica; optei por esse recorte para enfatizar o choque inicial e o descompasso entre os dois. Fico feliz que tenha percebido a intenção de revelar algo íntimo nesse voo solo.

  9. Pedro Paulo
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Pedro Paulo

    Adorei a opção ousada do realismo mágico da personagem literalmente ganhar a liberdade por abrir asas e voar. A linha de diálogo também expõe mais do que parece, deixando prometido um retorno que explica que pelo menos a princípio não é a personagem fugindo, mas encontrando espaço para si mesma. O desfecho também aprofunda a história desse casamento, expondo um marido desamparado pelo básico, revelando um indivíduo que tanto não sabe se cuidar como sempre relegou o peso da economia doméstica para os braços da esposa. A metamorfose aqui é tanto física, mas, principalmente, psicológica, de alguém que se rejeita a ser presa por uma dinâmica desigual. Bom uso dos elementos fantásticos.

    • Ícaro
      14 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Pedro, que leitura rica, você captou exatamente essa mistura entre o fantástico e o cotidiano que eu quis explorar. Fico muito contente que a metamorfose tenha funcionado para você tanto no plano literal quanto no simbólico, e que o contraste entre liberdade e desamparo tenha aparecido com força. Obrigado por dedicar tempo a comentar com tanta atenção e profundidade.

  10. Alexandre Costa Moraes
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Alexandre Costa Moraes

    Olá, Ícaro Icônico! Achei seu microconto sensacional.

    Em uma cena só, a esposa abre a janela, cria asas e vai embora (ufa!) com a tranquilidade de quem finalmente escolheu por si, enquanto o marido fica parado, encarando o vazio e tentando calcular como vai sobreviver ao básico (geração Enzo).

    O que brilha aqui é a ironia do “depois”. As asas são a metamorfose literal, mas o peso é social e doméstico, caseiro… porque ele não pensa nela, pensa na louça, na comida, no “orçamento” da vida que sempre caiu no colo dela.

    Realismo mágico bem direto, diálogo com ritmo e um final que fecha com precisão.

    De forma geral, você abordou muito bem o tema da metamorfose.

    Tá na lista!
    Parabéns e boa sorte no desafio.

    • Ícaro
      14 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Alexandre, adorei a sua leitura, especialmente essa percepção do contraste entre a leveza do voo e o peso das rotinas que ficam no chão. É muito interessante ver como cada leitor enxerga uma camada diferente, e você destacou nuances que me deixam realmente feliz por ter escrito esse micro. Obrigado por dedicar tempo a comentar com tanta atenção e generosidade.

  11. Fabio D'Oliveira
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fabio D'Oliveira

    Que micro incrível…

    Ele aborda dois assuntos de uma vez. A liberdade feminina. Toda muda tem asas e pode voar longe. A esposa descobriu isso e decidiu explorar. Enquanto isso, o homem fica sozinho, mas ele não se sente abandonado. Ele fica preocupado com coisas rotineiras: como vou lidar com a vida sem ela? É um homem que não está livre, que não sabe como vai viver por conta própria. Aí entramos num terceiro assunto. Relacionamento. Muitas vezes, perdemos nossa individualidade num relacionamento. Esquecemos quem somos. A esposa lembra que tem asas. E alça voo. E o marido ainda não sabe que tem asas. Permanece, preocupado.

    Tem bastante subtexto. O autor é muito habilidoso.

    Um dos meus favoritos.

    • Ícaro
      14 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Fabio, que leitura bonita da história. Fico muito feliz que você tenha percebido essas camadas: a liberdade, o peso das rotinas, a individualidade que às vezes se perde sem que a gente note. É sempre interessante ver como cada leitor encontra algo diferente no mesmo texto. Obrigado por dedicar um tempo para comentar com tanta sensibilidade.

  12. Mariana
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Mariana

    Mulheres que aprendem a voar são imparáveis. Conto bem escrito sobre uma esposa que cria asas e um marido que vai ter que aprender a ser um adulto funcional, olha só (admito que só estranhei a expressão “não caber no orçamento “). É delicado e bem escrito, tratando sobre as dinâmicas de relacionamento com uma sensibilidade feminina. Parabéns e boa sorte no desafio.

    • Ícaro Icônico
      14 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Muito obrigado pela leitura tão gentil. Fico feliz que você tenha sentido essa força nas asas dela e, para mim, a graça do micro estava justamente nesse equilíbrio entre leveza e ruptura, entre o cotidiano e o fantástico. Adorei saber que a mistura entre o simbólico e o mundano funcionou para você. Essa fronteira meio borrada, quase realismo mágico doméstico, é um lugar onde gosto muito de escrever. E sobre o “não caber no orçamento”, entendo o estranhamento, quis mesmo deixar uma pontinha de ironia ali, como se o pragmatismo dele fosse incapaz de acompanhar o voo dela. Imaginei que talvez ele naquele momento estivesse calculando o quanto precisaria gastar com uma diarista para os trabalhos que ela fazia, pois é claro que ele não faria. Agradeço demais pelo carinho e pela leitura tão atenta. Que bom que o conto pousou bem por aí. Boa sorte pra você também no desafio.

  13. Priscila Pereira
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Ícaro! Tudo bem?

    Seu conto é bem legal, gostei bastante. Gostei do uso das palavras, dando bastante ênfase ao que você queria transmitir. Quase um realismo mágico, cotidiano, simples, mas complexo. Não vejo a necessidade de reduzir pra aumentar a potência, está com muita personalidade.

    Parabéns e boa sorte!

    Até mais!

    • Ícaro Icônico
      13 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Muito obrigado pela leitura tão generosa. Fico feliz que você tenha sentido essa mistura de cotidiano e realismo mágico e, para mim, o encanto do micro estava justamente nesse ponto em que o extraordinário aparece sem alarde, como se sempre tivesse pertencido à cena.E adorei saber que você percebeu personalidade no texto. Às vezes, no microconto, a tentação de “enxugar para ganhar força” é grande, mas aqui eu quis mesmo deixar algumas ênfases respirarem, como parte do ritmo da narrativa.Agradeço demais pelo incentivo e pela delicadeza do comentário. Que bom que o voo pousou bem por aí. Até mais!

  14. Wilian Cândido Corrêa
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Wilian Cândido Corrêa

    Ícaro,

    Ao reler seu micro, percebi algo que não tinha articulado na primeira vez: o que mais me impacta não é apenas a ideia de liberdade, mas como ela se constrói em tensão com o isolamento e a ironia. Eu sinto que o “voar solo” não é só conquista, é também enfrentamento de limites, e isso faz toda diferença na experiência da leitura.

    Gosto de como você trabalha o contraste entre expectativa e efeito. No início, o título e a primeira frase me fizeram imaginar um voo de autonomia plena, mas ao avançar percebi que a narrativa desloca essa expectativa de maneira sutil. Para mim, esse deslocamento é a verdadeira metamorfose do micro (ela acontece na percepção do leitor, que precisa ajustar seu olhar para compreender a liberdade apresentada).

    Outro ponto que me chamou atenção foi a forma como você permite que o humor irônico conduza essa experiência. Eu senti que ele não apenas diverte, mas reforça a tensão e a reflexão, sem precisar explicitar conflitos ou sentimentos. É como se cada linha tivesse sido medida para provocar essa sensação de “ir e voltar” entre prazer e surpresa.

    Por isso, mantenho Voo Solo entre os meus favoritos. Para mim, ele mostra como um microconto pode transformar a percepção do leitor, mesmo com tão poucas palavras. E ao reler, confesso que passei a valorizar ainda mais esse equilíbrio entre economia narrativa, ironia e liberdade.

    • Ícaro Icônico
      13 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Muito obrigado pela releitura tão sensível. É muito especial quando alguém percebe que o voo do conto não está só nas asas da personagem, mas também nesse deslocamento interno do leitor, essa mudança de expectativa que você descreveu tão bem. Fico feliz que tenha sentido essa tensão entre liberdade e limite; para mim, ela é justamente o coração do micro. A autonomia nunca vem isolada, ela sempre carrega um pouco de enfrentamento, de ironia, de arestas. Saber que isso chegou até você de forma tão clara me deixa realmente contente. E adorei como você leu o humor: não como alívio, mas como parte da própria fricção do texto. Esse “ir e voltar” que você menciona é exatamente o movimento que eu queria provocar. Obrigado por manter meu conto entre os seus favoritos, é realmente um privilégio quando um microconto encontra um leitor que o revisita e descobre novas camadas. Seu comentário foi um presente.

  15. Leila Patrícia
    12 de fevereiro de 2026
    Avatar de Leila Patrícia

    Oi, Ícaro, tudo bem? Eu acho que a imagem das asas é muito boa e comunica autonomia de cara. A cena dela voando e ele ficando parado, sem sequer ter percebido o surgimento delas, já diz muita coisa sobre essa relação. Para mim, o texto explica um pouco além do necessário. Quando diz “botão de comando da própria vida” e explicita as responsabilidades domésticas, o texto já mastiga o sentido. 

    Também fiquei pensando nessas três semanas. Se a ideia é emancipação, ela fica meio domesticada. Ela voa, mas volta para o mesmo lugar. Isso pode ser ironia consciente, mas o texto não deixa claro se é crítica ou acomodação.

    Uma ideia forte, só acho que funcionaria melhor confiando mais na imagem e menos na explicação. Mas nada disso mina o impacto do texto, que é muito bom.

    • Ícaro Icônico
      13 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Muito obrigado pela leitura tão atenta. Gosto muito de saber onde o texto ressoa, ou não, especialmente quando o retorno vem com essa clareza. A imagem das asas sempre me interessou justamente por isso: ela carrega autonomia por si só, antes mesmo de qualquer explicação. Entendo o que você aponta sobre o “botão de comando” e as responsabilidades domésticas; no microconto, cada palavra pesa, e às vezes o que para mim era ênfase pode soar como excesso para outro leitor. É uma troca valiosa. Sobre as três semanas, você tocou num ponto que me diverte: essa ambiguidade entre emancipação e rotina. Ela voa, mas ainda vive num mundo que cobra prazos, retornos, compromissos… e essa tensão me pareceu parte da ironia. Mas gosto muito de como você lê essa possível “domesticação” do voo; é uma camada que enriquece a conversa. Agradeço demais pelo comentário generoso e pela forma como você articulou suas impressões. É sempre bom quando o texto encontra leitores que o questionam sem tentar podá‑lo.

  16. leandrobarreiros
    12 de fevereiro de 2026
    Avatar de leandrobarreiros

    Pelo título e primeiras linhas, achei que fosse se encaminhar para uma tragédia, mas tomou um caminho mais positivo.

    Me lembrou uma cena de cem anos de solidão em que uma personagem sai voando. Remédios, se não me engano.

    Eu gostei do micro, embora ache que seria um pouco mais impactante com menos informações. Existe uma independência, mas também tem auto imposição de prazo para as férias, preocupação sobre o medo do marido para com sua volta, sei lá. É difícil articular os excessos que senti.

    Mas gostei da mistura do simbólico com o mundano, sem uma dramaticidade exagerada e o foco do marido, enfim, imagino, na percepção da complexidade das tarefas cotidianas de casa.

    Um bom conto.

    • Ícaro Icônico
      13 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Muito obrigado pela leitura tão cuidadosa. Fico feliz que o conto tenha te levado a essa lembrança de Cem Anos de Solidão, que li há muitos anos, mas já não me lembrava dela. Talvez esteja na hora de reler. Entendo o que você aponta sobre os excessos; às vezes, no microconto, cada detalhe pesa mais do que parece, e é interessante ver que certas informações soam necessárias para uns e dispensáveis para outros. No meu caso, quis mesmo deixar essa mistura entre o simbólico e o cotidiano um pouco mais explícita, como se a metamorfose não apagasse a rotina, apenas a iluminasse de outro jeito. Agradeço demais por destacar essa combinação entre o fantástico e o mundano, é justamente nesse contraste que o texto respira para mim. Obrigado pela leitura generosa e pelo retorno tão bem articulado. É sempre bom quando o voo encontra leitores atentos.j

  17. Astrongo
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Astrongo

    O conto realiza uma subversão do tema. A metamorfose é separação. As asas não aproximam. A mulher encontra o comando da própria vida ao partir. O marido é definido por sua imobilidade, e o extraordinário é tratado como fato corriqueiro; na boa corrente do realismo mágico da América Latina. O fantástico não produz susto nem espanto, apenas revela algo que já certo, uma espécie de divórcio.

    • Ícaro Icônico
      12 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Muito obrigado pela leitura, fico especialmente feliz que você tenha percebido essa subversão do tema, a metamorfose que não une, que vem para separar, só promete lucidez. Sempre me interessou essa vertente do realismo mágico latino‑americano em que o extraordinário não espanta ninguém, faz parte da vida. A ideia era justamente essa: as asas não são um milagre, mas uma constatação. O marido parado, imóvel, calcificado até, enquanto ela em movimento, não por fuga, mas por clareza. E você captou isso com uma precisão que realmente me deixou sorrindo aqui. Obrigado por essa leitura generosa e tão bem articulada. É um prazer quando o texto encontra um leitor que o enxerga por dentro.

  18. Fernando Cyrino
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fernando Cyrino

    Meu querido Ícaro, que conto mais impactante e forte você me traz! A liberdade enfim da mulher que cria asas e sai voando pela janela por três semanas, deixando o marido sozinho com os afazeres que já deviam estar divididos, não é mesmo? Fiquei com a nítida impressão da saída pela “janela” da vida e que as 3 semanas 7x7x7 carregam o simbolismo do Sete como completude três vezes… Ou viajo descaradamente e sem pudor (nas suas palavras) na maionese? Uma coisa, achei que a última palavra orçamento, ou ficou hermética demais para a minha capacidade de entendimento, ou você queria dizer programação? Não leio os outros comentários antes de fazer o meu e quando o fizer, após o envio, verei o que disseram do seu belo Voo Solo os demais participantes. Fica com o meu abraço de parabéns e muito sucesso no certame. 

    • Ícaro Icônico
      11 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Fernando, que alegria ler seu comentário, você sempre enxerga camadas que eu mesmo só percebo depois, acho que até hoje você não desgostou de um conto sequer meu, é a sensação que tenho, mas posso estar enganado, depois me diga se acertei ou não. Adorei sua leitura do sete multiplicado, esse simbolismo que você pescou com tanta naturalidade que até parece que eu planejei… quem sabe não planejei mesmo, né? Às vezes finjo que acasos são intenções e vice-versa… A saída pela janela como rito de passagem me encantou também. No fundo, é isso: ela não foge, ela se completa e se mostra. E quanto ao “orçamento”, a ideia era justamente essa fricção entre o mágico e o prosaico, aquela palavra “dura”, quase contábil, entrando como pedra no sapato de um voo que deveria ser leve. Mas entendo totalmente sua estranheza; às vezes deixo uma aresta proposital só pra gerar essa estranheza. Obrigado pelo abraço, pela leitura generosa e por sempre trazer essa maionese deliciosa na qual eu faço questão de viajar junto. Que bom ter você por perto nesse voo.

  19. Fabiano Dexter
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fabiano Dexter

    Ola Ícaro,
    Achei o seu micro bem interessante, uma boa utilização da metamorfose e a utilização das asas como forma de liberdade. O legal aqui é o descanso, a pausa. Não há fuga de agressões ou problemas, apenas da rotina, das refeições e pratos sujos.
    Essa leveza foi para mim o ponto alto.
    Parabéns!

    • Ícaro Icônico
      11 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Olá, adorei o comentário! Especialmente essa leitura da pausa como luxo, quase um respiro clandestino. A ideia era justamente essa: não transformar a metamorfose em fuga dramática, mas em algo mais simples e, por isso mesmo, tão revolucionário quanto raro para muita gente. Às vezes, o maior ato de liberdade é só fechar a porta, deixar a pia pra depois e lembrar que o mundo continua girando mesmo sem a gente pilotar tudo. Obrigado pelo carinho e pela leitura tão gentil.

  20. cyro eduardo fernandes
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    A metamorfose libertou a esposa de um relacionamento desequilibrado. Um bom conto. Parabéns e sucesso no desafio.

    • Ícaro Icônico
      11 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Obrigado pelo comentário curto, mas certeiro. Fico feliz que a leitura tenha captado justamente essa libertação: quando a balança pesa demais de um lado, às vezes a única saída é abrir as asas e ir. Bom saber que o conto pousou bem por aí.

  21. Kelly Hatanaka
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Lembrei de um conto antigo, classicão, que li quando adolescente. Infelizmente, não me lembro do autor, brasileiro. Mas nele, um homem, entediado com o casamento, troca cartas com uma misteriosa admiradora anônima. Ele vai ficando obcecado por ela, apaixonado por tudo o que ela faz e diz, e no fim, descobre que se trata de sua esposa, que só assim, conseguiu chamar sua atenção. E o conto fecha com a consideração de que ele era tão negligente que nem havia sido capaz de reconhecer a caligrafia da esposa.

    Neste micro, a esposa cria asas e o marido aparvalhado nem notou. E, quando ela levanta voo e tira suas férias, ele não pensa que sentirá sua falta. Ele se preocupa em quem fará as atividades domésticas. Aliás, ele se preocupa em como pagará pelo serviço, porque ele, pelo jeito, não pretende fazer nada.

    Ah, o peso da carga mental! Não é fácil não. E só quem achou o botãozinho do fodase e o apertou com gosto sabe como isso é bom.

    Mas, quanto ao conto, é um bom conto, que parte de uma excelente premissa e chega em um final satisfatório. Senti falta de um algo mais, mas, mesmo assim, gostei muito.

    • Ícaro Icônico
      11 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Kelly, adorei a lembrança do conto, essa ideia de alguém só ser visto quando vira outra pessoa sempre me fascinou, e de certa forma está mesmo no DNA do meu micro. Fico feliz que você tenha percebido o paralelo: a esposa cria asas e o marido continua ali, tropeçando na própria distração. Sobre ele se preocupar mais com a logística do que com a saudade… pois é, tem gente que só descobre o tamanho do vazio quando precisa lavar a própria louça. E obrigado por dizer que gostou, mesmo sentindo falta de um “algo mais”. Aprendi que, se você encontra só um defeitinho, é porque acertei mais do que errei. Beijo, e obrigado por sempre ler com esse olhar afiado.

  22. Renata Rothstein
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Renata Rothstein

    Olá, Ícaro Icônico (queimou as asas quando as da esposa surgiram? rs)

    Bom, Voo solo começa com uma cena impactante: a esposa se revela com asas, um momento de surpresa e transformação que prende o leitor imediatamente. Dá pra sentir a mistura de admiração e estranhamento do marido, e a narrativa transmite bem a libertação dela. Ela finalmente encontra o ‘botão de comando’ da própria vida. O texto é original e a transição para o marido pensando nas tarefas domésticas adiciona humor sutil e realismo, mas poderia ser mais enxuta para aumentar o impacto da epifania dela. O final é coerente e divertido, mostrando contraste entre liberdade e responsabilidades cotidianas.

    Desejo boa sorte no Desafio.Beijos

    • Ícaro Icônico
      11 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Renata, que delícia de comentário! Deu vontade de abrir a janela e testar minhas próprias asas depois de ler. Fico muito feliz que você tenha sentido essa mistura de surpresa, humor e libertação, era exatamente o clima que eu queria que atravessasse o texto, leve mas com aquele fundinho de verdade que cutuca. Adorei também o seu olhar para o realismo mágico do início, sempre achei que asas funcionam melhor quando aparecem como quem diz “e daí?”. E confesso que ri com a pergunta sobre eu ter queimado as minhas… talvez só tenha esquentado um pouquinho, nada grave. Obrigado pelo carinho e pela leitura generosa. Beijão.

  23. Gustavo Araujo
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    O conto tem um quê de ironia que me agrada. É a mulher que descobre também ter direito a ser tão independente, a ter tantos direitos quanto o marido. Cria asas e segue seu destino.

    É um conto atual e necessário, sobretudo quando se sabe que vivemos em um país misógino, violento em relação às mulheres e que não tem o mínimo pudor em colocar os homens como “chefes de família”, não raro sob uma perspectiva religiosa — vide “Legendários” e afins.

    A crítica, se é que cabe, fica por conta da ausência de sutileza capaz de transformar o conto em algo mais pungente. De novo, é um tema necessário e, em tempos em que o óbvio precisa ser dito, até urgente. Mas, em termos literários tão somente, creio que poderia ter sido um pouquinho mais sutil.

    • Ícaro Icônico
      11 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Obrigado pela leitura cuidadosa e pela franqueza. A ausência de sutileza foi uma escolha consciente: às vezes, quando o tema é urgente e o cotidiano insiste em repetir o óbvio, a metáfora precisa mesmo abrir a janela e bater asa sem pedir licença. A crítica estrutural que você menciona é justamente o pano de fundo que me interessava tensionar: a naturalização da sobrecarga, a hierarquia doméstica travestida de tradição, o “chefe de família” como dogma. Nesse cenário, deixar a metáfora mais nebulosa me pareceu quase um desserviço; preferi que o voo fosse explícito, até incômodo. Ainda assim, agradeço o apontamento, é sempre bom saber como o texto pousa em quem lê, mesmo quando escolhe voar sem disfarces.

  24. andersondopradosilva
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de andersondopradosilva

    O tema sobrecarga feminina nas atividades domésticas é necessário e urgente. Com sua lista de tarefas desvalorizadas, não remuneradas e que não são precificadas no orçamento, o desfecho é poderoso. Às vezes, mais vale voar sozinha mesmo. 

    • Ícaro Icônico
      11 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Obrigado pela leitura generosa! Fico feliz que o tema tenha ressoado… a sobrecarga feminina é tão cotidiana que às vezes a imagem das asas precisa mesmo aparecer para lembrar que é possível voar, deixar para trás a gaiola. O desfecho nasce justamente desse contraste: quando o voo parece exagero, é porque o chão já estava pesado demais. Que bom que o conto te levou a essa reflexão; às vezes, para equilibrar a balança, só levantando voo mesmo…

  25. Thiago Amaral
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Thiago Amaral

    Gostei do conto.

    Não senti que pesou em nenhum momento a questão feminista, ou que foi óbvio demais. Achei que foi um meio-termo que tronou a leitura agradável, e me fez rir no final.

    Gostei da atmosfera de realismo mágico no início, já que a mulher se referia às próprias asas como uma coisa completamente normal de se acontecer. Adoro esse tipo de elemento em histórias, quando empregado certo.

    E o detalhe do marido já ter asas antes, como observado por outros colegas, foi uma ótima sacada.

    Leve, gostoso de ler, na medida certa. Um microconto redondinho. Vai depender dos outros pra entrar na minha lista.

    • Ícaro Icônico
      11 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Obrigado pela leitura tão atenta! Fico feliz que o realismo mágico tenha te pegado, eu sempre achei que asas funcionam melhor quando ninguém estranha muito. Sobre o equilíbrio entre metáfora e literalidade, deixei essa mistura de propósito: às vezes a liberdade precisa aparecer de forma bem concreta para incomodar quem nunca reparou nela. E sim, o marido já ter asas antes era meu pequeno aceno irônico ao tipo de gente que voa sem nunca perceber o próprio privilégio. Valeu demais pelo retorno.

  26. Rodrigo Ortiz Vinholo
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Rodrigo Ortiz Vinholo

    Gostei bastante! O assunto é contemporâneo e dá uma boa reflexão sobre os pesos desiguais das relações. É interessantíssimo ver que a esposa, tendo asas e sendo livre, ao exercer essa liberdade demonstra como o marido, ao explorá-la, não apenas vivia essa vida apoiada, roubando a liberdade dos outros, como sabotava a si mesmo. Pessoalmente não gostei tanto da mistura entre metáfora e literalidade, mas ainda assim acho que o conto é um dos melhores que li até o momento 🙂 Parabéns!

    • Ícaro Icônico
      11 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Obrigado pela leitura generosa! Fico contente que a metáfora tenha te levado a essa reflexão sobre os pesos das relações, porque era exatamente o tipo de desconforto que eu queria provocar. Sobre a mistura entre literal e simbólico, deixei assim de propósito: às vezes a metamorfose precisa mesmo bater asa na nossa cara para a gente notar. Que bom que, apesar disso, o conto te pegou. Valeu demais pelo retorno, esse narrador aqui agradece e promete não voar tão perto do sol… só o suficiente. 😉

  27. toniluismc
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, Ícaro!

    Esse conto tem uma ideia que, em outras mãos, poderia render algo interessante (se realmente foi escrito por um homem, dá pra entender a falta de sutileza); essa imagem da esposa ganhando asas é simbólica e até divertida, dá pra ler como libertação, autonomia, um crescimento pessoal. Mas aqui o texto se perde na obviedade.

    A narrativa explica demais, o diálogo soa meio teatral e a linguagem não ajuda, porque tudo parece dito de forma muito direta, sem aquele mistério que faz o leitor preencher os espaços. Fica parecendo uma crônica escrita às pressas, mais descritiva que poética.

    Se o autor tivesse podado metade das frases e deixado as asas funcionarem como metáfora, talvez o voo tivesse mais leveza, e o impacto, mais altura.

    • Ícaro Icônico
      11 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Olá! Fico feliz que a imagem das asas tenha te parecido simbólica, afinal, metáforas às vezes funcionam justamente quando não precisam de autorização para existir. Sobre a “falta de sutileza”, agradeço o diagnóstico: é sempre curioso quando um texto sobre alguém finalmente assumir o próprio espaço incomoda mais pela franqueza do que pelo voo. Quanto ao diálogo direto e à crônica “às pressas”, talvez seja só porque algumas metamorfoses não precisam de névoa poética para acontecer, basta um casamento, uma janela aberta e um marido que nunca percebe nada. Ainda assim, obrigado pela leitura atenta: nem todo voo precisa agradar a torre de controle.

      • toniluismc
        12 de fevereiro de 2026
        Avatar de toniluismc

        Ah, que graça de resposta 😀 adorei o tom de quem acha que metáforas brotam soltas sem precisar de contexto ou impacto. Mas ó, querid@ autor das asas tão “francas”, se o voo é tão direto que dispensa sutileza, por que não testar uma versão que voa mais alto sem precisar de muletas como diálogo explicadinho e final de crônica de WhatsApp?

        Aqui vai uma reescrita rapidinha da tua história, com menos palavras, mais punch e zero torre de controle pra agradar:

        Esticou os braços na janela aberta. Estalo sutil. Asas irrompendo, brilhantes, sem pudor. Olhar impaciente pro marido, parado como sempre.
        — Vou tirar férias. Cuide das louças.
        Alçou voo. Ele organizou o orçamento, sozinho.

        Viu? Mesma ideia de libertação, mas agora o leitor sente o vento nas asas em vez de ler um manual. Metamorfoses de verdade não pedem permissão pra existir, elas cortam o ar e deixam quem fica no chão contando talheres. Continua voando, mas quem sabe da próxima vez sem tanto barulho de turbina. 😘

    • Ícaro Icônico
      12 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Olá. Agradeço o tempo que você dedicou à sua devolutiva, mas percebo que estamos em propostas muito diferentes de leitura e de troca. Você optou por reescrever meu microconto para demonstrar seu ponto, e tudo bem, é um exercício válido, mas não é algo que eu tenha solicitado ou que considere necessário para o diálogo. Eu escrevi o texto que queria escrever, do jeito que me interessava explorar. Nem todo estilo agrada a todos, e isso faz parte do jogo. Seu comentário deixa claro que meu modo de escrever não conversa com o que você espera de um microconto, e está tudo certo. Divergência não é problema. De minha parte, sigo satisfeito com o que produzi e com as leituras que surgiram, inclusive as que discordam, desde que venham sem a intenção de diminuir o autor. Desejo boas leituras e bons voos por aí.

      • toniluismc
        12 de fevereiro de 2026
        Avatar de toniluismc

        Olá! Agradeço pela resposta ponderada. De fato, divergências enriquecem qualquer troca, e fico feliz que meu exercício de reescrita tenha sido visto como isso, só um exercício mesmo, sem pretensão de “ensinar”. Concordo plenamente: você escreveu o que quis, do jeito que quis, e isso é o que importa. Em nenhum momento tive intenção de diminuir seu trabalho; ao contrário, destaquei a ideia simbólica das asas como boa. A réplica veio no mesmo tom leve da sua primeira (com torres de controle e tudo), só pra mostrar como o mesmo voo pode cortar diferente o ar.

        Se soou como crítica pesada, peço desculpas, não era o caso. Sua reação inicial me pareceu mais debochada que diplomática, daí o troco no mesmo diapasão, mas vejo agora que só queríamos defender nossas visões. Sem atrito da minha parte: boa sorte com os voos, e parabéns pelo texto que gerou tanto papo! 😊

  28. Martim Butcher
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Olá, Ícaro,

    Achei seu texto bem-humorado, mas ele não vai muito além daquilo que outros discursos em defesa da emancipação da mulher já fazem com mais razão e eficácia. Eu entendo que se a literatura é colocada a serviço da ilustração de uma ideia previamente bem constituída ela acaba perdendo sua especificidade. Em outras palavras: a crítica social de seu conto, plenamente legítima, se limita àquilo que já está consolidado por meio das ciências sociais, do jornalismo, até mesmo da publicidade.

    Creio que o momento em que o marido fica sozinho, as reflexões são as mais previsíveis, e isso tem relação direta com o que te disse acima. Fico pensando se essa cena não seria o momento exato de ir além na crítica social. E se, sei lá, ele conferisse as próprias costas para ver se estão nascendo asas novas? E se ele pensasse qualquer outra coisa que não a obviedade a respeito do lar?

    Mudando de assunto, mas nem tanto, recomendo aqui uma canção do Paulinho da Viola que adoro e que fala exatamente de uma esposa que cria asas: https://www.youtube.com/watch?v=mWguhCVp9Zc

    • Ícaro Icônico
      9 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro Icônico

      Olá, agradeço pelo comentário. Enfim, te garanto que tive uma ideia a partir de um comercial de Redbull e imaginei essa situação. Não quis levantar pauta alguma, apenas escrevi um microconto a partir de uma ideia. Quando no texto ela diz “também tenho asas” é só para dizer ao leitor que ele, o marido, também as tem, e literalmente, como no caso de Voo Solo, são asas mesmo. Reiterando, aqui eu só criei um continho de realismo mágico. Só isso. Em tempo, adorei a música.

  29. Leandro Vasconcelos
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Leandro Vasconcelos

    Opa! Como vai autor? Gostei do seu micro, pois possui duas camadas: uma mais aparente, literal; e outra subtendida e simbólica, que denuncia o seu ponto de vista moral sobre um tema específico: o das relações entre homens e mulheres. Na primeira, há a metamorfose literal da esposa, que cria asas e sai voando, como se tivesse tomado um Red Bull. Na segunda, há a metamorfose psicológica, interior, simbólica da personagem: ela se transforma e, consequentemente, se livra das amarras limitantes do casamento e do convívio com o marido. As férias podem ser mais prolongadas. Podem ser o início de uma separação. O que importa é que essa camada pressupõe que, dentro do casamento, ela não tinha o comando da própria vida, porque comandada pelo marido, o qual, ao que se leva a concluir do texto, é um inepto em tarefas do lar. Pessoalmente não me agradou esse ingrediente moral do texto, que sugere que a mulher, quando está com um companheiro, é limitada por este (uma visão individualista, egocêntrica), e o mero fato de ser homem já o incrimina como um tirano ou como um inepto. Mas, já antevendo sua réplica, digo que muito me aprecia esse debate e mais ainda o fato de ele ter sido habilmente inserido num microconto de 99 palavras. Não sei se foi a intenção. De todo modo, esse tipo de micro é o que mais me agrada, visto que você se alinha ao que eu penso: múltiplas camadas, múltiplos caminhos. Isso é muito difícil de trabalhar em textos pequenos, mas você conseguiu. Poderia ser mais sutil? Poderia. Contudo, é o tipo de texto que gosto, eu repito. Então: parabéns! Um abraço.

    • Ícaro
      8 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Olá, Leandro, tudo bem com você?

      Primeiro, agradeço por seu comentário. Sabe que o comercial de Redbull foi que me deu a ideia para escrever esse texto? Você acertou em cheio, hehehe. Sobre esse comentário seu: “Pessoalmente não me agradou esse ingrediente moral do texto, que sugere que a mulher, quando está com um companheiro, é limitada por este (uma visão individualista, egocêntrica), e o mero fato de ser homem já o incrimina como um tirano ou como um inepto.”, eu também não acho que seja assim, algo que sempre acontece, em todos os lugares, claro que não, mas ainda hoje há casos desse estilo aí, sim. Não sei dizer se são exceções, e qual a porcentagem disso, mas ainda existem. Conheço casos reais de homens que cortam a pontinha das asas das companheiras, às vezes até antes de se casarem… Então foi apenas um viés do assunto. Louvo os homens que jamais cortariam as asas femininas, que eles se multipliquem cada vez mais.

  30. Luis Guilherme Banzi Florido
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Luis Guilherme Banzi Florido

    Boa tarde, Iconico! Aqui, temos um conto fortemente baseado na realidade de esposas esgotadas pelo peso de trabalhos domesticos mal distribuidos enquanto tambem trabalham (e cuidam do marido como se tivessem arrumado um bebezão folgado). é Um tema cada vez mais recorrente na sociedade atual, e portanto é algo importante de ser abordado na literatura, que deve, dentre outras coisas, cutucar a realidade e as mazelas sociais com suas garras provocadoras. Você faz bem o trabalho no geral, mas achei que o conto é muito expositivo, conta tudo. Acho que parte da beleza do microconto é conseguir contar coisas no subtexto, deixar coisas subentendidas para dar aquela sensação de “nossa, ele contou tanta coisa em tão pouco espaço!”. Eu sei, eu mesmo falei de subtexto e critica social ali no começo; Não é que ela esteja ausente, mas acho que nao utiliza todo o potencial que o modelo microconto oferece para tanto. Alem disso, achei que o pseudonimo nao condiz com o texto, afinal, Icaro acabou queimando as asas por voar perto demais do sol e se deu mal. Aqui, nao parece ser a ideia de libertação que o conto trabalha. Ao relacionar, ainda que indietamente a protagonista a Icaro, o conto contradiz a ideia de que ela está se libertando de um fardo. Isso nao atrapalha a analise geral do conto, é claro, afinal, o pseudonimo é apenas um disfarce de identidade, e nao um elemento da historia. Ainda assim, achei relevante tocar nesse ponto. Parabens e a boa sorte!

    • Ícaro
      8 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Olá. Agradeço por seu comentário. Eu, Ícaro, estou contando a história. Não sou a esposa, ela não sou eu. Por esse motivo, apenas quis fazer uma antítese, nada mais. E Ícaro me pareceu uma grande antítese em relação ao que está no texto, é só isso. Talvez o Ícaro esteja com inveja dela, afinal, parece que o voo solo dela foi um sucesso, não? Sobre o conto ser expositivo, apenas digo que escrevi do jeito que achei que ficou legal para participar. Para mim, não contei tudo, mas deixei bem claro na estrutura que escolhi para o meu texto, outras coisas que não foram contadas ali. Eu agradeço as suas observações, mas te digo que eu gostei muito do meu texto e ficou bem do jeito que eu gostaria que ficasse, só por isso decidi participar.

  31. Ana Paula Benini
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Ana Paula Benini

    Voltando para comentar melhor – li deitada já de madrugada – achei maravilhoso o detalhes ricos e sucintos, um descrever de cenas impecável. Parabéns.

    • Ícaro
      8 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Olá, Ana Paula, agradeço por seu comentário.

  32. Lucas Santos
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Lucas Santos

    Parabéns pela participação, Ícaro Icônico!

    O texto retrata uma mulher que, revelando sua metamorfose em um par de asas, supera os cárceres físico e simbólico. Ela fartou-se de ocupar a posição da esposa restrita à casa, aos afazeres domésticos, bem como à satisfação das vontades do marido, e assumiu o governo do próprio destino, mesmo que por um período não muito longo (três semanas), sinal de que, apesar de sua insatisfação, cultiva ainda afeto por ele. Com isso, talvez o objetivo dela seja educá-lo, e não desatar laços, por enquanto. Por último, o “também”, em “Você nem percebeu que também criei asas…”, é um pormenor importante, pois denuncia que somente ele tinha direito à liberdade dentro do casamento.

    • Ícaro
      8 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Olá, Lucas, agradeço por seu comentário, que bom que compreendeu os “pormenores” do conto.

  33. claudiaangst
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de claudiaangst

    Olá, autor(a), tudo bem?

    O texto apresenta a metáfora das asas simbolizando a liberdade conquistada pela mulher. O marido não havia se dado conta de que ela estava batalhando por ganhar asas, se libertar do aprisionamento domiciliar. Precisava de férias e o marido que se virasse com as questões cotidianas de um lar. Ficou interessante.

    O tema proposto pelo desafio foi abordado com sucesso (e lindas asas).

    Não encontrei falhas de revisão.

    Parabéns e boa sorte na classificação.

    • Ícaro
      8 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Olá, Claudia, agradeço por seu comentário, por ter compreendido as metáforas da forma como coloquei. E por não ter encontrado falhas de revisão, porque enviei na última hora, hehehe. Boa sorte pra você também.

  34. Nilo Paraná
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Nilo Paraná

    Micro conto delicioso de ler. A história desenvolve-se em torno da libertação da mulher, nos leva a refletir sobre a ideia e cria um punch line ótimo no final. Parabéns. Está entre meus preferidos, embora ainda faltem muitos para ler.

    • Ícaro
      8 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Olá, Nilo, tudo bem? Agradeço por seu comentário, tudo bem se encontrar outros “mais preferidos”, são realmente muitos contos, até mais interessantes, creio, mas fico grato pelo “delicioso”, é bom ler isso sobre o que se escreve. Boa sorte para nós no desafio.

  35. Antonio Stegues Batista
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Antonio Stegues Batista

    Uma metáfora sobre casamento que vai ruindo aos poucos, se transformando, a paixão diminuindo, os cuidados foram deixados de lado, o apoio nos afazeres da casa, negligenciados. Tudo isso o marido descobriu quando a esposa saiu de férias e foi viajar sozinha, para dar uma lição ao marido preguiçoso e desinteressado.

    • Ícaro
      8 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Olá, Antonio, agradeço por seu comentário, sobre a tradução da metáfora. Espero que tenha gostado da leitura.

  36. Nipar
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Nipar

    Micro conto delicioso de ler. A história desenvolve-se em torno da libertação da mulher, nos leva a refletir sobre a ideia e cria um punch line ótimo no final. Parabéns. Está entre meus preferidos, embora ainda faltem muitos para ler.

  37. LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR

    Gostei muito do seu microconto. O tema da metamorfose aparece quando a esposa ganha asas, que podem ser tanto literais quanto uma simbolização de auto conquista da Liberdade. Gostei bastante da ambientação fantástica, mas também parece bastante com realismo mágico, estou em dúvida. É um microconto de temática feminista, apresentando uma mulher consciente de seu papel e seu lugar no mundo.

    • Ícaro
      8 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Olá, Leo, muito agradecido pelo comentário, expondo sua visão a respeito do que escrevi. Acho que caberia sim em realismo mágico, me veio à mente a novela Saramandaia (era esse o nome?) e também um livro do qual gostei muito, chamado “Menino de Asas”, escrito se não me engano nos anos 80 (pode ter sido nos anos 70, de repente).

  38. Wilian Cândido Corrêa
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Wilian Cândido Corrêa

    Curti a ironia e o toque de liberdade.

    • Ícaro
      8 de fevereiro de 2026
      Avatar de Ícaro

      Olá, Wilian, que bom que curtiu. Eu também curti.

  39. Ana Paula Benini
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Ana Paula Benini

    Maravilhoso

    parabéns

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Publicado às 8 de fevereiro de 2026 por em Microcontos 2026 e marcado .