EntreContos

Detox Literário.

Que nem bicho (Anderson Prado)

O pai cambaleia. Sorri vermelho e moído, realizado. Quer mais. Entre sangue e dentes, cospe as malditas palavras:

— Bate que nem homem.

O filho obedece. E bate, bate, bate, cada vez menos homem, cada vez mais bicha.

39 comentários em “Que nem bicho (Anderson Prado)

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  2. André Lima
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de André Lima

    Bom conto que faz um bom jogo de palavras (bicho/bicha). É uma boa sacada, original, mas reta demais. Sinto falta de mais profundidade simbólica, de uma linguagem mais literária, construções mais robustas.

    É um conto em que o realismo extremo salta, a dureza está no retrato fiel do mundo. Sinto falto de algo que transpassa isso.

    Bom trabalho, porém

    Parabéns!

  3. Sarah Nascimento
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de Sarah Nascimento

    Olá! Minha nossa senhora, esse microconto é forte mesmo. É bem visual, bem descritivo, é doloroso, é terrível. Eu acho que você fez um paralelo bem colocado de cada palavra, principalmente a última. Eu sei que o objetivo é comentar, mas autor (a), seu microconto me deixou sem saber o que falar. Ele é impactante, realista de um jeito bem triste.

  4. Fernanda Caleffi Barbetta
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fernanda Caleffi Barbetta

    Olá, Monarca

    Um microconto tão curto e tão potente. Adorei.

    A fala do pai, “bate que nem homem” é ótima. Bem oral esse “que nem”.

    Fiquei só tentando entender o que seria um “sorrir moído”. Gosto de palavras que causam estranhamento, adjetivos usados de maneira inesperada, arriscada, no lugar de outro mais comum. Deu certo para mim o “vermelho”, o “moído”, na minha opinião, mais atrapalhou do que ajudou.

    O final é inesperado e muito bom. A troca de bicho por bicha, mostrando que ele batia e cada vez mais reforçava nele o que incomodava o pai é sensacional.

    Parabéns pelo microconto!

  5. Alexandre Parisi
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Alexandre Parisi

    Oi, Monarca! Teu conto é um soco seco no estômago, um verdadeiro nocaute literário. Adorei a precisão cirúrgica e a economia de palavras para retratar um ciclo de violência geracional e homofobia tão brutal.

    O que mais me agradou foi o subtexto: o pai, realizado no seu machismo tóxico, sorri ao ver a suposta virilidade do filho, enquanto o rapaz se liberta através dessa mesma barbárie. A metamorfose aqui é visceral; o filho deixa de tentar ser o “homem” que o pai exige para assumir sua identidade, cada vez mais “bicha”, ainda que pelo caminho tortuoso da agressão.

    A leitura produz um desconforto profundo, quase profano, mas muito potente. Não encontrei erros; o texto é tecnicamente impecável e maduro em sua brevidade. É uma obra excelente que incomoda e permanece no leitor.

  6. maquiammateussilveira
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de maquiammateussilveira

    Poxa, que conto forte, intenso! A concisão impede que a violência se torne apelativa. O texto me pegou de primeira. Com perdão do trocadilho, me acertou em cheio. Vou dividir uma experiência: no meu microconto, me enrolei todo em 90 e poucas palavras enquanto você disse muito e o suficiente em 37 [fiz questão de contar]. Isso porque o conto está concentrado em uma unidade de imagem muito clara para quem escreveu e para quem o lê. Não precisamos saber a história pregressa nem maiores detalhes para nos identificar com a situação e nos comover. Sua escolha foi segura e muito inteligente. Um detalhe que me incomodou foi o conflito direto entre as palavras “homem” e “bicha”. Entendo o conflito entre “bicho” e “homem”, mas o “homem” e “bicha” pode soar problemático. Seria possível substituir pelo conflito “homem/macho/bicha”? Não sei. Mesmo assim, destaco como ponto positivo a abordagem corajosa. Parabéns! Acredito que esse conto ficará entre os primeiros do desafio.

  7. Bia Machado
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Bia Machado

    Obrigado por compartilhar seu micro. A proposta me pareceu forte e claramente voltada para provocar desconforto e isso funciona para alguns leitores. No meu caso, a violência e o desfecho me afastaram mais do que me aproximaram da reflexão que você quis construir. Ainda assim, reconheço a intenção de tensionar temas difíceis em poucas linhas.

  8. danielreis1973
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de danielreis1973

    Prezado(a) Microcontista (aviso comum em todo os contos):

    Por conta do sistema de comentários (abertos) e do sistema de votação (escolha dos dez favoritos), estou adotando também um critério de análise mais simples para todos, procurando refletir mais como me senti com leitor do seu texto do que como analista/crítico e atribuidor de notas. Por isso, desculpo-me de antemão pela concisão, e reforço que o que comento aqui é sobre como me senti ao ler seu conto, não sobre o quão bom ele ou você é, ok?

    Vamos à análise:

    Um dos textos mais objetivos, claros e impactantes que encontrei neste desafio. Para mim, exemplo primoroso do que um microconto é capaz de ensinar – exemplo de que não é preciso deixar lacunas para o leitor interpretar, nem usar palavras complexas ou sugerir sentimentos derramados. Aqui tudo é cru, verdadeiro e faz a gente pensar. Parabéns!!!

  9. Pedro Paulo
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Pedro Paulo

    Neste caso, dei-me o trabalho de copiar o texto e colar no word para contabilizar as palavras. Apenas trinta e sete. Não é regra, mas quando um texto alcança o limite ou fica muito abaixo, não é incomum encontrar brechas para comentar que poderia ser enxuto ou mais desenvolvido. Aqui, está preciso. O entrevero é visível e visceral, doloroso no sangue derramado e na ferida do trauma que se abre. Ao fim, entendemos a razão da briga como a defesa de quem se é perante quem mais deveria aceitar. Doloroso e marcante, até agora o micro que mais me impressionou e acredito que o primeiro colocado da lista, tendo em vista que já li a maioria. Parabéns!

  10. Renata Rothstein
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Renata Rothstein

    Monarca, seu microconto é impactante e provocador. Forte pra um caramba. Gostei. A narrativa curta e direta transmite uma metamorfose social e psicológica do filho, explorando violência, imposição de masculinidade e perda de identidade. A força das imagens e do diálogo cria desconforto deliberado, prendendo a atenção do leitor.

    O que funciona: o impacto emocional é imediato, e a densidade das palavras transmite a opressão e a transformação forçada de forma eficaz. O texto cumpre muito bem a proposta de mostrar uma metamorfose dolorosa e coercitiva.

    O que poderia melhorar: a narrativa é extremamente intensa e pode chocar o leitor; em alguns trechos, pequenas sutilezas ou sugestões poderiam manter o impacto sem precisar explicitar tudo de forma tão crua (para o meu gosto, perfeito, digo para outros leitores).

    No geral, é um microconto potente, perturbador e provocador, que transmite de forma clara a metamorfose psicológica e social do personagem, apesar do desconforto que gera.

    Desejo boa sorte no Desafio.Beijos

  11. Alexandre Costa Moraes
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Alexandre Costa Moraes

    Oi, Monarca.

    Achei seu microconto sensacional, muito bem conduzido, com ritmo e palavras precisas.

    O enredo é curtíssimo: um pai, moído e satisfeito, provoca o filho no meio da briga física entre eles com um “bate que nem homem”. E o filho obedece, repetindo o golpe até a frase virar do avesso e revelar o outro sentido. Você usa repetição como martelo (bate, bate, bate) e traz uma virada muito sagaz. A ordem que deveria “fazer homem” enfatiza justamente a visão contrária e expõe a masculinidade tóxica como máquina de transformação. O título compõe bem, reforçando o contraste e compondo a elipse. É um microconto de nocaute, duro e desconfortável.

    De forma geral, você abordou muito bem o tema da metamorfose.

    A questão é que, apesar de ter adorado, estou selecionando para a lista os microcontos com mais subtexto e herméticos nesse desafio.

    Parabéns.E boa sorte.

  12. Fabio D'Oliveira
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fabio D'Oliveira

    É um micro impactante.

    A mensagem é clara. Literal. Sem qualquer espaço pra interpretação errada. O que chamou a atenção é a habilidade do autor. É um autor experiente, que sabe o que está fazendo. É tudo feito para impactar. É uma das técnicas mais populares de microconto. O famoso nocaute literário.

    Não posso falar que gostei muito, mas é um ótimo micro. De verdade.

  13. Priscila Pereira
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Monarca! Tudo bem?

    Seu conto é muito potente, tem muito subtexto, muita história, é terrível, chocante. Impecável. Mas tão, tão, tão triste e desesperançoso…

    Queria ter essa capacidade de contar tanto com tão poucas palavras! Parabéns!

    Boa sorte no desafio!

    Até mais!

  14. GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

    Olá, Monarca!

    tudo bem?

    Esse é um dos melhores microcontos do certame. Curto, conciso, brutal e preenchido por um subtexto machista, cultural, real e letal. Impossível não terminar a leitura sensibilizado e com a sensação que perdemos, enquanto sociedade.

    Parabéns pelo excelente trabalho!

    PS: meus comentários curtos e elogiosos são sinais de um trabalho irretocável!

  15. Wilian Cândido Corrêa
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Wilian Cândido Corrêa

    Olá, Monarca.

    No início do desafio, fui um dos primeiros a comentar e reconheço que minha impressão ficou sintética demais. Ao voltar à minha lista, reler os textos com mais calma e apurar meus critérios, confirmo algo que já intuía: Que nem bicho continua sendo meu favorito.

    O que mais me impacta é a precisão estrutural. O título não é apenas chamativo — ele é eixo semântico. “Que nem bicho” deixa de ser metáfora solta e se transforma em dispositivo narrativo que articula violência, masculinidade e reprodução de discurso. O comando “Bate que nem homem” carrega um programa ideológico inteiro, e o microconto expõe como essa lógica se perpetua quase sem ruído, naturalizada.

    Tecnicamente, há um domínio importante do não-dito. Você não explica, não julga, não comenta — apenas encena. E é nessa encenação enxuta que o texto ganha potência. A transformação do filho não é descrita; ela é percebida. O leitor completa o processo. Isso é maturidade na escrita breve.

    Também me chama atenção a economia dramática: não há palavra excedente, nem adjetivação explicativa. A força vem do contraste entre o imperativo do pai e a consequência silenciosa. Em microconto, essa contenção é decisiva.

    Ele está na minha lista porque cumpre algo que considero essencial na forma curta: provoca, permanece e desloca. Termina rápido, mas não se encerra na última linha.

    Revisitando com mais rigor, reafirmo: é o texto que mais me atravessou.

    Parabéns pela construção.

  16. leandrobarreiros
    12 de fevereiro de 2026
    Avatar de leandrobarreiros

    Que conto horrível.

    No melhor dos sentidos.

    Se um autor mira na estética ao escrever um conto, dificilmente algo sai melhor do que esse aqui.

    O micro me causa um puta desconforto. Não é só o pai homofóbico e o filho usando de violência. É a libertação do filho vir através dessa mesma violência em um processo catártico que, em algum sentido, só pode levar à queda.

    Ao mesmo tempo ambos personagens conseguem, em parte, o que querem através desse ato que beira ao profano.

    Enfim, tudo errado, mas é um erro conduzido propositalmente pelo autor, que busca o desconforto enquanto sensação do leitor.

    Odiei.

    Provavelmente estará na minha lista.

  17. Astrongo
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Astrongo

    O conto é forte. São frases pequenas e bem colocadas que passam essa impressão de violência extrema e submissão. O pai consegue o que pediu e também perde. “Bate que nem homem”. O filho, ao obedecer, consuma a própria ruína sendo observado pelo olhar paterno. É a operação de um ciclo de violência. O limite é sua força: a elipse sobre quem é esse filho fora dali. Isso torna tudo ainda mais pesado.

  18. Fabiano Dexter
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fabiano Dexter

    Ola Monarca,
    Excelente conto em poucas palavras. Um pai que não aceita o filho como ele é e um filho que também tem dificuldades em se aceitar.
    O embate da cena narrada invoca todo um passado de conflitos que culminou na agressão, não revidada pelo pai.
    Parabéns!

  19. Thiago Amaral
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Thiago Amaral

    Comentaram que o conto era um tapa na cara, mas acho que é uma sequência de bordoadas hjahuajauhj

    É um conto pra mim desconfortável. Temos um pai claramente homofóbico, machista, que continua provocando, satisfeito, enquanto apanha. É um vilão moderno, urbano, que muita gente odeia pela violência que ele causa.

    Por isso, acho que conseguimos sentir prazer na vingança do filho. Acaba sendo um conto de vingança, que lava a alma. Nesse sentido, ao final, o “bate que nem bicha” parece mostrar que a autoria, também, tem orgulho da violência do filho. Afinal, parece que ele se torna mais ele mesmo à medida que vai batendo. Aqui vem meu estranhamento, pois, apesar de gostar do pai recebendo o troco, ao mesmo tempo não gosto da violência grotesca. Cá fico, dividido entre humano e animal. kkk E acho que é uma divisão verdadeira, que não pode ser resolvida, apenas reconhecida.

    E, na verdade, acho que a autoria quis mais é fazer um trocadilho com bicho e não pensou muito no resto.

    De qualquer forma, o conto ficou ótimo.

  20. Fernando Cyrino
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fernando Cyrino

    Ei, Monarca, que história mais pesada você me traz. Caramba, amigo! Dizia em outro comentário que (acho que foi o Cortazar -grande contista) que disse que o conto ganha a luta por nocaute… Puxa, de uma forma por demais literal você atendeu a essa premissa trazida por ele. Seu conto me ganhou por nocaute e no primeiro minuto, eis que nem precisou utilizar todas as palavras possíveis no Desafio. Ficou muito forte a imagem da desumanização do filho a bater como bicha e no título você já tascou um Bicho de todo tamanho. Bravo, gostei muito do seu conto, abraços de parabéns. Muito sucesso aqui no nosso certame. 

  21. cyro eduardo fernandes
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    Parabéns por não ter desperdiçado palavras e ter criado um conto muito denso. Sucesso no desafio.

  22. Nilo Paraná
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Nilo Paraná

    Olá Monarca.

    Grande micro conto, escrito com o essencial. Corta como um bisturi, cirúrgico. Expõe a ideia da transformação na visão do pai, pois, no fundo, a violência não foi transformação, mas revolta pela vida de humilhação sofrida até então. Eita, viajei na história. Muito bom mesmo.

  23. Gustavo Araujo
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Excelente micro! Repleto de intertexto e, melhor ainda, servindo como um tapa na cara da homofobia. O que me parece claro: o pai frustrado com a orientação sexual do filho acaba indo às vias de fato com ele. O rapaz, provavelmente farto de preconceito, caba cedendo à violência.

    De certa forma, dado a estreiteza de raciocínio de quem não compreende os caminhos da natureza, o pai fica feliz com a surra que recebe, já que enxerga nisso a virilidade do menino — algo que seria monopólio masculino. Não percebe o pai, porém, que o filho vê no embate físico a ratificação de sua opção homoafetiva, afinal, ser bicha não significa ser complacente com qualquer preconceito.

    É possível que o texto cause certo desconforto, seja pela violência, seja pela polêmica que encerra. Mas creio que literatura se presta a isso, a fazer pensar, a pôr à prova nossas convicções, a refletir todo um lado preconceituoso que teimamos em ignorar, porque nos consideramos invulneráveis. Alguns de nós evoluem, outros preferem o conforto das certezas.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  24. Kelly Hatanaka
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Uma história forte e, em muitos sentidos, corajosa. A palavra final é contundente, incomoda. Será politicamente correto? Na minha opinião, isso não importa. A palavra serve à história e funciona bem, sugerindo o motivo do conflito com o pai, insinuando o mundo interno dos personagens, dando a entender o que pensam.

    Gostei muito. Muita coisa dita em poucas palavras; o não-dito também faz parte da narrativa. Parabéns!

  25. andersondopradosilva
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de andersondopradosilva

    Excelente poder de síntese. Conta muito em poucas palavras. Há muita feiura retratada aqui, apesar disso, há um vislumbre de beleza, talvez na escolha feliz de palavras, talvez na decisão acertada de enfrentar a feiura da homofobia através da literatura.

  26. Mariana
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Mariana

    Dou parabéns ao autor do conto, a habilidade de contar uma história em tão poucas palavras foi muito bem empregada aqui. Forte, familiar, tratando de questões como família, homofobia e o que constrói a masculinidade na nossa sociedade. São tópicos que tem estudos longos e que, às vezes, nem dizem tanto quanto o trabalho. Atendeu ao tema do desafio e a imagem, como um muro da casa que está testumunhando o conflito, é forte e dá um efeito seco. Caio Fernando Abreu estaria orgulhoso, foi para a minha lista. Parabéns e boa sorte no desafio.

  27. Rodrigo Ortiz Vinholo
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Rodrigo Ortiz Vinholo

    CARACA! Esse foi, com o perdão ao trocadilho, uma porrada! Funciona muito bem, com o diálogo permitindo toda a dedução sem que a narração precise explorar os detalhes. Excelente em técnica, transformando um enredo relativamente simples em algo muito mais profundo e impactante. Parabéns!

  28. toniluismc
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, Monarca!

    Este é daqueles microcontos que acertam em cheio na economia de palavras. Tudo é seco, preciso, e ainda assim há muito dito nas entrelinhas. A cena é brutal, mas escrita com controle, sem cair no exagero.

    A força está justamente no subtexto: a violência como herança, o embate entre masculinidade imposta e identidade reprimida. Só que o final tropeça.

    A formulação “cada vez menos homem, cada vez mais bicha” soa problemática, porque reforça um estigma em vez de subvertê-lo. Se a frase fosse invertida, “cada vez mais homem/humano”, por exemplo, o impacto mudaria completamente, transformando o que hoje soa depreciativo em afirmação de identidade.

    De qualquer forma, a estrutura do conto é muito boa. É direto, corajoso e mostra que a autora ou autor entendeu o poder do não-dito. Falta só ajustar o olhar do fechamento pra transformar um bom microconto em um daqueles que ficam ecoando depois da leitura.

    Parabéns!

  29. Lucas Santos
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Lucas Santos

    Parabéns pela participação, Monarca!

    O título não animaliza o pai, mas resgata o seu estado mais primitivo, caracterizado pela deficiência de razão. Provavelmente, o pai “educa” o filho do mesmo modo que foi “educado”, sendo, portanto, um comportamento geracional que, infelizmente, será novamente reproduzido contra seu neto, caso o ciclo não seja rompido. Há ainda, nas entrelinhas, a saúde psicológica comprometida de ambas personagens. E é por isto que pus “educa” e “educado” entre aspas: não se trata de retificação construtiva de conduta, mas de produção e reprodução de traumas. Nesse contexto, a metamorfose consiste na transformação traumática sofrida pelo filho.

    Eu não alteraria nada. O texto está bem enxuto, o ritmo é rápido, tem subtexto, poder imagético, impressão duradoura e choque: pontos, sem dúvida, muito positivos.

  30. Leila Patrícia
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Leila Patrícia

    Oi, Monarca, tudo bem?
    Você construiu uma cena dura e direta, que funciona pelo choque e pela inversão da violência herdada. O último verso pesa e deixa um desconforto que combina com o tema, embora a repetição de “bate” já entregue quase tudo antes do fechamento

  31. Martim Butcher
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Olá,

    O conto é dos melhores entre os 37. Faz um uso muito eficaz do fragmento narrativo como suporte a uma história implícita. Isso coloca em jogo uma relação entre entre dimensões que é específica dos relatos pequenos. O fragmento contém não só uma história toda pregressa entre pai e filho como também diversas histórias similares que se dão pelo mundão afora. Muito bom.

    Não resisto, porém, a sugerir uma melhoria. Me parece que apontar desumanização nos atos de violência é um clichê que recai numa crítica estéril. Na verdade, as ações de maior violência não são “animais”, mas humanas. Não consigo imaginar um pai leopardo agredindo o filhote, e vice-versa, por conta da homossexualidade. Por isso não me agrada o “cada vez menos homem”, embora, é claro, a ambiguidade de sentido de “homem” (humano ou masculino) tenha muita importância dentro do texto. Me ocorreu, pensando um pouco no filme do Ney Matogrosso (que se chama Homem com H), na relação dele com o pai, um mudança no fim: “E bate, bate, bate, cada vez mais homem, cada vez mais bicha.”. A animalização ficaria assim restrita ao título, que, forçando uma contradição com a “hiperhumanização” do final, também seria outro: em vez de “Que nem bicho”, ficaria “Cada vez mais bicho”.

  32. Ana Paula Benini
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Ana Paula Benini

    Voltei para comentar melhor, pois li de madrugada, já deitada. Eu amei seu microconto, seco como se é esse tipo de violência de não aceitação, a ignorância. sucinto, rico e um assunto que deve ser explorado. Parabéns!

  33. Luis Guilherme Banzi Florido
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Luis Guilherme Banzi Florido

    Bom dia, Monarca! tudo bem? Um conto interessantíssimo, pois em quase nada de palavras conta uma vida inteira. O pai machão que negava a aparente homossexualidade do filho e o oprimia, como se pudesse “corrigi-lo” por meio do medo e da raiva. O filho que cansou da opressão. A explosão da bomba relógio familiar. Voce conta tudo isso sem falar nada. Conta com nossa memoria para preencher as lacunas, com as inumeras situações desse tipo que ja testemunhamos. A britalidade aqui não é gratuita, faz parte do plot, faz parte do desejo do autor de escancarar a violencia gerada pela intolerancia e pela repressão. O conto é forte e cru, pois voce planejou assim. E no final, nos deixa com um gosto ruim na boca. Excelente trabalho!

  34. Leandro Vasconcelos
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Leandro Vasconcelos

    Opa! Como vai, autor? Excelente o seu microconto. Excelente porque consegue ser impactante em três linhas. Esse efeito é muito difícil de conseguir. Quando começamos a ler, não temos a menor ideia do que se tratava a briga. Só na última palavra entendemos. Na última palavra, forma-se um retrato de uma relação doentia, de um pai que detesta o filho pelo que ele é; de uma briga sem sentido que aprofunda as diferenças entre os dois. Quanto mais bate, mais bicha é. E mais e mais ficam iguais bichos, os dois, remetendo-se ao título. Uma crítica contundente a várias formas de relação familiar pautadas em preconceito, ignorância e desequilíbrio. Marcante! Gostei demais. Parabéns!

  35. claudiaangst
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de claudiaangst

    Olá, autor(a), tudo bem?

    Um microconto que nem precisou de muitas palavras para passar a sua contundente mensagem: o perigo de despertar o desumano em nós. Aqui, bicho é sinônimo de selvagem, bruto, avesso ao diálogo. Também a palavra bicho foi escolhida para fazer par com bicha. Palavras tão semelhantes e com significados tão distantes.

    “Bata como um homem” é um comando que já foi ouvido por muitos meninos, junto ao famigerado “Homem não chora”, levando alguns a crer que ser homem é sinônimo de insensível, covarde e bruto. Triste isso, mas ainda muito presente na nossa humanidade.

    O tema proposto pelo desafio foi abordado com sucesso. O sujeito sofreu uma (infeliz) metamorfose.

    Não encontrei falhas de revisão, somente muito sangue e indignação.

    Parabéns pela participação e boa sorte.

  36. Antonio Stegues Batista
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Antonio Stegues Batista

    Um pai descobre que o filho é homossexual, fica indignado e o ofende com palavras que o ferem como lâminas incandescentes. O filho, sendo bicha, se transforma em bicho e dá uma surra no pai que não revida e fica satisfeito por ele mostrar aquele lado bruto. Acho que o contrário da narrativa, o filho mostra o lado selvagem que todo ser humano tem oculto. Muito bom, parabéns.

  37. LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR

    Gostei bastante do seu microponto. O tema da metamorfose está bem claro na homossexualidade do filho. Ele ficou bem curtinho, mas não ultrapassando o limite de palavras está valendo. A leitura nos leva a refletir imediatamente sobre o machismo e a homofobia. É uma temática bastante atual.

  38. Wilian Cândido Corrêa
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Wilian Cândido Corrêa

    Aqui a violência e o peso da relação entre pai e filho me deixaram sem fôlego. É cruel, mas escrito de um jeito que não dá para parar de ler. Parabéns!

  39. Ana Paula Benini
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Ana Paula Benini

    Muito, muito bom!
    Parabéns

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Publicado às 8 de fevereiro de 2026 por em Contos Campeões, Microcontos 2026 e marcado .