EntreContos

Detox Literário.

Nuvens (Magikarp)

— Coelho.

— Dragão.

Ventos, minutos.

— Cavaleiro.

— Dragão.

Meses, solstícios.

— Virgem nua.

— Dragão.

Anos, amores.

— Dragão.

— Dragão, ora.

Guerras, décadas.

— Amantes enlaçados no leito.

— Hesitei, mas, hoje, dragão.

Vidas, nuvens; o crepúsculo recai nos rostos do mestre e do aprendiz, irreconhecíveis sob a marca do tempo.

— Homem desiludido. E dragão, dirás. Jovem, busquei-te para aprender a arte da metamorfose. Agora sou velho. Minha vida foi te ouvir ver dragões celestes. Em vão: o senhor não muda.

— Tens razão: digo dragão. Mas, perante a permuta contínua das nuvens, o que me restava, senão ver mudar, nelas, o mesmo dragão dentro de mim?

25 comentários em “Nuvens (Magikarp)

  1. GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
    12 de fevereiro de 2026
    Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

    Olá, Magikarp!

    Tudo bem?

    Seu conto é interessante. Primeiro, pela escolha do pseudônimo. Magikarp… Lembro do Pokémon Magikarp, considerado pela Pokedex (e qualquer ser humano que dedicou muitas horas aos jogos do pokemon) o Pokemon mais inútil. Mas, o Magikarp evolui para um Gyarados, um Pokemon Dragão.

    Bom, foi a partir daí que eu tirei a minha interpretação do conto. Enquanto o aprendiz pensava ser errada (até mesmo inútil) a contemplação do mestre e a persistência na resposta, a lição do mestre está justamente na persistência; não importa quantas vezes as nuvens se transformam, ele irá buscar enxergar o dragão que ele vê dentro de si mesmo. Ou, avançando um pouco, o ideal que mora dentro do mestre não muda conforme as situações vão se transformando.

    Creio que não há uma resposta certa entre o mestre e o aluno. Afinal, parte da natureza humana é, invariavelmente, se transformar diante das circunstâncias da vida e peculiaridades.

    Em termos de ideias, amei o conto.

    Em termos gramaticais ou de construções, eu confesso que não. Está tudo correto, sim, mas eu penso que o desfecho está confuso. Tanto a fala do mestre quanto a do aprendiz estão confusas, cada um a seu modo. Creio que faltou dosar um pouco essa questão de (in) clareza.

    Atenciosamente,

    Givago

  2. Fernanda Caleffi Barbetta
    12 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fernanda Caleffi Barbetta

    Olá, Magipark

    Muito bom o seu micro quase todo em diálogo.

    Tive que ler mais de uma vez, mas consegui compreender e gostei bastante. Bem interessante e criativa a sua ideia.

    Gostei do final, fiquei só na dúvida com a palavra “mesmo” em “senão ver mudar, nelas, o mesmo dragão dentro de mim?”. Fica confuso se quer dizer que o dragão dentro dele era sempre o mesmo (o que tira a ideia de que ele muda) ou se é o mesmo dragão que ele via nas nuvens. Para tirar a dúvida, sugiro: “mudar, nelas, o dragão dentro de mim”. Só uma sugestão.

    Parabéns pelo microconto!

  3. Rodrigo Ortiz Vinholo
    12 de fevereiro de 2026
    Avatar de Rodrigo Ortiz Vinholo

    Gostei muito! Acho excelente as transições, a forma e, claro, o conteúdo! O tema de metamorfose em oposição à aparente não-mudança é profundo e muito interessante, deixando algo para levarmos conosco depois da leitura. Parabéns!

  4. Pedro Paulo
    12 de fevereiro de 2026
    Avatar de Pedro Paulo

    As diferentes versões da mesma coisa às vezes expõem diferenças mais substanciais do que aquilo que é completamente diferente. Achei a forma deste micro ousada, a princípio parecendo um experimento inócuo que, nessa estratégia arriscada, tem toda a força de seu contexto transmitida pelas últimas linhas de diálogo finais, em que o aprendiz ensina ao mestre uma forma distinta de enxergar a mesma questão sobre a qual ponderavam, dando ares filosóficos a essa abordagem do tema. Muito bem!

  5. Gustavo Araujo
    12 de fevereiro de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Gostei, mas queria ter gostado mais… O diálogo é muito bom e, de início, não entrega o enredo. Lá pelas tantas, vemos um mestre e se aprendiz e, logo, prestamos mais atenção ao que vinham dizendo pelos dias, meses e anos de convívio, analisando as nuvens e suas diferentes formas, formas essas que repercutem em interpretações tão imediatas quanto profundas.

    Essa é a maior qualidade do texto, já que obriga o leitor a voltar algumas vezes ao início para se assegurar quem é quem, uma jogada inteligente e bem executada.

    O que não gostei foi do fim, esse arremate do mestre, tentando justificar por que via sempre um dragão não me convenceu muito. Tudo bem, entendi que eram dragões internos, refletindo diferentes momentos na vida dele, mas a explicação me pareceu um tanto desconectada do resto do conto, egoísta até, eis que não relacionada com o aprendiz.

    Mas, de todo modo reconheço a criatividade e aplaudo. Um conto diferente, no mínimo, e, mais do que isso, que se destaca positivamente. Parabéns e boa sorte no desafio.

  6. Fabiano Dexter
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fabiano Dexter

    Ola Magikarp,

    Gostei bastante do seu micro, ainda que ele faça sentido a partir de uma segunda leitura (pelo menos o foi assim para mim)

    A ideia de mestre e aprendiz ficou legal e a questão moral de quem estaria certo, aquele que é sempre um Dragão ou aquele que vê as coisas pelo que elas são?

    Parabéns!

  7. Nilo Paraná
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Nilo Paraná

    Ola Magikarp

    Demorei a perceber quem era o mestre e o aprendiz. Muito bem escrito, mas me soou como uma fábula com moral no final. Li repetidas vezes e sempre aquele final: escute minhas palavras, jovem tolo, eu sei o segredo da vida. Posso ter entendido tudo errado? Pode ser, sim, veremos no final quando o autor explicar. De positivo: muito bem escrito, talvez querendo propositalmente criar dúvida? Boa sorte na competição

  8. Kelly Hatanaka
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Um conto com riqueza filosófica. O mestre vê sempre um dragão nas nuvens mutáveis porque o tem dentro de si e, nas mudanças das nuvens, via seu próprio dragão se transformar.

    Vemos no mundo o que temos dentro de nós.

    Achei bonito demais. Este conto tem um ar de fábula e uma ambientação doce. E, como se espera de um microconto, diz muito em poucas palavras.

  9. Thiago Amaral
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Thiago Amaral

    Oi, Magikarp. Achei um ótimo conto.

    No começo confuso pra cacete, mas, à medida que as falas se expandem, vamos entendendo do que se trata.

    Achei a linguagem elegante e bem adequada ao tema e aos personagens.

    A história tem elementos de fantasia, mas também de espiritualidade, pois aborda temas de transcendência em meio à mudança.

    MAS devo confessar que também fiquei confuso e troquei as personagens no final do conto. Assim como o Luis, pensei que o “jovem” fosse vocativo. Nessa parte a fala ficou elegante demais para minha compreensão kkk Depois, ainda não entendendo o equívoco, eu pensei que o mestre, por ser mágico, se mantinha jovem pra sempre, o que é um elemento bacana, mas nem foi o que você quis dizer. Agora entendi tudo, e fez sentido.

    No mais, o conto foi criativo por ter história e temas inusitados e profundos. Bem capaz de ficar na minha lista.

    Boa sorte no desafio.

  10. toniluismc
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, Magikarp!

    Esse conto é simplesmente brilhante, um dos melhores mesmo, com uma estrutura que usa o espaço de forma magistral pra construir um arco completo de expectativa, frustração e iluminação.

    A repetição do “dragão” cria um ritmo hipnótico, quase como um mantra, que vai escalando com as transformações propostas pelo aprendiz (coelho, cavaleiro, virgem, amantes) e culmina na revelação taoista profunda: a verdadeira metamorfose está em ver o mesmo dragão eterno mudando de forma nas nuvens, como símbolo da essência imutável no fluxo do mundo.

    O diálogo mestre-aprendiz evoca tradições orientais, onde o dragão representa poder, mudança e percepção espiritual, e o envelhecimento dos personagens dá uma camada sensível de tempo e desaprendizado.

    Se há um ponto mínimo de melhoria, talvez seja só polir levemente a pontuação no diálogo final pra fluir ainda mais natural (tipo, “E dragão, dirás?”), mas isso é detalhe. O texto já é redondo, sensível e filosófico na medida certa, deixando o leitor com uma sensação de epifania sutil e memorável.

    Certamente estará na minha lista e espero que na de outras pessoas também. Parabéns!

  11. Fernando Cyrino
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fernando Cyrino

    Ei, Magikarp, cá estou eu tentando pegar o fio da meada da sua história. Confesso que senti dificuldades… Mas a partir das imagens criadas pelas nuvens eu achei que consegui um caminho de entendimento legal. Fato é que sou dos que gostam de contos menos herméticos. Mas isto não quer dizer que sua história não esteja legal e muito bem contada. Fica com o meu abraço e os votos de muito sucesso no desafio.  

  12. Martim Butcher
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Caro Magikarp,

    Gostei muito do conto, um dos melhores até aqui. Sempre me inquieta a prosa que nos coloca em uma situação narrativa desconhecida. É como aquele efeito de acordar numa casa alheia e demorar um tempo a reconhecer a posição das janelas. Seu conto passa isso. O título é uma sutil chave de leitura para entendermos a situação de observação das nuvens. Essa situação prossegue em alternância entre diálogo e meros substantivos: até a segunda metade do texto, há ação e progressão no tempo sem sequer um verbo, o que é notável. Apenas chegando ao desenlace entende-se que se trata de uma lição de mestre a aprendiz, dilatada por toda uma vida. A posição deles é surpreendente e contrária ao senso comum acerca do que é metamorfose, mudança, transformação. O sábio, a quem foi requerido ensinar a metamorfose, não se seduz pela incessante mudança das aparências, mas se inclina ao que é permanente, querendo achar, aí, aquilo que se transforma. Afinal, se ele diz sempre “dragão” diante das formas sempre novas, é porque sua ideia de dragão é, também, continuamente atualizada. Uma lição algo paradoxal, com aquele humor de velho sábio.
    Bom, pelo menos foi o que eu pensei. Brisei muito?

  13. Luis Guilherme Banzi Florido
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Luis Guilherme Banzi Florido

    Oi, Magikarp! tudo bem? Gostei de como o pseudonimo conversa com a historia, sem no entanto ser um elemento indispensavel a ela. A lenda da carpa virando dragão não nasceu no pokemon, mas vem da mitologia indiana budista, e fala sobre o potencial inato naqueles que atravessam as dificuldades com persistencia. Aqui, vemos o mestre e o discipulo aprendendo a partir da observação das nuvens ao longo do tempo. Se, a principio, o conto é um pouco dificil de entender, e pode parecer que o discipulo nao está mudando/evoluindo, no final, percebemos que ele não vê sempre o mesmo dragão. O dragão se transforma, evolui. Ao mestre, isso é imperceptível, mas o homem, carpa com potencial de dragão, vê a mudança sem abandonar sua identidade. Apesar de não ser uma escrita que me agrade tanto, achei um pouco chatas as repetições como estão, sem dúvida é um conto que ganha muito pela mensagem muito bem construída, tendo, mesmo em tão pouco espaço, uma evolução gradativa e bem calculada pelo autor(a). Excelente trabalho, parabéns!

    • Luis Guilherme Banzi Florido
      10 de fevereiro de 2026
      Avatar de Luis Guilherme Banzi Florido

      Reli e vi que tinha entendido ao contrário! kkkkkk… aquele “Jovem, busquei-te…”, “jovem” não é um vocativo, como eu tinha entendido a princípio. Desculpa pela má interpretação! Continua sendo meu favorito, de todo modo.

      • Magikarp
        10 de fevereiro de 2026
        Avatar de Magikarp

        Luis Guilherme, obrigado pelos comentários e pela generosidade!

  14. cyro eduardo fernandes
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    Gostei do ritmo e das repetições do conto. Particularmente acho que fica bom nos micros. O aprendiz acabou usufruindo a vida sem mudar muito. Boa sorte no desafio.

    • Magikarp
      10 de fevereiro de 2026
      Avatar de Magikarp

      Fico feliz que tenha gostado das repetições. Porém, tenho a impressão de que, assim como o Antonio, vc atribuiu as falas de forma trocada… Veja bem, na penúltima frase quem fala é o aprendiz, referindo-se ao passado (“Jovem, busquei-te para aprender a arte da metamorfose”). A fala final é do mestre. Quem repete dragão é o mestre.

  15. Antonio Stegues Batista
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Antonio Stegues Batista

    À primeira vista(leitura) a história deste microconto parece confusa nos diálogos, mas dá para descobrir que são dois personagens, o mestre e o aprendiz num diálogo sobre a transformação das nuvens em várias coisas, objetos, pessoas, animais. Enquanto o mestre enxerga outras coisas, o aprendiz só vê a imagem de um dragão nas nuvens porque ele acredita na própria força, a força do dragão em seu íntimo. Parece que o mestre não tem mais nada a lhe dar. Sentir-se dragão é o suficiente para enfrentar o mundo.

    • Magikarp
      10 de fevereiro de 2026
      Avatar de Magikarp

      Antonio, cada leitura é uma leitura, mas nesse caso acho que faltou um pouco de atenção. Você trocou a posição dos personagens. Isso muda tudo. Sugiro releitura.

  16. claudiaangst
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de claudiaangst

    Olá, autor(a), tudo bem?

    O dragão dentro do mestre passava por sucessivas metamorfoses segundo a mudança dos desenhos nas nuvens? Ele quis dizer que a sua essência sempre foi o dragão, mas se projetava de formas diversas nas nuvens (passageiras e mutáveis)?

    “O conceito de Magikarp evoluir para Gyarados é baseado na lenda chinesa dos carpas saltando sobre o Portão do Dragão. De acordo com a lenda, os carpas que saltam sobre uma cachoeira lendária chamada Portão do Dragão são recompensados por sua perseverança e transformados em dragões.”
    Fonte: https://www.reddit.com/r/pokemon/comments/1bxx2ee/i_just_learned_the_historyreasoning_why_magikarp/?tl=pt-br

    Conto muito complexo para mim, uma sutileza que não consegui captar por inteiro. O tema do desafio foi abordado.

    Não encontrei falhas de revisão.

    Parabéns pela participação e boa sorte.

  17. andersondopradosilva
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de andersondopradosilva

    Embora tecnicamente irreprimível, achei um tanto chato, não sei se mais o texto, se mais os personagens, se os dois. Tem gosto de fábula e, por isso, pela linguagem e pela ausência de temática mais contemporânea, soa antiquado. A persistência do mestre e a amargura do discípulo são inverossímeis – dois chatos, eles são. O aprumo técnico me fez querer gostar mais do conto, mas a inadequação temporal e a chatice e inverossimilhança dos personagens e de suas atitudes me desagradaram bastante. Ainda assim, não excluo da presença na minha lista, vai depender dos demais concorrentes.

  18. LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR

    Gostei muito do seu microconto. O tema da metamorfose aparece na alternância das palavras no início da narrativa. Me lembrou o livro dos Xing vendo até interpretação. É uma narrativa bastante Mística Que me interessou bastante.

  19. Priscila Pereira
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Magikarp!( Gosto de pesquisar os pseudônimos e vi que o seu significa um pokémon em forma de peixe, bem legal!) Tudo bem?

    Cara, amei seu micro!! Não tava entendendo nada, aí no final tudo fez sentido! Como ver fora diferente do que está dentro? Ler as nuvens é mais revelador do que parece. Parabéns!!

    Boa sorte no desafio!

    Até mais!

  20. Ana Paula Benini
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Ana Paula Benini

    Maravilhoso! Um diálogo simples de início que transmuta em pura reflexão do tempo e da sabedoria.
    Parabens

  21. Wilian Cândido Corrêa
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Wilian Cândido Corrêa

    Gostei!

    Fiquei preso à cadência e às repetições, e senti o tempo e a transformação junto com o texto.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado em 8 de fevereiro de 2026 por em Microcontos 2026.