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A Mente Transacional – Crônica (Pedro Paulo)

O chuveiro não parava de pingar. Investiguei a torneira e mesmo removendo o seu regulador não fui capaz de identificar como remover a peça interna para reparar a vedação. Foi mais uma ocasião em que me ressenti da minha falta de tino para o que quer que fosse manual. Quando o faz-tudo chegou e estranhou a curiosa peça que se escondia por debaixo da vedação, senti-me um pouco menos ignorante, já que o especialista também não compreendeu de imediato. Mas também não demorou muito. Ao extrair a peça com um alicate, encontrou a borracha de vedação gasta e explicou que era a mesma de qualquer outra torneira, mas com um acabamento que nunca havia visto. Saiu na mesma bicicleta em que havia chegado e retornou com as borrachas novas. Após a substituição da vedação desgasta e reinstalação da torneira — coisa de um minuto — perguntei quanto devia a ele — a forma que encontrava de disfarçar minha preocupação por produto ou serviço cujo preço não conhecia sem me mostrar muito vulnerável. Ele se espantou.

— Por essa besteira? Oxe. Nada!

Hesitei por um instante. Insisti, disse que ele havia gastado o tempo dele não só para ir até ali, mas para partir, voltar e ir de novo, fora a compra das borrachas. Além de nos ter atendido assim que chamado! Ele sequer se virou para mim, respondendo enquanto subia na bicicleta para ir embora.

— Não, rapaz, por coisa simples assim não cobro nada não. Ainda mais pra você que está com filho chegando aí!

E se foi.

Embora eu o tenha recebido na porta, o faz-tudo havia passado por minha esposa, cujos sete meses de gestação se mostravam em sua barriga arredondada. Eu e ele só nos tínhamos visto uma única vez em um serviço anterior dois anos antes, que acabara por ser a simples realocação de uma telha para acabar com a goteira. Naquela vez, trocamos ainda menos palavras do que nesse serviço do chuveiro. Mas essas suas últimas palavras ficaram comigo. Desconcertara-me a resolução com a qual rejeitou não uma, mas duas ofertas de pagamento por ter ido até a nossa casa.

Voltei a lembrar da nobreza desse gesto quando descobri o provérbio africano que diz “ser preciso de uma aldeia inteira para criar uma criança” ou mesmo quando estudava o Estatuto da Criança e do Adolescente e reconheci a abnegação daquele sujeito nos artigos que identificavam as crianças e jovens como prioritários dos cuidados da lei. É dramático, é claro. Não vivo em uma aldeia e sequer sei o nome do faz-tudo ou de onde ele é. Nunca tornei a vê-lo na rua. Mas o que me fez pensar é que, apesar da simplicidade do serviço, ele havia tirado o seu tempo para estar ali e, além, para se mover por alguns quarteirões e retornar, chegando a gastar alguns centavos do próprio bolso para resolver aquele pequeno inconveniente. Sem cobrar, ainda negou o pagamento. Duas vezes. Então, mais recentemente, passado por essa memória novamente, ocorreu-me que talvez o estranho seja que eu estranhe a sua atitude.

Lembrei-me da situação quando passei pelo feed do youtube e vi mais um vídeo propondo debate entre um bilionário e trinta assalariados — uma versão brasileira de uma tendência gringa. Não aguentei ver mais do que cinco minutos de repetições da palavra “mentalidade” e assumo as consequências pelo possível aprendizado perdido com os outros cinquenta e cinco minutos do conteúdo, mas o contato com aquilo me fez lembrar do faz-tudo e sua dispensa de pagamento. Foi natural que eu quisesse pagá-lo. Mas por que eu insisti diante da negativa?

Reconheço em mim a persistência de uma mentalidade transacional. Na grande maioria de minhas relações, reconheço uma dinâmica de trocas explícitas e implícitas. Tenho horror à dívida. Imagino que qualquer credor meu me tem por menos e que eliminarei o atrevimento do despeito por quitar nossos compromissos. Não precisa ser financeiro. Minha paranoia também contabiliza favores e a qualquer gentileza eu respondo que “tô te devendo uma!”. E talvez fale duas vezes se achar que a pessoa não me escutou, pois não quero que fique achando que não reconheci o meu compromisso em retornar aquele apoio. Mas, se me redime, quando faço favores não tenho isso em mente.

Quando sou gentil ou me esforço para além da conveniência para ajudar alguém, o que também não é tão raro, não espero nada em troca e sinto que o ato vale por si só. É quando sei que minha gentileza é genuína. Quando a proposta é uma troca e a iniciativa parte de mim, costumo anunciar o que as partes envolvidas tirarão daquilo, como se o verbal tornasse o acordo mais definitivo e tudo fique às claras: não quero que achem que estou me aproveitando. E, se em contato com uma pessoa beneficiária da minha gentileza, percebo que aguardo algo de volta — pois, confesso, esse pensamento nunca pude eliminar de todo — repreendo-me, tentando me manter fiel à gentileza.

Então por que a surpresa em relação ao descompromisso do faz-tudo? Fico pensando se fosse eu sentado em frente àquele bilionário contando essa história, à guisa de um argumento em defesa da cooperação entre iguais ou algo assim, o que ele diria? Antecipo algo sobre uma “oportunidade de portfólio” ou, mais além, “um visionário de networking”, pois certamente eu o indicaria e chamaria aquele trabalhador novamente quando estivesse em apuros, o que é verdade — tanto que eu o chamaria novamente como, muito certamente, estar em apuros, já que não resolvi algo tão simples como foi o caso do chuveiro.

Mas, quando recobro a situação e a indiferença com a qual tratou a minha persistência saindo com pressa, estou decidido que não é nenhuma grande façanha empreendedora de garantia da clientela. Poderia pensar ainda que o faz-tudo tenha olhado para mim e para minha casa e pensado “tá aí um coitado”, mas só nos olhamos nos cumprimentos e no seu curto caminho para o banheiro não o vi se detendo em nada da casa. Entretanto, ele cumprimentou a mim e à minha esposa grávida de sete meses. Por outro lado, eu também poderia mesmo pagá-lo, ainda que minhas condições financeiras não sejam aquelas em que se possa dispensar a oportunidade de economizar, e ele provavelmente sabia disso.

Por mais que a persistência da minha perspectiva transacional me impeça de ver com clareza, tratou-se até mais do que uma gentileza da parte do faz-tudo. Foi solidariedade. Compaixão. Sem dar muito por isso, viu a simplicidade do que o trouxera até ali e, primeiro, nos viu, uma família a se formar, um casal aguardando o seu primogênito, o pai que não soube trocar a borracha de uma torneira, dois jovens que logo lidariam com toda a maravilha e a reviravolta dos cuidados de um bebezinho. Aquele homem viu aquilo e decidiu ajudar. E, provável, não se lembra disso, agiu com a naturalidade de uma conclusão óbvia. Humanidade.

E então vejo minhas próprias generosidades e quando o cálculo de uma-mão-lava-outra assombra, eu reprimo. Penso naquele encontro fortuito e reflito que a pressão do cotidiano não pode me fazer evitar de ir além do que eu iria se puder amparar alguém. E se preciso alimentar o transacional em mim, penso que talvez esteja devolvendo àquele homem a graça da solidariedade que me demonstrou assim, tão naturalmente.

11 comentários em “A Mente Transacional – Crônica (Pedro Paulo)

  1. Luis Guilherme Banzi Florido
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Luis Guilherme Banzi Florido

    fala, PP! tudo bem? Caramba, que pedrada! Excelent, como tudo que voce escreve. Me deixou até arrepiado no final, me fez refletir, me deixou meu atonito. Começando do tecnico pro sentimental, a cronica é muito bem escrita. Fluida, palavras bem escolhidas, tecnica impecavel. Me parece que tosentado num bar contigo (e espero que isso um dia de fato aconteça) e voce fez um monologo sobre a situação, tal a naturalidade e fluidez da cronica. Coisa de craque. Falando sobre os sentidos e aprendizados, se destacaram para mim dois. O mais explicito é aquele cuja perspectiva voce adotou como fio central: a forma como somos programados (e, recentemente, insistentemente reprogramados e manipulados) a ver o mundo todo como uma grande troca baseada em ganhos e perdas. Tudo precisa ser produtivo e lucrativo. Inclusive nossas relações. Existem casamentos assim (que se me permite a opinião pouquissimo profissional, estão fadados ao fracasso). Tudo é uma negociação. Tudo tem a ver com mérito, preço, ‘valor’. Valor entre aspas, mesmo, pois vejo como uma corrupção do sentido real de valor. Esse é o primeiro ponto que você trouxe brilhantemente. Outro, que ficou mais na entrelinhas, e queria saber se concorda, é: a forma como se julga esse valor nas pessoas é totalmente corrompida. Hoje, é normal que a sociedade julgue o valor das pessoas por aspectos que condizem com o discutido acima: sucesso profissional, financeiro. Um médico é considerado alguém de valor pelo simples fato de ter uma carreira altamente rentável. Um faz-tudo pode ser incorretamente visto como alguém inferior. Existe um rank social, que, ainda que não explicito ou declarado (como na India, por exemplo), norteia os comportamentos, relações e atitudes vigentes na sociedade. Sua cronica traz uma visão revigorante do que realmente torna uma pessoa valorosa, do valor interno, intrínseco. Nichiren Daishonin, Buda japonês do século 13 já percebia esse paradigma quando advertiu com as palavras “a sociedade vive de acordo com o conceito de castigo e recompensa, a filosofia propõe vitória ou derrota”. Já à época Nichiren se preocupava com a distorção da percepção de valor nos seres humanos como uma das causas da degradação social, propondo uma vida baseada no real valor — aqui, retradado pelo conceito de vitoria ou derrota. Enfim, escrevi um comentario mais longo que sua cronica kkkkkk. Mas, no geral, o que quero dizer é que sua cronica brilha por tratar de dois aspectos essenciais para uma mudança social rumo à justiça e equidade: o valor da gentileza e o brilho da vida das pessoas que fazem dessa sua bussola moral. Obrigado pelo texto e pelas importantes reflexoes que ele acarreta. Abraço!

    • Pedro Paulo
      18 de fevereiro de 2026
      Avatar de Pedro Paulo

      Oi, Luiz Guilherme! Confesso que senti a sua falta pela área off, lendo e escrevendo. No grupo do whatsapp você mencionou estar passando pelas produções daqui e espero que submeta algo para o nosso deleite também!

      Perguntou pela minha posição acerca do valor na sociedade hoje em dia e concordo com o que diz. Te acho certeiro quando aponta um “ranking social” e sua comparação com as castas indianas também é pertinente, pois o lance na sociedade ocidental é que existe alguma permeabilidade entre as classes sociais e a transição do inferior ao superior é encarado como uma virtude e vendido como ao alcance de qualquer pessoa, de modo que tudo se trate apenas de uma “escolha”. Em razão do mestrado eu tenho pesquisado sobre os currículos de Ensino Médio e tenho ficado surpreso e desanimado como essa mensagem de valor pela ascensão individual – presente de muitas formas, como por exemplo na imposição do empreendedorismo como inserção no mercado de trabalho -, uma vez que é algo presente justamente na etapa de formação de jovens, a encontro de um discurso bem veiculado nas redes sociais, inclusive com pessoas dedicadas à sua difusão via life-style, debates, etc.

      Assim, a ilusão tem meios institucionais e espontâneos, reforçando que problemas de ordem social são, na verdade, culpa de indivíduos… o que não é novo, a julgar pelo monge que citou no seu comentário.

      Muito obrigado pelo comentário, Luiz. Eu adoraria mesmo que pudéssemos sentar em uma mesa de bar para conversar sobre isso ou sobre qualquer coisa. Abraços!

  2. Kelly Hatanaka
    2 de fevereiro de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    A gente tem mesmo uma visão meio matemática das coisas, como se mantivéssemos uma espécie de conta corrente cármica. Receber uma gentileza, uma boa ação gratuita de uma pessoa aleatória nos faz sentir em débito com o universo e, acostumados que estamos em pagar nossas dívidas, ficamos olhando ao redor, procurando o guichê onde pagar, ou esperando a chegada do boleto.

    Sabemos bem como lidar com a maldade, nos acostumamos. Mas a bondade gratuita nos desnorteia.

    • Pedro Paulo
      18 de fevereiro de 2026
      Avatar de Pedro Paulo

      Conta corrente cármica é muito bom hahahahaha, já dá o nome de algum texto. Você deveria escrevê-lo!

      Obrigado pelo comentário, Kelly!

  3. Gustavo Araujo
    31 de janeiro de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Um dos efeitos mais tristes da modernidade é surpreender-nos com atos de cortesia, de educação, de gentileza. Onde foi que perdemos a naturalidade com essas coisas? Por que estamos sempre esperando que os outros nos passem a perna? Por mais que nos eduquemos, por mais que busquemos mudar essa percepção, parece que algo a torna quase natural. Precisamos nos reconstruir como seres humanos. É isso que sua crônica mostra tão bem, Pedro. Que possamos seguir por esse caminho.

    • Pedro Paulo
      18 de fevereiro de 2026
      Avatar de Pedro Paulo

      Obrigado pela leitura, Gustavo!

      Você faz algumas perguntas que remetem ao momento em que uma existência mais coletiva se perdeu. Bem, estudando História fica a impressão essa individualização extrema é um processo de uns duzentos anos, mas que, por outro lado, consiste em uma renovação de um discurso que fragiliza qualquer tentativa de uma sociedade mais baseada em laços de solidariedade e cuidado mútuo… e nós todos no meio disso.

  4. Priscila Pereira
    31 de janeiro de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, PP! Tudo bem?

    Gostei muito da sua crônica! Bom saber que ainda existem pessoas boas no mundo, mesmo que isso nos surpreenda, quando olhamos para o próximo, mas não quando olhamos para nós mesmos.

    • Pedro Paulo
      18 de fevereiro de 2026
      Avatar de Pedro Paulo

      Oi, Priscila!

      Pois é. Amar ao próximo é uma premissa muito simples e pouco praticada, eu diria.

  5. Leila Patrícia
    22 de janeiro de 2026
    Avatar de Leila Patrícia

    Gostei muito! Bravo!

  6. Leila Patrícia
    22 de janeiro de 2026
    Avatar de Leila Patrícia

    Oi, Pedro Paulo

    Lendo sua crônica, logo no inicio, fiquei com a sensação de que o texto não fala do conserto, mas do embaraço. Do tipo de embaraço que sentimos quando alguém faz alguma coisa simples e justa e a gente não sabe onde encaixar aquilo. O faz-tudo aparece rápido, resolve, vai embora, e o gesto fica fazendo barulho depois, pingando na memória. A insistência dele em pagar, o incômodo com a recusa, uma necessidade quase automática de transformar cuidado em troca… é muito reconhecível. E isso é tão estranho pra gente que a lembrança volta quando não devia, cruza com o discurso da “mentalidade” e escancara o contraste. No fim, não parece uma história pra ensinar nada, mas para admitir uma coisa difícil: às vezes alguém ajuda “porque sim”, e é isso que desestabiliza. E talvez o mais lúcido seja aceitar que, na atualidade, essa conta não fecha.

    • Pedro Paulo
      18 de fevereiro de 2026
      Avatar de Pedro Paulo

      De fato, é uma história de admissão. Acho que a maior parte do mundo impõe um certo cinismo e deixa qualquer ação mais comunitária “porque sim” mais improvável… questionável. Mas aí que tá, praticar também não requer explicação quando o motivo é “porque sim”. E isso basta.

      Obrigado pelo comentário, Leila!

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Publicado às 22 de janeiro de 2026 por em Crônicas e marcado .