Dizem que ninguém entende a alma humana melhor do que os escritores russos. No caso de Dostoiévski, isso parece ser especialmente verdade. Pensar que o autor esteve à beira de ser executado por um pelotão de fuzilamento ajuda a compreender os motivos de sua visão clara dos labirintos de nossos sentidos.
Em “Noites Brancas”, novela escrita ainda no início de sua carreira, é possível perceber essa qualidade. Nele temos um narrador em primeira pessoa — alguém de quem jamais saberemos o nome — que se define como um sonhador, quase um misantropo, alguém que admira a São Petersburgo em que vive, mas que se mantém afastado das demais pessoas. É um homem que faz caminhadas, que reconhece os rostos daqueles que cruzam o seu caminho, mas que, orgulhosamente, evita qualquer interação.
Até a noite em que observa ao longe uma jovem solitária, em discreto desassossego. Súbito, nota que ela será atacada por um andarilho e por isso intervém a tempo de salvá-la, espantando o sujeito inoportuno. Inevitavelmente, o narrador e a jovem começam a conversar. Ela diz chamar-se Nástienhka e se mostra encantadora em seu modo de falar. O protagonista termina se entusiasmando com a presença dela, como aliás acontece com qualquer pessoa que se vê subitamente enfeitiçada pela beleza, pela fragilidade, e pelas infinitas possibilidades de um encontro fortuito.
Essa é a primeira noite.
Depois de conversarem, combinam de se encontrar nas noites seguintes. É quando ele conta a ela quem ele é, abrindo sua alma de sonhador num longo mergulho psicológico – esse é, aliás, o ponto mais desafiador da narração, já que exige do leitor uma dedicada atenção às idas e vindas do personagem, seus medos, seus anseios e suas justificativas para cultivar a solitude.
Nástienhka, porém, está interessada. Ouve tudo o que ele tem para dizer, faz comentários, pergunta, questiona e ele, certamente extasiado, sente-se feliz com o interesse dela. Até que chega a hora de retribuir, de ouvir o que ela tem a dizer, se saber quem ela é verdadeiramente. Aí a obra ganha tração, já que é pelos olhos dela, ou melhor, por suas palavras, gestos, defeitos e qualidades, que nos identificamos enquanto pessoas. Seguimos sua história com apreensão, compreendendo suas agruras e suas esperanças.
Vive ela com uma tia de certa idade que, para fazer um pouco de dinheiro, aluga um quarto na pequena casa em que vivem. Diz que terminou por se apaixonar por um dos inquilinos, que lhe correspondeu o sentimento. No momento decisivo, porém, ele admitiu que não poderiam se casar, pois estaria seguindo para Moscou, para conseguir emprego. Ante à tristeza da jovem, o rapaz jurou que tão logo conseguisse uma posição, voltaria para buscá-la.
Por fim, diz ela, na noite em que o protagonista sonhador e ela se encontraram, tinha sido ela informada que o rapaz, de quem tampouco saberemos o nome, havia retornado a São Petersburgo – sem, contudo, procurá-la. E então diz, resignada, que seu único consolo é ter o sonhador como amigo, bendizendo a sorte de ele não ter-se apaixonado por ela.
Com a alma em tormento, o narrador põe-se a amparar Nástienhka, sugerindo motivos para o rapaz não a ter procurado ainda. Intimamente, ele, o sonhador, admite amar a jovem, mas se vê incapaz de confessar seus sentimentos. Ainda assim mantém-se, noite após noite, em leal companhia, dizendo a ela que não perca a esperança, que o tal rapaz irá procurá-la eventualmente, mas desejando, em seu íntimo, que isso não ocorre e que Nástienhka perceba que ele, o sonhador, é que é digno, que ele é que não lhe há de faltar, que ele é quem a compreende, que ele é quem a merece.
É nessa dualidade, ou melhor, nessa multiplicidade de sentimentos, que se alternam entre a devoção, as incertezas, as resignações e a percepção de um amor im(possível) que reside a mágica de Dostoiévski. Entramos na mente do sonhador, torcendo por ele, ansiando que Nástienhka compreenda o óbvio, que esqueça o sujeito que a abandonou, que caia na real, que o cara que a merece é ele, o sonhador. Queremos que o mundo seja justo, afinal de contas.
Mas, oh, triste constatação, o mundo não é justo. Ou será que pode ser? Só desta vez… Só desta…
A prosa de Dostoievski prende o leitor até o fim. No fundo de nossas mentes, apesar da atenção exigida e do desespero em saber como tudo se resolverá, pensamos em como esse enredo foi reciclado um milhão de vezes no cinema, no teatro, na TV e mesmo em outros livros, contos, poemas, enfim, tudo o que se pode imaginar. O difícil, talvez até muito difícil, é ser tão competente como Dostoiévski ao falar de algo tão dolorosamente mundano.
No fim, não ache estranho se você for invadido por uma sensação familiar, como se o escritor russo tivesse se apossado de um capítulo da tua vida, leitor, apenas adaptando para o contexto russo do meio do século XIX. De fato, há momentos em que esse reflexo se mostra evidente; ver a própria imagem no espelho pode ser revelador.
Vale cada segundo.
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