
Uma revoada de capelos tomou conta do anfiteatro.
Formandos sorriam, se abraçavam, tiravam selfies e mais selfies, recebiam congratulações efusivas de pais que respiravam aliviados com o tão enganoso quanto doce vislumbre dos filhos e filhas finalmente estarem encaminhados na vida (e ainda mais aliviados pelo fim das mensalidades), despediam-se, lágrimas a cântaros como se estivessem partindo para a guerra ou sendo eliminados de um reality show e, acima de todos os timbres e de todas as juras de amizade eterna e manutenção de contato, planejavam onde seria a comemoração, a bebedeira final, a saideira das saideiras. Eu, há muito incomodado com a beca, só observava a tudo, como sempre costumava fazer, sentindo-me mais espectador, um voyeur abençoado com o dom da invisibilidade, do que parte integrante da festa.
Então eu vi Beatriz.
Enquanto os chapéus quadrados sofriam o efeito da gravidade, eu fui atraído para aquele sorriso, como um planeta errante é atraído por uma estrela primeva brilhando na infinitude do espaço-tempo. Enquanto meus colegas falavam sobre álcool, garotas com pouca roupa e muito silicone deslizando em balizas e futilidades afins, eu tentava calcular as probabilidades de ter passado cinco anos sem ter notado que Deus, o acaso, ou seja lá qual for a entidade que joga seus dados universo afora, havia encontrado a combinação de moléculas de carbono perfeita e esse ápice da criação, essa sequência improvável de acertos em um ciclo eterno de tentativas e erros, estava bem ali, ao meu lado, subindo as mesmas escadas e caminhando apressada pelos mesmos corredores.
— Oi. Você tá legal?
Despertei do transe com a musa inspiradora dos meus devaneios improváveis fazendo “tchauzinho” a um palmo do meu nariz.
— Oi… estou… estou, sim. Por quê?
— Não, é que, tipo, eu vi que você tava me olhando e achei fofo. Mas daí você ficou travado, nem piscava. Daí eu fiquei tipo “ai, meu Deus, é um psicopata. Não, putz, o menino tá passando mal. Vou lá ver se ele tá bem. Ai, mas e se ele for um psicopata? Não, nada a ver, vai lá, Beatriz.” Sabe, tipo os “Divertidamente” em conflito na cabeça? Bom, acabei vindo. Prazer, Beatriz. ‘Cê não é psicopata, né?
— Segundo o Google, é bem provável que eu tenha um grau muito leve de autismo. Além de uns doze tipos de câncer. Mas de psicopatia ele não falou nada, não. Prazer, Pedro.
Ela sorriu. E, pela primeira vez desde meus anos mais jovens e vulneráveis, senti que estava exatamente onde deveria estar, na época certa, no planeta certo.
— Qual foi o seu curso? – fiz a pergunta protocolar.
— Ciências contábeis. Eu tava no campus do interior, me transferi no último semestre praticamente. Longa história – Beatriz arqueou as sobrancelhas em direção à família, que a observava de longe. – Eu tinha te visto uma vez, na aula de Educação Física. Dei umas encaradas e tal, mas você nem “tchun”.
— Droga, maldito hiper foco…
— Ah, desencana. Tudo acontece no tempo certo, eu acredito muito nisso – ela falou, fazendo um sinal de “espera” para os pais. – Mas, e aí, se formando em quê? Direito? Você tem cara de advogado.
— Não, pior… Engenharia. Química.
— Por que “pior”?
— Eu vim pra cá de Uber. Quando me deixou ali na frente o motorista falou: “pô, que legal, me formei em Engenharia aí também. Bons tempos!”
— Ai, besta! – ela me deu um tapa no braço. – Mas tá meio saturado mesmo, né?
— É, acho que tudo tá saturado. Espero conseguir ser efetivado no estágio, senão estou na roça. Literalmente, talvez.
— Onde que você tá fazendo estágio?
— Na AEB. Agência Espacial Brasileira. Ninguém conhece pela sigla. Aliás, ninguém conhece por nada.
— Meu, como assim? Que legal isso! É tipo uma NASA, então?
— De baixo orçamento…
— Ah, tipo uma NASA da Shopee.
— É, eu não definiria melhor – concordei, cedendo a uma boa gargalhada.
— Putz, a gente tem que continuar essa conv… TÔ INDO, PAI, CALMA… Vou lá, minha família tá surtando. Beijo, astronauta.
***
Trocamos telefones e, não muito tempo depois, alianças. Houve certa resistência familiar sobre o casamento precoce de dois recém-formados ainda engatinhando nos caminhos da vida. Minha efetivação na AEB, no entanto, trouxe a perspectiva de um futuro com benesses e estabilidades militares, o que dissipou receios e consolidou certezas. Eu estava no emprego que sonhei em “ser quando crescer”, casado com a mulher mais linda da galáxia, com uma estadia na estação espacial ganhando cada vez mais força no meu horizonte de eventos. Naquele recorte da minha história, todos os alertas que recebera a respeito das dificuldades da vida afiguravam-se como exageros pessimistas de oráculos amargurados.
“Eu leio os manuais de instrução”, era o que respondia, com simplicidade sincera, quando, nos churrascos de família, era questionado sobre o segredo do sucesso.
Quanto mais perto da perfeição, porém, mais as máculas saltam aos olhos, mais até mesmo as menores decepções ganham contornos de problemas irremediáveis e por mais que tentemos voltar a focar na beleza do quadro completo, as manchas não permitem que nos concentremos em mais nada depois que temos o infortúnio de percebê-las. Mesmo preenchendo todos os requisitos, físicos, técnicos, psicotécnicos, sanguíneos, éticos, genéticos, nunca chegava minha vez de ir à estação espacial e mesmo com a dádiva de viver um amor correspondido no ápice da juventude e da boa forma sendo expressa em noites que, se registradas em gravuras indianas, renderiam material para mais alguns volumes do Kama Sutra, as condições da concepção não ocorriam.
Essa última questão impactava mais a Beatriz do que a mim. Nesse ponto, eu concordava com os oráculos amargurados: “é muito cedo pra ter filho.” O fracasso, no entanto, me incomodava. A frustração de Beatriz a cada teste que não exibia o número de listras desejado, me incomodava. Mesmo com todos os exames mostrando que estava tudo certo, mesmo “seguindo o manual”, o resultado não era satisfatório. E isso me incomodava acima de todas as coisas, pois abalava minhas convicções sobre como viver.
Quando esse assunto monopolizava meus pensamentos e tudo que eu queria era terminar logo o serviço burocrático, voltar para casa e tentar de novo, não mais pelo prazer, agora somente pela obsessão, fui chamado para uma reunião urgente.
***
Na sala estavam dois homens de alta patente nas forças armadas brasileiras, meu diretor (o único que me era familiar ali) e um velho sem qualquer perfil militar, mas a quem os demais, visivelmente nervosos com aquela presença, obedeciam.
— Pedro, certo? Sobre essa pedra, edificarei minha igreja! – o velho quebrou o gelo do modo mais bizarro possível, em um português quase sem sotaque. – O que você achou de não ter sido selecionado na última escala para a estação espacial, filho?
Meu diretor, sem mover a cabeça, me lançou um olhar de “olha lá o que você vai responder…”
— Não entendi os critérios, senhor. Todos os números indicavam que eu era o mais qualificado.
— Você era! Na verdade, você era qualificado demais para a estação espacial. Por isso você não foi. – Ele se divertiu com a interrogação no meu semblante, então prosseguiu: – Às vezes nós precisamos guardar umas cartas na manga, filho. Quase nunca essas cartas são usadas e isso invariavelmente acaba em frustrações e garrafas de whisky vazias, mas… é a vida. Às vezes, porém, surge a necessidade e, com ela, a oportunidade.
— Vocês vão me mandar para a Lua? – o garoto que sonhava ser astronauta não conseguiu conter a ansiedade.
— Eu não estaria aqui se fosse só isso, filho…
— Marte? – gaguejei.
— Um pouco mais longe – ele fez uma pausa, transparecendo alguma preocupação pela primeira vez. – Nós temos um problema no inferno, meu caro Peter. Nós temos uma missão em Io.
Minha primeira reação foi pensar que aquilo era um tipo de pegadinha, um teste final ou algo assim. Mas gotas de suor escorriam nas testas, línguas umedeciam lábios secos, um senso de urgência permeava o ar. Era verdade. O garoto que sonhava ser astronauta ficou com medo, mas não recuou:
— Quanto tempo de missão, senhor?
— Dezesseis anos e uma semana, filho. Oito anos para ir, no máximo uma semana lá e, se tudo correr bem no meio de todos aqueles vulcões, oito anos para voltar.
— Qual o objetivo?
— Isso você só vai saber quando entrar na órbita de Júpiter. Vá para casa, se despeça de sua bela esposa, durma bem e volte amanhã cedo. Nós cuidaremos de tudo aqui para você, fique tranquilo. É a oportunidade de uma vida, filho… mas se você declinar, vamos entender. E essa conversa nunca terá acontecido.
***
Cheguei em casa, atordoado. Como assim havia tecnologia para enviar uma missão tripulada a um satélite de Júpiter? Por que eu? Qual seria essa missão? Quais as chances de voltar? Mesmo voltando… dezesseis anos? Como Beatriz reagiria se eu fosse? Como eu viveria com o fantasma da oportunidade perdida me assombrando se decidisse ficar?
Antes que pudesse compartilhar esses dilemas, Beatriz veio correndo em minha direção, sorrindo como há muito não sorria. Em suas mãos, as duas linhas no visor do exame indicavam que minha decisão seria ainda mais difícil.
***
Voltei para casa totalmente atordoado. Que havia tecnologia para o envio de uma missão tripulada a Júpiter, isto era mais do que sabido entre nós. Muito mais complicado e arriscado era explorar Io. Então, os homens do andar de cima não tinham me mandado para a Estação Espacial porque eu estava acima do perfil? Faz bem ao ego saber que se é uma espécie de coringa. A carta guardada para ser usada na hora mais difícil. O momento havia surgido e não é que lá vai Pedrão para altos voos?
Que missão seria esta? E o mais importante: de zero a dez, quais seriam as reais chances de sucesso na empreitada? Questão fundamental, pois que o fracasso significava que a “velha da foice” havia levado mais um. E isto sem ainda ter considerado que mesmo voltando seriam dezesseis anos de viagem. Apesar de não dito, tudo levava a crer que seria uma missão solo. Estaria 5.848 dias encapsulado e sozinho.
E a reação de Bia? Envolto na consideração de tanta coisa, ainda não tinha chegado nesse ponto. Acostumada a ver missões de curta e média duração, geralmente de 3 meses a 1 ano na Estação, eu iria lhe contar que estaria fora nada menos que 16 anos. Antes que pudesse compartilhar com ela esses dilemas, Beatriz veio correndo em minha direção. Sabem o que é um sorriso em estado puro? Pois é, essa era ela, tão linda, naquele momento. Não disse uma palavra, as mãos me gritavam mostrando as duas linhas no visor do exame.
Pendurou-se em mim com toda a força do mundo e chorava de alegria. Por mais que tentasse corresponder meu corpo não conseguia relaxar. Mantinha-me todo duro e lógico que Beatriz sentiu que a resposta ao seu abraço era rija e fria, distante como Terra e Lua do seu entusiasmo.
– O que foi? Parece que mudou de ideia e não deseja mais um filho.
– Nossa, meu amor. Não fale assim. Claro que quero demais nossa criança.
– Eu sei, Pedro, que se fosse só por você a gente adiaria mais uma vez esse propósito. Você acha que não reparo se tratar muito mais do meu sonho do que de nosso sonho? Por você a gente adiaria essa gravidez até a hora em que for escalado pra essa maldita estação espacial e voltar dela.
– Lá vem você de novo com essa história de que só penso na minha carreira.
– E não é a mais pura verdade?
– Meu bem, já falamos disso tantas vezes…
– Pois é, demorei, mas enfim caí na real. Estou sempre em segundo plano, a amante que viaja no porão da sua nave.
– Amor, não vou negar. É claro que se trata do meu grande sonho, mas isto jamais poderá impedir que a gente tenha, em paralelo, o grande sonho do nosso filho.
E nessa hora o choro que era de alegria mudou de rota. Tentei segurá-la, mas Bia foi deslizando em meus braços até se desmanchar aos meus pés. E eu ali, ridiculamente com os braços abertos como se ela fosse atender a algum comando que acionasse uma mola e pudesse abraçá-la novamente.
Sempre fui organizado, tenho à mão os planejamentos de tudo bem afiados. Já disse que gosto de ter algo programado a que seguir. Não sei como tem gente que vive sem o “manual de instruções”, mas de surpresa, reparo que as regras para aquela hora estavam numa língua que não domino. O maldito mandarim das emoções. Vivia um turbilhão com a cabeça e o coração se misturando, rodando loucos, se enrolando e se separando mil vezes a cada segundo e nada para me ajudar. A mais exigente prova vivida na AEB era fichinha perto do que experimentei naqueles minutos.
***
Entro em casa pronto para desarmar a bomba de 200 quilos e outra, ainda mais pesada, potente e complexa me é lançada no colo. Câmbio total, definitivamente, não dava para tratar de Io. Fazer o que não sabia: cuidar das emoções de Beatriz saltou à frente, tornara-se a minha nova prioridade. Respirei fundo, me refiz e sentei no chão abraçando-a. Por não ter aquele maldito manual para a situação, permaneci calado, só acariciando seus cabelos e o rosto molhado. Acertei! Qualquer coisa que tivesse feito diferente teria causado a explosão. Passado um tempo que me pareceu uma eternidade, mas que não deve ter durado cinco minutos, sussurrei no seu ouvido:
– Amor, lembra-se do vinho comprado naquela oferta do supermercado pra ser dado de presente ao seu pai? Pois é, depois a gente vê outra coisa pra ele.
Deu certo. Beatriz me beijou e nos levantamos. A noite se fez saborosa. Acordei apavorado com o pesadelo. A nave seguia rumo a Júpiter quando nos deparamos com densa nuvem de micrometeoros. Bilhões, trilhões, infinitos grãos que pareciam de areia a bater em altíssima velocidade na carcaça da cápsula. Provocavam um chiado fortíssimo como se milhares de pasteis estivessem sendo feitos numa frigideira do tamanho do Maracanã. Até quando a fuselagem resistiria? Busco contato com a Terra e há problemas. Não conseguem me escutar e o que vem de lá chega picotado.
Enquanto a nuvem se tornava cada vez mais densa, o chiado ia diminuindo e a sensação agora era de um mergulho no escuro. A nuvem de poeira cósmica se liquefazia. Os instrumentos indicavam perda séria de velocidade. No que lá da base tentavam me dizer, o que consegui entender foi que o parto tinha sido adiantado e me parabenizavam pelo nascimento da nossa filha. Antes que viesse o silêncio a frase final falava algo de Beatriz. Quando consegui dormir a noite já ia embora. Ao despertar novamente o sol estava alto e o rosto desconfiado de Bia pairava poucos centímetros acima do meu.
– Caramba, perdemos a hora. Estou atrasado.
– Pedrinho, meu bem, esqueça um pouquinho o mundo lá fora. E imagino que você estava achando que o vinho me tenha feito esquecer de que você chegou ontem bem estranho da Agência. O que está acontecendo?
O mundo real tinha voltado. Io, mesmo tão longe, se fez mais visível do que a nossa Lua cheia. Trazia em seu retorno o tanto de implicações que minha decisão iria acarretar.
– Puxa, tive um pesadelo horrível. Viajava pelo espaço e a nave se enfiava numa imensa nuvem de pequeninos meteoros que iam se tornando líquidos. Mas nem tudo era desgraça no sonho, na parte boa o nosso neném tinha nascido. E por falar nisso, pode encomendar o enxoval rosa.
– Ah, seu sonho está enganado. Tenho certeza que carrego aqui dentro um garotão.
– Será uma menina. O sonho me garantiu.
***
Desde que saí daquela sala a decisão estava tomada. Não havia a menor dúvida de que voaria até Io. O primeiro ser humano a visitar o inferno e de lá retornar. Sim, sei disso, a gravidez trazia em seu bojo um complicador imenso, iria ver minha filha – ou seria o garoto? – já adolescendo… Minha linda Beatriz dezesseis anos mais velha. Mas não seria uma viagem daquelas como nos tempos dos Descobrimentos, quando após se lançar ao mar as linhas eram cortadas. Teria encontros virtuais diários com Bia e a criança. Iria vê-la crescer, a escutaria falar papai, mais um tempo e iria ajudá-la nas tarefas escolares e, um tanto mais e precisaria pedir à base uma maior privacidade para poder escutar suas confidências.
– Vamos, meu amor, menina, ou menino, agora não importa. O que houve? Você não está achando que conseguirá me enganar, não é? Nosso bebê está bem guardadinho e protegido na minha barriga. Agora, quem está precisando ser cuidado é você e, pra fazer isto, é necessário saber o que está acontecendo com o papai mais novinho da área.
Beatriz me facilitava as coisas, me ajudava a dizer tudo. E iria lhe contar mesmo sabendo do seu desespero depois de buscar informações sobre Io na Internet e ficar sabendo dos riscos de se viajar para uma missão dessas num satélite violento, cheio de vulcões ativos, com uma atmosfera de dióxido de enxofre e isto além dos vestígios de outros gases.
– Meu bem, sim, você tem razão, estou diferente. Desde ontem bastante excitado. Veja que maravilha de surpresa me aconteceu ontem de tarde. Até que enfim irei voar. Fui designado para uma missão muito importante no espaço. Um desafio fantástico. Agora já posso dizer que sou um astronauta. Sabe, irei visitar Io, o ainda pouco conhecido satélite de Júpiter. A gente nem é capaz de imaginar a grandeza disso.
– O quê? Nem quero imaginar que o meu marido está pensando em me deixar sozinha durante a gravidez do nosso primeiro filho…
***
Quando abri os olhos depois do criossono, Io brilhava na tela de status da câmara de hibernação da espaçonave Hárpia como um pequeno círculo laranja contra o colossal disco revolto de Júpiter, que tomava todo o fundo da imagem. Dentre as luas galileanas era Io a que tinha a órbita mais interna, correndo todo o tempo dentro do cinturão radioativo e tendo suas entranhas reviradas pela massacrante gravidade do planeta tão próximo. Uma centena de vulcões expeliam lava a 150 km de altura, e correntes elétricas fortíssimas geravam descargas que cruzavam o vácuo entre a lua e o planeta como os polos de uma bobina Tesla. Não era, em definitivo, o lugar mais aprazível do sistema solar.
Meu sono fora como uma “pequena morte”, um apagão sem sonhos ou sensações. Mesmo agora, já acordado há quase uma hora, me sentia entorpecido enquanto a temperatura do meu corpo subia, enquanto as batidas do coração galgavam à frequência normal.
“Eu fui traído” – foi um dos meus primeiros pensamentos coerentes. Não houve despertares intermediários como prometido, mas apenas aquele, era o que se concluía ao se ler a data de bordo: passaram-se 8 anos. Isso não estava em meu manual de instruções.
Minha filha – eu e Bia havíamos decidido pelo nome “Júlia” – não pôde conversar com seu pai uma vez sequer. Há uma Júlia na Terra e ela e eu somos completos estranhos… E Bia? O que deve estar pensando a meu respeito? Que depois de todas as minhas promessas havia resolvido dar-lhe às costas? Maldita AEB! Malditos, malditos!
Quando a estimulação elétrica terminou de acordar meus músculos, levantei-me lentamente, apesar da gravidade de ¾ G gerada pela rotação da nave. Finalmente, então, tive acesso ao painel principal da nave. Seriam precisos 33 minutos para uma comunicação via rádio alcançar a Terra e o mesmo tempo para a resposta retornar. Contudo, na tela piscava uma mensagem suavemente, exigindo que eu autorizasse a reprodução de algo pré-gravado ou recebido durante meu período de sono.
— Oi, Pedrinho — o rosto me tomou de surpresa: era Beatriz! Ela não mudara nada, não envelhecera um dia. Como pôde? — Sou um avatar de I.A. criado pela AEB e serei seu contato durante a missão. Eu comando a nave, já que as comunicações não são possíveis em tempo hábil. Aconteceram coisas, coisas incríveis desde sua saída da Terra. Desde a descoberta do Marco em Io, uma nova corrida espacial secreta se iniciou.
— Onde está a Bia? Cadê ela? Que palhaçada é essa de criar um avatar usando a imagem de minha esposa?
— Simulações mostraram que você estaria mais confortável e obediente à imagem de sua mulher — ela comentou, com quase um sorriso em seus lábios digitais. — Darei acesso a todas as fotos e vídeos que sua família lhe enviou. No momento, por questões de sigilo, todos os canais de comunicação com a Terra precisam estar fechados.
“Beatriz” continuou a falar, revelou que Bia e Júlia estavam sob a proteção da AEB – o que de certa forma significava que elas eram quase reféns, uma forma de garantir que eu cumprisse minha missão. Ela ainda revelou que a razão de eu ter sido escolhido foi principalmente por ter uma mutação em meu DNA que me tornava mais adequado ao processo de hibernação. Uma missão chinesa havia falhado há cerca de um ano, justamente porque seus três tripulantes morreram durante o criossono. Menos despertares, menos riscos de morte ou complicações.
— Há dez anos a sonda chinesa Zheng He em missão no sistema joviano identificou uma estrutura suspeita na superfície de Io. Tentaram guardar segredo, mas algum dissidente vazou a informação, prontamente descredenciada, no entanto, por todas as autoridades científicas mundiais e tachada de teoria da conspiração pelos governos. Há algo como um prédio com vários andares, cada andar na forma de um polígono diferente, como se quisesse gritar que era algo não natural. Os chineses o chamaram de “Marco”.
A imagem de uma construção alva e lisa como plástico – a base triangular sobreposta por outro andar quadrado, sobreposto por outro andar pentagonal e outro hexagonal – surgiu na tela. “Beatriz” informou que a cada seis órbitas ionianas, por três horas e 23 minutos Io cruzava um ponto no cinturão radioativo quando as descargas elétricas cruzavam o espaço e quando as forças de maré atingiam seu pico. Tais forças em conjunto faziam o Marco desaparecer e ressurgir, intermitentemente, oscilando no contínuo espaço-tempo.
— Sua missão, Pedro, é descer até o Marco usando o módulo de pouso Carcará e…
— O quê?
— Descer até…
— O nome do módulo é Carcará?!
“Bia” parecia irritada. — Os americanos já tiveram uma Eagle e ninguém achou graça! Carcarás são belas aves também… Podemos continuar com os detalhes da missão?
***
Passei os dois próximos dias quase sem dormir, vendo e revendo vídeos. Júlia era encantadora: tinha meus olhos, cabelos castanhos muito lisos e o mesmo sorriso da mãe, embora meio desdentado na altura da gravação do vídeo mais recente. Falava e falava sobre foguetes e planetas com uma paixão quase preocupante. Já Bia, soava saudosa e ganhara alguns cabelos brancos, mas nunca me pareceu mais linda. Eu praticamente não envelhecera durante meu sono, o que seria um bocado inconveniente quando – se – eu retornasse. Era doloroso escutar tantas coisas, partilhar tantos sentimentos. Quase tive um meltdown por isso, mas “Bia” detectou tal situação e me recomendou um medicamento que me relaxou e me pôs a dormir.
No dia seguinte, Io crescera nas muitas telas da Hárpia, seu disco lembrava uma pizza de muçarela com queijo derretido demais. Instrumentos de bordo permitiram-me ampliar detalhes da superfície: lagos de lava azulada, neve de dióxido de enxofre, plumas de vulcões em erupção e cristais amarelos de sais de enxofre, por todo lado… Já o Marco, ele parecia intocável. Deveria já ter sido queimado, congelado, irradiado e eletrocutado, mas jazia ali, impávido colosso, fúlgido florão de Io.
— A próxima janela de descida acontecerá em três dias. Estou iniciando meus procedimentos de frenagem usando a gravidade joviana. Você descerá no meio da a rampa de acesso do Marco, essa via ascendente de quase 10 km. Eu guiarei e evitarei que o módulo atravesse campos muito radioativos, relâmpagos ou espaços passíveis de erupções. Você tem que retornar ao módulo em no máximo três horas. Uma vez dentro do Marco, tente trazer qualquer artefato que você consiga carregar. As câmeras de seu capacete transmitirão tudo até mim.
***
O módulo Carcará pousou com suavidade impressionante. A atmosfera quase inexistente não podia causar turbulências e “Bia” fez um trabalho exemplar ao desviar de tantos perigos. Saí, e quando olhei para o céu tive uma vertigem, pois Júpiter ocupava quase todo o firmamento com seus redemoinhos de Van Gogh, contrastando do pouco céu restante. Tentei então direcionar meu olhar quase sempre para baixo, para evitar problemas.
O traje indicava temperatura externa de -27° C, confortável, considerando os extremos de Io. O indicador de radiação, por outro lado, mostrava valores tão absurdos que eu tinha que creditar ao meu campo magnético protetor minha mera existência em tal ambiente hostil. À minha frente, conforme eu caminhava lentamente pela rampa surpreendentemente limpa de pó ou rochas, o Marco crescia com sua brancura cegante.
Um arco sem portões, com uns 20 metros de altura me recebeu quando eu finalmente alcancei a entrada do prédio. Lá dentro, inscrições pelas paredes, em caracteres desconhecidos, que os cientistas e IAs teriam o gosto de tentar decifrarem nos anos por vir. No meio do grande salão praticamente vazio, havia um pedestal. Aproximei-me e notei um prisma heptagonal e cristalino no seu topo. Pensei que seria óbvio trazer o prisma para casa, “Bia” concordou pelo rádio. Quando o toquei, o prédio e eu, começamos a “sair de fase”, uma sensação de formigamento e de frio fez-me cair de joelhos. O teto triangular da base do Marco começou a exibir muitas cenas rápidas. Reconheci-me nas imagens, eram como fotografias de momentos importantes da minha vida. Mas, de certa forma, tais imagens estavam erradas.
Eu conheceria outra moça no dia de minha formatura e ela seria descendente de japoneses. Casaríamos anos depois e teríamos um menino. Fui selecionado para uma missão à Estação Espacial e fui uns dos pioneiros na construção da Base Lunar da AEB, a Tatuí. Mas também fui escolhido para alguma missão em espaço profundo que acabou mal sucedida, e dormiria para sempre, perdido no meio do Cinturão de Asteroides, sonhando, sonhando, enquanto a nave pudesse me manter vivo: uma batida de coração por minuto, um sopro de ar por minuto.
O prédio voltou ao estado normal, eu agarrei o prisma e então apressei-me em voltar ao módulo. O chão tremeu fortemente. Do lado de fora do prédio, longe, muito distante, uma erupção projetou uma pluma de lava azul, como os capelos de minha formatura, desenhando uma trajetória idêntica à que eu me recordava. E, enquanto eu corria o máximo que minha segurança me permitia, eu temi que eu também estivesse sonhando e perdido em outro lugar, longe para sempre de Bia e de Júlia.
Buenas!
Dessa vez farei uma avaliação mais pessoal, apontando o impacto do conto em mim.
Aqui está um conto que me deixou dividido. Achei o começo okey, trabalhando bem com a ideia principal do conto: o conflito do protagonista entre aceitar ou não uma missão que o distanciaria de sua família. O início da segunda parte me pegou desprevenido. A mudança do tom foi clara e a repetição da cena do protagonista chegando me distraiu um pouco. Mas logo engata. Mas a terceira parte me conquistou. Foi o ápice do conto. Criativo e intrigante. A cena no Marco ficou fantástica, principalmente seu conceito. Se o texto trabalhasse com questões de sci-fi desde o início, explorando a viagem com esse toque criativo que o terceiro autor conseguiu, certamente teria um grande destaque no desafio. A viagem a Io ficou muito no segundo plano, ganhando verdadeiro destaque no final.
Achei bem escrito, no geral, e foi uma leitura interessante.
Conto de ficção científica, viagens espaciais, temas que gosto bastante. Percebo que os autores estudaram sobre o tema e conseguiram mandar bem. O conto tem passagens bastantes emocionais, mas cortou o ponto principal, onde ele fala para esposa que vai ficar dezesseis anos fora de casa. Isso soaria quase como uma sentença de morte para uma jovem esposa grávida, imagino.
Não gostei da escolha da primeira pessoa para o conto.
O final ficou esquisito. Não entendi bem, mas o conto, como um todo, é muito bom.
Olá, Frankensteiners!
A parte inicial do conto está bem escrita. Gostei como a estória foi desenvolvida, apesar do encontro com a Bia até o casamento parecer muito rápido. Não estou falando para esticar o assunto, mas colocar mais camadas que transmitam ao leitor uma rotina e passagem do tempo desde a primeira conversa, algo mais substancial que a simplificação em “Trocamos telefones e, não muito tempo depois, alianças”. O dilema do personagem é interessante: ter que escolher entre a vida de astronauta e passar 16 anos longe da família, e ficar perto da esposa para ver os filhos crescerem.
“Vá para casa, se despeça de sua bela esposa, durma bem e volte amanhã cedo”, nem quando eu sou impulsivo demais e compro passagem para São Paulo, eu tenho uma viagem para a manhã seguinte. Tive certa estranheza com essa rapidez toda.
Um capítulo começa “Cheguei em casa, atordoado”, e no próximo temos “Voltei para casa totalmente atordoado”. Calma, não é só isso. Também há essa repetição em “Como Beatriz reagiria se eu fosse?” e “E a reação de Bia?”. “Como assim havia tecnologia para enviar uma missão tripulada a um satélite de Júpiter?” e uma pequena contradição em “Que havia tecnologia para o envio de uma missão tripulada a Júpiter, isto era mais do que sabido entre nós”. Afinal, sabia ou não sabia? Talvez seja minha falha de interpretação.
Ficou muito desconexa porque pareceu que o conto ficou travado em muitos parágrafos que não tinham função nenhuma. Ficou prolixo. Desculpe, segundo autor. O conto parece engatar até o final, mas está quebra atrapalhou bastante. Parabéns pelo Frankenstein! Boa sorte!
De repente, o que caminhava bem, começou a apresentar oscilações e falhas e “saiu de fase”, assim como quando Pedro tocou no prisma de Marco.
Uma pena o final apressado, pois tudo corria bem. Texto interessante, bom entretenimento, descrições e cenários convincentes, até por conta de sua proximidade com a “realidade”. Deixou um gosto de frustração.
Houve alguns erros ortográficos e de concordância, porém, nada muito significativo, que uma boa revisão não pudesse corrigir.
O primeiro e o segundo autor mandaram bem. O segundo autor emulou bem o estilo e a passagem foi quase imperceptível. Já o terceiro autor, começou bem, mas, rapidamente, talvez pela pressão de ter que encontrar um final plausível, espanou.
Parabéns pela participação no desafio. Boa sorte!
Um conto interessante, com algumas reviravoltas que se deram mais pelo estilo e visão dos autores do que pela história em si e, sim, é perceptível a troca dos autores durante o texto, tanto pelo estilo como pelo ritmo da história.
Gostei do início do conto, uma perspectiva do protagonista sobre o que estava acontecendo enquanto os diálogos fluíam dentro do texto. A contextualização no tempo que ficou um pouco confusa, pois ao mesmo tempo em que fala-se de estações espaciais cita-se a Shopee. Mas OK, estamos falando de ficção cientifica, afinal aqui o Brasil tem um programa espacial. Chegamos a um ponto interessante da história e uma decisão que pode mudar uma vida, uma pedra sólida na qual o conto pode continuar. Daí na troca já temos alguns deslises que basta olharmos o parágrafo acima para ver que há visões diferentes. Em um momento ele fica surpreso de termos tecnologia para mandar alguém a um satélite de Jupiter e em seguida diz que para Jupiter já tinha. (Chegou lá, onde vai pousar é detalhe)
Parece que há um passo para trás antes de se continuar a história. Beatriz vira Bia de uma hora para outra. A primeira parte foi narrada de uma forma muito pessoal e a segunda também, mas são pessoas diferentes. E então, na terceira parte, passamos a ter uma história 100% ficção cientifica com a viagem para Io propriamente dita, sendo a segunda parte praticamente ignorada. As decisões, o drama, a dúvida, são colocados meio que de lado e o foco passa a ser o Marco. E um final bem estilo 2001: Uma Odisseia no Espaço de Arthur C. Clarke.
Não desgostei do Conto, mas fiquei com a impressão de duas histórias presas em uma, como as imagens na caverna do Marco. Um conto poderia ter sido escrito focado apenas na questão moral sobre viajar ou não a Io e um outro com a ideia da viagem em si. A mistura não deu muito certo, talvez pela limitação de palavras.
🗒 Resumo: Pedro se forma em engenharia e conhece o amor da sua vida ao mesmo tempo que é efetivado na AEB, a NASA tupiniquin. Ele tinha dois desejos: embarcar para o espaço e ter um filho. Só que o destino é cruel e dá os dois ao mesmo tempo. Depois de muitos pensar, ele acaba indo e conhece Io, suas muitas possíveis vidas e um futuro incerto.
📜 Trama (⭐⭐⭐⭐▫): um início daqueles arrebatadores. Uma excelente apresentação de premissa e de personagens. Uma química muito bem escrita entre eles e um dilema logo disposto. Ocorre que veio a segunda parte, que começou com os mesmos pensamentos e dúvidas que o parágrafo anterior. Além de redundante, ficou até incoerente, pois os personagens mudaram de personalidade. Essa segunda parte rodou, rodou e não saiu do lugar, deixando para a conclusão a tarefa de narrar a ida para Io, com ótimas descrições e cenas bem cinematográficas. Dado o espaço, encerrou bem a trama. Mas Beatriz acabou abandonada tanto pelo autor quanto pelo Pedro.
📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): muitos pontos para o primeiro, que tem uma capacidade incrível de apresentar e conduzir a trama. O segundo não chegou a errar tanto na gramática, mais caiu um pouquinho na qualidade dos diálogos, que era o ponto alto até então. O último autor deve ser experiente com FC, pois mandou muito bem nas descrições com o pouco espaço que tinha.
▪ Voltei para casa totalmente atordoado. (De novo?)
▪ Acostumada a ver missões de curta e média duração, geralmente de 3 meses a 1 ano na Estação (Ele ainda não tinha conseguido ir para a estação)
🧵 Coesão (▫▫): o conto, apesar de suas qualidades, é um dos piores nesse quesito, pois como demonstrado acima, está bem clara a divisão dos três autores, tanto na técnica quanto na forma de conduzir a trama.
💡 Criatividade (⭐⭐▫): não é o ponto máximo do conto (lembra bastante Interestelar), mas também é bem boa no que faz de diferente.
🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫): saí com um gosto bom do conto, no final das contas, apesar da chuva de meteoro no meio do caminho. Parei, desviei, procastinei e voltei. O fim é lindo, imaginético, filosófico como 2001, mas, talvez pelo curto espaço, não me pegou. Estava esperando mais drama e me emocionar mais, mas não achei ruim o que recebi.
COMENTÁRIO: Há uma certa turbulência em seu segmento intermediário e a aterrissagem não é da mais estável, mas, perdão pelos trocadilhos, o conto funciona! A primeira autoria foi generosa em estabelecer um dilema que a autoria sucessora poderia levar para qualquer lado, direcionando Pedro a abraçar somente a sua carreira, ferindo a perfeição apresentada anteriormente em sua constelação familiar, ou a preferir a família à viagem, o que provavelmente daria em um texto mais dramático, voltado ao ressentimento e/ou à realização na terra ao invés de no céu… o caminho optado foi uma espécie de equilíbrio entre os dois rumos, com Pedro embarcando para Io com esposa e filha em mente. Quando mencionei a turbulência, referi-me justamente a um momento em que Pedro abraça a esposa com uma escolha e três asteriscos depois dá a entender que pensava em algo completamente diferente. Isso quebrou um pouco com as expectativas que o texto possibilitava alimentar até então, mas não prejudicou o restante da leitura. Aliás, as duas autorias seguintes souberam mimetizar o estilo da primeira autoria, reproduzindo na primeira pessoa um narrador racionalista, imaturo emocionalmente e confuso entre as tramas que o enredaram na nave. O bom-humor é outro traço bem reproduzido na história, com elementos cômicos bem inseridos, como foi o caso da reação dele com o nome da nave. Entretanto, embora a técnica esteja bem continuada, houve uma má-distribuição do enredo, pois o conto se encerra de forma quase abrupta, sugerindo que aquilo possa ser uma espécie de simulação, incluindo a vida pregressa de Pedro até ali. O propósito disso, entretanto, ficou para além das 4.500 palavras, em pelo menos três versões, como se os três autores, cada um com o seu propósito criativo, fossem o Marco.
Interessante e científico, bem envolvente. Achei coeso apesar do deslize da primeira para a segunda “marcha”. As semelhanças com 2001, ainda que apenas sugeridas, foram bem trabalhadas pelos autores/autoras. Os últimos podcasts sobre ciência que vi/ouvi, me deixaram bastante céticos em relação à seres humanos viajando pelo espaço em casulos criogênicos e por vários meses. A musculatura e a estrutura óssea não suporta, infelizmente. E esse ceticismo me fez ter certa aversão pelo tema.
Mas a parte mais interessante e que, na minha opinião, foi pouco explorada, foi o conflito. Uma estória com moldes parecidos, mas com a viagem relegada ao esquecimento e o conflito entre o sonho e a realidade escarafunchados, seria um belíssimo conto. Acho muito legal essa “fugida” que alguns autores daqui conseguem, em meio aos diálogos, ou à descrição da cena, levar o leitor para dentro da cabeça do protagonista e suas dúvidas e receios.
No mais, é um conto bem legal. Mas eu não daria as melhores notas (se estivesse no “certame”, óbvio).
Olá, autores! Tudo bem? Primeiramente, parabéns pela participação num desafio tão dificil e maluco quanto esse!
Início: um início muito bom, com personagens bem construídos (o Pedro e a Beatriz são muito bons, o casal é convincente), a construção da base do enredo é interessante e cria esse dilema sobre ir ou não a IO. Pedro tinha uma vida que considerava perfeita, mas tinha dois problemas que tiravam seu sono: não ser convocado pra ir pro espaço e não conseguir ter filho. Resolver os dois seria perfeito, né? Mas e se as duas coisas acontecessem ao mesmo tempo, e ele tivesse que “sacrificar” uma pela outra? Excelente conflito, uma situação paradoxal. Como os autores seguintes vão lidar com isso? Vale mencionar, também que os diálogos são ótimos e o humor é sutil e bem feito.
Meio: ué, o que aconteceu aqui? Do nada o trecho final da parte 1 parece se repetir, mas de forma estranha, pois contradiz o que foi dito anteriormente. A princípio, eu achei que isso fosse proposital, e o conto fosse iniciar algum tipo de distorção da realidade, como parte do enredo. Então isso me gerou certa curiosidade, mas rapidamente notei que não era isso, foi algum tipo de de erro estranho. Isso me tirou bastante da leitura, mas eu decidi que deixaria pra lá e continuaria a leitura, considerando que esse erro (que é grave, vale destacar) foi algum problema no envio ou erro de arquivo, paciência. A história então muda bastante de tom, o que por si só não me incomoda, pois o autor dois escreve bem, mas ficou bem destoante, inclusive a personalidade dos personagens.
Fim: o fim consegue utilizar bem o pouco espaço que tinha disponível para lidar com uma viagem espacial sendo iniciada, tendo que contar sobre a viagem, o que havia em Io de tão especial, e o resultado. Isso é muito difícil de fazer em 1500 palavras, mas acho que foi bem feito dentro do possível. O final é meio corrido, mas funciona, também. Um trabalho bom dentro das possibilidades.
Coesão entre os autores: o autor 1 liga as turbinas do avião, o autor 2 dá partida no foguete antes da contagem regressiva terminar, e sai arrastando cabos e plataformas, o autor 3 assume o “volante” da máquina, dá uma cambaleada, acelera demais, mas consegue pousar na superfície vulcânica de Io. Em outras palavras: infelizmente não tem como dizer que esse conto foi bem en coerência. O meio destoa bastante do restante, e por mais que as três partes, individualmente, tenham seus méritos, a coesão foi totalmente comprometida aqui.
Nota final: razoável.
Olá trio.
O nome do conto lembrou-me de Outland, um filme de 1981 com o malogrado Sean Connery. Também este filme teve o nome inicial de Io, mas como o nome se confundia com 10 ou Lo, resolveram encontrar um nome alternativo. Curiosamente, “outland”, o nome encontrado, ajusta-se perfeitamente a este conto de uma temática que me diz muito, que é ficção científica. Nele, um homem, recém-formado, recém-casado e na perspetiva de ser pai, é enviado numa missão de 16 anos a Io. Assistimos ao seu conflito interno e à forma como é traído pela empresa, que não cumpre o que estava previamente acordado e que só revela no momento da chegada que a missão tem um objetivo potencialmente perigoso. Aqui aparece um fato estranho, porque ele é aparentemente enviado sozinho para uma missão secreta (que ele nem sabe ser secreta). Chegando lá, é confrontado com um edifício que tem o potencial para navegar para diferentes realidades, ficando ele na dúvida se a sua própria vida era real.
Reside nesta última questão a força do conto. Quando questionamos se aquilo que lemos é real, subimos a fasquia em termos de qualidade de um texto que foi bem trabalhado pelos diversos autores, mantendo a coerência de forma brilhante. O fim em aberto não frustra o leitor, mas fiquei a pensar que devia ter continuado, porque a história tem um potencial tremendo.
Olá, autores! Tudo bem com vocês?
Começo: Muito competente, bem escrito, divertido e gostoso de ler. Mas… Com um dilema moral impossível no final… 😒 Precisava complicar tanto assim a vida do coleguinha? Acredito que espantou vários potenciais “continuadores”.(Eu fui uma delas)
Meio: Poxa, amiguinho! Vi que trocou os arquivos e mandou o errado, né? Acontece… E agora não deve aguentar mais ler as críticas e pedradas.🥺 Não vou me alongar, mas queria muito ler o arquivo certo.
Final: Uau! Fez o que pode com o limite que tinha e salvou o conto! Gostei bastante! Foi direto ao ponto, apostou na loucura mesmo e soltou a criatividade! Parabéns!
Coesão: Dá pra ver claramente que foi escrito por três pessoas diferentes, todas muito competentes, mas completamente diversas no estilo.
Visão geral: Ficou um conto meio remendado, meio maluco, mas divertido de ler. Não ficou maçante nem chato, mesmo no meio. E o final muito surpreendente.
Parabéns aos autores!
Boa sorte no desafio!
Até mais!
X Sensação após a leitura: Deem mais 10 mil palavras a esse(a) terceiro(a) autor(a)!
X Citações pro bem e pro mal:
x a descrição da beleza com termos científicos
bem legal
x tipo uma NASA da Shopee
kkkkk
x chiado fortíssimo como se milhares de pasteis estivessem sendo feitos numa frigideira do tamanho do Maracanã
Isso aqui ficou ótimo. Não combina muito (na verdade nada) com um conto de FC, mas a sinestesia criada por essa cena é muito forte.
x todas as descrições da terceira parte
X Conclusões:
Bom, cheguei ao “meu conto”, segundo os palpites pouco precisos da Priscila. Ainda bem que não é, porque senão eu teria ficado muito puto da cara com essa segunda parte! kkkkkkk
Mas vamos lá… gostei bastante da primeira parte, leitura fluida, diálogos ágeis, do jeito que eu gosto de ler (e escrever também). Há uma missão, há um dilema. E há um pecado… muitas possibilidades. Quando li esse trecho inicial pela primeira vez e quase o escolhi para continuar, cheguei a pensar em rumos de terror para a história devido à citação bíblica do figurão da AEB (que fiquei com impressão de que não era brasileiro… talvez fosse da sataNASA?).
Daí vem a segunda parte e o verdadeiro pecado aparece… o casal perde a personalidade construída na primeira etapa (quando que um cara que “segue o manual” daria bebida para a esposa grávida?), informações se contradizem, trechos se repetem. O(a) escritor(a) é notavelmente alguém que entende do riscado de escrever um cotidiano mais informal e talvez por isso tenha puxado as rédeas narrativas mais para esse lado do que da FC (como o conto pedia). Seja como for, o fato é que se passaram 1.500 palavras e a história ficou exatamente no mesmo lugar.
Então veio a terceira parte e com ela uma aula de como criar uma ambientação FC. Dado o pouco espaço disponível para o tanto de história que precisava ser contada, na minha opinião o(a) autor(a) tirou leite de pedra com as melhores descrições do desafio. Aqui o fator “última impressão é a que fica” jogou (muito) a favor.
MUITO BOM
Olá, amigos/amigas do desafio. Pois é, cá estou eu nessa nave viajando pelo espaço rumo ao “inferno de Io. O conto começa muito bem, mas pareceu-me que vocês, o trio autor, não “combinou bem antes o que iria redigir”. Noto claramente a passagem de bastão do autor um para o segundo e desse para o terceiro. O primeiro autor é brilhante e consegue dar um tom leve e mesmo trazer graça à narrativa. Já o segundo… bem, o segundo se perdeu e até buscou se justificar. Tudo bem, acontece. O terceiro autor, brilhante como o primeiro, salva a história. Traz a ficção científica para diante da nave e isto refaz o conto. Ficou muito bom e ele termina de forma que gostei muito. Deixando em aberto inclusive as possibilidades do que poderá ter acontecido. Noto que os autores têm bom domínio da língua, não há erros evidentes, desses que gritam diante dos olhos chamando-nos a atenção. Resumo da ópera, um bom conto, criativo e interessante, mesmo com os problemas no seu interior. Grande abraço aos autores e bastante sucesso no desafio.
Meus cumprimentos e vamos ao que interessa.
Neste desafio, usarei o sistema ◊ TÁ FEITO ◊ para avaliação de cada conto.
◊ Título = IO – Eu em italiano? Na informática, “io” é uma abreviatura para “input/output”, segundo minha pesquisa no Google.
◊ Amálgama = Percebe-se a troca de autoria, mas não de forma brusca.
◊ Fim = Os fins justificam os meios? Talvez… E a ordem dos fatores altera o produto? Permita-me começar pelo fim, observando o impacto causado na leitura. O(A) terceiro(a) autor(a) optou por dar maior ênfase à FC, o que deve ter agradado a muitos leitores, mas confesso que me peguei quase pulando linhas a fim de chegar logo ao final. Uma questão de gosto, creio, mas FC geralmente me entedia. No entanto, deu para notar o esforço realizado para salvar a narrativa e resgatar algo que ficou para trás na trama.
◊ Entremeio = Há a repetição de algumas informações, mas com a descrição das cenas. Achei desnecessário o reforço. Não sei se foi intencional, mas o acréscimo do apelido Bia me soou pouco natural, já que anteriormente, o narrador só a chamava de Beatriz. Uma das primeiras coisas que uma mulher faz ao se descobrir grávida é se abster de bebidas alcóolicas. Então, acho improvável que Beatriz tenha tomado vinho para comemorar a notícia.
◊ Início = A ambientação e apresentação dos personagens Pedro e Beatriz foram bem construídas. O diálogo entre os dois baseou-se em linguagem coloquial, tentando emprestar ao texto um tom mais jovial e próximo da comédia. Não ficou claro para mim em que curso Pedro se formou: Engenharia Química? E foi trabalhar com Engenharia Espacial? Tudo bem que era a Nasa da Shopee, mas mesmo assim… É apresentado o conflito da trama: aventurar-se no espaço sideral ou na paternidade?
◊ Técnica e revisão = O que me impressionou foi a extensão do período que abre o segundo parágrafo do conto. Considerando que o número de orações dentro de um mesmo período é determinado pela quantidade de verbos ou locuções verbais, e se eu não tiver me enganado na contagem, há 11 (onze!) orações só no primeiro enunciado. Haja fôlego, amiguinho(a). Ainda bem que soube fazer uso das vírgulas ou estaríamos sem ar. O contraste é marcante, pois esse parágrafo está entre duas orações simples: “Uma revoada de capelos tomou conta do anfiteatro.” e “Então eu vi Beatriz.”
A linguagem empregada é simples e clara em boa parte do texto, mas pelo teor FC, acabam sendo inseridas expressões mais conhecidas pelos apreciadores desse gênero. Por outro lado, os diálogos agilizam a leitura e a tornam menos cansativa.
Quanto ao quesito revisão, aponto como sugestões:
◊ O que ficou = Pouco impacto e uma preguiça imensa de ler sobre as aventuras de Pedrinho no espaço. Vocês tentaram, prezados(as) autores(as), mas parece que ocorreu alguma falha técnica/humana durante a missão.
Parabéns pela participação e boa sorte!
Não gostei deste conto, infelizmente. Eu queria muito ter gostado, principalmente depois de ler o excelente começo. No entanto… bom… já vou avisando que a crítica que farei em meu comentário será um pouco pesada, pois eu realmente detestei o que li aqui. Por um lado, o fato de este conto me despertar uma emoção intensa dessas pode ser considerado até como sendo algo positivo… mas tudo o que senti, ao terminar de ler este conto, foi raiva.
Começamos conhecendo o nosso protagonista, Pedro. Ele está numa formatura, e lá conhece uma gata, na qual fica de olho. Toda a trama é narrada por Pedro, e dessa forma o leitor rapidamente se afeiçoa por ele. Ele é um personagem interessante, que se identifica com as descrições de autismo que viu no Google. Eu, como leitor, possuo laudo de autismo, e me identifiquei com Pedro. No entanto, em minha formatura, ao invés de ser garanhão como nosso protagonista, fui xingado e quase expulso. Mas de qualquer forma, eu entendo perfeitamente quando ele diz sobre hiper-foco, e principalmente sobre o “manual de instruções”, pois é algo que vivencio. No entanto, parece que os outros autores deste conto não compreenderam tão bem, citando esse “manual” diversas vezes, de forma errada, mais literal, e de forma a fazer uma falsa conexão com o autor 1.
Toda a base da história é estabelecida nesse início da história. Os diálogos são muitíssimo bem produzidos… no entanto, eu acho chato ver jovens falando. E aqui, achei chato ver os personagens conversando, principalmente no início (não por falta de habilidade do autor, mas sim porque eles estavam extremamente realistas, mas pegou um tópico ao qual eu não me interesso, que é justamente essas interações sociais mais mundanas). Os diálogos ficam mais interessantes quando Pedro é chamado na sua Nasa de pobre, para receber sua missão em lo.
Aliás, quero destacar a facilidade incrível com que o autor possui de estabelecer uma base para a história. Pois sem enrolação, e com muita sutileza e habilidade, Pedro se casou com Julia, vimos seus medos, sonhos e objetivos, entramos em um dilema difícil, e conhecemos todo o plot inicial da narrativa. As coisas estavam bastante interessantes, e eu estava muito ansioso para ver no que tudo isso ia dar. Fiquei, inclusive, com vontade de pegar este conto para escrever a parte 2… pena que quando ele estava em leilão, não o vi (acho que escolheram rápido).
Mas então, entra o segundo autor. MEU DEUS!!!!!!!!!! A segunda parte perde toda a sutileza e sagacidade do primeiro autor, e vemos aqui algo mais bruto e cru. Os primeiros QUATRO PARÁGRAFOS INTEIROS são de uma recapitulação de tudo o que acabamos de ler, do primeiro autor. Ou seja……………. o autor 2 meio que só reescreveu aquilo que o autor 1 já tinha contado para o leitor, só que de forma diferente. Meu deus…….. Isso foi uma encheção de línguiça de proporção brutal, o que destoou absolutamente da narrativa anterior que era toda ágil, com informações nas entrelinhas, e que conduzia o leitor de forma tão hábil. Foi realmente muito triste de se ver, pois esse estilo narrativo de recap, adotado na segunda parte da história, acabou por destruir completamente um conto que inicialmente era tão promissor.
Como se não bastasse… a segunda parte ainda cai num dramalhão forçado e teatral, que era justamente tudo aquilo que a primeira parte conseguiu se esquivar de forma tão habilidosa e impressionante. Vemos uma discussão extremamente chata entre Julia e Pedro, com frases confusas, e um diálogo bastante piegas. E por falar em construção de frase… algumas passagens são tão bizarras que eu tive que ler e reler, de forma a tornar o texto todo truncado, perdendo toda aquela fluidez que ele possuia no início.
E então, sem nada de relevante acontecer na história, a parte do autor 2 termina, e chegamos no autor 3. Este, após o desperdício do meio, precisa correr com sua parte, pois restam apenas 1500 palavras, e falta tudo para desenvolver na história, pois o miolo do conto não deu direcionamento algum para a trama. Sem perder tempo, vemos Pedro em sua nave, indo para a missão em lo. Ele é congelado por 8 anos, e quando acorda, já está em lo (sim, vapt e vupt, afinal, não temos mais tempo a perder!!). Mas Pedro não havia combinado de ligar para Julia e conversar com ela todos os dias, a fim de manter contato e ver sua filha crescer? É…. mas não temos tempo para sentimentalismo barato, pois o limite de palavras já está batendo no pescoço… então vamos pular tudo isso, e dizer que a empresa de Pedro o enganou, e colocaram ele pra dormir por 8 anos contra sua vontade. Ok… mas agora ele tem um zilhão de mensagens não visualizadas de sua esposa e sua nova filha, acumuladas ao longo de 8 anos, não? Sim…. mas vamos colocar ele olhando tudo rapidinho, e não contar nada para o leitor sobre como foi isso ou sobre o que o protagonista sentiu aqui, pois não temos mais tempo a perder com sentimentalismo e drama… e quem já assistiu Interestelar já deve ter uma ideia do clima da cena aqui. Ok………….. mas……………..
Senti que tanta coisa foi sacrificada em prol de colocar a ficção científica acima do drama, acima dos personagens, e acima de tudo e qualquer vestígio de emoções, que agora as coisas foram contadas de uma forma mais seca e antipática. Eu entendo que não tinhamos mais tempo (ou palavras) a perder… e que o autor 3 é um mestre de ficção científica, que está ansioso para estralar os dedos e escrever um turbilhão de informações para o leitor, mas…. isso destoa completamente tanto do autor 2 quanto do autor 1. Julio foi escolhido para essa missão devido a uma anomalia genética em seu corpo? Desnecessário… os motivos para a escolha de Julio já haviam sido explicados pelo autor 1, e não havia motivos para dar ainda mais justificativas. Aqui entra também toda uma parte geopolítica sobre a corrida para encontrar o Marco, que é uma torre estranha com formas geométricas, e mais muitas explicações para o leitor.
Então finalmente entramos na torre estranha e…….. OH NÃO!! O LIMITE DE PALAVRAS!!! Aqui é descrito rapidinho que a torre mostra uma vida alternativa de Pedro, e….. fim!
Pera, mas…. ainda tem muitas pontas soltas!!
Sim, tem mesmo…. mas não temos mais palavras. Então Julio pega um artefato na torre, sai correndo, e pensa “Puta merda, acho que cagada… acho que não vou mais ver minha familia!”, e fim!!
Ok, mas……..
Pois é. O limite de palavras deve ter acabado. Não tem mais o que fazer.
História triste… não devido ao drama do enredo, mas sim por conta do drama dos bastidores da construção deste conto. Senti que aqui ninguém trabalhou em equipe, e o que eu li foi um monte de retalhos. A nota mínima que estou atribuindo neste desafio é 5, e provavelmente será a nota que darei a este conto.
Mas de qualquer forma… boa sorte aos autores!
O estilo narrativo da primeira parte é excelente. Tem aquele tom que consegue ser cativante, que emociona e faz rir ao mesmo tempo – não que se aferre à comédia ou algo assim, mas “rir” no sentido de emocionar, como um Chaplin que faz os pãezinhos dançarem em meio à forme.
E o mais notável é usar – usar bem – essa mistura para falar de amor sem correr o menor risco de parecer piegas ou forçado, como dá para ver no diálogo inicial entre Beatriz e Pedro e que se estende pelo relato dos primeiros tempos de casamento entre eles com a efetivação dele na AEB.
Então entramos no eixo principal do conto. Pedro vai para Io. A cena da notícia sendo dada a ele lembra diversas outras que se veem em filmes americanos, como Interestelar ou Os Eleitos, especialmente por conta do velho que se refere a ele, a todo tempo, como “filho” kk Aliás, para uma agência tipo “Nasa de baixo orçamento”, a AEB tá bem demais kkk
Mas disso, o que fica é o dilema bem construído sobre o tempo que Pedro ficará fora – dezesseis anos – e aqui se vê, também a influência (involuntária, creio) de Interestelar – potencializada pela gravidez da esposa.
Eis que, ao que parece, entra o segundo autor e a história ganha ares de drama familiar, com uma Beatriz (agora Bia) que se opõe à ida de Pedro a Io – logo ela, que na primeira parte partilhava com ele o desejo de que fosse escalado para algo do tipo. Sim, nessa segunda parte, Bia está em crise. Do nada somos apresentados a uma mulher que não quer se ver como inferior. Pedro não vai para Io, mas é perseguido por sonhos de que está na nave. Ou é o contrário? Cenas se sucedem sem ordem aparente, indo e vindo no tempo, sem que nós, leitores saibamos exatamente no que acreditar. Pedro está a caminho de Io ou está na Terra?
Bem, lida isoladamente essa parte está bem escrita e explora muito bem um drama da vida real, mas creio que para o propósito do desafio ficou um tanto desconectada da primeira. Mais arriscada foi a estratégia de misturar as cenas, deixando o leitor atordoado… É uma opção válida, mas aqui tenho minhas dúvidas sobre sua efetividade.
O terceiro autor resolve essa questão do roteiro logo na primeira linha. Pedro está, sim, a caminho de Io – convenhamos que seria um tanto frustrante se não estivesse, ainda mais num conto chamado… Io.
De todo modo, Pedro desperta de um criossono (claro) e se vê diante de um avatar da esposa – uma IA, na verdade, que lhe serve de guia. Novas informações surgem – mutação de DNA, hibernação, Bia e Julia reféns da AEB. Corrida espacial para Io, com a China entrando na jogada por conta da descoberta de “Marco”, algo cuja existência Pedro é quem deve confirmar.
Bem, percebemos que o terceiro autor tem bastante facilidade com o tema de sci-fi. Mas não é só isso. A facilidade também está no uso das palavras, na construção das cenas, algo que me fez lembrar do clássico Solaris (o livro), em especial a partir do momento em que Pedro desce em Io e entra no Marco. Com efeito, aqui não é o oceano que brinca com a psique do protagonista, mas o edifício. Cenas de uma vida alternativa se sucedem e, ao fim, Pedro não sabe ao certo o que é sonho e o que é realidade.
Quanto à conexão dessa terceira parte com as demais, creio que casou bem com a primeira (exceto pelo fato de que somente depois do despertar do criossono é que Pedro soube qual seria sua missão). Quanto à segunda parte, também ficou bacana a junção, embora as alusões ao drama da separação sejam bem mais superficiais (culpa, talvez, da limitação de palavras do desafio).
De qualquer forma, fiquei com uma boa impressão do conto. Apesar da segunda parte destoar das demais – por conta do foco no drama e não por conta da escrita, que é excelente –, acho que o resultado ficou muito bom, acima da média dos demais contos do desafio. O terceiro autor conseguiu juntar bem as pontas e deixou o leitor com aquele buraco no peito, que o faz perguntar: meu deus, e agora??
Isso não é pouco. Parabéns a todos e boa sorte no desafio.
Este conto tem três partes bem distintas. Primeira: apresentação e definição dos personagens, lançamento da premissa, do mistério e da difícil escolha. Segunda: Exploração da difícil escolha e tomada de decisão. Terceira: A viagem em si.
Os trés autores escrevem bem, mas com estilos suficientemente diferentes para se conseguir identificar as passagens. O segundo autor/a já referiu que enviou o texto errado. Aguardo partilha do correto após encerramento do certame.
A primeira parte lança a história com algum humor e num tom muito descontraído, mas sem perder a seriedade. A segunda sofre dos problemas já identificados e creio que, a ser enviado o ficheiro correto, seria muito mais interessante e se enquadraria melhor na historia. A terceira parte, que encerra, fá-lo com todo o requinte. Procura amarrar todas as pontas que os autores anteriores deixaram em aberto e lança a questão do Marco. Lembrou-me, de imediato, o monólito do 2001/2010, mas a abordagem é diferente. O final incerto, agradou-me bastante, ao estilo do final de Inception, lançando a dúvida se ele estaria mesmo a viver aquela situação ou seria apenas uma ilusão de vida num estado de criossono numa nave perdida no espaço. Deixar a dúvida no ar foi toque de génio e deu um final digno à história. Desta vez a terceira parte salvou o todo (apesar do bom começo).
*Todo e qualquer crítica refletem mais um ponto subjetivo meu do que qualquer outra coisa. Outro leitor pode achar o oposto. A ideia é mais causar reflexão pros autores pensarem o que acham pertinente ou não.
Uma história interessante que mistura drama pessoal e ficção científica sem fazer uso de elementos de hard scifi.
O tom bem humorado da história é certamente mais forte na primeira parte do conto, que faz um bom trabalho em diversas frentes narrativas: estabelece bem a personalidade dos personagens (e note que o autor praticamente manteve apenas dois personagens, facilitando o trabalho dos colegas que viriam), bem como o enredo e o conflito do protagonista, que não pode ser mais claro: ele precisa escolher entre sua paixão e sua família. O autor lança ainda alguns mistérios que podem funcionar como fio condutor da narrativa, em especial o que há em IO e o motivo pelo qual o protagonista é o mais indicado para a viagem.
A segunda parte… bem, o autor da segunda parte já se manifestou dizendo que enviou o arquivo errado e eu acredito completamente. É fácil notar de que se trata de um esboço competente, mas apenas isso, um esboço. Há erros de continuidade e narrativos, os diálogos são apressados e superficiais e o enredo não avança. De novo, não estou sendo duro com o escritor aqui. Ele é nitidamente competente, mas isso parece uma primeira versão que viria a ser retrabalhada (e possivelmente foi, mas não tivemos esse arquivo). Acontece. Infelizmente deu uma enfraquecida no conto. Fica a lição de sempre conferir duas vezes se está mandando o arquivo certo.
Se faz o autor se sentir melhor, cometi erro parecido com a minha terceira parte. Vida que segue.
De todo modo, acho um exercício criativo interessante simplesmente ignorar a segunda parte (depois de ler tudo, claro. Digo apenas como exercício criativo). Nesse caso, suponho que a história funcione melhor. Não que a segunda parte seja completamente inútil. Ela, na verdade, ajuda a preparar um pouco a mudança de estilo narrativo entre a primeira e terceira parte, mas não muito mais do que isso.
Sobre a terceira parte, temos aqui uma ênfase maior no scifi e menor nos elementos de comédia, que ainda estão presentes, mas em menor grau. Achei essa uma escolha feliz, pois entrega ao leitor aquilo que foi prometido no começo: não apenas sobre os mistérios de IO e da escolha de Pedro para a missão, mas de se tratar de uma história de ficção científica. .
Gostei da explicação da criogenia. Li recentemente “Herdeiros do Tempo” e foi a primeira vez que vi as capsulas de sono como importante elemento narrativo, aqui foi a segunda e achei essa exploração bem bacana.
De todo modo, o autor 3 parece ter bastante segurança no tema de ficção científica e conseguiu manter a história interessante. O final aberto é bem vindo nesse tipo de narrativa, embora eu particularmente acredite que algumas outras pistas sobre o que se passava em IO seriam bem vindas.
Parabens aos autores e boa sorte no desafio.
Olá, caros colegas entrecontistas!
Primeiramente, parabéns pela participação corajosa e desapegada.
Vou avaliar e comentar de acordo com meu gosto, não tem muito jeito, afinal não tenho conhecimento nem competência para avaliar de forma mais “técnica”. Ou seja, vou avaliar como leitora mesmo. Primeiro, cada parte separadamente, valendo 1 ponto cada. Depois, a integridade do resultado, valendo 3 e, por último, o impacto da leitura, valendo 4.
Começo
Um ótimo começo. Pedro e Beatriz são apresentados. Pedro, meio “autista”, meio “Sheldon Cooper”, Beatriz meio Alicia Nash, tudo muito bom. Pedro é convidado a ir a IO, quando Beatriz enfim consegue a tão esperada gravidez. Dá para imaginar o dilema de Pedro, já que a missão durará 16 anos.
Meio
O meio começou tropeçando. Dois parágrafos acima, Pedro estava surpreso que existisse já a tecnologia necessária para enviar alguém a Júpiter. Aqui, Pedro sai dizendo que a existência da tecnologia era mais do que sabida. Bem. O diálogo que se segue é esquisitíssimo, com Beatriz indo da felicidade extrema para a acusação amargurada em menos de 2 segundos só porque a reação de Pedro foi estranha e Pedro sendo uma besta. Para remediar a situação, Pedro propõe uma garrafa de vinho (a uma mulher grávida!!!!), ela acha a ideia ótima (!!!!!) e é isso.
Fim
Todo o dilema de Pedro é deixado de lado, a discussão com Bia idem, e já temos Pedro acordando do criossono. Não sei se isso foi bom ou ruim. Pareceu corrido e o drama humano se perdeu, o que foi uma pena. Em compensação, as próximas linhas estão cheias de drama do bom e de boas cenas em Io. A ideia do Marco foi muito boa e o final ficou ótimo, com uma grande incerteza a respeito do destino de Pedro.
Coesão
A parte 1 e a parte 3 ficaram excelentes. A parte 2 se perdeu um bocado. Foi uma pena. No geral, uma história muito boa.
Impacto
Uma boa história. O final foi bem impactante, cheio de incerteza. O resultado geral foi muito bom, em grande parte pelo final bem construído.
Sinceramente? Eu gostei, principalmente do final, mas muita coisa infelizmente comprometeu o conto.
Há uma premissa inicial que se perde no meio do caminho e o final tenta resgatar. Consegue, em minha opinião. Eu gostei da resolução após as limitações impostas. Achei criativa.
O conto tem uma linguagem boa de assimilar. É fácil de ler, ritmo alto, imersão alta. Nos primeiros parágrafos, parece um pouco com um conto meu que participou do desafio experimental (Entregar os Pontos). Usei essa mesma mistura de termos científicos para adjetivar a história.
Há algumas incongruências, tais como:
“Cheguei em casa, atordoado. Como assim havia tecnologia para enviar uma missão tripulada a um satélite de Júpiter? Por que eu?”
Dois parágrafos depois:
“Que havia tecnologia para o envio de uma missão tripulada a Júpiter, isto era mais do que sabido entre nós.”
Há também uma frase que me arrancou uma boa gargalhada:
“Mantinha-me todo duro e lógico que Beatriz sentiu que a resposta ao seu abraço era rija”.
É impossível não pensar besteira aí, né? haha
Mas, por fim, achei uma diversão válida. As incongruências comprometem a imersão, mas achei o final suficiente para o que me foi prometido no início. Mas poderia tudo ter sido muito melhor do que foi.
Olá, pessoal, aqui é a Beatriz. Pois é, o Pedrinho está aqui inconsolável. Ele não me pediu ajuda e acabou enviando o arquivo errado. Disse pra ele que posso imaginar a ira dos autores com esse equívoco que cometeu no módulo 2. Que mancada!!! E ele nem enviou naquela correria de última hora que o Fábio odeia. Ele me pediu para lhes escrever para pedir muitas desculpas (frisou que era pra dizer esse “muitas”.
Por mim, está desculpado. Aconteceu comigo a mesma coisa uma vez, mandei o conto errado, um rascunho não revisado cheio de erros. Acontece Pedrinho, na próxima não se apresse toma uns calmantes e peça ajuda para a mãe da Júlia.
Quesitos avaliados: Entretenimento, Originalidade, Pontos Fracos
Entretenimento Alto. No geral, foi um conto entretivo. O fim ficou corrido mas achei bem redigido de forma que não ficou tão ruim. Embora não se saiba o que realmente ocorreu com Pédro depois disso e etc. Todos os autores participantes tem uma escrita que é fluída e boa para ler sem sofrimento.
Originalidade Razoável. Temas de exploração espacial deveriam ser fáceis de inovar, mas não é o que se vê por aí. Porém, gostei de todo drama relativo à vida do Pedro e a escolha que ele teve que fazer. Além do Marco em Io ter sido de certa forma original, gostei do artefato que mostrava vidas diferentes. Foi bem pensado. Disco, firmamento me lembraram a terra plana.
Pontos Fracos Fiquei com pena do primeiro autor desse conto, porque a primeira passada de tocha não foi muito bem sucedida. A pessoa desfez algumas coisas que haviam sido feitas (ignorou coisas escritas, trocando por outra coisa diferente), e praticamente repetiu um parágrafo escrevendo quase a mesma coisa que o autor primeiro. Também não gostei dessa ideia de que ele podia ver a família no espaço. Isso até sooou meio esquisito já que seria algo impossível. O terceiro autor até tentou consertar essa questão. No fim tudo foi pro espaço: o que teria ocorrido com o relacionamento de Pedro e família, o que resultaria da missão, e tal. Exigiria alongar bem mais a história realmente. É uma história que eu acho que merece uma continuação. Seria uma ótima série ou filme inclusive. Houve boa sintonia entre o primeiro e terceiro autor.
Resumo da história; um formando em engenharia química conhece sua futura esposa na cerimônia de formatura. Depois de casado ele consegue emprego na Agência Espacial Brasileira, se torna astronauta e é escalado para uma missão a um dos satélites de Júpiter, ao mesmo tempo recebe a notícia de que vai ser pai. Pedro fica num dilema se aceita a missão ou fica na Terra para assistir o nascimento da filha. Convencendo a espoa, ele parte para o espaço. Ao chegar em IO, fica sabendo que deve descer no satélite e pegar alguma coisa de um prédio alienígena para ser estudado pelos cientistas.
Notei logo no início da narrativa, algumas frases com mais de 50 palavras. O diálogo também me estranhou, não sei se é o modo regional de falar hoje por jovens universitários, porque, suponho que, na vida profissional eles mudam o linguajar, adotando uma linguagem formal, evidentemente.
Gostei da escrita, os termos técnicos referentes a viagem são verossímil, mas acho que o correto é crio sono e não criossono. A meu ver, o final ficou em aberto e cheio de dúvidas. Que prédio é aquele? Quem construiu? Qual a finalidade? Pedro voltou em segurança? Como encontrou a família quando chegou? Desperdiçaram espaço no início e meio e faltou para encerrar a história com final fechado.
Acho que o final foi prejudicado pelo excesso de palavras, ou o terceiro autor chegou ao limite de palavras e resolveu deixar assim mesmo sem dar maiores e melhores explicações sobre a construção estranha no satélite de Júpiter. Esse é um enredo que pede um texto maior, talvez até um romance, onde o prédio é um rádio farol construído por alienígena que vivem fora do sistema solar a procura de vida no universo. Mas por que construíram na inóspita lua de Júpiter? Muito simples, porque eles não respiram oxigênio e sim, metano e sulfureto de hidrogênio.