EntreContos

Detox Literário.

Marcas de expressão (Chicó da Quevedo)

Apareceu a notificação no celular: era aquele cara que eu odiava aos 20 e poucos anos. Tinha a audácia de me enviar um convite de amizade! Ainda que eu negasse, descobri haver certa excitação com aquele reencontro, mesmo que virtual. Uma euforia teimava em se apoderar de mim, por mais que eu rejeitasse a ideia, que insistisse mentalmente que o queria longe.

Aceitei o convite e bisbilhotei o álbum de fotos. Já não era mais o cara alto, bonito -é difícil admitir qualidades em quem não gostamos- com o físico no seu auge, a pele lisinha e aquele olhar de conquistador. Estranho, mas até o olhar me incomodava naquele cara que eu tanto desprezava. Por que o fato de ele se dar bem com gurias me incomodava? Por que ele me perturbava com tamanha intensidade?

A foto carregou rápido: uma criança no colo e a esposa ao lado dele. Ele é que era a questão: ainda era alto, ainda era bonito, parecia estar em forma, mas… esse ‘mas’ me deixou intrigado. Mas a pele não era mais lisinha como aos 20. Já possuía marcas de expressão, típica dos 40 e poucos.

Meu antagonista envelhecera! Fiquei estupefato com aquela constatação, por mais óbvia que pudesse ser. Então eu estava assim também? Não eram rugas como essas que eu enxergava no espelho todas as manhãs, não me percebia dessa forma. Mas talvez fosse assim que os outros me vissem…

Nesses 20 anos, ele não presenciou o nascimento das minhas filhas, a morte de tios e avós, a despedida da irmã que foi morar longe e que nunca mais entrou em contato, nem a doença que me atacou, aleijou e deixou sequelas. Não me viu ser demitido, contratato e promovido. Mas sabe o que é mais interessante? É que eu também não sei pelo que ele passou. E se algo disso importaria saber no passado, hoje não é mais relevante. A maturidade tem que chegar um dia.

Então, veio-me a epifania.

Aquele cara com as marcas de expressão já não era o mesmo do passado, assim como eu. Mas era muito parecido comigo agora, aos 45. Antagônicos antes, semelhantes no presente. Entendi, finalmente, que aquele cara dos 20 e poucos anos que eu odiava, era o cara que eu queria ser. Hoje sou o cara dos 45 que eu desejava e não me importo mais se o meu agora ex-rival é análogo a mim ou não. Por caminhos diferentes, chegamos a pontos comuns. Independentemente de quem fomos antes, somos o agora. Aquela inveja velada, escondida de mim mesmo no recôndito mais profundo do meu ser, agora aparecia dando-me um tapa na cara, me dizendo ‘para de ser hipócrita, para de mentir pra você mesmo, assume os seus medos e desejos!’

Meu oponente era, no fundo, meu herói. E quando vemos nossos heróis humanizados, nos percebemos falíveis. Então rui o castelo de areia e enxergamos tudo aquilo que não víamos antes, assim como as minhas marcas de expressão.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 5 de julho de 2021 por em Minicontos 2021, Minicontos 2021 - Grupo Chihuahua.