EntreContos

Detox Literário.

O Assassino da Motosserra – Conto (Eduardo Fernandes)

— Um café expresso, por favor. — Peço ao garçom e pergunto à distinta senhora sentada à minha frente se quer algo para beber.

— Não, obrigada. — Ela responde, tirando um cigarro eletrônico da bolsa.

— Ok, então vamos ao que interessa. O meu livro é sobre uma mãe que entra em depressão após a morte do seu marido e decide se jogar da ponte Rio-Niterói com o filho pequeno ao colo.

— Pois, infelizmente não gostei e não será possível publicá-lo.

— Mas você nem mesmo leu o livro!

— Você tem noção de quantos pseudo-escritores mandam manuscritos para análise editorial? Acha mesmo que tenho tempo para ler tudo o que me enviam?

— E como é que você decide o que vai publicar?

— Você está a assumir que eu publico alguma coisa… Como o mercado editorial como está atualmente, é uma grande assunção.

— Certo… Mas assumindo que você publica, como é que decide o que publicar?

— Normalmente leio a sinopse.

— Mas acabei de dizer a minha sinopse.

— E ela é péssima, sorry

— Péssima! Porquê?

— Bem, a personagem principal é uma mulher, o que é bom… Mas está apaixonada por um homem. Por um homem! Tão dèmodé. Hoje em dia ninguém mais quer ler nada que envolva personagens que sejam heterossexuais. Ela é branca, já agora? Porque não há nada mais cliché do que um livro com um personagem principal branco.

— Mas então os brancos não podem mais ser personagens principais?

— A não ser que tenham sérios distúrbios de personalidade, ou que tenham o corpo todo tatuado, ou que gostem de ser espancados em sessões de sexo sadomasoquista, não.

— Ok, mas ela é uma mãe com um filho. Ainda não inventaram maneiras de fazer filhos sem sexo hétero, não é verdade?

— Ela pode ter adotado uma criança cambojana. Funcionou com a Madonna. Ou pode fazer como o Cristiano Ronaldo e ter contratado uma barriga de aluguel. Ou, melhor ainda, ela pode ter sido estuprada por um grupo de homens brancos e pedófilos durante uma secção de sadomasoquismo num país retrógrado que ainda nega às mulheres o direito ao aborto.

— Mas pedófilos só gostam de crianças e ela é uma mulher.

— Detalhes, meu caro. Detalhes… Você tá a perceber porque é que eu não me dou ao trabalho de ler manuscritos? Imagina se eu fosse ler os textos de um escritor que nem mesmo sabe o que significa “suspensão da descrença”.

— Eu sei o que é suspensão da descrença.

— Claro que sabe… Deixa eu avinhar, vai aparecer um Deus Ex Machina qualquer e salvá-la no último momento?

— Não! Ela perde a criança, é presa por alguns anos e acaba por reencontrar-se consigo mesma com a ajuda de um grupo de sobreviventes de tentativas de suicídio, organizado por um rabino piedoso.

— Um rabino… judeu?

— Há rabinos que não sejam judeus?

— Você tem certeza de que quer fazer com que uma das personagens mais importantes do livro seja um judeu, um povo opressor e responsável pela crise no oriente médio?

— Os judeus não são opressores. Pelo contrário, têm sido perseguidos por todos, desde o Império Romano até Hitler. E todo mundo sabe que a crise do oriente médio tem a ver com o aumento da necessidade de energia por causa da mudança do eixo econômico do Atlântico para o Oceano Pacífico.

— Você escreve assim de forma tão chata no teu livro? Porque isso foi tão entediante que já tinha perdido o interesse ali pelo Império Romano.

— Ok, vamos assumir que reescrevo o livro todo de acordo com as suas sugestões. Seja sincera agora. Há alguma possibilidade de eu ser publicado?

— Deixa eu ver… Você é um youtuber famoso?

— Não.

— Já teve algum caso com a Bruna Marquezine?

— Não.

— E você já cometeu algum crime hediondo?

— Já fumei um baseado…

— Eu nem sei se fumar maconha é crime… Se for tô ferrada. Além do mais, tem que ser um crime a sério, que interesse às pessoas, tipo matar a sua família inteira ou esquartejar alguém em plena luz do dia com um machado.

— Machados são difíceis de usar. Não poderia ser com uma serra elétrica?

— Isso! Você tá a perceber porque é que ouvir um editor faz toda a diferença? Uma serra elétrica ficaria perfeita nas manchetes do Jornal Extra.

— Ótimo! Porque, só por acaso, eu tenho uma serra elétrica aqui comigo. Você é alguém e estamos em plena luz do dia…

— Como assim? Ei, espera. Espera! 

Romance do Assassino da Motosserra lançado na Bienal do Livro do Rio

Esta sexta-feira, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, será lançado o novo romance de Ricardo Silva, mais conhecido como o assassino da serra elétrica, por ter alegadamente esquartejado sua editora numa lanchonete hippister do centro da cidade.

O livro conta a estória de Dalva, uma albina negra, de gênero não binário e com o corpo coberto por tatuagens, que resolve vingar-se de um grupo de judeus pedófilos, praticantes de sexo sadomasoquista, que a espancaram após um discussão por não terem reciclado os copos plásticos das bebidas que haviam comprado numa cadeia de fast food.

5 comentários em “O Assassino da Motosserra – Conto (Eduardo Fernandes)

  1. Fil Felix
    6 de agosto de 2020

    Boa noite, Eduardo! Um conto divertido, sem grandes pretensões e que traz uma crítica (nem um pouco velada) à tendência atual de usar personagens e histórias menos usuais. O diálogo, rápido e certeiro, me fez lembrar dos diálogos de Alice no País das Maravilhas. O final traz uma reviravolta e reforça a ideia da editora: só vende o que é recheado de sensacionalismo!

  2. pedropaulosd
    16 de julho de 2020

    Conto breve, ágil e crítico, movido pelos seus diálogos e pelo tom absurdo da a conversa. Visa a prática mercantil de se apropriar do quer que seja, inclusive das pautas de representatividade.

  3. Rita Prates
    14 de julho de 2020

    Ótimo! Diálogos curtos, interessantes e críticos. Parabéns ao autor.

  4. Anderson Do Prado Silva
    14 de julho de 2020

    Olá, Eduardo!

    Conto despretensioso e divertido, com críticas ácidas e pertinentes ao mercado editorial.

    Leitura muito agradável!

    Ótimo trabalho! Parabéns!

    Abraço!

    Anderson do Prado Silva.

  5. Bruna Farias
    14 de julho de 2020

    Haha muito bom! Minha cabeça deu até um nó kk

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Informação

Publicado às 14 de julho de 2020 por em Contos Off-Desafio e marcado .