EntreContos

Detox Literário.

O Diário – Conto (Antonio Stegues Batista)

Diário encontrado durante a reforma do antigo hotel Blackhorse em Whitechapel, Londres.

WHITECHAPEL, LONDRES

1888

       Ainda estou morando nesse hotel sórdido, mas é por pouco tempo. Achei que poderia ter um bom emprego em Londres, mas as coisas não saíram como eu esperava. Pretendo ir logo embora daqui, assim que o doutor Melvin pagar o que me deve. Londres é uma cidade suja, sombria e úmida. Tem dias que o nevoeiro cobre a cidade e as ruas são tomadas pelo cheiro de peixes podres, que vem do Tâmisa. Detesto esse bairro miserável onde só vivem bêbados, artistas fracassados, velhos decrépitos e meretrizes.

Essas mulheres de vida fácil me incomodam mais do que o resto da humanidade, caindo em pedaços. Resolvi acabar com aquelas que me insultaram porque fui obrigada a passar pela calçada fedorenta, no meio delas, mortas-vivas, bruxas que sugam a vitalidade dos homens para prolongar a juventude. Cortei a garganta de uma delas, a outra, abri sua barriga e coloquei as tripas sobre os ombros, como um colar. Retalhei o rosto de outra e cortei seus mamilos. Continuei matando, mas elas são como moscas sobre o lixo, mata-se umas logo aparecem outras.

A polícia está tonta, sem pistas e as notícias nos jornais só falam das minhas obras humanitárias, pois eu as ajudei a deixar aquela vida de doenças e pecados. Me chamam de Jack, o estripador. Eles acham que Jack é um homem!

Meu nome é Jaqueline, Jaqueline Bórgia, Jack, para os íntimos.

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AS CINZAS

Wuthering  Heights, Londres                                                                                                                                                     1890

Finalmente, depois de dois anos de perseguição, o doutor Abraham Van Helsing conseguiu capturar o conde Drácula em sua própria mansão. Naquela noite sem lua, o vampiro não viu a armadilha feita com água benta e réstias de alhos, lírios e lavanda, na entrada.  Inebriado pelos odores das flores, paralisado pelo cheiro do alho e intimidado pela água benta, o vampiro desmaiou.

Imediatamente, Helsing o amarrou no portão de ferro com cordas e alhos e esperou pelo amanhecer. Não demorou muito tempo o sol nasceu e lentamente a borda de luz avançou e bateu nas botas do vampiro. Recuperando a consciência, Drácula viu, com horror, o sol subindo e tomando seu corpo. Não teve tempo nem de gritar, seu corpo inflamou-se e foi consumido em chamas. 

Satisfeito com o dever cumprido, Van Helsing tomou a carruagem e foi embora. Algum tempo depois, acordando e saindo para comprar pão, Boris, mordomo de Drácula, encontrando as cinzas, as cordas e o alho, percebeu logo o que tinha ocorrido. Lamentou-se pela perda do amo e como servo fiel e dedicado, recolheu as cinzas num vaso para ser levado para a Transilvânia. Mas, antes de chegar ao porto para pegar o navio, o homem teve um ataque cardíaco e morreu. O corpo dele foi levado para a morgue, mas o vaso ficou lá, na beira da estrada. Uma velhinha passando por ali, encontrando o vaso sem dono, pegou-o, levou para casa, colocou terra dentro e plantou uma semente.

Dali a alguns dias, nasceu uma Dioneia, que a velhinha não conhecia a espécie, mas ficou encantada com os dois dentinhos que ela tinha na boca. Um dia, ao regar a plantinha, a Dioneia mordeu a mão dela e ficou chupando seu sangue. A velhinha achou engraçado aquilo e todas as manhãs, em vez de regar a planta com água, ela passou a dar o dedo para a flor sugar o sangue. Não levou muito tempo, a pobre velhinha acabou morrendo de anemia…

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SORRISO FATAL 

Vostok, Rússia- 1942

A cidade tinha sido arrasada pelos blindados alemães. Poucos prédios continuavam de pé. Os sobreviventes do bombardeio não esboçaram nenhuma resistência quando o exército alemão chegou. Ali já não havia mais soldados, apenas velhos, mulheres e crianças. 

****

Andrey Ulyanov, olhou desolado para os escombros do prédio onde tinha sido a sua sapataria. Tudo estava destruído, queimado. O futuro agora era incerto. Pelo menos ainda tinha um lugar para se abrigar com a esposa e seus dois filhos. Por milagre, a casa onde morava saiu ilesa do bombardeio, assim como outras naquela rua mais afastada do centro. Só restava a Andrey, voltar para casa e tentar sobreviver à guerra. A fome era agora o seu pior inimigo.

****

O pelotão de infantaria, comandada pelo sargento Engels, chegou a Vostok no fim da tarde. Eles pernoitariam ali e na manhã seguinte seguiriam para Stalingrado, reforçar as outras unidades do exército alemão que cercavam a cidade.

O soldado Helmut Krug era um brutamontes. Nasceu e viveu na campanha, teve pouco estudos, pois tinha que ajudar o pai nas lidas da fazenda. Fora obrigado a se alistar, como muitos outros colonos da sua idade. Já estava há um ano no exército e até aquele dia tivera a sorte de não morrer em combate. Sequer imaginava que, alguns dias depois, um novo soldado na guerra viveria apenas 24 horas, um oficial, 3 dias. 

Enquanto entrava em Vostok, junto com seus companheiros, Helmut examinava os habitantes, postados na beira da rua, recebendo-os com seus rostos magros, sombrios, sofridos pelas agruras da guerra. Helmut procurava com os olhos uma possível vítima para aquela noite. O alemão gostava de dominar as pessoas, principalmente as mulheres. Gostava de exercer sua força e impor sua vontade sobre elas, de ver o desespero enquanto as violentava.

Ele viu uma menina segurando a mão de um homem, provavelmente pai dela, mas ela era muito nova. Adiante, observou uma mulher de uns 25 anos, junto a três velhotas. Não gostou dela por ser feia e magra demais. Em seguida seu coração disparou ao ver uma jovem, recostada no batente de uma porta. Era linda, de rosto limpo, com um decote que mostrava os seis fartos e a pele alva. Helmut teve uma ereção ao imaginar-se transando com ela.

Procurou controlar-se, memorizando a casa onde ela morava. Mais tarde viria fazer uma visita. O grupo ocupou um prédio na praça, onde era a prefeitura. Antes que o sargento destacasse dois homens para fazer a ronda, Helmut apresentou-se.

– Gostaria de fazer a primeira ronda, senhor.

O sargento sacudiu a cabeça, concordando.

– Leve Nicolai com você. 

Os dois soldados saíram, Helmut parou e tocou o braço do companheiro.

– Você vai para a esquerda e eu para a direita, fazemos a volta e nos encontramos aqui.

Nicolai olhou para ele, retrucando:

– Sempre fazemos a ronda em duplas!

– Sim, mas aqui só tem velhos crianças e mulheres! Não tem perigo. Assim, completamos o nosso turno e vamos dormir mais cedo.

Nicolai acabou concordando. Tirou um pedaço de chocolate do bolso e se afastou comendo. Helmut desceu a rua em direção a casa onde tinha visto a mulher. A janela estava aberta e ele a viu sentada numa cadeira, costurando uma peça de roupa. Pressentindo a presença dele, ela ergueu o rosto e sorriu. Largou o que estava fazendo e se aproximou dele. Disse alguma coisa em seu idioma, que ele não entendeu. Estava surpreso pela receptividade. Geralmente elas se assustavam e se retraiam.

A garota era uma visão inebriante e ele estava excitado. Ela abriu a porta e puxou-o pela manga da jaqueta. Colocou um dedo sobre os lábios, fazendo sinal de silêncio, esboçando um sorriso significativo. Helmut não se conteve mais, tirou o capacete, encostou o rifle na parede e a abraçou, metendo o rosto em seu pescoço. Sentiu um leve perfume de alfazema. A garota estava cheirosa, coisa rara naqueles tempos de guerra.

Irina havia tomado banho perfumado, exatamente para a ocasião. Não que fosse necessário para aquele alemão animalesco, o banho foi como um ritual. Helmut estava explorando o corpo dela com as mãos, quando sentiu uma pancada na cabeça. Ele ficou tonto, cambaleou. Através de uma névoa que separava a consciência da inconsciência, viu dois vultos e tentou reagir. Mas uma nova pancada e desta vez suas pernas dobraram e ele despencou, desmaiando.

****

Acordou num lugar mal iluminado. Descobriu que estava amarrado a uma mesa comprida cheirando a ranço, nu e amordaçado. Ao seu lado estava um homem de meia idade de aspecto rude, um rapaz de olhar febril e a jovem, olhando para ele com um olhar selvagem O homem estava com um serrote na mão. Falou no idioma alemão:  

– Primeiro nós vamos cortar suas pernas e depois costurar o ferimento. Vamos cuidar para que você viva o mais tempo possível. Amanhã, ou depois, vamos cortar os seus braços e assim por diante. Nesses tempos difíceis fazemos de tudo para sobreviver.

O soldado alemão tentou escapar, mas não conseguiu. A mordaça abafou seus gritos.

– Vou preparar as panelas. – disse Irina e subiu as escadas.

 Andrey Ulyanov começou a serrar.

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O ABAJUR

Wadag, Polônia

1951

O quarto era pequeno, com uma cama, cômoda e roupeiro, havia ainda uma mesa com duas cadeiras. A única janela dava para um beco. Ele não se importava com aquele quartinho sórdido. Queria sossego e privacidade. Saindo da janela, o hospede parou em frente ao abajur sobre a cômoda.

– Se quiser eu levo embora. – disse o dono do motel. 

– Não entendi!

– O abajur. Dizem que é feito de pele humana. Pertenceu a um general nazista. 

O hospede esboçou um sorriso, como se duvidasse das palavras dele. 

– Ok.

O proprietário não estava com pressa de sair. Ficou parado, alto como um poste, com os dedos cruzados, dedos que pareciam salsichas rosadas. Era uma daquelas pessoas que gostava de impressionar.

– É que tem o nome do tal general debaixo do pedestal, junto com uma suástica e algumas pessoas tem horror a isso.

– Não tem problema, pode deixar.

 O dono do motel fez um movimento com a cabeça e saiu, fechando a porta. O hospede pegou a maleta, colocou sobre a cama e abriu-a. Dentro estavam seus instrumentos de matar e esfolar. O ex-general suspirou, satisfeito. Uma nova cidade, um novo divertimento

– Vou começar com o dono do motel- murmurou ele, esboçando um sorriso sádico.

 

  

UM PAR DE SAPATOS

São Salvador, Belo Horizonte

No ano de 1959

 

Estevão Taramela, era vendedor de enciclopédias. Caminhava o dia todo batendo de porta em porta. Estevão era um homem persistente, honesto e trabalhador. Era casado com Elza Noronha Taramela, uma senhora gorducha, que passava as horas vagas na janela, cuidando da vida dos outros. 

Estevão vinha caminhando pela calçada, cansado depois de um dia de trabalho. Sonhava em poder um dia, comprar um carrinho, um fusca já estava bom demais. Assim, pensativo, olhando para o chão, viu um par de sapatos masculinos, pretos, encostados numa parede na entrada de um beco. Como o calçado ainda era novo e como não havia ninguém por ali, Estevão pegou-os com a intensão de usá-los, já que os seus, estavam surrados. Assim que os pegou, a solas caíram para baixo. Não tem problema, pensou. Eu dou uma pregada e pronto!

Assim que ele entrou em casa com os sapatos na mão, a esposa perguntou:

– O que é isso?

– Um par de sapatos, não está vendo? Eles são gêmeos.

– Gêmeos?!

– É. Onde um vai, o outro também vai.

O homem riu da própria piada. Ele consertou o calçado e guardou-os para usar em outra ocasião. Mas Elza, que não gostava de coisa velha em casa, bastava o marido, no dia seguinte pegou e jogou o par de sapatos na lixeira. Depois ela encheu a banheira, despiu-se e entrou na água. Estava recostada, pensando num meio de se livrar do marido para ficar com a pensão dele, quando ouviu um ruído de passos. Era cedo ainda, Estevão chegaria mais tarde. Quem poderia ser? Apavorada, Elza lembrou-se do filme Psicose e imaginou o marido, como Norman Bates do outro lado da cortina com uma faca na mão.

Ela ergueu o tronco e num movimento rápido, afastou a cortina. Suspirou aliviada pois não havia ninguém ali. Mas quando baixou o olhar, viu no piso, o par de sapatos que ela tinha colocado no lixo. Os dois sapatos estavam com as solas despregadas, as tachinhas eram como dentes pontiagudos, ameaçadores. Elza soltou um grito quando um deles saltou e cravou os dentes-tachinhas em sua garganta e o outro pulou na ponta do nariz dela. O sangue jorrou da jugular, manchando a água de vermelho. Só faltou a música de violinos de Bernard Herrmann, no filme de Alfred Hitchcock.

Ao entardecer, quando chegou em casa, Estevão ficou surpreso ao encontrar a esposa morta no chuveiro. Ficou surpreso por não ficar apavorado. Seria o cansaço, ou a idade que o deixava frio como uma pedra de gelo? Na realidade, ele já não gostava mais de Elza. Quando o gato morreu dentro da máquina de lavar roupa, ela havia dito que foi um acidente. Explicação que ele não acreditou. Nem da sopa com cacos de vidro. Parecia que ela queria que ele morresse com as tripas furadas! Ele passou a comer fora. Chegava em casa dizendo que estava sem fome e ia dormir. Dormia num quarto separado, com a porta trancada. Só esperava uma oportunidade para abandonar a mulher. 

Agora seus problemas acabaram. Ele tinha feito um seguro de vida para a esposa, sendo ele o beneficiário, claro! Tinha colocado o documento junto com os papéis do casamento que ela havia assinado. Estevão sempre pensou no futuro, com esperança de não morrer antes da mulher. Um vendedor sempre procura tirar vantagens de seus negócios. Antes de chamar a polícia, ele quebrou a pia. 

A polícia considerou a morte de Elza um acidente. Presumiram que ela havia escorregado no banheiro, caindo sobre a pia, que quebrou e cortou seus pescoço e braços. Pedaços de cerâmica cortam como cacos de vidro.

Estevão lustrou os sapatos que havia achado e os calçou para ir ao velório. Os sapatos sorriram satisfeitos e abraçaram seus pés com carinho.

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A MOSCA AZUL

São Paulo, SP, 

ano de 1965.

Ele acordou olhando para as manchas escuras no forro do quarto. Guinchos de ratos soaram em algum lugar. Eles também acordavam para mais um dia de tédio. Levantou-se, sentindo vontade de beber e fumar.                                                                                     

Estava sem dinheiro, mas sabia que a velha guardava dinheiro da aposentadoria no quarto dela. Levantando-se, foi na privada urinar e depois foi para a cozinha ao mesmo tempo em que a velha chegava do supermercado carregando uma sacola de compras. Enquanto ela resmungava e colocava as compras sobre a mesa, ele pegou o bule de sobre o fogão de ferro e serviu-se de uma xícara de café, um café ralo e frio. Cuspiu na pia pois o gosto estava horrível! Um zumbido soou perto do ouvido dele. Uma mosca varejeira voejava pela cozinha fedorenta. Ele detestava moscas. Praguejando, abanou o ar sem mesmo vê-la.

– Vai buscar lenha pro fogão!  – pediu a velha.

Ele olhou para todos os cantos a procura da mosca. Elas gostavam de sujeira e a casa estava imunda. Era culpa da velha por deixar as moscas entrarem. A contragosto ele pegou o facão e saiu para cortar alguns galhos de pinheiro. Voltou com uma braçada de gravetos. A velha começou a enfiar a lenha pela boca do fogão, enquanto ele tentava imaginar onde ela guardava o dinheiro. 

A mosca zumbiu por perto de novo e ele golpeou o ar com o facão, com a esperança de matá-la no ar. Seria uma façanha e tanto partir a mosca em dois pedaços enquanto voava! Encontrou-a pousada na quina do armário. Uma mosca grande, esverdeada, repugnante. Ergueu o facão, mas o inseto alçou voo e sumiu.

 Olhou ao redor, decidido a matá-la. De repente avistou-a pousada sobre o lenço encardido que a velha usava enrolado na cabeça. Ergueu o braço e desferiu um golpe violento na mosca. O sangue esguichou.  Não viu se tinha acertado na mosca, mas na velha, sim. Bom, assim acabava com dois problemas. Enquanto a velha tombava e dava o último suspiro, ele largou o facão e passou a procurar pelo dinheiro que ele julgava estar escondido em algum lugar. O esconderijo mais provável seria o quarto da velha. Ele entrou cautelosamente como se temesse ser surpreendido.

O assoalho rangeu com um som sinistro. Procurou no baú tirando e jogando no chão as poucas roupas que a velha possuía. No baú não estava. Dirigiu-se para a cama. Uma tábua do assoalho estalou. Ergueu o colchão e jogou-o para o lado. Debaixo do colchão também não estava. Talvez estivesse dentro do velho colchão esburacado. Ajoelhou-se e começou a rasgar a capa encardida, espalhando penas de galinha para todo lado.

O Soalho estalou. Uma tábua cedeu, partindo-se. Logo outras tábuas corroídas pelos cupins também se partiram e o assoalho desabou com um estrondo. Ele tentou se agarrar em alguma coisa, mas não conseguiu. Caiu de costas no piso do porão escuro e úmido. Aturdido, ouviu guinchos medonhos ao seu redor. Estava no meio de centenas de ratos famintos, e seu terror aumentou quando sentiu as primeiras mordidas.                                                                                 

Os gritos dele e os guinchos, soaram por algum tempo e depois diminuíram, soando apenas o ruído de mandíbulas triturando carne. Uma mosca azul voou lá em cima…

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O BEIJO ESCARLATE

Porto Alegre, RS

2008.

Aquiles Pedro Viana Brandão, era empresário do ramo farmacêutico. Seu casamento com Erica Miller, durou nove anos. Érica não aguentou quando o marido passou a ter manias absurdas. Primeiro começou a reclamar da higiene da casa, dos aposentos, principalmente do banheiro. No trabalho também era a mesma coisa, a faxineira era obrigada a fazer limpeza do escritório dele a cada duas horas. Não só limpar, desinfetar era o mais importante. As suas manias pioraram quando ele se negou a ter contato físico com a esposa. Foi dormir em outro quarto. Começou também a reclamar da comida, que era malfeita, que a salada não tinha sido lavada, etc. Érica acabou pedindo o divórcio. Aquiles aceitou com naturalidade. Gostava da esposa, mas no pensamento dele, com o tempo, Érica foi se tornando desleixada, se descuidando da aparência e da higiene pessoal.

 Após o divórcio, Aquiles passou a morar no mesmo prédio da empresa. Mandou construir um quarto no andar em que ficava o escritório. Ele queria evitar as aglomerações de pessoas na rua, nos corredores e no elevador. Contratou uma secretária especialmente para comprar suas roupas, produtos de higiene pessoal, refeições, etc. Para ele, a rua era um ambiente nocivo à saúde. 

Algum tempo depois, Aquiles passou a preparar suas próprias refeições. Na entrada do escritório mandou instalar uma cabine de descontaminação para purificar as roupas da secretária e dos diretores que precisavam conversar com ele pessoalmente, ou mesmo em reuniões da empresa. Depois, as reuniões e os contatos com seus diretores e funcionários passaram a ser por videoconferência.  Aquiles isolou-se por completo em seu escritório/apartamento e dali não saia para nada, com medo de se contaminar com as bactérias e germes que existiam em toda parte, inclusive no ar. 

Certa noite ele acordou em sobressalto. Teve um sonho horrível, um pesadelo! Sonhou que estava amarrado com os pés e mãos numa cama larga, em um quarto sombrio e frio. Completamente nu, sentia-se indefeso, vulnerável. Da porta, como um portal para um mundo desconhecido, surgiu o vulto de uma mulher, uma silhueta esguia que aos poucos foi se aproximando. Enquanto ela se aproximava saindo da luz ofuscante, ele foi enxergando melhor a sua aparência. Ela estava com uma capa escura seus pés pareciam revolver a poeira dos mundos infernais. Sombras ondulavam ao seu ao redor, como ondas encrespadas em um mar de veludo negro. Ela se aproximou dele, inclinou-se e o beijou. Imobilizado, ele não conseguiu evitar o contato com aquela boca vermelha e úmida, cheia de vermes! 

Sentiu na boca, aqueles bichinhos horríveis se contorcendo e se reproduzindo às centenas. Acordou angustiado. Mesmo com as luzes acesas, vislumbrou sombras se esgueirando pelos cantos. Logo que bateu as 8 horas, ele pegou o telefone e ligou para a secretária. Precisava conversar com alguém. Janete não atendeu. Passavam das oito horas, ela já devia estar na empresa! Ligou para Rita, a telefonista. Também não atendeu. Walter, o diretor geral nunca saia da sala dele. O telefone tocava lá e Walter não atendia. Aquiles achou estranho que ninguém atendia o seu chamado. Será que era domingo e ele não sabia? Não pode ser! Pelas suas contas era terça-feira. Resolveu mudar de roupa e ir até a sala da secretária. Colocou uma máscara cirúrgica descartável e calçou umas luvas para poder tocar nas maçanetas sujas. Pouco depois descobriu que a mulher não estava na sala dela. Não havia ninguém naquele andar. Será que todo mundo se escondeu dele? Ele resolveu seguir adiante e desceu para o outro pavimento. Ali também não havia ninguém. Desceu mais.

O edifício estava vazio, deserto. Ele temia ir até o saguão, onde muitas pessoas transitam trazendo micróbios da rua. De repente, ouviu murmúrios. Vinha do laboratório de microbiologia, no subsolo. Abriu a porta corta-fogo, desceu as escadas. As lâmpadas se acenderam automaticamente. No laboratório não tinha ninguém. Os instrumentos e aparelhos estavam em ordem e higienizados, os armários com as poções, as fórmulas, produtos químicos, vírus e toxinas, tudo aparentemente em ordem. 

Súbito, soou uma risada. Ele girou de um lado para outro. A risada vinha de algum lugar que ele não conseguiu identificar. Aquiles cambaleou, assustado, esbarrou na mesa. Vidros caíram, se partindo no piso. Estilhaços voaram para os lados. Produtos químicos escorreram para o chão, soros, poções, cultura bacteriana se misturaram entre frascos partidos. Toxinas, germens, micróbios e vírus se espalharam pelo ar. Uma sirene começou a soar. Portas foram lacradas. As luzes piscaram. Aquiles tentou abrir a porta, mas estava trancada. Ele levou as mãos à cabeça. O barulho das sirenes era ensurdecedor! 

O homem começou a sentir um calor infernal, mas não havia nenhum fogo na sala!  Ele começou a transpirar. Despiu o paletó, depois a camisa. Andou de um lado para o outro a procura de uma saída. Só tinha uma porta e ela foi lacrada. Havia germens e vírus por toda parte. Micróbios, ele os sentia nas mãos, nos braços, eles entraram pelos poros, pelo corpo inteiro.  A pele começou a ficar vermelha e a coçar. A coceira era tanta que ele coçou violentamente com as unhas até os braços ficarem em carne viva. Aquiles urrou de dor. Rodopiou numa dança louca. Sua vista ficou nublada e ele esbarrou no armário. Mais vidros quebrados. Uma névoa cinzenta começou a brotar do piso.

 Aquiles sentia que seu corpo estava sendo consumido pelos germens vírus e micróbios. As carnes se tornaram flácidas primeiro, depois escorreram dos ossos como uma pasta gelatinosa. Suas pernas descarnadas não suportaram mais, sem tendões, se dobraram e se desconjuntaram. Os dedos sem carnes e músculos não conseguiram se segurar na beira da mesa, se partiram nas juntas e caíram quicando pelo chão. Os últimos pensamentos de Aquiles foram como um fiapo de fumaça que se desfaz no ar. Sua última visão foi a mulher de preto com os lábios escarlates e os olhos como duas lívidas estrelas brilhando no miasma negro em que ele, por fim, mergulhou.

 

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DO PÓ AO MINERAL

Planeta K Dick

Ano 2045

O pouso em K Dick foi suave. Quando o jato de plasma dos retrofoguetes atingiu a superfície, a poeira do solo rochoso ergueu-se numa nuvem compacta na forma de um cone, depois, uniforme, voltou a cair pesadamente. Minutos depois, o astronauta saiu da espaçonave, vestindo o seu traje protetor.

– É como caminhar na lua da Terra. – disse ele pelo microfone, para os controladores de voo da estação espacial. – A paisagem é igual, com poucas diferenças nas cores, talvez por conta de minérios raros. Vou dar uma caminhada pelas imediações e recolher algumas amostras.

– Tenha cuidado, Bukowski. Não vá rasgar seu traje em alguma rocha pontiaguda.

– Terei, não se preocupem.

Depois dessa conversa, Bukowski não falou mais nada e nem respondeu às perguntas dos técnicos. As horas foram passando, dias e semanas, nenhum sinal. O astronauta foi dado como morto. Mas, o que aconteceu a ele? 

Voltemos um pouco no tempo…

Bukowski estava colhendo pequenos fragmentos de rochas e colocando num recipiente apropriado. Ele não percebeu que pequenos cristais grudaram em suas botas. Os minúsculos cristais de feldspato começaram a subir por suas pernas, absorveram o tecido da roupa, chegaram na carne, penetraram no sangue e consumiram Bukowski. Antes de se desfazer e se esfarelar como pó, ele já estava inconsciente. O planeta transformou-o num de seus elementos. O astronauta agora, faz parte do solo de K Dick. 

4 comentários em “O Diário – Conto (Antonio Stegues Batista)

  1. pedropaulosd
    13 de maio de 2020

    Gostei do avanço cronológico dos contos e das premissas que, simples, tiveram em sua grande parte desfechos brutais, a descrição dando bem a ver o grotesco que permeia todas as leituras. Naturalmente, gostei de uns mais do que outros (acho que o meu predileto foi o dos sapatos) e vi algumas vírgulas mal colocadas e um “intensão” que deveria ser “intenção”, coisas a serem cuidadas durante a revisão.

    Parabéns. Abraços.

  2. Fheluany Nogueira
    11 de maio de 2020

    Bizarro e cruel com deve ser o terror verdadeiro. Parabéns pelo trabalho. Abraço.

  3. Nivartan
    11 de maio de 2020

    Confesso que comecei a ler o primeiro parágrafo desinteressado como o começo de qualquer leitura estranha, mas depois fui sequestrado pela história. E que conto! Parabéns pela escrita. Grande abraço.

  4. Cilas Medi
    10 de maio de 2020

    Olá Antonio.
    Nauseante, necrófilo, parasitário, cruel, fedido, formando nódoas de horror no pensamento. Enfim, tudo que contos de terror são agraciados com talento, simplicidade e contusão.
    Parabéns!

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Publicado às 10 de maio de 2020 por em Contos Off-Desafio e marcado .