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Detox Literário.

E o seu nível de corrupção, como vai? – Clássico (Millôr Fernandes)

Dizem por ai que todo homem tem seu preço. Há quem vá mais longe afirmando que alguns homens são vendidos a preço de banana. Sempre esperei, na vida, o dia da Grande Corrupção, e confesso, decepcionado, que ele nunca veio. A mim só me oferecem causas meritórias, oportunidades de sacrifício, salvações da Pátria ou pura e frontalmente a hedionda tarefa de lutar.. . contra a corrupção. Enquanto eu procuro desesperadamente uma oportunidade, as pessoas e entidades agem comigo de tal forma que às vezes chego a duvidar de que a corrupção exista. Mas, falar em corrupção, como anda a sua? Vendendo saúde ou combalida e atrofiada como a minha? Responda com muito cuidado às perguntas abaixo e depois conclua sobre sua própria personalidade: você é um corrupto total ou um idiota completo? (Não há meio-termo.) Conte 10 pontos para cada resposta certa (você é quem decide qual é a certa) e verifique depois o grau de sua corruptibilidade. Nota: Se você roubar neste teste, é porque sua corrupção é mesmo absolutamente incorruptível.

A) Você descobre que o chefe do seu departamento está com um caso complicado com a secretária do outro chefe em frente. Você: 1) Finge que não viu nada. 2) Diz à secretária que ou também está, nessa ou vai botar a boca no mundo. 3) Oferece o seu sítio ao chefe pra ele passar o fim de semana. 4) Bota a boca no mundo. 5) Insinua ao chefe que há a perigosa hipótese de a mulher dele vir a saber (e enquanto isso põe a promoção embaixo do nariz dele pra ele assinar).

B) Você acha que a Lei e a Ordem é uma mística social maravilhosa para: 1) Impor a lei e a ordem. 2) Acabar com a grita dos descontentes. 3) Grandes oportunidades de ganhar algum por fora. 4) Dividir o bolo entre os íntimos sem ninguém de fora piar.

C) A primeira vez em que você ouviu falar do escândalo de Watergate você disse: 1) Isso é que é país! 2) Como é que o governo americano permite uma imprensa dessas? Isso desmoraliza um país! 3) Eu não compraria um carro usado desse Nixon. 4) Isso jamais aconteceria entre nós. 5) Quanto terão levado esses caras pra se arriscarem dessa maneira?

D) Você, como representante oficial da fiscalização, comparece à apresentação de contas, em dinheiro, no Instituto dos Cegos. Fica surpreendido com o alto volume das arrecadações e em certo momento: 1 ) Diz : “Estou surpreendido com a miserabilidade dos donativos”. E tenta enrustir algum. 2) Diz: “Como representante do fisco sou obrigado a reter 30 % de tudo porque esta arrecadação é totalmente ilegal”. 3) Diz: “Teria sido até uma boa arrecadação se metade das notas não fossem falsas”. 4) Disfarça bem a voz e diz, entredentes: “Todos quietinhos aí, seus Homeros de uma figa: Isto é um assalto!”

E) Você se demite do cargo de maneira irrevogável por insuportáveis pressões morais e absoluta impossibilidade de compactuar com a presente política da firma. Eles prometem triplicar o seu salário. Você: 1) Recusa, indignado, por pensarem que é tudo uma questão de dinheiro. Só ficará se eles derem também as três viagens anuais à Europa a que todos os diretores têm direito. E participação nos lucros retidos da companhia. 2) Diz que, evidentemente, isso e uma prova moral de que eles estão de acordo com você. O dinheiro, aí é definitivo como demonstração de confiança na sua gestão. 3) Pede para pensar 5 minutos antes de dar a resposta. 4) Explica que tem mulher e filhos e não pode manter um pedido de demissão feito, afinal de contas, por motivos tão irrelevantes.

F) Há uma diferença fundamental entre fraudar e evitar o imposto de renda. Quando você descobriu isso, você: 1) Ficou indignado com as possibilidades de os poderosos usarem tudo a seu favor. Como é que se pode escamotear um ordenado? 2) Começou a estudar furiosamente a legislação para descobrir todos os furos. 3) Tinha 11 anos de idade e estava terminando o curso primário. 4) Nunca mais pagou um tostão de imposto.

G) Você dá um nota de 10 pra pagar o jornal, no jornaleiro velhinho da banca da esquina, e percebe que ele lhe deu 50 como troco. Você imediatamente: 1) Corrige o erro do velhinho? 2) Reclama chateado aproveitando a gagaíce do vendedor: “Pô, eu lhe dei uma nota de 100?” 3) Chega em casa e manda todos os seus filhos comprarem vários jornais? 4) Bota o dinheiro no bolso e fica freguês?

H) Você teve que fazer um trabalho na rua, não pôde almoçar, comeu um sanduíche. Você apresenta a conta na companhia: 1) Um sanduíche — 3 cruzeiros. 2) Almoço — 32 cruzeiros. 3) Almoço com o representante da A&F Ltda. — 79 cruzeiros. 4) Despesas gerais — 143 cruzeiros.

I) Quando o desfalque dado pelo auditor geral (8.000.000 pratas) chega a seus ouvidos você murmura: 1) “Idiota, se deixar apanhar assim”. 2) “Será que eles vão descobrir também os meus 10.000?”. 3) “Se ele tivesse me dado 10% eu tinha feito o negócio de maneira que ninguém nunca ia descobrir”. 4) “Eu fiz bem em não entrar no negócio”.

Conselho de amigo:
Quando alguém, na rua, gritar “Pega ladrão!”, finge que não é com você.

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4 comentários em “E o seu nível de corrupção, como vai? – Clássico (Millôr Fernandes)

  1. eduardoselga
    29 de junho de 2019

    Interpretar adequadamente essa crônica (não entendo esse texto enquanto conto) passa por entender a origem social do autor. Millôr Fernandes, um dos mais profícuos escritores de sua geração, mormente contra a Ditadura Militar, escrevendo no Pasquim, é tipicamente um autor da classe média brasileira. Nesse sentido, volvendo ao passado, a despeito de sua importância no processo de democratização, o Pasquim não foi uma trincheira popular de resistência ao Regime, e sim de uma parte da classe média, a mais intelectualizada, que tinha apreço às liberdades democráticas.

    Essa mesma camada social, carregada de um puritanismo que em seu cotidiano não raro só existe enquanto discurso, paulatinamente foi se sentindo desiludida com os governos civis, e passou a colocar mais um tijolo na construção desse grande muro cultural que é o nosso famoso viralatismo, repetindo o velhíssimo discurso da corrupção.

    Essa crônica se insere nesse espírito. E há uma perversidade, alimentada pelo senso-comum presente em todas as camadas sociais: ela deixa claro que os brasileiros somos intrinsecamente corruptos, como se isso estivesse em nosso DNA. É uma perversidade. pois isso naturaliza a própria corrupção que, em tese, está sendo criticada pelo texto.

    Esse texto foi produzido, quase certamente, quando Millôr já tinha jogado a toalha.

  2. Ana Maria Monteiro
    24 de junho de 2019

    Até gosto de algumas coisas dele, mas não foi o caso. Este conto não tem nada de especial e ele poderia ter escrito algo muito melhor com a mesma ideia. Como se diz por cá: “Vale mais cair em graça que ser engraçado”. Como Millôr caiu em graça, nem precisou ser engraçado. Qualquer principiante aqui do EC consegue fazer melhor que isto com este tema.

  3. Fil Felix
    18 de junho de 2019

    Um texto bastante interessante. Uma crônica (ou uma crítica) disfarçada de questionário a respeito da natureza humana. Fica claro que o Millôr Fernandes tinha pouca fé na natureza idônea do ser humano, pelo contrário. Ao falar sobre corrupção (e também mexer com a vaidade do leitor, que pode se sentir incorruptível), ele trabalha com várias questões/ situações que pouco ou nada dão de opções que não sejam corruptas ou com o famoso jeitinho brasileiro. E é inevitável não se ver em pelo menos alguma delas. Confesso que o formato não é muito do meu gosto, mas uma boa maneira de escancarar a corrupção de cada um, de deixar o leitor inconfortável da próxima vez que apontar o dedo.

  4. Regina Ruth Rincon Caires
    18 de junho de 2019

    “Felomenal”…

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Publicado às 18 de junho de 2019 por em Clássicos e marcado .