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Detox Literário.

A Coisa nas Sombras – Conto (Omar Zaldivar)

– Já está pronto para gravar, pode começar quando desejar…

– Não sei se devo, não sei se irão acreditar em mim.

– Não tem que se preocupar com isso agora, apenas nos conte sua estória, por mais bizarra que ela possa parecer.

– Está bem, vou… Vou tentar, é muito difícil para mim, ainda tenho muito medo, minhas memórias daqueles dias são tão confusas, nada está muito claro… E aquela escuridão que vi em seus olhos…. Aqueles olhos…. Pareciam dois buracos negros querendo me sugar para algum lugar distante e solitário.

Aconteceu a um ano, era uma sexta feira um pouco mais das dez e meia da noite, estava saindo de um barzinho com algumas amigas, costumava fazer muito isso, sair com minhas amigas depois do expediente, eu tinha tido um período muito conturbado em minha vida, uma mudança brusca nas minhas relações pessoais depois de um divórcio litigioso muito desgastante, estava me redescobrindo como pessoa, como individualidade, como mulher, refazendo-me de todo o sofrimento passado. Estava saindo de um barzinho com algumas amigas, uma delas me deu carona até a esquina de minha rua, embora fosse tarde da noite sempre morei em um lugar relativamente tranquilo, meu prédio não ficava muito longe, a noite estava escura, um pouco fria, o que era normal para aquela época do ano, mas ao me aproximar do portão senti algo estranho, uma sensação incomoda, desconfortável e desse momento eu me lembro bem, a brisa fria que soprou meus cabelos e fez um gelo subir por minha espinha, a sensação estranha aumentou, olhei ao redor um pouco nervosa, sem nenhum motivo aparente e foi aí que tive a impressão de ver algo atrás de uma árvore do outro lado da rua, um vulto escuro, parecia um borrão disforme, indefinido, embora estivesse longe, eu o sentia próximo, terrivelmente próximo, seu olhar sobre mim, uma sensação de vazio, pânico e abandono se abateu sobre mim, abri rapidamente o portão e entrei, olhei novamente e não havia mais nada lá.

– Você disse para nós que essa Coisa, essa sombra passou a te perseguir todas as noites nas quais você saia, não é mesmo? Pode contar um pouco sobre isso?

– Claro, claro…eu conto sim.

Depois daquela noite na qual ela apareceu pela primeira vez, não foi incomum a Coisa surgir toda vez que eu chegava de algum lugar a noite, sempre no mesmo lugar, sempre observando. Um dia tomei coragem e fui até ela gritando, a Coisa simplesmente mergulhou nas sombras e sumiu diante dos meus olhos, nessa hora minhas pernas quase fraquejaram eu apenas corri para dentro do prédio desesperada, minha vida começou a se tornar um inferno, não queria mais sair de casa, comecei a faltar o emprego, evitava ficar até tarde na rua, as vezes eu me esgueirava para próximo da janela de madrugada para ver se estava lá… E estava. Sentia medo constante, não queria dormir, tinha pesadelo terríveis, sonhava que estava sendo perseguida por uma viela escura, sentia seu bafo quente e nojento, sentia seu toque frio e abjeto em meu corpo, acordava desesperada gritando. Comecei a me auto medicar, não dormia, não comia, definhando, uma morta em vida, aquela sensação de angustia, desesperação, impotência, eu sentia aqueles olhos, eu via aqueles olhos negros, eu conhecia aquele olhar sobre mim, me devorava, me lacerava a alma e não havia ninguém para me ajudar, as pessoas não acreditavam quando contava, estava só, perdida, destruída, psiquicamente esmagada, aquela presença era constante.

– Nos conte sobre a última noite…

Foi a noite na qual tudo aconteceu, era perto das vinte e três horas, tinha acabado de tomar um banho, estava resolvida em tentar relaxar um pouco, naquela noite A Coisa não havia aparecido, o que me transmitiu uma sensação de alivio, começava a imaginar se tudo não havia sido um sonho, ou melhor, um pesadelo, estresse pelos acontecimentos do passado em meu finado casamento, as vezes as marcas e cicatrizes podem ser muito profundas, com esses pensamentos na cabeça me deitei na cama e a exaustão logo tomou conta de meu corpo, relaxando meus músculos, apaguei como a muito não fazia, estava entregue e mergulhada em um sono pesado, vazio e sem sonhos, o que por si só já era um alivio enorme, mas algo me despertou bruscamente, um barulho, um tímido e discreto barulho de click, um rodar de chaves em fechadura, uma porta sendo aberta lentamente rangendo com mórbida suavidade, passos abafados no carpete, não era possível, não estava acontecendo, alguém havia entrado em meu apartamento, alguém abriu minha porta da frente com uma chave, e eu sabia quem era…A Coisa… Podia sentir sua presença no ar, ouvir seu respirar chiado, seu cheiro putrefato, sua voz gorgolejante e carregada de malicia, ela estava dentro de minha casa, ela queria me devorar, queria me possuir. Levantei da cama rapidamente, tateei no escuro buscando qualquer coisa que pudesse usar para me defender, nesse momento aquela sombra escura, com braços alongados foi adentrado em meu quarto, o chiado de sua respiração fez meu sangue parar de correr em minhas veias, ela estava lá! Estava lá! Com aqueles olhos de abismos, me condenando, me julgando, me culpando, senti em minha pele o toque frio e agressivo, o engasgar da violência, a brutalidade daquela Coisa maldita. Nessa hora tudo ficou muito nebulosas, lembro de ter encontrado algo em meu criado mudo, uma tesourinha daquelas de unha eu acho, não sei, o que me recordo e ter enfiado com toda as minhas forças na monstruosidade, consigo lembrar perfeitamente de seu uivo de dor e raiva, enfiei uma, duas, três, várias vezes, ela tentava me agarrar, me frear, me golpeava com fúria e dor, mais a cada golpe que eu desferia, mais fraca ela se tornava, a cada investida minha despejando todo aquele ódio, sofrimento, por todo aquele inferno que ela me fez passar, a criatura enfraquecia, gania, uivava perfurada, ferida, seu sangue espirrava por todos os lados, parecia ácido, até que por fim tudo escureceu e eu não enxergar mais nada.

– O que aconteceu depois?

– Eu lembro de ter acordado em uma maca de hospital, estava com dores em todo o corpo, marcas de agressão, parece que eu havia de fato lutado com a criatura, eles me contaram que um vizinho tinha ouvido os gritos em meu apartamento e ligou para a polícia e quando eles chegaram eu estava sozinha caída no chão, sangue para todo o lado, A Coisa não estava mais lá, mas estão procurando por ela e eu rezo todas as noites para que ela seja encontrada e destruída de uma vez por todas, não quero ter medo nunca mais.

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Um comentário em “A Coisa nas Sombras – Conto (Omar Zaldivar)

  1. Fabio D'Oliveira
    18 de janeiro de 2019

    O corpo é a beleza, a forma, o mensurável, o moldável. A alma é a sensibilidade, os sentimentos, as ideias, as máscaras. O espírito é a essência, o imutável, o destino, a musa. E com esses elementos, junto com meu ego, analiso esse texto, humildemente. Não sou dono da verdade, apenas um leitor. Posso causar dor, posso causar alegria, como todo ser humano.

    – Resumo: Uma mulher faz seu depoimento. Uma criatura das sombras, a Coisa, persegue-a por todos os lados. Vai consumindo sua sanidade, aos poucos, até a fatídica noite que invade sua casa. Depois de uma breve luta, ela desmaia. Acorda no hospital, machucada e, finalmente, livre da criatura. Por agora, pelo menos. Assim termina a história, revelando sua história para desconhecidos, esperando, por fim, o bom descanso que talvez esteja longe de aparecer, ainda.

    – Corpo: Omar, vou te falar, não foi fácil ler seu conto. Ele é muito precário, principalmente quando se trata de sua parte física. A narrativa é extremamente afobada. Atropela-se o tempo inteiro nas ideias, repetindo-as, como na parte em que você cita que a narradora estava com as amigas saindo do bar, para logo em seguida, algumas frases na frente, repetir a mesma coisa. A condução acelerada demais não ajuda na criação do suspense e do clímax. Em alguns pontos, por exemplo, você escreve frases tão longas, abusando sem dó das vírgulas, que ultrapassam dez linhas. Antes de qualquer coisa, respira fundo e escreva com calma. Tanta agitação assim não é necessária. Veja bem esse trecho:

    “Foi a noite na qual tudo aconteceu, era perto das vinte e três horas, tinha acabado de tomar um banho, estava resolvida em tentar relaxar um pouco, naquela noite A Coisa não havia aparecido, o que me transmitiu uma sensação de alivio, começava a imaginar se tudo não havia sido um sonho, ou melhor, um pesadelo, estresse pelos acontecimentos do passado em meu finado casamento, as vezes as marcas e cicatrizes podem ser muito profundas, com esses pensamentos na cabeça me deitei na cama e a exaustão logo tomou conta de meu corpo, relaxando meus músculos, apaguei como a muito não fazia, estava entregue e mergulhada em um sono pesado, vazio e sem sonhos, o que por si só já era um alivio enorme, mas algo me despertou bruscamente, um barulho, um tímido e discreto barulho de click, um rodar de chaves em fechadura, uma porta sendo aberta lentamente rangendo com mórbida suavidade, passos abafados no carpete, não era possível, não estava acontecendo, alguém havia entrado em meu apartamento, alguém abriu minha porta da frente com uma chave, e eu sabia quem era…”

    Irei reescrevê-la com mais calma.

    “Era perto de meia-noite. Lembro porque tinha acabado de assistir minha série favorita na televisão que sempre começava onze da noite. “The Killing”, já viu? Bem, tomei um banho, decidida a relaxar um pouco, e fui para o quarto. A Coisa não tinha aparecido até então, o que era um grande alívio para mim. Fui deitar mais leve, mesmo que ainda pensasse sobre meu finado casamento, sobre meus erros, sobre a vida que tinha sobrado pra mim… Sabe, às vezes as cicatrizes são muito profundas… Demora um pouco para a dor sumir. Enfim… Adoro deitar de lado, de conchinha com um travesseiro, e logo a exaustão do dia-a-dia me dominou. Praticamente desmaiei. Não sonhei. Até que acordei com um barulho vindo da sala. Sempre tive o sono leve, entende? Mesmo cansada, basta um barulhinho que, pronto, acordo. Era a porta de entrada. Um click baixinho, tímido e terrivelmente assustador. O som da fechadura destrancando ecoou na minha mente e congelei. E, em seguida, a porta abriu, rangendo com mórbida suavidade. Os passos abafados no carpete, ah, meu Deus, arrepio-me toda só de pensar nisso… Desculpa… Alguém tinha entrada na minha casa, sem minha permissão, e além da minha irmã, que estava viajando na época, ninguém mais tinha minha chave… Mas eu sabia quem era…”

    Olhe bem como o trecho pode ficar melhor. No seu estilo, sem essa afobação e repetições desnecessárias, você poderia escrever muito bem, pois consegue tirar umas coisas legais, como a parte da porta e seu rangido morbidamente suave — na vida real, seria uma situação de gelar o sangue! Aproveito e encaixo o próximo apontamento: a personalidade da protagonista. Eu me adiantei e dei alguns retoques no seu caráter, mostrando que tem uma irmã que é próxima e tem o temperamento sensível, mas você poderia fazer o que estivesse de acordo com seu planejamento. O problema é que você não deu nenhum toque na narrativa, algo que desse personalidade pra narradora, algo que a destacasse. A narrativa é fria e nem parece pertencer a uma pessoa. Isso, na literatura, é uma falha. Uma das missões do escritor é dar vida própria para o personagem, mundo e até para o enredo. Uma mania de linguagem ajuda muito nesses casos. Bem aplicado, fica ótimo. Eu coloquei, por exemplo, que ela precisa da confirmação e do interlocutor, repetindo no início ou final de frases coisas como “sabe, “entende”, viu?”, etc. Outra coisa que você precisa prestar atenção é na lapidação do texto. Você esquece de pontuar algumas palavras, como “alívio”, que é usado duas vezes no trecho que destaquei e reescrevi. Ah, também esqueceu da crase no “às vezes” na mesma parte que acabei de mencionar. Como disse antes, e vou me repetir, vá com calma. A arte de escrever é a arte da poda. Depois que terminar o texto, espere alguns dias e volte a lê-lo. Corta uma parte, adiciona outra, vai trabalhando com tranquilidade. Se não tomar uma atitude mais crítica, mais séria, irá continuar escrevendo de forma medíocre. Leia mais, bem mais, pra evitar erros bobos, como colocar “estória” no lugar de “história”, pois o último engloba todos os significados, enquanto o primeiro se refere unicamente à ficção. Foco, Omar!

    – Alma: É uma história de terror psicológico. O problema é que você falhou na parte técnica, desenvolvendo um texto sem estrutura para criar as situações necessárias para um enredo desse naipe dar certo. Um terror psicológica exige um tremendo suspense. As situações devem levar o leitor até o clímax num ritmo de suspense crescente. Quanto mais tenso e perturbador for, melhor efeito causará no leitor. Deixá-lo sem ar no clímax é uma das maiores vitórias do escritor. Outro fator que é praticamente uma exigência para esse tipo de história dar certo são os personagens. Eles precisam estar bem desenvolvidos. E como falei anteriormente, nem personalidade você conseguiu dar para a narração da protagonista, imagina então criar um ar de ser vivo para ela. Impossível, nesse caso. Querendo ou não, o enredo depende da parte física e técnica do conto para funcionar. São interdependentes. De nada adianta uma história maravilhosa se o corpo é tosco. E de nada adianta um corpo maravilhoso se a essência é vazia. O máximo que se torna é um simples entretenimento para algumas pessoas, nada especial, mesmo tendo o potencial.

    – Espírito: Uma escrita precária, oferecendo uma leitura que mais machuca do que encanta. Uma história de terror psicológico sem suspense. Uma protagonista sem vida. De tudo que foi oferecido, só posso chegar numa conclusão: talvez não tenha talento aí. Se existe amor pela escrita, digo que não deve desistir, pois existem inúmeros escritores profissionais com boas técnicas e se talento. Talvez seja bom ficar somente no campo do hobby e procurar se focar nas suas vocações. De qualquer forma, faça o que o coração e a mente mandam!

    – Conceito: Latão!

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Informação

Publicado às 17 de janeiro de 2019 por em Contos Off-Desafio e marcado .