EntreContos

Detox Literário.

Vivo – Conto (Julia Alvim)

Berto cumpria um tipo de devoção que já lhe usurpava a metade do dia. Não era fácil retardar o tempo à medida que observava a ganância de Tijão. Sua cara pedia misericórdia e impudico lavrava as palavras que preferia. Queria que apartasse seu jeito porque rejeitava ser de outro lugar. Tijão era daqui mesmo, e sempre convivera com os vizinhos que espiava do portão. Latia pouco e ladrava o que seu instinto sabia. Retardar o tempo, porventura, parecia dirigir-se ao trabalho e encontrar todos os que amava durante a semana. Com facilidade comunicava-se, e a timidez assim evaporava-se naturalmente. Cultivava suas afeições sem complexos, porque esses, ele não revelava aos inimigos. Era músico e compactuava o aprendizado com diferentes personalidades.

      Na escola pesquisavam e ensinavam. Berto se atinha ao violão, porém a matéria era música. Não somente música se aprendia ali; história, medicina, psicologia… Também. Vocês podem ver que se tratava de um lugar especial onde os alunos realizavam suas funções. A rotina compunha-se nos ensinamentos. Na metodologia de cada um é que se fixavam as preferências. No refeitório a algazarra era sempre comum e durante o recreio os amigos se fortaleciam. O pátio atraía as pessoas regularmente através de uma frieza delicada e consequentemente as ideias trocadas ali ecoavam interessantes e misteriosas, ao passo que ninguém podia compreender algo completamente. Pudesse Berto saber da vida de Mayara, ou da de Solange… Era um apaixonado, mas continha-se em seus anseios por saber da doutrina religiosa que lhe esclarecia as incertezas.

      Quando os professores dirigiam-se às salas, os que pretendiam ser mestres obedeciam sem pesar, e logo a aula terminava. Este momento urgia em cada compartimento. Não sempre as aulas aconteciam nas mesmas salas. Enquanto escutavam já executavam, e as dificuldades expostas eram emendadas às aptidões. O problema específico de hoje infundia o tema Organização: resolveram todos saírem das salas para colocar as cadeiras em círculo no pátio e anotar os tópicos escolhidos entre eles. Dez palavras vingaram ao final da votação, divididas entre as quatro turmas das diferentes matérias.

 

      Tijão dormia na poltrona e Berto matutava as duas palavras que só eram segredo para os alunos dos outros professores, e logicamente, ainda para Tijão.

      -Pega! Berto acordava o amigo para saber se adivinhava o que era.

      O sono dele estava profundo, então abriu os olhos dizendo que não se incomodaria com aquilo. Não queria pegar coisa alguma, e se espreguiçou comodamente. Vagaroso deixou a cabeça apoiada no chão para ver.

      -Abecedário! Abecedário! Almejava a resposta do cachorro.

      Nada o mobilizava, Tijão apenas sorria feliz.

      Derrotado preferiu atirar um pedaço de pão em direção ao quintal e invariavelmente o sucesso foi absoluto.

      Em frente de casa o cão repentista já engolia a comida e continuava a sorrir platônico. Era um vira-lata charmoso, de porte pequeno, que espreitava sem malícia.

      Berto pegou o banco de madeira e sentou ali fora. A questão era analisar a repercussão que “abecedário” suscitava. Era uma das palavras sorteadas para a sua turma e começava a inventar algo que tivesse respeito ao desenvolvimento que viria. Distribuiria tambores a todos, e a cada batida, um termo surgiria para cada letra. Supunha as caras dos alunos ao evocarem suas ideias, e a segunda palavra sorteada viraria uma improvisação a partir deste começo. Sabem qual era a segunda palavra? ORGANISMO.

      Naquela casa pequena ambos existiam. Era fácil e bom conviver daquele jeito. Combinavam no modo de ser e os caminhos ali dentro entrecruzavam-se harmônicos. A cada dia uma novidade acontecia porque os amigos cutucavam os hábitos através da observação e das investigações: Berto lia, cuidava das plantas, restaurava as coisas… Tijão delimitava o espaço, brincava, tomava conta… No quintal do fundo Berto tinha montado um ateliê de música com instrumentos, fotos, e objetos específicos. Ali perdurava facilmente. No canteiro, perto ao tanque, cultivava uma horta de verduras e legumes. Havia feito uma cerca improvisada para prevenir os possíveis estragos de Tijão. A casinha pintada de azul-marinho encostada perto do armário de ferramentas era o dormitório que o cachorro adorava. Dormia sempre ali.

      Especialmente, Berto comportava-se inquieto durante o dia. Imaginava poder existir aos três tempos. Isso introduzia uma agonia em si, mas o apego à ideia da coexistência do passado, futuro e presente gerava um pensamento transcendente e incomum transportando os limites da lógica para uma linha de raciocínio diferente. Havia o que realmente havia, apesar disso, vivia também os desejos futuros como uma projeção daquilo que seu espírito construía cotidianamente. As cobiças deste moço não aguardavam a passagem dos acontecimentos, simplesmente elas assumiam a forma ilícita dos sonhos e apoderavam-se do estado que permanecia.

 

      -Ameixa!

      -Bacia…

      -Carmim.

      -Defeito!

      -Éden…

      Convertido pelos alunos Berto percebia que o abecedário tornava-se uma música marcada pelos tambores, onde cada batida liberava a noção abstrata daquilo que cada um imaginava, então, por meio da palavra “ORGANISMO” os gestos e as ações foram aparecendo e definindo o estado da criação. Alguns ficavam com medo, mas no decorrer da repetição as representações adquiriam personalidade e o falar de cada um saía espontâneo expressando a vontade de lutar por aquele organismo inventado. Aquele corpo organizado era um dragão que soltava fogo e dançava o teatro que surgia. As características dos expoentes causavam surpresa manifestando diversas gueixas. Gueixas gigantes, pequenas, gordas, masculinas, femininas, inexplicáveis… Ivete quis dar um nome a sua: Brancura.

      Inventaram uma história para cada personagem. As gueixas tornaram-se dançarinos kabuqui, e todos conversaram para concluir a narrativa. Ensaiariam com os tambores para apresentar o resultado para as outras turmas. Ivete e Daniel seriam os lutadores festejando a partida para uma nova competição. Dialogariam muito pouco enquanto os outros cantariam e trabalhariam a mímica do dragão. Os lutadores não manipulariam os tambores, mas em compensação dançariam e lutariam.

      As pessoas eram bem sociáveis naquele convívio. Desembaraçadamente perguntavam coisas, ou quando um novato aparecia, logo se enturmava sem sofrimento, porque não seguiam nenhuma norma tirânica. Encontrá-los era identificá-los com as mesmas crianças participantes da infância. Mudavam de nome, contudo, o espírito era o mesmo. Podiam não ter a consciência disso, o que provava a capacidade de os sentimentos e as recordações transgredirem o absoluto da vida. Por isso, a memória que tenho de ti, me faz recordar os teus traços verdadeiros! E não sabes disso. Pelo menos enquanto houver motivos para isso, e motivos não faltarão. Na evolução, vou lembrar teus anseios, e me dirás -já sei. Estarás rejuvenescido e me sobrepujarás quando replicar os teus desejos sobre mim. Assim te direi quem és.

      Durante os preparativos, cada turma inventava a sua forma de apresentação. Tudo era segredo. A inquietude morava nas pessoas, mas os médicos descobriam primeiro quem revelava as confidências, e se defendiam do alheio perguntando aos psicólogos se gostariam mesmo de saber antecipadamente os resultados que apareceriam até a conclusão dos projetos. Em uma semana as palavras seriam conhecidas publicamente. Alguns pareciam comportar-se como adúlteros, porém, redefiniam as certezas humanamente. No fundo gostavam de cortar as pessoas, costurá-las e amarrá-las… Eram o que estudavam. Ninguém lutava contra isso. As consequências pareciam insanas, e não eram. Somente Berto entendia isso. Não eram insanas porque permutavam a arte e a adoravam respectivamente…

 

      -Brancura pediu para você se afastar. Ivete guardara o punhal.

      -Moço Feliz não vai desviar o olhar. Daniel rompia os preceitos e não transgredia a luta.

      

      Podia me perguntar o que um músico fazia entre historiadores e enfermeiros dificultando o aprendizado dos alunos ao tempo em que riscava o agogô, e a beleza já me impedia a resposta. Solange batia à porta e pedia um copo de café.

      -Na minha sala não tem e estou morta de sono. Solange sonhava ser psiquiatra.

      -O açúcar está na copa. Berto projetava as imagens de “A Arte de Correr na Chuva” de Garth Stein, então passou pela parte de trás da sala para fechar a porta porque a luz já atrapalhava a visão dos futuros artistas.

      -Você acha que a disposição das cadeiras não está muito apertada? Lori Lamby queria ser a cabeça do dragão.

      Talvez vocês não conheçam Lori Lamby, nem eu; mas sei que era uma criação da talentosa e famosa autora Hilda Hilst. Essa estória ainda me era desconhecida, mas Adelaide não gostava de seu nome verdadeiro… Lera a estória fantástica e adotara o pseudônimo para si. Quando a chamavam pelo nome real, detestava.

      -Não Lori, as cabeças estão separadas. Berto sondou.

      -Posso ser a cabeça do dragão? Pleiteou a ideia.

      -Vamos ver como vai ficar…

      Confesso que foi a melhor solução. Aquela menina tinha o vigor necessário para arrastar a cauda que lhe perseguia, e sua ironia já silenciava ao sorriso que avançava flutuando sobre o ar. Cedo havia me dito sobre “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, o título do livro da Hilda, e supunha que sua sapatilha seria rosa-choque. Enfim a de todos. Ao final da aula todos guardavam os objetos com cuidado no armário e decoravam a cantiga.

      O expediente vingava atraindo os que sempre se agrupavam por instinto. Caminhávamos eu e o Zé até o bairro chinês, dali, rumaríamos separados. Andei mais cinco minutos, e, um pouco depois, Tijão já desfrutava a espera.

      O Zé tinha um bom ouvido, e vez em quando, demorávamos no ateliê. Dominava o violão com facilidade e aprendia rápido. Era um dos meus alunos. Tijão gostava dos nossos festivais. Assistia-nos relevante.

      A cidade era imensa, desfigurada e violenta. Naquela passagem até aqui havia me acostumado a ela. Frequentemente matava a fome nas padarias, descobria atalhos destinado a saber do habitual, e gozava as possibilidades oferecidas. Nascera em um local parecido, talvez distante um continente. Cheguei a este lugar porque mereci. Difícil ordenar uma vida quando não queremos dizer de onde somos. O pouco do mundo que eu conhecia assemelhava-se muito com aqui. Qual um dia passado em Nova Iorque, mas foi em Nova Orleans que encapuzaram minha vida. Viajava sempre e não sabia poupar. Era exatamente este atalho que me atravessava nos olhos. A escravidão vencera os domínios quando sonhava com o duelo de guitarras; e Bob Dylan era um homenzinho que levava sua gaita aos bistrôs, invisível à ocasião, porque arrancavam os cartazes em vigília zelando por um preconceito legado. Finalmente São Paulo silenciava…

 

     

      “Eu te disse também.” A voz de Sabrina repetia aquele som macio à memória de Berto. Ela aprendia enfermagem e se aplicaria em cirurgia quando completasse a faculdade. O fato de ser travesti a destacava perante os dissidentes. A vantagem era essa. Convivíamos com pessoas em diferentes aptidões e atraía-nos por outros pensamentos. Sabrina ecoava bela na cauda do dragão entoando mais as consoantes, porque a persuadira para meu projeto. Era comum permutarmos as turmas.

 

      -Ajoelhe-se! Brancura girava com as duas mãos a segurar o punhal até encarar Moço Feliz novamente.

      -Erija os braços! Moço Feliz se ajoelhava.

 

      A cantiga modulava mínima. Contava sobre o folclore. A pequena menina cresceria desafrontando o país. Seus poderes mágicos transforma-iam-na em diversos seres, e sua intensidade alastraria-se-ia ao enfrentar a ambiguidade do dragão. Enquanto redescobriam a imobilidade da sustentação, a carcaça tremia para dizer que redobraria o combate. A língua amarela esvoaçava, e a melodia dos atores soava… Não sei mais continuar a canção que inventei… O meu próprio personagem diz… Tocando piano… Qual a nota do piano… Era do folclore… Inventado personagem… Eu lembrava a cantiga inventando personagens… Tocando piano… Do folclore… Toca do piano. Os tambores acabavam juntos.   

 

      A heroína grita baixíssimo a agudez de sua dança. Igual estátua de si, ela ergue o punhal. Sua ingenuidade é horrível. O guerreiro fechado em concha permanece emudecido a seus pés num sinal de princípio…

      O dragão terrível e inexpressivo cinge tilintando os caracois num leque quando ataca. Normalmente sua cabeça é mais alta para se aproximar de pequenina, inerte e voraz…

 

      

      Tijão ladrara estraçalhando o pano que vestiria o dragão. Era um cetim velho. Agora seria obrigado a comprar um novo corte. Escolheria um verde bem forte.

 

      A fraqueza do dia chamuscava o permanecer na escola. Aquele dia não havia ninguém por ali. Adivinhava a probabilidade de ser só até desistir de estar pensando em algo diferente. Quis de fato sentir o que representava aquele espaço vazio, porque a precisão da cena ensaiada não me saía da cabeça. O dragão olharia espalmado para trás quando devorasse a heroína, ou jazeria contorcido se não decidíssemos pela derrota do monstro…

      Quantificava as ideias lembrando os ensinamentos dos livros. Ocupariam a cena naquele pátio vazio. As cadeiras cercariam as paredes. Acabara de optar pelos dois finais.

    

      -Brancura venceu a luta! A menina chora no momento que Moço Feliz reage junto ao dragão contraído.

      -Moço Feliz sepultará a guerreira.

 

      Quando Brancura crava o punhal entre os olhos do dragão, ele a devora instantaneamente. Dobrado ele termina. Moço Feliz representa então a narrativa da vida de Brancura, e assim, a carrega nos braços rumo às montanhas…

 

      Devia já saber a importância dos outros projetos, mas mergulhava em palavras delatadas desde o começo, e calculava as sobras redestribuídas. Com certeza, a palavra lógica ficara no plano dos médicos. Eles, metódicos quando lobotomizavam seus pacientes, eram cordiais. Chegaram, pois, divinizados, vestidos de branco, sem máscaras e luvas para dançar o pau de fita. Aquele colorido contrastava-se à dificuldade de trançarem as fitas, e não trombarem a tempo de gritarem o olé e reinverterem a roda. Manoel era quem carregava o estandarte. Começamos a bater palmas para ritmar o festejo. Minhas fitas eram todas vermelhas… O dragão cedia aos desejos arrancados enquanto rastejava… E rastejaria depois, na confraternização. Tínhamos sido os primeiros a nos apresentar…

      Quando os psicólogos chegaram juntos com os historiadores, lambemos os beiços: haviam feito guloseimas e qualidades diversas de alimentos. Surpreenderam à ocasião ao misturarem os ingredientes e conceberem tamanhas coisas.

 

      -Se realmente você precisar de ajuda, eu não deixarei de arranjar ao violão. Sou um futuro médico, e descobri sua preferência a perverter a ordem das coisas. Simpático eu não lhe deixo, mas esqueço agora quem é você. Durante a festa o seu sorvete com chocolate e doce de leite respingou no chão, e eu prefiri palmier. Meu nome é José, vulgo Zé para os íntimos, porque reconheço a nostalgia que há nesse mundo. Não quero deixar de cuidar de você, também preciso de liberdade. Lembra quantos anos você tinha quando engatinhava no dia em que sua mãe morreu? Eu descobri esta história e pressinto sua solidão. Zé dedilhava resguardando a própria conversa.

 

      -Quando danço não me confundo. Não estou dançando agora. Preciso me divertir sem martírio. Você sabe que não sou poeta, e o meu ligar não é para você. Eu ligo, e vejo os recados. Quero saber quem recebeu meus beijos. Sou assim. Uma psicóloga evidente. Relato as teorias, mas você não passou onde imaginei. Eu passarei, envelhecerei e retornarei para saber quem é que me liga. Aqui ficou gravada uma mensagem, e eu reverterei sua história de acordo com o bem que acredito. Mayara seduzia nas elocuções de suas fantasias.  

      -Em minhas preces eu quis voar, e nesse dia os meus amigos prometeram voltar. A felicidade que eu sinto escravizou um pouco a vontade de fazer você se aproximar. Então sou exatamente seu ser. Amo muito a você. Nas altitudes prevaleço leve porque ajo como sua dona. Realmente amo muito. Eu era um dançarino kabuqui a triturar a colheita. Cantei “A Cantiga do Começo” provando recomeçar meu colhimento. Assim, a cabeça transversa foi a cóclea do fim inoportuno. Não sou mais o dragão da maldade, e não também a continuidade do ser. Acho que renasci e voltei enquanto detonava os artifícios e gritava aleluia. Lori Lamby escrevia em seu caderno. Hoje não era o mesmo caderno, mas um livrinho prensado igual a um minúsculo livrinho, e suas páginas originais estavam todas brancas…

 

      -As pessoas escutaram o que eu disse antes de a palavra numeração ter sido sorteada para o projeto de medicina, e me perguntaram algo do tipo “com quantos paus se faz uma canoa?”. Por isso me sinto na obrigação de reler as dez palavras sobre o nosso tema ORGANIZAÇÃO: ordem, numeração, metodologia, abecedário, ritmo, lógica, conhecimento, mutirão, organismo e disposição. Isso é para lembrá-los da nossa trajetória. Berto conseguiu me convencer a participar do projeto de música e por isso, reconheço agora em mim, a força extraordinária da arte. O que eu disse antes do sorteio, era para mantermos a surpresa sobre os trabalhos no decurso da realização, e verifiquei que em grande parte, obtivemos êxito. Parabéns a todos nós. Sabrina esforçava-se enquanto procurava manter um ar eloquente disfarçando o embaraço que sentia…

 

      -A semana passada os meus braços já estavam muito mais musculosos de tanto segurar o estandarte. Ali de dentro eu era obrigado a acompanhar o bailado levantando e abaixando um pouco o pau da coroa, atento ao que os trançadores iam fazer. A minha cabeça de rei vergava ao centro da roda e vocês eram tão alegres quanto eu. Eu via diferentes tipos de alegria num público distraído de tanto gozar… Vocês também contavam as suas estórias, e furtivamente, porque à medida que absorviam as nossas folias, elas, sem demora, sobrevinham à réplica do nosso acreditar. Vocês conversavam diante do cortejo julgando sermos o séquito. Tornei-me poeta ao diagnosticar as estranhezas do meu trabalho. Quando damos com doenças, acostumamo-nos com isso. As fitas atavam e desatavam ao limite do atravessamento da dança, e as enfermidades também. Manoel amava seu rei…

 

      -Assisti-los me satisfaz. Enquanto misturávamos massas e geleias, construíamos o caráter de cada um. Gosto quando verifico a presença de vocês nas caras dos doces e salgados. Íamos da cozinha para a sala extraindo os aromas e medindo as pitadas. Ao calor do forno refletíamos entranhando a quentura dos pães. Esperar o bolo corar tragava a percepção para uma trajetória gradativa. Nossos rostos também coravam, e logo os azulejos esfriavam a sensação do quente que sentíamos. Equilibrávamos em bandejas os nossos resultados. A ideia inicial era os psicólogos terem feito somente os doces, mas não resistimos à tentação de infringir o trabalho dos historiadores. Juntos dissecávamos a HISTÓRIA e a CULINÁRIA... Neste exato momento sabemos mais como servir de acordo com a época, consequentemente nos tornamos, além disso, chiques! Solange deduzia ajustando as opiniões conformando-se com os resultados descobertos.

 

      -Moço Feliz impôs certa vontade em mim. Sou mais leve depois de me fincar nos movimentos da águia ao compor o guerreiro. A vida inventada quis existir e intercedeu neste pertencer. Para mim vocês estavam nus doutrinando o que a vergonha invadia. Ela não era percebida, porque sobrava em nós. Humilhado a gente confundia o acanhamento, e então o dragão castigava aproveitando-se do rito pagão. Sua virtude era a beleza, e a nossa, o cantar. Sobrepujávamos a ignorância solfejando palavras escolhidas para abrir qualquer porta, e a cauda gigante perseguia compassadamente. Daniel aguçava.

 

      -Agradeço tudo quanto foi permitido. Brancura também sentiu isso. A semelhança comigo veio atordoar meu espírito. Lutar e ser assistida equivaleu a brincar de passa-anel. Estava ligada a vocês, mas o dragão era forte. O elo entre nós confirmava quase emudecido quando eu rodopiava com o punhal, e elevada combatia. Ivete tragava os sons decifrando as consequências vividas…

 

      A expressão interrogativa de Tijão amplia assustadoramente a hipótese que eu imagino da coexistência dos tempos. A cada acorde executado o violão irrompe ajustando o limite entre as vidas que tenho. Posso agora saber que os meus outros eus perambulam diariamente atando os caminhos do infinito. Quero encontrá-los e adivinhar suas vidas. Porque eles têm estes nomes? Talvez a origem disso determine o tempo decorrido entre o nascimento e a morte. Sofro ao me reconhecer em outro ser, e os sonhos interferem nisto. A memória permitiu lembrar até aqui, porém minha pessoa é original. Se compactuei destrinçando minha alma, é porque os anjos são guerreiros imortais. A convicção de viver “até certo ponto” exemplifica a união destes seres: quando acordo sou; e ao entrar no chuveiro, transito nas vidas que tenho. Tudo isso tem a ver com a devoção indagada, e por isso, Tijão só reconhece realmente quem sou. Sou Berto, mas posso ser Ivan. E ele me diz que sou apenas Berto.

      Brinco num jeito de saber se estas minhas diferentes vidas namoram outras… E a gargalhada manifesta a culpa do encosto descarado. Os outros eus do meu verdadeiro amor, quando existem, procuram-me revelando suas entidades; mas não sucumbo a um pecado mortal. Posso conhecê-los sem seduzi-los. Reunir-mo-íamos cautelosos carregando tochas acesas afugentando os entes impuros que desapareceriam enaltecendo a fuligem da reparação…

      Redimir significa prosseguir cultivando esta vida. Da janela estamos amadurecendo os pensamentos, e a liberdade nos consagra daqui. Quando retorno ao ateliê o mundo daqui é o mundo de lá, e já sei de onde vim. Viajei para cá, e meus amigos são outros. Quando menino a família passeava. Viajávamos o centro da América do Norte. Os imensos vales verdes branquejavam com a neve e os rios transportavam os seguidores. Os índios demarcavam o território e o convívio sedimentava a pureza das raças. Quero depositar os meus sonhos no exotismo porque acredito que o mundo exige a qualidade de paraíso. Acho repugnante a degradação, e quando aceitarmos que independemos de impostos e cifras, seremos plenos. O absoluto nos pertence agora, e o quanto terei para sobreviver, significa exercer.

      Neste lugar vinculo as aparições de minha mente. Elas evacuam as dúvidas e proliferam os elementos vitais. As paredes escrevem, os armários guardam, as pias lavam… Minha voz acaricia o atrito porque cantou demais. Os dedos calejam ao exercício dos instrumentos. Os pés agitam o que deve ser acalmado. Rego as plantas que se presenciam míticas. O universo das flores e folhas é um riacho sob o teto. Lembro-me do telhado e gosto das telhas de barro…

      Regressar enquanto duram os seres, acalenta os sulcos da Terra, e persistirei deste modo. Não posso voltar. Retornar já é prosseguir. Os lugares vividos estão transformados de acordo. Meu olhar engrandece porque não posso parar. Partirei e tornarei a partir. Quando me unificar, o tempo certeiro provará o espaço percorrido. Dar um passo é chegar ao futuro. Galopo atravessando este tempo. Meu cavalo escuta a natureza sendo o mensageiro da compreensão. Tijão também corre. Quer descobrir a alcateia. A sua vira- latice cruzará suas cores…

      -Au, au, au, au, au…

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Publicado às 18 de maio de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .