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Detox Literário.

A escuridão no fim da escada – Conto (Antonio Stegues Batista)

Sempre que chego em casa depois das aulas na universidade, dou uma checada nos e-mails, antes de dormir.

Naquele dia não foi diferente, mas um dos e-mails me deixou surpreso e intrigado, a ponto de eu perder o sono.

A mensagem estava escrita em italiano. Como sou professor de arqueologia, pesquisador de antiguidades e línguas, falo alguns idiomas, entre eles, é claro, o italiano.  O remetente da mensagem era nada mais nada menos que o secretário-geral da Santa Sé, monsenhor Gaetano Pasquale.

Ele principiava dizendo que havia me encontrado através de um de meus artigos acadêmicos na internet e, naturalmente, da universidade. Não entrou em muitos detalhes, mas disse que, por solicitação do Camerlengo, me convidava para ir ao Vaticano examinar um documento antigo, escrito numa língua desconhecida, encontrado entre os alfarrábios da Biblioteca Apostólica Vaticana.

Afirmava que eu seria, naturalmente, remunerado e que, já tinha solicitado à universidade, em nome do Vaticano, licença para a viagem e uma passagem aérea para a Itália estava reservada em meu nome para segunda-feira.

Como era sexta-feira, eu tinha dois dias para me decidir. Me lembrei que o papa havia falecido e que haveria eleição para um novo pontífice. Será que aquele documento tinha alguma coisa a ver com a eleição?

Na manhã seguinte recebi um telefonema do reitor, me concedendo férias de trinta dias e uma boa viagem! Assim sendo, parti.

Quando cheguei em Roma, encontrei uma limusine à minha espera. No Vaticano me hospedei num dos apartamentos ao lado da basílica. Na manhã seguinte, fui convidado a comparecer no escritório de monsenhor Gaetano Pasquale.

O secretário me recebeu efusivamente. Eu estava intrigado e surpreso. Que documento era aquele que deveria ser examinado por um obscuro professor universitário brasileiro?

O escritório era aconchegante, ricamente decorado, e Gaetano era simpático, falava num tom amistoso, quase paternal como convém a um religioso, pois Gaetano era um religioso no cargo de secretário. Após conversarmos por alguns minutos sobre assuntos corriqueiros, como acontece entre duas pessoas que recém estão se conhecendo, Gaetano entrou no assunto que me levou ali.

─ Como o senhor sabe, estamos em processo de eleição para um novo papa. Por ordem do Camerlengo, convidamos o senhor a ajudar-nos a resolver um problema muito sério. Ele pede desculpas por não poder recebê-lo pessoalmente, pois se encontra muito ocupado em organizar o Conclave.

Gaetano fez uma pausa, abriu uma gaveta da escrivaninha e pegou um documento com duas páginas timbradas.

─ Antes de mais nada, devo dizer-lhe que necessitamos de sua discrição sobre sua visita e o motivo que o trouxe aqui. Queremos que mantenha absoluto segredo sobre o que vou lhe revelar.

Gaetano empurrou o documento na minha direção.

─ Esse documento é um contrato que o senhor precisa assinar para firmar esse acordo. Faça o favor de ler.

Peguei os papéis e li. Era um contrato onde eu me comprometia a não revelar para a mídia, ou qualquer pessoa em particular, o teor e os motivos do meu trabalho no Vaticano e as questões pertinentes a ele. Seguiam-se outras exigências e condições. A remuneração era boa, as penalidades por quebra de contrato, não. Havia muito mistério naquilo, mesmo assim, assinei. Gaetano sacudiu a cabeça, satisfeito. Voltou a guardar o documento, debruçou-se sobre a mesa e me encarou, muito sério.

─ Diferentemente do que a mídia tem anunciado, o papa não teve morte natural. Acreditamos que alguém, ou alguma coisa ainda não identificada, o tenha matado. Ele foi encontrado no subsolo da basílica com a garganta esmagada e o pescoço partido. Quem o estrangulou tinha uma força descomunal. Fomos obrigados a disfarçar e ocultar o ferimento para o funeral. Tivemos o cuidado de não revelar as circunstâncias da morte, para não causar especulação e tumulto.

Ele fez uma nova pausa, recostou-se para trás e continuou: ─ O pontífice andava muito inquieto nos dias que antecederam seu falecimento. Estava obcecado com a ideia de se tornar um homem santo. Na condição de chefe supremo da Igreja, ele era considerado um homem santo, já que possuía todas as condições e virtudes para isso. Porém, me parece que ele desejava tanto poder quanto um santo no verdadeiro sentido da palavra, e não um simples homem com suas faculdades físicas e mentais limitadas. Isso me deixou perplexo!

O secretário cerrou os punhos, se inclinou para frente, falando com ênfase.     ─ Ele se tornou egocêntrico, egoísta, ambicioso! Andava com ideia fixa em outra coisa a ponto de inventar desculpas para não executar tarefas do dia a dia!

Gaetano respirou fundo, soltando o ar com força. Tornou a abrir a gaveta e desta vez tirou um velho pergaminho que ele estendeu com cuidado em minha frente. Nele havia inscrições desbotadas pelo tempo, mas mesmo assim, legíveis.

─ Encontrei esse documento dentro de um escólpo no quarto dele. Um idioma desconhecido que nossos peritos não conseguiram identificar. Por isso pedimos a sua ajuda, pois achamos que se trata de alguma fórmula de magia negra. Se precisar, o senhor pode dispor da Biblioteca Apostólica Vaticana. Ali temos, além de obras de referências, um laboratório de informática.

─ Acho que não precisa. – respondi.

─ Sabe do que se trata?

─ Sim, são duas palavras que estão escritas, mas me parece que esse pedaço foi arrancado de um outro documento. De qualquer maneira, posso ver que se trata de um idioma semita, extinto, mas que tem o mesmo significado em latim. Anima e Mors, que significa, Alma e Morte.

Gaetano ia dizer alguma coisa quando soaram batidas na porta. Ele pediu licença e foi atender. Conversou alguns minutos com alguém e retornou, perturbado.

 

─ Houve outra morte. Praticamente no mesmo lugar. O mordomo do papa foi encontrado morto próximo da Capela da Confissão. Me acompanhe, por favor.

Levantei-me e o segui. Saindo, atravessamos o pátio e entramos na basílica por uma porta lateral. Me detive por um momento, extasiado com a beleza e a grandiosidade da Basílica de São Pedro.

─ Lamento que não podemos nos deter agora para apreciar, talvez mais tarde.

Disse Gaetano e continuou andando apressado. Procurei acompanhar seus passos.

─ São várias esculturas de santos e monumentos funerários. Existem 45 capelas e 11 altares. O prédio tem 218 metros de comprimento e 136 de altura. O túmulo de São Pedro está localizado embaixo do altar-mor.

Com o olhar, acompanhei o gesto dele. O altar-mor era magnífico, majestoso!                                                                          Levamos quase vinte minutos para chegar ao nosso destino, uma escadaria de mármore que levava à Capela da Confissão.

─ O nome se refere à confissão de São Pedro, que foi condenado ao suplício da cruz após confessar que era cristão. Ele foi crucificado de cabeça para baixo.

Passando pela capela, seguimos por um longo corredor e descemos outra escada, até uma sala pequena, que parecia ser um depósito. O corpo do mordomo estava estirado no piso. Os sapatos dele estavam sujos de barro e havia uma lanterna ao lado. Guardando o corpo estavam dois funcionários. O mordomo estava com os olhos abertos, arregalados e, a princípio, julguei que estava vivo e então, Gaetano examinou-o detidamente e cerrou-lhe os olhos.

─ Não encontrei nenhum ferimento. Parece que ele teve um infarto.  – disse Gaetano e em seguida ergueu-se e me entregou um retângulo de papel.

─ Estava na mão dele.

No papel estavam escritas duas letras do alfabeto fenício, alef e mêm.

─ A e M. – falei, em voz baixa.

─ Sabe o que significa? – perguntou Gaetano no mesmo tom.

─ Com relação ao pergaminho, pode ser A de Alma e M de Morte.

Gaetano deu algumas ordens aos homens e em seguida pegou a lanterna do chão e outra de um armário de metal e me deu uma.

─ Vamos ver se encontramos alguma coisa lá embaixo.

Ele dirigiu-se para um corredor às escuras. Hesitei, mas depois o segui. No fim do corredor chegamos a uma porta que estava aberta. Descemos uma curta escada até o que parecia ser uma gruta. Do lado esquerdo havia alguns túmulos de pedra, do lado oposto, grandes blocos de concreto que pareciam ser a base da basílica. O teto se perdia na escuridão, o chão era de terra úmida e fofa.

 

─ Estamos na base de uma das sete colinas, onde havia um cemitério no segundo século da Era Cristã.

Gaetano falou em voz baixa, como se temesse despertar os mortos. Súbito, minha lanterna apagou-se. Bati com ela na palma da mão, apertei o botão diversas vezes, sem resultado.

─ As pilhas devem ter se esgotado. – disse Gaetano. Naquele instante, ouvimos ruídos. Um grunhido e passos pesados soaram em algum lugar. Meu coração disparou e senti minhas pernas bambas. Gaetano jogou o facho de luz em todas as direções. Um som que parecia um rosnar soou mais próximo. Alguma fera, ou coisa mais horrível se aproximava e pensei em correr para a saída, mas naquela escuridão eu não sabia onde ficava.

─ Professor, fique perto de mim!

Corri na direção da luz, mas esbarrei em alguém, ou alguma coisa de pele lisa, úmida, pegajosa e fétida.

Mãos duras e grandes tentaram me segurar, mas com um safanão, escapuli, tropecei e cai.  A coisa grunhiu como um porco enfurecido. Gaetano soltou um grito e o facho de luz saltou para cima e depois foi para baixo, ficando imóvel. Sons de passos abafados soaram, um resfolegar, um grunhido. Fiquei paralisado, sem reação, apavorado. Ouvi um gemido de Gaetano, o roçar áspero do monstro. Ele também não enxergava no escuro, mas ouvia muito bem e devia ter bom faro.

Súbito, a luz da lanterna movimentou-se em todas as direções até que caiu sobre mim, ofuscando meus olhos.

─ Vamos, professor! Gritou o secretário.  Ele, praticamente me arrastou para a saída. Corremos de volta ao depósito. Sentamos num banco em silencio, até regularizar a respiração e os batimentos cardíacos.

─ O que era aquilo? – indaguei.

─ Eu o vi de relance. Deve ter uns dois, ou três metros de altura. Com certeza não é humano! Vi o que parece ser duas marcas na testa dele. Parecem ser letras iguais aquelas que o mordomo tinha no papel.

─ Letras na testa? Acho que sei o que é aquele monstro. É um golem, monstro da lenda judaica. Diz a lenda que no século 16 o rabino cabalista Judá Loew, criou um gigante para proteger o gueto. Ele o moldou do barro e deu-lhe vida gravando duas letras em sua testa. Mas, o rabino não conseguindo controlá-lo, apagou a letra M, dando-lhe a morte.

─ Mas, de onde surgiu tal criatura!

─ Não entendeu ainda? O golem só pode ser criado por um homem santo.

Gaetano olhou-me, espantado.

─ O papa! Na sua ambição de ser como o Criador, ele criou um homem de barro, que se tornou um monstro!

─ Que ele, também, não conseguiu controlar. O mordomo sabia que o pontífice havia praticado uma heresia e como não revelou a ninguém, sentiu-se culpado pela morte dele e procurou destruir o monstro. Mas, a imagem da criatura o assustou tanto que ele teve um infarto.

─ Nós vamos ter um Conclave. – afirmou o sacerdote, preocupado.─ Todo o clero vai estar no Vaticano. Não podemos deixar aquele monstro à solta!

─ O único jeito de destruí-lo é apagar a letra M e eu não sei como vamos fazer isso.

Ficamos em silencio, raciocinado, procurando uma solução.

─ O mais urgente agora, é selar a entrada da gruta. – disse Gaetano.

E foi isso o que fizeram. Um novo papa foi eleito e o golem continua lá, encerrado no subsolo do Vaticano. O monstro está debaixo da Basílica de São Pedro até que possa ser morto… ou libertado!

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4 comentários em “A escuridão no fim da escada – Conto (Antonio Stegues Batista)

  1. Fil Felix
    26 de novembro de 2017

    Olá, Antônio! Gostei de alguns pontos do conto e outros, nem tanto. Pela temática, fica difícil não associar ao Código Da Vinci, toda a estrutura de professor é convidado, ajuda numa investigação religiosa, descobre objetos pra decifrar, assassinato e solução. É um texto ágil e rápido, sem muitas delongas, o que torna a leitura bastante fluida, o que é ótimo. A cena no túnel escuro, com a luz da lanterna indo de um lado para o outro, escondendo o Golem, dando apenas algumas pistas de como ele é, ficou excelente! Mas por ser rápido, perde um pouco na profundidade, deixando a situação inicial um tanto irreal: precisou de todo esse esforço pra decifrar duas palavras? Se fosse algo mais abrasileirado, faria mais sentido ter chamado o professor. Tem pano pra manga, poder aprofundar a criação do monstro de terra, as loucuras do papa e, concordo com o Pedro Luna, se ocorresse num tempo antigo, ficaria mais interessante. Ainda mais com papas como o Bórgia.

    Um ponto que não gostei muito foi a solução. Esse estilo “Scooby-Doo” de mistério, em que ao final é explicado tudo direitinho. Acaba não dando espaço pro leitor associar o Golem ao papa, tentar descobrir o mistério por si só.

  2. Victor O. de Faria
    23 de novembro de 2017

    Um enredo bem interessante, e o mistério cativa. A parte final foi um tanto acelerada, mas acertou em deixar o contexto em aberto. Apenas o último parágrafo soa deslocado do restante; um itálico resolveria facilmente. Notei algumas repetições de palavras, muito próximas, mas a atmosfera está muito bem descrita.

  3. Pedro Luna
    23 de novembro de 2017

    Oi. O conto tem altos e baixos. Achei interessante que ele brinque com a figura do papa, dando contornos egocêntricos e malditos a simpática figura. Foi inusitado e bem vindo. Outro aspecto positivo do conto é sua agilidade. Beleza, por ser curto e rápido ele perde em impacto e profundidade, mas para uma leitura rápida e divertida é super válido.

    Quanto aos pontos negativo, bom, primeiro que a situação é bastante irreal e o leitor precisa suspender sua descrença a nível hard. Uma treta no vaticano, os caras me chamam um arqueólogo e professor brazuca (obscuro, como diz o conto), chegando lá eles convenientemente se deparam com outro morto. O professor dá uma de detetive e facilmente resolver todo o mistério, inclusive fazendo deduções sherlockianas sobre a morte do papa e do mordomo. Sem ter tido tempo nem para investigar nada direito, como ele tinha tanta certeza do que falava? E o conto termina sem fim. Os caras simplesmente selam a entrada.

    Minha sugestão para uma rescrita, se vc for fazer, é tentar ambientar o conto no passado. Essa pegada de vaticano, mistério, arqueologia, gruta, monstro, talvez funcionasse melhor antigamente, em um mundo de pouca tecnologia e “menos” conhecimento. Um mundo mais movido a mistérios. Os e-mails que o personagem checa no início do texto modernizam o conto, e aí fica difícil aceitar que em pleno séc. XXI aconteça uma história doida dessas.

    A história precisa ser melhor trabalhada, mas o conto é divertido de ler. Abraço

  4. Juliana Calafange
    23 de novembro de 2017

    Um bom suspense, cheio de homenagens e clichês, mas no bom sentido. Divertido encontrar as semelhanças com O Código da Vinci e até uma pitadinha de O Exorcista estão aí. O final aberto deixa o suspense no ar, para a continuação da história num próximo conto. Que, aliás, vou ficar aguardando!

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Informação

Publicado às 22 de novembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .