EntreContos

Literatura que desafia.

O Pote de Biscoitos – Clássico (Stephen King)

1

Existia um certo acordo entre eles, desde o início. O garoto achava que o velho estava muito bem para os noventa anos, e o velho pensava que o garoto, cujo nome era Dale, estava muito bem para os treze anos.

O garoto começou chamando-o de bisavô, mas Barrett não concordava com isso. “Me deixa mais velho do que eu sou. Me chame de Rhett. Era o que o meu pai me chamava. Eu era um Rhett, mesmo antes de Rhett Butler – imagine isso.”

Dale perguntou quem era Rhett Butler.

“Pouco importa. Foi um livro ruim e um filme mais ou menos. Conte-me de novo sobre esse teu projeto.”

“Nós temos que conversar com o nosso parente mais antigo, e perguntar como que era a vida quando ele tinha a minha idade. Depois eu tenho que escrever um relatório de duas páginas sobre como as coisas mudaram. Só que o Sr. Kendall odeia generalidades, então eu tenho que me concentrar em uma ou duas coisas especificas. Isso significa – “

“Eu sei o que significa,” Rhett disse. “Que coisas específicas você tem em mente?”

Dale pensou na pergunta. Enquanto ele fez isso, Rhett observou o garoto: um tufo de cabelo saudável, puramente preto, pele e olhos claros. Havia setenta e sete anos entre eles, e Dale Alderson provavelmente considerava isso um oceano, porém para Rhett era somente um lago. Talvez não mais que uma lagoa.

Você atravessará num piscar de olhos, garoto, ele pensou. A brevidade da natação entre a sua margem e a minha o surpreenderá. Definitivamente me surpreendeu.Ele não tinha certeza se seu bisneto – o mais novo de todos – considerava-o como um ser humano de verdade. Mais como um fóssil falante.

“Fale, Dale. Eu tenho o dia todo, mas você provavelmente não.”

“Bem… você se lembra antes de existir TV, né?

Rhett sorriu, embora ele achava que esta era uma pergunta, a qual o seu bisneto já deveria saber a resposta. Ele se segurou para não dizer, Eles não ensinam nada para vocês, pois teria sido antipático e grosseiro. Além do mais mal-agradecido. O garoto viera para o Asilo Good Life somente com o intuito de ouvir Barrett Alderson falar sobre o passado, um assunto que faziam as crianças correr para o lado contrário, o mais rápido que elas pudessem. Era somente para um trabalho da escola, verdade, mas mesmo assim. Ele atravessou a cidade inteira de ônibus, o que acabou lembrando Rhett de suas viagens com seu irmão Jack na linha interurbana para visitar a sua mãe.

“Dale, eu nunca tinha visto uma televisão até eu fazer vinte e um anos. Radares, sim, mas nenhuma TV. Eu tive o meu primeiro contato confirmado na vitrine de uma loja de eletrodomésticos, logo depois que eu voltei da guerra. Eu olhei por vinte minutos, quase hipnotizado.”

“Qual guerra foi essa?”

“A segunda,” ele disse pacientemente. “Nazistas? Hitler? Japoneses no pacifico? Tá caindo a ficha?”

“Claro, sim, ataques banzai e outras coisas. Eu achei que você estava falando da Coreia.”

“Quando a Coreia estourou, eu estava casado e com dois filhos.”

“O meu avô era um deles?”

“Sim, ele tinha acabou de aparecer.” E quando o Vietnã aconteceu, eu era tão velho como o seu pai hoje. Talvez mais velho.

“Então você estava preso com o rádio, huh?

“Bem, sim, mas a gente não dizia que estávamos presos com o rádio.”

Fora do seu quarto, no final do corredor, veio a voz eletronicamente amplificada do diretor de recreação do asilo (ou um de seus servos) anunciando os números do bingo. Rhett estava feliz de não estar lá, embora ele imaginava que estaria lá amanhã. Ele estava calculando os últimos anos de sua vida – talvez mais uns dois meses agora, considerando o sangue que tinha começado a aparecer na privada quando ele cagava – não em colheres de café, mas em partidas de bingo.

“Não?” Dale perguntou.

“Absolutamente não. Depois da janta, meu pai e meus irmãos iam – “

“Espera, espera, não conte mais.” Dale buscou dentro do bolso dos seus jeans e retirou um iPhone. Ele brincou com o aparelho e a tela se acendeu. Ele brincou um pouco mais e colocou-o sobre a cama.

“Essa coisa também grava?” Rhett perguntou.

“Uh-huh.”

“Tem alguma coisa que ele não faz?”

“Querida, ele não limpa janelas,” o garoto disse e Rhett riu. O garoto poderia estar um pouco perdido sobre a história do século vinte, mas ele era rápido. E engraçado.

Dale sorriu de volta ao seu bisavô, feliz porque o velho tinha entendido a piada, talvez o vendo como um ser humano no final das contas, ou começando. Rhett poderia desejar, mesmo aos noventa, que ele continuasse otimista, embora otimismo era um pouco difícil de controlar às três da manhã, deitado acordado e sentindo os fios que mantinham sua vida presa se soltando.

“Tem certeza que está me ouvindo?”

“Claro, esse celular tem um ótimo alcance. Além disso, eu consigo ver a sua voz na tela.” Ele levantou o celular. “Diga algo.”

“O nosso rádio era um Philco de mesa,” Rhett disse, e observou as ondas sonoras rolarem pela tela do iPhone.

“Viu?”

“Sim. Ótimo aparelho. Não sei como vivemos sem ele.”

Dale conferiu a cara do velho homem para ter certeza que ele não estava brincando. “Boa, bisavô.”

“Não, boa, Rhett.

“Boa, Rhett. Agora me conte sobre o rádio.”

Rhett falou dez minutos ou mais, sobre como ele e seus dois irmãos deitavam no carpete da sala de estar depois do jantar, junto com seus livros escolares, seu pai na poltrona com seus pés no puff fumando seu cachimbo, todos ouvindo o Philco. E contou para o Dale sobre The Shadow e The Jack Benny Show – e como o Jack era um pão duro – e o seu favorito, The Major Bowes Amateur Hour, onde o apresentador apressaria os participantes mais falantes dizendo “Tá otimo, tá otimo,” e interromperia uma música se a apresentação fosse ruim. Porém ele começou a ir mais devagar, assim que as memórias mais vívidas caíram na corrente de recordações. Aquelas viagens de ônibus com o Jack, por exemplo. E ele pensou, Por que não contá-lo? Você nunca contou pra ninguém, e você vai morrer logo. Sangue na privada não mente, não quando você está na casa dos noventa.

Aquele show amador era realmente patrocinado por cigarros?”

“Sim, Old Golds. ‘Se você quiser um trato invés de um tratamento, fume Old Golds. Eles são bons para você!”

“Eles realmente podiam dizer isso?” Os olhos do garoto estavam brilhando com fascinação.

“Eles podiam, mas vamos esquecer dos shows de rádio. Eu quero lhe contar outra coisa que eu lembro.”

“Claro, mas esses shows antigos são bastante interessantes.”

“Eu posso te contar algo bem mais interessante, mas desligue o seu aparelho. Eu não quero que você grave isso.”

“Verdade?”

“Verdade.”

Dale desligou o seu iPhone e colocou-o no seu bolso. Ele olhou para o seu bisavô com uma certa preocupação, como se o Rhett fosse contar que tinha roubado alguns bancos ou gostado de atear cães em fogo quando era adolescente.

“Eu tive uma infância um tanto quanto peculiar, Dale, porque a minha mãe era peculiar. Não completamente louca, pelo menos não louca o suficiente para ser trancada em um hospício, mas bem, bem peculiar. Eu era o mais jovem de três. Em 1927, dois anos depois que eu nasci, ela saiu da casa, de mala e tudo, e foi para uma cabana do outro lado da cidade – neste lado da cidade, na verdade, e não muito longe daqui, embora agora exista um shopping center por lá. O lugar era dela por herança, de uma tia velha, e não muito maior que uma garagem. Ela deixou o meu pai para criar Pete, Jack e a mim. O que ele acabou fazendo, com a ajuda de uma mulher que vinha fazer a limpeza e tomava conta de nós enquanto éramos muito pequenos.”

“Ela nunca deu um motivo?” Dale perguntou.

“Disse que era para a nossa proteção. Meu pai tomou conta que ela tivesse uma pensão para suas necessidades, e ele não reclamou –  esses eram tempos difíceis, mas ele tinha um trabalho engravatado na companhia de seguros American Eagle, e as necessidades dela eram mínimas. Eles mantiveram uma relação colegial. Você sabe o que isso significa?”

“Que eles se entendiam?”

“Está exatamente certo, e bom pra você. Meu irmão Jack e eu também nos dávamos com ela. Aceitamos a situação do jeito que as crianças normalmente fazem, sem reclamar muito ou sem fazer muitas perguntas. Nós a visitávamos bem frequentemente. Nós jogávamos baralho e Banco Imobiliário. A cabana era fria no inverno e quente como um forno no verão, mesmo com o ventilador soprando vento para todos os lados. Nós ríamos muito. Ela tinha um ukulele. As vezes nós três saíamos na varanda, e ela tocava e nós cantávamos. Coisas como ‘Old Black Joe’ e ‘Massa’s in the Cold, Cold Ground.”

“Essas são músicas de verdade?” Dale olhou seu celular. Provavelmente desejando que ainda estivesse ligado, Rhett pensou. Desculpe, garoto, mas você não vai mostrar isso para ninguém. Loucura é melhor quando não está gravada.

“Músicas de verdade. Não muito politicamente corretas pelos padrões atuais, mas aquele era um tempo diferente. Um mundo diferente, na verdade. Nós a amávamos muito. Ela era cheia de energia, como a maioria dos maníaco-depressivos eram. Sua risada era livre e selvagem. Era diferente com Pete. Ele era o mais velho, quase sete anos quando ela se mudou, e ele continuou bravo com ela até ela morrer. Nunca ia visitá-la, a não ser que meu pai o forçasse, coisa que ele acabou desistindo em algum momento.”

E ele não aguentou no seu funeral, Rhett pensou. Chorou tanto que desmaiou e teve que ser carregado para o ar fresco para voltar a vida.

“Provavelmente ele estava magoado,” Dale disse. “Talvez ele estava se culpando por ela ter ido embora.”

Rhett sorriu. “Você é um garoto esperto. Eu tenho certeza que era tudo isso e um pouco mais. De qualquer forma, ele mal a visitou. Jack e eu, embora… nós não a simplesmente amávamos, nós éramos fascinados por ela. Mil novecentos e trinta e seis foi o último bom ano dela. Jack tinha treze e eu onze anos, e já éramos velhos o suficiente para cruzar a cidade com um ônibus interurbano, então nós a visitávamos uma ou duas vezes por semana. Normalmente nos sábados, às vezes depois da escola.”

“Minha mãe me disse para não perguntar sobre a sua mãe,” Dale disse.

“Porque ele cometeu suicídio?”

“Sim. Minha mãe disse que ela seria, tipo, como uma figura histórica para mim, mas ela significava muito mais para você. Quando ela me perguntar como foi –  e ela irá –  vou ter que dizer que você começou.”

“Tudo bem,” Rhett disse. “É claro que doeu. Doeu muito. Eu acho que sempre dói quando a mãe morre, mas suicídio está em sua própria categoria. Afetou o Jack bem mais do que a mim, pois ele se culpava. Ele achava que por ser mais velho, ele deveria ter visto como ela estava piorando. Só que era difícil de se ver, porque ela era cheia de vida, e tão… tão interessante. Ela voaria pelo cômodo, pegando o baralho ou jogos de tabuleiro ou quebra cabeças de quinhentas peças do Tuco para nós três jogarmos. Às vezes ela ligava sua Victrola e tentava nos ensinar a dançar o Charleston, e quando não dançávamos, ela mesmo dançaria, com a sua sombra na parede. Ela contava piadas… tocava o uke… nos ensinava como fazer truques de mágica como A Moeda que Desaparece ou o Guardanapo Voador. E – isto é importante – ela tinha um pote azul enorme de cerâmica na estante mais alta cheio de biscoitos. Estava sempre cheio, e nós comíamos até estarmos cheios. Todos os diferentes tipos, todos bons. Aquela casa dela poderia não ter sido maior que uma garagem, mas nós nos divertíamos muito lá. Ela tomou conta disso, e eu acho que nem mesmo um adulto poderia ter visto a verdade por trás de tanta camuflagem.”

“Qual verdade?”

“Que ela estava piorando. Ela contava sobre outros mundos, bem próximos ao nosso, e sobre as raças alienígenas que moravam por lá, e como algo estava perseguindo-a. Esse algo falava com ela pelas conexões elétricas, ela dizia, então ela tirou todas as lâmpadas à noite e colocava cartas de baralho na frente das tomadas no chão. Ela dizia que a parte de trás de celuloide das cartas era bastante eficiente para interromper aquela voz. Só que depois ela ria, como se tudo fosse uma grande piada.”

“Whoo,” Dale disse. “Irado.”

“Ela desenhou um mapa na parede, e ela continuava adicionando coisas. Ela dizia que era um país em um desses outros mundos. Ela o chamava de Lalanka, e que ele estava cheio de entidades. Você sabe o que isso significa?

Dale balançou sua cabeça.

“Criaturas que queriam atravessar para o nosso mundo, mas não podiam. Pelo menos por enquanto. Eles estavam presos por causa de alguma força, o que era algo bom, pois eles estavam com fome. Ela dizia que se eles atravessassem para o nosso mundo, eles comeriam tudo – não somente as pessoas e os animais, mas o gramado e carros e prédios e até mesmo o céu. Mas sobre outras coisas, ela era completamente racional. Ela fazia as suas pequenas compras, ela se mantinha limpa e arrumada, era bastante apaixonada por mim e pelo Jack, e ela nunca deixou de perguntar pelo Pete. Antes de irmos embora, ela sempre disse que ele era bem-vindo a qualquer hora. ‘Eu somente me mudei, porque não seria seguro para vocês e para o seu pai, se eu tivesse ficado,’ ela dizia.”

“Incrível.”

Rhett se encolheu e esticou suas mãos manchadas. “Não para a gente, não era. Nós simplesmente aceitamos tudo isso. É o que as crianças fazem, Dale. Mas o mapa dela – aquilo era incrível. No último ano de sua vida, coisas novas apareciam cada vez que a visitávamos: cadeias de montanhas, lagos, vilas, castelos, florestas, estradas.”

“O seu pai viu alguma vez?”

“Oh sim, muitas vezes. Ele achava que era um trabalho de arte genuíno, e dizia que deveria ficar em uma galeria de arte em algum lugar. Eu acho que ele acreditava que o mapa era uma das poucas coisas que a mantinha na linha. Junto com as nossas visitas, é claro. Eu acho que hoje em dia algumas pessoas, as espertas, chamariam tudo isso de mecanismo de escape. Às vezes nós sentávamos na sua cozinha pequena, comendo sanduíches com as bordas cortadas, e ela nos perguntaria sobre a escola, nossos amigos, e nos ajudaria a estudar para uma prova. Jack estava tendo álgebra e não entendia muita coisa, mas ela explicava tudo usando os biscoitos do pote de biscoito. Ela escrevia um sinal de igual num pedaço de papel e colocava três biscoitos do pote de um lado e sete do outro. Perto dos três biscoitos, ela escrevia um x, e dizia pro Jack colocar mais biscoitos até os dois lados terem a mesma quantidade.”

“Huh. Legal”

“Mas entre essas coisas racionais e normais, ela nos contava sobre o que estava acontecendo em Lalanka, onde os gobbits – essas criaturas que viviam na floresta – estava criando uma neblina branca terrível que matava os animais pequenos e deixava os grandes tendo convulsões, ou sobre a guerra entre Red Henry e seu irmão gêmeo renegado, Black John. Um dia quando chegamos, ela tinha pintando a floresta ao redor do maior castelo – o castelo do Red Henry – de preto. Porque, ela disse, Black John tinha “colocado uma tocha na floresta.” E também tinha a história de como o tempo tinha parado no Reino do Oeste, e estava causando buracos no tecido da existência. ‘Se o tempo parado avançar para o nosso mundo, garotos, estamos condenados,’ ela dizia. Eu tinha pesadelos sobre isso.”

“Eu não estou surpreso,” Dale disse. “Eu provavelmente também teria.”

“Ela chamava a neblina branca de forza, e dizia que ela viajava nos cabos elétricos e nas linhas de telefone. Eu também tinha pesadelos sobre isso, e criei o hábito de ficar olhando para o telefone, para ter certeza de que a forza não estava saindo pelo buraco do alto faltante. Só que…” Ele divagou.

“Só o quê?

“Eu não sei no quanto ela realmente acreditava,” Rhett disse finalmente. “Naquele tempo eu acreditava que ela acreditava… você entende?

Dale disse que sim

“E porque ela acreditava, nós acreditávamos, mas Jack mudou de ideia depois de sua morte, e ele me convenceu. Ele disse que Lalanka era somente uma história inventada por ela, para distraí-la de uma coisa específica. Algo que era real, mas não era parte deste mundo. Algo que não poderia ser, mas era. Ele disse que não acreditava que uma pessoa poderia viver com algo daquele tipo. Ele chamava de um buraco na realidade. Lalanka e os gobbits, Red Henry e Black John, a neblina forza, eles eram todos… distrações. Uma maneira de encobrir aquele buraco na realidade, do mesmo modo que você cobriria um poço com tábuas para ninguém cair.” Ele pensou sobre isso e adicionou, “O que eu quero dizer é que estas histórias eram a sua maneira de se manter sã. Pelo menos era no que Jack acreditava. Eu acabei pensando diferente.”

“Você está falando sério? ” Os olhos de Dale estavam brilhando.

“Como um ataque no coração, garoto. De qualquer forma, todas as suas distrações acabaram por não funcionar mais. O uke, dançando com a sombra, o mapa na parede, as cartas de baralho na frente das tomadas. Suas histórias pararam de funcionar para ela também. Pois aquilo que ela temia tanto estava o tempo todo dentro de sua casa.”

“O quê? Do quê ela tinha medo?”

“Ela tinha medo do pote de biscoitos.”

2

Depois do funeral de sua esposa, George Alderson disse aos seus três filhos que iria limpar a cabana até as paredes – vender tudo o que poderia ser vendido, e jogar o resto fora. Mas antes de fazer isso, ele levou-os até a casa e pediu para cada um pegar algo como memória de sua mãe. Jack escolheu o ukelele, e acabou aprendendo a tocar. Peter – um garoto bem mais quieto e menos argumentativo por causa da morte fora de hora de sua mãe – pegou o relógio que o George a tinha dado, quando ela saiu de casa. Era um relógio masculino e ela o usava ao redor do pescoço, como um medalhão. Rhett escolheu o pote de cerâmica azul de biscoitos.

Ele guardou o pote embaixo de sua cama, e a cada noite ele e Jack comiam alguns biscoitos – em memória dela, Rhett disse. Pete não fora convidado para participar deste ritual, e nem sequer sabia disso, pois naquela época ele já tinha o seu próprio quarto. Mesmo que nenhum dos garotos tenha dito em voz alta, eles achavam que Pete não era digno de compartilhar na comunhão de biscoitos. Ele ficou de luto depois da morte de sua mãe – com muito esforço – mas tinha por boa parte a ignorado enquanto estava viva, olhando para as cartas de baralho espalhadas pelas tomadas e chamando o mapa de Lalanka de “uma bosta idiota”.

“Ele a amava, ” Rhett disse ao seu bisneto, “mas nós achávamos que ele não a amava o suficiente. Nós éramos crianças, lembre-se, e crianças podem ser extremamente críticas. ” Ele pausou, pensando. “Embora de alguma forma, e ainda acho que nós estávamos certos. ”

3

Em uma noite – deve ter sido uma semana depois do suicídio de Moira Alderson, ou talvez duas – Rhett e Jack Alderson compartilharam uma realização que deveria ter acontecido antes, e teria acontecido, se o poder de observação deles não estivesse ofuscado pelo luto. Eles estavam sentados na cama de Rhett, o pote de biscoitos entre eles.

“Whoa, Nellie,” Jack disse. “Ainda está cheio. Como é que pode? ”

Rhett não tinha ideia, mas era verdade. Eles tiveram muitas comunhões de biscoito desde a morte da mãe deles, mas o pote ainda estava cheio até a boca. Nesta noite em particular, o topo estava coberto de macarrones. Quando Rhett os empurrou para o lado, ele viu biscoitos de gota de chocolate embaixo. Ele começou a escavar mais fundo, procurando pelos biscoitos de aveia com uvas passas, que eram os seus favoritos, mas Jack pegou o seu pulso e puxou sua mão para fora do pote.

“Não faça isso. ”

“Por que não? ”

“Porque pode ser perigoso. Tampe de novo e ponha embaixo da sua cama. ”

Rhett o fez sem argumentar, e Jack apagou as luzes. Eles ficaram lá deitados por um tempo, nenhum com sono. Rhett podia sentir o pote de biscoitos embaixo dele, como um pequeno e denso planeta, com sua própria forca de gravidade.

“É como se o fantasma dela estivesse lá dentro, ” Rhett finalmente disse, e seus olhos se encheram de lágrimas que estavam esperando desde a sua morte.

“Não é o fantasma dela, isso é estupido, ” Jack disse. Rhett podia dizer pelo peso na voz de Jack que o seu irmão também estava chorando.

“O que é então? Será que tem algo a ver com Lalanka? A forza? Os…” Era difícil de terminar, pois era aquilo que eles mais temiam. “Os gobbits? ”

“Papai Noel não é de verdade, e nem os gobbits ou a neblina forza são, Rhett. Nada disso é de verdade. O mapa foi inventado pela cabeça dela. ” Jack estava tentando ser forte, mas a sua voz ainda estava pesada. “Ela também sabia disso. Eram tudo coisas que ela inventou para não aprestar atenção ao pote de biscoitos. ”

“Então o que está lá dentro? ”

“Biscoitos. E eu não sei de mais nada. Eu nunca mais quero comer um biscoito na minha vida, nem deste pote nem mesmo da padaria. ”

4

Uma semana se passou. O pote de biscoitos ficou embaixo da cama de Rhett com a tampa fechada. Então em uma noite –  era um sábado – Rhett foi arrancado de seu sono por causa do som do seu irmão chorando.

“Jack? ” Rhett se levantou. “O que foi? ”

“Nós teríamos ido lá hoje, ” Jack disse. “Nós teríamos comido sanduíche de bacon e jogado Clue. Eu sinto falta dela. Eu sinto saudades da mamãe.

“Eu também sinto saudades dela. ”

Jack saiu da cama, como um fantasma em seus pijamas brancos, e sentou-se ao lado de Rhett. “Eu estava pensando como cheirava a casa dela. Como cheirava gostoso.”

“Como biscoitos, ” Rhett disse. “Foi assim que sempre cheirava. Como uma casa em um conto de fadas, não é? ”

“Sim, ” Jack disse, “só que ela era uma bruxa boa e não uma bruxa má. ”

Eles ficaram sentados por um tempo, sem conversar, lembrando-se do cheiro e das sombras dançando na parede. Finalmente eles perceberam que ela não estava mais entre eles. Até mesmo o mapa tinha desaparecido, com a Floresta Longa, o Monte de Observação e o Castelo Black e o Castelo Red. O pai deles disse que o mapa pertencia à uma galeria de arte, enquanto ela estava viva, mas quando ela morreu, ele raspou tudo como um dono de uma loja limpando a sujeira da frente de sua loja para os clientes não ficarem ofendidos. Ele certamente não conseguiria vender a casa com aquela coisa louca na parede, ele disse aos garotos. Por isso tinha que sumir. Ele tirou umas fotos primeiro, mas as fotos da Kodak não eram a mesma coisa. Não poderiam ser a mesma coisa.

“Pegue o pote, ” Jack disse.

Rhett o pegou debaixo de sua cama aliviado, e colocou-o em seu colo. Jack levantou a tampa. Ainda estava cheio até a boca, mas não eram mais macarrones no topo. Naquele sábado eram biscoitos de gengibre.

“Ela morreu há quase um mês, ” Jack disse. “Eles estariam ruins. ”

Mas eles não estavam ruins; eles estavam frescos como se tivessem sido feitos naquele mesmo dia.

Moira tinha cortado os seus pulsos e morreu dentro de uma banheira numa tarde quente de agosto. Rhett e Jack descobriram que o pote de biscoitos sempre estava cheio um pouco antes de voltarem às aulas. Halloween chegou e Rhett foi fazer doce ou travessuras pela primeira vez sozinho. Ele se vestiu como um pirata e voltou para casa com um saco cheio de doces, mas não era muito divertido sem Jack, quem tinha se declarado como muito velho para colocar uma fantasia e sair pedindo por doces pelo bairro. O dia de ação de graças chegou, e o pai deles – agora mostrando mechas brancas nas têmporas – cortou o peru. A namorada de Pete comeu com eles, e Pete comeu com a família dela no natal. Eles ficaram noivos no dia dos namorados de 1939, logo depois que Pete completou dezoito anos. O verão voltou e Rhett passou a maior parte num terreno baldio na rua de baixo, jogando beisebol. Às vezes ele pegava a bola, mesmo quando outros garotos maiores estavam no time. Ele também jogava uma bola muito rápida.

Jack ocasionalmente observava seu irmão, mas raramente jogava. Na maior parte do tempo ele ia para outros lugares sozinho, normalmente com um caderno embaixo do braço – ele tinha herdado a habilidade artística de sua mãe, e algo mais.

“Ele poderia ter sido um dos grandes, ” Rhett disse a Dale. “Provavelmente não, a grande maioria das crianças não atinge o seu potencial, mas nunca saberemos. ”

A vida dos dois garotos começou a se separar, rápida e abruptamente, mas com certeza. Mesmo assim, eles ainda dividiam o mesmo quarto, de noite eles tomavam a comunhão de biscoito, e o pote azul de cerâmica estava sempre cheio, os biscoitos dentro dele sempre frescos. Às vezes era biscoitos cobertos de chocolate, às vezes eram somente de açúcar, por vezes macarrones ou com gotas de chocolate. Eles comiam um ou dois pedaços, sentados na cama de Rhett, mais de mil biscoitos no decorrer de um ano, antes do Pete se casar e o Jack se mudar para o quarto do Pete.

Nesta época o Hitler tinha começado a dominar os noticiários, e parecia que a cada dia as manchetes dos jornais estavam cada vez mais cheias com suásticas. A Europa tinha praticamente sumido, e a Inglaterra seria a próxima.

“Não vai segurar por muito tempo, ” George Alderson disse, fumando seu cachimbo. Somente dois garotos estavam ouvindo o rádio Philco com ele agora; Pete estava morando a nove quadras de distância com a sua nova esposa, e praticamente o tempo todo na estrada, vendendo cerveja e cigarros e trocando os discos dos fonógrafos. “Graças a Deus que existe um grande pedaço de oceano entre nós e aquele maluco do bigode.”

Enquanto as suásticas continuavam a se espalhar na primeira página (Inglaterra ainda se segurando, mas a Rússia caindo), Rhett pensou no mapa de sua mãe. Hitler é como o Black John, ele pensou, e ele está transformando a Europa em Lalanka. E um dia, quando Rhett estava na cidade comprando presentes de natal, um comerciante disse que os japoneses tinham bombardeado Pearl Harbor.

“Quantos anos você tinha? ” Dale perguntou.

“Dezesseis. Eu ainda não tinha beijado uma garota. ”

“Você poderia se alistar aos dezesseis anos?

“Não. Eu simplesmente desejei que a guerra durasse tanto tempo para eu poder me alistar. E, infelizmente, ela durou. ”

5

Moira Alderson chamava às vezes o seu filho mais velho como o trabalhador da família – devagar e sempre se ganha a corrida – mas Pete era o Speedy Alka-Seltzer depois de Pearl Harbor. Ele estava no escritório de recrutamento da marinha no dia seguinte, com um novo corte de cabelo e vestindo o seu melhor terno. A sua nova mulher o encorajou, achando que ele estaria mais salvo dentro de um navio do que lutando contra os japoneses mão a mão no pacífico. No dia em que ele foi para Newport, Pete deu o relógio Bulova para Jack, aquela que a sua mãe tinha usado ao redor do pescoço, com as instruções de mantê-lo a salvo. “Pois eu vou querê-lo quando eu voltar,” ele disse.

Jack, o artista, uniu-se ao USAAF no início de 1942, quando ele fez dezoito anos. No dia que ele foi para Flórida, onde ele aprenderia a pilotar um P-47 Thunderbolt no centro da aeronáutica de Hillsborough, ele deu o relógio para Rhett.

“E o uke?” Rhett perguntou.

“Não se importe com o uke, seu ganancioso, eu vou levá-lo comigo. Você fique usando o relógio e o mantenha funcionando. Ele não vai contar o tempo se você não fizer isso. ”

Rhett prometeu que faria isso. Eles estavam sentados na cama e comendo dois biscoitos do pote azul. Ainda estava cheio, e os biscoitos – de gengibre naquela noite – estavam mais gostosos do que nunca.

Rhett entrou no exército depois de um ano e meio, um pouco antes do alistamento. Não havia nenhum excitamento em ir para a guerra, nenhuma animação, somente um pessimismo tão forte que acabou virando premonição. Ele tinha certeza que seria mandado para o exterior, e que quando a invasão inevitável acontecesse – talvez em 1944, talvez em 1945 ou 46 – ele estaria na primeira fronte, e seria morto pela metralhadora inimiga, antes mesmo que ele pudesse sair da água. Ele até podia ver o seu corpo, boiando com o vai e vem das ondas, de bruços, braços esparramados.

E foi com essa visão fatalista que, em sua última noite em casa, ele abriu o pote de biscoitos pela última vez em três anos. Ele não teve coragem de virar o pote de ponta cabeça –  ele teve a visão de ser enterrado por uma avalanche interminável de biscoitos – mas ele começou a enfiar a mão e tirar os biscoitos com a mão cheia, com uvas passas, de açúcar, recheados. Quando ele tinha um morro de biscoitos ao seu lado, ele parou e olhou para dentro do pote.

Ele tinha esvaziado quase pela metade, mas a quantidade de biscoitos já estava aumentando. Os biscoitos aparecendo pelo meio e sendo empurrados para as laterais. Ele se lembrou das aulas de ciências no colégio que eles tiveram sobre a formação de vulcões. Logo o pote estaria cheio, e o que ele iria fazer com todos aqueles biscoitos que ele tirou do pote? Havia centenas. Ele começou a devolvê-los ao pote, então ele viu algo que o fez parar. Ele estava usando o Bulova, e assim que o seu pulso esquerdo passava pela boca do pote, o ponteiro do segundo parava. Ele retirou a mão, enfiou de novo, só para ter certeza. Sim. Quando estava fora do pote, o ponteiro de segundo se movia. Dentro, ele ficava parado.

Porque Lalanka é real, ele pensou, e o pote de biscoitos é um tipo de portal. Um que se abre para os Reinos do Oeste, onde o tempo parou.

Neste tempo o pote estava cheio de novo até a boca (biscoitos de noz nessa noite). Rhett tampou o pote e jogou-o embaixo de sua cama. Ele pegou as sobras e colocou dentro de um saco de papel marcado para o lixo da manhã seguinte – uma última tarefa domestica antes de ir, para o que ele acreditava ser a sua despedida prematura. Ele disse para si mesmo que não existem Reinos do Oeste; ele estava grande demais para acreditar em tais coisas. O pote de biscoitos era um milagre, e este aqui tinha sido poderoso o suficiente para levar a sua mãe à loucura. E faria a mesma coisa com ele, se ele deixasse, especialmente com a guerra pronta para engoli-lo.

“Eu disse a mim mesmo que era algum tipo de campo magnético que parava o ponteiro de segundos, ” ele disse Dale, “e eu disse a mim mesmo que eu não pensaria mais nisso. Então eu fiquei deitado lá totalmente acordado até depois da meia noite, pensando em nada mais. Daí eu me levantei e levei a porcaria do pote até o sótão. E ele ficou por lá até eu voltar do exterior. ”

6

Pete Alderson lutou a sua versão da segunda guerra de uma mesa em Hampton Roads, Virginia, e terminou como tenente comandante. Ele enviou muitos homens ao combate, mas nunca ouviu um tiro soltado com raiva. Jack aprendeu a voar e levou o ukulele de sua mãe com ele até Guadalcanal. Lá ele fez diversas incursões militares até o seu jato ser explodido durante a batalha de Iwo Jima. Um amigo escreveu a George Alderson, dizendo que o teto do compartimento do piloto tinha emperrado e ele não conseguiu sair de paraquedas até as águas embaixo. O que ele não disse (e provavelmente não precisava dizer) era que Jack, o artista, queimou como uma tocha em sua cabine antes que os tubarões terminassem com ele.

Rhett realmente fez parte da força invasora que aterrissou na Normandia, mas embora homens fossem mortos à tiros ao seu redor (e seus corpos boiando no vai e vem das ondas como ele tinha imaginado), ele sobreviveu aquele dia e a noite catastrófica seguinte. Ele lutou pela França e Alemanha adentro, e o relógio vagabundo, que tinha passado pela inteira família Alderson, tocando no seu pulso. Ele sofreu com bolhas e machucados nos pés, ele foi cortado por um arbusto de amoras quando o seu batalhão encontrou um grupo da resistência alemã protegendo uma ponte perto da fronteira alemã, mas ele nunca foi ferido pelo fogo inimigo e ele sempre limpou o relógio.

As vezes ele tinha biscoitos em suas rações, normalmente duros como pedra e sempre secos. Ele os comeu em bivaques e em buracos de raposa e em trincheiras, sempre pensando no pote de biscoitos azul de sua mãe.

Em abril de 1945, depois de encontrar uma resistência menina, Rhett fez parte de um grupo de aliados que liberou um campo de concentração nomeado por causa das árvores que o rodeavam. O dia estava húmido e nublado, com uma neblina pesada, que às vezes escondia os corpos ou às vezes os revelava. Esqueletos vivos estavam perto das cercas e do lado de fora dos crematórios, olhando os americanos. Alguns estavam bem queimados por causa do fósforo branco.

“Que merda aconteceu com a gente? ” perguntou um soldado ao lado do ombro de Rhett.

Rhett não respondeu, porque o que estava em sua mente – o que ele sabia – iria parecer insano. Eles estavam em Lalanka, é claro. A neblina branca era a forza, o amontoado de corpos no crematório eram as vítimas dos gobbits, e em algum lugar – provavelmente em Berlim –  Black Adolf, agora latindo loucamente, esteva determinado a continuar com a carnificina.

Duas semanas depois de Buchenwald veio Dachau. Trinte e dois mil mortos, muitos deitados dentro das trincheiras que eles mesmos tiveram que cavar, seus corpos dilacerados apodrecendo na chuva, seus cabelos caídos ao lado de suas cabeças. Essas eram as memórias que Rhett Alderson trouxe de volta da Europa, só que elas não eram exatamente memórias, pois elas não tinham terminado. Ele tinha visto demais para tudo ter terminado, e consequentemente ele trouxe o Reino do Oeste de Lalanka para a sua casa. O Reino do Oeste, onde o tempo tinha parado assim como o ponteiro de segundo do relógio Bulova tinha parado, quando ele colocou a mão dentro do pote.

7

Nada disso era importante para dizer para um garoto de treze anos, então ele meramente disse, “Eu estava com os americanos que liberaram dois campos de concentração alemães, perto do final. Foi bem horrível. ”

Ele ficou aliviado quando Dale não continuou nesse tema. Seu bisneto tinha outra coisa em mente. “Você pegou o pote de biscoitos do sótão quando você voltou?

“Claro. ” Rhett sorriu. “Mas a primeira coisa que eu fiz foi devolver o relógio para o meu irmão Pete, porque foi a primeira coisa que ele perguntou. ”

“Ele parece ser um cara chato, ” Dale disse, e adicionou bruscamente, “Se você não se incomoda. ”

“Eu não me incomodo, e ele era chato, mas ele ficou melhor com o tempo. Ele foi um bom marido e um bom pai. ”

Além disso, ele nunca soube sobre o pote de biscoitos, Rhett pensou, mas não disse. E ele nunca viu o que eu vi, da praia de Omaha em Normandia até Dachau, onde os mortos ficaram deitados a céu aberto até perderem o cabelo. 

8

Rhett ficou com o seu pai no começo, seu pai que ficou velho prematuramente e se movia bem devagar, suas costas curvadas como o casco de uma tartaruga. Pete começou a falar sobre colocá-lo em um asilo, e Rhett acho que isso seria a melhor coisa, mesmo parecendo cruel – como levando ele para fora como lixo. Neste tempo, pai e filho conviveram muito bem juntos, com Rhett fazendo compras e limpando a casa depois de trabalhar um dia na oficina onde ele trabalhava como mecânico (e no final acabou virando chefe).

Ele trabalhou muito, mas dormia muito mal.

Na noite de março de 1956, depois de seu pai ter ido para a cama e enquanto um vento forte batia contra a casa, Rhett foi até o sótão. O pote de biscoitos estava lá onde ele havia deixado, atrás de uma caixa com louças de cristal, da época de quando uma mãe sã morava naquela casa. Rhett abriu o pote, meio que esperando estar leve, sem a sua mágica, mas ele ainda estava cheio.

Ele o levou escadas abaixo em direção ao corredor, com o pote contra a sua barriga, e sentou-se na sua cama, onde o Jack sentara por diversas vezes ao seu lado. Ele ergueu a tampa e respirou profundamente, sentindo o cheiro do chocolate e da baunilha e da canela e da manteiga. Cheiros bons. Cheiros frescos. Os mesmos que ele recordava e desejava ter durante o calor do verão francês e do frio do inverno alemão. O cheiro de biscoitos frescos assados, que sempre perpetuaram na cabana de sua mãe, onde ela dançou ao som da Victrola e ofereceu pudim em pequenos copos verdes.

Minha mãe, a bruxa boa, Rhett pensou, e essa merda levou-a a loucura. Do mesmo modo que as memórias da guerra vão me levar a loucura, se eu deixar. Realmente existiram um Red Henry, um Black Adolf? Precisam existir? Por que precisam existir?

A raiva que o contaminava desde Buchenwald – sua própria forza – aglutinou-se em uma nuvem negra, e ele virou o pote de ponta cabeça, jorrando biscoitos que cobriram a cama e fizeram uma montanha no chão. Pelo menos, quando ele pensou que eles continuariam a sair até ele afogar-se em biscoitos, eles pararam. Ele levantou o pote, levantando para o teto como um telescópio, e olhou para dentro.

“O que você viu? ” Dale perguntou. “O que estava no fundo? ”

“Não, ” Rhett disse. “Não no fundo”

Uma vez, em 1944, durante uma trégua durante o dia de ação de graças e o natal, o USO chegou com um projetor e uma pilha de latas de filme. Havia pipoca e garrafas de refrigerante, e os soldados assistiram, hipnotizados, enquanto filmes eram projetados num lençol. Um era uma animação colorida (“Ehhh… o que é que há, velhinho?”), um diário de viagem sobre Bali ou Mali ou um desses lugares, e por fim The Maltese Falcon e Yankee Doodle Dandy. Mas o que Rhett se lembrava enquanto ele olhava dentro do pote de biscoitos era a vídeo mostrado entre a animação e o diário de viagem. Era um relato sobre uma maravilha científica criada pela aeronáutica chamada Bomba de Mira Norden. O que ele tinha visto no fundo do pote de biscoitos era exatamente como a o vídeo, só que sem a mira no meio.

Era desorientador, pois ele estava olhando para baixo, embora o pote em suas mãos estivesse virado para cima. O que ele via estava distorcido nas beiradas, mas a imagem central era dolorosamente nítida. Ele podia ver cada árvore entortada e negra na Floresta Longa, queimada pelos invasores de Black John. Ele podia ver somente o topo do Monte de Observação, pois o resto estava obscurecido por nuvens brancas de forza, e ele sabia que tudo embaixo daquela neblina – cada animal, cada ser humano – estava morto. Quando ele moveu um pouco o pote (“Menos que 3 centímetros para a esquerda”, ele disse para Dale), extensões de terreno corriam abaixo, deixando-o nauseado. Quando ele segurou firmemente o pote de novo, ele viu a Estrada da Regência, curva como uma cobra entre o Castelo Black e o Castelo Red, igual ao mapa de sua mãe anos atrás, antes do mundo ter endoidado pela segunda vez no mesmo século.

“Eu vi um cavalo puxando uma caravana coberta, ” ele disse Dale. “A caravana de um vendedor. Era o mais nítido que podia ser. A frente da caravana estava coberta de medalhões para espantar o mal, mas eles não ajudavam, pois, duas monstruosidades brancas saíram violentamente da floresta queimada e atacaram.

“Gobbits, ” Dale respirou.

“Sim. Gobbits. Eles eram do mesmo tamanho que lobos da montanha, mas sem pelo e sem cabeça. As suas formas mudavam constantemente, como se eles fossem feitos de gelatina e não de carne. Eu vi o homem no assento derrubar as rédeas e colocar suas mãos no seu rosto. Como se ele quisesse morrer sem ter que ver os horrores que o matariam. A força sumiu dos meus braços e eu derrubei o pote.

“Ele quebrou? Quebrou, né?”

“Não. Eu acho que teria quebrado se tivesse caído no chão, mas ele caiu em cima dos biscoitos. Aquela montanha de biscoitos. O quarto estava fedendo a biscoitos.

O jogo de bingo tinha terminado, e os habitantes do Asilo Good Life estavam andando vagarosamente em frente a porta aberta do quarto de Rhett em direção à próxima estação, onde seria servido o almoço – macarrão com algum tipo de molho parecia plausível. Estava na hora de terminar a história, mas ele não estava arrependido de ter contado sobre o pote de biscoitos para o garoto. Na melhor das hipóteses, Dale iria ver tudo isso como uma fábula. No pior cenário, ele ia achar que seu bisavô estava delirando. E qual o problema disso? Buchenwald e Dachau o deixaram maluco, e ele nunca voltou ao normal depois disso. Mesmo assim ele tentou o seu melhor de toda forma possível – trabalhando como voluntário cozinhando sopa para a cidade, trabalhando com crianças que vinham de famílias pobres, desestruturadas ou ambas – para melhorar as coisas. Ele ainda achava que coisas desse tipo valiam a pena. O mundo poderia ser um lugar péssimo agora, mas ele pelo menos nunca se juntou ao eterno exército de Black John ou Red Henry. O exército do Tio Sam já tivera o suficiente dele. Quando ele abandonou o exército, ele abandonou de vez.

“No final da guerra, meu pai – o seu tataravô – estava sofrendo de artrites na cintura, joelhos e calcanhar. Subir as escadas toda noite para ir para cama era lento e penoso. Doía somente de vê-lo. E também era perigoso, pois o seu equilíbrio não era confiável. Finalmente eu liguei para o meu irmão e nós dois transformamos o antigo escritório do nosso pai no térreo em um quarto. Então eu tinha o primeiro andar totalmente para mim, e considerando o mar de biscoitos no meu quarto, isso era bom. Demorou três noites até eu conseguir me livrar de todos os biscoitos. Na segunda noite, ele me perguntou o que era aquele cheiro de baunilha, vindo do primeiro andar”

“O que você disse?”

Rhett riu. “Que eu não sentia cheiro de nada, é claro. Ele disse que o lembrava de minha mãe. ‘Ela assava tanto que baunilha era o seu perfume’, ele disse. ”

Dale também não estava muito interessado nisso. “Como você consegui se livrar deles, Rhett? Como você se livrou de tantos biscoitos? ”

“Escondi eles em latas de lixo galvanizadas que eu comprei numa mercearia. Eu fazia isso enquanto meu pai dormia. Eu me sentia um ladrão. Eu coloquei tudo do lado de fora, e na terceira noite eu emprestei uma camionete de onde eu trabalhava e levei eles até um rio. Eu queria jogar tudo rio adentro, mas eu não consegui fazer isso.”

“O que te impediu?”

A memória desses esqueletos andantes, Rhett pensou. Aqueles que nos encararam através da cerca com a neblina rodeando. Como que eu poderia lembrar dessas criaturas famintas, e depois jogar quatro latões cheios de comida dentro d’água?

“Eu sabia que havia pessoas pobres que vinham até o rio para pescar. Naquela época a água era limpa o suficiente para comer o que você tinha pescado. E havia também os desabrigados. Eles viviam em um tipo de um capo chamado Hooverville, embora eu fico feliz em dizer que esse campo sumiu em 1950 aproximadamente.

Bem na época da próxima guerra, ele pensou. Coreia do Norte e Coreia do Sul, Black John e Red Henry.

“Tenho certeza que esse povo…” Ele se perdeu no pensamento.

“Rhett? Tudo bem? ”

“Sim. Só tive um momento de velhice. Eu ia dizer que eu tenho certeza que esse povo fez a festa com os biscoitos. ”

“Aos noventa anos, acho que você tem o direito de ter esses momentos de velhice,” Dale disse, e isso fez Rhett rir. Um bom garoto, rápido nos seus pês. Ele vai perguntar a coisa mais óbvia? Rhett tinha certeza que sim. E Dale perguntou.

9

Sim, ele pensou em jogar o pote azul de cerâmica fora, mas no final ele não conseguiu fazer isso. Contrabandear biscoitos até o rio em tonéis era uma coisa; jogar fora um milagre, um que pertenceu a sua mãe, era outra coisa.

Às vezes – frequentemente – ele imaginava como ela tinha encontrado esse pote. Quando ele perguntou o seu pai, George Alderson simplesmente balançou a sua cabeça. “Aquele velho pote azul de biscoitos? Não tenho ideia. Mas ela costumava a perseguir os bazares da igreja e da cidade, chamava-os de o melhor entretenimento do mundo, e às vezes ela trazia coisas para casa. O pote de biscoitos provavelmente foi um deles. ” Ele levantou seu cachimbo e soltou uma nuvem de Cherry Blend. “Isso foi quando ela ainda estava bem. Antes de toda aquela maluquice com o mapa. ”

Uma semana depois de ele ter se livrado da montanha de biscoitos, Rhett devolveu o pote azul de cerâmica ao sótão. Antes dele ir embora, ele tirou a tampa uma última vez. Estava cheio até o topo, esses cheiros de baunilha e chocolate flutuando. Biscoitos que sempre estavam frescos, uma doçura mascarando uma janela para um mundo negro e destruído, um mundo em guerra. Ele pensou, Se eu estivesse usando o relógio Bulova e colocasse a minha mão dentro, o ponteiro de segundos iria parar. Provavelmente também iria parar se eu colocasse-o contra a superfície azul do pote. Mas o relógio tinha retornado ao Pete.

Ele pensou em pegar mais um biscoito – mais um ato de comunhão – e resistiu a tentação. Ele colocou a tampa e saiu do sótão.

Muitos doces não fazem bem para você.

10

“Finalmente colocamos o pai em um asilo,” Rhett disse. “Era bom, mas não como este lugar. Ele não se importava, pois nessa época ele começou a ficar confuso no andar de cima, embora ele ainda estivesse na casa dos cinquenta. Ele envelheceu de uma vez. Não era justo, mas – nós vendemos a casa – Pete e eu – e dividimos o lucro. Eu me mudei pro outro lado da cidade e comprei a minha casa. Eu trouxe comigo alguns móveis que eu estava apegado… e o pote de biscoitos. Eu também o trouxe, embora eu nunca mais o abri.”

“Nunca?” Era como se o garoto não conseguisse acreditar.

“Nunca. Eu conheci uma garota. Eu me casei. Eu tive filhos – incluindo o seu avô – e eu comprei a oficina em que eu trabalhava. Agora existem Oficinas Alderson por todo o oeste, e algumas no sul também.”

“Wow, e você vive aqui?”

“E melhor do que nada,” Rhett disse, e falava sério. Ele estava contando o final de sua vida em partidas de bingo, e daí? Ele tinha alguns amigos e você tinha que contar o final da sua vida com algo. “Eu vivi com o neto de Pete por um tempo – esse seria o seu tio, ou talvez o seu tio avô, eu não entendo bem dessas coisas – mas quando eu notei que estava virando um empecilho, mudei-me para cá. Algumas pessoas dizem que peixe e visitas fedem depois de três dias, e eu estava com o seu tio Bill bem mais do que isso. Esse é um método indireto para responder a sua pergunta, Dale, mas deixe-me perguntar algo antes. Em quanto você acredita? ”

O garoto ficou quieto por um bom tempo. Rhett respeito seu silêncio. No final, ele disse, “Eu não sei.”

“Uma resposta sensata, mas eu acho que você pode fazer melhor. Se você quiser. As últimas das minhas coisas estão guardadas no sótão do Bill Alderson.” Ele estava fazendo um favor para esse garoto ao mencionar isso? Ou amaldiçoando-o? Bem, de qualquer forma, agora estava dito. “Há alguns ternos tão antigos que eles podem voltar à moda, algumas medalhas que eu ganhei na guerra – uma delas é a Estrela Prateada, acredite ou não – e o pote de biscoitos.”

“Verdade?” A voz de Dale estava macia com espanto, seus olhos arregalados fazendo ele parecer ter seis e não treze anos.

“A não ser que esteja quebrado, sim. Você pode ir ver. Na verdade, eu darei para você – pense como uma herança pré-morte, e eu vou ir logo logo. Coma alguns biscoitos. Eu tenho certeza que eles estão frescos. Só que… tenha cuidado.”

“Eu irei! Eu irei!”

Você não irá, Rhett pensou. Você não conseguirá, do mesmo modo que a minha mãe não conseguiu. Ou eu. Não mais do que o Jack conseguiria, se ele tivesse vivido. No final sempre preferimos o amargo ao doce. É a nossa maldição. Então você vai virar o pote de biscoitos de ponta cabeça, e vai derrubar tudo que está dentro, e olhar dentro de outro mundo. Depois disso…

“Obrigado, Rhett! Obrigado!”

Rhett bateu nos ombros do seu bisneto com uma mão retorcida, e sorriu, e pensou: Depois disso, você estará sozinho.

…………………………………………………

Tradução e Revisão: Luis Guilherme

Publicado originalmente no excelente site stephenking.com.br

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7 comentários em “O Pote de Biscoitos – Clássico (Stephen King)

  1. Swylmar Ferreira
    21 de outubro de 2017

    Sou suspeito para falar de Stephen King já que sou fã desse genio.
    O mestre do suspense.
    Apesar disso me sentir apto a comentar. Simplesmente fantástico.

  2. Fabio Baptista
    22 de setembro de 2017

    Boa construção de personagens, boa narrativa… mas não me conquistou. Achei que foi mais para o lado da fantasia do que do terror.

    Nota: 7,5

    Boa sorte no desafio!

  3. Mirella
    21 de setembro de 2017

    Muito bom fascinante, uma história que queremos ler mais e mais. Parabéns.

  4. Victor O. de Faria
    20 de setembro de 2017

    Impressionante. Falta alguns conectivos na tradução, mas o restante está excelente. Uma atmosfera densa, mais focada nas sensações e sentimentos do que no plot twist em si. Aliás, temos dois. Um jogado do nada, que achei bastante curioso, e o último que conduz a história até o fim, como coadjuvante. Um dia ainda chego lá.

  5. Olisomar Pires
    19 de setembro de 2017

    Excelente. Emoção, suspense, surpresas. Tudo tão limpo e assustador.

  6. Roselaine Hahn
    19 de setembro de 2017

    A melhor frase: “Peixe e visitas fedem depois de três dias”.

  7. Cilas Medi
    19 de setembro de 2017

    Emocionante e espetacular forma de nos deixar intrigado, apreensivos em saber o que irá acontecer e terminar de uma forma magistral, deixando aberto ao critério do leitor.

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Publicado às 19 de setembro de 2017 por em Clássicos e marcado .