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Detox Literário.

Ansiedade – Conto (Regiane Folter)

Ela não precisa de muitas coisas nessa vida. Sentar na cama com seu cobertor cor-de-rosa felpudo, um livro com mais 300 páginas no colo, fones de ouvido na mesinha de cabeceira ao alcance da mão, um ursinho de pelúcia sem um olho aos seus pés. E não se esqueça do notebook ao lado, com suas cinco abas do navegador abertas, Skype à postos para o caso de sua mãe aparecer, lista “Adicionadas Recentemente” no iTunes. Esse é o resumo de uma sexta-feira à noite divertida, para ela. Com poucos itens ela consegue reunir suas maiores paixões: sua família, suas histórias, as músicas que gosta de ouvir no último volume imaginando sua vida contada dentro de um videoclipe.

Algumas pessoas podem achar isso um pouco solitário. E talvez seja mesmo. Talvez essa noite pacata em casa esteja mais de acordo com uma adolescente de 15 anos, espinhas no rosto, uma paixão platônica pelo professor de Química. Mas para ela não. Ela aos 15 anos tinha o mesmo rosto que tem hoje, com algumas pequenas alterações, como o cabelo mais comprido e as borrachinhas coloridas do aparelho em seu sorriso. Seus amores platônicos aos 15 não são os mesmos de hoje, mas continuam tão variados quanto. Desde o galã do último filme que viu até o estranho que se sentou ao seu lado no ônibus. A verdade é que tanto aos 15 quanto aos 20, ela sempre foi uma apaixonada pela ideia do amor. Pela ideia de encontrar pela primeira vez uma pessoa e saber que aquele é o que veio pra ficar, a alma gêmea. Pela ideia de sentir aquela coisa inexplicável que nem quem já sentiu sabe colocar em palavras.

Infelizmente, depois de alguns experimentos malsucedidos, o único sentimento que ela realmente conhece é uma doce amarga frustração – porque, quem diria! Os relacionamentos na vida real, fora das páginas e das telas do cinema, são bem mais complicados. Começando pelo primeiro encontro, passando pelas primeiras palavras, primeiros beijos, até a conclusão de que essas primeiras vezes foram as únicas e ainda bem que acabou por aí. Porque algo sempre está errado, fora de lugar. Ou ele estraga tudo dizendo uma coisa idiota. Ou, ainda pior, ela sente que “sim sim sim, pode ser esse!” e fica tão ansiosa com toda a situação que acaba por afastá-lo. Afinal, “acho que essa garota que fica vermelha tão facilmente e que nunca me olha nos olhos não deve estar interessada”. E fim de papo.

A verdade é que ela não precisa de muito. Não precisa “aproveitar a sua juventude” e “curtir a vida” ou outros clichês. Ela é ambiciosa em um aspecto mais qualitativo. A única coisa que ela realmente precisa pra acalentar seu coração inquieto e aproveitar sua sexta-feira à noite tranquilamente é saber que ele vem. Que. Ele. Vem. Que em algum lugar ele está se preparando, sem saber, para sua entrada triunfal. No backstage, no aguardo da sua deixa. Ela só precisa saber que ele existe de carne e osso. Não precisa ser o mais bonito, nem o mais inteligente. Entre suas habilidades só precisa constar a capacidade de deixá-la sem ar e um sorriso irresistivelmente comprometedor. Pode chegar quando quiser, semana que vem ou daqui a 10 anos. Mas ele precisa existir. Ela precisa ter certeza que ele existe, que ele está em algum lugar, talvez rindo em uma mesa de bar com os amigos, ou estudando para uma prova, ou dormindo já, vai saber o fuso-horário! Se ela soubesse, se ela tivesse essa garantia, se pudesse pular algumas páginas do livro que é a sua vida e ir logo para o capítulo decisivo, ela conheceria um novo sentimento: serenidade. Iria sorrir para si mesma, quem sabe até abrir um vinho, e voltar para as cobertas. Iria esperar, com apenas um toque de impaciência e rebeldia mal contida. Mas iria aguardar o tempo que fosse, porque saberia que toda a espera valeria a pena quando ele chegasse, quando ele finalmente chegasse e destruísse todo vestígio de calma que ela aprendeu a demonstrar. E quando ele enfim estivesse ao seu lado e dissipasse todos os seus medos, ela iria suspirar audivelmente, dizer “até que enfim!” e experimentar um caleidoscópio de sensações contraditórias, algumas boas, outras nem tanto. Adoração, raiva, ciúme, prazer, alegria, contrariedade, plenitude. Beijá-lo, amá-lo, brigar com ele, ter seu coração partido, reconstruí-lo, partir o dele, pedir perdão. Que fosse um amor de um dia louco ou de uma eternidade contada em álbuns de família. Que fosse por uma hora ou por todo o “felizes para sempre”. Ela não precisa de muitas coisas; só precisa saber que ele está a caminho e que, quando tocar a campainha, será a melhor e a pior versão de tudo aquilo que um dia ela já imaginou.

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6 comentários em “Ansiedade – Conto (Regiane Folter)

  1. Gustavo Araujo
    9 de setembro de 2017

    O conto revolve o assunto mais fundamental para qualquer ser humano: o amor. E trata disso como um prêmio, um objeto, um objetivo de vida. Essa espera, essa aflição que toma conta da protagonista é algo crível, doloroso até, verossímil, autêntico. Por isso o conto transpira honestidade. É como se nos tornássemos cúmplices dessa expectativa sem fim, desse algo que talvez se cumpra, ou que talvez não passe de um idealismo, de um sonho irrealizável. E o que é mais interessante, ficamos com a dúvida em saber se realmente essa realização é o que se quer, pois muitas vezes o que nos move à frente é a imagem etérea do impossível; se o conquistamos, a vida perde o sentido. Melhor sonhar e viver desse sonho; ou é melhor vê-lo realizado e ter a razão da busca suprimida, tornando nossa existência vazia? Conto bom é o que traz indagações desconfortáveis. Foi exatamente esse o caso aqui. Parabéns!

  2. Regina Lopes Maciel
    5 de setembro de 2017

    O tema “amor” já é muito explorado e o texto não traz algo de novo (no conteúdo, na abordagem ou na forma) que tenha me despertado a curiosidade de lê-lo. Mas li, e ao contrário do título – ansiedade – até o li de uma forma muitíssimo calma, não senti a ansiedade do personagem. Senti sim, sua insegurança.

  3. Gabriella Macedo
    4 de setembro de 2017

    Muito bom! Como já descreveram uma leitura leve que traz uma ótima reflexão. Adorei o conto

  4. Claudia Roberta Angst
    4 de setembro de 2017

    Gostei muito do seu conto. Primeiro, só passei os olhos, esperando me entediar no primeiro parágrafo (culpa do cansaço dos últimos dias), mas que nada! O seu modo de descrever os desejos e sonhos da menina-moça-mulher-senhora prendeu minha atenção do começo ao fim. Leitura leve,mas sensível, daquelas que esparramam sentimentos e pensamentos que julgávamos tão particulares e invisíveis.
    Parabéns!
    P.S.: Ele veio! 🙂

  5. Eduardo Selga
    4 de setembro de 2017

    O conto é muito bom, literariamente falando. Ele trabalha o velhíssimo e atual conceito de amor romântico, muito estimulado pela escola literária conhecida por Romantismo. Essa maneira de ver o amor é uma idealização que, não raro, atravanca o exercício do amor real.

    A construção textual foi hábil ao conseguir demonstrar paulatinamente a ansiedade, título da narrativa. A ânsia vai crescendo à medida que o texto avança, mas o seu ápice não cai no exagero. Felizmente, pois isso estragaria tudo. Ou, pelo menos, boa parte. É, digamos assim, uma ansiedade equilibrada, e para isso muito contribui o fato de a narrativa ser em terceira pessoa, distanciando o objeto narrado. Se estivesse em primeira pessoa, ocorreria o oposto, e o fato da narradora ser também objeto da narrativa tenderia a provocar um “excesso de ansiedade”.

    No entanto, apesar da distância, o sentimento da personagem é muito bem transmitido.

  6. Tamires de Carvalho
    4 de setembro de 2017

    Que lindo! ❤

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Publicado às 4 de setembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .